Reciclando as adversidades


ADOLESCÊNCIA E VULNERABILIDADES – NA PERSPECTIVA JUNGUIANA



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ADOLESCÊNCIA E VULNERABILIDADES – NA PERSPECTIVA JUNGUIANA

Estamos em fevereiro de 2008,começamos outro ano e, depois de confetes e serpentinas dos nossos carnavais, nos despedimos do período de sonhos e fantasias, de norte a sul do nosso país. E é assim, neste período, que se inicia este estudo...


São diversos barracões visitados, enormes galpões onde muitas pessoas dormem, se alimentam, tomam banho e, por fim, trabalham, armazenando o lixo reciclável, separando, prensando para vendê-lo em breve. Há bebês de colo, crianças, jovens, mulheres, homens e pessoas com mais idade. Todos trabalhando em equipe, com um enorme senso de cooperação, a ponto de causarem inveja a grandes empresas.

Essa é a realidade daqueles que são chamados de catadores de lixo. Acredito que é um universo que tem muito a nos ensinar, com vários fenômenos e pontos para se investigar. Entretanto, para este estudo me voltei ao olhar do adolescente catador de material reciclável. Essa escolha se deu por me identificar com esse público e por me confrontar com o grande número de jovens que atuam nesse mercado de trabalho.

De acordo com os Fundos das Nações Unidas (UNICEF,2004), no Brasil há 5,2 milhões de trabalhadores que têm entre dez a dezessete anos. Outro fato é que o trabalho de catador de material reciclável é um dos mais prevalentes na região urbana.

Mesmo com diversos programas sociais, como o Programa de Erradicação do Trabalho Infantil (PETI, 2001), a redução desses números é relativa. Desde a implementação desse programa, diminuiu em 18% o índice de trabalho para faixa de dez a quinze anos, e 8% para adolescentes de dezesseis a dezessete anos.

Aliado a isso, nesse estudo foi constatado que o maior dano de se trabalhar com pessoas nessa faixa etária é a evasão escolar, determinada por necessidades de trabalho. Cerca de 22,7% desses indivíduos estão fora da escola, concentrando-se o maior percentual naqueles com idade entre dezesseis a dezessete anos. Associando-se a tais dados, esta pesquisa mostra que crianças e adolescentes trabalhadores registram um nível de escolarização inferior e estão com idade mais avançada para a série cursada, em comparação às crianças e adolescentes que não trabalham. O Ministério da Assistência Social (2003) acrescenta o quanto a evasão escolar, somada à repetência, gera nas crianças e adolescentes trabalhadores um sentimento de fracasso, potencializando a vulnerabilidade e a exclusão vivida por eles.

No outro continente, Giegerich (2003) faz uma referência aos jovens que vivem em clima de guerra nos países islâmicos. Para o autor, aquele povo não tem perspectivas para o futuro, nem individuais, nem coletivas e, muito menos, intelectuais. “Suas mentes estão asfixiadas”, diz Giegerich (2003). Entre os jovens inteligentes, não diretamente absorvidos na luta diária, há um sentimento de desesperança e de falta de sentido da existência como tal. Nietzche afirma (apud, Giegerich, 2003): “o que se necessita é um objetivo. O que se quer é uma resposta ao ‘para quê? ’”. Desse modo, esses jovens ficam presos a um anseio na busca por essa finalidade. Já que seus países de origem não proporcionam nem ao menos a possibilidade da visão de um futuro satisfatório. A libido [energia vital] fica indiferenciada na psique coletiva. É como se o jovem islâmico se identificasse com a guerra, não vendo possibilidade de se diferenciar dela muitas vezes.

No outro lado do continente, por sua vez, pode-se pensar que aqui, no Brasil, mesmo sem guerras, os sentimentos parecem ter semelhanças. Isto é, o jovem catador jovem islâmico se identificasse com a guerra, não vendo possibilidade de se diferenciar dela muitas vezes. de material reciclável, vivendo dentro de um barracão, junto a seus familiares, conhecendo só essa realidade, identificando-se com essa função, esse habitat, passa a acreditar que essa é a vida deles, não havendo possibilidade de não ser.

Certa vez, ouvi de uma menina de 13 anos: “nunca poderemos namorar gente de fora da vila. Aqui, “ninguém entra e ninguém sai”. Pode-se pensar que tal entendimento surja de uma identificação com a sombra projetada na periferia, no lixo, o que os impede de viver a realidade com dignidade, como foi colocado anteriormente. O lixo não está a serviço deles, trata-se do contrário: eles estão a serviço da sombra do lixo, não havendo escolhas para ser diferente. É como se o lixo atuasse como um complexo em suas vidas.

Percebe-se esse movimento quando muitos, ao serem questionados em seus sonhos e desejos, a resposta que surgia é “eu não tenho”. A voz era baixa, um sussurro que surgia desconfiado, depois de um silêncio enorme, onde o que se podia ouvir era o barulho das mãos incansáveis na lida com o lixo. Ao pedir opiniões sobre a imagem dos jovens de hoje, mais silêncio. Parece que aquilo não podia pertencer a eles, não cabia a eles responder, pois não tinham o direito a isso. . Dava a impressão de se sentirem resignados, desesperançosos e, principalmente, desacreditados do que a vida podia lhes oferecer. A cada pergunta, em uma conversa informal comigo, eles me devolviam: mas porque você quer saber o que a gente pensa? O que importa? Nesse ponto foi que mais me surpreendi: eles realmente acreditam que o que eles pensam, sonham e querem não tem valor.

São experiências que podem sugerir o quanto estes jovem vivem a exclusão, o quanto se põem à margem de tudo que os cerca. A partir de tudo isso me questionava: “onde está a libido desses sujeitos”? Indiferenciada? Onde está o “eu” desses indivíduos?

Jung (1981) diz que o “eu” é um dado complexo, formado primeiramente por uma percepção geral de nosso corpo e existência e, a seguir, pelos registros de nossa memória. Aliado a isto, Jung (1981) acrescenta que a relação do “eu” com fatos psíquicos forma a consciência. Logo, nada pode se tornar consciente sem ter um ponto de referência – o “eu”. Sendo assim, a consciência que surge da inconsciência, exige durante o desenvolvimento da criança espaços para ela emergir a fim de que se constitua. Ou seja, é na infância que ocorre, pela primeira vez, a experiência das crianças se experimentarem, vivenciando sua temporalidade com seu passado e seu futuro, criando um espaço para que as imagens arquetípicas possam emergir. Mesmo que ainda elas não tenham consciência de si próprias, elas se experienciam com idéias como “eu sou”.

Enfim, percebe-se que, para Jung (1981) todo esse processo de aquisição de consciência e formação do “eu” se constitui como produto da percepção e orientação no mundo externo. Então, baseando-se nestas premissas: Como ficarão esses jovens neste processo? Se o “eu” é constituído pela percepção geral do corpo, da existência e da memória, como poderão formar um “eu” diferente das imagens identificadas com a sombra do lixo? Que corpo eles formam? Que cheiros eles têm? Que existência eles constroem? E que memórias cultivam?

Jung (1981) propõe, referindo-se a prática psicoterapêutica: “é bom nunca esquecer que, em psicologia, o meio pelo qual se julga e observa psique é a própria psique”. Pode-se pensar que essa proposição se amplie para um todo em geral: o meio pela qual se julga, se observa e, talvez, se viva, é a própria psique. Assim, é natural que os adolescentes vivam o lixo e se identifiquem com ele.

Depois de alguns dias acompanhando a mesma rotina de catar o lixo, separar o papel do plástico, da comida, etc.; percebia o quanto esses jovens incorporaram aquilo. Parecem que nem pensavam mesmo, iam sendo levados. Assim, ficava cada vez mais nítida a impressão da alma e dos sonhos estarem diluídos e perdidos naquela realidade. Além de um “eu” perdido, sem a percepção de um corpo, desprovidos de vontades e memórias. O lixo ocupa todos os lugares, não havendo espaço para emergir um “eu” e a consciência. Há um comprometimento com a sombra, como se essa constelar fosse tão natural, que quase se impõe naquela realidade. Também, parece não haver espaço para o Si-mesmo encarnar. A impressão que fica é de que não há disponibilidade de um continente, não há vaso para a alquimia se dar.







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