Reciclando as adversidades


O PRINCÍPIO E O FIM DE TUDO – NOSSO INCONSCIENTE



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O PRINCÍPIO E O FIM DE TUDO – NOSSO INCONSCIENTE

Jung (1999) em 1928, já colocava que nossa humanidade havia chegado ao mais alto grau de consciência possível de ser atingido. E esse processo trazia consequências: a consciência, desenvolvendo-se de forma unilateral, deixou para trás um “resto” de material psíquico. Esse corresponde a uma massa confusa de conteúdos arcaicos e indiferenciados, os quais não se manifestam unicamente nas psicoses e neuroses, mas constituem, também, o “esqueleto no armário” de inúmeras pessoas que não sofrem de patologia propriamente dita. A parte desse material dá-se o nome de inconsciente. Jung (1999) acrescenta:


Já estamos de tal forma habituados a que todo mundo tenha suas dificuldades e problemas, que os aceitamos como uma coisa banal, sem nos preocuparmos em saber no fundo o que significam estas dificuldades. Porque nunca estamos satisfeitos? Por que não agimos com bom senso? Por que não fazemos só o bem e temos de deixar sempre um canto para o mal? Porque ora falamos demais, ora de menos? Por que fazemos bobagens que poderiam ser evitadas se parássemos um pouco para pensar? (Jung, 1999, p.503)
O inconsciente nos pertence, ele está e age em nós, independente de nossa vontade. Em contrapartida, ao negar sua existência, muitas das atividades vitais ficam paralisadas, seja por deveres negligenciados ou por tarefas eternamente proteladas. Assim, uma determinada quantidade de energia, que não tem mais utilização no consciente, reflui para o inconsciente onde vai ativar conteúdos compensatórios, e isso com tal intensidade que começa a exercer uma ação coercitiva sobre o consciente.

Indo além desse inconsciente pessoal, Jung (2007) propõe a força, a complexidade e profundidade do inconsciente, dizendo que “o inconsciente é a natureza, e a natureza nunca mente. Lá está o ouro, a coisa preciosa, o grande valor” (Jung, 2007, p.375). Para Boechat (2008), isso significa que as questões fundamentais e básicas da existência humana não encontram respostas no campo racional, no qual se é regido por um pensamento dirigido ou adaptativo e linear, onde o ego se mostra com seu “pensamento apolíneo” de adaptação à realidade externa (Boechat, 2006, p.3). Trata-se de uma vivência simbólica, através de imagens, que são a linguagem da alma e dos símbolos, que são a chave para compreensão dessas imagens. É um pensamento circular, onírico ou mitológico, operando pelo mecanismo associativo de imagens mitológicas.

Por isso, os mitos representam “estórias simbólicas que se desdobram em imagens significativas, que tratam das verdades dos homens de todos os tempos” (Boechat, 2008, p.21). Logo, os mitos estão presentes na subjetividade, num “interior povoado, como personagens vivos, internos e deuses” (Boechat, 2006, p.6). Esse autor acrescenta a importância de cada pessoa descobrir seu mito pessoal para compreender seu papel no mundo e seu destino.

Portanto, segundo Boechat (2006) essa “força” do inconsciente é a presença do mito, que comprova a existência do inconsciente coletivo, já que fornece uma perspectiva simbólica a partir da qual pode compreender uma realidade (ou um sintoma) com um sentido maior. Nota-se que esse entendimento vai a favor do proposto por Jung (2007), onde este propõe que o inconsciente contém os grandes fatos coletivos dos tempos.


No inconsciente coletivo do indivíduo a própria história se prepara, e quando alguns arquétipos são ativados num certo número de indivíduos, chegando à superfície, encontramo-nos no meio da corrente histórica, como acontece agora com o mundo. A imagem arquetípica que o momento necessita ganha vida e todo o mundo é tomado por ela. É o que vemos hoje. Eu já pressentira esse fato em 1918, quando disse que a ‘besta loura está mexendo em seu sono’ e alguma coisa iria acontecer na Alemanha. Naquela época nenhum psicólogo entendeu o que eu queria dizer, pois não entendiam que nossa psicologia individual não passa de uma pele bem fina, uma pequena onda sobre o oceano de psicologia coletiva. O fator poderoso, aquele que muda nossa vida por completo, que muda a superfície do mundo conhecido, que faz a história, é a psicologia coletiva que se move de acordo com as leis totalmente diferentes daquelas que regem nossa consciência. Os arquétipos são a grande força decisiva e produzem os fatos e não os nossos raciocínios pessoais e a nossa inteligência prática. Antes da Grande Guerra todas as pessoas inteligentes diziam: ‘Não podemos ter mais guerras, o raciocínio humano desenvolveu-se demais para que coisas assim ainda possam acontecer, e nosso comércio e finanças estão tão entrelaçados internacionalmente que uma guerra está completamente fora de cogitação’.E aí fizemos a mais sanguinolenta guerra que já se viu (Jung, 2007, p.371).
Para Jung (2007), é evidente: são “as imagens arquetípicas que decidem o destino do homem” (Jung, 2007, p.372), não tratados teóricos e racionais. Então, ao nos remetermos a este estudo, o qual busca refletir as dimensões arquetípicas de uma amostra de adolescentes catadores de material reciclável, indagam-se quais são essas forças motrizes? Que motivos regem esses jovens? Ou por que motivos eles são movidos? Parecem ser forças maiores do que eles, já que essas agem sobre eles, sem os mesmos terem consciência disso. Jung (2007) refere-se à ação dessa força, onde os acontecimentos escapam a todas as medidas e fogem à capacidade de raciocinar. É uma força de dentro para fora. É a expressão do inconsciente coletivo que está sendo ativado, um arquétipo comum a todos os que vêm à vida.

Associo alguns aspectos da realidade desses adolescentes com a ativação do arquétipo da sombra. Para Whitmont (1998), sombra refere-se à parte da personalidade que foi reprimida em benefício do ego ideal. Não há como eliminar ou negar a sombra, pois todo ego tem uma sombra. Ao adaptar-se para enfrentar o mundo, o ego, inconscientemente, emprega a sombra a fim de executar operações desagradáveis que ele não poderia realizar sem um conflito moral (Stein, 1998). Porém, de acordo com Stein (1998), o conteúdo específico da sombra pode mudar, dependendo das atitudes e do grau de defensividade do ego.

Como tudo o que é inconsciente é projetado, a sombra é encontrada na projeção. Por isso, para Stein (1998), o ego não possui consciência de que, geralmente, projeta a sombra. Para esse autor, quando ocorre uma projeção da sombra, não se é capaz de distinguir fatos de fantasia. Não se consegue ver onde um sujeito começa e onde outro termina. Não se pode vê-la, nem tão pouco ver-se a si.

A ativação da sombra se dá por uma combinação de fatores subjetivos dos complexos (inconsciente pessoal) com experiências arquetípicas (inconsciente coletivo). Na prática, é comum aparecer como uma “personalidade inferior” (Whitmont, 1998, p.144). Mas, sempre pode haver uma “sombra positiva” (Whitmont, 1998, p.144), que surge quando se apresenta uma tendência de identificação com o lado negativo, reprimindo os aspectos positivos.

Whitmont (1998) considera, por fim, que o problema da sombra traz implicações sociais e coletivas. Elas são fortes e raízes do viés da discriminação social, racial e nacional. Toda a minoria carrega a projeção da sombra da maioria. Além disso, a sombra pode ser vivida como o “arquétipo do inimigo” (Whitmont, 1998, p.151). Esse representa fatores arquetípicos das projeções internas de divisão. Jung (2000) acrescenta:
Simplesmente culpamos nosso adversário de todas as nossas próprias faltas que não temos coragem de confessar. Enxergamos todos os defeitos nos outros, criticamos sempre o nosso semelhante...mas não é preciso dizer que o que acontece em grande escala, pode acontecer também em ponto reduzido com cada um de nós (Jung, 2000, p.516).
Dentro desse princípio, Jung (1999) propõe que essa necessidade do ser humano, de não se ver como agente do processo, agindo de forma indiferenciada, passivo de suas escolhas, não vem apenas de fora, já que é uma força imanente, que surge igualmente de dentro, do inconsciente coletivo. É como se fosse um processo de massificação. Todavia, todo o homem apresenta o impulso de se desenvolver e crescer, é da sua natureza. Mas, se ele não reconhece seu compromisso com o crescimento e põe fora de si essa responsabilidade, essa força retorna ao inconsciente, aparecendo projetada via sombra na vida. Tal mecanismo pode ser visto, por exemplo, na Europa. A necessidade do ser humano de ter proteção era suprida externamente, através dos direitos humanos ou de outras entidades que ofereciam tal suprimento, como as igrejas. Contudo, a proteção e garantia só são válidas se não abafarem demais o indivíduo e a sua responsabilidade diante da vida. Isto é, para se conquistar a tão desejada proteção, é necessário que o ser humano também se comprometa em conquistá-la, não esperando só de fora (Jung, 1999, p. 539). Pode-se pensar paralelo a esse entendimento, aqui no Brasil, que enquanto eu não me apropriar do lixo que é meu, dando um lugar em meu universo a ele, precisarei acreditar que quem vai ter que dar conta do lixo que eu produzo são os outros.

Cabe colocar que não se trata de uma apologia de exaltação ao lixo, mas a questão é de nos incluirmos nesse processo que nos pertence. De cultivarmos a responsabilidade que nos é dada para lidar com os nossos lixos, tanto externos, quanto internos, não delegando somente aos outros tal função. Jung (1999) acrescenta:

O homem massificado não tem valor, é uma simples partícula que perdeu sua alma, isto é, o sentido de sua humanidade. O que falta ao nosso mundo é a conexão anímica. Não há associação profissional ou comunidade de interesses econômicos, não há partido político ou Estado que possa jamais substituí-la. (Jung, 1999, p. 539)

Pode-se pensar no quanto essa “conexão anímica” representa este movimento de nos incluirmos no processo, colocarmos nosso lado sujo, sombrio, nosso lixo como um todo.

Para Jung (2007), foi a mentalidade científica que fez perder essa “conexão”. Por causa disso, “nosso mundo se desumanizou” (Jung, 2007, p.585). O homem está isolado no cosmos. Já não está mais envolvido na natureza e perdeu sua participação emocional nos acontecimentos naturais que até então tinham sentido simbólico para ele. “Nossa comunicação direta com a natureza desapareceu no inconsciente, junto com a energia fantástica emocional ligada a ela” (Jung, 2007, p. 585). Então, para essa conexão se re-estabelecer, é necessário transcender a esfera pessoal, ir além, buscar o significado: a conexão do micro no macrocosmo.

É o microcosmo dentro do homem correspondendo ao ‘firmamento’, aquilo que no ser humano é tão vasto e geral como no mundo e nele se encontra de modo natural e não de forma adquirida. Psicologicamente, corresponde ao inconsciente coletivo ... o homem também é o cosmo, mas não em todos os aspectos, pois é homem. Logo, o homem é um microcosmo. (Jung, 1999, p.535)

Entendo que se mostra uma falta de conexão em nossos dias. Nesses jovens, catadores de materiais recicláveis, está o microcosmo, e eles acabam por carregar um peso, muito maior do que o do lixo. Já que eles sustentam uma responsabilidade de lidar com aquilo que a sociedade (que pode ser entendida como o macrocosmo) não quer, não gosta e é sujo. Ao mesmo tempo, pode-se pensar na analogia de o microcosmo representar o mundo interior e o macrocosmo o exterior. Logo, todos os indivíduos acabam carregando dentro de si essas realidades, mesmo que não a reconheçam. Mas, no caso dos jovens catadores, o perigo de eles estarem representando o microcosmo reside no fato de que muitos deles passam a se identificar com essa imagem sombria do lixo.
A existência real de um inimigo sobre o qual se podem descarregar todas as maldades, constitui um inegável alívio para a consciência. Pelo menos, pode-se dizer quem é o demônio causador das perturbações. Pode-se ter a plena certeza de que o causador do desastre se localiza no exterior e não, por exemplo, na própria atitude. (Jung, 2000,p.518)
Para Jung (1999), uma identificação só pode produzir-se quando for baseada em uma semelhança inconsciente, não realizada. Quando o indivíduo fica identificado, atua inconscientemente, não vive o consciente. E assim, ele fica possuído pelo papel intérprete inconsciente de seu complexo. Dessa forma, pode-se pensar o quanto esta amostra, de jovens catadores de materiais recicláveis, está identificada com o lugar sombrio que o lixo ocupa. Essa compreensão se dá, na medida em que eles ocupam um lugar de exclusão, “de sujo”, despertando um desejo da sociedade de querer ficar longe, de querer se livrar. Assim, esses jovens acabam se identificando com esses papeis, de forma inconsciente. Isso pode ser visto quando a maioria deles se posiciona de forma passiva na vida, sem sonhos, perspectivas, desejos, entre outras necessidades vitais do ser humano. Ou quando atuam na sombra, seja nas drogas, nos comportamentos agressivos e destrutivos para si. A impressão que esta amostra transmite para quem convive com eles é a postura de estarem à margem da vida, do momento que estão vivendo e do mundo que os cerca. Jung (2000) coloca como consequência desse funcionamento um represamento da libido, que torna conscientes as projeções desfavoráveis. O sujeito acaba assumindo as perversidades que colocam nele, vivendo-as de acordo com elas.

Todavia, é no inconsciente que estão guardadas outras imagens e possibilidades – outro lado da natureza. Mesmo que pareça estar diluído no lixo ou em uma realidade coletiva, o “ouro está lá” (Jung, 2007, p.375). E somente através do contato com essas imagens guardadas é que se poderá resgatar o tesouro perdido. Para Stein (1998), isso representa a possibilidade de tornar conscientes e integrados aspectos da sombra, de elementos negligenciados, o que faz o ser humano tornar-se uma pessoa muito diferente do indivíduo comum. Trata-se, de acordo com Edinger (1995), de estabelecer outra relação do eixo ego-Self.

No começo, quando esses jovens estão identificados com a sombra que lhes é projetada, eles encontram-se indiferenciados, no estágio urubórico, no qual o ego não existe. O ego e o Si-mesmo são um só. Na medida em que ocorre o processo de conscientização, isto é, o contato com outras imagens e possibilidades, acontece a diferenciação, a discriminação de elementos. Assim, é possível estabelecer um diálogo entre estas instâncias: ego- Si-mesmo favorecendo o desenvolvimento do indivíduo. Portanto, lidar com a tensão ego-inconsciente/sombra, buscando outros símbolos que gerem um sentido maior para viver dignamente, é uma realidade que aponta um caminho.

Assim foi que surgiu este trabalho: calcado nessas premissas, movido por essas emoções, desejos e esperanças. Com o propósito de buscar alternativas de entendimento, contemplando um campo além daquilo que se vê, percebeu-se a necessidade de aprofundar o tema, chegando a algumas imagens arquetípicas que cercam esses indivíduos, podendo ser útil para o encontro com o Si-mesmo.

Portanto, através da abordagem junguiana, este estudo procura levantar uma possível compreensão de algumas imagens arquetípicas vivenciadas por esta amostra: associando a formação da construção do “eu” com a amostra de adolescentes catadores de material reciclável de Curitiba e região, conhecendo o lugar do lixo na vida desses indivíduos, a relação com a sociedade e, por fim, explorando o mito do renascimento, através da expressão da resiliência nas vidas desses indivíduos.




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