Quando Nietzsche chorou



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Referencia:

YALOM, Irvin D. Quando Nietzsche chorou. 14. ed. Rio de Janeiro: Ediouro, 2005. 407 p. ISBN 8500007958.

Quando Nietzsche chorou

14ª Edição

Tradução de Ivo KORYTOWSKI

Do original:

When Nietzsche wept

Copyright © 1992 by Irvin D. Yalom

Published by Basic Books, a division of HarperCollins Publishers, mc.

[Edição original: ISBN 0-06-097550-4]

1995, Ediouro S.A.

Coordenação editorial: Sheila Kaplan

Preparação de originais: Maria José Sant’Anna

Copidesque: Ediouro

Revisão lipográfica: Eliana Rinaldi

Capa e projeto gráfico: Minam Lerner

Editoração eletrônica: DTPhoenix Editorial

Gerência de PC’P: Luciene Baptista

Produção editorial e gráfica: Jaquelinc Lavôr

Assistente de produção: Gilmar Mirândola

CIP-Brasil. Catalogação-na-fonte

Sindicato Nacional dos Editores de Livros, RJ

Yalom, Irvin D., 1931-

Quando Nietzsche chorou / Irvin D. Yalom; tradução de Ivo Korytowski. — Rio de Janeiro: Ediouro, 2005

Tradução de: When Nietzsche wept

ISBN 85-00-00795-8

1. Ficção norte-americana. 1. Título.

CDD -813


CDU - 820(73)-3

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Ao círculo de amigos que me ajudaram no correr dos anos:

Mort, Jay, Herb, David,

Helen, John, Mary, Saul, Cathy, Larry,

Carol, Rollo, Harvey, Ruthellen, Stina,

Herant, Bea, Marianne, Bob, Pat.

À minha irmã, JEAN

e à minha melhor amiga, MARILYN.

Alguns não conseguem afrouxar suas próprias cadeias e, não obstante, conseguem libertar seus amigos.

Você tem que estar preparado para se queimar em sua própria chama: como se renovar sem primeiro se tornar cinzas?

— Assim falou Zaratustra

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Capítulo 1

O carrilhão de San Salvatore invadiu o devaneio de Josef Breuer. Puxou o pesado relógio de ouro do bolso do colete. Nove horas. Novamente, leu o pequeno cartão de borda prateada recebido no dia anterior.

21 de outubro de 1882

Doutor Breuer,

Preciso vê-lo para um assunto da maior urgência. O futuro da filosofia alemã está em jogo. Encontre-me amanhã cedo às nove horas no Café Sorrento.

Lou Salomé

Um bilhete impertinente! Havia anos ninguém o abordava com tanta sem-cerimônia. Ele não conhecia nenhuma Lou Salomé. Nenhum remetente no envelope. Nenhuma forma de informar a essa pessoa que nove horas era inconveniente, que a Sra. Breuer não gostaria de tomar o café da manhã sozinha, que o Dr. Breuer estava de férias e que não estava interessado em “assuntos urgentes” - aliás, o Dr. Breuer viera a Veneza precisamente para se livrar de assuntos urgentes.

Não obstante, lá estava ele no Café Sorrento às nove horas em ponto, esquadrinhando os rostos ao seu redor e se perguntando qual deles poderia ser a impertinente Lou Salomé.

— Outro café, senhor?

Breuer anuiu com a cabeça para o garçom, um rapaz de treze ou quatorze anos e de cabelos pretos, lisos e úmidos, penteados para trás.

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Quanto tempo durara seu devaneio? Consultou novamente o relógio. Outros dez minutos de vida desperdiçados. E desperdiçados em quê? Como de hábito, devaneara sobre Bertha, a bela Bertha, sua paciente nos últimos dois anos. Estava recordando sua voz provocante: “Doutor Breuer, por que tem tanto medo de mim?” Lembrou suas palavras quando lhe dissera que deixaria de ser seu médico: “Aguardarei. Você sempre será o único homem em minha vida.”

Ele se censurou: “Pelo amor de Deus, pare! Pare de pensar! Abra os olhos! Veja! Deixe o mundo entrar!”

Breuer ergueu sua xícara, inalando o aroma do saboroso café junto com profundas inspirações do frio ar veneziano do mês de outubro. Volveu a cabeça e olhou ao redor. As outras mesas do Café Sorrento estavam repletas de homens e mulheres que faziam o desjejum — na maioria, turistas, e quase todos de meia-idade. Muitos seguravam o jornal com uma das mãos e a xícara de café com a outra. Para além das mesas, viam-se nuvens de pombos azul-cinza que esvoaçavam e mergulhavam. As águas paradas do Grand Canal, brilhando com os reflexos dos grandes palácios alinhados nas suas margens, eram perturbadas somente pela esteira ondulante de uma gôndola costeira. As outras embarcações ainda dormiam, amarradas em estacas tortas espalhadas aqui e ali ao longo do canal, qual lanças espetadas ao acaso por alguma mão gigante.

— É isso mesmo: olhe ao redor, seu tolo! — Breuer proferiu de si para consigo. — As pessoas vêm do mundo inteiro para admirar Veneza; pessoas que se recusam a morrer sem serem abençoadas por esta beleza.

Quanto da vida eu perdi — pensou — simplesmente por deixar de olhar? Ou por olhar e não ver? No dia anterior, fizera uma caminhada solitária pela ilha de Murano e, depois de uma hora, não vira nada, não registrara nada. Nenhuma imagem se transferira de sua retina para o córtex. Toda a sua atenção se consumira em pensamentos sobre Bertha: o sorriso

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encantador, os olhos adoráveis, a sensação de seu corpo quente e confiante e sua respiração acelerada quando ele a examinava ou massageava. Tais cenas tinham poder — uma vida própria; sempre que baixava a guarda, elas lhe invadiam a mente e usurpavam sua imaginação. Será esta a minha sina para sempre? — se perguntou. Estarei destinado a ser um simples palco no qual as memórias de Bertha representam eternamente seu drama?

Alguém se levantou na mesa ao lado. O ruído agudo da cadeira metálica contra o tijolo o despertou e, mais uma vez, ele procurou Lou Salomé.

Ali estava ela! A mulher descendo a Riva del Carbon e adentrando o café. Somente ela poderia ter escrito aquela nota — aquela bela mulher, alta e esguia, envolta num casaco de peles, marchando altivamente em direção a ele, agora, através do emaranhado de mesas lotadas. Ao se aproximar, Breuer notou que ela era jovem, talvez até mais jovem do que Bertha, possivelmente uma colegial. Mas aquela presença impositiva — extraordinária! Poderia levá-la longe!

Lou Salomé prosseguiu até ele sem demonstrar qualquer hesitação. Como poderia estar tão certa de sua pessoa? A mão esquerda de Breuer rapidamente golpeou as cerdas ruivas de sua barba para limpá-la das migalhas de pãozinho. Sua mão direita puxou a parte lateral da jaqueta preta que vestia para que não ficasse erguida em torno do pescoço. Ao chegar a poucos metros de distância, a jovem deteve-se por um instante e fitou-o ousada- mente nos olhos.

De súbito, a mente de Breuer cessou de tagarelar. Agora, olhar não exigia concentração. Agora, retina e córtex cooperavam perfeitamente, permitindo que a imagem de Lou Salomé penetrasse livre em sua mente. Era uma mulher de extraordinária beleza: testa altiva, queixo forte e bem esculpido, olhos azuis brilhantes, lábios cheios e sensuais, e seus cabelos louro - prateados, negligentemente penteados, se reuniam em um coque alto, expondo-lhe as orelhas e o pescoço longo e gracioso. Ele notou com especial

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prazer as mechas de cabelo que escapavam do coque e descaíam arrojadamente em todas as direções.

Mais três passos, e ela atingiu sua mesa.

— Doutor Breuer, sou Lou Salomé. Posso? — perguntou, apontando a cadeira vazia. Sentou-se tão prontamente que Breuer não teve tempo de cumprimentá-la como devia: levantar-se, curvar-se, beijar-lhe as mãos e puxar a cadeira para ela.

— Garçom, garçom! — Breuer estalou os dedos animadamente. — Um café para a dama. Café latte? — Olhou em direção à senhorita Salomé. Ela anuiu com a cabeça e, a despeito do frio matinal, tirou o casaco de peles.

— Sim, um café latte.

Breuer e sua companheira de café ficaram sentados em silêncio por um momento. Depois, Lou Salomé fitou-o diretamente nos olhos e começou:

— Tenho um amigo em desespero. Temo que venha a se matar num futuro muito próximo. Seria uma grande perda para mim e uma grande tragédia pessoal, pois eu carregaria certa responsabilidade. Apesar disso, eu poderia suportar e superar esse fato. Mas — ela se inclinou em sua direção, falando mais suavemente — uma tal perda poderia se estender bem além de mim: a morte desse homem teria conseqüências imensas para o senhor, para a cultura européia, para todos nós. Acredite em mim.

Breuer tencionou dizer “A senhorita está decerto exagerando”, mas não conseguiu proferir as palavras. O que em qualquer outra mulher jovem se afiguraria hipérbole adolescente, parecia diferente aqui, algo a ser levado a sério. A sinceridade dela, seu fluxo de convicção eram irresistíveis.

— Quem é esse homem, seu amigo? Eu o conheço?

— Ainda não! Mas dentro de algum tempo, todos o conheceremos. Chama-se Friedrich Nietzsche. Talvez esta carta de Richard Wagner para o professor Nietzsche sirva para apresentá-lo. — Ela retirou uma carta da bolsa, desdobrou-a e a ofereceu a Breuer. — Devo primeiro dizer que Nietzsche não sabe que estou aqui nem que possuo esta carta.

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A última frase da senhorita Salomé provocou uma pausa em Breuer. “Devo ler uma tal carta?” — pensou. “Esse professor Nietzsche não sabe que ela a está mostrando para mim — ou mesmo que está de posse dela! Como a obteve? Pegou-a emprestada? Surrupiou-a?”

Breuer se orgulhava de muitos de seus atributos. Ele era leal e generoso. A engenhosidade de seus diagnósticos virara lenda: em Viena, era o médico pessoal de grandes cientistas, artistas e filósofos como Brahms, Brücke e Brentano. Aos quarenta, era conhecido em toda a Europa e cidadãos distintos de todo o Ocidente viajavam grandes distâncias para se consultarem com ele. Contudo, acima de qualquer coisa, orgulhava-se da integridade

— jamais em sua vida cometera um ato desonroso. A não ser, talvez, que fosse considerado responsável por seus pensamentos carnais de Bertha, pensamentos que de direito deveriam ser dirigidos à sua esposa Mathilde.

Assim, hesitou em apanhar a carta da mão estendida de Lou Salomé. Mas por um breve lapso. Outro olhar para dentro daqueles cristalinos olhos azuis e a abriu. Estava datada de 10 de janeiro de 1882 e começava assim:

“Meu amigo Friedrich”; vários parágrafos tinham sido circundados.

Vós acabastes de dar ao mundo uma obra ímpar. Vosso livro é caracterizado por uma convicção tão consumada, que pressagia a mais profunda originalidade. De que outra forma poderíamos, minha esposa e eu, ter realizado o desejo mais ardente de nossas vidas, ou seja, que algum dia algo vindo de fora possuísse plenamente nossos corações e nossas almas! Cada um de nós leu vosso livro duas vezes — primeiro sozinho, de dia, e depois em voz alta, de noite. Disputamos com razão o único exemplar e lamentamos que o prometido segundo exemplar ainda não tenha chegado.

Vós estais doente! Vós também estais desanimado? Em caso positivo, gostaria tanto de fazer algo para afastar vosso desalento! Como devo começar? Nada mais posso fazer que não esbanjar meus elogios irrestritos a vós.

Aceitai-os ao menos com um espírito amigável, ainda que vos deixe insatisfeito.

Saudações sinceras de vosso,

Richard Wagner

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Richard Wagner! Não obstante toda sua urbanidade vienense, toda sua familiaridade e facilidade com os grandes homens da época, Breuer ficou aturdido. Uma carta tal como aquela escrita pelo próprio punho do mestre! Mas rapidamente recuperou sua serenidade.

— Muito interessante, minha cara Frãulein, mas agora, por favor, diga- me precisamente o que posso fazer pela senhorita.

Inclinando-se outra vez para a frente, Lou Salomé repousou de leve sua mão enluvada sobre a mão de Breuer:

— Nietzsche está doente, muito doente. Ele precisa da sua ajuda.

— Mas qual é a natureza da doença dele? Quais são os seus sintomas?

— Breuer, perturbado pelo toque da mão da jovem, ficou satisfeito por navegar em águas familiares.

— Dores de cabeça. Em primeiro lugar, dores de cabeça lancinantes. E surtos constantes de náusea. E uma ameaça de cegueira. Sua visão vem gradualmente se deteriorando. E problemas estomacais: às vezes, não consegue comer durante dias. E insônia: nenhum remédio consegue fazê-lo dormir, de modo que toma doses perigosas de morfina. E tontura: às vezes, fica mareado em terra firme vários dias de uma vez.

Longas listas de sintomas não eram novidade nem estímulo para Breuer, que normalmente examinava de 25 a 30 pacientes por dia e viera a Veneza precisamente para descansar dessa lida. Contudo, tamanha era a veemência de Lou Salomé, que se sentiu compelido a prestar plena atenção.

— A resposta à sua pergunta, minha cara dama, é sim, é claro que examinarei seu amigo. Quanto a isso, não há dúvida. Afinal, sou um médico. Mas, por favor, permita-me formular uma pergunta: por que a senhorita e seu amigo não vêm a mim por um caminho mais direto? Por que não escrevem simplesmente para meu consultório em Viena e solicitam uma consulta? — Com isso, Breuer olhou ao redor à procura do garçom para trazer a conta e pensou quão satisfeita Mathilde ficaria com seu retorno tão rápido ao hotel.

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Mas não era fácil se livrar dessa mulher ousada:

— Doutor Breuer, mais uns minutinhos, por favor. Não estou exagerando a gravidade do estado de Nietzsche, a profundidade de seu desespero.

— Não duvido disso. Mas volto a perguntar, Frãuleín Salomé, por que o senhor Nietzsche não se consulta comigo em meu consultório em Viena? Ou não visita um médico na Itália? Onde ele mora? Gostaria que eu indicasse um médico na própria cidade dele? E por que eu? Aliás, como a senhorita soube que eu estava em Veneza? Ou que sou um aficionado da ópera e que admiro Wagner?

Lou Salomé não se abalou e sorriu quando Breuer começou a crivá-la de perguntas, seu sorriso tornando-se malicioso à medida que a fuzilaria prosseguia.

— Frãuleín, está sorrindo como se tivesse um segredo. Acho que é uma jovem dama que adora mistérios!

— Tantas perguntas, doutor Breuer. É notável; conversamos por apenas poucos minutos e, não obstante, há tantas perguntas intrigantes. Certamente, isso é um bom presságio de conversas futuras. Deixe que lhe conte mais sobre nosso paciente.

Nosso paciente! Enquanto Breuer se espantava novamente com sua audácia, Lou Salomé continuou:

— Nietzsche exauriu os recursos médicos da Alemanha, Suíça e Itália. Nenhum médico conseguiu compreender sua doença ou aliviar seus sintomas. Nos últimos 24 meses, segundo me contou, consultou-se com 24 dos melhores médicos da Europa. Ele abriu mão de seu lar, abandonou seus amigos, renunciou à sua cátedra na universidade. Ele se tornou um andarilho em busca de um clima tolerável, à procura de um ou dois dias de alívio de sua dor.

A jovem mulher parou, erguendo a xícara para bebericar enquanto mantinha o olhar fixo em Breuer.

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— Frãulein, em minha prática como clínico, vejo com freqüência pacientes em estados incomuns ou intrigantes. Porém, permita que fale honestamente: não disponho de milagres. Numa situação como essa, de cegueira, cefaléias, vertigem, gastrite, fraqueza, insônia, em que vários excelentes médicos foram consultados e deixaram a desejar, é pouco provável que eu consiga fazer mais do que me tornar seu vigésimo quinto excelente médico em tantos meses.

Breuer se reclinou na cadeira, apanhou um charuto e o acendeu. Soprou uma fumaça fina e azulada, esperou até se dissipar e, depois, continuou:

— Novamente, porém, ofereço-me para examinar o professor Nietzsche em meu consultório. Entretanto, é bem provável que a causa e a cura de uma doença tão refratária como a dele ultrapassem o alcance da ciência médica de 1882. Seu amigo pode ter nascido uma geração cedo demais.

— Nascido cedo demais! — Ela riu. — Uma observação presciente, doutor Breuer. Quantas vezes ouvi Nietzsche proferir exatamente estas palavras! Agora, tenho certeza de que o senhor e’ o médico certo para ele.

Apesar de sua presteza em partir e da visão recorrente de Mathilde já vestida e andando ansiosa pelo quarto do hotel, Breuer imediatamente expressou interesse:

— Como assim?

— Ele muitas vezes se denomina um “filósofo póstumo”: um filósofo para quem o mundo ainda não está preparado. De fato, o novo livro que está planejando começa com este tema: um profeta, Zaratustra, repleto de sabedoria, decide iluminar as pessoas. Mas ninguém compreende suas palavras. Eles não estão preparados para o profeta que, percebendo ter vindo cedo demais, retorna à sua solidão.

— Frãulein, suas palavras me intrigam: sou apaixonado por filosofia. Porém, meu tempo hoje é limitado e estou esperando uma resposta direta à minha pergunta: por que seu amigo não me consulta em Viena.

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— Doutor Breuer — Lou Salomé fitou-o diretamente nos olhos —, desculpe minha imprecisão. Talvez esteja sendo demasiado indireta. Sempre gostei de me deter na presença de grandes mentes: talvez porque precise de modelos para meu próprio desenvolvimento, talvez porque só goste de colecioná-las. Mas sei que é um privilégio conversar com um homem da profundidade e do horizonte do senhor.

Breuer sentiu que enrubescia. Não mais suportava o olhar dela e desviou a visão para longe, enquanto ela continuava:

— O que quero dizer é que talvez seja culpada de ser indireta simplesmente para prolongar nosso tempo juntos.

— Mais café, senhorita? — Breuer fez sinal para o garçom. — E mais desses pãezinhos engraçados. Já refletiu sobre a diferença entre a panificação alemã e italiana? Permita-me descrever minha teoria sobre a concordância entre o pão e a personalidade nacional.

Assim, Breuer não voltou às pressas para Mathilde. Enquanto tomava um desjejum descansado com Lou Salomé, refletiu sobre a ironia de sua situação. Que estranho ter vindo a Veneza para desfazer o dano causado por uma mulher bonita e, agora, estar sentado tête-à -tête com outra ainda mais bonita! Ele também observou que, pela primeira vez em meses, sua mente estava livre da obsessão por Bertha.

Talvez — ponderou — exista afinal uma esperança para mim. Quem sabe possa me valer desta mulher para expulsar Bertha do palco de minha mente. Terei descoberto um equivalente psicológico da terapia da substituição farmacológica? Uma droga benigna como a valeriana pode substituir uma mais perigosa, como a morfina. Similarmente, talvez Lou Salomé possa substituir Bertha — um grande progresso! Afinal, esta mulher é mais sofisticada, mais realizada. Bertha é — como dizer? — pré-sexual, uma mulher irrealizada, uma criança se debatendo desajeitadamente no corpo de uma mulher.

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Contudo, Breuer sabia que era precisamente a inocência pré-sexual de Bertha que o atraía para ela. Ambas as mulheres o excitavam: pensar nelas provocou uma vibração quente nas partes pudendas. Por outro lado, ambas as mulheres o amedrontavam: ambas perigosas, mas de formas diferentes. Essa Lou Salomé o assustava devido a seu poder — pelo que ela poderia fazer a ele. Bertha o assustava devido à sua submissão — pelo que ele poderia fazer a ela. Tremeu ao pensar nos riscos que correra com Bertha — quão próximo chegara de violar a regra mais fundamental da ética médica, de arruinar a si próprio, a família, sua vida inteira.

Entretanto, estava tão profundamente envolvido na conversa e tão inteiramente encantado com sua jovem companheira de desjejum, que enfim ela — e não ele — retornou à doença do amigo, especificamente ao comentário de Breuer sobre milagres médicos.

— Tenho 21 anos, doutor Breuer, e abandonei toda crença em milagres. Percebo que o fracasso de 24 excelentes médicos só pode significar que atingimos os limites do conhecimento médico contemporâneo. Porém, não me interprete mal! Não tenho ilusão de que o senhor vá curar a doença de Nietzsche. Não foi por isso que procurei sua ajuda.

Breuer pôs a xícara de café de volta na mesa e limpou o bigode e a barba com o guardanapo:

— Perdoe-me, Frãulein, agora fiquei realmente confuso. A senhorita não começou dizendo que desejava minha ajuda porque seu amigo está muito doente?

— Não, doutor Breuer, eu disse que tinha um amigo que está desesperado, que corre grande perigo de se suicidar. É o desespero do professor

Nietzsche, e não seu organismo, que peço para curar.

— Mas senhorita, se seu amigo está desesperado com a saúde e não disponho de uma terapia para ele, o que fazer? Não posso ajudar uma mente doente.

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Breuer interpretou a anuência de Lou Salomé com a cabeça como um reconhecimento das palavras do médico de Macbeth* e prosseguiu:

— Frãulein Salomé, não existe remédio para o desespero, médico para a alma. Não há muito que possa fazer, a não ser recomendar um dos excelentes balneários terapêuticos na Áustria ou Itália. Ou talvez uma conversa com um sacerdote ou algum outro conselheiro religioso, um membro da família.., quem sabe, um bom amigo?

— Doutor Breuer, sei que é capaz de fazer mais do que isso. Tenho um espião. Meu irmão Jenia é um estudante de medicina que freqüentou sua clínica em Viena no início deste ano.

Jenia Salomé! Breuer tentou recordar o nome. Havia tantos estudantes.

— Através dele, soube de seu amor por Wagner, que tiraria férias esta semana no Hotel Amalfi em Veneza e, também, como reconhecê-lo. Porém, mais importante de tudo, através dele soube que o senhor é realmente um médico para o desespero. No último verão, ele assistiu a uma conferência informal em que o senhor descreveu seu tratamento de uma jovem mulher chamada Anna O.; uma mulher que estava desesperada e que tratou com uma nova técnica chamada “terapia através da conversa”, uma cura baseada na razão, no deciframento de associações mentais emaranhadas. Jenia contou que o senhor é o único médico da Europa capaz de oferecer um tratamento realmente psicológico.

Anna O.! Breuer sobressaltou-se com o nome e derramou o café ao trazer a xícara até os lábios. Secou a mão com o guardanapo, esperando que Frdulein Salomé não tivesse observado o acidente. Anna O., Anna O.!

Incrível! Para onde quer que se volvesse, deparava com Anna O. — seu codinome para Bertha Pappenheirn. Extremamente discreto, Breuer já-

Nota de rodapé:

* Na tragédia Macbeth, de William Shakespeare, Lady Macbeth, oprimida pelos crimes que ajudou o marido a cometer, sofre de terríveis visões, O médico chamado para tratá-la confessa sua impotência: “Essa doença está além de meus conhecimentos.” (5º Ato, Cena 1) (N. do T.)

Fim da nota de rodapé.

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mais citava os nomes reais dos pacientes ao discutir seus casos com os alunos. Em seu lugar, criava um pseudônimo retrocedendo as iniciais em uma letra do alfabeto: dessarte, B.P de Bertha Pappenheim tornou-se A.O., ou Anna O.

— Jenia ficou tremendamente impressionado com o senhor, doutor Breuer. Ao descrever sua conferência e sua cura de Anna O., declarou-se bem-aventurado por estar à luz de um gênio. Vamos e venhamos, Jenia não é um rapaz impressionável. Jamais o ouvi falar assim antes. Resolvi, então, que deveria um dia encontrá-lo, conhecê-lo, talvez estudar com o senhor. Mas meu “um dia” se tornou mais imediato com a piora do estado de Nietzsche nos últimos dois meses.

Breuer olhou ao redor. Muitos dos outros fregueses haviam terminado e saído, mas ei-lo ali sentado, totalmente distante de Bertha, falando com uma mulher impressionante que ela trouxera para sua vida. Um calafrio o percorreu. Jamais encontraria um refúgio de Bertha?

— Frãulein — Breuer pigarreou para limpar a garganta e se forçou a prosseguir —, o caso descrito por seu irmão foi, simplesmente, um caso individual em que apliquei uma técnica altamente experimental. Não há razão para acreditar que essa técnica específica vá ajudar seu amigo. De fato, existem várias razões para acreditar que não ajudará.

— Como assim, doutor Breuer?

— Temo que o tempo não permita uma resposta prolongada. Por ora, observarei simplesmente que Anna O. e seu amigo sofrem de doenças assaz diferentes. Ela foi acometida de histeria e sofreu de certos sintomas de invalidez, conforme seu irmão deve ter-lhe contado. Minha abordagem consistiu em remover sistematicamente cada sintoma, ajudando minha paciente a rememorar, com ajuda do mesmerismo, o trauma psíquico esquecido no qual se originou. Uma vez descoberta a fonte específica, o sintoma desaparecia.

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— Suponha, doutor Breuer, que consideremos o desespero como um sintoma, O senhor não poderia tratá-lo da mesma forma?

— O desespero não é um sintoma médico, senhorita; é vago, impreciso. Cada um dos sintomas de Anna O. envolvia uma parte delimitada do corpo; cada um era causado pela descarga da excitação intracerebral através de alguma passagem neural. Pelo que a senhorita me descreveu, o desespero de seu amigo é inteiramente ideacional. Não existe um tratamento para tal estado.

Pela primeira vez, Lou Salomé hesitou:

— Mas, doutor Breuer — novamente pôs sua mão sobre a dele —, antes de tratar de Anna O., não havia tratamento psicológico para a histeria. Pelo que eu entendo, os médicos recorriam apenas a banhos ou ao terrível tratamento com choques elétricos. Estou convencida de que o senhor, talvez apenas o senhor, poderá descobrir um tal tratamento novo para Nietzsche.

Subitamente, Breuer observou a hora. Ele tinha que retornar para junto de Mathilde.

— Frãulein, farei todo o possível para ajudar seu amigo. Por favor, aceite meu cartão. Verei seu amigo em Viena.

Ela mirou o cartão apenas brevemente, antes de guardá-lo na bolsa.

— Doutor Breuer, as coisas não são tão simples assim. Nietzsche não é, por assim dizer, um paciente cooperador. Na verdade, ele nem sabe que estou conversando com o senhor. Trata-se de uma pessoa extremamente reservada e de um homem orgulhoso. Ele jamais conseguirá reconhecer a necessidade de ajuda.

— Mas a senhorita disse que ele fala abertamente de suicídio.

— Em toda conversa, em toda carta. Mas ele não pede ajuda. Caso viesse a saber de nossa conversa, jamais me perdoaria, e estou certa de que se recusaria a consultar o senhor. Ainda que, de alguma forma, eu o per-

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suadisse, ele limitaria a consulta aos problemas corporais. Nem em mil anos ele viria a lhe pedir para aliviar seu desespero. Ele sustenta opiniões rígidas sobre fraqueza e poder.

Breuer começou a se sentir frustrado e impaciente:

— Então, Frãulein, o drama se torna mais complexo. A senhorita quer que eu me encontre com certo professor Nietzsche, que considera um dos grandes filósofos de nossa época, a fim de persuadi-lo de que a vida — ou ao menos a vida dele — vale a pena ser vivida. Além do mais, devo consegui-lo sem que nosso filósofo saiba disso.

Lou Salomé assentiu com a cabeça, exalou profundamente e se sentou novamente na cadeira.

— Como é possível? — continuou. — Realizar simplesmente a primeira meta, curar o desespero, ultrapassa o alcance da ciência médica. Mas esta segunda condição, de que o paciente seja tratado sub-repticiamente, transfere nosso empreendimento para o reino do fantástico. Existem outros obstáculos ainda não revelados? Quem sabe o professor Nietzsche fale apenas sânscrito ou se recuse a deixar seu eremitério no Tibete? — Breuer se sentiu atordoado mas, observando o ar de espanto de Lou Salomé, rapidamente se controlou. — Seriamente, Frãulein Salomé, como poderei fazê-lo?

—Agora esr vendo, doutor Breuer! Agora está vendo por que procurei o senhor em vez de um homem de menor envergadura!

Os sinos de San Salvatore soaram a hora. Dez horas. Mathilde devia estar ansiosa. Ah! Ficar se preocupando com ela... Breuer acenou novamente para o garçom. Enquanto esperavam a conta, Lou Salomé fez um convite incomum:

— Doutor Breuer, aceitaria meu convite para o desjejum amanhã? Conforme já mencionei, tenho certa responsabilidade pessoal pelo desespero do professor Níerzsche. Há muito mais que gostaria de lhe contar

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— Amanhã, infelizmente, será impossível. Não é todo dia que uma mulher adorável me convida para o desjejum, Frãulein, mas não posso aceitar. A natureza de minha viagem para cá com minha mulher desaconselha que a deixe novamente.

— Permita então sugerir outro plano. Prometi ao meu irmão visitá-lo este mês. Aliás, até há pouco tempo, eu planejara viajar a Viena com o professor Nietzsche. Permita que, quando eu estiver lá, forneça-lhe mais informações. Enquanto isso, tentarei persuadir o professor Nietzsche a consultar o senhor sobre a deterioração de sua saúde física.

Caminharam juntos para fora do café. Poucos fregueses restavam, enquanto os garçons tiravam as mesas. Breuer ia partir quando Lou Salomé lhe tomou o braço e pôs-se a andar junto dele.

— Doutor Breuer, essa hora foi curta demais. Estou ávida por mais um pouco de seu tempo. Posso caminhar com o senhor de volta ao hotel?

O convite impressionou Breuer pela ousadia, masculinidade; entretanto, dos lábios dela, soava como normal, não afetado — a forma natural como as pessoas deveriam conversar e viver. Se uma mulher aprecia a companhia de um homem, por que não lhe dar o braço e pedir para andar com ele? Contudo, que outra mulher sua conhecida teria proferido essas palavras? Estava diante de uma espécie diferente de mulher. Aquela mulher era livre!

—Jamais lastimei tanto declinar um convite — disse Breuer, puxando o braço dela para mais perto dele —, mas é hora de voltar, e voltar sozinho. Minha adorável mas preocupada esposa estará esperando na janela e é meu dever mostrar-me sensível aos sentimentos dela.

— É claro, mas — ela puxou o braço para ficar face a face com ele, autocontida, vigorosa como um homem — para mim a palavra “dever” é pesada e opressiva. Reduzi meus deveres a apenas um: perpetuar minha liberdade, O casamento e seu séquito de possessão e ciúme escravizam o

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espírito. Eles jamais me dominarão. Espero, doutor Breuer, que chegue o tempo em que nem o homem, nem a mulher sejam tiranizados pelas fraquezas mútuas. —Virando de costas com toda a segurança de sua chegada:

— A uf Wiedersehen. Até nosso próximo encontro — em Viena.

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Capítulo 2

Quatro semanas depois, Breuer estava sentado à sua escrivaninha no consultório em Bãckerstrasse 7. Eram quatro da tarde e ele aguardava impacientemente a chegada de Frãulein Lou Salomé.

Era incomum um hiato durante sua jornada de trabalho; porém, na ânsia em vê-la, ele despachara rapidamente seus três pacientes anteriores. Todos sofriam de doenças de fácil diagnóstico que exigiram pouco esforço da sua parte.

Os dois primeiros — homens na casa dos sessenta — sofriam de doenças praticamente idênticas: uma respiração tremendamente forçada e uma tosse brônquica seca e áspera. Durante anos, Breuer vinha tratando de seu enfisema crônico a que, no clima frio e úmido, se sobrepunha uma bronquite aguda, resultando em um grave comprometimento pulmonar. Para ambos os pacientes, prescreveu morfina contra a tosse (pó de Dover, cinco grãos três vezes ao dia), pequenas doses de um expectorante (ipecacuanha), inalações de vapor e emplastos de mostarda no tórax. Embora alguns médicos escarnecessem dos emplastos de mostarda, Breuer acreditava neles e os prescrevia com freqüência — especialmente naquele ano, quando metade de Viena parecia ter sucumbido às doenças respiratórias. A cidade não via o sol por três semanas, apenas uma gélida e implacável garoa.

O terceiro paciente, um serviçal da residência do príncipe herdeiro Rodolfo, era um jovem homem febril e bexiguento, com a garganta infla-

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mada, tão retraído que Breuer teve que ser imperioso ao ordenar que se despisse para o exame. O diagnóstico foi amigdalite folicular. Embora adepto da rápida extração das amígdalas com tesouras e fórceps, Breuer decidiu que aquelas amígdalas não estavam suficientemente maduras para serem removidas. Em vez disso, prescreveu uma compressa fria no pescoço, gargarejos com clorato de potássio e inalações de borrifos de água carbonada. Por se tratar da terceira inflamação de garganta do paciente naquele inverno, Breuer também aconselhou enrijecer a pele e sua resistência com banhos frios diários.

Agora, enquanto esperava, apanhou a carta recebida três dias antes de Frãulein Salomé. Com a mesma ousadia da nota anterior, ela anunciava que iria ao seu consultório às quatro horas daquele dia para uma consulta.

As narinas de Breuer se dilataram: “Ela diz para mim a que horas chegará.

Ela dá as cartas. Ela me concede a honra de...”

Mas ele rapidamente se emendou: “Não se leve tão a sério, Josef. Que diferença faz? Embora Frãulein Salomé não tenha como sabê-lo, acontece que quarta-feira à tarde é uma ocasião excelente para vê-la. Na longa meada das coisas, que diferença faz?”

“Ela diz para mim...”, Breuer refletiu sobre seu tom de voz: era precisamente essa auto-importância enfatuada que ele detestava nos seus colegas médicos como Billroth e Schnitzler, o pai, e em muitos de seus ilustres pacientes como Brahms e Wittgenstein. A qualidade que mais apreciava nos conhecidos mais próximos, dos quais a maioria também era seu paciente, era a despretensão. Era o que o aproximava de Anton Bruckner. Talvez Anton jamais atingisse o patamar de Brahms, mas ao menos não adorava o solo sob seus pés.

Acima de tudo, Breuer gostava dos jovens e irreverentes filhos de alguns de seus conhecidos — os jovens Hugo Wolf, Gustav Mahler, Teddie Herzl e o mais improvável estudante de medicina, Arthur Schnitzler. Identifica-

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va-se com eles e, na ausência de outras pessoas de sua idade para ouvir, divertia-os com ataques cáusticos à classe reinante. Por exemplo, na semana anterior, no baile da Policlínica, divertira um grupo de jovens homens aglomerados ao seu redor ao pronunciar:

— Sim, sim, é verdade que os vienenses são um povo religioso: seu deus se chama “Decoro”.

Breuer, o eterno cientista, recordou a facilidade com que, em apenas poucos minutos, mudara de um estado mental para outro: da arrogância à despretensão. Que fenômeno interessante! Conseguiria replicá-lo?

De vez em quando, conduzia uma experiência imaginária. Primeiro, tentava assumir a persona vienense com toda a pompa que viera a odiar. Ao se enfunar e murmurar silenciosamente “Como ela ousa?”, envesgando os olhos e cerrando o cenho, reexperimentou o ressentimento e a indignação que envolvem os que se levam a sério demais. Depois, exalando e relaxando, abandonou tudo aquilo e retornou à própria pele — a um estado mental capaz de rir de si próprio, das próprias posturas ridículas.

Observou que cada um desses estados mentais tinha seu próprio colorido emocional: o enfatuado tinha arestas agudas — uma maldade e irritabilidade —, bem como uma altivez e solidão. O outro estado, ao contrário, se afigurava regular, suave e aceitador.

Essas eram emoções definidas, identificáveis — pensou Breuer —, mas também emoções modestas. E quanto às emoções mais poderosas e aos estados mentais que as alimentavam? Haveria uma forma de controlar essas emoções mais fortes? Isso não levaria a uma terapia psicológica eficaz?

Considerou sua própria experiência. Seus estados mentais mais lábeis envolviam mulheres. Havia ocasiões — hoje, abrigado na fortaleza de seu consultório, era um deles — em que se sentia forte e seguro. Nessas ocasiões, via as mulheres como realmente eram: criaturas batalhadoras e ansiosas, lidando com os incessantes e prementes problemas do dia-a-

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dia; e via a realidade de suas mamas: aglomerados de células mamárias flutuando em poças de lipóides. Conhecia seus escorrimentos, seus problemas dismenorréicos, sua ciática e suas diferentes protrusões irregulares — bexigas e úteros com prolapso e hemorróidas e varicosidades azuis salientes.

Mas havia outras ocasiões — ocasiões de encantamento, de captura por mulheres maiores do que a vida, seus seios intumescendo em globos mágicos e poderosos —, quando era dominado por uma ânsia irresistível de se fundir com esses corpos, de sugar-lhes os mamilos, de sentir seu calor e umidade. Esse estado de espírito podia ser incontrolável, podia transtornar uma vida inteira — e, em seu trabalho com Bertha, quase lhe custara tudo que tanto prezava.

Era tudo uma questão de perspectiva, de mudar a disposição de espírito. Se lograsse ensinar os pacientes a fazê-lo conforme desejassem, poderia de fato se tornar o que Frãulein Salomé procurava: um médico para o desespero.

Sua divagação foi interrompida pelo som da porta se abrindo e fechando na ante-sala. Breuer esperou um momento ou dois para não parecer ansioso demais e, depois, passou à sala de espera para saudar Lou Salomé. Ela estava molhada, a garoa vienense tendo se transmutado num aguaceiro

— mas, antes que pudesse ajudá-la a despir a capa molhada, ela já o tinha feito, entregando-a à enfermeira e recepcionista, Frau Becker.

Após conduzir Frãulein Salomé para dentro do consultório e fazer sinal para que se acomodasse em uma pesada cadeira estofada com couro preto, Breuer sentou-se na cadeira ao lado. Não pôde conter a observação:

— Vejo que a senhorita prefere fazer as coisas por si. Isso não priva os homens do prazer de servi-la?

— Ambos sabemos que alguns dos serviços que os homens prestam não são necessariamente benéficos para a saúde das mulheres!

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— Seu futuro marido precisará de um retreinamento intensivo. Os hábitos de toda uma vida não são facilmente extinguidos.

— Casamento? Não, não para mim! Eu lhe contei. Oh! Talvez um casamento de meio-expediente; isso poderia servir-me, mas nada que me prendesse demais.

Observando sua ousada e bela visitante, Breuer se deixou cativar pela idéia de um casamento de meio-expediente. Era difícil manter em mente que a idade dela era apenas metade da sua. Trajava um vestido simples, longo e preto com botões subindo até o pescoço e uma pele com uma pequena cara e pés de raposa envolvia-lhe os ombros. Estranho — pensou Breuer —, na fria Veneza ela descarta o casaco, mas não o larga por um minuto em meu consultório superaquecido. Chegou o momento de tratarem do assunto que a trouxera ali.

— Frãulein — disse —, vamos tratar da doença de seu amigo.

— Desespero, não doença. Tenho diversas recomendações. Devo compartilhá-las com o senhor?

Sua presunção não terá limite? — pensou indignado. Ela fala como se fosse minha colega, a chefe de uma clínica, uma médica com trinta anos de experiência, e não uma colegial inexperiente.

Acalme-se, Josef! — admoestou a si mesmo. Ela é muito jovem e não adora o deus vienense, o Decoro. Ademais, ela conhece esse professor Nietzsche melhor do que eu. Ela é extremamente inteligente e pode ter algo importante para dizer. Deus sabe que não tenho a menor idéia de como curar o desespero: sequer consigo curar o meu próprio. Respondeu calmamente:

— De fato, senhorita. Por favor, prossiga.

— Meu irmão Jenia, com quem me encontrei esta manhã, mencionou que o senhor usou o mesmerismo para ajudar Anna O. a rememorar a fonte psicológica original de cada um de seus sintomas. Lembro que o senhor me

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disse em Veneza que essa descoberta da origem de cada sintoma de algum modo o dissolvia, O como desse “de algum modo” me intriga. Algum dia, quando dispusermos de mais tempo, espero que me esclareça sobre o mecanismo preciso pelo qual tomar conhecimento da fonte elimina o sintoma.

Breuer balançou a cabeça e acenou com as mãos, as palmas voltadas para Lou Salomé:

— Trata-se de uma observação empírica. Ainda que dispuséssemos de todo o tempo do mundo para conversar, receio que não conseguiria lhe fornecer toda a precisão que procura. Mas suas recomendações, senhorita?

— Minha primeira recomendação é: não tente esse método do mesmerismo com Nietzsche. Com ele, não funcionaria! Sua mente, seu intelecto é um milagre: uma das maravilhas do mundo, como verá por si mesmo. Mas ele é, apropriando-me de uma de suas expressões favoritas, apenas humano, demasiado humano, e possui seus próprios pontos cegos.

Lou Salomé agora removeu sua pele, levantou-se lentamente e cruzou o consultório para pô-la sobre o sofá de Breuer. Observou por um momento os diplomas emoldurados na parede, ajustou um que estava ligeiramente torto e, então, sentou-se novamente e cruzou as pernas antes de prosseguir.

— Nietzsche é extremamente sensível a questões de poder. Ele recusaria se engajar em qualquer processo que perceba como uma submissão de seu poder a outrem. Em sua filosofia, é atraído pelos gregos pré-socráticos, especialmente pelo conceito deles de agonis — a crença de que desenvolvemos os dons naturais somente através da luta —, e desconfia profundamente da motivação de quem quer que renuncie à luta e alegue ser altruísta. Seu mentor nesses assuntos foi Schopenhauer. Ninguém deseja, acredita ele, ajudar os outros; pelo contrário, as pessoas desejam apenas dominar e aumentar seu próprio poder. Nas poucas vezes em que submeteu seu poder a outrem, acabou se sentindo devastado e enraivecido. Aconteceu com Richard Wagner. Acredito que esteja acontecendo agora comigo.

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— Como assim com a senhorita? É verdade que, de alguma forma, é pessoalmente responsável pelo grande desespero do professor Nietzsche?

— Ele acredita que eu seja. Por isso, minha segunda recomendação é: não se alie comzo. O senhor parece espantado; para que compreenda, terei que contar tudo sobre meu relacionamento com Nietzsche. Nada omitirei e responderei a todas as suas perguntas com sinceridade. Isso não será fácil. Ponho-me em suas mãos, mas minhas palavras devem permanecer um segredo entre nós.

— É claro, pode contar com isso, Frilulein — respondeu, admirado com alguém tão direto, com quão prazeroso era conversar com alguém tão aberto.

— Bem, então... Conheci Nietzsche aproximadamente oito meses atrás, em abril.

Frau Becker bateu na porta e entrou com o café. Se ficou surpresa ao ver Breuer sentado ao lado de Lou Salomé, e não em seu lugar costumeiro atrás da escrivaninha, ela não o exprimiu. Sem nenhuma palavra, depositou uma bandeja contendo xícaras, colheres e um bule de café de prata brilhante e saiu rapidamente. Breuer serviu o café enquanto a jovem prosseguia.

— Deixei a Rússia no ano passado devido à minha saúde: um problema respiratório que agora melhorou bastante. Primeiro, vivi em Zurique e estudei teologia com Biederman, além de trabalhar com o poeta Gottfried Kinkel... Não sei se mencionei que sonho em me tornar poeta. Quando minha mãe e eu nos mudamos para Roma no início deste ano, Kinkel forneceu uma carta de apresentação a Malwida von Meysenburg. O senhor a conhece: ela escreveu Memórias de uma idealista.

Breuer assentiu com a cabeça. Estava familiarizado com a obra de Malwida von Meysenburg, especialmente suas cruzadas em prol dos direitos das mulheres, da reforma política radical e de várias transformações no processo educacional. Agradavam-lhe menos os recentes tratados antima-

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terialistas dela, que julgava baseados em alegações pseudocientíficas. Lou Salomé continuou:

— Assim, compareci ao salão literário de Malwida, onde conheci um encantador e brilhante filósofo, Paul Rée, de quem me tornei grande amiga, O senhor Rée assistira às aulas de Nietzsche na Basiléia muitos anos antes e, a partir de então, ambos cultivaram uma estreita amizade. Eu observava que o senhor Rée admirava Nietzsche acima de todos os outros homens. Logo, ele chegou à conclusão de que, se nós dois éramos amigos, então Nietzsche e eu também deveríamos nos tornar amigos. Paul.., ou melhor, o senhor Rée... Doutor — ela enrubesceu por um breve instante, mas o tempo suficiente para que Breuer o notasse e para que ela percebesse isso —, permita que o chame de Paul, pois é assim que me dirijo a ele e não vamos perder tempo com convenções sociais. Sou muito íntima de Paul, embora jamais venha a me imolar no casamento com ele ou com qualquer outro! Mas — prosseguiu impacientemente —, já gastei bastante tempo explicando um breve e involuntário rubor em minha face. Somos os únicos animais que enrubescem, não é verdade?

À falta de palavras, Breuer conseguiu apenas assentir com a cabeça. Por algum tempo, cercado por sua parafernália médica, sentira-se mais poderoso do que na conversa anterior. Mas agora, exposto ao poder do encanto da jovem, sentiu suas forças abandonarem-no. O comentário dela sobre seu rubor fora notável: jamais em sua vida ouvira uma mulher, ou qualquer outra pessoa, falar sobre a relação social de forma tão direta. E ela tinha apenas 21 anos!

— Paul estava convencido de que Nietzsche e eu rapidamente nos tornaríamos amigos — Lou Salomé continuou —, de que combinávamos como a mão e a luva. Ele queria que eu me tornasse aluna e protegida de Nietzsche. Queria que Nietzsche fosse meu mestre, meu sacerdote secular.

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Foram interrompidos por um leve bater à porta. Breuer se levantou para abri-la e Frau Becker sussurrou que chegara um novo paciente. Breuer sentou-se novamente, tranqüilizou Lou Salomé de que dispunham de bastante tempo, pois pacientes inesperados estavam acostumados a longas esperas, e pediu que prosseguisse.

— Bem — continuou ela —, Paul marcou um encontro na basílica de São Pedro, o menos recomendável local para o encontro de nossa profana Trindade.., designação que mais tarde adotamos, embora Nietzsche muitas vezes se referisse a ela como um “relacionamento pitagórico”.

Breuer se flagrou fitando os seios da visitante, em vez da face. Por quanto tempo — se perguntou — terei estado fazendo isso? Será que ela observou? Será que outras mulheres me observaram fazendo isso? Em sua imaginação, apanhou uma vassoura e varreu para longe todos os pensamentos sexuais. Concentrou-se mais nos olhos e nas palavras dela.

— Imediatamente, fui atraída por Nietzsche. Não é um homem fisicamente imponente: altura média, com uma voz gentil e olhos que não piscam e que olham para dentro e não para fora, como se estivesse protegendo algum tesouro interior. Eu ainda não sabia que ele perdera três quartos da visão. Não obstante, havia nele algo de extraordinariamente irresistível. As primeiras palavras que me disse foram: “De que estrelas caímos aqui um para o outro?” Então, nós três começamos a conversar. E que conversa! Por algum tempo, pareceu que as esperanças de Paul de que nos tornássemos amigos ou de que Nietzsche se tornasse meu mentor se concretizariam. Intelectualmente, formávamos o par perfeito. Nossas mentes se entrelaçaram: ele disse que tínhamos almas gêmeas de irmão e irmã. Ah! Ele leu em voz alta as jóias de seu último livro, musicou meus poemas, revelou-me o que iria oferecer ao mundo durante os próximos dez anos; acreditava que sua saúde não lhe concederia mais de uma década.

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— Logo, Paul, Nietzsche e eu decidimos que viveríamos os três juntos. Começamos a planejar passar este inverno em Viena ou, possivelmente, em Paris.

Um relacionamento a três! Breuer pigarreou e se mexeu inquieto em sua cadeira. Viu-a sorrindo por seu embaraço. Não haverá nada que ela não observe? Que diagnosticadora essa mulher poderia ser! Terá alguma vez considerado uma carreira médica? Seria possível, como minha aluna? Minha protegida? Minha colega, trabalhando ao meu lado no consultório, no laboratório? Essa fantasia tinha poder, poder real — mas as palavras dela arrancaram Breuer da fantasia.

— Sim, sei que o mundo não sorri ante dois homens e uma mulher vivendo castamente juntos. — Ela acentuou “castamente” de forma magnífica, com ênfase bastante para deixar as coisas claras, mas com brandura suficiente para evitar uma repreensão. — Mas somos idealistas livre-pensa- dores que rejeitamos restrições socialmente impostas. Acreditamos em nossa capacidade de criar nossa própria estrutura moral.

Como Breuer não respondeu, sua visitante pareceu, pela primeira vez, insegura sobre como prosseguir.

— Devo continuar? Dispomos de tempo? Estou ofendendo o senhor?

— Continue, por favor, gnadiges Frãulein. Em primeiro lugar, reservei o horário para a senhorita. — Estendeu o braço sobre a escrivaninha para alcançar a agenda na outra extremidade e indicou as iniciais L.S. anotadas em letras grandes na quarta-feira, 22 de novembro de 1882. — Veja bem, não tenho mais nada programado esta tarde. Em segundo lugar, a senhorita não está me ofendendo. Pelo contrário, admiro sua franqueza, sua objetividade. Que bom se todos os amigos falassem assim honestamente! A vida seria mais rica e mais genuína.

Aceitando o elogio sem comentário, Lou Salomé encheu sua xícara novamente de café e continuou o relato.

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— Primeiro, gostaria de deixar claro que meu relacionamento com Nietzsche, embora intenso, foi breve. Encontramo-nos somente quatro vezes e quase sempre acompanhados por minha mãe, pela mãe de Paul ou pela irmã de Nietzsche. De fato, Nietzsche e eu raramente ficamos a sós nos passeios ou nas conversas.

— A lua-de-mel intelectual de nossa profana Trindade foi igualmente breve. Fissuras apareceram. Depois, sentimentos românticos e libidinosos. Talvez tenham estado presentes desde o princípio. Talvez eu seja responsável por não tê-los reconhecido.

— Ela estremeceu como que para se livrar dessa responsabilidade e prosseguiu contando uma seqüência crucial de eventos.

— No final de nosso primeiro encontro, Nietzsche se mostrou preocupado com meu plano de um casto relacionamento a três, pensando que o mundo não estava preparado para isso, e me pediu que mantivesse nosso plano em segredo. Estava especialmente preocupado com sua família: sob nenhuma circunstância, sua mãe ou sua irmã deveriam saber de nós. Que convencionalismo! Fiquei surpresa e desapontada e me perguntei se havia sido enganada por seu linguajar corajoso e por suas proclamações de livre- pensador. Pouco depois, Nietzsche chegou a uma posição ainda mais radical: de que tal sistema de vida seria socialmente perigoso para mim, talvez até ruinoso. Assim, para me proteger, decidiu se casar comigo e pediu a Paul que me transmitisse a proposta. Em que situação colocou Paul! Mas Paul, por lealdade ao amigo, zelosamente, embora um pouco fleumático, me falou sobre a oferta de Nietzsche.

— Ela a surpreendeu? — perguntou Breuer.

— Bastante, especialmente por suceder nosso primeiro encontro. Além disso, também me perturbou. Nietzsche é um grande homem e é dotado de uma gentileza, de um poder, de uma presença extraordinária; não negarei, doutor Breuer, que me vi fortemente atraída por ele, mas não Roman-

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ticamente. Talvez tenha sentido minha atração por ele e não tenha acreditado em minha afirmação de que o casamento estava tão longe de minha mente como o romance.

Uma súbita rajada de vento fazendo bater as janelas distraiu Breuer por um momento. Subitamente, sentiu uma rigidez no pescoço e nos ombros. Estivera tão atento escutando que, por vários minutos, não movera um só músculo. Por vezes, pacientes conversaram com ele sobre assuntos pessoais, mas jamais daquela forma. Jamais face a face, jamais de forma tão imperturbável. Bertha revelara muitas coisas, mas sempre em um estado mental “ausente”. Lou Salomé estava “presente” e, mesmo ao descrever eventos remotos, criava tais momentos de intimidade, que Breuer se sentia como se fossem amantes conversando. Não teve problema em compreender por que Nietzsche propusera o casamento após um único encontro.

— E então, Frãulein?

— Então resolvi ser mais franca em nosso encontro seguinte. Mas isso acabou sendo desnecessário. Nietzsche logo percebeu que a perspectiva de casamento o assustava no mesmo grau em que me repugnava. Em nosso encontro seguinte, duas semanas depois, em Orta, suas primeiras palavras para mim foram de que eu deveria esquecer sua proposta. Em vez disso, ele me exortou a me unir a ele na busca do relacionamento ideal: apaixonado, casto, intelectual e não-marital. Os três nos reconciliamos. Nietzsche estava tão animado com nosso relacionamento a três, que insistiu, uma tarde em Lucerna, que posássemos para isto: a única fotografia de nossa profana Trindade.

Na fotografia que entregou a Breuer, dois homens estavam de pé diante de uma carroça; ela estava ajoelhada dentro do veículo, brandindo um pequeno chicote.

— O homem à frente, com o bigode e olhando para o céu, é Nietzsche

— disse calorosamente. — O outro é Paul.

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Breuer examinou as fotografias com atenção. Perturbou-o ver esses dois homens — gigantes patéticos e agrilhoados — domados por essa bela e jovem mulher com seu chicotinho.

— O que acha de meu estábulo, doutor Breuer?

Pela primeira vez, um de seus comentários chistosos não teve ressonância e Breuer se lembrou subitamente de que ela não passava de uma garota de 21 anos. Sentiu-se desconfortável: não gostava de ver máculas em sua polidez. Seu coração se solidarizou com os dois homens em servidão — seus irmãos. Sem dúvida, poderia ter sido um deles.

Sua visitante deve ter sentido a impropriedade —pensou Breuer, observando como se apressou em continuar a narrativa.

— Encontramo-nos duas outras vezes: em Tautenberg, cerca de três meses atrás, com a irmã de Nietzsche, e depois em Leipzig, com a mãe de Paul. Mas Nietzsche me escrevia constantemente. Eis uma carta em resposta à minha narração de quão comovida fiquei com seu livro Aurora.

Breuer leu rapidamente a carta curta que ela lhe entregou.

Citação:

Minha querida Lou,



Também eu tenho auroras ao meu redor e não são pintadas! Algo que já não cria possível, encontrar um amigo para minha derradeira felicidade e sofrimento, agora se me afigura possível — a possibilidade dourada no horizonte de toda a minha vida futura. Fico tocado sempre que chego a pensar na alma ousada e rica de minha querida Lou.

F. N.

Final de citação.

Breuer se manteve silente. Agora, sentiu um elo de empatia ainda maior para com Nietzsche. Encontrar auroras e possibilidades douradas, amar uma alma rica e ousada: todos precisam disso — pensou — ao menos uma vez na vida.

— Durante esse mesmo período — continuou Lou — Paul começou a escrever cartas igualmente ardentes. Apesar de meus melhores esforços de

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mediação, a tensão no seio de nossa Trindade aumentou alarmantemente. A amizade entre Paul e Nietzsche estava se desintegrando a olhos vistos. Finalmente, começaram a desmerecer um ao outro em suas cartas para mim.

— Certamente — interrompeu Breuer — isso não constituiu surpresa para a senhorita. Dois homens ardentes em uma relação íntima com a mesma mulher!

— Talvez eu tenha sido ingênua. Acreditei que nós três pudéssemos partilhar uma vida intelectual, que pudéssemos realizar um trabalho filosófico sério conjuntamente.

Aparentemente perturbada pela observação de Breuer, ela se levantou, espreguiçou-se ligeiramente e andou até a janela, parando no trajeto para examinar algumas peças sobre a escrivaninha: um almofariz com pilão de bronze do Renascimento, uma pequena imagem funerária egípcia, um intrincado modelo de madeira dos canais semicirculares do interior do ouvido.

— Talvez eu seja obstinada — falou, olhando pela janela —, mas continuo não convencida de que nosso relacionamento a três fosse impossível! Poderia ter funcionado, não fosse a interferência da detestável irmã de Nietzsche. Nietzsche me convidou para passar o verão com ele e Elisabeth em Tautenberg, uma aldeia na Turíngia. Ela e eu nos encontramos em Bayreuth, onde encontramos Wagner e assistimos a uma representação de Parsiflul. Depois, viajamos juntas para Tautenberg.

— Por que a chama de detestável, Frãulein?

— Elisabeth é uma tola desagregadora, mesquinha, desonesta e antisemita. Quando cometi a asneira de contar que Paul é judeu, não mediu esforços para levá-lo ao conhecimento de todo o círculo de Wagner, de modo a assegurar que Paul jamais fosse bem-vindo em Bayreuth.

Breuer pôs sua xícara de café de volta sobre a escrivaninha. Enquanto de início Salomé o embalara no agradável e seguro reino do amor, da arte e da

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filosofia, agora suas palavras o traziam de volta à realidade, ao detestável mundo do anti-semitismo. Naquela mesma manhã, lera no Neue Freie Fresse uma matéria sobre fraternidades percorrendo a universidade, invadindo as salas de aula, bradando “Juden hinaus!’ (Fora com os Judeus!) e forçando todos os judeus para fora das salas de aula — empurrando fisicamente quem resistisse.

— Frãulein, também sou judeu e gostaria de saber se o professor Nietzsche compartilha os pontos de vista anti-semitas da irmã.

— Sei que o senhor é judeu. Jenia me contou. É importante que saiba que Nietzsche se importa somente com a verdade. Ele detesta a mentira do preconceito, de todos os preconceitos. Ele odeia o anti-semitismo da irmã. Está consternado e desgostoso porque Bernard F5rster, um dos mais contundentes e virulentos anti-semitas da Alemanha, a visita com freqüência. Sua irmã Elisabeth...

Agora suas palavras afluíram mais rapidamente, o tom de voz uma oitava mais alto. Breuer percebeu que ela sabia que estava se afastando do roteiro traçado, mas ela não conseguia se conter.

— A Elisabeth, doutor Breuer, é uma víbora. Ela me chamou de prostituta. Ela mentiu para Nietzsche, contando-lhe que eu mostrei aquela foto para todo mundo e me gabei de como ele ama o gosto de meu chicote. Ela vive mentindo! É uma mulher perigosa. Algum dia, anote minhas palavras, ela cometerá um grande dano a Nietzsche.

Ainda de pé, segurou firmemente o espaldar da cadeira ao proferir essas palavras. Depois, sentando-se, continuou, mais calma.

— Como o senhor pode imaginar, minhas três semanas em Tautenberg com Nietzsche e Elisabeth foram complexas. Meus momentos a sós com ele foram sublimes. Maravilhosas caminhadas e profundas conversas sobre tudo... às vezes, sua saúde lhe permitia conversar dez horas ao dia! Pergunto-me se alguma vez antes houve tamanha abertura filosófica entre duas

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pessoas. Conversávamos sobre a relatividade do bem e do mal, sobre a necessidade de libertar-se da moralidade pública de modo a viver moralmente, sobre a religião de um livre-pensador. As palavras de Nietzsche pareciam verdadeiras: tínhamos cérebros irmãos, conseguíamos dizer tanto um para o outro através de meias palavras, de meias sentenças, de meros gestos. Contudo, esse paraíso foi estragado, porque o tempo todo estávamos sob o olhar de sua irmã serpentina. Eu a via escutando, sempre entendendo mal, tramando.

— Diga-me, por que Elisabeth iria caluniá-la?

— Porque está lutando pela sua vida. Trata-se de uma mulher mentalmente limitada e de espírito embotado. Ela não pode se permitir perder o irmão para outra mulher. Nietzsche é, e sempre será, a única fonte de significado para sua vida.

Ela relanceou seu relógio e, depois, a porta fechada.

— Estou preocupada com a hora, de modo que contarei o resto rapidamente. Exatamente no mês passado, a despeito das objeções de Elisabeth, Paul, Nietzsche e eu passamos três semanas em Leipzig com a mãe de Paul, onde novamente tivemos sérias discussões filosóficas, particularmente sobre o desenvolvimento da crença religiosa. Partimos apenas duas semanas atrás, com Nietzsche ainda acreditando que nós três passaríamos a primavera juntos em Paris. Só que, agora o sei, isso jamais ocorrerá. Sua irmã logrou envenenar-lhe a cabeça contra mim e, ultimamente, ele começou a remeter cartas cheias de desespero e de ódio para Paul e para mim.

— E agora, hoje, Fraulein Salomé, em que pé estão as coisas?

— Deteriorou geral. Paul e Nietzsche se tornaram inimigos. Paul fica zangado sempre que lê as cartas de Nietzsche para mim, sempre que toma conhecimento de qualquer sentimento de ternura meu por Nietzsche.

— Paul lê sua correspondência?

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— Sim, por que não? Nossa amizade se aprofundou. Suspeito que sempre estarei junto dele. Não temos segredos um para o outro: chegamos a ler o diário um do outro. Paul tem me implorado para romper com Nietzsche. Finalmente, aquiesci e escrevi a Nietzsche que, embora sempre preze nossa amizade, nosso relacionamento a três não é mais possível. Contei-lhe que havia dor demais, influência destrutiva demais: de sua irmã, de sua mãe, das brigas entre ele e Paul.

— E a resposta dele?

— Selvagem! Assustadora! Ele escreve cartas ensandecidas, às vezes insultando ou ameaçando, outras vezes profundamente desesperadoras. Olhe aqui estas passagens que recebi nesta última semana!

Ela apanhou duas cartas cuja própria aparência denotava agitação: a letra desigual, as várias palavras abreviadas ou sublinhadas diversas vezes. Breuer olhou de relance os parágrafos que ela circundara; porém, incapaz de decifrar mais do que umas poucas palavras, devolveu as cartas à jovem.

— Esqueci — disse ela — quão difícil é ler sua letra. Deixe-me decifrar esta carta endereçada a Paul e a mim: “Não deixe que minhas erupções de megalomania ou que minha vaidade ferida incomodem você demasiadamente; e, se algum dia suceder que eu me prive de minha própria vida em um ataque de paixão, isso não deveria ser motivo de grande preocupação. Que fantasias tenho de você!... Cheguei a esta razoável visão de tudo depois de ingerir, por desespero, uma enorme dose de ópio...” — Ela interrompeu a leitura. — Isso é o suficiente para lhe dar uma idéia do seu desespero. Há várias semanas, tenho estado na propriedade da família de Paul na Baviera, de sorte que toda minha correspondência vai para lá. Paul tem destruído suas cartas mais cáusticas de modo a me poupar da dor, mas esta, endereçada apenas para mim, lhe escapou: “Se eu a banir de mim agora, será uma condenação assustadora de todo o seu ser... Você causou dano, você causou malefício, e não apenas a mim, mas a todas as pessoas que me amaram: essa espada pende sobre você.”

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Ela ergueu o olhar até Breuer.

—Agora, doutor, o senhor vê por que recomendo com tanta ênfase que não se alie comigo de forma alguma?

Breuer sorveu profundamente seu charuto. Embora intrigado por Lou Salomé e absorto pelo melodrama que ela desfiava, ele estava preocupado. Deveria ter concordado em tratar desse caso? Que emaranhado! Que relacionamentos primitivos e poderosos: a profana Trindade, a amizade encerrada de Nietzsche com Paul, a poderosa ligação de Nietzsche com a irmã, o ódio entre ela e Lou Salomé. Preciso tomar cuidado — disse de si para consigo — para não me deixar envolver por esses turbulentos. Mais explosivo de tudo, é claro, é o amor desesperado de Nietzsche, agora transmutado em ódio, por Lou Salomé. Mas era tarde demais para virar as costas. Ele havia se comprometido e, em Veneza, declarara jubilosamente a ela: “Jamais me recusei a tratar dos doentes.” Deu as costas a Lou Salomé.

— Essas cartas me ajudam a compreender seu alarme, Frãulein Salomé. Compartilho sua preocupação sobre seu amigo: a estabilidade dele parece precária e o suicídio, uma possibilidade real. Porém, dado que a senhorita tem agora pouca influência sobre o professor Nietzsche, como persuadi-lo a me visitar?

— Sim, isso é um problema que venho considerando exaustivamente. Até meu nome é agora um veneno para ele e terei que agir nos bastidores. Isso significa, é claro, que elejamais, jamais poderá saber que eu articulei o encontro. Jamais conte para ele! Mas agora que sei que está disposto a se encontrar com ele...

Ela se desfez da xícara e mirou Breuer tão atentamente, que este teve que responder rapidamente:

— É claro, Fraulein. Conforme lhe disse em Veneza: Jamais me recusei a tratar dos doentes.

Após ouvir essas palavras, irrompeu em Lou Salomé um enorme sorriso. Ela estivera sob mais tensão do que ele imaginara.

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— Com essa garantia, doutor Breuer, começarei nossa campanha para trazer Nietzsche ao seu consultório sem que ele saiba de minha participação. A conduta dele agora está tão perturbada, que estou certa de que todos os amigos dele estão alarmados e acolherão qualquer plano sensato para ajudá-lo. Em meu retorno a Berlim, amanhã, pararei na Basiléia a fim de propor nosso plano a Franz Overbeck, amigo de Nietzsche de longa data. Sua reputação, doutor, como diagnosticador nos ajudará. Acredito que o professor Overbeck consiga persuadir Nietzsche a se consultar com o senhor sobre o estado médico dele. Caso eu tenha sucesso, o senhor será avisado por carta.

Numa sucessão acelerada, pôs as cartas de Nietzsche de volta na bolsa, levantou-se, agitou sua longa saia franzida, apanhou a estola de pele de raposa no divã e estendeu a mão para Breuer.

— E agora, caro doutor Breuer...

Quando ela pôs a outra mão sobre a dele, a pulsação de Breuer se acelerou. — Não seja um velho bobão — pensou, entregando-se ao calor da mão dela. Quis lhe contar o prazer que lhe dava o seu toque. Talvez ela soubesse, pois manteve a mão dele dentro da sua durante o tempo em que falou.

— Espero que nos mantenhamos sempre em contato sobre esse assunto. Não apenas devido aos meus profundos sentimentos em relação a Nietzsche e ao meu temor de que seja, involuntariamente, responsável por parte de seu dissabor. Existe outra coisa. Espero também que nós dois nos tornemos amigos. Tenho vários defeitos, conforme viu: sou impulsiva, o choco, sou anticonvencional. Mas também tenho pontos fortes. Tenho um excelente olho para a nobreza de espírito num homem. Quando encontro tal homem, prefiro não perdê-lo. Que tal nos correspondermos?

— Ela largou sua mão, andou até a porta e parou bruscamente. Abriu a bolsa para apanhar dois pequenos volumes.

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— Oh! Doutor Breuer, quase me esqueci. Acho que o senhor deveria ter os dois últimos livros de Nietzsche. Eles lhe darão uma visão de sua mente. Mas ele não pode saber que o senhor os viu. Isso despertaria sua suspeita, pois pouquíssimos destes livros foram vendidos. — Novamente, tocou o braço de Breuer. — E mais um ponto: embora tenha tão poucos leitores agora, Nietzsche está convicto de que a fama chegará. Ele me contou certa vez que o depois de amanhã lhe pertencerá. Assim, não diga a ninguém que o está ajudando. Não cite o nome dele para ninguém. Se o fizer e ele descobrir, considerará uma grande traição. Sua paciente Anna O., esse não é seu nome real, certo? O senhor usa um pseudônimo?

Breuer assentiu com a cabeça.

— Então, aconselho-o a fazer o mesmo com Nietzsche. AufWiedersehen, doutor Breuer — despediu-se, estendendo-lhe a mão.

— A uf Wiedersehen, Fraulein — respondeu Breuer, inclinando-se e premindo-a contra seus lábios.

Ao fechar a porta depois que ela saiu, deitou o olhar sobre os dois volumes finos e brochados, observando seus títulos estranhos: Die Frühliche Wissenschafi (A gaia ciência) e Menschliches, Allzumenschliches (Humano, demasiado humano), antes de guardá-los na gaveta. Dirigiu-se à janela para um último relance de Lou Salomé. Ela ergueu o guarda-chuva, desceu rapidamente as escadas da frente e, sem olhar para trás, adentrou um fiacre que a esperava.

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Capítulo 3

Volvendo da janela, Breuer agitou a cabeça para desalojar Lou Salomé da mente. Depois, puxou o cordão pendente sobre sua escrivaninha para avisar Frau Becker de que mandasse entrar o paciente na sala de espera. O senhor Perlroth, um judeu ortodoxo arqueado e barbilongo, entrou hesitante pela porta.

Cinqüenta anos atrás — Breuer logo soube —, o senhor Perlroth sofrera uma tonsilectomia traumática; sua memória dessa operação era tão dolorosa que, até aquele dia, se recusara a consultar um médico. Mesmo agora, protelara ao máximo sua visita, mas um “estado clínico desesperador”

— conforme suas palavras — não lhe deixara outra saída. Breuer imediatamente deixou de lado sua pose de médico, saiu de detrás da escrivaninha e sentou-se na cadeira ao lado, como fizera com Lou Salomé, para uma conversa informal com o novo paciente. Falaram sobre o tempo, a nova onda de imigrantes judeus da Galícia, o anti-semitismo virulento da Associação da Reforma Austríaca e suas origens comuns. O senhor Perlroth, como quase todos na comunidade judaica, conhecera e reverenciara Leopold, o pai de Breuer, e em poucos minutos transferiu sua confiança no pai para o filho.

— Então, senhor Perlroth, em que lhe posso ser útil? — perguntou Breuer.

— Não consigo eliminar a urina, doutor, O dia inteiro, e de noite também, sinto vontade. Corro para o banheiro, mas nada. Insisto e, finalmen-

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te, saem algumas gotas. Vinte minutos depois, a mesma história. Tenho que ir novamente, mas...

Com mais algumas perguntas, Breuer teve certeza da causa dos problemas do senhor Perlroth. A glândula prostática do paciente devia estar obstruindo a uretra. Restava uma única questão importante: o senhor Perlroth tinha um alargamento benigno da próstata ou um câncer? No exame do reto, Breuer não sentiu nenhum nódulo canceroso endurecido, encontrando em seu lugar um alargamento esponjoso e benigno.

Depois de ouvir que não havia indício de câncer, o senhor Perlroth irrompeu em um sorriso jubiloso, apanhou a mão de Breuer e a beijou. Mas seu humor se empanou novamente quando Breuer descreveu, do modo o mais tranqüilizador possível, a natureza desagradável do tratamento exigido: a passagem urinária teria que ser dilatada pela inserção no pénis de uma série graduada de longas hastes de metal ou “sondas”. Como o próprio Breuer não ministrava esse tratamento, recomendou o senhor Perlroth ao seu cunhado Max, um urologista.

Depois que o senhor Perlroth partiu, passava um pouco das seis, horário das visitas domiciliares de Breuer do final da tarde. Ele reabasteceu sua grande valise de médico de couro preto, vestiu seu sobretudo forrado de peles e sua cartola e saiu à rua, onde seu cocheiro Fischmann o esperava numa carruagem puxada por dois cavalos. (Durante o tempo em que Breuer examinava o senhor Perlroth, Frau Becker tinha chamado um mensageiro parado na esquina próxima do consultório — um jovem de olhos e nariz avermelhados que usava uma grande insígnia de oficial, um chapéu pontudo e um uniforme de exército cor cáqui com dragonas grandes demais para ele — e lhe pagara dez Kreuzer para ir correndo chamar Fischmann. Mais abastado do que a maioria dos médicos vienenses, Breuer alugava um fiacre para o ano inteiro, em vez de chamar um quando precisasse.)

Como de hábito, entregou a Fischmann a lista dos pacientes por visitar.

Breuer fazia visitas domiciliares duas vezes ao dia: de manhã cedo, após seu

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pequeno desjejum de café e Kaisersemmel* ondulado e com três entalhes e, novamente, após suas consultas vespertinas no consultório, como naquele dia. À semelhança da maioria dos médicos internistas de Viena, Breuer só enviava um paciente ao hospital como último recurso. Além de mais bem cuidadas em casa, as pessoas ficavam mais protegidas das doenças contagiosas que, com freqüência, assolavam os hospitais públicos.

Por conseguinte, o fiacre de dois cavalos de Breuer era freqüentemente usado: de fato, era um gabinete móvel bem guarnecido das mais recentes publicações médicas e obras de referência. Algumas semanas atrás, Breuer convidara um jovem amigo médico, Sigmund Freud, para acompanhá-lo durante um dia inteiro. Um erro, talvez! O jovem homem vinha tentando optar por uma especialidade médica, e aquele dia deve tê-lo afugentado da medicina de doenças internas. Pois, segundo os cálculos de Freud, Breuer despendera seis horas em seu fiacre!

Agora, após visitar sete pacientes, três deles gravemente enfermos, Breuer encerrara seu dia de trabalho. Fischmann tomou a direção do Café Griensteidl, onde Breuer geralmente tomava café com um grupo de médicos e cientistas que, havia quinze anos, se reuniam todas as noites na mesma Stammtisch, uma grande mesa reservada no melhor canto do recinto. Naquela noite, porém, Breuer mudou de idéia.

— Leve-me para casa, Fischmann. Estou molhado e cansado demais para o café.

Repousando a cabeça no assento de couro preto, fechou os olhos. Esse dia extenuante começara mal: não conseguira adormecer novamente após um pesadelo às quatro da madrugada. Sua programação matutina fora pesada: dez visitas domiciliares e, depois, nove pacientes no consultório. De tarde, mais pacientes no consultório e, depois, a estimulante mas enervante entrevista com Lou Salomé.

Nota de rodapé:

* Espécie de pãozinho redondo e com entalhes do trivial austríaco. (N. do T.)

Final da nota de rodapé.

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Mesmo agora, sua mente não lhe pertencia. Fantasias insidiosas de Bertha a invadiam: de braços dados com ela, caminhando sob o sol quente, longe da gelada e cinzenta neve semilíquida de Viena. Logo, porém, imagens discordantes lhe assomaram: seu casamento despedaçado, seus filhos deixados para trás, ao singrar embora para sempre a fim de começar uma nova vida com Bertha na América. Os pensamentos o atormentavam. Ele os odiava: arrebatavam-no de sua paz; eram estranhos, nem possíveis, nem desejáveis. Não obstante, os acolhia de bom grado: a única alternativa — banir Bertha de sua mente — se afigurava inconcebível.

O fiacre trepidou ruidosamente ao atravessar uma ponte de madeira sobre o rio Wien. Breuer observou os pedestres voltando apressadamente para casa após o trabalho, a maioria, homens, todos carregando um guarda-chuva preto e trajados praticamente como ele: sobretudos escuros e revestidos de peles, luvas brancas e cartola preta. Alguém familiar lhe chamou a atenção. O homem baixo e sem chapéu, de barba aparada, ultrapassando os outros, ganhando a corrida! Aquele passo firme — ele o reconheceria em qualquer lugar! Muitas vezes, nos bosques de Viena, tentara acompanhar aquelas pernas agitadas que jamais paravam, exceto à procura de Herrenpilze — os grandes e picantes cogumelos que brotavam entre as raízes dos pinheiros escuros.

Pedindo a Fischmann que encostasse o carro no meio-fio, Breuer abriu a janela e chamou:

— Sig, para onde está indo?

Seu jovem amigo, trajando um casaco azul comum mas decente, fechou o guarda-chuva ao se voltar para o fiacre; então, reconhecendo Breuer, sorriu e respondeu:

— Estou indo para Bàckerstrass 7. Uma mulher encantadora me convidou para o jantar esta noite.

— Ach! Tenho notícias desalentadoras! — disse Breuer em tom jocoso.

— O marido dela está a caminho de casa neste exato minuto! Entre, Sig,

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venha comigo. Terminei meu trabalho e estou cansado demais para ir ao Griensteidl. Teremos tempo para conversar antes do jantar.

Freud agitou o guarda-chuva para secá-lo, pisou no meio-fio e entrou no fiacre. Estava escuro e a vela acesa na carruagem gerava mais sombras do que luz. Após um momento de silêncio, virou-se para olhar de perto o rosto do amigo.

— Você parece cansado, Josef. Um longo dia?

— Um dia difícil. Começou e terminou com uma visita a Adolf Fiefer. Você o conhece?

— Não, mas li alguns de seus trabalhos no Neue Freie Presse. Um bom escritor.

— Brincamos juntos na infância. Íamos para a escola juntos. Tem sido meu paciente desde meu primeiro dia de clínica. Bem, cerca de três meses atrás, diagnostiquei-lhe câncer no fígado. Alastrou-se como fogo e, agora, ele sofre de icterícia obstrutiva avançada. Conhece o próximo estágio, Sig?

— Bem, se o ducto comum for obstruído, a bile continuará a invadir a corrente sangüínea até que morra intoxicado. Antes disso, entrará em coma hepática, certo?

— Exatamente; de uma hora para a outra. Contudo, não posso revelar a ele a verdade. Mantenho meu sorriso esperançoso e falso, embora gostaria de me despedir honestamente dele. Jamais me habituarei com a morte de meus pacientes.

— Tomara que nenhum de nós se habitue — suspirou Freud. — A esperança é essencial e quem, a não ser nós, consegue mantê-la? Para mim, é a parte mais difícil da atividade médica. Às vezes, tenho sérias dúvidas se estou à altura da tarefa. A morte é tão poderosa. Nossos tratamentos tão insignificantes, especialmente na neurologia. Graças a Deus, estou quase terminando esse período. A obsessão deles com a localização é obscena. Você deveria ter ouvido Westphal e Meyer discutindo hoje sobre a localização precisa no cérebro de um câncer bem na frente do paciente.

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— Mas — e pausou — quem sou eu para dizê-lo? Apenas seis meses atrás, quando trabalhava no laboratório de neuropatologia, fiquei felicíssimo com a chegada do cérebro de um bebê, pois teria o trunfo de determinar o local preciso da patologia! Talvez eu esteja me tornando demasiado cético, porém cada vez mais me convenço de que nossas disputas sobre a localização da lesão escondem a verdade real: que nossos pacientes morrem e nós, os médicos, somos impotentes.

— Além disso, Sig, é uma pena que os aprendizes de médicos, como Westphal, jamais aprendam como oferecer conforto aos que estão morrendo.

Os dois homens ficaram silentes enquanto o fiacre oscilava em meio ao forte vento. Agora, a chuva aumentava novamente e gotejava do teto da carruagem. Breuer quis dar ao seu jovem amigo alguns conselhos, mas hesitou, escolhendo as palavras, conhecedor da sensibilidade de Freud.

— Sig, preste atenção. Sei quão desapontador lhe é ingressar na clínica médica. Você deve senti-lo como uma derrota, como uma acomodação com um destino menor. Ontem, no café, não pude evitar escutá-lo criticando Brücke por se recusar a promovê-lo e por aconselhá-lo a abrir mão de suas ambições de uma carreira universitária. Mas não o culpe! Sei que ele o tem no mais alto conceito. Dos próprios lábios dele, ouvi que você é o melhor aluno que jamais teve.

— Então, por que não me promove?

— Promovê-lo a quê? Ao cargo de Exner ou de Fleischl, se é que venham a se aposentar? Por cem Gulden ao ano? Brücke tem razão quanto ao dinheiro! A pesquisa é uma ocupação para homens ricos. Você não pode sobreviver com esse salário. Como vai sustentar os pais? Teria que ficar solteiro pelos próximos dez anos. Talvez Brücke não tenha sido bastante delicado, mas teve razão ao dizer que sua única chance de continuar na pesquisa é conseguir um casamento com um bom dote. Ao propor casa-

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mento a Martha, seis meses atrás, sabendo que não lhe traria nenhum dote, foi você, e não Brücke, quem decidiu seu próprio futuro.

Freud fechou os olhos por um momento antes de responder.

— Suas palavras me ferem, Josef. Sempre senti sua desaprovação de Martha.

Breuer sabia quão difícil era para Freud falar francamente com ele: um homem dezesseis anos mais velho e não apenas seu amigo, mas seu professor, seu pai, seu irmão mais velho. Esticou o braço e tocou a mão de Freud:

— Não é verdade, Sig! Absolutamente! Discordamos apenas quanto à época. Senti que você teria anos demais de duro treinamento pela frente para se sobrecarregar com uma noiva. Mas concordamos quanto a Martha; vi-a apenas uma vez, numa festa, antes da partida de sua família para Hamburgo, e gostei dela imediatamente. Ela me lembra Mathilde naquela idade.

— Isso não me surpreende — a voz de Freud se suavizou. Sua esposa foi meu modelo. Desde que conheci Mathilde, venho procurando uma esposa como ela. A verdade, Josef, diga-me a verdade: se Mathilde fosse pobre, mesmo assim você teria casado com ela?

— A verdade, Sig — e não me odeie por esta resposta, foi há quatorze anos, os tempos mudaram — é que eu teria feito seja lá o que meu pai exigisse de mim.

Freud permaneceu calado ao pegar um de seus charutos baratos e oferecê-lo a Breuer, que, como sempre, o declinou. Enquanto Freud acendia o charuto, Breuer continuou:

— Sig, sei como se sente. Você sou eu. Você sou eu dez, onze anos atrás. Quando Oppolzer, meu chefe na medicina, faleceu subitamente de tifo, minha carreira universitária terminou de maneira tão abrupta, tão cruel como a sua. Também eu me considerava um rapaz altamente promissor. Esperava sucedê-lo. Eu deveria tê-lo sucedido. Todos sabiam disso. Mas

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um gentio foi escolhido em meu lugar. E eu, assim como você, fui forçado a me contentar com menos.

— Então, Josef, você sabe quão derrotado me sinto. É injusto! Veja a cátedra de medicina: Northnagel, aquele bruto! Veja a cátedra de psiquiatria: Meynert! Serei menos capaz? Eu poderia fazer grandes descobertas!

— E as fará, Sig. Onze anos atrás, transferi meu laboratório e meus pombos para a minha casa e continuei minha pesquisa. Isso pode ser feito. Você encontrará um caminho. Mas jamais será o caminho da universidade. Ambos sabemos que não se trata apenas de dinheiro. A cada dia, os anti-semitas ficam mais ousados. Você leu a matéria no Neue Freie Presse desta manhã sobre as fraternidades gentias invadindo as salas de aula e expulsando os judeus? Elas estão ameaçando agora acabar com todas as aulas ministradas por professores judeus. Viu o Presse de ontem? A notícia sobre o processo na Galícia de um judeu acusado de assassinato ritual de uma criança cristã? Eles ousam alegar que ele precisou de sangue cristão para a massa da matzá!* É inacreditável! Estamos em 1882 e a coisa continua! São uns homens da caverna, selvagens com apenas um finíssimo verniz de cristianismo. Por isso você não tem futuro acadêmico! Brücke se dissocia pessoalmente de tal preconceito, é claro, mas quem sabe o que realmente sente? Em particular, ele me contou que o anti-semitismo acabaria destruindo a sua carreira universitária.

— Mas eu nasci para ser pesquisador, Josef. Não tenho a sua aptidão para a clínica médica. Toda Viena conhece sua intuição diagnosticadora. Não tenho esse dom. Pelo resto de minha vida, serei um médico qualquer:

Pégaso preso ao arado!

— Sig, não tenho nenhuma habilidade que não possa lhe ensinar.

Nota de rodapé:

* Pão sem fermento comido pelos judeus na Páscoa. (N. do T.)

Final da nota de rodapé.

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Freud se reclinou para fora do clarão da vela, grato pela escuridão. Jamais se abrira tanto para Josef ou para qualquer outra pessoa, exceto Martha, para quem escrevia diariamente uma carta sobre seus pensamentos e sentimentos mais íntimos.

— Mas, Sig, não descarregue na medicina. Você está sendo cínico. Veja bem os avanços só nos últimos vinte anos, mesmo em neurologia. Pense na paralisia do envenenamento por chumbo, ou na psicose do brometo ou na triquinose cerebral. Eram mistérios vinte anos atrás. A ciência progride lentamente, mas a cada década conquistamos uma nova doença.

Houve um longo silêncio antes que Breuer prosseguisse.

— Mudemos de assunto. Gostaria de lhe fazer uma pergunta. Você está lecionando para muitos estudantes de medicina agora. Já topou com um estudante russo de nome Salomé, Jenia Salomé?

— Jenia Salomé? Acho que não. Por quê?

— Sua irmã veio me ver hoje. Um estranho encontro. — O fiacre atravessou a pequena entrada da Bàckerstrasse 7 e parou subitamente, oscilando sobre suas pesadas molas por um momento. — Chegamos. Contarei o resto lá dentro.

Apearam no imponente pátio século XVI de pedras de cantaria cercado por muros altos recobertos de heras. Em cada lado, sobre arcos livres no nível do solo apoiados por imponentes pilastras, erguiam-se cinco níveis de grandes janelas arqueadas, cada uma contendo uma dúzia de vidraças com molduras de madeira. Quando os dois homens se aproximaram do portal do vestíbulo, um porteiro, sempre a postos, espiou pela pequena almofada de vidro na porta de seu apartamento e, depois, correu para destrancar a porta, saudando-os com uma mesura.

Subiram as escadas, passando pelo consultório de Breuer, no segundo pavimento, até o espaçoso apartamento da família, no terceiro, onde Mathilde esperava. Aos 36 anos, era uma mulher impressionante. Sua pele

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acetinada e corada realçava um nariz finamente esculpido, olhos cinza- azulado e bastos cabelos castanhos, que usava enrolados em uma longa trança no alto da cabeça. Trajando uma blusa branca e um longo vestido cinza, bem justo em volta da cintura, seu talhe era gracioso, embora tivesse dado à luz ao quinto filho apenas poucos meses antes.

Apanhando o chapéu de Josef, escovou os cabelos do marido para trás, com a mão, ajudou-o a retirar o sobretudo e o entregou à serviçal, Aloisia, que chamavam de “Louis” desde que começara a trabalhar para eles, quatorze anos antes. Depois, voltou-se para Freud.

— Sigi, você está encharcado e gelado. Para dentro da banheira! Já aquecemos a água e separei algumas roupas brancas de Josef para você na prateleira. Que prático ambos terem o mesmo tamanho! Jamais consigo oferecer a mesma hospitalidade a Max. — Max, marido de sua irmã Raquel, era enorme, pesando mais de 110 quilos.

— Não se preocupe com Max — disse Breuer. — Compensarei esse problema recomendando-o aos meus pacientes. — Dirigindo-se para Freud, acrescentou: — Mandei a Max outra próstata hipertrofiada hoje. Foram quatro esta semana. Eis um campo para você!

— Não! — interveio Mathilde, pegando Freud pelo braço e levando-o para o banho. — Urologia não é coisa para o Sigi! Limpar bexigas e “canos d’água” o dia inteiro! Ele enlouqueceria em uma semana! — Parou diante da porta. — Josef, as crianças estão jantando. Vá vê-las, mas apenas por um minuto. Quero que você tire uma soneca antes do jantar. Ouvi você se mexendo a noite toda. Você quase não dormiu.

Sem proferir palavra, Breuer se dirigiu para o seu quarto; depois, mudou de idéia e resolveu ajudar Freud a encher a banheira. Ao voltar, viu

Mathilde se inclinar em direção a Freud e sussurrar:

— Está vendo o que eu quis dizer, Sigi, ele quase não fala comigo!

No banheiro, Breuer adaptou o bocal da bomba de petróleo aos tonéis de água quente que Louis e Freud estavam trazendo da cozinha. A maciça

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banheira branca, miraculosamente suportada por graciosas patas de gato de bronze, rapidamente se encheu. Ao deixar o banheiro e atravessar o corredor, ouviu Freud ronronar de prazer ao mergulhar na água tépida.

Deitado na cama, Breuer não conseguiu dormir, pensando nas confidências tão íntimas de Mathilde para Freud. Cada vez mais, Freud parecia alguém da família, agora até jantando com eles várias vezes na semana. De início, o vínculo fora basicamente entre Breuer e Freud: talvez Sig tivesse tomado o lugar de Adolf, seu irmão mais novo, falecido alguns anos antes. Mas, no último ano, Mathilde e Freud tinham se aproximado. A diferença de dez anos permitia a Mathilde o privilégio de uma afeição maternal; ela costumava dizer que Freud lembrava Josef quando ela o conhecera.

Assim — perguntou-se Breuer —, e se Mathilde se desabafa com Freud sobre minha indiferença? Que diferença realmente faz? Provavelmente, Freud já sabe: ele registra tudo que acontece na casa. Como médico diagnosticador, pode não ser tão astuto, mas raramente deixa de perceber o que diz respeito aos relacionamentos humanos. Ele também deve ter notado a avidez das crianças pelo amor de um pai: Robert, Bertha, Margarethe e Johannes acotovelando-se sobre ele aos gritos enlevados de “tio Sigi”, e mesmo a pequena Dora sorrindo sempre que ele aparece. Sem dúvida, a presença de Freud na casa era positiva; Breuer sabia que ele próprio era pessoalmente alheado demais para proporcionar a espécie de presença que sua família precisava. Sim, Freud preenchia sua lacuna e, em vez de vergonha, sentia, na maior parte do tempo, gratidão por seu jovem amigo.

Breuer sabia que não poderia objetar às queixas de Mathilde sobre seu casamento. Ela tinha razões para se queixar! Quase todas as noites, ele trabalhava até meia-noite no laboratório. Passava as manhãs de domingo em seu consultório preparando as conferências vespertinas para estudantes de medicina. Várias noites por semana, permanecia no café até às oito ou

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nove horas, e agora passara a jogar Tarock* duas vezes por semana, em vez de uma. Mesmo a refeição do meio-dia, que sempre fora um horário sagrado, dedicado à família, estava agora sendo desrespeitada. Ao menos uma vez por semana, Josef exagerava nos compromissos e trabalhava pelo almoço adentro. Além disso, nas visitas de Max, trancavam-se no gabinete e jogavam xadrez durante horas.

Desistindo da sesta, Breuer foi à cozinha perguntar pelo jantar. Sabia que Freud adorava longos banhos quentes, mas estava ansioso por fazer a refeição e ainda dispor de tempo para trabalhar no laboratório. Bateu na porta do banheiro.

— Sig, quando tiver terminado, venha ao gabinete. Mathilde concordou em nos servir ali o jantar, em mangas de camisa mesmo.

Freud secou-se rapidamente, vestiu a cueca de Josef, deixou suas roupas de baixo sujas na cesta para serem lavadas e correu a fim de ajudar Breuer e Mathilde a encher as bandejas para a refeição noturna. (Os Breuer, como a maioria dos vienenses, faziam sua refeição principal ao meio-dia e comiam um modesto jantar de restos frios.) A almofada de vidro da porta da cozinha estava embaçada. Ao abrir a porta, Freud foi assaltado pelo aroma quente e maravilhoso da sopa de cevada com cenoura e aipo.

Mathilde, com a concha de sopa na mão, saudou-o:

— Sigi, está tão frio lá fora que preparei uma sopa quente. É disso que ambos precisam.

Freud apanhou a bandeja das mãos dela.

— Apenas dois pratos de sopa? Você não vai comer?

— Quando Josef diz que pretende comer no gabinete, isso geralmente significa que deseja falas a sós com você.

Nota de rodapé:

* Tradicional jogo de cartas a três. (N. do T.)

Final da nota de rodapé.

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— Mathilde — objetou Breuer —, eu não falei nada disso. Sig vai parar de vir aqui se não tiver sua companhia no jantar.

— Não, estou cansada e vocês dois não tiveram nenhum momento a sós esta semana.

Ao atravessarem o longo corredor, Freud entrou nos quartos das crianças para beijá-las e dar-lhes boa-noite; resistiu aos seus pedidos de uma história, prometendo contar duas na próxima visita. Juntou-se a Breuer no gabinete, um aposento com lambris escuros e grande janela central toldada por uma rica cortina de veludo grená. Na parte inferior da janela, entre a vidraça interna e externa, várias almofadas serviam de isolamento. Defronte à janela, numa robusta escrivaninha de nogueira escura, empilhavam-se livros abertos, O chão estava alcatifado por um espesso tapete Kashan* com flores azuis e cor de marfim e três paredes estavam guarnecidas do chão ao teto de estantes atulhadas de livros com pesadas encadernações de couro escuro. Num canto distante do quarto, numa mesa de jogo de estilo Biedermeier** de pernas afiladas com espirais pretas e douradas, Louis já colocara um frango assado frio, uma salada de repolho, sementes de cominho e creme de leite, alguns Seltstangerl (bengalas de pão salgado com sementes de cominho) e Giesshübler (água mineral). Agora, Mathilde apanhou os pratos de sopa da bandeja carregada por Freud, colocou-os na mesa e preparou-se para sair.

Breuer, consciente da presença de Freud, segurou-a pelo braço:

— Fique mais um pouco. Sig e eu não temos segredos para você.

— Já comi algo com as crianças. Vocês dois podem se virar sem mim.

— Mathilde — Breuer tentou ser brando —, você reclama que quase não me vê. Contudo, eis-me aqui e você me abandona.

Nota de rodapé:

* Espécie de tapete persa. (N. do T.)

**Estilo alemão de mobília da primeira metade do século XIX. (N. do T.)

Final da nota de rodapé.

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Ela abanou a cabeça.

— Voltarei num momento com um pouco de Strudel. * — Breuer lançou um olhar suplicante para Freud como para dizer: “Que mais posso fazer?” Um momento depois, enquanto Mathilde fechava a porta atrás de si, observou seu olhar expressivo em direção a Freud, como que para dizer:

“Está vendo no que se transformou nossa vida em comum?” Pela primeira vez, Breuer se conscientizou do embaraçoso e delicado papel que seu jovem amigo tivera que assumir: ser um confidente de ambos os membros de um casal insatisfeito.

Enquanto os dois homens comiam em silêncio, Breuer notou os olhos de Freud esquadrinhando as estantes de livros.

— Devo reservar uma estante para seus futuros livros, Sig?

— Quem me dera! Mas não nesta década, Josef. Não tenho tempo sequer para pensar. A única coisa que um assistente clínico no Hospital Geral de Viena consegue escrever são cartões-postais. Não, eu não estava pensando em escrever livros, mas em ler estes livros. Oh! A incessante labuta do intelectual, despejando todo este conhecimento para dentro do cérebro pela abertura de três milímetros na íris. Breuer sorriu.

— Uma imagem maravilhosa! Schopenhauer e Espinosa destilaram,

condensaram e filtraram através da pupila, ao longo do nervo óptico e diretamente para dentro dos nossos lóbulos occipitais. Adoraria ser capaz de comer com meus olhos; quase sempre, estou cansado demais para leituras sérias.

— E sua soneca? — perguntou Freud. — O que aconteceu com ela? Pensei que você fosse se deitar após o jantar.

Nota de rodapé:

* ‘Torta dc maçã. (N. do T.)

Final da nota de rodapé.

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— Não consigo mais tirar uma soneca. Creio que estou cansado demais para dormir. O mesmo pesadelo me acordou novamente no meio da noite: aquele da queda.

— Conte-me novamente, Josef, exatamente como foi.

— É sempre igual. — Breuer bebeu um copo inteiro de água mineral, largou a faca e reclinou-se para que o alimento se acomodasse. — E é muito vívido; devo ter tido esse sonho dez vezes no último ano. Primeiro, sinto a terra tremer. Fico assustado e saio em busca de...

Ponderou por um momento, tentando lembrar como descrevera o sonho antes. Nele, estava sempre em busca de Bertha, mas havia limites ao que estava disposto a revelar a Freud. Além de embaraçado com sua paixão por Bertha, também não via razão para complicar o relacionamento de Freud com Mathilde através de confidências que ele se sentiria constrangido em não contar a ela.

— . . .em busca de alguém. O chão sob os meus pés começa a se liquefazer, como areia movediça. Afundo lentamente na terra e caio quarenta metros, exatamente isso. Depois, sou detido por uma grande laje. Existe uma inscrição na laje. Tento lê-la, mas não consigo.

— Que sonho interessante, Josef. De uma coisa estou certo: a chave para seu significado é a inscrição indecifrável na laje.

— Se é que o sonho tem algum significado.

— Tem que ter, Josef. O mesmo sonho dez vezes? Sem dúvida, você não deixaria seu sono ser perturbado por algo trivial! A outra parte que me interessa são os quarenta metros. Como você soube que foi precisamente esse número? –

— Eu sei.., mas não sei como sei.

Freud, que como de hábito esvaziara rapidamente o prato, engoliu depressa sua última garfada e disse:

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— Estou certo de que o número é exato. Afinal, você concebeu o sonho! Você sabe, Josef, continuo coletando sonhos e, cada vez mais, acredito que números precisos nos sonhos sempre têm um significado real. Tenho um novo exemplo que creio ainda não lhe ter contado. Na última semana, oferecemos um jantar para Isaac Schónberg, um amigo de meu pai.

— Conheço-o. É o filho dele Ignaz, não é, que está interessado na irmã de sua noiva?

— Sim, é ele, e está mais do que “interessado” em Minna. Bem, Isaac estava fazendo sessenta anos e descreveu um sonho que tivera na noite anterior. Ele estava percorrendo uma longa e escura estrada e tinha sessenta moedas de ouro no bolso. Como você, estava totalmente certo daquela cifra exata. Tentava segurar as moedas, mas elas caíam por um buraco no bolso e estava escuro demais para achá-las. Bem, não acredito que tenha sido coincidência ele ter sonhado com sessenta moedas em seu sexagésimo aniversário. Tenho certeza — e como poderia ser de outra forma? — de que as sessenta moedas representam seus sessenta anos.

— E o buraco no bolso? — perguntou Breuer, apanhando uma segunda coxa de frango.

— O sonho deve ser um desejo de perder os anos e se tornar mais jovem

— respondeu Freud, apanhando também outro pedaço de frango.

— Ou então, Sig, pode ser que o sonho tenha expressado um temor: o temor de que seus anos estejam acabando e de que logo não restará mais nenhum! Lembre-se de que ele estava em uma longa e escura estrada tentando recuperar algo que perdera.

— Sim, também acho. Talvez os sonhos possam exprimir quer desejos, quer temores. Ou talvez ambos. Mas diga-me, Josef, quando teve esse sonho pela primeira vez?

— Vejamos. — Breuer recordou que a primeira vez foi logo depois que começara a duvidar se seu tratamento conseguiria ajudar Bertha e, em uma

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discussão com Frau Pappenheim, aventara a possibilidade de Bertha ser transferida para o Sanatório Beilevue, na Suíça. Isso se deu mais ou menos no início de 1882, quase um ano antes, conforme contou a Freud.

— Não foi em janeiro último que estive em seu jantar de quarenta anos junto com toda a família Altmann? — perguntou Freud. — Assim, se você tem tido esse sonho desde então, não se segue que os quarenta metros significam quarenta anos?

— Bem, em poucos meses, farei 41. Se você está certo, eu não deverei cair 41 metros no sonho, a partir de janeiro próximo?

Freud gesticulou com os braços.

— Daqui para a frente, precisamos de um especialista. Cheguei aos limites de minha teoria dos sonhos. Será que um sonho, depois de sonhado, acomodará mudanças na vida do sonhador? Uma pergunta fascinante! De qualquer forma, por que os anos se disfarçam em metros? Por que o pequeno criador de sonhos residente em nossas mentes se dá a todo esse trabalho para disfarçar a verdade? Meu palpite é que o sonho não mudará para 41 metros. Creio que o criador de sonhos temeria que, ao mudá-lo em um metro a cada aniversário, torná-lo-ia transparente demais, revelaria o código do sonho.

— Sig — Breuer deu um risinho, ao limpar a boca e o bigode com seu guardanapo —, é aqui que nós sempre divergimos. Quando você começa a falar de outra mente separada, um elfo sensível dentro de nós inventando sonhos sofisticados e escondendo-os de nossa mente consciente... isso me parece ridículo.

— Concordo, realmente parece ridículo; porém, veja as provas disso, veja todos os cientistas e matemátjcos que relataram terem solucionado importantes problemas nos sonhos! E, Josef, não existe outra explicação. Por mais ridículo que pareça, tem que existir uma inteligência separada e inconsciente. Tenho certeza...

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Mathilde entrou com uma jarra de café e duas fatias de torta de maçã com passas coberta por um montículo de creme chantilly.

— De que você está tão certo, Sigi?

— Minha única certeza é que queremos que você se sente e fique um pouco aqui. Josef ia descrever um paciente de quem tratou ontem.

— Sigi, não posso. Johannes está chorando e, se eu não for acalmá-lo, acordará os outros.

Assim que ela partiu, Freud se voltou para Breuer:

— Agora, Josef, e quanto ao estranho encontro com aquela irmã do estudante de medicina?

Breuer hesitou, reunindo os pensamentos. Desejava discutir com Freud

a proposta de Lou Salomé, mas temia que provocasse uma discussão excessiva do seu tratamento de Bertha.

— Bem, o irmão dela lhe contou sobre meu tratamento de Bertha Pappenheim. Agora, ela quer que eu aplique o mesmo tratamento a um amigo dela que está emocionalmente perturbado.

— Como foi que esse estudante de medicina, esse tal de Jenia Salomé, veio a saber de Bertha Pappenheim? Você sempre relutou em conversar comigo sobre esse caso, Josef. Não sei nada sobre ele, afora o fato de que você recorreu ao mesmerismo.

Breuer teve a impressão de ter detectado um traço de ciúme na voz de

Freud.

— Sim, não falei muito sobre Bertha, Sig. A família dela é conhecida demais na comunidade. Evitei especialmente falar com você depois que soube que Bertha é amicíssima da sua noiva. Porém, alguns meses atrás, dando-lhe o pseudônimo de Anna O., descrevi brevemente seu tratamento em uma conferência para alunos de medicina.



Freud se inclinou curioso em sua direção.

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— Nem queira saber quão curioso estou sobre os detalhes de seu novo tratamento, Josef. Você não poderia ao menos me relatar o que disse aos alunos de medicina? Você sabe que sei guardar segredos profissionais, mesmo de Martha.

Breuer hesitou. Até que ponto contar? Sem dúvida, muita coisa Freud já sabia. Certamente, durante meses, Mathilde não guardara segredo de seu aborrecimento com o tempo excessivo que o marido dedicava a Bertha. Além disso, Freud estivera presente na casa no dia em que Mathilde finalmente explodiu de raiva e proibiu Breuer de, dali em diante, mencionar o nome de sua jovem paciente na presença dela.

Felizmente, Freud não testemunhara a cena catastrófica final de seu tratamento de Bertha! Breuer jamais esqueceria daquele dia terrível em que foi à casa da paciente e a encontrara à volta com as dores de um parto imaginário, proclamando alto e bom som: “Está chegando o bebê do doutor Breuer!” Quando Mathilde soube disso — esse tipo de notícia logo se espalha entre as donas-de-casa judias —, exigiu que Breuer transferisse imediatamente o caso de Bertha para outro médico.

Teria Mathilde contado tudo isso para Freud? Breuer não queria perguntar. Não agora. Talvez mais tarde, quando a poeira tivesse se assentado.

Desse modo, escolheu suas palavras com cuidado:

— Bem, você sabe, é claro, Sig, que Bertha tinha todos os sintomas típicos da histeria: distúrbios sensoriais e motores, contrações musculares, surdez, alucinações, amnésia, afonia, fobias, bem como manifestações incomuns. Por exemplo, tinha alguns distúrbios lingüísticos bizarros, sendo incapaz, às vezes durante semanas a fio, de falar alemão, especialmente de manhã. Nessas ocasiões, conversávamos em inglês. Ainda mais bizarra era sua dupla vida mental: uma parte dela vivia no presente; a outra parte dela respondia emocionalmente a eventos ocorridos exatamente um ano antes, conforme descobrimos ao examinar o diário da mãe do ano anterior.

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Ela também sofria de uma grave nevralgia facial, controlável apenas através da morfina. E, é claro, tornou-se viciada.

— Você a tratou com mesmerismo? — perguntou Freud.

— Essa era minha intenção original. Planejei seguir o método de Liebault de remover os sintomas através da sugestão hipnótica. Mas, graças a Bertha

— ela é uma mulher extraordinariamente criativa —, descobri um princípio de tratamento inteiramente novo. Nas primeiras semanas, visitava-a diariamente e, invariavelmente, encontrava-a em um estado tão agitado, que não havia muito que fazer. Mas então, constatamos que ela conseguia descarregar sua agitação descrevendo-me em detalhe cada evento aborrecedor do dia.

Breuer parou e fechou os olhos para reunir os pensamentos. Ele sabia que esse caso era importante e queria incluir todos os fatos significativos.

— O processo levou tempo. Com freqüência, Bertha precisava de uma hora todas as manhãs, o que chamava de “limpeza da chaminé”, apenas para limpar sua mente dos sonhos e das fantasias desagradáveis e, depois, em meu retorno à tarde, novas irritações haviam se acumulado e exigiam uma nova limpeza de chaminé. Somente depois de limparmos esse entulho diário da mente dela, conseguíamos passar para a tarefa de aliviar seus sintomas mais duradouros. Nesse ponto, Sig, topamos com uma descoberta surpreendente!

Ante o tom portentoso de Breuer, Freud, que acendera um charuto, gelou e, na ânsia de escutar as próximas palavras do amigo, deixou o fósforo queimar-lhe o dedo.

— Ach, mein Gott!* — exclamou, livrando-se do fósforo e chupando o dedo. Prossiga, Josef, a descoberta surpreendente foi...?

Nota de rodapé:

* “Oh! Meu Deus!” Em alemão, no original. (N. do T.)

Final da nota de rodapé.

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— Bem, descobrimos que, quando ela retrocedia até a fonte exata de um sintoma e a descrevia para mim, o sintoma desaparecia por si próprio

— sem necessidade de qualquer sugestão hipnótica.

— Fonte? — perguntou Freud, agora tão fascinado, enquanto punha o charuto no cinzeiro e o deixava ali, queimando e esquecido. — O que você quer dizer, Josef, com fonte do sintoma?

— O irritante original, a experiência que deu origem a ele.

— Por favor! — Freud suplicou. — Um exemplo.

— Falarei sobre a hidrofobia dela. Bertha não conseguira ou não quisera beber água durante várias semanas. Sentia uma sede enorme, mas, ao apanhar um copo d’água, não conseguia beber e era forçada a matar a sede com melões e outras frutas. Um dia, em um transe — ela se auto-hipnotizava e entrava automaticamente em transe a cada sessão —, recordou como, semanas antes, entrara no quarto da dama de companhia e testemunhara o cão bebendo água do copo dela. Assim que descreveu essa lembrança para mim, ao mesmo tempo em que descarregava toda sua raiva e nojo, pediu um copo d’água e bebeu sem dificuldade. O sintoma nunca mais voltou.

— Notável, notável! — exclamou Freud. — E então?

— Logo estávamos atacando todos os outros sintomas dessa mesma forma sistemática. Vários sintomas — por exemplo, sua paralisia no braço e suas alucinações visuais de caveiras e cobras — tinham como base o choque pela morte do pai. Ao descrever todos os detalhes e as emoções daquela cena — para estimular sua recordação, cheguei a pedir que dispusesse a mobília como estivera por ocasião da morte dele —, todos esses sintomas se dissolveram imediatamente.

— Maravilha! — Freud se levantara e estava andando de entusiasmo.

— As implicações teóricas são fantásticas. E inteiramente compatíveis com a teoria helmholtziana! Uma vez descarregada a carga elétrica cerebral excessiva responsável pelos sintomas através da catarse emocional, os sinto-

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mas se conduzem apropriadamente e de pronto desaparecem! Mas você parece tão calmo, Josef. Essa é uma notável descoberta. Você precisa publicar esse caso.

Breuer suspirou profundamente.

— Quem sabe, um dia? Mas agora não é o momento. Existem complicações pessoais demais. Tenho que considerar os sentimentos de Mathilde. Talvez agora que descrevi o procedimento de meu tratamento, você reconheça quanto tempo tive que investir no tratamento de Bertha. Bem, Mathilde simplesmente não conseguiu ou não quis entender a importância científica do caso. Como você sabe, ela ficou ressentida com as horas que gastei com Bertha; aliás, continua tão zangada, que se recusa a falar comigo a respeito.

— Além disso — continuou Breuer —, não posso publicar um caso que terminou tão mal, Sig. Por insistência de Mathilde, afastei-me do caso e transferi Bertha para o sanatório de Binswanger, em Kreuzlingen, em julho último. Ela continua sob tratamento lá. Tem sido difícil afastá-la da morfina, e, ao que parece, alguns de seus sintomas, como a incapacidade de falar alemão, retornaram.

— Mesmo assim — Freud tomou cuidado para evitar o tópico da raiva de Mathilde —, o caso abre novas fronteiras, Josef. Ele poderia revelar toda uma nova abordagem de tratamento. Você poderia descrevê-lo para mim quando tivermos mais tempo? Gostaria de conhecer cada detalhe.

— Será um prazer, Sig. No meu consultório, tenho uma cópia do sumário que mandei para Binswanger... cerca de trinta páginas. Você poderá começar por sua leitura.

Freud consultou seu relógio.

— Ih! Está tarde e você ainda não me contou a história da irmã desse estudante de medicina. A amiga dela, aquela que ela quer que você trate com sua nova terapia através da conversa, é uma histérica? Com sintomas como os de Bertha?

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— Não, Sig, é aqui que a história se torna interessante. Não há histeria e o paciente não é “uma amiga”. É um homem que está, ou esteve, apaixonado por ela. Ele caiu em uma dor-de-cotovelo suicida quando ela o trocou por outro homem, um ex-amigo dele! Obviamente, ela se sente culpada e não quer o sangue dele em sua consciência.

— Mas Josef— Freud pareceu chocado —, dor-de-cotovelo! Isso não é um caso médico.

— Essa também foi minha reação inicial. Exatamente o que disse a ela. Mas espere até ouvir o resto. A história melhora. O amigo dela, aliás um exímio filósofo e amigo íntimo de Richard Wagner, não quer ajuda ou ao menos é orgulhoso demais para pedi-la. Ela quer que eu seja um mágico. Sob o disfarce de uma consulta comigo sobre o estado clínico dele, quer que eu sorrateiramente o cure do sofrimento psicológico.

— Impossível! Certamente, Josef, você não vai se meter nisso.

— Infelizmente, já me meti.

— Por quê? — Freud apanhou novamente o charuto e inclinou-se para a frente, franzindo as sobrancelhas em sua preocupação com o amigo.

— Eu mesmo não sei exatamente, Sig. Depois que abandonei o caso de Pappenheim, tenho me sentido inquieto e estagnado. Talvez eu precise de uma distração, um desafio como esse. Mas existe outra razão pela qual aceitei o caso! A verdadeira razão! Essa irmã do estudante de medicina é incrivelmente persuasiva. É impossível dizer não para ela. Que grande missionária seria! Creio que conseguiria converter um cavalo em uma galinha. Ela é extraordinária, não sei como descrever. Talvez um dia você a conheça. Aí você verá.

Freud se ergueu, espreguiçou-se, andou até a janela e abriu de par em par as cortinas de veludo. Incapaz de-enxergar através do vapor no vidro, secou uma pequena parte com seu lenço.

— Ainda chove, Sig? — perguntou Breuer. — Devemos chamar Fischmann?

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— Não, está quase parando. Caminharei. Mas tenho outras perguntas sobre esse novo paciente. Quando você o verá?

— Ainda não tenho idéia. Eis outro problema. Frãulein Salomé e ele estão brigados agora. Aliás, ela me mostrou uma de suas cartas furiosas. Não obstante, ela me garante que “fará” com que ele venha me consultar por seus problemas médicos. E não tenho dúvida de que, nisso e em todo o resto, ela fará exatamente o que planejar.

— A natureza dos problemas médicos desse homem justifica uma consulta clínica?

— Sem dúvida. Ele está muito doente e já se consultou com mais de vinte médicos, muitos com excelente reputação. Ela me desfiou uma longa lista de seus sintomas: graves dores de cabeça, cegueira parcial, náusea, insônia, vômitos, grave indigestão, problemas de equilíbrio, fraqueza.

Ao ver Freud sacudir a cabeça perplexo, Breuer acrescentou:

— Se você pretende se dedicar à clínica médica, tem que se acostumar com esses quadros desconcertantes. Pacientes polissintomáticos e que pulam de médico em médico fazem parte do dia-a-dia de minha clínica. Aliás, Sig, você poderá aprender muito com esse caso. Eu o manterei informado.

— Breuer refletiu por um momento. — Que tal um rápido exercício de um minuto? Até agora, com base apenas nesses sintomas, qual é seu diagnóstico diferencial?

— Não sei, Josef, os sintomas não combinam entre si.

— Não seja tão cauteloso. Dê um palpite. Pense em voz alta.

Freud enrubesceu. Por maior que fosse sua sede de conhecimento, detestava exibir ignorância.

— Talvez esclerose múltipla ou um tumor na parte occipital do cérebro. Envenenamento por chumbo? Simplesmente não sei.

Breuer acrescentou:

— Não esqueça a hemicrania. E quanto à hipocondria delirante?

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— O problema — disse Freud — é que nenhum desses diagnósticos explica todos os sintomas.

— Sig — disse Breuer, levantando-se e falando em um tom confiante

—, vou lhe revelar um segredo profissional. Um dia será seu ganha-pão como clínico. Aprendi-o com Oppolzer, que uma vez me revelou: “Os cães podem ter pulgas e piolhos também.”

— Significando que o paciente pode...

— Isso! — interrompeu Breuer, pondo o braço sobre os ombros de Freud. Os dois homens começaram a percorrer o longo corredor. — O paciente pode ter duas doenças. Na verdade, os pacientes que consultam um médico geralmente as têm.

— Voltemos ao problema psicológico, Josef. Sua Frãulein diz que esse homem não reconhece o sofrimento psicológico dele. Se ele sequer admitir ser um suicida potencial, como você fará?

— Isso não deve constituir um problema — respondeu Breuer confiante. — Quando preparo uma anamnese, sempre encontro oportunidades de me esgueirar no domínio psicológico. Ao indagar sobre insônia, por exemplo, muitas vezes pergunto que tipos de pensamentos mantêm o paciente desperto. Ou, após o paciente recitar a ladainha de seus sintomas, costumo me mostrar solidário e pergunto, como que casualmente, se se sente desencorajado pela doença, se sente vontade de desistir ou se não quer mais viver. Com isso, raramente deixo de persuadir o paciente a me contar tudo.

Na porta de entrada, Breuer ajudou Freud a vestir o casaco.

— Não, Freud, esse não é o problema. Garanto-lhe que não terei dificuldade em ganhar a confiança de nosso filósofo e em fazer com que confesse tudo. O problema é: que fazer com o que eu ouvir?

— Sim, quefará se ele for um suicida potencial?

— Se eu me convencer de que ele pretende se suicidar, farei com que seja imediatamente internado: seja no asilo de lunáticos, em Brünnlfeld,

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ou talvez em um sanatório particular como o de Breslauer em Inzerdorf. Mas Sig, esse não será o problema. Pense bem: se ele planejasse realmente o suicídio, dar-se-ia ao trabalho de se consultar comigo?

— É claro! — Freud, aparentemente perturbado, deu um tapinha na parte do lado da cabeça como castigo pela lerdeza de raciocínio.

Breuer continuou:

— Não, o problema real será o que fazer com ele caso não seja um suicida, caso esteja apenas sofrendo grandemente.

— Sim — disse Freud —, e aí?

— Nesse caso, terei que persuadi-lo a procurar um sacerdote. Ou talvez a uma longa estadia no balneário de Marienbad. Ou inventar um modo de tratá-lo pessoalmente!

— Inventar um modo de tratá-lo? O que você quer dizer, Josef? Que espécie de modo?

— Mais tarde, Sig. Conversaremos mais tarde. Agora, vá embora! Não fique nesta sala aquecida com este casaco pesado.

Assim que Freud saiu pela porta, olhou para trás.

— Qual é mesmo o nome desse filósofo? Alguém de quem eu tenha ouvido falar?

Breuer hesitou. Lembrando-se da ordem de Lou Salomé de guardar segredo, irrefletidamente inventou para Friedrich Nietzsche um nome segundo o mesmo código pelo qual Anna O. representava Bertha Pappenheim.

— Não, ele é desconhecido. O nome é Müller, Eckart Müller.

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Capítulo 4

Duas semanas mais tarde, Breuer estava sentado em seu consultório, vestindo seu jaleco branco e lendo uma carta de Lou Salomé:

23 de novembro de 1882




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