Quando chega a hora zibia Gasparetto Ditado pelo espírito Lucius Editora Vida e Consciência Prólogo Nico era um menino ágil, esperto, sempre atento e disposto a tirar proveito de tudo quanto acontecesse ao seu redor



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Encontro05.07.2018
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QUANDO CHEGA A HORA Zibia Gasparetto Ditado pelo espírito Lucius Editora Vida e Consciência Prólogo Nico era um menino ágil, esperto, sempre atento e disposto a tirar proveito de tudo quanto acontecesse ao seu redor. Se via alguma mulher com pacotes, oferecia-se para carregá-Ios; se alguém estava se mudando, lá ia ele oferecer-se para ajudar. Quando não tinha nada para fazer, costumava ficar na porta dos armazéns observando as pessoas, à espera de poder ser útil. Uns níqueis aqui, outros ali, ele sempre conseguia juntar algum dinheiro com o qual comprava os cadernos para a escola e ainda sobrava um pouco para a entrada da matinê do domingo no cinema onde muitas vezes trabalhava como lanterninha quando o dinheiro não dava para comprar o ingresso. Quando ia ajudar nas mudanças, ganhava muitos objetos, e os levava para casa, onde sempre tinham alguma utilidade. Aos nove anos, Nico era o segundo filho entre cinco irmãos de uma família muito pobre. O pai não era muito dado ao trabalho e gastava suas tardes no bar da esquina jogando baralho com os amigos. Era a mulher Ernestina, lavando roupas para fora, quem mantinha a família. Quando alguém lhe dizia: - Por que o Jacinto não trabalha? Ela respondia resignada: - Ele não pode. Tem um problema de saúde. Não serve pra nada. E muitas vezes a pessoa retrucava: - Qual nada, Dona Ernestina. Ele é preguiçoso! Ah, se fosse o meu marido! Teria que se virar! Onde já se viu? Ernestina dava de ombros e não respondia. Estava habituada àquela vida. Casara-se muito cedo: ele, com trinta anos; ela, com treze. Seu pai lhe dissera: - Você vai casar com ele. Já acertamos tudo. - Mas, pai, eu nem conheço ele direito! - Fica conhecendo, ora essa! Ele é um bom partido. Um homem que já tem um pedaço de terra, tudo plantado, tem fartura. Sabia que a terra é dele? O pai já passou tudo pra ele. Você vai ficar bem. Ela obedeceu. Como não obedecer? Educada de maneira dura, jamais podia dizer não aos pais. Durante o primeiro ano de casamento, quando o pai de Jacinto ainda estava vivo, tudo foi muito bom. Ela era bem tratada, não lhe faltava nada. 13 Quando nasceu o primeiro filho, deram uma festa: mataram um leitão, fizeram bolo, abriram um garrafão de vinho. A vida parecia-lhe fácil, até o dia em que o pai de Jacinto ficou doente. Sua esposa tratou dele, levaram-no ao médico da cidade, mas nada deu jeito. Ele morreu. Depois disso, tudo foi se modificando. Dona Edinete, sem o marido, ficou triste, deu para beber, ficando fechada no quarto por dias e dias. Ernestina teve de assumir a direção da casa. Muitas vezes tentou fazer com que Jacinto cuidasse da plantação, mas ele alegava que se sentia mal, que não gostava do cabo da enxada e que sua saúde era delicada. Apesar da saúde delicada, ele conseguia um filho por ano e logo ela estava com cinco filhos. Como ele não cuidava da plantação, o mato começou a crescer, e Ernestina não dava conta de cuidar da família e também da plantação. Quando muito, conseguia criar as galinhas e aproveitar as frutas que cultivavam no pomar. Teve de aprender. Não queria mais filhos. Foi procurar um curandeiro, que lhe deu alguns remédios com os quais evitava engravidar. Foi então que começou a pegar roupas de fora para lavar. Não tinha dinheiro para mandar os meninos à escola. Mas Nico queria aprender a ler. Já o mais velho, José, não se importava. Ficava jogando bola o dia inteiro, não ajudava nem a olhar os irmãos. Era Nilce, um ano mais nova que Nico, quem tomava conta dos pequenos enquanto Ernestina cuidava da roupa. Era Nico quem a ajudava mais. Além das coisas que ganhava das pessoas, conseguia comprar pão e até café. - Quando eu crescer, mãe, vou ganhar muito dinheiro e morar na cidade. Você vai ver! Ela ria, balançava a cabeça e não respondia. Quem nasce pobre morre pobre!, pensava. Mas não falava isso para ele. Para quê? Era uma criança, e não tinha de conhecer a dureza da vida antes do tempo. Ele continuava sempre bem-disposto, alegre, procurando aproveitar o tempo de forma lucrativa. Enquanto seu irmão se divertia nadando na lagoa ou jogando bola com os amigos, Nico perambulava em busca de uma oportunidade pelas ruas de Sertãozinho, pequena cidade do interior de São Paulo, onde viviam. As pessoas gostavam dele, sempre alegre e disposto a ajudar. Muitas vezes lhe davam guloseimas, alguns até mandando alguma coisa para sua família. - Ele nem parece filho do Jacinto! - diziam as comadres. 14 - Ele puxou a mãe. Ela, sim, é mulher trabalhadeira! Não sei como sustenta aquele vagabundo do marido. - E a sogra, então? Um horror! Vive envergonhando todo mundo. Outro dia ela bebeu e saiu pra rua semidespida. Precisou Ernestina pegar ela à força e levar pra dentro. Uma vergonha! Se não fosse a Aurora ajudar, nem sei o que tinha acontecido. Ela ia acabar tirando a roupa toda na rua! - Coitada da Ernestina! Uma mulher tão séria, tão educada! Nico chegou em casa tarde e perguntou: - Mãe, ainda tem janta? Ela foi à cozinha e respondeu: - Deixei um prato pra você no fogão. Por que veio tão tarde? - Fui ajudar o Seu Aurélio. Ele pegou um serviço na mansão. - Na mansão? - É. Sabia que vão reformar? Gente muito rica da capital. Vão se mudar assim que estiver pronta. - Tem certeza? - Tenho. O Seu Aurélio foi contratado para cuidar do jardim e ele pediu para eu ajudar. Vai pagar bem. É que eles têm pressa de aprontar tudo, e tem muito trabalho lá. - Por que será que eles querem vir morar aqui no interior? Gente rica e da cidade! - Não sei. O que sei é que veio muita gente de São Paulo e estão trabalhando para aprontar tudo. Você precisava ver o rebuliço. Tem pedreiro, carpinteiro, pintor, tudo. Fiquei louco de vontade de entrar na mansão. - É melhor não. Dizem que é assombrada. - Não acredito. Isso é conversa do povo. - Está fechada desde que o coronel morreu. O Nestor jura que viu a alma dele vagando por lá. - Bobagem. O povo é ignorante, fala demais. Uma voz vinda de trás de Nico interrompeu a conversa: - Olha só quem fala! O que você sabe da vida? Nico voltou-se. Jacinto estava na porta olhando-o provocador. Os dois não se davam bem. Nico escapava do pai sempre que podia. Tinha sua própria opinião sobre ele e não gostava de expô-Ia. Achava-o preguiçoso e envergonhava-se de vê-Io no bar jogando enquanto sua mãe trabalhava duro para conseguir algum dinheiro. 15 Apesar de não dizer nada, seu olhar irritava o pai. A esperteza do menino, sempre bem-disposto, trabalhando o dia inteiro, incomodava-o. Parecia-lhe que ele fazia isso só para irritá-lo. Por que ele não era como José? Esse, sim, era um menino como os outros. Nico não respondeu. Apanhou o prato e foi comer no quintal. Gostava de sentar-se em um caixote que colocara sob uma mangueira. A noite estava estrelada e ele gostava de olhar para o céu, imaginando o que haveria atrás daquele manto de estrelas. Seria o paraíso mesmo, como dizia o vigário? Seriam outros mundos, como ele vira naquela revista que ganhara outro dia? Enquanto comia, pensava: eles falavam em discos voadores. E se um disco voador do outro mundo descesse em seu quintal, o apanhasse e levasse para conhecer outros planetas? Sentiu um arrepio de medo, mas ao mesmo tempo empolgou-se. Que aventura! Ele iria, com certeza. Não teria nem um pouco de medo. Acabou de comer, mas ficou ainda algum tempo olhando o céu, imaginando como seriam suas aventuras nesses mundos desconhecidos. Sua mãe chamou-o para dormir. Ele obedeceu. Prometera estar na mansão antes das sete da manhã para ajudar Aurélio com o jardim. Esse era um trabalho que ele conhecia bem. Havia algum tempo ele cultivava um pedaço de terra, plantando algumas verduras que vendia, e o dinheiro ajudava-o a manter-se na escola. Entrou, colocou o prato na pia, lavou-o, enxugou-o e guardou-o. Depois, lavou o rosto e foi se deitar. Mas ainda ficou algum tempo imaginando sua viagem em um disco voador e sua aventura em outros planetas. Em meio aos seres criados por sua fantasia, ele finalmente conseguiu adormecer. 16 Capítulo 1 O galo cantou e Nico pulou da cama. Foi ao banheiro, lavou-se, penteou os cabelos, trocou de roupa e foi à cozinha. Era muito cedo, mas Ernestina já havia coado o café. O menino apanhou uma caneca e serviu-se direto do coador, adoçou o café, e, apanhando um pedaço de pão, foi sentar-se embaixo da mangueira. Enquanto tomava o café, aspirava com prazer o cheiro gostoso das plantas, olhando o céu que o amanhecer matizava, criando caprichosos desenhos. Ele gostava de ver o dia clarear, de sentir a brisa fresca e o silêncio apenas quebrado pelo chilrear dos pássaros. Enquanto os outros dormiam, ele podia usufruir da calma e da companhia da mãe, que, como ele, madrugava. Ernestina pegou sua caneca de café e aproximou-se. - É cedo ainda. Podia ter dormido mais. - Não quero perder a hora. Sente um pouco aqui. Afastou-se para que ela se acomodasse. Ficaram silenciosos tomando o café. Gostavam de ficar assim, lado a lado, sem conversar. De repente, Nico indagou: - Você conheceu o coronel? - Não. Tua avó contava que ele era muito bravo. Mandou a filha embora de casa, prendeu a mulher no quarto e nunca mais deixou sair. - Por que será que ele fez isso? - Foi briga. A filha se meteu com um colono e ficou esperando filho. O coronel expulsou ela, e a mãe queria ir atrás. Então ele prendeu ela. - E o moço? - Ninguém sabe. O coronel mandou matar, e ele fugiu que nunca mais ninguém soube dele. - E depois? - A moça sumiu. Alguns dizem que ela voltou e que ele mandou prender ela também; outros, que ela morreu quando o filho nasceu. Mas ninguém sabe ao certo. A mulher do coronel morreu dez anos depois e ele ficou sozinho na mansão. Diziam que ele não estava bom da cabeça e que a alma da mulher vinha atormentar ele pra se vingar. Ele andava pelos jardins falando sozinho, brigando com todo mundo, um horror. - Ele ficou louco? 17 - Dizem que sim. Foi de ruindade. Deu um trabalho danado, não queria morrer de jeito nenhum. Foi preciso o vigário rezar muito, pedir pra ele fechar os olhos. Já não falava coisa com coisa e não morria, estava velho, magro, acabado. Dizem que nem a morte queria levar ele. - Se todos morreram e ninguém sabe da filha nem do neto dele, quem ficou sendo dono da mansão quando ele morreu? - Um irmão que morava na cidade. Eles não se davam, mas ele herdou tudo. Era da lei. - Eles nunca vieram na mansão? - Vieram. Foi aí que as coisas começaram a acontecer. Eles arrumaram tudo, pintaram e vieram passar as férias. A família inteira. Mas logo os empregados começaram a ver as almas penadas e contaram pra todo mundo. - Será verdade mesmo? - Eu acredito. Apesar do emprego ser bom, deles pagarem bem, ninguém quis ficar lá. Eles acabaram indo embora antes do tempo. Depois disso, tentaram voltar algumas vezes, mas os fantasmas expulsaram todos. - Não acredito nessas coisas. - Eu não desafio. Cruz credo! Deus nos livre! - disse Ernestina, persignando-se. - E você, que vai lá, é melhor respeitar. A casa é assombrada mesmo, e os fantasmas não querem que ninguém more na casa. Por mim você não ia. - Pois eu vou. Não tenho medo dessas coisas. - Então não entra na mansão. Fica só no jardim. Se acontecer alguma coisa, fica fácil sair correndo. Nico sorriu malicioso: - Se algum fantasma aparecer, vou perguntar o que ele quer. - Deus nos livre! Já pensou se ele vem atrás de você? - Eu arranjo uma cruz e o espanto. O vigário disse que é assim que se espantam as almas que vêm atormentar. Ernestina balançou a cabeça negativamente: - Não confie nisso, não. Sei de casos que a cruz não valeu de nada. - O vigário está mentindo? - Isso não. Mas já percebi que ele não sabe de tudo. Tem coisas que ele pensa de um jeito e são de outro. - Nesse caso ele não devia ser vigário. - Ele entende das coisas da religião, mas fora disso é um homem como os outros. Tem suas fraquezas. Nós precisamos entender. Ele não é um santo. 18 Nico ficou calado pensando. Santo devia ser mais sábio, conhecer todos os segredos da vida. Devia saber o que haveria nas estrelas do céu e nos mundos que ele sonhava conhecer um dia. Ernestina levantou-se e foi até a cozinha. Nico ficou um pouco mais. Quando achou que era hora, deixou a caneca na pia e saiu rumo à mansão. Era distante, e ele foi caminhando pensando em sua conversa com a mãe. Não acreditava em fantasmas, mas, se a alma do coronel aparecesse, ele não teria medo. Já que a cruz podia não adiantar nada, ele precisava pensar em outra coisa. Correr é que ele não correria. Se existisse alma do outro mundo mesmo, ele tentaria conversar e saber o que ela queria. Afinal ele nem conhecera as pessoas da família do coronel, não tinha nada com isso e não havia razão para que o fantasma dele o perseguisse. A mansão, como era conhecida na cidade, era um casarão de uma antiga fazenda de café que o proprietário loteara, tendo ficado com a casa construída no meio de um terreno de três mil metros quadrados, rodeada de um imenso jardim e um pequeno pomar, cercada por um muro alto que terminava em duas colunas em cima das quais havia duas esculturas de bronze voltadas para os portões de ferro trabalhado, a entrada principal. A outra, a de serviço, ficava na rua de trás. Nico foi o primeiro a chegar. Deu uma volta para ver se Aurélio já havia chegado. Como não viu ninguém, sentou-se na calçada em frente ao portão principal, esperando. Seus olhos curiosos examinavam todos os detalhes da propriedade, tentando imaginar como teria sido a vida na mansão antes de acontecer a desgraça da família. Pensava que era bobagem uma pessoa que possuía uma casa tão bela não saber aproveitar. Se aquela casa fosse sua, ele se sentiria muito feliz. Não pensava no dinheiro que ela valia, mas na alegria de poder morar em um lugar tão bonito, de acordar todos os dias naquele jardim maravilhoso. Era verdade que agora o jardim estava feio, as plantas secas, o mato crescendo livremente, mas ele podia ver as árvores e imaginar como teria sido. Aurélio chegou com mais um rapaz e arrancou Nico de seus devaneios. Vendo-o, o jardineiro sorriu satisfeito. - Chegou cedo - foi dizendo. - Assim é que eu gosto. Vamos começar logo e aproveitar o tempo. Dirigiu-se ao portão de ferro e tocou a sineta. Logo apareceu o caseiro, com as chaves. Depois dos cumprimentos, Aurélio tomou para os dois ajudantes: - Subam na caminhonete. Vamos descarregar tudo lá dentro. 19 Sentado no banco da caminhonete, Nico sentia o coração bater forte. Finalmente estava entrando na mansão. Quantas vezes havia parado em frente daqueles portões imaginando como seria lá dentro? Agora poderia matar a curiosidade. A estrada saía dos portões em forma de um semicírculo que se fechava em frente à porta de entrada da casa, sobre a qual havia uma grande marquise de ferro trabalhado e de vidro, rematadas por algumas colunas sobre as quais havia acabamento de luminárias de ferro. Nico desejou que a caminhonete passasse por baixo daquela cobertura. Ele queria ver melhor a porta de entrada, mas Aurélio não fez a curva, continuou indo até parar nos fundos, em frente às acomodações de fora. Descarregaram a caminhonete e Aurélio foi avisado de que logo o engenheiro estaria chegando para mostrar a planta de como os jardins deveriam ser. Como eles queriam iniciar logo, Aurélio determinou que começassem a tirar o mato de perto dos muros. O engenheiro chegou acompanhado de outros homens e chamou Aurélio para conversar. Eles tinham pressa. Ele deveria arranjar mais gente. Achava pouco os três. O jardineiro ficou de arranjar mais dois ajudantes, garantindo que fariam o trabalho no tempo desejado. Logo começou a movimentação dentro da casa, e Nico de vez em quando olhava curioso na tentativa de ver como era lá. Percebendo a curiosidade, Aurélio comentou: - Você está louquinho pra saber como é lá. Se eu tiver jeito, quando for levo você junto. - O senhor faz isso, Seu Aurélio? - respondeu o menino com os olhos brilhantes. - Claro. Mas, se a casa for assombrada, não vem reclamar depois. Quero ver se tem coragem mesmo. - Cruz credo! - comentou Maninho. - Eu é que não quero entrar lá. Minha tia me avisou que é perigoso. Maninho era o apelido do outro jovem ajudante. Sobrinho da mulher de Aurélio, morava com eles para aprender o ofício, já que sua família era da roça e muito pobre. Aurélio sorriu com ar de superioridade e contestou: - Isso é coisa de mulher! Deixa de ser covarde. Um homem precisa ser corajoso. - Eu não tenho medo - disse Nico. - Não acredito em fantasmas. Estou curioso para ver como a casa é por dentro. Deve ser uma beleza! 20 - Está muito abandonada. Foi bonita mesmo. - O senhor conheceu a casa naquele tempo? - indagou Nico, entusiasmado. - Eu era criança, tinha a tua idade, mas ainda me lembro. Era uma beleza. - Conheceu a família do coronel? - continuou Nico. - Conheci. Mariinha era linda! Nunca vi moça igual. Onde passava, todo mundo suspirava. Cabelos negros, pele branca, olhos que pareciam duas jabuticabas. O corpo, então, nem se fala. Era linda mesmo. Muito parecida com a mãe, Dona Mariquinha. - Minha mãe me contou que ela se tomou de amores por um colono e se perdeu. - Nem me fale... Que infelicidade! O coronel mandou ela embora de casa. Nunca mais ninguém viu Dona Mariquinha. Quando morreu, Dona Salomé, que foi vestir o corpo, contou pra minha mãe que nem parecia ela, de tão acabada. - Ela também era bonita? - Era. Dava gosto ver. Tão elegante e delicada... Era gentil com todos. - Já o coronel, sei que ele era o oposto - comentou Nico. - Era mesmo. Dizem que ele era ruim, mas não acredito. O povo inventa muito. Ele ajudou muitas famílias, inclusive a do meu avô. Agora, que ele era severo, isso era. Se você trabalhava direito, fazia o que ele queria, tinha tudo com ele. Mas, se fosse contra ele ou se o desafiasse, então era melhor fugir do seu pedaço. - Ele devia ser um homem muito feio. - Que nada. Era até bem-parecido. Mas por causa do desgosto foi ficando acabado. Então, sim, enfeiou mesmo. - O Zeca da venda disse que um dia veio aqui trazer as compras do caseiro - contou Maninho. - Era de noite, porque ele teve que esperar o armazém fechar pra poder vir. O Seu Inácio pediu que ele levasse as caixas pra dentro. Ele obedeceu e levou pra casa dele, que é aquela lá do fundo. Quando ia saindo, ele resolveu espiar dentro da casa-grande. Foi até a janela e olhou. Ficou arrepiado. Viu a alma do coronel, do jeitinho que dizem que ele era, andando lá. Ele quis gritar e não pôde, mas mesmo assim o coronel viu ele e saiu correndo atrás. O Zeca conseguiu correr e passar pelo portão, sem esperar o caseiro trazer o dinheiro. Disse que nunca mais volta lá. Aurélio riu gostosamente. 21 - Eu queria ver vocês correrem se ele aparecesse aqui agora. - Cruz credo, Seu Aurélio! - disse Maninho, persignando-se. O senhor não devia brincar com essas coisas. Nico ouvia e não se importava. Estava cansado de ouvir histórias de assombração e nunca vira nenhuma. Começava a desconfiar da veracidade delas. Por mais que Nico desejasse, o tempo foi passando sem que ele houvesse tido oportunidade de entrar na casa. Ainda assim não desanimou. Foi no dia seguinte que aconteceu. O sol estava a pino. Depois de os jardineiros trabalharem a manhã toda, almoçaram e estenderam-se debaixo das árvores para descansar um pouco. Enquanto Aurélio, Maninho e mais Inácio, que se juntara a eles para agilizar o serviço, descansavam, Nico levantou-se e circundou a casa, tentando ver, através das janelas entreabertas, o que havia dentro. - Menino, venha cá. Nico olhou para o lado de onde vinha a voz. Na soleira estava o engenheiro contratado para reformar a casa. Nico aproximou-se correndo: - Sim, senhor. - Preciso de cigarros. Sabe onde vende? - Sei, sim, senhor. Na venda do Zeca. Se o senhor quiser, posso ir comprar. - É longe? - Não, senhor. Três quadras. Vou num pé e volto no outro. O engenheiro sorriu satisfeito. Tirou uma nota do bolso, entregando-a a Nico juntamente com uma embalagem de cigarros vazia. - Compre dois maços, deste aqui. O menino apanhou o dinheiro e saiu correndo. Dentro de pouco tempo estava de volta e procurou pelo engenheiro. - Está lá dentro - informou um pedreiro. Nico estremeceu de prazer. Rápido, entrou no saguão olhando tudo. Não podia perder nenhum detalhe. Apesar de estar tudo remexido e fora do lugar, Nico deslumbrou-se com os desenhos do teto, com os ladrilhos do hall. Informado que o engenheiro estava no andar de cima, subiu as largas escadas de mármore, admirando os vitrais coloridos que deixavam entrar a claridade. Uma vez em cima, entregou os maços de cigarro ao engenheiro, que satisfeito lhe deu duas moedas. - Obrigado, doutor - disse o menino sorrindo. - Se desejar mais alguma coisa, é só chamar. Terei gosto em ajudar. - Você é esperto. Foi depressa mesmo. É parente de Aurélio? 22 - Não, senhor. Ele me contrata para trabalhar quando precisa. O engenheiro olhou para ele e sorriu: - Está certo. Pode ir. - Se precisar de alguma coisa, pode me chamar. Nico foi saindo devagar. Seus olhos curiosos examinavam cada detalhe, imaginando como seriam os móveis que estavam cobertos e os quadros que haviam sido retirados e embalados cuidadosamente. À noite, comentou com Ernestina: - Mãe, você precisava ver que beleza! Cada sala grande, com muitas janelas! E o teto, então? Cheio de desenhos em volta. As paredes estavam estragadas, manchadas, mas ainda assim lindas. Cheias de desenhos, cada sala de uma cor. Barras pintadas de ouro. Você precisava ver. - Agora que já viu, vê se fica do lado de fora. Não gosto da idéia de ver você dentro daquela casa. - Bobagem, mãe. Não tem nada lá. Está cheia de gente, e ninguém viu nada. Ernestina sacudiu a cabeça e não respondeu. Naquela noite, após o jantar, Nico demorou-se embaixo da mangueira, mas não olhava o céu, como de hábito. Seu pensamento estava longe, tentando imaginar como era a mansão nos tempos do coronel. Nos dias que se seguiram, Nico teve várias oportunidades de entrar na casa da mansão. O engenheiro, satisfeito com a presteza do menino, chamava-o quando precisava de pequenos serviços ou de alguma informação sobre a cidade. Os outros que trabalhavam para ele também começaram a fazer o mesmo, o que fez com que Aurélio acabasse se queixando com o engenheiro. - Dr. Mário, não tenho nada contra que ocupem o Nico, mas é que preciso dele pra acabar o serviço no tempo certo. Por causa disso, Mário conversou com seus auxiliares e combinaram entre si utilizar a ajuda do menino durante o horário de almoço. Assim Nico pôde entrar e sair da casa-grande muitas vezes, sempre atento a tudo quanto acontecia lá, observando os detalhes. Certa vez, Mário perguntou-lhe: - Quantos anos você tem? - Nove. - Acho que tem trabalhado demais. Não acho justo. Não descansa nem na hora do almoço. Vou pedir aos homens que o deixem em paz. Nico inquietou-se: - Por favor, doutor! Não faça isso! Não me sinto cansado. 23 - Você é ainda criança, estamos abusando de você. - Nada disso. Eu gosto de entrar aqui. Há muito tempo sonhava em conhecer esta casa por dentro. Agora que estou tendo essa oportunidade, não me mande embora! Mário olhou-o admirado. Tinha observado que Nico olhava tudo com muito interesse. - Não pretendo fazer isso. Você gosta da casa? - É linda! Fico imaginando como ela era no tempo do coronel. O engenheiro sorriu. - Do que você gosta mais? - Das janelas, da escada, dos vidros coloridos, dos desenhos das paredes. - Mesmo estando tudo tão velho? - brincou ele, querendo ver aonde Nico queria chegar. - Se fosse minha, eu a derrubaria e construiria outra moderna no lugar. Nico sobressaltou-se: - Pois eu não... - calou-se encabulado. Não queria aborrecer o engenheiro. Mário riu gostosamente. Achava engraçado que um menino pobre que provavelmente nunca havia saído daquela pequena cidade do interior soubesse apreciar uma obra de arte. - Se fosse sua, o que você faria? Os olhos de Nico brilharam e seu rosto distendeu-se em um sorriso: - Se fosse minha, eu deixaria igualzinha ao que era no tempo do coronel. Ela ficaria do jeito que vi outro dia em uma revista. Até os jardins eu faria como naquele tempo. As paredes, tudo. Até o telhado... - O que é que tem o telhado? - Eu consertaria tudo e deixaria do jeito que ele era. - Hoje há muitas coisas modernas, mais bonitas. Por que você gosta tanto dessa casa tão velha? - Não sei, não. Mas ela é a casa mais linda que já vi. Eu não ia gostar de vê-Ia jogada no chão. Seria uma judiação desmanchar uma casa tão linda! Mário colocou as mãos nos ombros de Nico, dizendo sério: - Eu também acho. Você tem razão. Ela é uma obra de arte mesmo. Difícil de encontrar nos dias de hoje. - Quer dizer que não vai derrubar? - Estou aqui para fazer exatamente o mesmo que você quer. Vou fazê-Ia voltar a ser igualzinha ao que era antes. 24 Nico deu um salto de alegria: - Que bom! Logo vi que o senhor era um homem sábio. - Parece que você também. Agora pode ir. - O senhor vai me deixar entrar aqui de vez em quando para olhar? - Claro. Você será meu convidado sempre que quiser. Admirado com a sensibilidade do menino, Mário passou a conversar mais com ele, e a cada dia mais se surpreendia com sua inteligência, lucidez e boa vontade. A princípio receara que lhe dando atenção ele abusasse, mas depois de algum tempo percebeu que ele nunca passava dos limites. Era discreto, educado, respeitoso e sabia manter-se em seu lugar. Percebendo seu interesse, Mário muitas vezes o chamava, mostrando-lhe outras dependências da casa. Nico fazia perguntas, querendo saber como se fazia isto ou aquilo, e Mário, um apaixonado pela arte, sentia prazer em explicar-lhe. Um dia falou com Aurélio sobre Nico. - É um menino muito vivo e inteligente - comentou. - Como é a família dele? - Gente simples, doutor: o pai lavrador, a mãe lavadeira. - É surpreendente. Ele parece ter sede de aprender. - Isso é verdade. Ele plantou uma horta e trabalha pra poder ficar na escola. - Mas ele tem vindo o dia inteiro trabalhar. Está perdendo aula? - Não, senhor. A escola está fechada até o mês que vem. Ele está de férias. - Seria uma pena um menino como ele não estudar. Tem tudo para fazer carreira. É muito esperto e trabalhador. - Todo mundo gosta dele na cidade. É um menino bom mesmo. - Pena que os pais não têm dinheiro para ele estudar na capital. - Não mesmo. O pai dele nem trabalha. Diz que é doente. O que a Dona Ernestina ganha lavando roupa mal dá pra comida dos cinco filhos. São sete pessoas pra vestir e alimentar. Mário balançou a cabeça: - É pena. Esse menino merecia uma oportunidade. Os outros irmãos são assim como ele? - Qual nada, doutor. O Zé é mais velho e vive vadiando. Não serve pra nada. Os outros três são muito pequenos. O jardim ficou pronto dentro do prazo previsto, e Nico, além do salário que Aurélio lhe pagou, ganhou muitas gorjetas durante o período em que lá trabalhou. 25 No último dia, depois que Mário acertou as contas com Aurélio, Nico foi procurá-lo. - Dr. Mário, o jardim ficou pronto, mas eu queria continuar trabalhando. Será que o senhor podia me dar alguma coisa para fazer? Qualquer serviço serve. - Suas aulas começam depois de amanhã. Você precisa estudar. - Eu vou para a escola de manhã. Saio às onze horas. Depois tenho o dia inteiro livre. Por favor, eu gosto de vir aqui e quero trabalhar. Tenho aprendido muito olhando os pedreiros e principalmente os pintores. Outro dia, Seu Cláudio me deu aquele resto de tinta que sobrou e um pincel que ele não ia usar mais. Pintei a cozinha de minha mãe e ficou uma beleza! Eu queria que o senhor visse! A casa é feia, mas a parede ficou linda! Eu já sei pintar e posso aprender outras coisas. Mário sorriu. Era surpreendente a disposição do menino. - Tem certeza de que trabalhar aqui não vai prejudicar seus estudos? - Tenho. Eu levanto cedo. Quando o galo canta, já estou de pé. Só vou para a escola às oito. Tenho muito tempo para fazer a lição e estudar. - Nesse caso, pode vir. Nico ficou radiante. A partir daquele dia, saía da escola, deixava os livros em casa, comia alguma fruta ou um pedaço de pão e ia para a mansão. Tanto o engenheiro quanto o pintor e os outros que estavam trabalhando na casa se habituaram com a presença ágil do menino, sempre disposto a dar urna mão, cheio de vontade de aprender. Dentro de pouco tempo ele se tomou tão útil que sua ajuda era disputada. Mário gostava de conversar com ele sobre a decoração da casa, mostrando-lhe seus projetos, admirando-se do interesse dele e até das observações inteligentes que fazia. O menino tinha gosto apurado e sabia diferenciar a verdadeira arte. O engenheiro perguntava-se como um menino pobre, sem herança cultural de família, podia ter tal sensibilidade? Nico possuía aguçado senso estético e sabia exatamente o que seria mais adequado em cada lugar. Com a convivência naqueles dois meses, Mário afeiçoou-se ao menino, levando-o a almoçar com ele no restaurante de vez em quando e mandando algumas guloseimas para sua família. Nico admirava-o e olhava para ele com carinho. Um dia, depois de almoçarem juntos, enquanto caminhavam, Nico disse-lhe sério: - Quando crescer, vou ser igual ao senhor. Mário riu bem-humorado. - Quer estudar engenharia, como eu? 26 - Quero. Já decidi que é isso que vou fazer. - Terá de morar na cidade. Por aqui não há faculdade. - Se não fosse pela minha família, eu ia embora para a cidade desde já. Mas não quero deixar minha mãe. Sem mim ela não vai poder sustentar a casa. - Nesse caso, quando pensa fazer isso? - Depois que os meus irmãos crescerem e puderem trabalhar. O Zé um dia vai ter que aprender alguma coisa. Os outros também. Então eu vou embora. - Você diz isso, mas não sei se agüentaria deixar sua família. Pare ce que gosta muito dela. - Gosto, sim. Mas eu vou, estudo, ganho muito dinheiro e volto para dar conforto e alegria para eles. Mário olhou para Nico e comoveu-se. Ele tivera todo o conforto, pais ricos, e nada lhe faltara. Nunca tivera de se preocupar com a família. Tudo em sua vida viera fácil, sem que precisasse lutar para conseguir. Estudara por amor à arte, fazia de seu trabalho um prazer, já que restaurar e embelezar lugares era sua paixão. O que teria sido dele se houvesse nascido pobre igual a Nico? Olhando o rosto confiante do menino, ele começou a pensar que talvez acabasse encontrando uma forma de ajudá-Io a realizar seus projetos para o futuro. Passando o braço sobre os ombros do menino enquanto caminhavam, ele disse: - Você está certo. É isso mesmo. Um dia você vai conseguir. O menino balançou a cabeça concordando e sorrindo com satisfação. Haviam chegado aos portões da mansão e eles entraram para trabalhar. 27 Capítulo 2 A reforma da mansão não ficou pronta no prazo estipulado, por mais que Mário tenha se esforçado. Alguns atrasos dos fornecedores, problemas inesperados na casa que precisaram de solução mais demorada impediram que o cronograma de trabalho se cumprisse com exatidão. Se para o engenheiro foi um transtorno, para Nico foi um prazer. Acompanhar passo a passo o decorrer da obra permitiu-lhe aprender muito. Saber como as coisas eram feitas fascinava-o, e, principalmente, ver as ruínas serem transformadas em beleza e conforto maravilhava-o. Não pensava em outra coisa. Todos os seus pensamentos eram para o que estava acontecendo na mansão. Ele já não ficava mais na porta do armazém à espera de algum trabalho. Depois da escola ia para a mansão e lá ficava até que o mandassem para casa. Uma manhã, enquanto tomavam café sob a mangueira, Ernestina considerou: - Me disseram que a mansão já ficou pronta. - Quase, mãe. Faltam ainda algumas coisas. - A Dona Engrácia disse que o doutor engenheiro já fez até as malas pra voltar pra capital. - Não é verdade. Ele só vai embora depois que os donos chegarem. - Como é que você sabe? - O Dr. Mário me disse. Ele quer entregar tudo funcionando direito. Por isso, só vai voltar para São Paulo quando os donos tiverem chegado. Até agora não veio ninguém. Ernestina olhou para o filho com um pouco de preocupação. Ele estava muito absorvido com a mansão. Só falava nisso, só pensava em ir lá. Como ficaria quando tudo acabasse? - Eles vão vir logo, e aí o trabalho vai acabar. Você precisa pensar no que vai fazer depois que o doutor engenheiro for embora. - Vou sentir falta dele! É o homem mais inteligente e bom que eu conheci. Sabe fazer de tudo! - Ele é da cidade. Logo vai embora e nunca mais volta. - Ele disse que é amigo da família do Dr. Norberto. Vai vir muitas vezes para cá. 28 Ernestina tomou um gole de café e não respondeu. Compreendia a admiração de Nico. Não sabia se havia sido bom o engenheiro dar tanta atenção ao menino. Quando ele fosse embora, seria difícil para Nico retomar a vida de sempre. Aquela convivência o fizera conhecer coisas novas, descortinara oportunidades que ele nunca vira. Diante da triste realidade de suas vidas, ela temia que ele se desiludisse. Calou-se, porém. Ela também, na idade de Nico, havia sonhado com coisas maravilhosas. Com fadas e príncipes. Contudo, sua realidade tinha sido muito diferente. Agora, em meio às lutas de seu dia-a-dia, Ernestina perguntava-se muitas vezes qual teria sido seu destino se seus pais não a houvessem obrigado a casar-se com Jacinto. De vez em quando, deitada ao lado do marido na cama pobre, enquanto ele roncava sonoramente, ela reencontrava seus sonhos de moça, pensava no amor que nunca sentira e como seria poder amar e ser amada, como no filme a que assistira uma vez, quando Nico ia trabalhar de noite como lanterninha do cinema e conseguira uma entrada para ela. Depois disso, sem que nunca tivesse coragem de contar a ninguém, quando ela acordava no meio da noite ou se levantava de madrugada, enquanto o marido dormia, imaginava-se vivendo uma aventura de amor como aquela! Esse desejo, esse sonho que guardava escondido de todos, fazia parecer ainda mais triste sua realidade, mas ao mesmo tempo era dele que ela tirava forças para continuar a cumprir suas funções com a família. - Mãe, o Dr. Mário me perguntou se eu queria ir estudar na cidade. - Ele não devia de perguntar essas coisas. Sabe que você não tem como. - Não tenho agora. Mas quando eu puder eu vou. Sei que um dia, quando eu for grande e todos já estiverem trabalhando, vai dar para ir. Ernestina olhou pensativa para o menino. Muitas vezes sentira que a pequena cidade onde residiam era pouco para Nico. Ela sabia que um dia ele não conseguiria mais conter sua necessidade de conhecimento e iria embora em busca de outros caminhos. Não pensava em contê-Io. Mesmo sabendo que sentiria muita falta dele, gostaria que ele pudesse ter as oportunidades que ela não tivera. Por isso respondeu: - Se eu tivesse como, mandava você amanhã mesmo. - Sei, mãe. Mas eu não iria. Não quero deixar vocês. O Zé não ajuda; a Nilce, o Jaime e a Neusinha são muito pequenos. Só eu posso ajudar você. Ernestina passou a mão sobre os cabelos ondulados de Nico num gesto carinhoso. 29 - Você me ajuda muito mesmo. Mas sabe de uma coisa? Eu ia me arranjar e ficar muito feliz em ver você aprendendo coisas novas, estudando na cidade. Aí eu ia ficar muito orgulhosa quando você estivesse estudado, bonito, ganhando muito dinheiro, e voltasse pra me visitar. Eu só queria ver a cara da Dona Edinete e do Jacinto! - O pai não ia ligar. - Ia mais é ficar com inveja. Até o Zé ia deixar a preguiça e, quem sabe, se decidir a estudar e trabalhar um pouco. - Ele ainda é novo, mãe, não percebe como as coisas são. Logo ele vai querer ter mais dinheiro e então vai começar a procurar o que fazer. - É. Pode ser. Você é mais novo do que ele e já entendeu. - As pessoas são diferentes, mãe. - É verdade. Naquela tarde, quando Nico foi até a mansão, viu um movimento desusado. Um grande caminhão estava parado em frente à porta principal da casa e vários homens descarregavam móveis e caixas. Interessado, Nico entrou na casa. Mário andava de um lado para o outro, determinando aonde cada coisa deveria ir. Havia também duas mulheres que iam e vinham, limpando, fazendo arrumação. Nico não as conhecia e deduziu que deveriam ter vindo da capital, porque eram muito diferentes das pessoas locais. Nos jardins, Aurélio e Maninho cuidavam das plantas e chamaram Nico para ajudar. Ele pegou a mangueira e começou a molhar um dos canteiros enquanto Maninho afofava a terra e arrancava o mato. - Isto aqui está movimentado hoje - comentou Nico, curioso. - É - respondeu Maninho. - Parece que os donos vão chegar amanhã. As criadas já vieram pra deixar tudo em ordem. - Será que vai dar tempo? - A nossa parte ficou pronta faz tempo. Estamos só conservando. Agora, lá dentro, não sei. - Acho que vai. Está tudo uma beleza. Elas já estão arrumando as roupas dentro dos armários, e o Zeca já trouxe as compras que fizeram no armazém do Seu Nestor. - Minha tia diz que eles não vão ficar muito tempo morando aqui. Que gastaram essa dinheirama à toa. - Bobagem. Eles vão vir para ficar. Maninho levantou a cabeça e com um ar de incredulidade perguntou: - E o fantasma do coronel? Você acha que ele vai deixar? Nico riu com gosto e respondeu: 30 - Qual nada! Essa história é de gente ignorante. Cadê ele esse tempo todo? Alguém viu? Eu vim aqui todos os dias. Ele nunca apareceu. - Cruz credo, Nico! Não desafia alma do outro mundo! Ele pode estar ouvindo e correr atrás da gente. - Pois eu não tenho medo. Se ele vier mesmo, eu falo com ele. - Ah ah ah! Isso eu queria ver! - Chega de palavrório e vamos ao trabalho. Tem muita coisa ainda pra aguar e temos que aproveitar agora que o sol está indo embora interveio Aurélio. A noite já havia caído quando eles acabaram o jardim. Os três olhavam embevecidos para os canteiros floridos. Estava tudo uma beleza! Dentro da casa, a azáfama ainda continuava. Aurélio foi conversar com Mário sobre o serviço. Quando os donos chegassem, ele gostaria de continuar cuidando dos jardins. - Falarei com o Dr. Norberto. Pelo que sei, ele não vai trazer jardineiro. Se ele quiser, mando avisar. Os dois saíram e Nico ficou. - Dr. Mário, posso ajudar? - Não está cansado? - Não, senhor. - Paramos um pouco para comer alguma coisa. Você já jantou? - Não, senhor. Mas não precisa se preocupar. Minha mãe deixa meu prato no fogão. Eu como quando voltar. - Nada disso. Hoje você janta comigo aqui. Sente um pouco aí, enquanto elas aprontam a comida. Nico já se havia lavado, penteado os cabelos e se trocado. Sempre que ia trabalhar na mansão, ele vestia um macacão de brim que ganhara do engenheiro e, ao terminar, tomava um banho e se trocava. Ele se sentou em um banquinho que estava ao lado e que servia de escada na arrumação. - Me disseram que o senhor vai embora e que já fez as malas. - Não ainda. Ficarei mais três ou quatro dias. Nico ficou silencioso por alguns segundos. Depois disse: - Vou sentir muito a sua falta. - Eu também vou sentir a sua. Temos sido bons companheiros, Nico. Em outros lugares que for trabalhar, não vou ter você para me ajudar. - Se o senhor me chamasse, eu iria! Mário riu bem-humorado. - Iria? E a família? E sua mãe? 31 - Hoje tive uma conversa com ela. - O que foi? - Ela me disse que, se eu pudesse ir estudar na cidade agora, ela ia se arranjar. Apesar da falta que eu iria fazer, ela ficaria muito feliz em saber que eu estava progredindo. E que um dia, quando eu viesse visitá-Ia, estudado, ganhando muito dinheiro, ia ficar muito orgulhosa. - Sua mãe é uma mulher muito inteligente, Nico. Gosta muito de você e coloca sua felicidade em primeiro lugar. Nico concordou satisfeito: - Não tem no mundo mulher melhor do que ela! - Ela disse isso, mas eu não sei se você teria coragem de ir embora agora. Nico balançou a cabeça de um lado para o outro, e em seus olhos passou um brilho emotivo. - Não sei, não. Eu ficaria dividido entre a vontade de ir e a vontade de ficar. - Para conseguir o que se quer, é preciso força e coragem. Se você for, poderá melhorar sua vida, progredir e melhorar também a vida dos seus. Se ficar, sua vida poderá continuar a ser como sempre foi e não poderá fazer muito para si nem para sua família. - Pelo que o senhor diz, o melhor seria eu ir mesmo. Pode ser. Quem sabe um dia, se aparecer a oportunidade. Agora sou pequeno e não posso ir para a cidade sozinho. Quando eu crescer um pouco mais, vou me lembrar de suas palavras. - Para ser rico, é preciso não perder nenhuma das oportunidades que a vida nos oferecer. - É o que eu sempre faço. Todo trabalho que aparece eu pego. Mesmo quando não sei, tento aprender. - É por isso que você sempre encontra trabalho. A empregada aproximou-se, dizendo: - Doutor, arrumei a mesa na copa. A mesa da sala de jantar está cheia de louças. - Está bem, Maria. Ponha mais um prato. Nico vai jantar comigo. - Sim, senhor. Olhando o menino sentado à mesa, Mário pensava: era de admirar que aquele moleque humilde soubesse se portar tão bem. À mesa, ele mantinha uma postura educada, servindo-se delicadamente, usando guardanapo e faca corretamente, com uma dignidade e finura invejáveis. Onde aprendera isso? 32 Não se conteve e perguntou: - A família de sua mãe era da cidade? - Não. Os meus avós são lavradores. - Ela morou na cidade, freqüentou alguma escola? - Não. Meu avô a fez se casar quando tinha treze anos. Ela nunca esteve na escola. Eu a ensinei a ler e ela aprendeu depressa. Sempre penso que, se ela tivesse ido à escola, não precisaria lavar tanta roupa e ficar tão cansada. - É verdade, Nico. A escola faz muita falta. Depois do jantar, eles foram para o andar de cima. Mário queria verificar alguns detalhes em um dos quartos. - Este quarto é diferente dos outros - observou Nico. - É o quarto de Eurico. Ele tem sua idade. - É? Puxa, este quarto é dele? Deve ficar muito feliz por morar em um quarto tão bonito. - Ele é muito doente, Nico. O Dr. Norberto faz tudo que pode para alegrar esse filho, mas ele não se entusiasma com nada. É fraco e triste. Passa a maior parte do tempo na cama. - Que pena! Não poder aproveitar tudo isso... - É verdade. Havia um problema na parte elétrica: um abajur que não acendia. Mário não conseguiu descobrir o que era. Tudo parecia estar direito, mas ele não acendia. - Vamos deixar, por hoje. Amanhã trago o eletricista. Ele vai ter de dar jeito. - O Dr. Norberto tem muitos filhos? - Apenas dois, Eurico e Amelinha. - A casa tem seis quartos. Alguns vão sobrar. - Gente rica ocupa todo o espaço da casa. Não usa todos os quartos para dormir. - Eu vi que alguns não têm cama e fiquei pensando como seria. Mário riu gostosamente. - O Dr. Norberto e a esposa vão ocupar dois, Amelinha um, Eurico um e dois são para hóspedes. - O Dr. Norberto é médico? - Não, ele é advogado. - O povo não entende por que um homem estudado, rico, da cidade, vem morar aqui. Mas eu penso que, se tivesse uma casa como esta, não ia querer morar em outro lugar. 33 - Na cidade há casas melhores e mais bonitas do que esta. Eles vêm para cá por causa do clima. O médico aconselhou por causa da saúde de Eurico. Só por isso. - Puxa! Ele deve gostar mesmo desse menino! - Adora. Tanto ele como Dona Eulália fazem de tudo para Eurico sarar. Até na Europa eles o levaram. - E a Amelinha, também é doente? - Não. Ela é como todo mundo. - O quarto dela também ficou muito bonito. Só que tem muito babado. Vai dar muito trabalho quando for a hora de lavar as cortinas e as colchas. Mário riu de novo. Nico tinha cada idéia! - Aí eles vão chamar sua mãe para lavar tudo e ela vai ganhar mais dinheiro! Nico franziu a testa pensativo. - O que foi, não quer que ela ganhe mais dinheiro? - Eu queria que ela trabalhasse menos. Carrega cada bacia de roupa tão pesada! Mário ficou sério. Não havia pensado nas dificuldades de Ernestina para lavar roupas de maneira tão primitiva como fazia. - Você gostaria de poder sustentar sua família só para que sua mãe pudesse trabalhar menos. - Isso mesmo. Mário deu uma última olhada ao redor e disse: - Acabei por hoje. Vamos embora. Uma vez no jardim, Mário tornou: - Vou levá-lo para casa. Tenho mesmo de passar por lá. A noite estava escura e alguns relâmpagos pressagiavam chuva. Nico subiu no carro e foram conversando animadamente. Ao chegarem perto de casa, Nico desceu quando os primeiros pingos da chuva começaram a cair. - Corra para não se molhar - gritou Mário, acelerando o carro para chegar logo ao hotel. Nico entrou em casa e Ernestina disse: - Não se molhou? Estava preocupada com você. Vem aí uma chuva danada. - Não. O Dr. Mário me trouxe, mãe. A chuva começou agora. - Teu prato de comida está no fogão. - Obrigado, mãe, mas já jantei. Guarde para amanhã, que eu como. 34 - Vocês ficaram na mansão até agora? - Ficamos. Um abajur não acendia e o doutor fez de tudo, mas não adiantou. - Isso é coisa de eletricista. - Ele sabe. Mas quem comanda tudo é ele. Não quer descuidar de nada. Quando o Dr. Norberto chegar, tudo tem que estar em ordem. - Ficou bonito mesmo? Nico suspirou. - Uma lindeza! Você precisava ver o quarto do filho do Dr. Norberto. O doutor disse que ele tem a minha idade. Só que ele é muito doente e vive triste. Os médicos não dão jeito na doença dele. Para ver se ele melhora é que eles estão vindo morar aqui. O Dr. Norberto e a Dona Eulália sofrem muito por causa da doença dele. Foi a vez de Ernestina suspirar. - Pra você ver, meu filho. Eles têm dinheiro, mas o filho é doente. É preferível ser pobre e com saúde. - É preferível ser rico e com saúde. Mas, já que ele é doente, é preferível ser rico mesmo. Já pensou se ele fosse doente e pobre? - Você tem mania de grandeza - tomou Jacinto, que aparecera na porta do quarto. - Não enxerga o teu lugar. Não devia estar andando por aí no carro do engenheiro, amolando ele. Qualquer dia ele vai te dar um pontapé e eu quero ver a tua cara! Nico não respondeu. Habituara-se a não ligar para as críticas constantes que o pai lhe fazia. Ernestina não gostou: - Deixa o menino. Ele estava trabalhando até agora. - Trabalhando! Imagine só! Uma criança. Não sei como esse doutor tem tanta paciência com ele. Ernestina olhou para ele com raiva. Queria gritar sua revolta, dizer que, se ele fosse trabalhador como Nico, ela estaria bem e não precisaria fazer tanto esforço para sustentar a família. Mas preferiu não dizer nada. De que adiantaria? Ela iria se irritar mais e implicar mais ainda com Nico. Não ia resolver nada. Ela olhou para Nico e disse: - Vai se lavar antes de dormir. - Está bem. Nico tomou banho, entrou no quarto e deitou-se. Olhos abertos no escuro, enquanto ouvia Nilce cantarolar tentando fazer Neusinha dormir, ele pensava: Um dia ele teria seu próprio quarto, onde poderia acender a luz, ler revistas sem que ninguém reclamasse. Começou a imaginar como seria seu quarto, sua casa. 35 E, dando vazão à sua fantasia, todos os cômodos que idealizava eram parecidos com os da mansão. A casa estava silenciosa, todos já estavam dormindo, porém Nico continuava pensando em seus sonhos, vendo-se rico, rodeado de todas as coisas de que ele gostava. Sua mãe, vestida como aquela mulher do retrato que ele vira na revista, bonita e alegre. Sua irmã Nilce, Jaiminho e Neusinha eram lindos e educados. Em seus sonhos não estavam nem José nem Jacinto. Às vezes ele achava que estava sendo injusto não os incluindo e tentava visualizá-Ios na riqueza, mas logo desistia. Por mais que desejasse, não conseguia vê-Ios progredir. Era muito tarde quando finalmente conseguiu adormecer. 36 Capítulo 3 Alguns dias depois, Norberto chegou com a família. Mário esperava-os na entrada da mansão. Nico, no jardim com Aurélio, não perdia nada da movimentação. Os dois carros entraram no jardim e pararam na porta principal. Em um viajavam Norberto e a esposa, acompanhada de uma moça. No outro, os filhos, em companhia de uma jovem e o motorista. Nico olhou com curiosidade para as crianças. O menino era um pouco mais alto do que ele, mas muito magro e pálido. A menina, um pouco menor, era bonita, corada e alegre. Dona Eulália desceu do carro e imediatamente foi para o lado do filho, perguntando: - Hilda, ele está bem? - Sim, senhora. - Está abatido. Parece cansado. Sente-se bem, meu filho? O menino fez que sim com a cabeça, e ela continuou: - Leve-o para cima, Hilda. Lave suas mãos e troque essa roupa, que deve estar empoeirada. Ele é alérgico a poeira, você sabe. - Não quero ir - reclamou ele. - Quero ver o jardim. Eulália abanou a cabeça: - Nada disso. Não agora. Vamos, Hilda, o que está esperando? Hilda pegou a mão do menino, dizendo com voz firme: - Vamos, Eurico. Sua mãe está mandando. Enquanto os empregados cuidavam da bagagem, Eulália entrava com o marido para ver como a casa havia ficado. A menina correu pelo jardim, aproveitando a distração dos pais. Chegou perto de Nico, olhando-o com curiosidade: - Você também mora aqui? - perguntou. - Não. Tenho trabalhado no jardim. - Meu nome é Amélia, e o seu? - Nico. - Que engraçado! Nico? O menino levantou a cabeça um pouco irritado com o tom dela. - Meu nome é Antônio; Nico é só para os meus amigos. Ela o fitou com os olhos brilhando maliciosos. Depois riu dizendo: 37 - Pois eu gosto mais de Nico. Antônio é um nome muito bobo. Antes que Nico respondesse, uma das criadas chegou dizendo: - Amelinha, sua mãe está perguntando por você. Quer que tome um banho e descanse um pouco da viagem. - Agora não. Não estou cansada, e quero conhecer o resto do jardim. - Venha logo. Sua mãe não gosta de esperar. Quer servir o lanche logo mais, e você tem que estar pronta. - Pois eu não vou. Não quero e não vou. Quando a criada se aproximou irritada para pegá-Ia, ela saiu correndo e Nico ficou olhando para as duas. Amelinha era rápida, e, embora a criada se esforçasse, não conseguia alcançá-Ia. - Venha. Chega. Vamos, Amelinha. Sua mãe vai ficar zangada. A menina ria e respondia: - Venha me pegar, se quiser. Nico divertia-se acompanhando as duas com o olhar, até que Norbert apareceu na porta. Imediatamente Amelinha obedeceu e acompanhou a criada. Aurélio chamou Nico, dizendo: - Vamos acabar de tirar o mato que falta. Até lá o sol terá diminuído e poderemos aguar tudo antes de irmos embora. Nico obedeceu prontamente. Enquanto arrancava os matinhos que teimavam em brotar no canteiro muito bem adubado, sua atenção estava ligada ao movimento do interior da casa, onde os criados iam e vinham, providenciando para que nada faltasse. De repente, Nico assustou-se. Alguma coisa bateu em suas costas. Ele olhou e viu que era um apontador de lápis. Imediatamente olhou para cima. Amelinha estava na janela. Ele apanhou o apontador e mostrando-o a ela perguntou: - É seu? - É - respondeu ela. - Estava apontando meus lápis de cor e derrubei. Foi sem querer. - Vou entregar na cozinha. - Nada disso. Traga aqui em cima para mim. Nico olhou para suas roupas de trabalho e para seus pés sujos de terra e respondeu: - Estou com os pés cheios de terra, não posso entrar assim. - Então guarde para mim. Depois, quando eu descer, irei buscá-la. Nico concordou e, colocando o apontador no bolso, voltou ao trabalho. Contudo, sentia que Amelinha continuava na janela. 38 De vez em quando ele olhava para cima, e ela continuava lá. Até que ele ouviu a voz de Hilda chamando-a. Iam servir o lanche. Nico estava curioso para ver os arranjos da mesa e as deliciosas guloseimas que seriam servidas. Ele passara perto da porta da cozinha e sentira o cheiro gostoso dos bolos e do café. Como não foi possível chegar mais perto, teve de se conformar. No fim da tarde, lavou-se e trocou de roupa, como sempre fazia ao terminar o serviço, embrulhando a roupa suja para lavar em casa. Aurélio dispensou-o, dizendo: - Pode ir, Nico. - Precisa de mim amanhã? - Tem algumas mudas que precisamos tirar e replantar. Vou fazer isso à tarde, quando o sol estiver mais suave. - Posso vir assim que sair da escola. - Pode ser depois das duas. Vai dar tempo pra tudo. Quando Nico foi saindo, ainda pôde ver de relance o lanche sendo servido ha copa e toda a família reunida ao redor da mesa. Mário estava com eles, conversando animadamente. Como ele gostaria de poder ficar ali, ouvir tudo quanto eles diziam, ver como eles comiam, saber como era a vida das pessoas da cidade. Mas ele não podia. Teve de se conformar e ir para a casa. Na tarde do dia seguinte, Nico compareceu na hora combinada e Aurélio, satisfeito, colocou numa cesta várias plantas para o menino separar as mudas. Nico aprendera a fazer isso tão bem que Aurélio se habituara a dar-lhe essa tarefa. Sentado sob uma árvore, Nico, com gestos precisos e calmos, ia separando as mudas e colocando-as com cuidado em outra cesta. Estava quase terminando quando viu Hilda acompanhada de Amelinha e Eurico se aproximando. Amelinha parou junto dele, perguntando: - O que é isso? - Mudas para replantar. - Mudas de quê? - Margaridas. . Amelinha apanhou uma e revirou-a entre os dedos. - Parece um matinho. Acha que isso vai dar flor mesmo? Nico riu bem-humorado: Claro que vai. Nunca viu uma margarida? - Já. Mas não sabia que nascia disso. Quero ver você plantar. Vai fazer agora? 39 - Só depois que o sol ficar fraco, senão elas vão morrer. Amelinha virou-se para Hilda, que parara e esperava por ela, e disse: - Está vendo? Você diz que Eurico precisa tomar sol. Se faz mal para as plantas, faz mal para nós. - Deixe de bobagem, menina - respondeu Hilda sacudindo a cabeça. - O sol da manhã faz bem, o sol muito forte é que faz mal. - Como é que as pessoas ficam na praia o dia inteiro tomando sol? - Deixe de besteira. Vamos continuar. - Estou cansado - disse Eurico. - Vá buscar minha cadeira, que eu quero sentar um pouco aqui embaixo da árvore. - Você precisa fazer exercício - alegou Hilda. - Caminhar faz muito bem. - Estou cansado e não quero caminhar. Vá buscar minha cadeira. Hilda suspirou contrariada, mas foi apanhar uma cadeira de preguiça e abriu-a onde Eurico pediu, embaixo da árvore onde Nico trabalhava. O menino sentou-se e fechou os olhos. Nico olhou-o penalizado. Eurico parecia mesmo muito doente. A vitalidade que faltava a Eurico, Amelinha tinha-a de sobra. Não parava um instante, perguntando sobre as plantas, o tempo que demoravam para dar flor, se margarida era cheirosa, se fora ele quem plantara tudo que havia naquele jardim. Nico respondia com naturalidade. Ele gostava da natureza. Falar sobre isso era-lhe fácil e ele discorria prazerosamente. - Hoje de manhã havia um passarinho em minha janela. Se eu tivesse uma gaiola, poria miolo de pão dentro e deixaria a porta aberta para ele entrar. Assim poderia vê-lo e ouvi-lo cantando todos os dias. - Para isso não precisa prender. Deve ser horrível ficar preso sem poder voar. - Mas ele foi embora e nunca mais o verei. - Se colocar água, alpiste ou farelo para eles comerem, e se não assustar, eles estarão sempre por perto. Com o tempo, chegarão a comer na sua mão. - Eu queria que um passarinho viesse comer em minha mão! disse Amelinha, entusiasmada. Eurico abrira os olhos e ouvia a conversa com interesse. Nico continuou: - Na minha casa tem uma mangueira que eu coloquei um banco embaixo. Todos os dias eu levanto cedinho e tomo o meu café ali, vendo o dia clarear. As migalhas de pão caem no chão e tem algumas rolinhas que se acostumaram a comer comigo. 40 Sempre quando eu chego, elas vêm cantando alegres, sobem em cima das minhas pernas, comem as migalhas. Eu estendo a mão e elas vêm comer o meu pão. Amelinha ouvia maravilhada. - Você acha que elas viriam comer comigo também? - indagou a menina. - Se tiver paciência de esperar e não assustar os passarinhos, eles vêm. - Hilda, vá buscar um pedaço de pão. Quero ver se eles vêm aqui agora - disse Amelinha. - Não é hora. Não há nem passarinho aqui - respondeu ela. - Porque não tem comida nem água - disse Nico. - Se eles descobrirem que tem, vão aparecer, pode ter certeza. - Vá, Hilda - insistiu Amelinha. Ela, que havia se sentado em um tronco de árvore que lhe servia de banco, levantou-se e lentamente dirigiu-se à cozinha. Estava acostumada a obedecer às ordens das crianças. Trabalhava para a família desde antes de Amelinha nascer, cuidando de Eurico, cuja saúde delicada exigia atenção constante. Como não tinha família, quando o médico recomendara uma mudança de clima para o menino, não se importara em mudar-se para o interior. Quando ela voltou com o pedaço de pão, Nico levantou-se e apanhou um pedaço, dizendo. - Veja, vou mostrar como se faz. Ele caminhou uns dez passos, e Amelinha acompanhou-o com interesse. - Vamos começar daqui. No começo eles não sabem que você não vai prender eles. Precisa ganhar a confiança dos passarinhos. Enquanto falava, Nico ia esfarelando o pão e aproximando-se da árvore. - Agora segure o pão e esfarele em volta de você. Amelinha obedeceu e foi esfarelando o pão em volta deles, colocando sobre as pernas de Eurico. O menino, calado, observava. Não demorou muito, alguns passarinhos se aproximaram, permanecendo há alguma distância do lugar onde começavam os farelos de pão. Aos poucos, alguns mais ousados foram se aproximando e começaram a comer, saltitantes, olhando em volta com seus olhinhos ágeis e curiosos. Amelinha sustinha a respiração com medo de que eles se assustassem. Aos poucos foram se aproximando e, não vendo nenhuma reação das pessoas, foram se tornando mais ousados. 41 Alguns chegaram aos pés de Eurico e Amelinha, enquanto outros, mais cautelosos, olhavam a certa distância. As crianças, fascinadas, nem se mexiam. Até que um dos pássaros pousou na perna de Eurico, comendo as migalhas que havia. O menino, emocionado, seguia todos os seus movimentos. Foi muito rápido, mas foi o bastante para que os olhos dele se enchessem de lágrimas. Hilda, preocupada, levantou-se, aproximou-se dele e perguntou: - O que foi, não se sente bem? - Por que se intrometeu? Você os espantou! - disse Eurico, indignado. - Por que não me deixa em paz? Hilda olhou assustada para ele. Eurico nunca a tratara daquele jeito. Ela colocou a mão em sua testa para ver se ele estava com febre. - Quero que vá embora - disse Eurico com raiva. - Você espantou os passarinhos. - Fiquei assustada com você. Por que estava chorando? - Não é de sua conta. Deixe-me em paz! - respondeu o menino. Hilda, indignada, retrucou: - Vamos entrar. Essa história de passarinhos lhe fez mal. Você não pode se emocionar. - Deixe-me - disse ele irritado. - Vá embora. Não quero entrar agora. - Vou falar com sua mãe. Se você piorar, não será por minha culpa. Não quer me obedecer. Ela se afastou contrariada e Amelinha aproximou-se do irmão, dizendo alegre: - Muito bem. Você tem de fazer o que gosta. Não pode aceitar tudo que ela quer. Não é mais um bebê. O menino fechou os olhos, dizendo: - Sim, mas acho que vou entrar mesmo. Sinto-me muito cansado. Nico aproximou-se dele, dizendo: - Não fique triste por eles terem ido embora. Se você quiser, amanhã podemos fazer de novo. Você já viu um beija-flor? - Não - disse Eurico. - Ele fica parado no ar, enquanto tira o néctar da flor. É muito colorido, é lindo! Aqui tem muitos deles. Sei como atrair. Você quer? Os olhos de Eurico brilharam ao responder: - Quero! - Então descanse bastante para amanhã ficar bem forte e poder ver os beija-flores. 42 Antes que ele respondesse, já Eulália e Hilda se aproximaram. - Você está bem, meu filho? Eurico abriu os olhos devagar e respondeu: - Só um pouco cansado. - Não pode abusar, para não se sentir mal. Tem de obedecer Hilda. Ela sabe cuidar de você muito bem. Eurico não respondeu. Levantou-se e vagarosamente dirigiu-se para dentro de casa acompanhado dos demais. Nico seguiu-os com os olhos, pensativo. Qual seria a doença de Eurico? Na manhã do dia seguinte, enquanto tomavam o café embaixo da mangueira, Nico disse para a mãe: - Ontem fiquei com pena do Eurico. Ele é tão fraco... Não pode andar um pouco que fica cansado. Dizem que ele é doente. O que será que ele tem? - Não sei. Esse povo da cidade é muito enjoado. Tem medo de tudo. Criança precisa engatinhar no chão, brincar com terra, aprender a viver. Os filhos de pobre são fortes e agüentam tudo, até comer só feijão com farinha. Mas na cidade eles são cheios de nove-horas, e é isso que dá. - Não sei, não, mãe. Não é isso, não. O Eurico tem doença mesmo. É pálido, quase não sai da cama. O Dr. Norberto se mudou para a mansão por causa dele. Os médicos disseram que o clima daqui pode fazê-lo melhorar. - Se fosse meu filho, levava logo no Seu Zé das Rosas e pronto. Ele daria jeito. É.o melhor curador desse interior. Nico calou-se pensativo. Seu Zé sempre dera jeito nas doenças e problemas da família, mas Nico perguntava-se se ele poderia saber mais que os médicos da cidade. - Os médicos da cidade sabem das coisas - disse ele. - Estudam muito e conhecem todas as doenças. O Seu Zé nunca saiu daqui e nunca estudou. Ernestina olhou para ele escandalizada: - Não diga isso, Nico. Ele nunca estudou o que os médicos estudaram, mas ele tem os guias, que sabem mais do que todos os médicos da Terra. - Por que acha isso, mãe? - Por que esses guias são espíritos de luz que Deus colocou pra ajudar a aliviar o sofrimento no mundo. E eles podem olhar dentro do corpo das pessoas e enxergar qual é o problema que elas têm. 43 Depois, mostram ao Seu Zé e ensinam até o remédio. Que médico da Terra pode fazer isso? Nico balançou a cabeça admirado. - Não tinha pensado nisso! Nesse caso eles podiam mesmo descobrir o que é que o Eurico tem e ensinar o remédio! Ernestina sacudiu a cabeça: - Foi o que eu disse. Mas o difícil é fazer com que eles acreditem no Seu Zé. - Vou falar com a Dona Eulália. - Não faça isso, Nico. Gente da cidade não acredita nessas coisas da roça. Ela pode não gostar. - Eu queria tanto ver o Eurico melhorar! Morar em uma casa tão bonita, ter um quarto tão grande só para ele, poder comer tudo que quiser, sem poder aproveitar nada disso... é uma tristeza! - Minha mãe dizia que Deus dá nozes a quem não tem dentes. Nico começou a rir sem parar. - O que foi, menino? Eu disse alguma coisa engraçada? - Não, mãe. É que eu fiquei imaginando o Seu João jornaleiro tentando mastigar as nozes sem um dente na boca. Ia se machucar. Ernestina desatou a rir. - Só você mesmo pra dizer uma coisa dessas! Na tarde daquele mesmo dia, quando o sol já estava mais fraco e Nico regava as mudas de margaridas que Maninho havia plantado, Hilda aproximou-se dele: - Eurico quer falar com você. Desde cedo não me dá sossego. - Já vou, Dona Hilda. Estou acabando. - Deixe isso, menino, e vá logo. - Falta pouco. Não vou demorar. - Ele está sentado perto da janela da sala. - Eu vou até lá. Nico rapidamente acabou sua tarefa, lavou-se e foi até a janela onde Eurico, sentado do lado de dentro, o esperava. - Você me chamou? - indagou curioso. - Chamei. Quero ver os beija-flores. Pode ser hoje? - Podemos tentar. Você descansou bem? - Se eu for esperar estar descansado, nunca verei um beija-flor. - Você está sempre cansado?- perguntou Nico, admirado. - Sempre. Já me acostumei. Amelinha aproximou-se, dizendo alegre: 44 - Eu também quero ver os beija-flores. - Precisamos de um pouco de água com açúcar e um pedaço de pão. Eurico levantou-se enquanto Amelinha correu à cozinha em busca do que Nico pedira. Quando voltou carregando o pão em uma mão e a pequena vasilha com água e açúcar, Hilda aproximou-se dizendo: - Vão a algum lugar? - Vamos com Nico ver os beija-flores - esclareceu a menina. - Está bem, eu vou com vocês. Eurico pode se sentir mal. Nico lembrou-se das palavras de sua mãe. Intimamente concordou com ela que gente da cidade tinha medo de tudo. Eurico iria só até o jardim. Se não se sentisse bem, era só voltar para casa. Ficou esperando do lado de fora. Quando eles saíram, Nico tornou: - Vamos perto daquela trepadeira do caramanchão. Está florida. Os três acompanharam-no. Lá chegando, Nico colocou a vasilha com água encaixada entre os galhos da trepadeira, depois espalhou os farelos de pão ao redor. - Agora vamos entrar no caramanchão e esperá-Ios chegar. - Você acha que eles vêm? - perguntou Amelinha, interessada. - Vamos ver. Se eu tivesse alpiste, seria melhor. Mas eles gostam muito de água com açúcar. Temos que esperar calados. Não podemos fazer barulho. Entraram no caramanchão, e começou a espera. Lá dentro havia dois bancos e uma pequena mesa. Hilda fez sinal a Eurico que sentasse, mas ele nem ligou. Seus sentidos estavam todos na escuta. Alguns minutos se passaram sem que nada acontecesse. Os dois irmãos olhavam para Nico e para fora na expectativa. Hilda não tirava os olhos de Eurico, com receio de que ele se sentisse mal. Por que ele não se sentava? Finalmente, Nico colocou o dedo nos lábios recomendando silêncio. Os outros pássaros já haviam comido quase todo o farelo de pão quando um beija-flor se aproximou. Por entre os galhos da trepadeira, os quatro seguiam todos os movimentos do irrequieto animal que voejava em círculos indo aos poucos se aproximando da vasilha com água. Nico a havia colocado encaixada entre os galhos, inclinada para que ele pudesse beber com facilidade. Por fim, o pássaro encontrou a vasilha e batendo as asas permaneceu parado no ar enquanto bebia a água. Eurico e Amelinha estavam fascinados. Olhos brilhantes, não perdiam nenhum movimento do beija-flor, que foi embora quando se fartou. - E então - indagou Nico, contente. - Gostaram? 45 Puxa, que beleza! - disse Amelinha. - Como é que ele consegue parar no ar? - considerou Eurico, admirado. - Ele foi feito para isso - respondeu Nico com naturalidade. Na natureza tudo é perfeito. Cada coisa no seu lugar. - Será que não vai vir outro? - indagou Eurico. - Agora chega por hoje - disse Hilda. - Você nem sequer se sentou! Eles nem pareceram ouvir. - Vamos esperar outro! - pediu Amelinha. - O sol já se pôs - disse Nico. - Eles foram procurar os ninhos para dormir. - Tão cedo? - perguntou Amelinha. - As aves dormem quando o sol se põe - esclareceu Nico. - Vai ver que têm medo da noite, como Eurico. - Eu durmo cedo porque fico cansado - rebateu o menino. - Não fale assim com seu irmão, Amelinha. Ele é doente e precisa deitar cedo para descansar. - Os passarinhos precisam descansar como Eurico? - Eles dormem cedo porque a natureza os fez assim - respondeu Nico. - Para eles, dormir quando o sol se põe é o seu jeito de ser. Fazem isso por instinto. - Vamos entrar. Estou sentindo uma corrente de ar. A poeira pode levantar e fazer mal a Eurico - determinou Hilda. Caminhando de volta à casa, Nico disse: - O Seu Aurélio já foi embora e eu preciso ir. - Não vá, não. Fique mais um pouco - pediu Amelinha. - Ele tem de ir para casa. A mãe dele está esperando - lembrou Hilda. - Isso mesmo. Eu preciso ir - reforçou Nico. Bem que ele gostaria de ficar, mas não queria abusar. Depois, era hora de jantar e sua mãe sempre dizia que ele não podia ficar na casa dos outros nessa hora para não incomodar. Quando chegaram à porta da casa, Eurico disse: - Amanhã poderemos ver os beija-flores de novo? - Se você quiser, depois que eu acabar o serviço. - Precisa ser antes que o sol vá embora - disse Amelinha. Nico sorriu ao responder: - Não se preocupe. Vai dar tempo para tudo. 46 Nico foi embora e eles entraram. Amelinha correu para a mãe, que na sala se entretinha lendo uma revista. - Mamãe, você tinha de ver! Nico é mágico! Sabe tudo de passarinho. O beija-flor é o mais lindo de todos! - E ele fica parado no ar! - comentou Eurico, que vinha mais atrás. Eulália olhou-o admirada. Seu filho nunca abria a boca para dar opinião. Nada conseguia tirá-Io da indiferença. Levantou-se olhando-o com atenção. Pareceu-lhe ligeiramente corado. Virou-se para Hilda, dizendo: - Ele parece um pouco corado. Estará com febre? Imediatamente Hilda colocou a mão na testa do menino. - Não parece, Dona Eulália. Por causa desses passarinhos eles não escutam nada. A senhora precisava ver. No caramanchão, Eurico nem quis se sentar. O rosto de Eulália abrandou-se, e voltando-se para o filho perguntou: - Você gostou de ver o beija-flor? - Gostei. Amanhã quero ver de novo. - Nico disse que vai chamá-Ios amanhã - comentou Amelinha com entusiasmo. - Está vendo só, Hilda? Você disse que os meninos da roça são caipiras e não sabem de nada. Nico sabe fazer coisas que eu nunca vi na cidade. Ele conhece tudo das plantas, das borboletas e até dos passarinhos. Eulália olhou para Hilda admirada e ela enrubesceu. Essa diabinha não precisava repetir um comentário que ela fizera no dia da chegada, quando Amelinha quisera brincar com Nico e ela não havia deixado. - Eu só disse a eles que não deveriam esperar que um menino da roça soubesse brincar como os da cidade. - Ele sabe muito mais - disse Amelinha com entusiasmo. - Ele sabe atrair os passarinhos e eles vêm comer em nossa mão. Não é, Eurico? - É. - Bem, agora chega de conversa. É melhor irem tomar banho para se preparar para o jantar. Enquanto Hilda se afastava com os dois, Eulália acompanhou-os com olhar triste. Depois, sentou-se mas não abriu novamente a revista. Seu pensamento perdia-se nas lembranças. Filha mais velha de abastada família, ela recebera esmerada educação. Tocava piano, falava francês, diplomara-se como professora primária. Sua família tudo fez para que ela encontrasse um bom marido, e, quando Norberto, recém-formado em advocacia, começou a freqüentar a casa de sua tia, eles logo viram nele um ótimo pretendente para Eulália. 47 Moço elegante, bem-parecido, inteligente, rico, seria o marido ideal para ela. E, para coroar os sonhos deles, Norberto interessou-se por ela assim que a viu. Do interesse ao namoro, levou apenas um mês. Eulália, quando soube, não quis aceitar. Achava Norberto um bom partido, mas não gostava dele o suficiente para chegar ao casamento. Quando disse isso à mãe, esta foi categórica: - Como não gosta? Que bobagem é essa, menina? Você já completou vinte anos e até agora nunca namorou. Quer ficar para titia? Depois, um partido como esse não aparece todos os dias. Você tirou a sorte grande e não percebeu ainda! - Mas eu não o amo! - Isso é besteira. Quando me casei, também não amava seu pai. Estamos indo muito bem. O amor vem depois. - Mas eu não quero! - Deixe de história. Você vai se casar com ele e pronto. Eu e seu pai já decidimos. Logo vamos combinar tudo com a família. Eulália chorou mas obedeceu. No dia do noivado, depois do jantar de família, Norberto tomou-lhe o braço e levou-a ao jardim. Sentando-se com ela em um banco, segurou sua mão, beijando-a. Depois, tomou-a nos braços e beijou-lhe os lábios. Eulália começou a chorar. Surpreendido, ele se afastou um pouco e perguntou: -O que foi? Ofendi-a de alguma forma? Ela meneou a cabeça negativamente, mas continuou chorando. Todo o pranto que havia represado naqueles dias explodiu. - Eulália, você me assusta! Aconteceu alguma coisa? Por que está chorando desse jeito? -Não quero me casar. Não estou preparada para o casamento. Ele passou a mão pelos cabelos, tentando conter a decepção. Sentiu-se irritado. Pouco havia conversado com ela, mas os pais tinham lhe garantido que ela o amava e que estava feliz com seu pedido. Tentou contornar: - Por que está pensando isso? Já é uma moça. Sua mãe disse-me que você nunca teve um namorado. - É. Nunca namorei. Mais tarde Norberto procurou os pais de Eulália para uma explicação. - Eulália pareceu-me contrariada com nosso casamento. Pensei que ela me amasse. Não posso me casar com uma mulher que não me ama. Enquanto o pai de Eulália conversava com o futuro genro, tentando convencê-Ia de que sua filha era tímida e que sentia vergonha de mostrar que estava apaixonado por ele, a mãe procurou por ela e repreendeu-a severamente. 48 - Mamãe, ele me beijou! - justificou-se ela. - O que esperava? São noivos agora. E depois do casamento ele vai querer muito mais. Você terá de se esmerar para agradá-lo. É a mulher que tem de garantir a felicidade da família. Nunca mais faça o que fez hoje. Ele precisa pensar que você o adora e que fará qualquer coisa para deixá-lo feliz! - Terei de mentir? A mãe olhou-a com ar de comiseração. Logo um moço bonito como aquele e ela com aquelas bobagens! - Pois minta. A mulher precisa aprender a viver bem. Se para sua felicidade tiver de mentir, que seja. Será para uma boa causa. Daqui para a frente não só terá de aceitar o carinho dele como demonstrar amor, ser atenciosa, agradável. Eulália fez o que pôde para se acostumar. Norberto era um homem educado, de boa índole, atencioso e que gostava de viver bem. Assim, depois de algum tempo de casamento, Eulália acostumou-se. Acabou respeitando o marido e sentindo-se feliz por desfrutar da vida a seu lado. Quando engravidou, foi uma festa. Norberto redobrou as atenções. Ter um filho era seu maior sonho. Eulália, que sempre fora saudável, na gravidez teve vários problemas de saúde que a obrigaram a fazer repouso para não perder o bebê. Quando o menino nasceu, apresentou um problema de RH negativo e sofreu uma icterícia perigosa, diferente das que ocorrem normalmente com os bebês. Seu sangue precisou ser todo trocado para que ele sobrevivesse. Sua saúde delicada necessitou de muitos cuidados. Eurico era alérgico a muitas coisas. Para tomar qualquer medicamento, era preciso fazer testes cuidadosos. Eulália suspirou. Por que seu filho nascera daquele jeito? A princípio o marido a culpara dizendo que ela não se cuidara direito durante a gestação, uma vez que vivia doente. Esse assunto a revoltava. Ela sempre fora saudável. Que culpa poderia ter de haver dado à luz uma criança doente? Quando ela engravidou de novo, Norberto não queria. Tinha receio de que também nascesse doente. Entretanto, surpreendentemente Eulália passou bastante bem daquela vez. Ligeiro enjôo nos primeiros meses, mas depois tinha disposição, apetite, alegria, parecia até haver remoçado. 49 Amelinha nasceu saudável e forte. Seu choro encheu o quarto do hospital. Ela era o oposto do irmão. Corada, alegre, dormia bem, comia, sorria, era cheia de vida e energia. Eulália não podia entender. Por que um era tão diferente do outro se os pais eram os mesmos? Às vezes, percebia que Norberto olhava para Amelinha com certa implicância. Ela sabia que ele desejava filho homem e que não ligava para a menina. Talvez se perguntasse por que justamente Eurico nascera tão debilitado enquanto Amelinha vendia saúde e disposição. Desde que Eurico nascera, Norberto envidara todos os esforços para que ele se tornasse saudável. Tudo que a medicina do Brasil e até do exterior podia oferecer ele procurou. Nenhum exame de Eurico indicava qualquer lesão em seus órgãos internos. Tudo parecia normal, entretanto ele continuava alérgico, debilitado, sem interesse pela vida. Por fim, um especialista de Viena que ele consultara dissera-lhe que era preciso estimular a saúde, procurando um clima quente, já que ele piorava no inverno. Receitou fortificantes, ambiente alegre e tranqüilo. Norberto comentou desanimado: - Como podemos fazer com que ele se alegre? Não se interessa por nada! Ele precisa sair de São Paulo. Aquele clima instável não serve para ele. - Talvez possamos ir para o interior - sugerira Eulália. - Há cidades que têm bom clima. Norberto pensou um pouco e respondeu: - Acho que tem razão. Há aquela casa antiga em Sertãozinho que herdei de meu tio-avô. - O coronel Firmino? - Sim. - Está fechada há muito tempo. Dizem que é assombrada. Norberto soltou uma gargalhada. - Que bobagem! Meu pai foi passar férias lá quando criança e os criados inventaram essas histórias para assustá-los. Vamos ver como está. É uma bela casa. O coronel Firmino ganhou muito dinheiro com o café, mas, quando houve a crise, desistiu da fazenda. Loteou as terras, conservando apenas a casa. Ele não foi feliz lá, mas nunca se mudou. - Houve uma tragédia. Sua mãe contou-me a história. - O povo exagera. Gosta de fazer tragédia. Vamos ver a casa e o lugar. Se servir, mudamo-nos para lá. - E seu escritório? 50 - Terá de continuar aqui. Você fica lá com as crianças e irei todos os fins de semana. Precisamos nos sacrificar em favor da saúde de Eurico. Eulália concordou. Ela se sentia muito só, mesmo estando ao lado do marido. Dedicava-se aos filhos para ver se conseguia preencher o vazio que sentia no coração. Levantou-se e foi até a cozinha para verificar como ia o jantar. 51 Capítulo 4 Hilda entrou no quarto de Eurico, abrindo as cortinas. Depois se aproximou do leito, dizendo: - Levante-se, Eurico. Está uma linda manhã. Depois de tomar seu café, vamos dar uma volta pelo jardim. O menino abriu os olhos sem muita disposição. - Vamos - insistiu ela, tentando entusiasmá-Io. - O dia está tão bonito! - Nico já chegou? Hilda surpreendeu-se. Eurico nunca perguntava por ninguém. - Ele só vem depois do almoço. - Então vou ficar dormindo. Acorde-me quando ele chegar. - Nada disso: Você não pode ficar só na cama. Precisa reagir, tomar ar, andar. - Não quero. - Vou buscar seu café. Você pode tomá-Io na cama, mas depois vai se levantar e vamos passear um pouco. - Só vou sair da cama para ir olhar os passarinhos com Nico. - Vamos ver. Vou buscar seu café. Ela desceu e procurou Eulália. - O que foi, Hilda? Eurico não está bem? - Não me pareceu mal. Só que não quer se levantar. Disse que vai ficar na cama. - Ele precisa sair um pouco. O doutor disse que ele precisa fazer exercícios, senão acaba ficando cada vez mais fraco. - Foi o que eu disse, porém ele não quer ouvir. Disse que só vai se levantar quando Nico vier. - Nico? Ele disse isso? - Perguntou por ele assim que acordou. - Hum... Ele gosta desse menino. Nunca vi se interessar por ninguém. - É mesmo. Lá em São Paulo, quando os meninos de Dona Albertina vinham nos visitar, ele se fechava no quarto. Não gostava deles. - Eurico nunca quis conviver com outras crianças. Sempre foi assim. Só tolera a irmã, assim mesmo quando está bem. 52 - É essa história de passarinhos. Ele ficou muito interessado. - Não diga! Isso é muito bom. Precisamos trazer esse menino para brincar com ele. Vamos mandar buscá-Io. - De manhã ele está na escola. - Quero falar com ele. Avise-me quando chegar. Quando Nico chegou, Hilda foi logo dizendo que Eulália queria conversar com ele. Nico foi encontrá-Ia na copa. - Licença, Dona Eulália. - Entre, Nico. Ele entrou e esperou. - Quero conversar com você. - Sim, senhora. Estou ouvindo. - Eurico gostou muito de brincar com você. Hoje cedo perguntou se você já havia chegado. - Depois que eu acabar o serviço posso brincar com ele. - O serviço pode esperar. Eurico é um menino muito doente. Não tem vontade de viver. Não se interessa pelas coisas, como você ou Amelinha. Viemos para cá para ver se ele melhora. - Ele é um menino triste. Sofre de tristeza. Eulália surpreendeu-se: - Não. Ele é doente. Está sempre indisposto. Por isso você pensa que ele está triste. - Desculpe, Dona Eulália, mas eu acho que é a tristeza que o deixa doente. - Eurico é um menino muito querido, tem tudo de que precisa. Por que estaria triste? Não há motivo. - É isso que eu tenho me perguntado. Com uma família tão boa, uma casa tão linda como esta, um quarto tão bom, por que será que ele é triste? Quando olho nos olhos do Eurico, sinto uma tristeza que vem do coração dele. Nunca reparou como os olhos dele são tristes? - Talvez por ser doente e não poder viver como os outros meninos. - Não fique triste, Dona Eulália. O Eurico vai ficar bom, se Deus quiser. Eulália olhou para Nico comovida. Ele dissera aquilo com tanto carinho que ela se emocionou. Ficou silenciosa por alguns instantes, depois disse: - Você é um bom menino, Nico. Eurico gosta de você. Pela primeira.vez ele perguntou por uma pessoa. Desejo pedir-lhe que venha fazer companhia a ele todos os dias. 53 - Eu também gosto dele. Mas preciso trabalhar. Tenho que ajudar a minha mãe e pagar os livros da escola. Por isso, não posso ficar o tempo todo com ele. Mas, depois do horário de trabalho, eu fico o quanto ele quiser. Eulália olhou-o admirada. Ele levava o trabalho a sério. - Nesse caso, vou falar com Aurélio para contratar outro ajudante e eu contrato você. Vai ficar todo o tempo com Eurico. Nico sorriu: - Isso não é trabalho, é prazer. Não gostaria de cobrar por isso. - Mas eu quero pagar. Se estou tirando você de seu trabalho, é justo que eu pague. Depois, para mim, a felicidade de meu filho está acima de tudo. Pagaria muito mais do que seu salário para dar alegria a ele. Aceite e ficarei muito grata. - Se é assim, eu aceito. Vou falar com o Seu Aurélio. - Eu mesma falo, pode deixar. Eurico hoje não quis sair da cama. Está lá em cima deitado, esperando você. Vou mandar dizer que já chegou. Você já almoçou? - Sim, senhora. Obrigado. Eulália chamou Hilda, dizendo: - Avise Eurico que Nico já chegou. Ele almoçou? - Não, senhora. Não quis comer nada. Não sei mais o que fazer para que ele tenha mais apetite. Vou falar com ele - disse, saindo da copa. Nico olhou para Eulália e, vendo-a triste, tornou: - Vai ver que ele tomou café tarde. Quando eu não me levanto cedo, tomo café tarde e não almoço. - Seria bom mesmo que ele se levantasse cedo, fosse andar um pouco no jardim. Por certo teria mais apetite. - Quando a minha irmã Neusinha esteve com gripe, perdeu a vontade de comer, e a minha mãe levou-a no Seu Zé das Rosas. Ele deu um remédio e ela comia o dia inteiro. Foi preciso a minha mãe parar, senão ela ia ficar uma baleia. - Quem é Zé das Rosas? - É o médico da roça. Ele não tem diploma, mas sabe mais do que os médicos da cidade. Ele reza, faz o remédio com as ervas e cura. - Ah! - fez Eulália. Ficou pensativa. Esse deveria ser o curandeiro do lugar. Coisas do interior, de gente simples. Seu filho fora tratado pelos mais renomados especialistas e nenhum conseguira curá-Io. Não seria um curador da roça que iria fazê-Io. 54 Vendo-a pensativa, Nico continuou: - Minha mãe disse que gente da cidade não acredita nos remédios da roça. Mas eu tenho visto o Seu Zé curar muita coisa. Ele é bom mesmo. Eurico entrou na sala com Hilda. - Eu estava dizendo que ele precisava comer pelo menos um pouco antes de sair. Ficar sem almoço, onde já se viu? - Hilda tem razão, meu filho - reforçou Eulália. - Não tenho vontade. - Você quer brincar com Nico? - indagou Eulália. - Quero ir ver os passarinhos. - Ele agora vai ficar com você a tarde inteira. Vocês poderão brincar do que quiserem. - Desde que não seja nada que tenha poeira - interveio Hilda. - Pode deixar, Dona Hilda. Vou tomar cuidado - prometeu Nico. - Por que não deixam para mais tarde? O sol agora está muito forte, pode fazer mal- pediu Hilda. - Não se preocupe, Dona Hilda. Vamos ficar na sombra. Se o Eurico quiser, levamos a cadeira para o caramanchão. Os dois saíram e logo Amelinha, que brincava no jardim, os acompanhou alegremente. Nico carregava a cadeira e colocou-a na sombra, do lado de fora do caramanchão. - Do que quer brincar? - perguntou Nico. - Gostei de ver os passarinhos - respondeu ele. - Você acha que eles voltariam a comer em minha mão? - Acho. Mas nós podemos brincar de outras coisas também. Você já viu um ninho de passarinho? - Só no livro. - Eu também vi - comentou Amelinha. - Eles vão buscar a comida, levam no bico e depois, quando chegam no ninho, colocam na boca dos filhotes. - Eu queria ver isso - disse Eurico. - Só que para isso você precisava poder subir na árvore. Está vendo aquele galho ali naquela laranjeira? - Onde? - Ali em frente, bem na forquilha. Lá tem um ninho de passarinho. - Eu estou vendo - disse Amelinha. - É - concordou Eurico. - Há passarinhos lá? Sim. Como não podemos subir, vamos olhar todos os dias. 55 Os filhotes ainda são muito pequenos, por enquanto só comem, mas logo os pais deles vão ensinar a voar e nós podemos ver daqui mesmo. - Eles não nascem sabendo voar? - perguntou. Amelinha. - Eles nascem com o instinto de voar, mas precisam treinar e aprender. Nós também: nascemos com o instinto de andar, mas precisamos aprender. - Você acha que daqui vamos poder ver quando eles forem começar a voar? - indagou Eurico. - Claro. Às vezes eles caem, e então nós podemos cuidar para que nenhum gato chegue primeiro. - Como você faz isso? E se ele cair e um gato aparecer? - perguntou Eurico. - Você o segura com delicadeza, mas tem que ser firme para ele não escapar. Depois o põe sobre um galho de árvore. Nessa hora, com certeza os pais dele vão estar em volta tentando ajudar e logo vão tomar conta dele. - Que engraçado! - disse Amelinha. - Igual à gente. Eles também pensam, como nós? - Eles não pensam como nós, mas como passarinhos. Cada bicho tem o seu mundo, e vive de acordo com ele. Cachorro pensa como cachorro, porco pensa como porco, galinha pensa como galinha, passarinho pensa como passarinho. - Como é que serão os pensamentos de um cachorro? - perguntou Amelinha. - Uma vez eu li uma história escrita como se fosse pelo cachorro. Ele falava de como via as pessoas, o mundo, os seus donos, tudo. Era uma beleza. Os cachorros devem pensar assim. - Como você sabe, se nunca foi cachorro? - indagou Eurico. - Quando eu li, imaginei que era. Pensei: se eu fosse um cachorro, como eu ia ver as coisas? E percebi que a história bem que podia ser verdade. - Você sabe contar essa história? - perguntou Amelinha. - Sei. - Então conte - pediu Eurico. - É! Conte, conte - reforçou Amelinha. Nico sentou-se no chão ao lado da cadeira de Eurico e começou a contar a história. Os dois ouviam com interesse e nem sequer percebiam que de vez em quando Hilda aparecia para ver o que estavam fazendo e entrava em seguida. 56 - E então? - indagou Eulália em uma dessas entradas. - Eles estão lá, conversando. Nico fala e os dois ouvem. Amelinha, como sempre, entusiasmada; Eurico, atento. - Vamos ver se ele se interessa por alguma coisa. Esse menino me parece muito bom. - Um menino da roça, Dona Eulália. Só espero que os dois não peguem o sotaque do interior. - Nico fala muito bem. Nem parece que nasceu aqui. O Dr. Mário gosta muito dele. Depois, Eurico parece gostar de sua companhia. Só quero que ele se interesse pela vida. - Desculpe, Dona Eulália, mas ainda acho que um menino da roça não é companhia para Eurico. Ele não tem o mesmo nível. Pode dar problemas de educação. - Bobagem, Hilda. Até agora ele tem sido muito educado. Depois, nada mais me importa do que a saúde de Eurico. Farei tudo para que ele fique bom, igual aos outros meninos de sua idade. Hilda baixou os olhos, dizendo: - A senhora é quem sabe. Só quis alertar. Meia hora depois, Nico entrou na cozinha com Amelinha, que disse para a cozinheira: - Vamos fazer um piquenique. Precisamos de uma cesta com tudo. - Vou falar com a Dona Hilda. Logo Hilda apareceu na cozinha. - O que vocês querem? - Vamos fazer um piquenique. Você já fez algum? - perguntou Amelinha. - Não sei se será bom. Comer fora de hora... Melhor não. Eulália apareceu na cozinha e Amelinha pediu: - Mamãe, nós queremos fazer um piquenique. Hilda não quer nos deixar. Eulália aproximou-se. - Se eles comerem agora, não terão fome ao jantar - justificou-se Hilda. Nico esclareceu: - Eu tive a idéia do piquenique porque o Eurico não almoçou, e assim ele poderá comer pelo menos um pouco. - Eu nunca fiz piquenique. Quero fazer um - reclamou Amelinha. - Está bem - concordou Eulália. - Nico tem razão. Quem sabe assim Eurico come um pouco mais. O que querem levar? 57 - Vamos precisar de uma cesta, toalha, coisas dentro - disse Amelinha, entusiasmada. - Não temos uma cesta - disse a empregada. - Só aquela grandona das compras do mercado. - Não faz mal, tornou Nico. - Hoje fazemos um tipo de piquenique, sem cesta. Amanhã eu trago uma de casa com tudo e vamos fazer um como se deve. - Oba! - disse Amelinha. - Amanhã vamos fazer outro! Que bom! E agora, o que vamos levar? - O que o Eurico gosta - disse Nico. - Ele não gosta de nada - disse Hilda, mal-humorada. - Então vamos levar algumas bananas, pão e queijo. - Só? - perguntou Amelinha. - É bom demais - respondeu Nico. - Pão, queijo, bananas vão deixar o Eurico ficar forte depressa. Depois, banana é uma fruta que você pode inventar muitas formas de comer. Já experimentou cortar quadradinho com a faca e ir comendo? - Não - respondeu Amelinha. - Pois tem muito mais. Você vai ver que esse piquenique vai ser muito bom. Quando eles saíram segurando a sacola com o lanche que pediram, Eulália sacudiu a cabeça admirada. Aquele menino tinha cada idéia! Comer banana cortando em quadradinhos com a faca ela nunca havia feito. Seria bom mesmo? Curiosa, ia de vez em quando à janela observar os três brincando. Estavam lá há mais de três horas e Eurico não se sentira cansado. Várias vezes o vira em pé, conversando, coisa rara. Ele nunca participava da conversa, ficava alheio. Passava das cinco e meia quando Hilda foi chamá-Ios para tomar banho antes do jantar. - É cedo - disse Amelinha. - Ainda está claro. - Não é, não. O jantar será servido às sete e vocês têm de estar prontos. Sua tia Liana chega hoje com seu pai. Ele não gosta de atrasos. Vamos embora. - Vou ficar mais um pouco - tornou Eurico, olhando-a desafiador. - Eu também - concordou Amelinha. - Nada disso. Olhem como vocês estão sujos. Meu Deus! Como foi que se sujaram desse jeito? - Nós sentamos na terra para o piquenique - esclareceu Amelinha. 58 - Eurico, que horror! Você não pode fazer essas coisas. Onde já se viu? Vai ficar doente, com certeza! - Ele não vai ficar doente nada! - disse Amelinha. - Ele está muito bem! Hilda fulminou-a com os olhos. Seu rosto cobriu-se de um rubor de indignação. - Você deveria tomar conta de seu irmão ao invés de deixá-Io fazer o que não deve. Vou contar tudo para sua mãe. Se ele adoecer, não será por minha culpa. Eu fui contra essa idéia de piquenique desde o começo. Vamos andando, senão vou chamar Dona Eulália. Nico levantou-se, juntando os objetos espalhados sobre a toalha e dizendo: - Vamos obedecer a Dona Hilda. Chega por hoje. Vamos entrar. - Não quero que você vá embora. Ainda não é de noite! - reclamou Amelinha. - Vocês têm que tomar banho e se preparar para esperar a sua tia e o Dr. Norberto. Quando eles chegarem, vão ficar alegres vendo vocês arrumados e contentes. - Eu não vou me arrumar. Vou ficar no quarto e pronto - disse Eurico com raiva. - Se você ficar no quarto, não vai ouvir a conversa deles e não vai saber as novidades da cidade. Se fosse eu, não ficaria no quarto. Ficaria junto para saber tudinho. - Eu vou ficar com eles! Tia Liana sempre traz presentes para nós. O que será que vai trazer hoje? - Ela é aquela moça bonita que chegou com vocês no dia da mudança e foi embora dois dias depois? - indagou Nico. - É. Eles foram andando de volta à casa, onde Eulália os esperava atenta. - Eles não queriam entrar, Dona Eulália. São quase seis horas, e o Dr. Norberto pode chegar a qualquer momento. - Estava tão bom lá fora! - comentou Amelinha. - Depois, eu não quero que Nico vá embora. Peça para ele ficar, mamãe. - Não seja egoísta, minha filha. Nico tem outras obrigações em casa. Ele se levanta muito cedo para ir à escola e também tem de estudar. Não podemos abusar dele. - Eu quero que ele fique aqui - disse Eurico. Eulália olhou surpreendida para o filho. Ele nunca emitia opinião e muito menos pedia alguma coisa. Ficou sem saber o que dizer. 59 Olhou para Nico e perguntou: - Você pode ficar mais um pouco, Nico? Não tem de fazer lição ou estudar? - Já fiz a lição de casa e posso ficar mais um pouco, até a hora do jantar. Eurico olhou para ele e convidou-o: - Venha até meu quarto. Eu achei uma revista que gostaria de lhe mostrar. Nico olhou para Hilda e Eulália sem saber o que fazer. - Não adianta agora, Eurico - respondeu Hilda. - Você vai tomar banho e se arrumar. Ele espera você descer. - Se ele não subir, eu também não subo. Não tomo banho nem me arrumo. Eulália olhou admirada para o filho. Ele sempre foi apático e nunca se rebelava. Ficava prostrado e acabava sempre fazendo o que queria. Vendo-o pálido e sem forças, ninguém se atrevia a contrariá-lo. - Está vendo só, Dona Eulália? Este menino só faz o que quer. Viu como está com a roupa suja? Sentaram-se na poeira. Já pensou se ele passar mal? - Vá tomar banho, meu filho. Nico pode ir com você. Não há nada de mal ele lhe fazer companhia lá em cima. - Eu também quero ficar no quarto de Eurico - tomou Amelinha. - Você é menina. Eurico vai tomar banho e você não pode ficar com ele. Vá para seu quarto, tome seu banho, arrume-se e depois poderá ficar com eles - determinou Eulália. Hilda lançou um olhar de reprovação e subiu com eles. Eulália ficou pensativa. Era natural que Eurico desejasse ter um amigo. Pela primeira vez ele demonstrara interesse em alguém. Isso era bom. Ela, quando tinha a idade dele, tinha uma amiga da qual nunca se separava. Estavam sempre juntas. Era promissor que finalmente ele desejasse se relacionar. Eulália teve o fio de seus pensamentos cortados pelo ruído de um carro que chegava. Saiu para recebê-Ios. Norberto beijou-a delicadamente na face e Liana abraçou-a com alegria. - Que bom vê-Ia - disse. - Fizeram boa viagem? - Estava um calor sufocante - reclamou Norberto. - Mas afinal chegamos. Estou morto de sede e louco por um banho. - Vamos entrar - convidou Eulália. 60 Depois de servir água fresca a ambos e Norberto subir para tomar seu banho, Eulália acompanhou Liana para o quarto de hóspedes. - Então, conseguiu resolver seus negócios em São Paulo? - Quase. Sabe que eles não queriam me dar a transferência? Se não fosse a recomendação do Dr. Euclides, eu não teria conseguido. - Quer dizer que saiu? - Saiu. Vou lecionar em Ribeirão Preto. Eulália abraçou-a contente. - Que bom! Assim terei companhia. Sabe como é: Norberto passa a semana inteira longe e tenho me sentido muito sozinha. - Eu não via a hora de vir para cá. Depois que mamãe morreu, tenho me sentido muito só. Fiquei indignada quando papai levou aquela mulher para nossa casa. Mesmo que vocês não tivessem me convidado para morar aqui, eu teria saído de casa, ido para algum lugar. - Agora ele pode até se casar com ela! - Deus nos livre! Depois de tudo! Se ele fizer isso, mamãe vai se revirar no túmulo. Eulália ficou pensativa por alguns segundos, depois disse: - Ela nunca o perdoou por ter se apaixonado por outra. - Sei disso. Eulália olhou séria para a irmã e continuou: - Não sei por que ela suportou. - Talvez para não se tornar uma desquitada! - É uma boa razão. Em nossa sociedade o adultério para o homem é visto até como sinal de virilidade, mas a mulher desquitada sempre é olhada com maus olhos, mesmo sem ter culpa de nada. Os olhos verdes de Liana brilharam quando ela disse: - Ela pode ter feito isso por amor, por não querer a separação. - Não tenho certeza se ela o amava tanto assim Não creio muito no amor. O casamento é sempre um jogo de interesses. Eu era muito nova quando me casei, você sabe que eu não amava Norberto. Foi para obedecer a mamãe. Mas agora, depois de treze anos de convivência, aprendi a gostar dele. Tenho sentido muito sua falta depois que nos mudamos para cá. É uma questão de costume. - Eu não teria obedecido se fosse você. Só vou me casar por amor. Os olhos de Eulália brilharam quando respondeu: - Esse é um sonho difícil de se realizar. Tem visto Mário? - Ele me ligou algumas vezes, convidando para sair, mas eu estava sempre ocupada. Queria resolver tudo logo para voltar. 61 - Ele me parece interessado em você. Não se declarou? Liana sorriu e deu de ombros. - Não. Acho que quis ser amável comigo por eu estar sozinha em São Paulo. Quis ser atencioso, agradar Norberto. - Hum... Eu acho que não é nada disso. Ele olha para você de um jeito... - Se estivesse interessado em mim, teria me procurado, insistido. - Pode não ter querido forçar. Ele é muito educado. - Por causa disso é que eu acho que está apenas cumprindo as regras da boa educação. - Não creio. Se ele pedir para namorar, você vai aceitar? - Não sei. Nunca pensei nisso. - É excelente pessoa, um bom partido, muito bem-parecido, elegante. Eu diria até que é um homem bonito. - Não nego que é bonitão. Mas não estou apaixonada por ele, se quer saber. Eulália riu bem-disposta e acrescentou: - Quer apostar como ele logo virá nos visitar? - O que é natural. É muito amigo de Norberto, fez um belo trabalho na reforma desta casa. - É verdade. Nenhum outro teria feito melhor. Restaurou tudo com perfeição. A casa não só ficou linda mas também muito confortável. - Você gosta daqui. - Gosto. Confesso que vim somente para ajudar Eurico. Mas agora estou apreciando muito o lugar. É calmo, sossegado, cheio de pássaros e flores. Depois, até Eurico está dando sinais de melhora. Isso para mim é o mais importante. A única pena é que Norberto não pode ficar aqui o tempo todo. É muito cansativo para ele vir todos os fins de semana. Reparou como ele estava cansado quando chegaram? - É verdade. O calor estava muito forte e ele transpirou e reclamou o tempo todo. Está fazendo esse sacrifício pelo bem-estar de Eurico. Se ele está melhor, está valendo a pena. - Está. Já tem até um amigo: Nico. - Sei quem é. Mário fala nele com admiração. - É um menino muito prestativo e inteligente. Apesar de vir de uma família simples, é muito educado. Sabe portar-se. - Ótimo. As duas continuaram conversando até quase a hora do jantar. Eulália saiu para cuidar de seus afazeres. 62 Liana acompanhou-a até as escadas e na volta, ao passar pelo quarto de Eurico, ouviu risadas. Bateu delicadamente na porta e entrou. Nico estava com um pano colorido nas costas, à guisa de capa, e segurava uma vara na mão enquanto Amelinha, com uma coroa de flores na cabeça e uma fita colorida na cintura, trazia nas mãos um pedaço de papel. Eurico, sentado em uma cadeira, assistia. Vendo-a entrar, eles ficaram parados. - Não quero interromper - foi logo dizendo Liana. - Vim apenas dar um abraço. Amelinha correu para ela, abraçando-a: - Que bom, tia! Depois de beijá-Ia, Liana aproximou-se de Eurico, abraçando-o e beijando-o na face. - Como vai? Está melhor? - Estou - respondeu ele sem entusiasmo. - Como vai, Nico? - Bem. E a senhora, fez boa viagem? - Muito boa, obrigada. Vocês brincavam e eu interrompi. - Estávamos representando para Eurico. Eu era a princesa Miriam, e Nico o rei. Ele não queria que eu me casasse com o príncipe. Então ele deu três coisas perigosas para o príncipe fazer. Ele só vai consentir no casamento se ele vencer as provas. - E o príncipe, quem é? - Bom, ele disse que deveria ser Eurico. Mas ele ainda não decidiu se quer. Se ele não quiser, vai ter de ser Nico mesmo. Ele vai ter de fazer os dois papéis. - O Eurico vai fazer, sim - disse Nico. - Ele vai ser o herói, vencer todas as provas e se casar com a princesa! Aí o próprio rei vai ter que fazer o casamento. - Vai ter bolo de noiva e tudo! - disse Amelinha, contente. - O casamento não vai ser hoje - disse Nico. - Está quase na hora de jantar e eu tenho que ir embora. Só fizemos o primeiro ato. Vamos continuar amanhã. Precisamos de tempo para preparar as roupas. Minha mãe sabe fazer roupas de papel crepom. - O da princesa tem de ser azul, da cor do céu! - disse Amelinha. - A coroa tem que ser dourada. Toda de ouro - completou Nico. - E a roupa do príncipe? - indagou Eurico. - Bom, ela pode ser da cor que você gostar. Agora, as jóias precisam ser brilhantes e a espada tem que ser de prata. 63 - Onde vão arranjar o material? - indagou Liana. - Vou pedir a mamãe para comprar o papel - disse Amelinha. - Eu tenho alguns colares e pulseiras que poderão ser transformados em jóias. Vocês querem? - Oba! - fez Amelinha com entusiasmo. - Que bom! - disse Nico. - Já pensou, Eurico? Esse príncipe vai ficar mais bonito que o rei! - Acho que vou querer ser ele! - concordou Eurico. Depois de prometer arranjar material para eles fazerem as roupas da peça, Liana saiu e foi para o quarto. Estava bem impressionada com o que vira. - Puxa, se sua tia ajudar, poderemos fazer uma peça de verdade. - Como no teatro? - perguntou Amelinha, entusiasmada. - Bom, teatro eu não sei como é, mas vi no cinema e no circo também. Podemos fazer tudo e depois representar de verdade. - Não há ninguém para assistir - tornou Amelinha. - Se a gente ensaiar bem, fizer tudo direitinho, podemos fazer uma apresentação para outras crianças da cidade. Isto é, se a sua mãe deixar. - Puxa! Será que eles vão querer assistir? - Claro que vão. Mas ainda é cedo para dizer. Vou escrever a história toda no papel e depois vamos fazer as roupas, ensaiar. Quando estiver tudo pronto, veremos. - Você precisa mesmo ser o príncipe, Eurico - disse Amelinha. Nico não vai poder ser os dois. Como é que ele vai fazer o casamento? - O Eurico vai fazer o príncipe, não é mesmo? - Vamos ver. Você acha que eu vou acertar e vencer as provas? - Claro que vai. Estamos representando, e tudo é no faz-de-conta - Explicou Nico com entusiasmo. - Você vai saber direitinho o que fazer. Vai ensaiar bastante. - Será que eu vou poder? - Tenho certeza que vai - garantiu Nico com entusiasmo. - Só que nós vamos guardar segredo. Vamos pedir para sua tia que não diga nada a ninguém. Vamos fazer uma surpresa. - Oba! Eu adoro segredos! - disse Amelinha batendo palmas de alegria. - O que acha, Eurico? - Está certo. Nico aproximou-se, pegou a mão de Amelinha, colocou-a sobre a de Eurico e pôs a sua em cima, dizendo: 64 - Nesse caso, vamos jurar. Este segredo vai ficar guardado e quem falar dele aos outros é um bobão. E, se isso acontecer, não vamos fazer mais nada. Os três juraram solenemente. - Agora, sim - disse Nico -, estamos juntos de fato nessa peça. Hilda entrou no quarto dizendo: - Vamos descer. Está na hora do jantar. - Eu preciso ir - disse Nico, despedindo-se dos amigos que forçosamente queriam que ele ficasse. - Amanhã eu volto - prometeu ele. Desceram juntos e ele discretamente esgueirou-se pela cozinha e saiu. A tarde estava findando e o sol já havia desaparecido, deixando apenas os reflexos de seus raios no céu cor-de-rosa, onde o brilho pálido das primeiras estrelas começava a aparecer. Nico olhou para o céu e sorriu. Aquele era um minuto mágico da natureza, e ele pensou: o que haverá lá em cima, no céu, além das estrelas? Deu asas à fantasia, mas dentro de seu coração ele sabia que, apesar de não poder comprovar, havia a certeza da grandiosidade da vida e ele sentia em tudo o poder de Deus. 65 Capítulo 5 A partir daquele dia, Nico passou a fazer parte da família de Eulália. Mal chegava da escola, colocava os livros sobre a cama e ia para a mansão. Eurico apegou-se a ele de tal forma que não queria fazer nada enquanto Nico não aparecesse. Eulália procurava contentá-Io, uma vez que Nico exercia uma benéfica atuação sobre o comportamento do menino. Ao lado dele, concordava em comer, mostrava-se mais animado, mais interessado nas coisas. Havia engordado, estava mais corado e não se cansava como antes. A princípio Nico, em obediência à sua mãe, só ia para lá depois de haver almoçado. Mas Eulália pediu-lhe que fosse almoçar com Eurico e assim ele passou a fazer suas refeições lá. Ela pagava todas as semanas a modesta quantia que lhe prometera, mas, sentindo-se grata pela dedicação de Nico, mandava alimentos e roupas para sua família. Com isso, eles deixaram de passar necessidade e Ernestina não precisou mais trabalhar tanto para manter a família. Jacinto, satisfeito com a proteção de Dona Eulália, interessou-se pelos serviços que Nico prestava na mansão, desejando explorar a situação. Ernestina foi categórica: - O Nico não vai fazer o que você está dizendo. - Vai, sim. Dizem que o menino só come com o Nico e que a Dona Eulália está feliz com a melhora do filho. Vai dar pra ele o que ele quiser! Outra oportunidade dessas não vamos ter! Ernestina, enraivecida, olhou para o marido e seus olhos faiscavam quando respondeu: - Não se mete com o Nico. A Dona Eulália é uma mulher muito boa. Não vamos nos aproveitar da situação, não. Não quero o meu filho fazendo uma coisa dessas! - Se eu quiser, ele faz! Tem que obedecer! Ernestina aproximou-se dele, dizendo com voz ameaçadora: - Não vou tolerar que faça isso! Deixa o menino em paz! Você nunca se importou com ele. - Precisamos aproveitar a oportunidade. Ganhar dinheiro! - Por que não procura um serviço pra fazer? É o jeito de ganhar dinheiro, não é explorando os outros. O que devia fazer é arranjar um trabalho. 66 Nossa terra está cheia de mato, por que não planta pelo menos um pouco? Jacinto reclamou e foi saindo, e Ernestina suspirou, tentando conter a raiva. Por que se casara com um homem tão preguiçoso? Não ia deixá-lo atrapalhar a vida de Nico. Queria que seu filho crescesse honesto, digno, respeitado pelas pessoas. Mas Jacinto não desistia, e quando Nico chegava ele logo aparecia, reclamando do dinheiro que o menino recebia na mansão, até dos donativos generosos de Eulália. Nico escapava desgostoso. Por que o pai era daquele jeito? Dona Eulália não tinha nenhuma obrigação de sustentar sua família. Entretanto, mandava donativos porque tinha um bom coração. Como ele podia ser tão ingrato? Era tão bem tratado na mansão que ele sentia até vergonha de receber o dinheiro que ela lhe pagava. Várias vezes teve vontade de não receber. Mas sabia que o dinheiro era necessário para as despesas de sua casa. Por isso, continha-se. Depois, ele gostava de Eurico, de Amelinha e das demais pessoas da casa. Com Norberto era mais retraído, uma vez que ele só aparecia nos fins de semana e havia até alguns em que ele não ia. De vez em quando Mário aparecia para ver como estavam as coisas na mansão. Abraçava Nico com carinho, e o menino notara o interesse do engenheiro pela irmã de Eulália. Mário ficava emocionado quando ela chegava, fazia um jeito de quem deseja agradar, e Nico sabia que o engenheiro gostaria de namorá-la. Liana tratava-o com atenção, mas não parecia estar apaixonada. Ela era muito bonita, e Nico torcia para que eles namorassem. Gostava de Mário e queria que ele fosse feliz. Uma tarde, Eulália chamou Nico e pediu: - Gostaria muito de conversar com sua mãe. Ela poderia vir até aqui amanhã? - Pode, sim, senhora. Só que tem um problema... - Qual é? - Minha mãe tem medo de entrar aqui na mansão. - Medo? De quê? Nico hesitou um pouco, depois respondeu: - A senhora não sabe, mas é que aqui... bom... as pessoas dizem... - O quê? - Que esta casa é assombrada. Eulália desatou a rir, depois perguntou: 67 - Isso é crendice! Sua mãe parece-me uma mulher inteligente. Ela acredita nessas coisas? - Sabe como é, gente da roça acredita em almas do outro mundo. Depois, teve gente que viu a alma do coronel andando por aqui. - Bobagem. Nós estamos aqui há quase um ano e nunca vimos nada. Mas, se ela tem medo, não precisa entrar. Peça a ela para vir e vamos conversar no caramanchão. No dia seguinte, Ernestina acompanhou Nico até o caramanchão, onde Eulália a recebeu. - Entre, Ernestina. Como tem passado? - Bem, sim, senhora. - Sente-se aqui a meu lado. Obrigada por ter vindo. Não fui à sua casa porque queria conversar a sós com você. Pode ir, Nico, Eurico está esperando. Ernestina acomodou-se no banco e esperou. Eulália, depois que Nico se foi, começou: - Gosto muito de seu filho. É um menino muito bom. E o mais importante é que Eurico está melhorando graças à dedicação dele. Chamei-a aqui para pedir-lhe um grande favor. - Pode falar, Dona Eulália. - Como sabe, meu filho é doente. Temos tentado de tudo para que ele fique bom. Só agora, com a presença de Nico, ele começou a melhorar um pouco. Espero que com o tempo de venha a sarar. Por enquanto, embora esteja melhor, não tem condições de ser como os outros meninos, de ir à escola, por exemplo. Entretanto, meu marido e eu achamos que ele precisa estudar. Minha irmã que é professora, ensinou-o as primeiras letras. Aliás, com grande dificuldade. Não que ele não possa aprender. Isso não. É inteligente. Mas, como ele se sente mal, não se pode forçá-Io. - Certamente. - Fica cansado, não demonstra interesse pelos estudos. Para dizer a verdade, ele não se interessa por nada nesta vida. Agora, com Nico, ele começou a se interessar por alguma coisa. Seu filho é muito inteligente e sabe como cativar. - Ele sempre foi assim. Todo mundo gosta desse menino. - Pois é. Desejo propor-lhe uma coisa. Quero pagar os estudos de Nico até ele ficar moço. Pode escolher a carreira que quiser. O rosto de Ernestina iluminou-se e ela sorriu satisfeita: - É o sonho dele! Poderá ir pra uma faculdade? 68 - Claro. O que ele quiser! Ernestina pegou a mão de Eulália e levou-a aos lábios entusiasmada: - Obrigada, Dona Eulália! A senhora não sabe o bem que está me fazendo. Vou ser grata pelo resto da vida. Posso lavar toda a roupa da sua casa de graça. Eulália sorriu: - Não será preciso! Ainda não acabei minha proposta. Quero que ele venha morar aqui! Ernestina surpreendeu-se: - Como? Morar aqui? Mas ele pode vir todos os dias. Não precisa morar. - É que pretendo contratar professores que venham dar aulas aqui em casa. Quero que Nico saia da escola e venha estudar com Eurico. Para que tudo isso dê certo, é preciso que ele venha morar aqui. Ernestina ficou um pouco inquieta. Nico era seu apoio em casa. Era com ele que conversava todas as manhãs sob a mangueira. A casa iria ficar muito triste sem eIe. Eulália prosseguiu: - Não se preocupe, Ernestina. Nico poderá ir ver a família sempre que quiser. Não pretendo tirar seu filho de você. É que ele representa para mim uma porta para a cura de meu filho. Até agora nada deu resultado. Tenho esperança de que, se ele ficar com Eurico o tempo todo, estudando, brincando, vivendo, meu filho vai acabar melhorando. Por outro lado, gosto de seu filho e posso dar a ele uma carreira digna. Ele pode se formar, ganhar dinheiro, ajudar a família. Seria uma troca: ele me ajuda e eu os ajudo. Penso que todos nós vamos ficar satisfeitos. Apesar da tristeza que a separação causava, Ernestina sentia que não podia ser egoísta. Nico tinha o direito de aproveitar aquela oportunidade. Por isso, respirou fundo e respondeu: - Da minha parte, concordo. A felicidade do Nico é tudo quanto desejo nesse mundo. Em todo caso, vamos perguntar a ele. Tenho medo que ele venha morar aqui... Teve vergonha de prosseguir. Eulália compreendeu e apressou-se a esclarecer: - Faz quase um ano que nos mudamos, e nunca vimos nada. Essa história de assombração é bobagem. Você não acredita mesmo nisso, não é? - Eu acredito, sim. Tenho visto muitas coisas. - Pois aqui nunca vimos nada. Não vai querer estragar a carreira de seu filho por causa de uma bobagem dessas. 69 - É. Se a senhora garante que nunca viu nada... O povo fala muito mesmo. Seu marido também quer que o Nico venha morar aqui? - Quer. Ele também notou o quanto Eurico melhorou. Também acha que ele precisa da companhia de um menino da mesma idade. E seu marido? Vai concordar? - Deixa ele comigo. Sei como lidar. A criada apareceu trazendo uma bandeja com refrescos e alguns petiscos e deixou-a sobre a mesa. Eulália pediu: - Peça a Nico que venha aqui. Ela saiu e Eulália serviu o refresco e os docinhos para ambas. Quando Nico apareceu, ela lhe fez a proposta. Os olhos do menino brilharam de emoção, mas ele disse com delicadeza: - Não posso aceitar o convite, Dona Eulália. Não quero deixar a minha família. - Você não vai deixar a família. Vai ficar aqui mais perto de Eurico, mas poderá ir para casa ver sua mãe sempre que quiser. - Minha mãe precisa de mim e eu quero ficar com ela. Mas posso vir bem cedinho todos os dias, estudar com o Eurico, fazer tudo que a senhora quiser. Olhos brilhantes de emoção, Ernestina disse: - Eu quero muito ficar com você, mas pense um pouco, meu filho! Você vai poder estudar, se formar, ter tudo que sempre quis. - Você quer que eu aceite, mãe? - Eu quero que você seja feliz. Vou sentir a tua falta, mas você vai me ver sempre. - Pode ir todos os dias, se quiser - prometeu Eulália. - Bom, se é assim... eu aceito! - Muito bem. Assim é que se fala. Tenho certeza de que não vai se arrepender. Vamos dar a boa notícia a Eurico e Amelinha. Nico abraçou a mãe, dizendo comovido: - Vou ver você todos os dias. Pode esperar. E, quando eu for grande, vou comprar uma casa linda como essa para você morar com a família. Você vai ver. Ernestina sorriu alegre. Seu filho ia se libertar daquela vida triste de pobreza. Um dia ele seria importante e ilustrado. Valia a pena o sacrifício. No dia seguinte mesmo Nico mudou-se para a mansão. Tinha pouca coisa: algumas peças de roupas, livros, alguns brinquedos que ele mesmo fizera. Seu irmão José olhou-o com inveja, mas não perdeu a chance de implicar: 70 - Vai servir de criado pra aqueles grã-finos, vai ser escravo deles. Eu é que não aceitava uma coisa dessas! Agora vou ficar com a cama só pra mim. Nilce queria saber como seria seu quarto na mansão. Ele prometeu voltar para contar. Quando chegou à mansão sobraçando seus pacotes, Nico sentiu muita emoção. Ele ia morar naquela casa que tanto admirava! Nunca pensou que isso pudesse acontecer. Mas era verdade. Dali para a frente aquela seria sua casa! Eurico queria que Nico ficasse em seu quarto. Eulália não concordou: - Nico precisa ficar bem instalado. Em seu quarto não há cama nem guarda-roupas para ele. Nico vai ficar no quarto ao lado do de Manuel. Eurico não concordou: - Fica muito longe. Fora da casa. Quero Nico aqui, perto de mim. - Já disse que não há lugar. Mas Eurico irritou-se, exigiu: - Há lugar, sim. Mande pôr a cama dele aqui. Eulália não queria outra pessoa dormindo no mesmo quarto. O médico dissera que Eurico precisava ficar em um quarto bem arejado, e outra pessoa ali, respirando, poderia deixar o quarto abafado. Depois de alguma discussão, ela resolveu: - Vou desocupar o pequeno quarto ao lado e arrumar para Nico. Ele vai ficar bem perto, é só abrir a porta. Ela foi até a porta que ligava os dois quartos e abriu-a, dizendo. - Está vendo? É como se ele estivesse no mesmo quarto. Finalmente Eurico concordou. Ela guardara naquele pequeno quarto malas, objetos sem uso, fizera dele um pequeno depósito. Precisava esvaziá-Io. Começaram a arrumação e ao anoitecer ele pôde instalar-se. O aposento era pequeno, coube uma cama, um criado-mudo, uma cadeira e um pequeno guarda roupas. Nico estava maravilhado. Não se cansava de olhar o abajur, o tapete ao lado da cama. Alisava a fina roupa de cama, o travesseiro macio, as toalhas de banho que Hilda trouxera, o sabonete perfumado, a escova e a pasta de dentes. Achou tudo lindo! Era a primeira vez que tinha um quarto só para ele! Eulália entrou dizendo: - O outro quarto era maior, mais arejado, mas Eurico é impossível! - Não se incomode, Dona Eulália. Eu adorei este quarto! - Amanhã vou mandar colocar cortinas nessa janela e pedir a Liana que compre algumas roupas para você. 71 - Não precisa, não, senhora. - Precisa, sim. Você agora mora em minha casa, é amigo de meus filhos. Deve se vestir como eles. Nico achava que não precisava, mas não se atreveu a recusar. Ele ia levar vida de rico! Assim ficaria conhecendo de perto como eles vivem. - Eu ainda preciso ir para a escola - esclareceu ele. - Estamos no fim do ano e, se eu não for mais, vou ser reprovado. Isso eu não quero. - Amanhã irei com você até lá resolver tudo. - A senhora vai à minha escola? - Vou. Você não vai perder nada. Não vou deixar. Depois de arrumar cuidadosamente seus poucos pertences no guarda-roupas, seguido de perto por Amelinha, que curiosa queria ver tudo que ele trouxera, foram ficar com Eurico. Eulália olhava-os com satisfação. A presença constante de Nico haveria de levantar o ânimo de seu filho e logo ele estaria curado. Contratara um professor para ensinar os três. Liana oferecera-se, mas Eulália não queria dar-lhe esse trabalho. Ela já se cansava bastante na escola. Depois, achava que alguém de fora seria levado mais a sério. Um amigo de Norberto em São Paulo indicara esse professor, principalmente porque ele era muito interessado em educação, tinha curso superior. Ele havia combinado com Norberto que acompanharia o currículo escolar e que, quando as crianças estivessem preparadas, poderiam submeter-se a um exame e conseguir o diploma. Norberto dissera-lhe que o professor Alberto era escritor, tinha alguns livros publicados, escrevia para um jornal de São Paulo, mas que desejava ir morar em um lugar sossegado no interior, onde continuaria a escrever. Sua renda era insuficiente para se manter, e ele aceitou o emprego que Norberto lhe oferecera. Viria com Norberto no fim de semana para ficar. Dormiria no quarto de hóspedes até que encontrasse uma casa para alugar pelas vizinhanças. Durante a viagem, Norberto colocou-o a par dos problemas de Eurico, e Alberto interessou-se bastante. - Foi muito bom ele ter arranjado um amigo - disse. - É, foi uma reação boa. Ele nunca havia se interessado por nada. Por isso, Eulália achou melhor que esse menino ficasse lá em casa. Ele é muito pobre, mas bem-educado. Tem boa aparência e minha esposa gosta muito dele. - Farei tudo para ajudar. Seu filho precisa tomar gosto pela vida. Tenho a impressão de que ele é muito triste. 72 - Por que diz isso? Ele tem tudo que um menino da idade dele poderia ter! - Mas não tem alegria de viver! - Por causa da doença. Sente-se muito mal. Alberto não respondeu. Norberto continuou: - É meu único filho homem! Gostaria muito que ele fosse diferente! Não sei por que aconteceu isso comigo! Alberto olhou seriamente para ele e respondeu: - Aceitar o que não pode modificar ajuda a conservar a paz. - É, eu aceito. Que remédio? Esperava um menino vivo, inteligente, esperto, que praticasse esporte, que fosse meu orgulho. Eurico é o oposto disso. Mas é filho e não dá para não ligar. - Ele venceu a morte e está lutando para sobreviver, recuperar a saúde. - Há momentos em que não sei se isso foi bom. Sinto-me tão desanimado olhando para ele... Há horas em que penso que ele nunca vai sarar. Depois, Eulália vive triste, minha casa é um lugar sem alegria. - Mas o senhor tem uma menina, muito saudável. - É. Amélia é saudável até demais. Fala pelos cotovelos, como toda mulher. Olhando para ela, fico pensando na injustiça da vida. Um tão apagado e outro tão vivo! Pelos olhos de Alberto passou um brilho de emoção, mas ele nada disse. Pensava em sua vida, nos problemas que carregava dentro do coração. Chegaram ao anoitecer, e Eulália recebeu-os com delicadeza, cercando-os de atenções. Simpatizou logo com os olhos escuros e profundos do professor. Sua figura elegante, seus cabelos castanhos ligeiramente ondulados, seu rosto moreno, seu queixo firme em que havia pequena covinha. Seus lábios abertos em um sorriso largo que mostrava dentes claros e bem distribuídos tornavam-no um homem bonito. Além disso, vestia-se muito bem. Quantos anos teria? Quando horas mais tarde perguntou ao marido, soube que beirava os trinta e cinco. O que teria um homem como ele ido fazer em uma cidade do interior? Norberto disse que. ele era escritor. Mas à primeira vista ele não lhe pareceu nem um pouco excêntrico. Fazia votos de que ele se acostumasse e que tivesse paciência com as crianças. lnstalou-o no quarto de hóspedes já devidamente arrumado para esperá-Ia, deixando-o à vontade para tomar um banho e descansar da viagem. Mandaria avisar quando o jantar fosse servido. Alberto não conheceu as crianças naquela noite. 73 Por causa do cansaço da viagem, o jantar foi servido um pouco mais tarde e as crianças já se haviam recolhido. Nico havia se deitado quando a porta do quarto se abriu e Eurico enfiou a cabeça perguntando: - Já está deitado? - Estou. - Estou sem sono. Vamos conversar. Nico levantou-se e foi até o quarto de Eurico, dizendo: - A Dona Eulália pediu para irmos dormir cedo. Disse que você precisa descansar. - Ela disse. Mas não consigo dormir. Nico suspirou: - Ela pode brigar comigo. Dona Eulália é muito boa e só pensa no seu bem-estar. Melhor obedecer. - Ela não precisa saber. Vamos deixar acesa só a luzinha da noite. - Você dorme de luz acesa? - Não gosto de escuro. Não consigo dormir agora. Você vai ficar comigo? - Está bem. Vamos conversar até você sentir sono. Aí eu vou para o meu quarto. Sobre o que quer falar? - Conte aquela história do caçador e da onça. Mal ele começou a contar, a porta do quarto abriu-se e um vulto entrou. Os dois se assustaram, mas Amelinha sussurrou: - Eu sabia que vocês não estavam dormindo! Quero conversar também. - Melhor você ir para seu quarto. Mamãe não pode saber - disse Eurico. - Eu posso guardar segredo! Ninguém me viu. - Fale baixo e fique quieta. Estou sem sono. Nico está contando uma história. - Você está com medo de novo! - É nada! - negou ele nervoso. - Está, sim. Pensa que eu não sei? Vi como você chora de medo. Eurico ia revidar, mas Nico interveio: - Ter medo não é nada de mais. Todo mundo tem: o rato do gato, o gato do cachorro, o cachorro da onça, a onça do caçador... - Você também tem medo? - indagou Eurico com interesse. - Claro que tenho. - De quê? 74 - De ficar embaixo de árvore quando tem trovoada. - Por quê? - perguntou Amelinha. - Porque árvore atrai raio. Se um raio pega uma pessoa, ela fica torradinha. - Que horror! Por que não põe pára-raios? - continuou a menina. - Porque isso é coisa da cidade. Aqui não usa. - Você tem medo porque é criança. Gente grande não tem - comentou Amelinha. - Minha mãe tem medo de alma do outro mundo! - tomou Nico. Ela riu: - Hilda diz que isso é coisa de gente da roça. - Não é, não. Eu também tenho medo deles - disse Eurico. Depois, dirigindo-se a Nico: - Você não? - Eu não. Se me aparecesse uma alma penada agora, eu conversaria com ela. Dizem que as almas voltam quando querem alguma coisa. Quando a gente ouve e faz o que pedem, elas vão embora. Se aparecesse uma alma aqui... - Você ia correr de medo! - disse Amelinha. - Ia nada. Encarava ela e perguntava o que ela queria. O Dr. Mário me disse que tem mais medo de gente viva do que de morto. - Por quê? - fez Amelinha. - Porque o morto só assusta e não pode fazer nada; já os vivos roubam, matam. Eu prefiro encontrar uma alma penada do que um ladrão - completou Nico. - Chega de falar nisso! - reclamou Eurico. - Não gosto desses assuntos. Estou todo arrepiado! Depois acabo sonhando com eles. - Você sonha com alma do outro mundo? - perguntou Nico, admirado. - Ele acha que tem gente no quarto. Hilda disse que o medo o faz ver coisas. - Vamos falar de outra coisa. Não vai continuar a história? Nico reiniciou a narrativa e logo Eurico bocejou, dizendo: - Estou com sono, quero dormir. Vá para seu quarto, Amelinha. Cada um foi para seu quarto. Dali a alguns minutos, Eurico apareceu novamente no quarto de Nico. - Você está com sono? - indagou. - Um pouco. - Eu disse aquilo para Amelinha ir embora. As mulheres não sabem guardar segredo. Quero contar-lhe uma coisa. 75 - Um segredo? - Sim. Sabe por que eu durmo com a luzinha acesa? - perguntou ele sentando-se na cama. Nico balançou a cabeça negativamente. Ele prosseguiu: - Porque, quando eu apago tudo, as almas do outro mundo vêm me atormentar. Nico, que estava deitado, sentou-se na cama. - Como sabe? Não é uma ilusão? O que a Dona Hilda disse é verdade. O medo faz você ver coisas que não existem. - Se você visse o que eu vi, não duvidaria. - O que foi que você viu? - Muitas coisas. Quando eu apago a luz, os vultos começam a aparecer. Uma mulher zangada, um homem que ameaça me bater com um chicote. - Quando a luz fica acesa você não vê nada? - Bem menos. Às vezes, mesmo com a luzinha eles aparecem. Então acendo tudo. Aí eles somem. São eles que não me deixam dormir. - Você não contou isso para a sua mãe? - Contei muitas vezes. Mas cada vez que eu contava ela me levava ao médico e ele me receitava um monte de remédios. Eu tomava e me sentia muito mal. Então achei melhor não contar mais. Eles não acreditam mesmo. Não quero tomar aqueles remédios que me deixavam tonto, porque aí as almas penadas me atormentam ainda mais. Impressionado, Nico balançou a cabeça. - Essa história é esquisita. Será mesmo? Você jura que viu? - Juro. - Sua mãe pode morrer seca se estiver mentindo? Eurico não titubeou: - Pode. Nico passou a mão pelos cabelos: - Então é verdade mesmo! Eu acredito. - Não vai contar para ninguém? - Não. Só se você deixar. Nunca perguntou o que eles queriam? . - Deus me livre! Dá para saber só vendo a cara deles! - Você não reza? Pode esconjurá-Ios com uma oração! - As que eu sei nunca deram certo. Depois, fico com tanto medo, suando, a cabeça roda, dá um enjôo. É horrível. - Pois eu não tenho medo. Agora estou aqui. Quando eles aparecerem, você me chama. Eu vou conversar. 76 - Você é forte. Por isso eu quis que ficasse comigo em meu quarto. - A Dona Eulália não quer. Não vamos abusar. Eu fico até você pegar no sono. Depois volto para o meu quarto. Se precisar, você me chama. Está bem assim? - Está. Você é meu amigo mesmo! Nico levantou-se e acompanhou Eurico até a cama com boa vontade. Depois deitou-se a seu lado, dizendo: - Vou ficar acordado. Pode dormir sossegado. Eurico sorriu contente. Depois de poucos instantes estava dormindo. Nico esperou-o ressonar um pouco. Depois, procurando não fazer ruído, foi para sua cama. Custou a dormir. A história de Eurico não lhe saía da cabeça. Começava a achar que sua mãe tinha razão dizendo que ele não tinha nenhuma doença, que precisava ir ao curador. Mas Eulália não iria deixar, ela não acreditava em almas do outro mundo! 77 Capítulo 6 No dia seguinte pela manhã, após o café, as crianças foram apresentadas ao professor. Combinaram que logo após o almoço ele faria uma avaliação de seus conhecimentos. Pediu que cada um levasse os cadernos que possuíam. Amelinha, até eles se mudarem para Sertãozinho, estudara em um bom colégio. Eurico, entretanto, nunca tivera essa possibilidade. Aprendera a ler com ajuda da tia e de professores particulares, entre uma crise e outra, o que dificultava a aprendizagem. Ele era inteligente, aprendia com facilidade, entretanto não tinha entusiasmo, vivia indisposto e os médicos aconselhavam a não o forçar. Alberto reuniu-se com eles em pequena sala que Eulália preparara para esse fim, tendo colocado nela uma mesa, cadeiras, um quadro-negro e um armário com material escolar. Depois de duas horas com eles, dispensou-os. Antes de sair, Nico quis saber se não corria o risco de perder o ano. Eulália havia procurado a escola e conversado com a diretora, que, percebendo o interesse de Eulália em ajudar Nico a fazer carreira, concordou que ele estudasse fora, havendo prometido ela mesma submeter os três aos exames no fim do ano. Era um caso especial e ela queria ajudar tanto Nico quanto o menino doente. - Se levar a sério os estudos, você vai passar. - Vou estudar muito, o senhor vai ver. Alberto sorriu. - Vamos ver isso. Quando as crianças saíram, ele procurou Eulália. - Já conversei com as crianças e anotei alguns dados para a primeira avaliação. Pretendo ir falar à diretora da escola para acertar o currículo. Como a senhora sabe, os três estão em diferentes estágios. Nico está no terceiro ano, Amélia no segundo. Quanto a Eurico, penso que ele poderá encaixar-se no segundo ano com Amélia. Vamos ver. - Acha que ele tem possibilidade de acompanhar um currículo escolar? São várias matérias, e não sei se ele conseguirá. - É um menino inteligente. - Muito. Mas doente. Meu marido já deve ter-lhe contado. Nasceu assim. Até hoje não conseguimos saber por quê. Cansa-se à toa. 78 Não se entusiasma com as coisas. Não sente motivação. Era até pior: nem conversava, vivia calado, triste, não se alimentava direito. Quando percebemos que ele gostava da companhia de Nico, tratamos de aproximá-los para ver se assim ele se interessaria mais pela vida. - Nico pareceu-me um menino muito vivo, educado, inteligente e interessado em aprender. - É um menino bom e muito dedicado. Nem parece filho de pais tão humildes. - Há pais que, embora de origem humilde, sabem educar bem os filhos. Não têm instrução, mas possuem sensibilidade, sabem conversar com eles e têm um bom senso prático. Isso é o mais importante em se tratando de boa educação. - É verdade. A mãe dele é uma mulher admirável. Tem um marido preguiçoso, que não trabalha. Ela sustenta a casa lavando roupas para fora. Nico ajuda-a prestando pequenos serviços. Ele é muito trabalhador. Quando conversei com ela, fiquei impressionada. Ela sabe portar-se, e tem muito bom coração. - Sabe orientar o filho. Ele fala nela com muito carinho. - Eu notei isso. Só aceitou mudar-se para cá depois que ela garantiu que não ficaria triste sem ele e que ele poderia vê-Ia quando quisesse. - Esse menino tem alguma coisa especial. Percebi logo no primeiro instante. - Especial? Como assim? Alberto não quis dizer o que estava pensando. Retrucou apenas: - Tem olhos expressivos, atitudes seguras. - De fato. Quando pensa começar as aulas? - O mais rápido possível. Vou pegar o currículo, conhecer os livros. Então montarei a disciplina das aulas. Vamos precisar de material específico além dos livros. - Não se preocupe. Faça a lista, que Liana trará tudo de Ribeirão Preto. Quando ele saiu, Eulália ficou pensativa. Os médicos haviam-lhe dito que ser:ia bom criar Eurico igual a qualquer outra criança, sem mimos ou concessões. Como fazer isso se não podiam forçá-lo? Suspirou triste. A atitude discreta e segura do professor granjeara-lhe a simpatia. Era educado e tranqüilo. Nos dias que se seguiram, Eulália verificou com satisfação que não se enganara. Ele sabia lidar com as crianças, e era com prazer que elas se reuniam para estudar. Sua forma de lecionar era muito diferente dos professores que ela conhecera. 79 Contava-Ihes histórias engraçadas, faziam pesquisas da natureza ao ar livre, cantavam canções conhecidas cujas letras haviam sido reescritas por ele de acordo com a matéria que pretendia ensinar. A princípio Eulália temeu que ele estivesse sendo condescendente demais, uma vez que se misturava com as crianças, falando como elas, brincando e parecendo também um menino. Mas logo começou a perceber que eles, além de gostar das aulas, estavam aprendendo com facilidade. Eurico tornou-se mais comunicativo e nunca se queixou de mal-estar durante a aula. Uma noite conversara com Liana a respeito. - Ele parece um menino. Não impõe nada. Será que está certo? Um professor deveria ser mais circunspecto. Você quando dá aulas não age assim. - Não. Aprendi que é preciso impor respeito aos alunos, conservando a seriedade para que eles não tomem liberdade demais. - Então! O professor Alberto não é assim. As crianças adoram, mas não será uma maneira errada de ensinar? Liana balançou a cabeça pensativa. Depois disse: - Para dizer a verdade, apesar de todo o respeito que tento impor à classe, eles sempre abusam de mim. Falo com seriedade, dou castigo, mas eles nem ligam. Continuam indisciplinados. Às vezes tenho até de apelar para o diretor. Eles estão abusando muito dele? Amelinha é muito safada. - Por incrível que possa parecer, eles estão muito comportados. Estou admirada. Adoram as aulas. Até Eurico estava cantando a tabuada do sete de cor. - Cantando? - É. Ele colocou a tabuada numa marchinha de carnaval, ficaram batucando em um pandeiro, cantando, e logo todos sabiam tudo muito bem. Liana sorriu alegre: - Que engenhoso! Vou pedir-lhe que me ensine a fazer isso. Por mais que eu tente que eles decorem as tabuadas, sempre engasgam. - Acha então que ele está certo? - Ensinar é uma arte. Se as crianças estão aprendendo, está tudo bem. Naquela noite mesmo, após o jantar, Liana procurou conversar com Alberto sobre seus métodos de ensino: - Eulália contou-me que suas aulas são sempre muito movimentadas e que as crianças estão indo muito bem. 80 Gostaria que me falasse a respeito. Apesar de fazer tudo que aprendi, meus alunos não têm aproveitado como eu gostaria. Alberto sorriu, um pouco sem jeito: - Não cursei o magistério como você. Sou autodidata. Tenho minhas próprias idéias sobre o assunto. - Gostaria de ouvir. - Eu procuro ensinar da forma como eu gostaria de ter aprendido. - Como assim? - Quando eu era menino, a escola era para mim um lugar sem graça, que eu freqüentava por imposição de minha mãe e por obrigação. Ela me dizia: "Se não estudar, você não será ninguém na vida. Vai morrer de fome". Eu detestava aquelas horas que passava lá. Fazia as lições como quem se desembaraça de algo ruim, contando os pontos para poder passar de ano. Meus pais haviam se conformado, dizendo que eu não era muito inteligente, mas que se conseguisse me formar estava bom. - Muitos de meus alunos são assim mesmo. - Sempre gostei de ler. Com o passar dos anos, acabei descobrindo que gostava de estudar, descobrir como as coisas são feitas ou acontecem. Percebi que tinha inteligência para aprender qualquer coisa que me interessasse. Notei também que minha falta de interesse na escola era falta de motivação, pela forma impositiva dos professores, impingindo regras rígidas, tratando os assuntos de maneira fria e distante. Quando resolvi lecionar, repensei o assunto. As pessoas não são iguais. Para passar a elas o conhecimento e despertar-lhes o interesse pela matéria a ser ensinada, é preciso usar a linguagem delas, aproximar-se o mais possível de sua idade mental, e, o que é mais importante, transformar as matérias em vivência. Liana estava admirada. Nunca ouvira semelhante teoria. Apesar de tudo, reconhecia que tinha uma certa lógica. Se isso funcionasse mesmo, revolucionaria toda a didática e os métodos de ensino. - As matérias são subjetivas. Como transformá-las em vivência? - Engana-se. Todas as coisas que existem, e nós estudamos o mundo que nos rodeia, suas leis físicas e até os valores morais, são matérias vivas que podem e devem ser experienciadas. - É preciso ser muito criativo. Eu não saberia fazer isso! - É fácil. Tenho certeza de que, se experimentar, ficará fascinada. - Em todo caso, a idéia de musicar as tabuadas foi brilhante. Alberto sorriu e seus olhos brilharam alegres. - Eles aprenderam logo. Cantar é um enorme prazer. 81 Por que não aprender com prazer? A curiosidade, a ansiedade de saber vive dentro de cada um de nós. O que nos desagrada e dificulta a aprendizagem é a forma sem graça de fazer isso. Mudando esse conceito, a dificuldade desaparece. Liana admirou-se das idéias do professor e mais tarde, ao recolher-se, comentou com Eulália, que ouvira toda a conversa com interesse: - Esse homem é um sábio. De onde ele veio? Como Norberto o descobriu? - É escritor. Tem livros publicados. - Gostaria de lê-los. Escreve a respeito de quê? - Não sei. Norberto não disse. Liana foi deitar-se pensativa. Decidiu que no dia seguinte iria conversar um pouco com as crianças e perceber como eles estavam nos estudos. Naquele fim de semana, quando Norberto chegou, encontrou a família muito bem. Eulália foi logo contando os progressos de Eurico, que assistia às aulas regularmente e estava aprendendo sem maiores dificuldades. - Ainda bem - considerou Norberto. - Passei a semana toda pensando se havia sido bom eu deixar um desconhecido aqui em casa enquanto eu estava ausente. - Não precisava se preocupar. O professor é discreto e é um cavalheiro. Tem se portado educadamente. Depois, já encontrou casa. Só ficará mais alguns dias, enquanto o proprietário a está pintando. - Ótimo. Ele me foi muito bem recomendado. É um homem respeitado e tem posição social definida. - É solteiro? - Acho que sim. Por que pergunta? - Curiosidade. - Se fosse casado, teria se mudado com a família, não lhe parece? - É. Certamente. No jantar, a conversa fluiu animada com Norberto contando as notícias da capital, trocando idéias com o professor. As crianças, como de hábito, comiam em silêncio enquanto as duas mulheres ouviam com interesse. Após a sobremesa, as crianças tiveram permissão para se recolher enquanto os demais sentaram-se na sala para o café e mais um pouquinho de prosa antes de dormir. Passava das dez quando o professor se recolheu. Liana foi para o quarto e o casal também. Liana acordou no meio da noite com sede. Tentou ignorar e dormir novamente, porém a sensação de sede não a deixava dormir. Levantou-se e resolveu ir até a copa, onde havia um filtro. 82 Não acendeu a luz e procurou não fazer ruído para não incomodar. A noite era clara e ela podia enxergar muito bem o caminho. Na copa, apanhou um copo, levou-o ao filtro e abriu a torneira. Foi quando ouviu ruído de passos. Alguém teria se levantado? Fechou a torneira, tomou a água com prazer, deixou o copo em cima da pia. Como não visse ninguém se aproximar, foi até a porta da copa, olhou e abriu os olhos assustada. Parado em frente à escada que ia ao pavimento superior estava um homem de idade, forte, cabelos brancos, botas e largo chapéu na cabeça. Seria um ladrão? Não parecia. Por onde teria entrado? Alguém teria deixado alguma porta aberta? Ela precisava chamar alguém, avisar Norberto, mas eles estavam todos no andar de cima e ela teria de passar por ele. Foi nessa hora que ele olhou para ela. Liana não se conteve: - O que está fazendo aqui? Como entrou? Como ele não respondesse, ela repetiu: - O que está fazendo aqui no meio da noite? Ele deu alguns passos em direção a ela, que recuou assustada. Havia algo nele que a intimidava. Quando ele estava bem perto, disse com voz rouca: - Estou em minha casa. Finalmente você voltou! Também veio me cobrar? Só que desta vez você não vai mais me deixar! Aproximou o rosto do rosto de Liana, olhos brilhantes de rancor, e ela assustada começou a gritar e gritou mais ainda depois que o viu desvanecer-se diante de seus olhos. Cobriu o rosto com as mãos e continuou gritando, sem poder sair do lugar. Em poucos segundos todas as luzes da casa se acenderam e o professor, Euláha e Norberto estavam diante dela. Eulália abraçou-a aflita: - Calma, Liana! Estamos aqui. Calma! O que foi? Liana abriu os olhos e, vendo-os, foi se acalmando. Seu corpo tremia, e ela mal conseguia suster o copo com água que Eulália lhe colocou entre as mãos. - Vamos, beba um pouco. Calma. Está tudo bem. Quando ela conseguiu falar, contou em poucas palavras o que havia acontecido. - Você sonhou - disse Norberto. - Levantou-se ainda adormecida e sonhou. - Eu não estava dormindo! Estava até bem acordada. Senti sede e vim tomar um copo de água. Ele estava bem ali, em frente à escada. 83 - Como era ele? - indagou o professor. - Um homem de idade, forte, cabelos brancos, usava botas de cano alto, como essas de montaria, e um chapéu de obas largas na cabeça. O pior foi que, quando lhe perguntei por que estava aqui, ele me disse que esta casa era dele. - Vamos perguntar aos criados se eles conheceram alguém assim - sugeriu o professor. Norberto interveio: - É absurdo. Mesmo que houvessem conhecido, aqui não havia ninguém quando chegamos. Depois, as portas estavam bem fechadas, eu mesmo verifiquei antes de dormir. - Quando eu gritei de medo, ele sumiu diante de meus olhos e desapareceu. - O que prova que, se você não estava dormindo, teve uma alucinação - disse Norberto. - Eu. tenho certeza do que vi. Era uma pessoa. Ele estava aqui repetiu Liana. - Agora ele já se foi. Não precisa ter medo - disse o professor. - E se ele voltar? - perguntou Liana. - As portas estão todas fechadas. Não há ninguém aqui. Pode ir dormir sossegada: ninguém entrou nem vai entrar. As crianças podem assustar-se. Eurico já é medroso sem acontecer nada - tomou Norberto. - Mandei Hilda ficar com eles. Acho que nem ouviram. Estão dormindo. A custo Liana concordou em ir para o quarto e Eulália ficou com ela algum tempo até que estivesse melhor. Sentindo-se mais calma, ela disse: - Vá dormir, Eulália. Agora já estou bem. Deixarei a luz acesa. Vá descansar. - Se sentir alguma coisa, pode me chamar. - Está bem. Apesar de fazer-se de forte, Liana não conseguiu dormir direito. Sentia sono, mas, quando estava quase adormecida, estremecia de susto e acordava. O dia já estava amanhecendo quando ela finalmente conseguiu dormir. Na manhã seguinte, o assunto já era do conhecimento dos criados, que comentavam abertamente. Entrando na cozinha, Eulália ouviu Maria dizer: - Foi a alma do coronel Firmino que voltou. Bem que tinham me avisado. 84 - O Maninho me contou que essa casa era assombrada. Eu não acreditei, mas agora... - respondeu Joana, a criada que viera de São Paulo com a família. Eulália não se conteve: - Vocês estão inventando histórias. Liana teve um pesadelo. Foi só isso. Não quero que assustem as crianças com idéias disparatadas. - Ela descreveu direitinho o coronel Firmino. Minha avó conheceu ele e me contou como era - respondeu Maria. - Foi a alma dele que apareceu aqui, tenho certeza. - Quem morre não volta mais. Deixe de ser boba. Se continuar repetindo isso, serei forçada a despedi-Ia. Eurico é medroso, e se ele se impressionar pode piorar. Liana teve um pesadelo e eu não quero ouvir mais ninguém falando em alma do outro mundo. - Sim, senhora. Não vou falar mais nada - garantiu Maria. Quando Eulália saiu da cozinha, ela disse baixinho para Joana: - Mas que era ele, isso era. - Melhor não comentar. - Ele pode aparecer de novo. - Cruz credo! Nem me fale! Calaram-se, porque Hilda acabara de entrar. Os meninos haviam tomado o café e se reunido na sala de aula à espera do professor. - Vocês ouviram os gritos ontem à noite? - perguntou Eurico. - Eu ouvi - respondeu Nico. - Me levantei e ia ver o que era quando a Dona Hilda apareceu e disse que não era nada de mais. Me mandou dormir. - Foi tia Liana. Acho que ela estava com medo - tornou Eurico. - Ela viu alma do outro mundo - contou Amelinha. Os dois se interessaram: - Viu? - Onde? Amelinha, observando o interesse deles, fez uma pausa para valorizar mais o que ia dizer, depois considerou: - A alma do coronel. Eu ouvi Maria contando para Joana que ela gritou porque viu a alma dele. - Como é que ela sabe? Já o viu? - indagou Nico. - A avó dela, que o conheceu, contou como ele era - respondeu Amelinha, satisfeita por dar a novidade. - Então foi por isso. A Liana se assustou. 85 - Eu ia descer, mas Hilda entrou logo e não deixou. Ela nunca me permite fazer o que quero - tornou Eurico. - Ela quis proteger a gente. E se a alma penada ainda estivesse lá! Você ia ficar com medo - respondeu Nico. - Ia. Mas agora ela também viu e eles iam acreditar em mim. O professor, que entrara na sala e ouvira parte da conversa deles, aproximou-se dizendo: - Estão comentando sobre o que aconteceu esta noite? - Sim - respondeu Nico. - Ouvi Maria dizer que tia Liana viu alma do outro mundo - explicou Amelinha. - E por isso ela ia acreditar em Eurico. Você também tem tido esses pesadelos? - indagou o professor dirigindo-se ao menino. - Melhor não falar nisso. Sempre que eu falo, eles me levam ao médico e tenho de tomar remédios que me deixam tonto. - Ele é medroso - interveio Amelinha. - Dorme de luz acesa, chora de medo. Alberto aproximou-se de Eurico e sentou-se a seu lado, dizendo: - Não precisa ter medo de mim. Não vou mandá-lo ao médico. O que Amelinha está dizendo é verdade? Você sente medo do quê? - Essa linguaruda não sabe guardar segredo. Não vou contar nada perto dela. - Se você pedir para ela não contar, tenho certeza de que ela vai atender. Amelinha é uma menina muito inteligente, vai respeitar sua vontade. Afinal o segredo é seu. Se dividir com ela, é porque confia. Voltando-se para a menina, perguntou: - Ele pode confiar em você! Sabe guardar um segredo? - Sei. - Foi o que pensei. Dividir um segredo é uma grande prova de amizade e de confiança. Ele pode não ser muito importante para quem escuta, mas sempre é muito importante para quem conta. Por causa disso, sempre que alguém confia em nós um segredo, devemos guardá-lo e nunca falar dele a ninguém - explicou Alberto. - Eu entendi. Se alguém me contar alguma coisa e pedir segredo, não vou contar a ninguém - respondeu Amelinha. - Nesse caso, Eurico, você pode contar do que é que tem medo disse o professor. - Nico sabe guardar segredo. Ele já sabe de tudo. Mas vocês têm de jurar que não vão contar para Hilda, para mamãe ou papai. 86 Depois que os dois juraram, ele continuou: - Tenho medo de algumas pessoas que aparecem em meu quarto durante a noite. - Aparecem como? - perguntou Alberto. - Aparecem. Um homem velho, de botas e chapéu, uma mulher com um chicote. Eles brigam. Às vezes querem que eu vá embora. Dizem que a casa é deles. Aí eu acendo a luz e eles desaparecem. Alberto estava sério. Eurico descrevera o mesmo homem que Liana vira. Seria mesmo o espírito do coronel Firmino, como ouvira os criados comentar? Em todo caso, tudo levava a crer que o espírito dele estava mesmo andando por ali. Ele acreditava na sobrevivência da alma após a morte. Estudara o assunto e sabia que os espíritos em determinadas circunstâncias podiam voltar e ser vistos por pessoas que possuíam essa sensibilidade. Eurico seria médium? - Isso vem acontecendo desde que mudaram para esta casa? - indagou Alberto. - Eles me perseguem há muito tempo. Mesmo na outra casa. Eu sentia muito medo. - Você sabe rezar? - Hilda ensinou o pai-nosso para fazer antes de dormir. - Você faz? - Não adiantava. Por isso eu parei. - Repetir as palavras sem fé não vai mesmo adiantar. Precisa pensar em Deus e deixar seu coração falar. Uma oração sincera sempre dá resultado. - Minha mãe fala isso - comentou Nico. - Eu sempre converso com Deus antes de dormir, pedindo proteção para as pessoas que eu gosto e para mim. Quando acordo, peço para ele abençoar e proteger o meu dia. Foi ela quem me ensinou. - Isso mesmo, Nico. Sua mãe sabe das coisas. - Eu não sei conversar com Deus. Gostaria de aprender - disse Amelinha. - Podemos treinar - concordou Alberto. - Hoje vamos fazer um exercício para pedir a proteção divina. Alberto pediu que todos dessem as mãos, depois fez uma prece pedindo proteção e ajuda. Quando acabou, perguntou: - Então? Aprenderam? Cada um deve fazer do seu jeito, com suas próprias palavras. 87 - Acha que Deus vai me ouvir? - perguntou Eurico. - Talvez ele esteja tão longe que nem escute. - Ele está em toda parte. Mas está dentro de sua alma. Por isso ouve com facilidade tudo quanto seu coração fala. A alma sempre fala através do coração. - Meu coração não fala - disse Amelinha colocando a mão no peito. - Fala, sim. Mas não com palavras, e sim com sentimentos. Sempre que você sente alegria ou tristeza, é o coração que está falando. - E quando a gente tem raiva? Também é o coração? - indagou a menina. - É, sim. Só que ele está dizendo para você olhar melhor as coisas e perceber que não está olhando do jeito certo. - Hilda diz que é errado ter raiva - considerou Amelinha. - Você não é errada porque sente raiva. Ela só indica que está na hora de compreender que as coisas são do jeito que são e não adianta querer que sejam diferentes. Que você precisa aceitar os próprios limites, ser paciente consigo e dar-se tempo para aprender como chegar aonde você quer. - Eu fico com raiva de Hilda porque tudo que eu quero fazer ela diz que eu não posso. Fica o tempo todo me vigiando - disse Eurico. Essa raiva também é do coração? - Claro. O que sua alma quer que você perceba quando mostra sua raiva e você sente? Você quer ser livre para fazer o que quiser sem ninguém que lhe diga o que e como fazer. Mas, como ainda é criança, precisa ser paciente e esperar crescer. Não adianta querer isso já. Só vai sentir-se impotente, incapaz. - A Dona Hilda só quer o seu bem - tornou Nico. - Ela cuida da sua saúde. É muito dedicada. - Ela exagera. Bem podia me deixar em paz - respondeu Eurico. - Sua alma quer que você entenda também que, quando exagera os sintomas de sua doença para que todos façam o que você quer, está provocando mais a preocupação com sua saúde, aumentando a vigilância. Se mudar de atitude e não fizer mais desse jeito, Dona Hilda não vai mais vigiar e se preocupar com você e sua alma não vai mais criar o sentimento de raiva para que entenda isso. - Eu faço isso para que eles me deixem em paz. - Não é bem assim. Você exagera seus sintomas de doença para conseguir dominar, conseguir que todos façam como você quer. 88 Seus pais ficam preocupados com sua saúde e Hilda aumenta a vigilância. Mas é você, com essa sua atitude, quem está provocando isso. Sua alma deixa que sinta raiva, perceba que é ruim, para que descubra e encontre um jeito melhor de obter o que deseja, sem tentar dominar os outros. A energia da raiva é a mesma força da coragem, da ousadia. Essa força, usada de forma inteligente, vai tornar você corajoso, forte, ousado. E esse sentimento é muito prazeroso. - Todo mundo diz que ele é fraco! - disse Amelinha. - Ele não é fraco, ele não encontrou ainda o jeito melhor de usar toda a sua força. Eurico é muito forte. Todos nesta casa só fazem o que ele quer. Mudaram-se para cá por causa dele. Só que ele não está usando sua força do jeito mais inteligente. - Por quê? Você não disse que eu sou forte? - indagou Eurico assumindo uma postura mais firme. - Você é forte, mas, se estivesse usando sua força do jeito mais inteligente, estaria mais sadio e feliz. Você colocou sua força na fraqueza, mas sua alma quer que descubra que pode ser forte e viver melhor. É isso que ela está tentando dizer a você quando se sente incomodado e com raiva dos excessos de Hilda. - Nunca pensei que a alma falasse com a gente! - tornou Nico. - Fala. Mas é preciso saber ouvir o que ela deseja dizer. - Como aprender isso? - É fácil. A alma sempre olha o lado bom. Só vê o bem. - Mesmo quando faz sentir raiva? - indagou Amelinha. - Sim. O bem é a linguagem da alma. É a linguagem de Deus. Qualquer sentimento que ela expresse e você sinta tem um recado para ensinar você a agir melhor e ser mais feliz. - Mesmo quando você acha que é um sentimento ruim? - Mesmo. Até o ódio quer que você perceba a grandeza do bem. - Puxa! Eu não sabia disso - ajuntou Nico. - Não é errado odiar? - Não. Não é errado, mas não é bom. Faz mal. Deixa a pessoa infeliz. Já o amor é uma coisa boa. Dá alegria, bem-estar. Quando você sente ódio, a alma quer que perceba o quanto está longe da felicidade. Por isso, sempre que sentir ódio é bom se perguntar: o que eu quero agora, sentir-me mal ou ser feliz? - Claro que ser feliz - tornou Amelinha. - Eu não quero me sentir mal. Quero ser sempre feliz. - Sua alma está ensinando que para isso precisa escolher a felicidade e jogar fora tudo que é ruim. Ficar com o bem. 89 - Eu não gosto de sentir ódio - disse Nico, pensativo. - Você também sente ódio? - indagou Eurico. - Faço força para não sentir, porque não gosto. Mas às vezes, quando percebo, já estou com tanta raiva... Aí, acho que estou errado, que sou um mau menino e que Deus vai me castigar por isso. Fico triste. Por isso, procuro esquecer, pensar em uma coisa boa. - O ódio é um sentimento muito desagradável. Quem o sente perde a paz, e isso acaba deixando o corpo doente. Mas você não é errado só porque sente ódio de vez em quando - esclareceu o professor. - Não? Hilda diz que ter ódio é maldade e que Deus castiga - interveio Amelinha com convicção. - Eu tenho medo de ser castigada! - Mas apesar disso você fica com ódio! Eu já vi! - disse Eurico. - Vamos conversar sobre nossos sentimentos. Quando as coisas ou as pessoas não fazem o que nós queremos, do jeito que nós pensamos que deveria ser, muitas vezes sentimos raiva. Isso nos faz mal, nos deixa tristes, contrariados, angustiados. Mas ficar com raiva só vai tirar nossa paz e não vai mudar nada. Apesar de nossa raiva, as pessoas e as coisas continuam do mesmo jeito. - Isso é verdade - concordou Eurico. - Fico com raiva de Hilda, mas ela continua igual, e eu é que me sinto nervoso. - Percebeu? - disse Alberto. - Você se maltrata, acaba com sua paz, fica indisposto, cria problemas com as pessoas, e os outros continuam do mesmo jeito. Quem é o maior prejudicado? - Ele! - disseram os outros dois. - Não só eu, vocês também - revidou Eurico. - Todos nós fazemos isso quando não usamos bem a inteligência. - Eu quero ser inteligente! - disse Amelinha. - Mamãe diz que aprendo tudo com facilidade. - Todos aprendemos com facilidade. A inteligência é um dom que todas as pessoas têm - explicou Alberto. - Minha mãe diz que se eu não estudar vou ficar burra e que vai nascer rabo e orelhas de burro igual ao Pinóquio. - Você não vai ficar igual a um burro. Você é mulher, vai ficar igual a uma égua - interveio Eurico. - Ninguém vai ficar burro. Todas as pessoas têm inteligência. Mas precisam aprender como a usar. Alguns já aprenderam e são mais felizes que os outros que ainda não sabem. - A gente pode aprender a ser inteligente? - indagou Nico interessado. - Eu quero ser inteligente, fazer muitas coisas boas e ajudar a minha família. 90 É por isso que às vezes sinto raiva de ser criança e de não saber fazer as coisas direito. - É por isso que sente raiva? - indagou o professor. - É... mas às vezes fico com raiva do meu pai... - parou, envergonhado. - Pode falar - disse o professor. - Essa nossa conversa vai ser nosso segredo. Todos juramos e não vamos falar dela com ninguém. - É... bem... ele bem que podia trabalhar, pelo menos um pouco! - Ficar com raiva dele por causa disso não vai fazer com que ele mude e resolva trabalhar. Sabe, Nico, a vida é como um jogo. Seu pai escolheu viver assim e pensa que está sendo inteligente vivendo sem trabalhar. Acredita que o trabalho é ruim e cansativo. Ainda não percebeu o quanto está perdendo nesse jogo. - Mas eu penso diferente - considerou Nico. - Acho que trabalhar é gostoso e gosto de ser independente, ter o meu próprio dinheiro, não ser pesado para minha família. Por que meu pai não pensa como eu? - Porque as pessoas não são iguais. Cada um é diferente do outro. Seu pai é outra pessoa e vê a vida de outra forma. - Por causa dele toda a nossa família sofre. Às vezes penso que ele não gosta de nós. - Não deve pensar assim. Ele gosta da família, do seu jeito. É o melhor que ele sabe fazer por agora. Não adianta você esperar que ele faça o que você acha que é certo porque ele não vê assim. Está acomodado, não percebe ainda as vantagens do trabalho. - Gostaria que ele mudasse... - Um dia ele vai aprender. Todos nós aprendemos. A vida ensina. Você precisa ter paciência, compreender seu jeito de ser, não ficar esperando o que ele ainda não sabe fazer. Se não esperar que ele mude, não sentirá mais raiva por ele ser do jeito que é. Se você pegasse um livro e desse para alguém que nunca aprendeu a ler, ficaria com raiva se ele não conseguisse lê-lo? - Claro que não - respondeu Nico. - Pois é a mesma coisa. Seu pai ainda não sabe como é bom ganhar dinheiro, trabalhar, ser independente. Não adianta ficar com raiva dele só porque ainda não sabe disso. - É verdade, professor. Como não pensei nisso antes? - Por outro lado, ser criança, não poder ainda fazer as coisas do jeito que você gostaria é só uma questão de tempo e de paciência. Você está crescendo e um dia estará adulto, livre para fazer tudo que quiser. 91 Ao invés de ficar com raiva, é melhor aproveitar o tempo para aprender o mais que puder, preparando-se para quando for usar. Isso é ser inteligente! - Eu também quero ser inteligente! - tornou Eurico. - Mas não sei para que devo estudar se meu pai tem dinheiro, se sou doente e nunca vou precisar trabalhar. - De onde tirou essas idéias? Os médicos não encontram doença em você! - Sei que quer me animar, mas eu não tenho jeito mesmo. Nunca serei como os outros meninos. Todos em casa dizem que sou muito fraco, que não agüento nada. - Pois eu não acredito nisso. Você é um menino forte, inteligente. Se quiser, vai poder fazer tudo que os outros fazem - afirmou o professor. Eurico abanou a cabeça negativamente: - Não precisa tentar me encorajar. Já me conformei. - Não quero que se conforme. O mundo tem muitas coisas boas a oferecer para quem tem a ousadia de buscar. Tenho certeza de que você vai reagir, sair dessa situação em que se colocou e querer tudo a que tem direito. Seu pai é rico, e, mesmo não precisando ganhar dinheiro para se sustentar, você não vai agüentar viver toda a vida sem fazer nada. É horrível. Interessar-se pelas coisas, criar, aprender, tudo isso faz parte de nossa natureza. É um prazer do qual você não vai querer se privar. Tenho notado que você gosta de aprender. - Ele ouve as minhas histórias com muito interesse! - disse Nico. - Suas histórias são diferentes! Você fala dos passarinhos, das plantas, conta do jeito que eles são. Aí, eu olho e vejo que é tudo verdade respondeu Eurico. - Você aprecia a natureza! - disse Alberto, interessado. - Pode tornar-se um fazendeiro, criar gado ou ser um agricultor, plantar e colher. - Ele pode ser fazendeiro, igual ao coronel Firmino, que construiu esta casa! - tornou Nico. - Não quero ser igual a ele. Era um homem mau - respondeu Eurico. - Como sabe? Você não o conheceu! - retrucou Amelinha. - Sei porque ele está sempre zangado. Não gosto da cara dele. - Você pode ser fazendeiro como ele foi, sem ser igual a ele. Fazer do seu jeito - interveio Alberto. - Ser fazendeiro é viver sempre com os passarinhos, as plantas, os animais. Você ia gostar, tenho certeza - garantiu Nico. - Seu pai é rico mesmo, pode comprar uma fazenda e pronto. 92 - Mas para cuidar dos animais, da plantação, precisa estudar bastante - esclareceu o professor. - Vou ter empregados para fazer tudo - resolveu Eurico. - Os outros vão fazer do jeito deles. Você vai querer tudo do seu jeito. Por isso tem de aprender o modo de fazer as coisas para que fiquem como você quer. Hilda apareceu na porta avisando que era hora do almoço. O professor levantou-se, dizendo: - Eu ia recapitular as aulas da semana, mas fica para segunda-feira. Vamos parar agora. Amelinha pôs o dedo nos lábios dizendo baixinho: - Temos nosso segredo agora. Quem falar vai morrer seco. - Eu não falo - disse Eurico. - Nem eu - disse Nico. O professor aprovou com a cabeça e foram se preparar para almoçar. 93 Capítulo 7 Nico acordou sobressaltado. Eurico estava na frente dele, tremendo. - O que foi, Eurico? Está passando mal? - É ele! Ele voltou e está querendo me pegar! Nico sentou-se na cama de um salto. - Alma do outro mundo não pega ninguém. Não pode! Eurico agarrou-se a ele: - Eu estava dormindo e ele puxou minhas cobertas. Então eu acordei e vi. Ele estava na minha frente. Estou com medo! Nico abraçou o amigo, dizendo: - Você estava sonhando! Não tem nada aqui. - Não estava. Eu o vi. Você também não acredita? É verdade. - Eu acredito. Mas não precisa tremer desse jeito. Pode se sentir mal..Acho melhor tomar um copo de água e se acalmar. - Na cozinha eu não vou de jeito nenhum. Foi lá que tia Liana o viu naquele dia. - Pois eu não tenho medo. Eu vou buscar a água. - Não quero ficar sozinho aqui. Você não vai. - Não precisa me segurar. Eu não vou. Mas você está muito nervoso. Um copo de água com açúcar ia fazer bem. Quando a Nilce tem pesadelo, a minha mãe sempre dá água com açúcar e ela se acalma. - Não quero ficar sozinho. - Vamos juntos. - Isso é que não. Ele pode estar lá. - Se ele aparecer, eu falo com ele. Não tenho medo. - Deus nos livre! Você não vai fazer isso! - Faço. Ele que me apareça! Onde já se viu ficar assustando todo mundo? Minha mãe diz que as almas do outro mundo só aparecem quando querem alguma coisa. - Que coisa? - Não sei. Alguma coisa que elas não fizeram quando estavam no mundo e querem que a gente faça para elas. - Por que elas não fazem de uma vez? - Porque não podem. Elas não têm mais corpo. Como é que iam fazer as coisas? 94 - Isso é mentira. Eu as vejo com corpo. - Bom, isso eu não sei. O corpo de quem morre apodrece debaixo da terra. - Eu tenho medo! - lamentou-se Eurico. - Puxa, você está gelado! Vamos para o seu quarto, quero ver se ele ainda está lá. Os dois foram ao quarto de Eurico, Nico na frente e o outro agarrado a ele. - Veja: não tem nada aqui. Ele já foi embora. Pode deitar e ficar sossegado. - Você vai ficar aqui comigo. - Eu fico. Eurico acomodou-se e Nico sentou-se na cama. - Você vai embora quando eu pegar no sono! Aí ele vai voltar. - Vamos deixar a luzinha do abajur acesa. Qualquer coisa, você me chama. - Não quero. Você vai dormir aqui, comigo. - Sua mãe não vai gostar. - Que me importa? Você é ou não é meu amigo? - Está bem, mas vou para minha cama assim que amanhecer. - Está certo. De dia eles nunca aparecem. Nico acomodou-se ao lado de Eurico. - Não vá dormir antes de mim. - Fique tranqüilo. Estou acordado. Eurico suspirou aliviado. Sentia-se seguro com Nico a seu lado. Aos poucos foi se acalmando e adormeceu. Nico por sua vez fechou os olhos e logo pegou no sono. Sonhou que estava andando pelo quarto quando entrou um homem de idade, calçando botas de montaria e chapéu. - É o coronel Firmino - pensou ele admirado. Ele parou diante de Nico, dizendo irritado: - Por que se mete em meu caminho? Quer que eu acabe com você de novo? Nico olhou-o como se já o conhecesse há muito tempo: - Você não pode. Aquele tempo passou. Não tenho medo de você. O coronel fulminou-o com o olhar: - Está me desafiando? Não aprendeu ainda que tenho poder e todos devem me obedecer? Nico olhou-o nos olhos, dizendo com voz firme: 95 - Você já morreu. Tudo acabou. Agora você não pode mais nada. - Continua me desafiando? - Não. Mas você está assustando um menino doente, e isso é covardia. - Ele agora é um menino, assim como você. Mas não conseguem enganar-me com esse corpo diferente. Eu não esqueci. Vocês desgraçaram minha vida e ainda voltam para rir de meus sofrimentos. Não posso permitir isso! - Não estamos rindo de nada. Só queremos ficar em paz. Você já morreu. Por que não vai viver no seu mundo? - Eu estou vivo! Não está vendo? Nesse instante chegou uma mulher de rosto calmo e belo que se aproximou dele, dizendo com voz firme: - Deixe-os em paz, Firmino. Vá embora. Ele olhou para ela e estremeceu. Depois saiu e ela o acompanhou. Nico acordou, sentando-se na cama admirado. Fora um sonho! Mas ele ainda sentia a presença deles e recordava-se de todas as palavras. Estaria tão impressionado com o que Eurico dissera que sonhara? Parecia-lhe que tudo acontecera mesmo, que ele havia conversado com a alma do coronel Firmino. Não compreendia por que ele lhe dissera aquelas palavras. Não sentira medo. Por que ele lhe parecera conhecido? Talvez por ouvir falar muito dele. O dia já estava amanhecendo e Nico continuava pensando no sonho, e quanto mais pensava mais lhe parecia que tudo acontecera mesmo. Foi para seu quarto e continuou pensando no assunto, sem poder conciliar o sono. Na tarde do dia seguinte, Liana procurou o professor Alberto para conversar. Queria algumas informações sobre um tema que estava estudando. Admirava seu modo claro e direto de olhar as situações e a maneira simples e prática que ele usava para ministrar suas aulas. - Quero aproveitar esses dias de folga para estudar um pouco mais. - Até quando estará de licença? - Tenho um mês para me recuperar. Ele olhou para ela com curiosidade. - Não está doente. - Não. O médico não encontrou nenhuma doença. Entretanto, ando nervosa, não consigo dormir. Acordo sobressaltada, com medo. Perdi o apetite, o prazer de trabalhar. Não sei o que está havendo comigo. - Desde que você levou aquele susto na cozinha? 96 - Foi. Às vezes penso que aquela aparição horrível está atrás de mim, ou que ele vai aparecer na frente da escada de uma hora para outra, como naquela noite. Alberto ficou calado por alguns segundos, depois disse: - Você está muito impressionada com o que aconteceu. - Estou. Com o passar dos dias, ao invés de esquecer eu fico mais nervosa. - Ele não lhe pode fazer nenhum mal. - Como sabe? Você não o viu! Ele estava ameaçador. - Não passa de um pobre infeliz, sofrido e amargurado. - Como assim? - Dizem que era o espírito do coronel Firmino. Ele morreu e continua preso aos problemas que tinha quando vivia no mundo. É um espírito sofredor, não tem poder de fazer mal. - Como pode dizer isso com essa calma? Você está falando da alma de quem já morreu! - E o que é que tem de mais? Todos nós vamos morrer um dia, e isso não nos fará melhores nem piores do que somos agora. Creia, Liana, o fato de ele estar morto não significa que tenha poderes especiais. - Queria só ver se ele aparecesse para você! - Não nego que deve ser assustador, principalmente pelo inesperado. Mas eu tentaria conversar com ele, rezar, não teria medo. - Você parece entender do assunto! - Tenho estudado certos fenômenos de mediunidade. Tenho certeza de que a vida continua após a morte do corpo de carne e que somos todos espíritos eternos. - Eu também acredito que, de certa forma, a algum lugar devem ir as almas dos que morreram neste mundo. Mas o que apavora é vê-Ias aqui, à nossa volta. - Isso ocorre porque você faz da morte uma idéia muito dramática. Pelo que tenho aprendido, a passagem desta para a outra dimensão da vida não é dolorosa. - Como pode saber? - Há pessoas que têm sensibilidade e podem se comunicar com os espíritos desencarnados. - Ouvi falar, mas não acredito. Tudo não passa de alucinação. - Assim como você? - Eu vi aquele homem. Quem era, por que desapareceu, eu não sei. Mas eu vi e tenho certeza disso. 97 - Pois é. Você viu. Só que por sua descrição as pessoas o reconheceram como sendo o coronel Firmino. Você viu o espírito de um morto! - Não fale assim, que fico arrepiada. - Deve aceitar essa realidade. Você o viu e esse fato pode se repetir. Não só com ele, mas também com outros espíritos. - Não quero ver nada. Não gosto dessas coisas. - A sensibilidade é um atributo natural do ser humano. Quando ela se abre, é inútil querer evitar. Por isso a aconselho a estudar melhor esses assuntos para saber lidar com a situação quando voltar a acontecer. - Tenho vinte e dois anos e nunca tinha visto nada assim. Não quero e não vou ver mais nenhuma alma do outro mundo. - Há pessoas que gostariam muito de ter essa possibilidade. - Por quê? - Obter provas de que a vida continua depois da morte modifica toda a nossa maneira de compreender o mundo. A certeza de que as pessoas que nós amamos e que já morreram continuam vivas em algum lugar e que um dia tomaremos a ver alivia nosso sofrimento, conforta, mostra que a vida é muito mais do que podemos supor. - Pode ser. Mas esses assuntos me fazem mal. Fico inquieta, arrepiada, sinto frio. Agora quero esquecer o que aconteceu naquela noite. Infelizmente está sendo difícil. - Você está com medo, Liana. E o medo só desaparece quando é confrontado. - Como assim? - Fazendo exatamente aquilo de que tem medo. - Isso é loucura! Não quero nunca mais encontrar aquele homem! - Pois eu, se estivesse em seu lugar, se estivesse com medo dele, tentaria evocá-lo, falar com ele frente a frente, e descobrir o que ele deseja e por que está ainda circulando nesta casa tantos anos depois de sua morte. - Você fala como se ele fosse uma pessoa como nós e pudesse compreender. - Ele é uma pessoa e pode compreender. Mas é preciso conversar com ele, tentar saber. - Ele estava reclamando de nossa presença. Disse que a casa é dele. - É o que ele pensa, uma vez que continua aqui. A casa foi dele. É preciso que ele saiba que agora tudo é diferente. As coisas mudaram. - Eu não tenho coragem. Não quero vê-lo nunca mais. - Vamos esperar que seja assim. 98 No dia seguinte, durante a aula, de repente Nico perguntou: - Professor, o senhor acha que a alma de gente morta pode aparecer dentro do sonho e conversar com a gente? - Depende, Nico. Por que pergunta? Ele olhou indeciso para Eurico, que lhe acenou para que se calasse. - Não é nada, não. Só curiosidade. Alberto não se deu por achado: - O que é que Eurico não quer que você fale? Nico olhou para o amigo e não respondeu. - Olhem aqui, vocês dois. Nós fizemos um trato, temos nossos segredos, somos amigos. Se vocês não confiam em mim, como é que posso me sentir? Eu nunca traí nenhum de nossos segredos. - É que o Eurico não gosta de falar desse assunto. Ele fica nervoso - esclareceu Nico. - Ele fica nervoso, e nesse estado fica difícil encontrar solução para o que o está incomodando. Se nós conversarmos sobre isso, juntos poderemos encontrar uma idéia boa que o ajude a ficar melhor. - O que está acontecendo que eu não sei? - fez Amelinha. - Eu também tenho guardado os segredos. Não falei nada a ninguém. - Está bem, Nico, pode contar - autorizou Eurico. - É que anteontem ele me acordou nervoso, tremendo. Disse que a alma do coronel Firmino puxou as suas cobertas e apareceu do lado da sua cama. - Você também o viu? - perguntou Amelinha. - Veja se não fala disso a ninguém. Senão você vai morrer seca ameaçou Eurico. - Ela não vai dizer nada - interveio Alberto. - Continue, Nico. - Pois é. O Eurico estava com muito medo e eu fui deitar na cama dele e prometi não dormir antes dele. Ele dormiu e depois eu peguei no sono e então eu sonhei que o coronel estava ali falando comigo. - O que foi que ele disse? - indagou Alberto com interesse. Nico contou o que conversara com o coronel Firmino. E finalizou: - O engraçado é que eu tinha certeza de que o conhecia há muito tempo. Será que foi porque tenho pensado nele por causa do que tem acontecido? Minha mãe sempre falava nele e, agora, aqui também se fala. Será que fiquei impressionado? - Pode ser, Nico. Mas eu gostaria que você prestasse atenção. Se sonhar de novo com ele, quando acordar, escreva em um papel tudo quanto conversaram. 99 - Para quê? - perguntou Eurico. - Para nós estudarmos e descobrirmos a verdade, por que o espírito do coronel tem aparecido por aqui. - O senhor acredita em mim? - tornou Eurico. - Claro que acredito. Você é um menino inteligente e saudável. Não iria inventar essa história. - Ele é doente - disse Amelinha. - Ele foi doente - corrigiu o professor. - Ele agora não tem doença nenhuma. Quando ele acreditar nisso, vai ficar forte e muito bem. - O senhor acha que vou poder ser igual a Nico? - Você não vai ser igual a Nico porque cada pessoa é diferente. Mas você é tão saudável quanto ele. - Vou poder subir em árvore como ele, correr e pular? - Se acreditar que pode, vai acontecer. - Puxa! Vou fazer tudo para acreditar. - Agora vamos à nossa aula de hoje. Vocês trouxeram as sementes, os galhos e as folhas que eu pedi? Eles concordaram com prazer e se interessaram pela aula. Antes que o professor se despedisse, Eulália procurou-o, convidando-o para jantar naquela noite. - Norberto chega hoje à tarde com o Dr. Mário e nós teríamos muito prazer em que o senhor comparecesse. - Virei, Dona Eulália. Obrigado pelo convite. Ele havia se mudado para uma casa que decorara de maneira simples mas com bom gosto. No quarto mais espaçoso fizera seu dormitório; no outro, um pouco menor, o quarto de vestir; no terceiro, o escritório com seus livros e a inseparável máquina de escrever. Na sala, alguns objetos de arte, poltronas confortáveis e um sofá. Quando se mudou de São Paulo ele guardou seus móveis em um depósito. Tendo encontrado a casa para alugar, mandou buscá-los. Gostava de conforto e ordem. Não deixava faltar flores nos vasos e no pequeno jardim em frente à varanda. Alberto era caseiro. Quando não estava na mansão, permanecia largo tempo escrevendo no escritório, lendo, estudando. Às vezes, à noite, sentava-se na varanda ouvindo música, ora lendo, ora deixando-se ficar pensativo, olhos perdidos em um ponto distante. A princípio, despertara curiosidade nos habitantes da pequena cidade, mas depois, como ele era naturalmente reservado, acabaram acostumando-se com sua maneira de ser. Apesar de ser discreto, Alberto estranhou que Norberto chegasse naquela tarde. 100 É que ele costumava voltar só nos fins de semana. Por que teria vindo em plena quarta-feira? O engenheiro viria com ele, o que o fez pensar que o assunto se relacionasse com a manutenção da casa. Apresentou-se pontualmente às sete, conforme Eulália pedira, e já os encontrou reunidos conversando na sala. As crianças estavam no quarto e só apareceriam na hora do jantar. Logo na chegada Alberto sentiu que havia alguma coisa diferente no ar. Norberto estava com certo ar solene, Eulália um tanto inquieta e Mário muito introspectivo. Liana, mais falante que seu natural. Depois do jantar as crianças se recolheram, e, uma vez sentados na sala enquanto Norberto conversava com o professor, muito interessado no progresso das crianças, Eulália chamou Liana e Mário para ver uma escultura de bronze que ela ganhara de uma amiga e que mandara instalar no jardim. Somente quando Eulália voltou sozinha alguns minutos depois foi que Alberto começou a desconfiar do que estava acontecendo. Quando Norberto saiu para apanhar um livro, Eulália aproveitou o momento e confidenciou: - Estou tão nervosa! Mário pediu a Norberto a mão de Liana em casamento. Como nossa mãe morreu e nosso pai está fora do Brasil, ele achou por bem falar com Norberto. - E ela, aceitou? - Não sei. Norberto disse sim, no que se refere a nós dois, mas é ela quem vai dizer se quer ou não. Por isso eu os levei para o jardim para que pudessem conversar. Tomara que dê certo. Mário é uma excelente pessoa. Norberto voltou com um livro nas mãos, e Eulália calou-se. Sabia que ele não gostava que comentasse os assuntos de família com os amigos. Alberto estava curioso. Liana era muito jovem e bonita, além de tudo inteligente. Bem que ele notara o interesse do engenheiro nas vezes em que estivera na mansão. Mas pensava que ela não se interessava por ele. Estaria enganado? Era um cético com relação ao casamento. Saíra de uma experiência muito desagradável e havia jurado nunca mais se apaixonar. Seria uma pena que uma moça como Liana, tão cheia de vida, de beleza, se enterrasse em um casamento. Dentro de pouco tempo teria se transformado em uma matrona sem graça, às voltas com problemas domésticos. Seus pais, de família abastada, haviam se separado quando ele era criança. Mas ele se sentira melhor depois disso, porque eles viviam brigando. 101 Depois da separação, ele e a mãe conseguiram manter uma vida mais agradável, até que ela se apaixonou de novo, mostrando-se disposta a refazer sua vida, e foi morar com ele. Alberto, que já estava na faculdade e escrevia para um jornal, não quis morar com ela. Arranjou um emprego e foi morar sozinho. Sua mãe assumiu a nova vida, mas dentro de pouco tempo estava se queixando de novo. Ele havia se apaixonado por uma colega e foi correspondido. Ficaram noivos e marcaram a data do casamento. Ele já havia escrito dois livros que tinham sido muito elogiados pela crítica. Pensando em casar-se, tratou de ajuntar dinheiro. Sua noiva era de família abastada e ele se esforçou para montar uma casa confortável e bonita. Casaram-se e ele se sentia muito feliz. Entretanto, logo descobriu que Eugênia não era como ele gostaria. Mimada, exigente, queria que ele ficasse todo o tempo a seu lado, cobrando atenção, cheia de ciúme, reclamando pelas mínimas coisas. Dentro de pouco tempo ele já não suportava mais ouvir sua voz chorosa, sempre reclamando de alguma coisa. Por mais que ele se esforçasse para que ela ficasse feliz, nunca conseguia. A insatisfação dela era constante, responsabilizando-o por sua infelicidade, exigindo cada vez mais. Resolveu separar-se. Estava arrasado, sem energia, de mal com a vida, completamente perdido. Mas não foi fácil livrar-se dela. Dizendo-se infeliz, ameaçava suicidar-se, o que fazia a família dela procurá-lo para exigir, suplicar que ele voltasse. A primeira vez ele voltou, e ela jurou que iria mudar. Mas dentro de pouco tempo tudo estava como antes. Por fim ele resolveu separar-se de uma vez. De nada adiantaram as ameaças dela, da família, nem os pedidos. Ele sentia que não tinha mais forças para suportar a presença dela. Irritava-o até o som de sua voz. Foi muito difícil para ele recuperar o equilíbrio. Durante mais de três anos eles o perseguiram para que retomasse o casamento. Mas Alberto resistiu. Até que aos poucos eles começaram a espaçar os contatos. Decidido a acabar de vez com esse problema, Alberto resolveu mudar-se sem dizer a ninguém o endereço. Só sua mãe sabia onde ele se encontrava e ele a fizera jurar que nunca diria a ninguém. Ali, em meio àquelas pessoas simples, a seus livros, a seus estudos e . às crianças, havia conseguido restaurar completamente sua paz interior. Sentia-se de novo de bem com a vida. Por isso, torcia para que Liana dissesse não ao Dr. Mário. Não tinha nada contra ele, mas pensava que seria uma pena eles se amarrarem no casamento. Quando Liana e Mário entraram novamente na sala, Alberto olhou os tentando descobrir se ela havia dado o sim. 102 Como eles continuassem conversando normalmente, como se nada houvesse acontecido, ele se perguntou se Mário teria realmente feito o pedido. Uma hora mais tarde, ao se despedir, Eulália acompanhou-o até a porta e Alberto arriscou baixinho: - E então? Ela disse sim? - Ela pediu alguns dias para pensar - sussurrou Eulália. - Vamos torcer. - Está bem. Boa noite, Dona Eulália, e obrigado pelo jantar. - Boa noite, professor. Alberto voltou para casa pensativo. Liana não estava apaixonada por Mário. Se estivesse, teria dado o sim imediatamente. Isso lhe deu esperança de que ela não o aceitasse. Sentia que Eulália faria tudo para convencê-la a casar-se. Contudo, Liana parecia-lhe ser independente e não se deixar influenciar muito pela irmã. Na manhã do dia seguinte, quando chegou para a aula na mansão, Alberto encontrou Liana sentada em um banco no jardim. Parou para cumprimentá-la. - Estou lendo um livro muito interessante sobre comportamento - disse ela depois de responder seus cumprimentos. - Você nunca me falou a respeito de seus livros. - Você nunca perguntou. - Norberto disse que você é um filósofo. Ele riu com gosto. - Eu não ousaria dizer isso. Sou um estudioso da vida, das pessoas. Acredito no potencial do ser humano. - Olhando as limitações de muitas pessoas, os problemas da miséria e das desigualdades sociais, é difícil acreditar nisso. - Você olha os reflexos daqueles que ainda não descobriram a própria força. Mas, mesmo que eles ainda não saibam, ela está lá. Quem descobre o próprio poder, a própria capacidade, acaba derrotando a pobreza e se tornando um vencedor. A dificuldade está em acreditar que tem capacidade. . - Você é um otimista. Eu acredito que o meio seja elemento fundamental para o desempenho de alguém. Observando a pobreza de ideais, de perspectiva das famílias de meus alunos, acho difícil que eles venham um dia a conquistar uma vida melhor. Eles vão ser exatamente como seus pais: lavradores pobres, incultos, limitados. 103 - Vejo os fatos de forma diferente. O meio pode pressionar, mas só vai dominar aquele que ainda não descobriu a própria capacidade. Veja o caso de Nico, por exemplo. Ele é muito diferente do resto de sua família. Tenho certeza de que um dia ele vai conseguir tudo que deseja, tornar-se uma pessoa bem-sucedida. - Ele é uma exceção. - A exceção demonstra que as regras não são confiáveis. Nunca ouviu dizer que quem é bom já nasce feito? - Já. Esse é um ditado popular antigo. - Uma grande verdade. Quem tem evolução confia em si mesmo, acredita que é capaz e vai atrás de seus objetivos. - Você acredita em evolução? - Claro. Como explicar as desigualdades, os níveis de conhecimento das pessoas sem a evolução? - Você está falando de Darwin? - Estou falando de reencarnação. De vidas passadas. Liana admirou-se: - Vidas passadas? De onde tirou essa idéia? - Observando. Estudando os fenômenos espirituais. Hoje, tenho absoluta certeza de que nós já vivemos outras vidas antes desta. - Você me deixa arrepiada com esse assunto. - Desculpe. Falemos de outra coisa. - Não. Estou curiosa. Você é um homem inteligente, um escritor. Como pode acreditar em uma coisa dessas? - Já disse. Pela experiência. Estudando certos fatos. Observando a vida, que sempre procura dar o melhor ensinando a cada um como encontrar o jeito certo de ser feliz. - Não é esse o conceito que eu tenho da vida. Pelo que tenho visto, há dor, sofrimento, violência, falsidade. É difícil acreditar no potencial do ser humano quando vemos tantos desencontros e tantos problemas no mundo. - Você não está olhando com bons olhos. Quando valoriza o mal, está aumentando a desgraça do mundo. - Eu não valorizo o mal! De forma alguma. Estou justamente lamentando o estado caótico de nossa sociedade. - Quando está lamentando, está vendo o lado ruim. Está valorizando o mal. Está dizendo para a vida que o mundo é mau. - E isso não é a realidade? - Não. Essa é a forma como você vê. Há muitas pessoas vivendo bem, estudando, aprendendo, desenvolvendo conhecimentos e aptidões, crescendo. 104 E as que estão enfrentando duros desafios certamente com eles estão desenvolvendo o próprio poder, aprendendo a lidar com situações, emoções. Creia, Liana, a vida é a melhor professora, porque ensina praticando, criando situações para que possamos experienciar e aprender qual o melhor caminho para cada um de nós. - Há situações que criam desespero e dor. - Mas há também nosso desejo de ser feliz, de encontrar uma vida melhor. E essa vontade dentro de nós nos impulsiona a buscar sempre um meio de vencer a dor, a infelicidade. Quando uma atitude nossa não dá o resultado que esperávamos, o jeito é repensar, é entender que ela não foi adequada, e procurar mudá-Ia, experimentando até encontrarmos outra melhor. É pelos resultados que descobrimos se estamos agindo a favor da vida ou não. - Você tem idéias extravagantes. Como é agir a favor da vida? - Respeitando a natureza. Sendo verdadeiro, natural. Não se sujeitando a papéis sociais. Quando você age de acordo com sua natureza, com o que é, as coisas deslizam com facilidade e tudo na vida dá certo. - Às vezes é preciso agir pelo raciocínio. O coração é traiçoeiro. Costuma nos pregar peças. - Ao contrário. O coração fala de nossa verdade. A cabeça, o raciocínio, quando voltado aos costumes da sociedade e distanciado do coração, cria ilusões, teorias, que acabam nos envolvendo em fracassos e frustrações. - Aí é que está. Às vezes a gente se apaixona pela pessoa errada. Nesse caso, o coração não pode ser ouvido. - O gostar de uma pessoa nunca é errado. O que fazemos em nome desse sentimento é que pode ser inadequado e trazer dor. - O coração por vezes quer coisas impossíveis. Por isso, não concordo que é preciso seguir o que ele quer. - Você tem medo dos próprios sentimentos. - Falo em tese. Não estou colocando o que sinto. - Vai se casar com o Dr. Mário? - Ainda não decidi. Estou pensando. - Você não o ama. - Como sabe? - Pela sua atitude. - Ele é uma excelente pessoa. Qualquer mulher seria muito feliz a seu lado. - Se o amasse. - Por que acha que não virei a amá-Io? 105 - Porque em amor não entra o raciocínio. No casamento será preciso a intimidade. Como se entregar a ela sem amor? - Você já foi casado? - Já. Foi uma experiência infeliz. - Estão separados. - Sim. - Você a amava? - Eu acreditava amar. Meu sentimento não foi suficiente para agüentar as cobranças e as queixas dela. Nós éramos muito diferentes um do outro. Nunca daria certo. O relacionamento, a convivência acabaram me mostrando que nunca seríamos felizes juntos. - Sinto muito. Deve ter sido uma desilusão. Tem filhos? - Não. Mas separar-me dela foi a melhor coisa que eu fiz. Retomei a posse de mim mesmo. - Não se sente só? - Não. Gosto do que faço, cuido de mim muito bem. Não me falta nada. - É disso que tenho medo. De acabar sozinha. Esse pensamento faz me pensar em aceitar o pedido de Mário. - Você já deve estar se sentindo sozinha. - É verdade. - Se se casar com ele, esse sentimento não vai acabar. - Porquê? - Porque ninguém pode acabar com sua solidão, a não ser você mesma. - Como assim? - Você pode estar em meio a muitas pessoas e mesmo assim sentir-se só. O sentimento de solidão aparece sempre que você se abandona, não faz o que sua alma quer. Creia, Liana, a solidão é olhar mais para fora de você, para as necessidades dos outros do que para as suas. É não ouvir seu coração. - Por que está me dizendo tudo isso? - Porque está prestes a tomar uma decisão importante para o resto de sua vida. Gostaria muito que optasse pelo melhor. - O que você acha que eu deveria fazer? - Eu não acho nada. É você quem precisa perguntar a seu coração qual seria a melhor resposta. Liana olhou séria para ele e disse: - Gostaria muito de ler um de seus livros. Poderia emprestar-me? 106 - Claro. Com prazer. - Suas teorias são diferentes. Um pouco assustadoras. - Nunca teorizo. Gosto mais de experimentar. Só escrevo sobre algum assunto quando tenho certeza. Não sou um intelectual. Interessa-me muito conhecer como as coisas funcionam. - Por isso leciona de maneira tão diferente. - O que me importa é que as crianças se interessem pelo conhecimento. Se eu teorizar, elas vão se entediar. No meu modo de ver, não são as crianças que precisam compreender o professor, mas o professor que deve mostrar os fatos ao nível delas. - Por isso você brinca com elas. - Claro. Essa é a forma que lhes é familiar e lhes dá prazer. Descobrir a natureza, conhecer a história, aprender matemática, ciência, comportamento, é sempre interessante. - Nem todos os alunos entendem isso. - Por causa da forma como esses assuntos são tratados. Sempre com arrogância, imposição, teorias e até falta de interesse do próprio professor. - Eu tenho muito interesse em ensinar. - Não me refiro ao interesse em ensinar, mas ao interesse pelos assuntos. Nós todos aprendemos de forma tão tediosa que perdemos o prazer de investigar, de pensar, de questionar as coisas e até de experimentar se elas são assim na prática. Repassamos conceitos, idéias que nos foram ditadas, e, de tanto repeti-Ias, acabamos por fazer isso sem nenhum prazer, apenas por obrigação. - Você está sendo muito severo com os professores. - Não tenho essa intenção. Estou apenas tentando entender porque eles por vezes se tornam tão ineficientes, desmotivando as crianças ao estudo. Falta-Ihes o prazer de lidar com as matérias, a criatividade, o questionamento. Diplomam-se e pensam já terem feito o bastante para ganhar a vida. Só que tudo muda a todo minuto, e quem fica parado atravanca o progresso, perde o brilho, acaba no tédio. - Isso é verdade. A maioria dos estudantes espera o diploma com ansiedade, na crença de que dali para a frente sua vida estará resolvida. A descoberta de que isso não basta para conduzir ao sucesso profissional não será a causa do tédio que você mencionou? - Pode contribuir, mas o fator principal é a falta de interesse pelas coisas. Foi assim que eles aprenderam na escola. Certamente desconhecem que a vida pode ser muito mais interessante quando vista de outro modo. - Como assim? 107 - Veja o caso de Eurico. Ele vivia entediado, manipulando todo mundo com seus achaques. Como é que ele está melhorando? - Eurico sempre foi doente. Você não está sendo cruel dizendo que ele manipulava? Ele não fingia. Passava muito mal mesmo. Eu vi muitas vezes. - Ele não fingia sentir-se mal. Ele passava mal mesmo. Mas o caso dele é todo um processo que estou estudando ainda e não estou em condições de falar inteiramente. O que é notório é como ele está melhorando. - É verdade. Está muito melhor. Corado, o mal-estar espaçou muito, acho que até engordou um pouquinho. - E como aconteceu isso? Você já viu como Nico é interessado pelas coisas? - É observador, inteligente, habilidoso. - É mais que isso. Em alguns momentos, tem uma sabedoria que só espíritos muito evoluídos possuem. - Ele é diferente mesmo. - Eurico melhorou quando Nico começou a interessá-Io na observação de fatos interessantes da natureza. A vida dos pássaros, das plantas, seus ciclos e fenômenos. Ele usou a fórmula certa para motivar o interesse dele. É isso que estou tentando fazer. Interessá-Ios nos mecanismos da vida, nas maravilhas da natureza, nas ciências que estudam esses fenômenos. - Reconheço que é um trabalho maravilhoso. Estou pensando seriamente em começar a aplicar isso com meus alunos. - Se está, deve começar por descobrir como se motivar mais à observação e à experimentação. A vivência desperta a criatividade e a certeza de nossos conceitos. - Vou tentar. - Preciso entrar. Está na hora. As crianças já devem estar me esperando. Depois que ele entrou, Liana permaneceu pensativa. Alberto era um homem bonito, interessante, culto, capaz de despertar interesse. Por que, preferia viver só? Guardaria no coração um amor impossível como ela? Era por causa disso que ainda não recusara o pedido do engenheiro. Casar com ele poderia ser a melhor solução para afastá-Ia daquela casa sem provocar uma tragédia. Tudo aconteceu depois que Eulália se mudou para Sertãozinho. Liana ficou aguardando a transferência para Ribeirão Preto e durante aqueles meses morou em São Paulo em companhia de Norberto. 108 Todas as noites ele a procurava para conversar e uma noite não se conteve e declarou sua paixão por ela. - Há muitos anos guardo em meu coração este amor impossível declarou ele emocionado. - Pretendia levá-Io para o túmulo. Mas estou sofrendo muito. Abraçou-a e beijou-a com paixão. Liana sentiu profunda emoção. Conseguiu afastá-Io a custo, .fechou-se no quarto e soluçando desconsolada chegou à conclusão de que também se sentia atraída por ele, sem nunca ter querido confessar. Desejou ir embora para sempre, mas para onde? Eulália era sua única família. No dia seguinte reuniu todas as suas forças e teve uma conversa séria com Norberto. Disse-lhe que ele deveria esquecê-Ia e que nunca mais falariam no assunto. Ele, triste, cabisbaixo, disse emocionado: - Nunca senti tanto amor por uma mulher. Perdoe-me. Não pensava perturbá-Ia. Concordo que nunca mais falemos deste assunto, mas, antes, há uma coisa que me está queimando e que eu gostaria de saber. Ontem senti que você estremecia de amor a meu contato. Diga-me: é verdade? Você também me ama? - Melhor não falarmos nisso. - Eu preciso saber. Não vou exigir nada. Acato sua decisão. Sei que é preciso. Mas saber que me ama vai ser o conforto de que preciso para aceitar a separação definitiva. Será a última vez que falaremos no assunto. - Sim. Sempre gostei de ficar a seu lado, conversar, admirá-la. Mas ontem descobri que também o amo. Confesso, mas não diga nada. Essa constatação já basta para nos separar para sempre. - Ah, se eu pudesse! - disse ele abraçando-a com paixão, procurando seus lábios, apertando-a de encontro ao peito. Liana não conseguiu resistir. Entregou-se ao beijo, sentindo o coração descompassado, mergulhada em uma emoção antes nunca experimentada. Norberto não parou nem mesmo quando ela pediu que ele a deixasse ir. Beijou-a repetidas vezes e arrastou-a para o quarto, onde se entregaram completamente ao amor. Quando passou, deitados um ao lado do outro, Liana disse num soluço: - Isso não podia ter acontecido. Estou envergonhada, arrependida. Como vou agora encarar minha irmã? Vou-me embora para sempre. - Perdoe-me, Liana. Eu deveria ter me controlado. Mas eu a amo. Se quiser, posso me separar de Eulália e ficar com você para sempre. 109 Liana sentou-se na cama tentando compor as roupas. - Nem diga uma coisa dessas! Que horror! Eu separar a família de minha única irmã, que sempre foi como uma mãe para mim? Como isso pode passar por sua cabeça? - Nós nos amamos. Não é justo que passemos o resto de nossas vidas separados, agora que descobrimos nosso amor. - Estou me sentindo a pior pessoa do mundo. Não quero me sentir assim. Amo Eulália, as crianças, isso não podia ter acontecido. Mas aconteceu. Agora vamos esquecer. Nunca mais quero falar sobre esse assunto. É como se nunca houvesse acontecido. Proíbo-o de falar alguma coisa a Eulália. Nunca mais quero que se aproxime de mim. Acabou. - Pense bem. Falaremos com Eulália. Explicaremos que foi uma coisa que aconteceu. Quem pode segurar os sentimentos? - Absolutamente. Está acabado. Nunca mais toque nesse assunto. Eu o proíbo. Amanhã mesmo pedirei uma licença na escola e irei ter com Eulália a pretexto de não estar me sentindo muito bem. Lá esperarei a transferência. - Perdoe-me, Liana. Não queria prejudicá-Ia. - Não se preocupe comigo. Estou bem. Ele pegou a mão dela, apertou-a com força e, olhando-a nos olhos, disse: - Nunca esquecerei este momento enquanto viver. Pode ter certeza de que a amarei sempre. Ela se desvencilhou e saiu sem responder. A partir daquele dia nunca mais voltaram a falar no assunto, mas a ferida ainda sangrava dentro do peito dela. Além do amor impossível, havia a vergonha pela traição, a culpa, a infelicidade por haver permitido que as coisas chegassem àquele ponto. Quanto mais Eulália a tratava com carinho, atenção e amor, mais ela se sentia culpada e infeliz. Casar-se com Mário seria deixar aquela casa e refugiar-se para sempre ao lado de uma pessoa que a respeitava e a amava e na qual poderia confiar. Decidiu aceitar o noivado. Era a melhor solução. Não havia outra coisa a fazer. 110 Capítulo 8 Na manhã do domingo, Liana confidenciou à irmã: - Resolvi me casar com Mário. Eulália abraçou-a com carinho, exclamando com alegria: - Que bom! Parabéns! Tenho certeza de que será muito feliz com ele. - Obrigada. - Quando vai dar-lhe o sim? - Hoje à tarde, após o almoço. - Ele virá logo mais para passar o dia conosco. Por que não fala antes do almoço com ele? Assim poderemos comemorar, abrindo um vinho especial. A ocasião merece! - Eu prefiro deixar as comemorações para o casamento. - Nada disso! Imagine... Norberto não vai concordar. Seu noivado é importante e merece uma comemoração. Liana não respondeu. Como Norberto reagiria a seu sim? Ela não queria pensar nisso. O que estava fazendo era o certo. Iria embora para sempre e tudo estaria resolvido. Mário tinha uma bela carreira, ela levaria uma vida boa e sem preocupações. Quando Norberto entrou na sala, Eulália foi logo dizendo com um sorriso: - Liana vai aceitar o pedido de Mário. Eles vão se casar! Não acha que precisamos comemorar? Norberto olhou para elas, ficou calado alguns segundos e depois respondeu: - Claro. Por que não? - Parece que você não se entusiasma com a idéia. Não gosta de Mário? Norberto sorriu levemente: - Mário é um homem inteligente e agradável. Resta saber se Liana o ama o suficiente para casar-se. Eulália olhou-o admirada. Nunca o ouvira falando em amor. Liana interveio: - Claro que gosto dele. Se não gostasse, não aceitaria seu pedido. - É estranho você dizer isso, Norberto - tornou Eulália. - Liana é livre, só se casará se quiser. 111 - Certamente - concordou ele. - Eu disse a ela que desse a resposta logo, para que pudéssemos festejar ao almoço. O professor também virá almoçar. Assim aproveitamos para celebrar. - Está bem - resolveu Liana. - Falarei com ele assim que chegar. Liana sentia o olhar de Norberto pesando sobre ela e queria resolver o assunto logo, sair dali. Sentiu-se aliviada quando Eulália a chamou para resolver alguns detalhes do almoço. Ela queria caprichar. Aquele seria um dia inesquecível para a família. Depois, Liana subiu para o quarto a pretexto de se preparar. Na verdade, ela queria evitar a presença do cunhado. Pensativa, sentou-se em uma poltrona. Percebera que Norberto estava nervoso e temia que alguém notasse. Por que fora acontecer isso com ela? Por quê? Precisava casar-se o quanto antes. Verdade é que Norberto iria embora no dia seguinte e só voltaria no fim da semana, mas ela só se sentiria segura quando estivesse fora daquela casa, casada com outro homem. Eulália bateu na porta chamando-a para ver um arranjo que fizera, e Liana acompanhou-a, procurando demonstrar alegria e disposição. Tudo pronto, como os convidados ainda não haviam chegado, Liana apanhou um livro e foi sentar-se no caramanchão. Não queria ficar na sala onde Norberto lia os jornais. Abriu o livro e tentou ler, porém não conseguia concentrar-se na leitura. Deu um pequeno grito quando viu Norberto em pé a seu lado dizendo baixinho: - Liana! Por favor! Diga que não vai se casar com ele! Eu não vou suportar! - O que está fazendo aqui? Pelo amor de Deus! Vá embora. Já pensou se Eulália desconfia? - Quero ouvir de seus lábios que não ama aquele sujeito. - Isso não interessa a você. Vou me casar com ele. Decidi e pronto. Será melhor para todos nós. - Você não o ama! Diga. - Eu não amo. Agora vá embora. - Você não vai aceitar o pedido dele. Se fizer isso, juro que cometerei uma loucura. Prometa que não se casará com ele. - Por que está fazendo isso comigo? Você tem sua família. Deixe-me em paz. Quero cuidar de minha vida! - Enquanto você está sozinha eu posso suportar essa separação. 112 Mas imaginá-Ia nos braços de outro homem me enlouquece - disse ele tentando abraçá-Ia. - Aquela noite não sai de meu pensamento. Não consigo pensar em outra coisa. - Largue-me! Por favor! Saia daqui já se não quer que eu o odeie pelo resto da vida. - Você não vai casar-se com ele! Eu não vou deixar! Prometa isso e irei embora. - Está bem. Não me casarei com ele. Agora vá! Respirando fundo, Norberto saiu do caramanchão e Liana cobriu o rosto com as mãos, soluçando. Nico abraçou Eurico colocando o dedo entre os lábios recomendando silêncio. Eles, escondidos atrás do caramanchão à espera dos beija-flores, não haviam sido vistos pelos dois e sem querer escutaram a conversa deles. Eurico estava pálido e teria caído se Nico não o houvesse amparado, abraçando-o com força, fazendo-lhe sinal para ficar calado. Permaneceram assim, abraçados, em silêncio, até Liana parar de chorar, enxugar os olhos e sair do caramanchão. Ela pretendia ir até o quarto refazer o rosto, sem que alguém a visse. Quando ela estava longe, Nico disse baixinho: - Não devemos falar a ninguém o que aconteceu aqui. - O que meu pai tem com tia Liana? Ele a está namorando? - Claro que não. - Ele falou aquelas coisas, queria abraçá-Ia. - Ele pode estar apaixonado por ela, mas ela não quer nada com ele. É uma moça boa. - Por que ele está fazendo isso? E se mamãe souber? - Ela não vai saber. Nós não vamos contar nada. - Isso não é direito! Mamãe tem de saber. - De jeito nenhum. Já pensou a confusão que pode dar? O melhor é a gente não se meter nisso. - Não posso ficar calado. Meu pai está traindo minha mãe com a própria cunhada. Acha justo isso? - Ele não está traindo ninguém. A Liana não quer nada com ele. - Por que ele pedia a ela para dizer que o amava? - Ela não disse. Logo, ela não ama. Sabe de uma coisa? Um homem pode se apaixonar e ficar louco por causa de uma mulher. Quando acontece isso, é um horror. O filho do Seu Joaquim começou a beber por causa disso e hoje vive jogado na rua. Ele amava uma moça que o trocou por outro. 113 Antes ele era trabalhador, andava direito, depois ficou do jeito que está, perdeu a alegria, o emprego, tudo se acabou. - Pode acontecer isso a meu pai? - Seu pai é um homem estudado, tem mais conhecimento do que o filho do Seu Joaquim, que era um ignorante. O que eu quero dizer é que a paixão acontece e é duro se livrar dela. - E se meu pai der para beber? - Isso não vai acontecer. Por que fui contar essa história para você? Ela vai se casar com o Dr. Mário e pronto, tudo fica resolvido. - Ele a fez prometer que não casará. - Ela prometeu só para ele ir embora. Minha mãe faz isso com o meu pai. Promete mas depois dá um jeito de fazer tudo como ela quer. - Será que tia Liana vai se casar com o Dr. Mário? - Vamos ver... Hum... Você está com uma cara! Pálido, nervoso. Faz tempo que não ficava assim. É melhor esquecer essa história. Nós não podemos fazer nada mesmo. Quando não dá para fazer nada, é melhor deixar de lado. - Estou assustado. Se ela disser sim, o que ele pode fazer? Será que vai matar o Dr. Mário? - Que horror, Eurico. Vai nada. Ele falou, mas na hora vai ter que aceitar. O que ele pode fazer? Acha que vai ter coragem de falar alguma coisa na frente da sua mãe? - É. Acho que ele não tem. - Então! Vamos nos acalmar. Esse é um segredo nosso. Não devemos nos meter na vida dos outros. Minha mãe sempre diz isso. - Não sei se vou agüentar. - Terá que fazer força. Senão nós vamos ficar numa encrenca danada. Já pensou? - Estou começando a pensar que tem razão. - Tenho, sim. Nunca me arrependi de ficar calado. Tenho visto muita coisa por aí. É melhor deixar para lá. Não vale a pena. - Será que meu pai não gosta mais de minha mãe? - E isso, agora? Sei lá. Já vi homem com três mulheres dizer que gosta delas todas. - Isso é sem-vergonhice. - Pode ser, mas ele estava feliz da vida. - Meu pai não pode ser assim. - Vai ver que foi só uma tentação. Passa. Não tem nada de mais. - Você acha? 114 - Acho. Sabe como é, a tentação vem, mas depois passa. Amelinha chegou correndo: - Vocês estão aí! Faz tempo que estou procurando. Mamãe está chamando. Está na hora de se lavar para o almoço. Os convidados já chegaram. - Que convidados? - perguntou Eurico. - O Dr. Mário e o professor. É um almoço de comemoração. Maria disse. Os dois meninos se olharam sem dizer nada. Amelinha prosseguiu: - O que foi? Vocês não sabem da novidade? Tia Liana vai se casar com o Dr. Mário. Vamos ter uma festa. - Vamos nos lavar - disse Nico. - Vamos - concordou Eurico. Eles estavam ansiosos para verificar se Liana estava ficando noiva ou não. Na sala, as pessoas conversavam com naturalidade, e se eles não houvessem ouvido aquela conversa não desconfiariam de nada. A certa altura, Mário levantou-se, dizendo em tom solene: - Hoje é um dia especial para mim. Liana aceitou meu pedido. Vamos nos casar. Sinto-me honrado e feliz. Eulália levantou-se e abraçou a irmã com alegria: - Tenho certeza de que serão muito felizes! Faço muito gosto nesse casamento. Abraçou Mário com carinho. Norberto levantou-se e cumprimentou os noivos. O professor fez o mesmo. Os dois meninos olhavam o rosto de Norberto e, apesar de ele dissimular, notaram o rubor na face e o brilho de contrariedade nos olhos. Amelinha bateu palmas, abraçando a tia e dizendo: - Oba! Tia Liana vai se casar! Eulália mandou abrir uma garrafa de vinho do Porto e Norberto, a um olhar da esposa, levantou o brinde, desejando felicidades aos noivos. O almoço foi servido em seguida, mas o professor percebeu que Liana não estava feliz. Por que ela resolvera aceitar aquele casamento? Mário era excelente pessoa, mas ele sentia que não tinha elementos para fazer Liana se apaixonar. Ele sabia que esse casamento não iria dar certo. Foi antes de iniciar a aula do dia seguinte que Alberto começou a encontrar a resposta. Naquela noite Eurico não havia passado bem e não se levantara ainda. Amelinha havia ido acordá-lo. Nico já estava na sala e Alberto perguntou: 115 - O que foi que Eurico teve? - Ele se sentiu mal, como antigamente. O professor ficou pensativo por alguns instantes, depois disse: - Ele estava muito bem. Não pensei que fosse recair. Deve ter acontecido alguma coisa que o desequilibrou. O que foi? - Nada. - Pela sua cara estou percebendo que aconteceu algo mesmo. - É melhor não falar nisso. - Eu sou amigo de vocês. Tenho feito tudo para que Eurico se recupere. Se eu souber o que foi, vou poder ajudá-Io a ficar bem. Depois, nós não temos segredos entre nós. - É que o assunto é muito sério! Tenho medo de contar. Se alguém descobrir, vamos ser castigados. Juro que não foi de propósito. Estávamos lá brincando. - Sou seu amigo e quero ajudar. Seja o que for, não tenha medo de contar. Nico resolveu e contou tudo que eles tinham ouvido. Quando ele terminou, Alberto disse: - Nico, você agiu muito bem! Parabéns! Eu teria feito a mesma coisa. Então foi isso! Ele ficou assustado, com medo. É um menino muito mimado e isso o deixa muito fraco, incapaz de enfrentar a verdade com calma. Nós dois vamos fazer com que ele aprenda a olhar a vida com mais naturalidade. Ele é muito dramático. Pessoas assim exageram tudo e sofrem muito. - Sofrer por isso é besteira. Quando as pessoas querem alguma coisa, mesmo sabendo que é errado, nós não podemos fazer nada. Elas não ouvem o que nós falamos. Minha mãe sempre me ensina isso. - Sua mãe é muito sábia. Qualquer dia vou conversar um pouco com ela. Garanto que ela tem muito a me ensinar. - Isso ela tem! Toda vez que ela fala e eu não escuto, dá errado. Ela é sabida mesmo. Amelinha entrou dizendo: - Eurico disse que não vem. Ele não quer levantar. Mamãe foi lá saber o que ele está sentindo, mas ele não quer nem falar com ela. - Eu vou conversar com ele. Vocês esperem aqui. Alberto entrou no quarto de Eurico, onde Eulália e Hilda tentavam convencê-Io a se levantar. Ele, deitado, pálido, olhos fechados, não respondia ao que elas diziam. - Deixem-me a sós com ele - pediu Alberto. 116 Depois que elas saíram, ele fechou a porta, sentou-se ao lado da cama e disse com voz calma: - Isso que você está fazendo não vai adiantar nada. Eurico não respondeu, e o professor continuou: - Sua tia Liana vai ficar muito triste e zangada com você se souber que descobriu o segredo dela. Eurico abriu os olhos assustado, sentando-se na cama: - Como você sabe? Foi Nico! Ele não tinha nada que contar. - Ele só contou porque eu pressionei. Eu estava querendo saber por que você teve essa recaída. Aliás, ficar doente não vai mudar os fatos. Pode até piorar. Você vai se sentir mal, ficar pior, sua mãe vai querer saber por quê, e no fim acabará descobrindo o motivo. E aí pode acontecer o pior. Ela se separar de seu pai, brigar com sua tia e você ficar com remorso e adoecer de verdade. - Não quero que aconteça nada disso - lamentou-se Eurico, chorando. - Se não quer, Eurico, não deve intrometer-se nos assuntos das outras pessoas. - Nico disse isso. - Ele está certo. Cada um é responsável pela própria vida. Você não pode mudar os sentimentos dos outros. O que pode é aprender a controlar os seus e cuidar só dos assuntos de sua vida. - Eu queria que meu pai amasse minha mãe! Ela é tão boa! Faz tudo por ele e por nós. - Você está achando que seu pai não gosta de sua mãe. Como pode dizer isso? Você não sabe o que vai no coração dele. Depois, ele vai gostar do jeito dele e não do jeito que você gostaria que ele gostasse. Por isso, o que você tem a fazer é reconhecer que não pode intervir no relacionamento deles. Esse é um assunto só deles. Se você ama sua mãe, reconhece o quanto ela tem sido dedicada à família, o que você pode fazer é reconhecer isso, sendo amoroso com ela, mostrando o quanto é grato pela dedicação com que ela tem cuidado de você. Do jeito que está agindo, ao invés de amor você a está deixando preocupada, aflita. É isso que você quer? - Não. - Então levante-se, vista-se e vamos estudar. Hoje tenho assuntos muito interessantes para discutir. - Amelinha não pode saber! Ela é muito linguaruda. - Ela não sabe. O segredo ficará só entre nós, homens. 117 - Assim é melhor. Estou um pouco tonto. Você acha que meu pai ama mesmo tia Liana? Tenho medo de que ele brigue com o Dr. Mário. - Sua tia Liana é uma moça muito atraente. Além disso, muito inteligente. Ele pode ter se sentido atraído, isso é até natural nos homens. Mas isso não quer dizer que ele pense em abandonar a família por causa de sua tia. Depois, ela agora é noiva, vai se casar. Sua mãe nunca vai saber dessa pequena fraqueza de seu pai. Esqueça isso. Pense em você, em sua saúde. Seu pai já voltou para São Paulo, não vai acontecer nada. Vamos. Você é um menino forte. Vai se levantar e estudar, cuidar de seu futuro. Aprender as coisas boas da vida. Eurico concordou. Levantou-se, vestiu-se e quando o professor abriu a porta ele já estava pronto. - Você vai tomar seu café enquanto nós esperamos. Tem de se alimentar bem para ficar cada dia mais forte. Eulália suspirou aliviada enquanto Hilda corria a colocar o café com leite para de. Naquela manhã o professor levou as crianças ao jardim para falar dos ciclos da natureza, do acasalamento dos animais, de sua procriação, ilustrando a aula com os elementos que ia encontrando à sua volta e com as gravuras do livro que levara. As crianças se interessaram tanto que na hora do almoço já Eurico estava corado e bem-disposto, como sempre. Ao se despedir do professor, Eulália perguntou: - Como conseguiu fazer Eurico reagir? Gostaria de aprender seu método. - Não fiz nada de mais. Apenas provei a ele que se entregar ao desânimo causa doença. - Um menino dessa idade! Por que será que fica desanimado? - Coisas da cabeça dele! Agora que ele já está mais forte, melhor, seria bom que todos nós começássemos a torná-Io mais independente. - Como assim? - O excesso de cuidados torna-o mais fraco e delicado. Ele precisa aprender a enfrentar a vida como ela é. A senhora sabe, um dia ele terá de viver em sociedade, trabalhar, vencer os próprios desafios. Se ficar muito protegido, nunca vai aprender. - Liana às vezes me fala isso! Mas ele é tão frágil, tão delicado. Tenho medo de perdê-Io! - Compreendo Dona Eulália. Mas ele está melhor. Aos poucos, conforme ele vai melhorando, podemos fazer com que ele confie mais nas próprias forças. Desde que nasceu ele tem ouvido dizer que é um doente. 118 Está na hora de começarmos a dizer que ele é forte, que tem saúde. Isso vai ajudá-Io a se fortalecer. - O senhor acha? Farei tudo para que ele seja saudável! - Tenho certeza de que a senhora, como mãe, vai encontrar o melhor jeito de fazer isso! Dois dias depois foi que Alberto se encontrou com Liana. Percebeu logo que ela estava longe de ser a noiva feliz. Embora tentasse aparentar alegria, ele percebia um brilho triste em seu olhar. Vendo-a sozinha, tentou conversar. - Você vai mesmo se casar com Mário? Ela se sobressaltou ligeiramente e respondeu: - Vou. Por que duvida? - Porque você não o ama. Um casamento sem amor é uma cruz difícil de carregar. - Por que diz isso? - Porque já passei por essa experiência. Não foi nada bom. Nunca mais quero passar por isso de novo. - Você é desanimador. - Só quero que reflita. Você não precisa casar-se com ele se não o ama. Há outras formas de resolver os problemas que a preocupam. - Por que acha que tenho problemas? - Eu sei que vai se casar para fugir de uma situação desagradável. - Você parece que sabe mais do que eu. Onde conseguiu essa informação? - De seus olhos. Não sabe que eu leio seus pensamentos? - Estarei dando a perceber tanto assim? - Não. Você até que dissimula muito bem. Para os outros. Para mim, não. - Por que se interessa tanto pelo que penso? Sinto que você vive me observando. - Sou um estudioso do comportamento. O que me interessa são os sentimentos, as reações, como trabalhamos nossas emoções. - Está me olhando como uma cobaia. - Eu não diria isso. Eu a admiro. Você é uma mulher forte, inteligente, criativa. Eu gostaria muito que encontrasse o caminho da felicidade. Você tem tudo para isso. - Não penso assim. O que eu queria mesmo é ficar em paz, tocar minha vida. Ser independente para poder ir embora. - Mas você já é independente e está tentando se escravizar. 119 - Eu quero é fugir, deixar este lugar, desaparecer. - Sair de uma situação ruim para uma pior só vai agravar sua infelicidade. - Você diz isso porque não sabe. Ah, se você soubesse! - Eu sei de tudo. Ela se assustou: - Sabe? O quê? - Tudo. Sei quem é seu amor impossível. - Como soube? Alguém contou? Quem mais sabe? - Calma. Ninguém contou. Eu deduzi. Fique tranqüila, sei guardar segredo. Só quero que pense melhor e não faça uma bobagem por causa disso. - Estou envergonhada! - Isso acontece. Não tem do que se envergonhar. Os olhos de Liana encheram-se de lágrimas. Sua dor, represada tanto tempo, transbordou e ela não conseguiu dominar o pranto. Ele a abraçou respeitoso. De repente ela tentou enxugar os olhos, dizendo: - Meu Deus! Se alguém vir! Ele tirou o lenço do bolso e deu-o a ela, dizendo: - Não se preocupe. Estamos sozinhos no caramanchão. As crianças estão lá dentro e não sabem que cheguei. - Desculpe, não consegui controlar-me. - Desabafar faz bem. Alivia a alma. - Sinto-me confortada com seu apoio. Eu o admiro muito. Gostei muito de seu livro. Fez-me pensar sobre a vida, mudou um pouco algumas de minhas idéias. - Quero ser seu amigo. Prometa que vai pensar melhor e não consumar um casamento sem amor. - Que outra coisa posso fazer? Eulália é muito dedicada. Eu a amo muito. Tem sido como uma mãe para mim. Prefiro morrer a pensar que ela venha um dia a saber a verdade. Entendeu? - Sim. - Já pensei em ir embora para outra cidade, mas Eulália nunca concordaria. Iria desconfiar. Sempre acatei suas sugestões. - Vamos pensar e procurar outra solução para você. - Você tem horror a casamento! - Tenho mesmo. - Não pensa mais em casar-se? 120 - Não. Estou muito bem. Para que iria me escravizar novamente? Liana olhou curiosa para ele. Alberto era um homem bonito, culto, jovem ainda e bastante atraente. Conseguiria escapar? - Viver sozinha me atemoriza - disse ela. - Mário pode ser um bom companheiro. - Pode. É um homem culto, de bons princípios e a ama. - Isso me basta. - Não creio. Você não o ama, e sentir o amor é fundamental. Não é o amor do outro que nos alimenta, mas o nosso. - O amor para mim só trouxe sofrimento. Não preciso dele. - O amor nunca provoca dor, mas prazer, alegria, bem-estar. O que aconteceu com você pode ter sido tudo, menos amor. - Se eu não amasse, nada disso teria acontecido. Tenho sido assediada muitas vezes, por homens interessantes e atraentes. Sempre resisti. Por que teria cedido se não fosse por amor? Alberto olhou-a hesitante por alguns instantes, depois decidiu: - Você é uma mulher inteligente. Posso falar claramente? Não vai se ofender? - Não. Fale. - Eu não creio que esteja amando nem que se entregou por amor. Você é uma mulher ardente, cheia de vitalidade, pronta para amar de verdade. Ele, homem experiente, apaixonado, soube abordar você de tal forma que despertou seu desejo, sua fome de amor. Liana ruborizou-se: - Você acha que sou tão venal? - Não. Acho que é uma mulher saudável, livre, cheia de vida, normal. A mulher tem tanto desejo quanto o homem. A educação, a sociedade, criaram barreiras de tal forma que vocês sentem vergonha de admitir isso. Mas a sedução, a tentação, acontecem com todas as pessoas, independentemente do sexo. - Você acha que fiquei com ele sem amor? - Isso é você quem pode avaliar. Mas, percebendo sua reação depois do fato, acredito que o que sentiu foi atração sexual mesmo. Liana levantou-se corada. Alberto aproximou-se, segurou a mão dela e continuou: - Não se envergonhe. É melhor perceber a verdade do que estragar sua vida acreditando em um amor impossível, fechando a porta para a felicidade. Algum dia, alguém vai despertar seus sentimentos para um amor verdadeiro. Sentirá no corpo o ardor do desejo, nos lábios a vontade de beijar, nas mãos o desejo de acariciar. 121 Mas estará presa a uma pessoa que não ama, terá de se controlar e perder a suprema ventura de expressar seus sentimentos. Alberto falara com o rosto bem próximo ao seu, e ela podia sentir seu hálito. Estremeceu, olhou-o nos olhos e perguntou: - Você alguma vez já amou assim? - Não. Eu pensei que estivesse amando. Mais tarde compreendi que estava enganado. Por isso me separei. Um dia, eu sei que vai acontecer comigo. Não sei quando, mas, quando ocorrer, quero estar livre para viver plenamente minha vida. - Tem certeza de que será correspondido? - Não. Se for correspondido, será a felicidade máxima. Entretanto, se não for, continuarei amando e expressando meu amor. Eu sei que só o amor incondicional pode alimentar nossa alma. Não quero entrar na angústia da paixão, da esperança, da dúvida. Eu quero sentir essa energia maravilhosa que tudo transforma e dá alegria de viver, entusiasmo, prazer. Os olhos de Alberto brilhavam e Liana sentiu seu coração bater mais forte: - O que diz é um sonho impossível. Esse amor não existe. Você mesmo falou que todos nos deixamos levar pelo desejo, pelo sexo. - A incapacidade de amar das pessoas não impede que o amor exista. Tenho visto coisas horríveis em nome do amor. E por causa delas as pessoas sofrem. Repito: o amor verdadeiro não é dor; é prazer, bem-estar. O resto são ilusões, sonhos que a vida vai destruir. Você está enganada. O amor incondicional é a única verdade da vida e a chave da felicidade. - Você acredita mesmo nisso? - Sim. Por isso, conservo minha liberdade. Pense nisso, Liana, não feche seu coração ao amor. Não se contente com menos. Você merece ser feliz. - Vou pensar - disse ela retirando a mão e saindo do caramanchão. Alberto ficou pensativo, parado, vendo seu vulto caminhar lentamente rumo à casa. Que mulher!, pensou. Vendo-a tão perto, ouvindo sua respiração, sentira vontade de abraçá-Ia e beijar seus lábios carnudos. Controlou-se a custo. Não podia deixar-se levar pela atração que ela exercia sobre ele. Não queria complicações em sua vida. Gostava das crianças. O dinheiro que ganhava dando aulas, somado ao que recebia pelos artigos que mandava para um jornal, permitia que ele continuasse usufruindo da vida calma daquela cidade e que pudesse dedicar-se a escrever seus livros. 122 Não queria pôr tudo a perder, criando uma situação constrangedora. Preferia continuar como amigo, ajudando Liana a compreender seus problemas e procurar melhor solução. Ele se sentia nervoso só em pensar que ela poderia mesmo casar-se com Mário. Liana era mulher ardente, precisava de um homem à altura. O engenheiro não lhe parecia adequado. Faria o possível para desfazer esse noivado. 123 Capítulo 9 A chuva caía fina e Liana, desanimada, olhava pela janela da sala, sem ver a beleza das flores do jardim nem o verde viçoso das folhagens. Fazia seis meses que ela ficara noiva, e Mário insistia em marcar a data do casamento. Ele comparecia religiosamente todos os fins de semana para vê-Ia, sempre lhe trazendo uma lembrança delicada: um perfume, algumas flores, um adereço. Cada dia que passava ele ficava mais impetuoso e estava sendo difícil controlar seus arroubos apaixonados. Liana não queria ficar a sós com ele, a fim de evitar que a beijasse. Alberto observava suas atitudes e não perdia ocasião para sugerir que acabasse com o namoro. A princípio ela se esforçara para gostar do noivo, mas seu beijo era-lhe desagradável e sua proximidade incomodava-a. Sentia vontade de empurrá-Io, mandá-Io embora, e algumas vezes chegara a irritar-se, pretextando indisposição a fim de que ele não se aproximasse. Nas últimas semanas a situação ficara pior. Liana, que passava bem durante a semana, quando ia chegando o sábado, dia de Mário visitá-Ia, sentia-se mal, com falta de ar, dores no estômago. Eulália estava assustada. - Precisamos ver o que você tem. Esse mal-estar não é natural. Está emagrecendo, tem a fisionomia cansada, perdeu o apetite. Apesar dos protestos de Liana, chamou o médico, que receitou alguns calmantes e fortificantes, não tendo encontrado nenhuma doença. Eulália não se conformava e ficava inventando pratos apetitosos para ver se ela se alimentava melhor, cuidando que não esquecesse o fortificante. O carinho e a dedicação da irmã faziam-na sentir-se mais culpada pelo deslize que cometera e davam-lhe forças para continuar a manter o noivado como a única forma de deixar aquela casa sem que ela desconfiasse. . "Se ao menos ele não viesse hoje por causa da chuva...", pensou ela. - Um doce por seu pensamento! Ela se voltou e sorriu: - Alberto! Não vi seu carro no pátio. Pensei que não tivesse vindo hoje. - Eu precisava. As crianças vão prestar um exame na segunda-feira. Precisam estar afiadas. 124 - Eles vão muito bem. - São muito inteligentes. Trabalhar com eles é um prazer. Tenho aprendido também. Liana sorriu. - Gosto de ver o interesse deles, estão sempre querendo descobrir como as coisas funcionam, fazendo experiências. Quando estão brincando, conversam sobre ciências, história, geografia, até física. Contam tantas histórias que eu me delicio ouvindo-os. - As crianças são naturalmente interessadas em aprender, em cooperar. Quando você sabe motivá-las, o conhecimento torna-se um prazer, uma necessidade. Acredito que irão passar. Mesmo assim, voltarei amanhã cedo para repassar algumas coisas. - Eulália está muito contente com a melhora de Eurico. Está mais corado, engordou e já não se queixa como antigamente. - Em compensação ela anda preocupada com você, que está cada dia mais abatida. Quando é que vai criar coragem e resolver de vez esse noivado infeliz? Liana passou a mão pela testa, como querendo afastar os pensamentos desagradáveis. - Ao contrário. Acho que vou marcar a data do casamento. Mário quer casar dentro de dois meses. - Se está disposta a se suicidar, faça isso. - Não tenho outro caminho. Liana olhou preocupada para o corredor que levava à cozinha. Temia que alguém ouvisse. - Não se preocupe. Dona Eulália está lá em cima com os meninos. Quando acabei a aula, ela os levou para cima dizendo que ia fiscalizar o banho deles e a arrumação dos quartos. Se você não se libertar dessa opressão, vai adoecer de verdade. - O médico disse que não tenho nada. Só estou um pouco anêmica e sem apetite. É que meu estômago parece que está sempre cheio, como se eu tivesse acabado de comer. Por isso não tenho me alimentado direito. - Seu problema é só emocional. O estômago é o órgão da aceitação. Quando você se obriga a alguma coisa da qual não gosta, ele registra. Todo problema de estômago vem da contrariedade, da não-aceitação. - É difícil acreditar que um órgão do corpo reaja às emoções. - Por quê? Nós somos espíritos, mas somos o corpo também. No momento, estamos integrados. O corpo possui a sabedoria da natureza, e a natureza é a essência divina. 125 Sempre que estamos fazendo alguma coisa contrária à nossa natureza, ele tenta nos chamar a atenção. - Não estou entendendo. - Seu estômago está avisando que esse noivado é contra sua natureza. Você não gosta de Mário. Está forçando uma situação que sua alma não aceita. - De onde tirou essa teoria? - Da vida. Observando. Faça uma experiência: acabe o noivado, e seu estômago não lhe dará mais problemas. - Custo a crer. Você é contra meu noivado. Não está dizendo isso só para me convencer? - Estou dizendo isso porque gosto de você e desejo vê-la bem. Se insistir, vai acabar com uma úlcera ou coisa pior. - Por que o estômago? - Cada parte do corpo tem uma função definida no equilíbrio da saúde. O estômago é a aceitação dos alimentos; os intestinos, a seleção; os braços, o dar e receber; as pernas, o apoio. Seu estado emocional reflete-se diretamente no local correspondente do corpo que começa a se ressentir. - Em seu livro você fala que o mundo é energia e que nós somos seres energéticos. Que temos corpo físico e corpo astral. Que captamos e exalamos energias. É por isso? - De certa forma é. A energia vital é só potência. Somos nós que, conforme nossas atitudes, a formatamos desta ou daquela forma. Elas refletem nossas crenças, permanecem fazendo parte de nosso corpo astral, influenciando nossa vida, automatizando nossos atos, criando situações que se repetem enquanto não modificarmos as atitudes que lhes deram origem. - Por isso você diz que se eu não acabar o noivado não vou sarar? - É. - Você quer dizer que a vida é inteligente? - Claro. A vida é Deus em ação. - Isso acontece com todas as pessoas? - Só com as que já têm conhecimento para agir melhor e não o fazem. Em meus estudos tenho observado que a natureza age de forma relativa ao grau de desenvolvimento de cada um. Um espírito mais primitivo não somatiza as emoções com a mesma rapidez e facilidade do que outro que é mais evoluído. - Isso não seria ser parcial, protegendo uns mais que outros? - Ao contrário. Ela age como os pais com os filhos. Só protege enquanto são incapazes de agir por si. 126 Depois, deixa que cada um assuma a responsabilidade pela própria vida. - A vida é cruel. - Não é verdade. Ela sempre faz o melhor. Se estamos neste mundo para amadurecer, aprender a viver melhor, temos de usar nossos re cursos, buscar o jeito certo de formatar as energias vitais, desenvolver nosso mundo interior, criar o lugar e a maneira como desejamos viver. Esse é um direito nosso. Todos somos livres e vivemos no mundo que criamos. Se ele não está bom, temos o recurso de mudá-Io, revendo nossas atitudes, observando os fatos da vida, experimentando até conseguirmos um resultado melhor. A felicidade é conquistada assim. - O que fazer com as emoções que não podemos controlar? - Não se faça de fraca. O que invalida sua força é a maneira como você interpreta os fatos. Está iludida pela vontade de amar, pelo sonho impossível. Tenho observado e sei que não ama Norberto. O que a está empurrando para esse casamento é a culpa, a necessidade de se punir pelo ato impensado que cometeu. - Isso não. Reconheço minha culpa, mas quero evitar uma recaída com ele e um atrito com Eulália. Se ela souber o que aconteceu, como terei coragem de encará-Ia? - E por isso se atormenta, quer inutilizar sua vida, cometer um ato que vai infelicitar não só você mas Mário também. Pense, não é justo com ele. - É, eu sei. Às vezes me sinto duplamente culpada. - Pretende levar sua vida carregando esse peso? Não percebe que está se destruindo? - Agora é tarde. A decisão está tomada. Vou marcar a data e resolver logo. - Lamento que pense assim. Garanto que vai arrepender-se. - Farei qualquer coisa para deixar esta casa sem que Eulália desconfie de nada. - Nós poderíamos arranjar outro jeito. - Como? Alberto animou-se. Uma idéia louca passara-lhe pela cabeça. - Você disse que faria qualquer coisa. Nesse caso tenho uma solução melhor. Você acaba esse noivado e vai morar comigo, em minha casa. Liana olhou-o assustada e seu rosto enrubesceu: - Não estou entendendo. - Você pode dizer a Eulália e a Norberto que estamos apaixona dos e vai para minha casa. 127 Será apenas para que você possa se livrar do noivo indesejado e dos problemas de família. - Está brincando comigo? - Absolutamente. Estou falando sério. - Você não é casado? - Sou separado. - Isso iria criar muitos problemas com Eulália. Ela é conservadora. Brigaria comigo. Além do mais, você não tem nada com meus problemas. Iria invadir sua privacidade, atrapalhar sua vida amorosa. Moramos em uma cidade pequena, já pensou o escândalo? - Pensei que fosse mais corajosa e não tivesse preconceitos. Sua liberdade não vale esse pequeno sacrifício? - Se isso acontecesse, você não poderia mais morar aqui. Eulália não o deixaria mais dar aulas para as crianças. Seria o caos. Tenho de resolver meus problemas do meu jeito. Não posso envolvê-Io nisso. Alberto aproximou-se dela olhando-a nos olhos: - Gosto muito de você, Liana. Não desejo vê-Ia infeliz. - Obrigada pelo apoio. Na verdade, você é meu único amigo. Nem imagina o bem que me tem feito. Um carro passou lá fora e Liana olhou imediatamente. Apesar da chuva, Mário havia chegado. Seu rosto empalideceu, mas ela procurou sorrir tentando dissimular. Alberto olhou-a penalizado, mas não disse nada. Naquela mesma tarde eles marcaram o casamento para dali a três meses. Mário estava radiante. Havia comprado uma bela casa em São Paulo e queria que Liana a decorasse a seu gosto. Eulália estava feliz, mas AIberto percebeu a angústia de Norberto, que inquieto a custo se esforçava para esconder o desgosto. Ele mesmo sentiu-se triste. Havia falado sério quando a convidara para morar em sua casa. Quando pensava nesse casamento, sentia-se angustiado, misturando sua experiência pessoal com os problemas que imaginava que Liana iria ter. Se fosse solteiro, não teria hesitado em casar-se com ela para libertá-Ia desse odioso compromisso. Gostava de conversar com ela, sua presença era um prazer, admirava sua inteligência, sua beleza. Poderia usufruir de sua companhia sem compromissos nem cobranças. Ele não pensava mais em amar. Uma vez fora o bastante. De todos, só Eulália estava feliz. Casar bem a irmã sempre fora sua preocupação. Gostava de Mário e acreditava sinceramente que eles seriam felizes. Não duvidava que Liana o estivesse amando. Ela sempre lhe disse que só se casaria por amor. 128 Mas sentia que alguma coisa não estava bem com ela, que lhe parecia um tanto apática quando se tratava dos assuntos do casamento. Eulália estava entusiasmada, queria que o casamento se realizasse em São Paulo, com uma grande festa. Três meses era pouco para terminar o enxoval, providenciar os convites, ultimar os arranjos e a cerimônia. Depois, Mário queria que Liana fosse a São Paulo ver a casa e determinar a decoração a seu gosto. - Você vai para São Paulo com Norberto na próxima semana. Vai ver a casa, o enxoval, tudo - disse Eulália. - Não quero ir a São Paulo agora. Mário tem muito bom gosto. O que ele fizer está bem-feito. - E o casamento? - Quero me casar aqui mesmo. Com simplicidade, sem pompa nem nada. - Isso não pode ser. Mário é um engenheiro de família importante. Tem muitos amigos. Aqui não há um bom hotel, e em nossa casa não teríamos acomodações para todos. Depois, há o vestido de noiva. Em São Paulo você vai comprar tudo do melhor. - Para que tudo isso? Chamamos o juiz de paz aqui em casa e pronto. Casamo-nos e tudo estará terminado. Para que tanta confusão? Eulália abriu a boca, admirada. Liana sempre fora moderna, gostava do luxo, de vestir-se na moda, de estar em evidência. Ela não lhe parecia bem. Havia emagrecido, estava pálida, sem apetite. O que estaria acontecendo? - O que há com você? Está doente? - Não. Estou bem. Eulália colocou a mão na testa dela. - Febre você não tem. Mas tem emagrecido, não come, está pálida. Está assim desde que teve aquela alucinação. - Aquilo me fez mal. - Precisa ficar bem para o casamento. Talvez seja melhor ir para São Paulo e consultar o Dr. Caldas. - Não estou doente. Estou só um pouco cansada. - Vou falar com Norberto para marcar uma consulta com o Dr. Caldas. Quero que esteja muito bem no dia de seu casamento. Será o dia mais feliz de sua vida! Vai se casar com o homem que ama! - Não quero que faça isso! Não irei a São Paulo antes do casamento. Está decidido e pronto. Eulália olhou-a assustada. Liana sempre fora cordata, aceitava suas determinações. 129 Decididamente, ela não estava bem. Naquela noite mesmo, telefonou para Norberto, desabafando: - Estou preocupada com Liana. - Por quê? - Emagreceu, está pálida, sem apetite. Gostaria que fosse consultar o Dr. Caldas na próxima semana. Ela não quer, mas marque a consulta para a semana que vem. Quero que ela volte com você neste fim de semana e vá ao médico. - Está bem. Farei o que me pede. - Peça a Mário que nos ajude a convencê-Ia. - Não o tenho visto. Estou trabalhando muito e não me sobra tempo. - Telefone para ele e peça que nos ajude. Ela está tão indisposta que nem quer festa de casamento. Isso não é natural. - Se ela não está bem, deveríamos mudar a data, esperar que ela se sinta melhor. Casar sem estar com saúde não é bom. - Ela quer se casar o quanto antes. Parece que tem pressa. Não sei se vai querer mudar a data. Mas, se o médico achar que ela precisa de um tratamento, faremos isso. - Está certo. Falarei com Caldas. Eulália desligou, mas não disse nada a Liana. Achou melhor esperar uma ocasião favorável. No dia seguinte, Eulália procurou conversar com Alberto. Durante aqueles meses aprendera a admirar o professor não só pelos resultados obtidos com as crianças mas também por sua postura delicada, discreta, educada. Sabia que Liana o apreciava e o tinha em alta conta. Estavam sempre conversando e ela algumas vezes até tomara parte nas conversas, aprendendo como educar os filhos ou lidar com os problemas do dia-a-dia. Quando ele acabou a aula e as crianças foram brincar no jardim, Eulália levou-lhe uma xícara de café. - Gostaria de conversar um pouco com você. - Estou à disposição. Sente-se, por favor. Ela se acomodou e começou: - Estou preocupada com Liana. Está doente e recusa-se a ir ao médico. Queria pedir-lhe que me ajude a convencê-Ia. - É um assunto muito pessoal. - Eu sei. Aliás, ela sempre me ouviu, mas agora está diferente. Não quer festa no casamento nem vestido de noiva. Está abatida, indisposta. Como é que pode se casar desse jeito? Precisa tratar-se. 130 Já telefonei a Norberto para marcar uma consulta com nosso médico para a semana que vem. Só que temos de convencê-Ia a ir. Pela primeira vez ela não quer obedecer-me. - Talvez seja o casamento que a esteja preocupando. - Isso seria natural. Toda noiva fica nervosa à medida que a data do casamento se aproxima. Com ela acontece o oposto. Ela anda apática, diferente. - Posso ser sincero? - Faça o favor. - Ela não ama Mário. Eulália admirou-se: - Isso não é possível! Ela sempre me dizia que só se casaria por amor. Depois, ninguém a está obrigando. Ela se casa porque quer. Você está enganado. - Se ela amasse o noivo, estaria feliz. Não é isso que está acontecendo. Anda triste, abatida. Quando ele aparece, ela fica nervosa, não gosta de ficar sozinha com ele. Nunca reparou nisso? - Não. Ela é recatada, não gosta de demonstrar seu afeto na frente das pessoas. Você diz isso com tanta segurança... Ela lhe falou sobre o assunto? - Estou comentando o que observei. Só isso. Se deseja que sua irmã seja feliz, aconselhe-a a desistir desse compromisso. - Por que faria isso? Mário é um excelente rapaz. Estou certa de que a fará muito feliz. - Ele é ótima pessoa, mas ela não o ama. Está cometendo um engano que vai infelicitá-Ia pelo resto da vida. Eulália olhou desconfiada para ele. Por que Alberto estava tão contra o casamento? Estaria apaixonado por Liana? Algumas vezes percebera admiração nos olhos dele quando a fitava. Remexeu-se na cadeira sem saber o que dizer. - Vou pensar no assunto. Obrigada por me ouvir. - Não acreditou no que eu disse. Mas o futuro dirá que estou sendo sincero, que admiro Liana e penso que ela merece uma vida melhor. Eulália deixou a sala intrigada. Como não percebera antes o interesse do professor por sua irmã? Liana estava sendo ingênua, tratando-o como amigo. Ele era um homem separado. Ainda bem que apareceu Mário, senão ela poderia ter se deixado envolver por Alberto. Reconhecia que ele, além de ser um homem bonito, inteligente, simpático, tinha um charme especial. 131 Logo sua irmã estaria casada e tudo ficaria resolvido. Se dependesse dela, o casamento se realizaria na data marcada. Precisava convencer a irmã quanto aos preparativos. O que Liana desejava não tinha cabimento. Quando Norberto chegou, no fim de semana, Eulália ficou sabendo que ele marcara a consulta conforme pedira. Assim que Mário chegou, conversou com ele reservadamente, pedindo-lhe para convencer Liana a ir ao médico fazer o exame pré-nupcial. Ela não podia se negar. Todas as noivas faziam esse exame. Mário não queria, mas Eulália insistiu e ele a contragosto tocou no assunto. - Ontem fiz meu exame pré-nupcial. Está tudo em ordem comigo. Quando vai fazer o seu? - Comigo está tudo bem. Fiz vários exames há pouco tempo. - Gostaria que fosse a São Paulo com Norberto amanhã. Quero levá-Ia para ver a casa. Temos de ultimar os preparativos para o casamento, escolher convites, programar a recepção. Há também alguns prospectos de viagem. Onde deseja passar a lua-de-mel? Liana ficou pensativa por alguns instantes, depois disse: - Não desejo viajar antes do casamento. Você entende muito mais do que eu de decoração. Tenho certeza de que fará tudo muito bem. Quanto à lua-de-mel, você pode trazer esses prospectos na próxima semana e decidiremos. Gostaria também que nosso casamento fosse realizado aqui mesmo, com simplicidade, apenas para nossas famílias. Mário olhou-a admirado. Seus pais eram pessoas de sociedade, sonhavam fazer de seu casamento um acontecimento. - Meus pais ficariam decepcionados. Sou o único filho homem, e o primeiro que se casa. Não estou entendendo. Sempre pensei que gostasse de festas. - Acho perda de tempo convidar pessoas que não têm nada a ver com nossa felicidade. - Não concordo, Liana. Até agora tenho cedido a tudo quanto você pediu, mas desta vez não vai ser possível. Tenho parentes, amigos, gostaria de tê-los reunidos no dia mais feliz de minha vida. Você precisa compreender. - Vou pensar. - Não temos muito tempo. Tem de resolver depressa. Eulália, que se aproximara e ouvira parte da conversa, interveio: - Ela irá amanhã, sim. - Só se você for comigo. 132 - Pois eu vou. Hilda tomará conta das crianças. Ficaremos lá e resolveremos tudo de uma vez - respondeu Eulália, decidida. Liana não teve mais argumentos. Ela esperava que Eulália recusasse. Por outro lado, se ela fosse junto, Norberto não teria como a pressionar para desistir do casamento, como fazia sempre que estavam sozinhos. Era melhor mesmo ir, para evitar desconfianças. Teria de se sacrificar até o fim. Domingo à noite, preparou a mala. Eles iriam viajar bem cedo na manhã seguinte. Deitou-se pensando desanimada nessa viagem que não sentia vontade de fazer. Custou a dormir. No meio da noite acordou assustada. Alguém andava pelo quarto. Lembrava-se de haver fechado a porta à chave. Quem poderia ser? Acendeu o abajur e não viu ninguém. - Acho que sonhei. Deitou-se novamente, apagou a luz e então viu uma claridade nos pés da cama, e o mesmo homem daquela noite apareceu. Olhava-a admirado. Liana ficou paralisada de medo. Arrepios corriam-lhe pelo corpo. Tentou gritar, mas a voz não saiu. - Você não vai sair daqui - disse ele. - Eu não vou deixar. Desta vez você não vai escapar. Liana sentiu a cabeça rodar e perdeu os sentidos. Quando acordou, o dia havia amanhecido e alguém batia na porta do quarto. Tentou levantar-se, sentiu tontura, mas fez um esforço e abriu a porta. Eulália, vendo-a, disse assustada: - Liana, você está pálida. O que aconteceu? - Ele voltou - disse. - Ameaçou-me. Estou tonta, com medo. Eulália amparou-a, fazendo-a deitar-se. - Você sonhou. - Não foi sonho. Ele veio e me ameaçou. Eu desmaiei. Foi antes de o dia amanhecer. Só acordei agora. Estou tonta, enjoada. - Nesse caso não vai dar para viajar. Vamos chamar o médico. Iremos outro dia. Obrigou-a a deitar-se, tentando dissimular a preocupação. Chamou Hilda, pedindo-lhe que ficasse com Liana enquanto tomava as providências. Procurou Norberto para dizer-lhe que iriam outro dia. - Liana não me parece bem - disse ele. - Eu já disse: seria melhor adiar a data do casamento até que ela melhore. Ela não pode se casar com a saúde desse jeito - afirmou, tentando ocultar sua satisfação. - Vamos ver. Pode ser coisa sem importância. - Você mesma pediu uma consulta com Caldas. 133 - Tem razão, ela não tem estado bem. Essas alucinações me preocupam. Julga ter visto aquele homem de novo. Acho que deveria insistir na viagem. Seria melhor ela ficar em São Paulo até o casamento. - Ela não vai querer ir - disse ele pensativo. - E eu não posso ficar lá o tempo todo. - Nesse caso, não vejo outro remédio senão adiar o casamento para quando ela estiver melhor. - Não sei o que pensar. Vamos aguardar alguns dias e ver como ela passa. - Está certo. Se eu não tivesse uma audiência importante em São Paulo, ficaria aqui mais alguns dias. - Eu sei. Agradeço seu interesse. Falarei com o Dr. Marcílio. Não confio muito nele, é médico da roça. Se ela pudesse levantar-se, eu a levaria até Ribeirão Preto. - O Dr. Marcílio é médico formado. Poderá socorrê-Ia até que possa ir ao Dr. Caldas, que é de nossa confiança. Eulália mandou uma empregada chamar o médico e subiu para o quarto de Liana. Mário estava ao lado dela, segurando sua mão com carinho. - Mandei chamar o Dr. Marcílio. Como você se sente? - perguntou Eulália. - Mal. Não consigo respirar direito. A cabeça está tonta e o enjôo continua. - Tentou levantar? - indagou Eulália. - Tentei, mas fico pior. O quarto roda, e parece que vou cair. - Nesse caso é melhor continuar deitada. Logo o médico estará aqui. Infelizmente não vamos poder viajar conforme combinamos. Iremos assim que ela melhorar. - Ficarei também até que ela melhore - disse Mário. - De forma alguma - disse Liana. - Você tem seus negócios e não pode ficar aqui. Ele a olhou nos olhos. Às vezes tinha a impressão de que ela o empurrava. Estaria enganado? Ela não vibrava de amor em seus braços, estava sempre procurando pretextos para não ficarem sozinhos. Seria recato ou falta de amor? Ele, no entanto, a cada dia mais e mais a amava e não via a hora de tê-Ia como esposa. - Você não quer que eu fique? - perguntou. Eulália olhou-os surpreendida e lembrou-se das palavras de Alberto. - Não se trata disso - respondeu ela. - Sinto-me culpada por não poder cumprir com o que planejamos. 134 Sei que é um homem muito ocupado. Não gostaria de atrapalhar seus afazeres. - Vou esperar pelo médico e ver o que ele diz. Depois resolveremos isso. Alberto estava dando aula para os meninos e no intervalo ficaram esperando Maria trazer a bandeja com refrescos e uma pequena merenda. - Ela está demorando, vou ver se ela esqueceu - disse Amelinha, que saiu e foi até a copa, onde a bandeja estava arrumada. Ouviu que as duas criadas conversavam na cozinha: - Ela está mal. A Dona Eulália mandou chamar o Dr. Marcílio. Ela não bota fé nele, mas se tem alguém que pode curar a Liana é ele, que entende de alma do outro mundo. - Cruz credo! O que será que a alma do coronel quer com ela? Se eu visse ele, acho que tinha uma coisa... - Pudera! A coitada está que faz pena. Não pode nem levantar da cama. Amelinha esqueceu a bandeja e voltou à sala de aula para contar a novidade. - Tia Liana viu a alma do coronel e ficou doente. Mamãe mandou chamar o médico. - Tem certeza? - indagou Alberto. - Ouvi as empregadas conversando na cozinha. Elas disseram que tia Liana viu a alma do coronel e que está doente. - Não seja linguaruda - disse Eurico. - Se mamãe ouve, não vai gostar. Ela não acredita em alma do outro mundo. - Ela não acredita, mas tia Liana viu. E a tia não mente. Eu acredito que ela viu mesmo. - Claro que ela viu. Eu também o tenho visto. Não é, Nico? Lembra-se do outro dia? - O que foi que vocês viram? - indagou Alberto com interesse. - Ele viu o coronel e eu depois sonhei com ele - esclareceu Nico. - Lembra, professor? Eu contei para o senhor. A empregada entrou com a bandeja, e Alberto perguntou: - Aconteceu alguma coisa com Liana? - Ela não está bem. A Dona Eulália mandou chamar o médico e ele já chegou. Está lá em cima, no quarto. Alberto deixou as crianças merendando e foi até a sala. Norberto e Mário estavam lá, calados, esperando. - Soube que Liana não está passando bem. O que aconteceu? 135 - Ela está assustada. Julga ter visto outra vez aquele homem. Acho que ela sonhou - disse Mário. - Ela não tem andado bem ultimamente. Emagreceu, anda nervosa, pálida - aduziu Norberto. Hesitou ligeiramente e concluiu: - Acho que vocês devem adiar a data do casamento. Pelo menos até ela melhorar. - Se for preciso, faremos isso - respondeu Mário com voz triste. Norberto saiu para dar algumas ordens, e Alberto considerou: - Não é isso que você deseja, não é? - Não. Estou contando os dias que faltam para nosso casamento. Sabe, acho que ela pode estar sendo influenciada pelas crendices das pessoas daqui. Eles acreditam que quem morre pode voltar e aparecer aos vivos. Esta casa é tida por eles como assombrada. A mãe de Nico nem queria que ele entrasse aqui. - Você não acredita em vida após a morte? - Sei lá. De certa forma, quem morre deve ir para algum lugar. Não tenho certeza. Nunca pensei nisso. O que sei é que há muita ilusão, crendices, e as pessoas ficam assustadas. Liana está com muito medo. Ele descreveu o que se passou com ela e concluiu: - É o medo que a faz sentir-se mal. Ela acha que se sair daqui ele a vai perseguir. - Esse assunto é sério. Eu acredito que quem morre pode comunicar-se com os vivos. Há gente séria estudando esses fenômenos. O povo fantasia muito, mas, se Liana disse que viu o homem, eu acredito. Ela viu mesmo. Mário passou a mão pelos cabelos, nervoso. - Isso não pode ser verdade. Nesse caso, ao invés do médico deveríamos ter chamado um padre. - Eles não aprenderam a lidar com isso. Seria melhor chamar um bom curandeiro. Mário olhou-o assustado: - Como pode dizer uma coisa dessas? Você é um professor, um homem de cultura. - Minha experiência ensinou que quem resolve esses casos é um bom médium. - Norberto e Eulália sabem que você pensa assim? - Se ela não melhorar, serei o primeiro a informá-Ios. Mário não respondeu. O que ele queria mesmo é que Liana ficasse bem e eles pudessem se casar na data marcada. No quarto, o médico, segurando o pulso de Liana, examinava-a. 136 Era um homem alto, forte, de meia-idade, cabelos grisalhos, olhos pequenos e ágeis, rosto corado em que o bigode escuro contrastava. Ouviu atentamente tudo quanto Liana lhe contou sobre a aparição. Por fim, disse calmo. - Ele não pode fazer-lhe nenhum mal. É seu medo que está abalando sua saúde. - Não pude evitar. Ele é horroroso. Quando ele aparece, o pavor toma conta de mim - disse Liana. - Ela sonhou, doutor - interveio Eulália. - Está se deixando levar por uma ilusão. - Ela viu, ele falou com ela. Eu acredito. - Não foi sonho, eu sei que não foi. Cheguei a sentir o hálito dele em meu rosto. - Só queria que soubesse que ele está se aproveitando de seu medo. Ele apareceu, mas não pode tocá-la nem lhe fazer mal. Entendeu? Vamos rezar juntos e você vai se acalmar. - E se ele voltar? - Você reza, chama seu anjo da guarda e ele vai embora. - É que fico apavorada, não consigo rezar. - Vamos rezar juntos e logo estará melhor. Pode arranjar-me um copo com água? Eulália, embora não concordasse, saiu para apanhar a água. Voltou em seguida, colocando o copo sobre a mesa de cabeceira. O médico segurou a mão de Liana, dizendo: - Feche os olhos. Pense em Deus. Ela obedeceu. Ele permaneceu em silêncio por alguns minutos. Liana estremeceu e começou a tossir. Ele continuou imperturbável. Ela aos poucos foi se acalmando. Ele largou suas mãos. Ela abriu os olhos e ele perguntou: - Então? Sente-se melhor? Liana suspirou fundo, depois disse: - Sim. Estou aliviada. - Agora tome esta: água. Ela obedeceu. - Mande preparar um chá de cidreira, Dona Eulália. Ela vai tomar o mais que puder. - Não vai receitar? - perguntou Eulália. - Já receitei. A cidreira é um excelente remédio para quem está nervoso, como ela. Vai lhe fazer bem. Ela precisa descansar. 137 Eulália não se sentia satisfeita, mas não disse nada. Aproximou-se de Liana: - Então, como se sente? - Bem melhor. O enjôo passou, a tontura também. Só estou sentindo fraqueza e vontade de dormir. - Descanse, minha filha - disse o médico. - Está tudo bem. Uma vez fora do quarto, Eulália não se conteve: - O que acha que ela tem, doutor? - Só medo. Ela viu um espírito e não estava preparada para isso. Está chocada. - Não é possível que o senhor acredite nessas coisas. Um médico! - Seria muito bom que a senhora começasse a aprender a lidar com isso. Quando começam a aparecer esses fenômenos, quanto mais depressa aprender como eles funcionam, melhor. Eulália não respondeu. Aquele homem era um simplório, da roça. Não podia levá-lo a sério. Acompanhou-o até a porta. - Nós pretendíamos ir a São Paulo hoje. Acha que Liana pode viajar? - Ela deve repousar. Deixe-a dormir. Amanhã voltarei e veremos. - Obrigada, doutor. Depois que ele saiu, ela foi ter com Norberto na sala. - Não vamos poder ir com você. Liana precisa repousar. Se ela melhorar, iremos na próxima semana. - O que disse o médico? - Que ela viu mesmo a alma do coronel. Que ficou doente de medo. Pode uma coisa dessas? Um médico? - Talvez tenha dito isso para acalmá-Ia. Como ela está? - Parece melhor. O mal-estar passou, mas sente-se fraca e o Dr. Marcílio disse que ela precisa repousar. Assim, não iremos com você. Norberto baixou os olhos para evitar que Eulália percebesse sua satisfação. - Nesse caso vou embora agora. Ele receitou? Eulália meneou a cabeça inconformada e sorriu ligeiramente irônica ao responder: - Só um chá de cidreira. Ele mais parece um curandeiro do que um médico. - O pessoal do interior tem seus próprios métodos. Acho melhor fazer o que ele diz. Afinal, a cidreira é uma erva calmante que, se não trouxer a cura, também não lhe fará mal ao fígado. 138 - Vou mandar preparar. - Mário também vai? - Não sei. Ele queria ficar, mas Liana não quer que ele se incomode. Tão perto do casamento, com tantas coisas a fazer, acha melhor que ele vá. Mário, que entrava na sala, ouviu o que ela disse. Aproximou-se dizendo: - Acho que vou mesmo. Liana está com sono e quer descansar. Amanhã telefono para saber como ela está. Norberto olhou para o engenheiro e disse sério: - Ela ficará bem. Embora Eulália não acredite no Dr. Marcílio, ele é muito conceituado aqui na cidade. Mário abanou a cabeça preocupado: - Não posso compreender. Liana era uma moça tão saudável. Tenho notado que de algum tempo para cá ela tem estado nervosa, indisposta, emagreceu. - Está emocionada com o casamento. É natural - respondeu Eulália. - Pode ser, Dona Eulália. Mas Liana sempre me pareceu uma moça moderna, que sabe o que quer. Norberto olhou para os dois e não disse nada. O que ele desejava mesmo era que aquele casamento não se realizasse. Liana estava querendo se casar sem amor, apenas para sair daquela casa e impedir que Eulália percebesse o que estava acontecendo com eles. Várias vezes pensara em separar-se de Eulália para viver com Liana, porém sabia que ela jamais concordaria. Se ele deixasse a família, perdê-Ia-ia para sempre. E isso ele não queria que acontecesse. Liana havia se tomado uma obsessão para ele. Pensava nela todo o tempo, recordando os breves momentos de intimidade que haviam tido, e a paixão fazia-o estremecer de emoção. Só em pensar que ela poderia casar-se com Mário e que ele privaria de sua intimidade, ficava louco de ciúme. Chegara até a pensar em acabar com a vida dele. Entretanto, apesar de tudo, não tinha coragem para cometer um crime. Ele haveria de encontrar uma forma de impedir aquele casamento, sem que ninguém soubesse. Enquanto colocava a mala no carro, Mário aproximou-se: - Estou preocupado, Norberto. Não quis falar diante de Eulália. - Preocupado com o quê? - Com Liana. Ela concordou com nosso casamento, mas às vezes desconfio que ela não me ama. Retrai-se quando me aproximo, às vezes parece que me evita. 139 Estamos perto do casamento e ela não me parece feliz nem entusiasmada. Isso está me incomodando muito. Não consigo pensar em outra coisa. Você é meu amigo, poderia ajudar-me. - De que forma? - Conversando com sua esposa. Tentando descobrir o que está acontecendo com ela. As duas são muito amigas. - Se houvesse acontecido alguma coisa com ela, Eulália teria me contado. - Às vezes desconfio que seu mal-estar tem a ver comigo. Disseram-me que ela passa bem a semana inteira e que só fica ruim nos fins de semana. - Liana está passando por um período ruim. Tem tido aquelas alucinações, está nervosa. - O que me aconselha? - Ela doente, você cheio de dúvidas... O melhor seria adiar o casamento até que ela melhore e as coisas fiquem claras para você. Não adianta começar uma vida a dois com tantos problemas. Se fosse comigo, eu faria isso. - Eu a amo tanto! Sonho com o dia em que seremos marido e mulher! - Quem ama espera. Depois, para casar-se você precisa estar seguro de que ela o ama. Um casamento sem amor nunca daria certo. Mário baixou a cabeça, triste. Ficou alguns segundos em silêncio, depois disse: - Você tem razão. Se ela não melhorar, adiaremos. Norberto sorriu e bateu ligeiramente nas costas de Mário, dizendo: - Assim é que se fala! Tenho certeza de que está tomando a melhor decisão. Despediram-se, e cada um entrou em seu carro para começar a viagem. 140 Capítulo 10 A partir daquele dia Liana foi melhorando. Levantou-se, mas sentia-se fraca, sem vontade de fazer nada. Todos na casa faziam o possível para alegrá-Ia, sem resultado. Uma tarde ela estava no caramanchão, sentada no banco, tendo no colo um livro que não lia, olhando os galhos da trepadeira que o vento balançava de quando em vez, perdida em seus íntimos pensamentos. Nico e Eurico aproximaram-se dela. - Está um lindo dia - comentou Nico, olhando com satisfação os passarinhos que voejavam perto. - É - concordou Liana. Eurico chegou bem perto e tomou a mão dela com carinho, dizendo: - Tia, quer ver como os beija-flores fazem para tomar água? Surpreendida, ela olhou para ele e sorriu. Notou que Eurico aos poucos estava se transformando. Perdera aquela palidez que tanto os preocupava, seu rosto ganhara expressão, colorido e até um pouco de gordura. Estava mais ágil, disposto, não se queixava como antes. - Você gosta dos passarinhos, não é? - perguntou ela. - Gosto, tia. Quando eu estava triste como você, eles me ajudaram a gostar da vida. Liana comoveu-se. Abraçou-o. - Você é um menino adorável. - Nico ensinou-me a ver a vida - respondeu ele. - Nico é um menino muito inteligente. Vocês estão muito bem. Gosto de vê-Ios por perto. - Nico ajudou-me também a perder o medo do coronel. Quando ele aparece, ele conversa e pronto. Liana assustou-se: - Você já o viu? - Já. Ele é meu conhecido. Sabe, mesmo antes de vir morar aqui, ele me aparecia. Estava junto com outras pessoas e eu sentia muito medo. - Não está inventando? Como é que você nunca disse nada? - Eu dizia para mamãe e ela me levava ao médico, dava remédios que me faziam ficar mal. Por isso eu nunca mais disse nada. - Então era isso que acontecia com você? 141 - Era. Mamãe não acredita em alma do outro mundo. Mas eu sim. Tenho visto muitas. - Por isso estava sempre com medo? - É. Foi Nico quem me ajudou a não sentir tanto medo. Quando eles aparecem e eu não posso dormir, chamo Nico. Ele vem, conversa e pronto: eles vão embora. Liana voltou-se para Nico com interesse: - Você também vê as almas? - Não. Eu sinto um ar diferente, mas não vejo. De vez em quando eu sonho com elas. - De que jeito você conversa com as aparições? Não tem medo? - Não. Eles só querem assustar. Sempre ouvi dizer que as almas dos mortos voltam para este mundo quando querem alguma coisa, e só vão embora quando são atendidas. Minha mãe tem medo, mas eu não. Quando aparecem, eu pergunto o que eles querem. Já com o coronel eu senti que ele quer perturbar Eurico porque ele tem medo, e falei para ele ir embora e não assustar mais. - Aí apareceu uma mulher que falou com ele, pegou no braço e levou embora - contou Eurico sério. Liana balançou a cabeça pensativa. Depois disse: - Custo a crer. Vocês falam disso com uma naturalidade! - O professor entende disso e tem nos ajudado muito - esclareceu Nico. - Ele conversa com vocês sobre isso? - Conversa, sim, tia. Ele diz que a alma do coronel não pode nos fazer mal e que ele abusa porque temos medo. - Foi isso que disse o Dr. Marcílio. Mas, na hora, não posso evitar. Aquele homem me olha de tal jeito que fico apavorada. - Sei como é isso - concordou Eurico, alisando a mão da tia com carinho. Na manhã seguinte, quando Alberto chegou, encontrou Liana à sua espera. Depois dos cumprimentos, ela disse: - Eurico contou-me que vê as aparições e que Nico conversa com elas. - Eurico tem mediunidade. - Tem certeza? Criança gosta de chamar atenção, fantasiar. Eurico sempre usou sua fraqueza para dominar os pais. Eles fazem tudo que ele quer. - Ele vê mesmo. - Isso não é perigoso? 142 - Pode ser se você não souber controlar. Por isso tenho conversado com eles procurando esclarecê-Ios. Quando vim para cá, Eurico vivia apavorado. Agora melhorou muito, como você já deve ter notado. Nico é excelente companhia, ponderado, sincero, lúcido. Possui um raro bom senso e uma compreensão muito acima dos garotos de sua idade. Como Eurico é muito inseguro e medroso, Nico com sua segurança o tem ajudado muito. - Tem razão. Mas essa história de conversar com a alma dos mortos é muito mórbida. Não acho aconselhável para ninguém, quanto mais para crianças. Ficaria mais tranqüila se você pusesse um fim a isso. - Não depende de mim. Não há como impedir a abertura da sensibilidade de uma pessoa. Quando acontece, o máximo que podemos fazer é aprender como conviver com ela de forma positiva. - Isso não pode ser positivo. Só de pensar fico toda arrepiada. - Porque você tem da morte e dos espíritos uma visão muito dramática, sobrenatural. Assim como à borboleta deixa o casulo e voa, o espírito deixa o corpo de carne e vai para outros mundos. Tudo isso é da natureza. Quem morre continua sendo igual ao que era em vida. Nem melhor nem pior. Por isso, há no astral espíritos maldosos, atrasados, mas há os iluminados, os bons. A igreja católica santificou vários deles. Antônio de Pádua, Teresinha, Francisco de Assis. O que são eles senão almas de pessoas que viveram neste mundo e desencarnaram? Você tem medo deles? - Claro que não. Eles são bons, só fazem o bem. Já o que eu vi... - Ele tem menos poder, se quer saber. Os espíritos de luz têm energia superior e por isso muito mais força, enquanto os atrasados não podem nada. - Isso não. O olhar daquele homem tinha uma força estranha que me dominou. Fiquei paralisada! - Você se paralisou com seu medo. Ele só pôde atingi-Ia por causa de sua fraqueza. Foi você quem lhe deu força. Se não lhe desse importância, ele não teria conseguido nada. Foi isso que ensinei aos meninos. E, como pode ver, eles estão encarando o processo com naturalidade. - Preferia que eles não se envolvessem com isso. - Não temos o poder de fazer essa escolha. Esses fatos ocorrem independentemente de nossa vontade. O melhor que podemos fazer é estudá-Ios e, como eu disse, aprender com eles. - E se não der certo? E se lhes acontecer alguma coisa ruim? - Não vai acontecer nada. Não seja tão pessimista. Aliás, o pessimismo atrai o mal. 143 Se deseja afastar a alma do coronel de seu caminho, o melhor que tem a fazer é procurar a alegria, o otimismo. Liana sacudiu a cabeça pensativa, depois disse: - Alegria é um sentimento que não conheço faz tempo. - Praticar atos contrários a nossos sentimentos atrai dificuldades. Eu já lhe disse: está na hora de mudar isso, se quer ficar bem. - O que eu quero mesmo é ir embora daqui, livrar-me do problema emocional e do espírito do coronel. Quanto antes me casar, melhor. Alberto olhou sério para ela e não respondeu logo. Depois de alguns segundos, como ela continuasse calada, ele tornou: - Não direi mais nada sobre o assunto. Apenas renovo meu convite. Se quiser dar um basta a tudo isso, é só apanhar suas coisas e mudar-se para minha casa. Estou falando sério. Ela olhou admirada para ele. - Não receia as conseqüências que esse ato lhe traria? - Não. Sou um homem livre e gosto de agir conforme meus sentimentos. Estou percebendo que você está vivendo sob pressão. Até quando agüentará? Mário, Eulália, Norberto, eu e até você. Todos a estamos pressionando. Torno a dizer: se chegar um momento em que você queira se libertar, nem precisará me consultar, estarei de portas abertas. - Por que faria isso por mim, até em prejuízo de seus interesses? - Tenho o maior interesse em aprender sobre a vida, as pessoas. Sou um escritor. Essa é minha vocação. Além disso, gosto de você e teria muito prazer em vê-Ia deixar essa postura falsa que a está deprimindo e assumir sua verdade, sem medo, e ter a coragem de colocar sua felicidade acima das aparências e das regras de uma sociedade hipócrita, cujos valores invertidos conduzem ao sofrimento e ao fracasso os que se orientam por seus preceitos. - Você é um intelectual sonhador. - Não. Sou um homem que deseja ver as pessoas bem. Agora devo ir ter com as crianças. Pense no que eu lhe disse. Ele se afastou e Liana suspirou triste. Bem que ela gostaria de jogar tudo para o alto, de libertar-se de todas as pressões, mas não tinha coragem. Alberto estava no meio da aula quando foi chamado ao telefone. - É sua mãe - esclareceu Hilda. - Disse que é urgente. Alberto apressou-se em atender. Ela nunca lhe telefonava. Era ele quem de vez em quando ligava para saber de sua saúde e dar notícias. - Alô. Aconteceu alguma coisa? - O pai de Eugênia me ligou. Ela sofreu um acidente, está muito mal no hospital. 144 Quer vê-lo. Só faz chamar seu nome. Ele quer seu endereço. Eu disse que não me lembrava e que precisava procurar. Fiquei de ligar novamente. - Ela não está fingindo? - Acho que não. José estava apavorado. Ele disse que ia pedir para você vir o quanto antes, porque ela pode morrer de uma hora para outra e ele deseja satisfazer a última vontade dela. Acho que é sério mesmo. Se você quiser, posso ir até o hospital verificar. - Faça isso. Ou melhor, eu vou. Se é assim, não posso deixar de ir. Diga-lhe que hoje mesmo estarei lá. Alberto desligou o telefone e procurou Eulália, contando-lhe o sucedido. - Faço votos de que ela melhore - disse ela. - Obrigado. - Pretende demorar-se? - Dois ou três dias apenas. Vou aproveitar para visitar minha mãe e rever alguns amigos. - Faça boa viagem - desejou ela. Ele se despediu das crianças, de Liana, e foi para casa. Uma hora depois estava na estrada para São Paulo. No fim da tarde, Hilda procurou Eulália nervosa: - As crianças não querem entrar. A senhora precisa ver como Eurico está sujo. Não quer me obedecer. TIrou os sapatos, meteu os pés na lagoa. Eu não queria, mas ele nem ligou. Ele vai ficar com febre, ter uma recaída. - E Nico, não o impediu? - A bola que eles estavam jogando caiu na lagoa e Nico tirou os sapatos e entrou para buscar. Aí, ele foi atrás. Eu gritei, Nico falou para ele sair, mas ele riu, jogou água nele e disse que estava com calor. Onde já se viu? Aquele lago sujo onde os patos nadam! Deve estar contaminado. Eulália saiu rapidamente e quando chegou à pequena lagoa já os meninos haviam saído com a bola. Amelinha ria deles com as pernas e parte das calças cheias de lama. - Eurico, você está todo molhado! Você é doente, precisa ter cuidado. Vá tomar um banho imediatamente. Onde já se viu? - Eu não sou mais doente, mamãe - disse ele. - Sou forte e igual a todo mundo. Não preciso que Hilda fique tomando conta de mim. - Eu não disse? - tornou Hilda. 145 Eulália olhou admirada para ele. - Se não quer que tomem conta de você, tenha juízo e não fique fazendo o que não deve. Ande, vá tomar um banho. Quando eles subiram, Hilda comentou: - Desculpe, Dona Eulália, mas esse professor anda acostumando mal os meninos. Senta-se com eles no chão, sobe nas árvores, faz cada coisa... Nem parece que estão estudando. Vivem rindo, cantando, só quero ver quando eles forem prestar os exames. - As crianças estão muito bem. Liana disse que eles estão aprendendo muito. O professor tem métodos próprios de ensinar. Depois, Eurico está bem melhor. Já não passa mal como antes. - Vamos ver depois de hoje - desafiou ela subindo as escadas para ver o que eles estavam fazendo lá em cima. Eulália sorriu e confidenciou para Liana: - Acho que Hilda está com ciúme do professor. As crianças preferem ficar com ele a ficar com ela. - É que ela é tão prestativa que chega a incomodar. Está sempre querendo que eles façam isto ou aquilo. Acho que ela exagera. - Fiquei admirada. Eurico me desafiou! Disse que não é mais doente, que é forte como todo mundo. - Talvez seja mesmo. Ele está mais corado, disposto, comunicativo, engordou um pouco. Depois, os médicos nunca acharam doença nele. - Queira Deus que você esteja certa. A saúde dele tem sido minha maior preocupação. No dia seguinte chegou um telegrama de Alberto: Eugênia faleceu hoje. Preciso ficar aqui mais alguns dias. Saudações a todos. Imediatamente Eulália telefonou a Norberto contando tudo e pedindo-lhe para representar a família e dar apoio a Alberto. Quando Norberto chegou, no fim de semana, contou que Eugênia fora atropelada e não resistira aos ferimentos. Alberto chegara a tempo de despedir-se dela, que se agarrara a ele desesperadamente pedindo que não a abandonasse. Ele ficara a seu lado até o fim e estava muito sensibilizado. - Apesar disso, o pai dela não o vê com bons olhos, porque desde a separação Eugênia nunca mais foi a mesma. Vivia em depressão e ele desconfiava que ela se atirara em frente ao carro disposta a morrer. Tratou Alberto com desprezo e fez questão de dizer que só o chamou porque a filha pediu. 146 - Alberto conversou com você sobre isso? - perguntou Eulália com interesse. - Ele estava muito triste. Disse que não se arrependia de haver se separado dela. Não a amava mais e não podia fingir um sentimento que não possuía. Ela tinha uma personalidade doentia, nunca se sentia satisfeita com nada, nem mesmo quando eles estavam vivendo juntos. Se ela havia cometido o suicídio, ele não se sentia culpado por isso. Lamentava, mas não podia fazer nada. - Ele é um homem muito sincero - disse Liana pensativa. - E de bons sentimentos. As crianças o adoram. Hilda anda até com ciúme. Eles riram, e, quando Norberto se viu a sós com Eulália no quarto, comentou: - Mário conversou comigo. Está inseguro com o casamento. - Por quê? - Desconfia que Liana não o ama. - Ele disse isso? - Disse. Alega que ela não se entusiasma com nada que se refira ao casamento. Que se esquiva dos carinhos dele. Que faz tudo para não ficar a sós com ele. - É curioso. Ele também? - Como ele também? Alguém já falou sobre isso? - O professor. Ele me garantiu que Liana vai se casar sem amor. - Como é que ele sabe disso? - Bom, ele me falou exatamente as mesmas coisas que Mário disse a você. Fez mais: garantiu que Liana está doente porque está se obrigando a fazer uma coisa contrária a seus sentimentos. Que ela deveria desmanchar o noivado se deseja ficar bem. - Mário teria se queixado a ele, como fez a mim? - Pode ser. Eu cheguei até a pensar que ele estivesse dizendo isso porque estava interessado em Liana. Os dois conversam muito, são muito amigos. - Você acha que ele esteja gostando dela? - Não. Depois do que você me disse, tudo está explicado. Mário por certo desabafou com ele. Sabe, o professor é um filósofo. Tem muito conhecimento sobre a vida, diz coisas interessantes. Liana leu seus livros e ficou encantada. - Eu acho que ele está certo. Diante do que Mário disse, eu o aconselhei a adiar o casamento, pelo menos até Liana melhorar. 147 Durante esse tempo ele poderá certificar-se melhor dos sentimentos dela. Um casamento sem amor é horrível. - Não concordo. Quando nos casamos, eu maIo conhecia. Não sabia o que era o amor. Se nosso casamento deu certo, por que Liana não pode fazer o mesmo? Mário é um bom moço, ama-a muito, será ótimo marido. - Não duvido. Mas Liana é muito diferente de você. Tem outro temperamento. Eulália olhou-o admirada. Ele se apressou a completar: - Bom, por enquanto são apenas suposições. Vamos ver como Liana reage. Pode ser que ela fique bem e tudo se arranje. Só não acho aconselhável ela se casar doente, ou sem saber se é isso mesmo que ela quer. Afinal, ela é livre para fazer o que quiser. Nós queremos sua felicidade, não é isso? Eulália concordou, embora pensasse que, para a mulher,.o amor não era fundamental antes do casamento. O importante era conhecer o caráter, as qualidades do homem e a posição financeira. A falta de dinheiro dava muitos problemas entre os casais, assim como a infidelidade. Apesar de tudo, ela insistia em querer aquele casamento o quanto antes. Liana precisava definir sua vida, e um bom casamento era o melhor jeito. Depois, ela se sentiria muito mais tranqüila sabendo-a bem casada, amparada pelo resto da vida. No quarto, antes de dormir, Eurico comentou com Nico: - Agora que a mulher do professor morreu, será que ele vai querer ficar aqui? - Acho que sim. Ele não morava com ela mesmo. Para ele não vai mudar nada. - Será? Eu quero que ele volte. - Eu também. Sinto saudade dele. É nosso melhor amigo. - É mesmo. Se ele não voltar, vou ficar doente de novo. - Nem fale uma coisa dessas! Ele vai voltar, você vai ver. Depois, eu estou aqui e vou ficar enquanto você quiser. Além disso, você não é mais doente. - Se eu ficar doente, minha mãe vai fazer tudo para trazê-Io de volta. Nico meneou a cabeça em desaprovação: - Saúde é coisa séria e você não deve abusar. Se começar a fingir de doente sempre que quiser alguma coisa, a doença volta e não vai mais embora. Você vai sofrer. É isso que quer? 148 - Eu não quero, mas quando fico contrariado, triste, logo fico doente. - O professor disse que quando você fica pensando mal, dando força à tristeza, à revolta, atrai tudo de ruim. Eu prefiro ficar alegre, para atrair só o bem. - Você tem saúde. - Por causa disso. Eu acho que a alegria é o melhor remédio. - Como posso ficar alegre se estou sentindo tristeza? - Você sente tristeza quando está pensando coisas tristes. Se resolver pensar só coisas alegres, a tristeza desaparece. É fácil. Quando vem um pensamento ruim que me deixa triste, eu logo digo: não gosto de me sentir assim. É ruim. Procuro alguma coisa que me deixe ficar alegre. - O que você faz para ficar alegre? - Vou olhar os passarinhos, jogar bola, pescar na lagoa. Às vezes sento embaixo da mangueira e imagino como será minha vida quando eu for muito rico: a casa bonita que vou comprar para minha mãe, o carro, as roupas, tudo. Vou viajar de trem, de barco e até de avião. - Você é pobre. O que pensa fazer para ficar rico? - Bom, eu sou trabalhador, estudioso, estou sempre procurando aprender. Eu sei que, quanto mais eu souber fazer coisas, mais dinheiro vou ganhar. - As pessoas vão pagar para você fazer coisas para elas? - Vão. - Você vai ficar muito cansado. - Não vou. Sou curioso. Gosto de fazer coisas e de aprender. Eu esqueço de tudo quando estou olhando alguma coisa que me interessa ver como é. - Por isso você sabe como é a vida dos passarinhos. Ficou olhando para eles. - Fiquei. Todo mundo acha que os bichinhos não são inteligentes. Isso não é verdade. Eles fazem cada coisa! É só ficar olhando que você vê. - Será que o professor volta logo? - Está vendo? Você também gosta de aprender. Eu acho que ele volta logo. - Que bom! Ele é tão animado. - Vamos dormir, que já é tarde. Nico foi para o quarto, deitou-se e logo adormeceu. No meio da noite acordou com Eurico em pé do lado de sua cama: - Nico, acorde. Ele está no quarto e eu estou com medo. 149 - Ele quem? - A alma do coronel Firmino. Ele puxou meus lençóis e eu acordei sentindo um ventinho frio. Logo o vi nos pés da cama me olhando com aqueles olhos de fogo. Não volto mais lá, vou dormir aqui com você. Nico sentou-se na cama. - Bobagem, Eurico. Ele pode vir aqui também. Sabe o que eu acho? Que está na hora de você perder esse medo. Afinal ele aparece, incomoda a Liana, você, não me deixa dormir e não diz o que quer. Vamos lá acabar com isso. Nico levantou-se e Eurico agarrou-o pelo braço: - Está louco? Eu é que não vou lá ver a cara dele. - É uma alma penada. Está vagando e não tem poder de nos fazer nenhum mal. O professor disse isso e eu acredito. Ela só aparece e assusta quem tem medo. - Eu fico todo arrepiado só de falar nele. - Vamos lá, Eurico. Se ele ainda estiver no quarto, vamos conversar. Eu quero perguntar o que ele quer, por que ele aparece aqui. Depois, é só fazer o que ele pedir e ele nunca mais volta para assustar ninguém. - Você teria coragem? E se ele nos atacar? - O professor disse que ele não pode. Que, se ele quisesse atacar e pudesse, já teria feito isso. Vamos lá, Eurico, acabar de vez com essa história. - Puxa, Nico, você é corajoso! - Sou mesmo. Vamos indo. Ele segurou a mão de Eurico e foi andando em direção ao outro quarto. Eurico resistia. - E se ele ainda estiver lá? - Vamos ver. Está vendo? Ele já foi embora. Só de falar que não tenho medo dele, já o espantou. Deite-se e trate de dormir. - É, ele não está aqui mesmo. Mas pode voltar. Vou deitar, mas você vai ficar comigo em minha cama. - Eu fico até você dormir. Eles se acomodaram e Eurico foi se acalmando, e logo os dois pegaram no sono. De repente, Eurico sacudiu Nico, dizendo: - Acorde, Nico. Olhe ele aí de novo! Nico abriu os olhos e não viu nada. - Não estou vendo nada. Você sonhou. - Não sonhei, não. Olhe ele aí, rindo e me apontando o dedo. Estou com medo. 150 Eurico deitou-se e cobriu a cabeça com o lençol. Nico tentou descobri-lo, mas ele segurava com força. - Vamos, tire esse lençol, vamos conversar com ele. - Eu estou de olhos fechados mas ainda o estou vendo! Como pode? - Nesse caso, de nada vale o lençol. Vamos, Eurico. Enfim Nico conseguiu descobrir a cabeça de Eurico, que de olhos fechados, agarrado, tremia de medo. - Onde ele está? - Nos pés da cama. Nico olhou para os pés da cama e disse em um tom firme: - Você é uma alma penada. Eu esconjuro. Está incomodando todo mundo. Por que está aqui? O que quer? Fale comigo e diga. Não estou vendo você. Fale para o Eurico. O menino agarrou-se mais a Nico. - Então? Preste atenção, Eurico. Ele está dizendo alguma coisa? - Ele está me ameaçando. Diz para você não se meter na vida dele. - Eu quero ajudar. Ele já morreu e não pode mais fazer coisas neste mundo. Mas eu posso fazer por ele, é só falar. - Ele está rindo e diz que nós não vamos fazer o que ele quer. - Repita tudo que ele está falando. - Está bom. Ele diz: eu quero Mariquita aqui comigo. Fiquei esperando durante muito tempo e, agora que ela está de volta, nunca mais a perderei. Ela vai vir para cá, morar comigo aqui. - Aqui não tem nenhuma Mariquita - respondeu Nico. - Só tem a Maria, que é empregada. - Não sei quem é essa. Eu quero Mariquita. Ela é minha e não vai fugir de novo. - Não estou entendendo o que você fala. Desse jeito não vou poder ajudar. Precisa explicar melhor. Quem é a Mariquita? - Minha mulher. Quando ela morreu e se foi, fiquei sem saber onde ela estava. Quando morri, fui procurar e não a encontrei. Fiquei aqui. Eu sabia que um dia ela voltaria para casa. - Ela voltou? - perguntou Nico. - Voltou. Ela me viu perto da escada, mas ficou com medo de mim. Foi porque eu a prendi no quarto, mas agora não vou mais fazer isso. - Ela também é alma penada, como você? - Não. Ela está escondida em outro corpo, mas isso não adianta nada. Eu sei que é ela e a vejo como ela era. Eu tenho de ir agora, mas eu volto. Não se metam mais em minha vida, senão vão se arrepender. 151 - Espere, vamos continuar conversando. - Não adianta - esclareceu Eurico. - Aquela mulher apareceu e o levou. Foi embora. - Puxa. Eu precisava saber mais. Não entendi bem o que ele disse. - Eu falei que não ia adiantar. Ele não está dizendo coisa com coisa. Está querendo enganar. - Não sei. Ele falou que a tal da Mariquita voltou. Será a mulher que você viu? - Acho que não, porque ele fica contrariado quando ela aparece. - Ele disse que a Mariquita se escondeu no corpo. O que será que isso é? - Sei lá. É muito complicado. Você quase me matou de medo. - Mas viu? Ele não fez nada de mais. Respondeu tudo. - Mas disse que vai voltar. Isso de falar não adiantou. - Porque ele não explicou direito. Quando ele fizer isso, não volta mais. - Se fosse verdade, seria muito bom. - Claro que é. Agora vamos rezar para o nosso anjo da guarda. Sempre é bom. Os dois ajoelharam-se e rezaram pedindo proteção. Depois Eurico pediu: - Mas você vai ficar aqui comigo! - Está bem! - concordou Nico deitando-se. - Estou com tanto sono! Eurico deitou-se e dentro de alguns minutos eles estavam dormindo, e desta vez nada mais os acordou. 152 Capítulo 11 O professor voltou uma semana depois e foi recebido com gentileza por Eulália. Depois da conversa que tivera com o marido sobre o casamento de Liana, ela pensava que estivera enganada, que o professor não estava apaixonado por sua irmã, não oferecendo perigo para a realização de seus planos. Na sala, cercado pelas crianças que o abraçavam com alegria, ele considerou: - Estava com saudade. Não via a hora de voltar. - As crianças viviam perguntando quando você voltaria - disse Liana sorrindo. - Não falavam em outra coisa. Tinham receio de que decidisse ficar na cidade - tornou Eulália. - Isso não. Gosto daqui. Já me habituei a esta vida calma. Hilda apareceu na porta e Eulália tornou: - Está na hora do lanche. As crianças, excitadas com a chegada de Alberto, não queriam ir, mas Eulália insistiu: - Vão, sim. Enquanto isso, queremos conversar um pouco com ele. Hilda vai mandar servir café com bolo para nós. - Você não vai embora, vai? - indagou Eurico, ansioso. - Vai esperar? - ajuntou Amelinha. - Vou. Acham que eu perderia esse café com bolo? Eles riram e foram para a copa. Sentados na sala, Eulália tornou: - Você deve estar cansado. Se desejar ir embora, nós entendemos. - Não. Eu quero mesmo conversar com eles, programar nossos estudos. Dentro em breve eles prestarão mais alguns exames. - A notícia da morte de sua esposa apanhou-nos de surpresa. Desejamos expressar nossos sentimentos. - Obrigado, Dona Eulália. Norberto foi muito atencioso e ajudou-me a suportar esse momento desagradável. - Estavam separados havia muito tempo? - indagou Eulália. - Uns quatro anos, mais ou menos. - Mudemos de assunto - propôs Liana. - Estamos sendo indiscretas. 153 - Absolutamente - respondeu ele. - A curiosidade é natural. Falar nisso não me incomoda. Eugênia era uma mulher ciumenta, dominadora, inquieta, nervosa. Possuía um temperamento muito diferente do meu. Quando me certifiquei disso, optei pela separação. Nossa vida em comum era um inferno. Ela era infeliz a meu lado e infelicitava minha vida também. Preferi ficar só. Nunca ocultei esses fatos. - Parece que ela o amava muito e nunca se conformou. Não é fácil para uma mulher ser abandonada - considerou Eulália, pensativa. - Não era amor o que ela sentia por mim. Era paixão. - Paixão é mais do que amor! - Não, Dona Eulália. O amor de verdade não aprisiona o ser amado, nem o atormenta. A paixão, sim, é como um vício: quanto mais você dá, mais a pessoa quer e nunca está saciada. Eu não desejo me apaixonar nunca e não quero que ninguém se apaixone por mim. Nunca mais. - Pretende passar o resto da vida sozinho? - indagou Eulália, admirada. - Não sei. Estou bem como estou. As crianças voltaram e rodearam o professor, conversando entusiasmadas. Ele se levantou e foi com elas para a sala de aula. Eulália não se conteve: - Esquisito esse professor. Pensa diferentemente de todo mundo. - É um homem inteligente. - Norberto disse que o sogro não gosta dele e o culpa pela morte de Eugênia. Acha que ela se atirou embaixo do carro de propósito. Será? - Uma mulher desequilibrada, como ele disse que ela era, pode bem ter feito isso mesmo. Mas ele não tem culpa. - Se estivesse ao lado dela, talvez ela não houvesse morrido. Liana abraçou a irmã, dizendo: - Pois eu acho que ela faria do mesmo jeito. As pessoas que se deprimem estão sempre procurando desculpas para se fazerem de vítimas. Se ele estivesse com ela, iria dizer que ele não a amava, que não lhe dava o carinho que ela queria. Não, Eulália, o problema dessa mulher não era o fato de ele a haver deixado, mas sua tendência a querer tudo do seu jeito, o fato de não se conformar quando as coisas não eram como ela planejara. Se ela se suicidou para punir o marido, só conseguiu punir a si mesma. - Parece que ele não se sente culpado mesmo. - Por que se sentiria? - Ele se casou com ela. Jurou amá-Ia, protegê-Ia pelo resto da vida. 154 - Essa é uma ilusão. Quem é que pode garantir que vai amar uma pessoa pelo resto da vida? E se o amor acabar? - Resta o dever, a palavra empenhada. - Eu não gostaria de viver com um homem que ficasse a meu lado por haver empenhado sua palavra. Eu me sentiria humilhada. - Pois eu não. Se Norberto chegasse e dissesse que iria me abandonar, eu faria tudo para que isso não acontecesse. Ele tem a obrigação de manter a união da família. - Mudemos de assunto. - Por quê? Vamos ser práticas. Quando me casei com Norberto, não o amava. Mas agora, se ele quisesse pular fora, eu não permitiria. Onde já se viu? Tirou-me da casa de meus pais, arranjou dois filhos e depois largaria tudo com essa desculpa de amor? - Ele nunca faria isso. Vive para a família. - É. Tem razão. Liana respirou fundo. A situação que estava vivendo oprimia-a. Precisava ganhar forças para poder sair de casa e acabar de vez com aquela angústia. Na sala de estudos, o professor depois de programar as matérias para a aula do dia seguinte despediu-se. - Professor, o senhor vai passar perto da casa da minha mãe? - indagou Nico. - Vou, Nico. Quer alguma coisa? - É que eu vou até lá ver como andam as coisas. - Pode ir comigo. - Você volta logo? - indagou Eurico. - Antes de escurecer. Eles saíram, e uma vez no carro o professor considerou: - Eurico não fica sem você. - Ele tem medo da alma do coronel. - Ele tem aparecido? Nico relatou a última experiência, quando tentara conversar com o coronel Firmino. Alberto interessou-se muito: - Tem certeza de que ele disse mesmo tudo isso? - Tenho. Nós ficamos tentando entender o que ele queria dizer. Mas acho que ou o Eurico não ouviu bem ou ele está muito confuso e não explicou direito. - Vou lhe pedir uma coisa. Leve um caderno e um lápis para o quarto. 155 Se acontecer isso de novo, escreva tudo quanto Eurico lhe disser. Entendeu? - Entendi. Mas, mesmo sem escrever, tenho boa memória. Sei cada palavra que ele disse naquela noite. - Não estou duvidando de você. Mas será melhor escrever. Você está certo. Se descobrirmos o que ele deseja, se pudermos conversar com ele, talvez possamos conseguir que ele vá embora e deixe de assustar os outros. Liana vive apavorada. - O Eurico também. Eu queria vê-Io, mas só o Eurico vê. - Porque ele tem essa capacidade. Algumas pessoas conseguem ver outras dimensões da vida além da faixa de nossos cinco sentidos. - Ele não gosta. Sente medo. - Porque não entende como isso se dá. As pessoas criam muitas fantasias com relação aos mortos. - Também acho. Eu não sinto medo. - Isso mesmo. Chegamos. Até amanhã, Nico. - Até amanhã, professor, e muito obrigado. Nico desceu e Alberto continuou seu caminho, pensativo. O espírito do coronel Firmino dissera claramente que sua mulher estava de volta à mansão em outro corpo. Estaria falando de reencarnação? Fora Liana quem o vira perto da escada. Seria Liana a reencarnação da mulher do coronel? Ele a queria com ele. Estaria pretendendo que ela morresse? Não acreditava que ele pudesse literalmente tirar-lhe a vida, mas poderia roubar-lhe energias para dominá-Ia e arruinar-lhe a saúde, aproveitando-se das fraquezas dela. Liana andava muito debilitada ultimamente, desde que vira o coronel. Teria uma coisa a ver com a outra? Nico estaria descobrindo a verdadeira causa dos problemas de Liana? Precisava ter certeza. Mas como? Só Eurico via o coronel, e acontecia durante a noite, quando ele não se encontrava na casa. Quanto mais pensava no assunto, mais suspeitava que isso fosse mesmo verdade. A pressa de Liana em abandonar aquela casa não estaria também relacionada com isso? Embora ela tivesse problemas com Norberto, ele ficava fora a semana toda e quando estava em casa era discreto. Bastava ela cortar definitivamente o laço com ele e pronto, estaria tudo resolvido. Ele não se atreveria a insistir. Ficaria até mais calmo sabendo-a livre. Com o tempo, a situação poderia se resolver sem que ela precisasse partir para um casamento sem amor. 156 À medida que pensava no assunto, mais se convencia de que Nico havia descoberto o fio da meada. Se Liana fora mesmo a esposa do coronel, e ele estivesse procurando levá-Ia ao desencarne acreditando que assim a teria a seu lado, tudo ficava claro: a fraqueza dela, a angústia, a vontade de fugir, o mal-estar que a acometia de vez em quando e do qual os médicos não conseguiam descobrir a origem. Ele havia estudado os processos de obsessão por espíritos desencarnados e sabia que em determinadas circunstâncias eles podiam obter êxito. O fato de Liana haver se envolvido com o cunhado e sentir-se culpada, acreditando que precisava ser punida por isso, baixara o teor de suas energias e permitira o envolvimento do espírito do coronel. Se ela houvesse compreendido que esse caso não fora proposital, se rompesse com ele sem se sentir culpada, o coronel nada teria conseguido. Alberto sabia que cada ato é medido pela atitude que o determinou, não pelo fato em si. E o pior é que ela não havia ainda superado o caso e, por isso, a cada dia mais o coronel a dominava. Uma coisa era certa: ela precisava mesmo sair daquela casa. Não tinha certeza se isso seria o bastante. O espírito do coronel estava ligado a ela e poderia acompanhá-Ia quando ela saísse. Além disso, ela precisava receber ajuda espiritual de pessoas que entendessem e pudessem esclarecer o espírito do coronel e afastá-Ia. Como fazer isso? Eulália era católica e nunca permitiria que ele sequer falasse no assunto. Seria difícil convencer a própria Liana. Ele não podia contar que fora Eurico quem se comunicara com a alma do coronel. Conhecia Eulália. Ela seria até capaz de afastar o filho de Nico, suspender as aulas, e tudo estaria pior. Quanto a Norberto, talvez fosse mais receptivo, mas como tocar no assunto sem revelar o que sabia? Alberto foi para casa e não conseguia pensar em outra coisa. Afinal, ele não tinha nada com isso, por que se preocupava tanto? Talvez fosse melhor deixar tudo como estava e não se envolver. Gostava da vida que estava levando, o dinheiro das aulas permitia-lhe escrever com calma seus livros, sem se preocupar com as despesas do dia-a-dia. Depois, gostava dos meninos e queria ensiná-Ios a viver melhor, ajudando-os a descobrir e desenvolver seus talentos. Entretanto, apesar de pensar nisso, nos dias que se seguiram Alberto não conseguia esquecer. Liana estava abatida, desanimada, cansada, sem vontade, o que preocupava Eulália, que procurava entusiasmá-Ia para marcar nova data para o casamento. Contudo, vendo-lhe o semblante pálido, não insistia. 157 Mário mostrava-se triste, e Alberto notava que ele a cada dia ficava mais calado, notando a indiferença de Liana, que, apesar de esforçar-se em recebê-Io com alegria, não conseguia disfarçar o que lhe ia no coração. Foi Norberto quem conversou com Eulália: - Acho que está na hora de resolver esse noivado. Liana não está apaixonada por Mário e ele está cada dia mais triste. Qualquer um pode ver isso. Ela não gosta dele, e esse noivado pode ser a causa de seu abatimento. - Que idéia, Norberto! Ninguém a obrigou a nada. Se ela quiser, pode acabar com isso. Claro que ela gosta dele! O fato é que Liana está doente e os médicos não conseguem descobrir o que ela tem. - Ela poderia ir passar algum tempo em São Paulo. Precisa de distrações. Vive metida em casa. - Já sugeri, mas ela não quer. Só vai se eu for. E eu não posso ir, levar Eurico para lá. Ele está melhorando tanto! Tenho medo de que lá ele volte a sentir-se mal. O clima não é bom como o daqui. - Ela está mais abatida a cada dia. Temos de fazer alguma coisa. - Também acho. Mas o quê? Ele não soube responder. Sentia-se culpado. Deveria ter se controlado. Liana não conseguia suportar o remorso. Ele acreditava que era isso que a estava perturbando. Estava arrependido, mas o que fazer? Não podia voltar atrás. Dias depois, Alberto estava no jardim com as crianças estudando ciências quando foram surpreendidos por um grito vindo de dentro da casa. Correram assustados, e Maria, que passava pela copa, explicou assustada: - Dona Liana desmaiou. Está lá na sala, parece morta! Eles correram para a sala onde Liana estava estendida no sofá enquanto Hilda e Eulália tentavam reanimá-Ia, esfregando seus pulsos, tomando a temperatura. Vendo-os chegar, Eulália tomou: - Já mandei chamar o Dr. Marcílio. Nico aproximou-se do professor, dizendo-lhe baixinho: - O Eurico está vendo o coronel do lado dela! Está morrendo de medo! Vou levá-Io embora. Eurico puxava Nico pela mão e estava pálido. Eulália notou e pediu: - Hilda, leve os meninos embora. - Pode deixar - disse Alberto -, eu saio com eles. Uma vez na copa, pegou um copo com água e deu a Eurico, dizendo: - Não tenha medo. Ele não pode lhe fazer mal. 158 O menino bebeu a água e seus olhos encheram-se de lágrimas quando disse: - Ele a estava segurando. Eu vi. Ela não queria ir com ele, estava com medo, mas ele a estava obrigando. Ele quer levá-la embora! Por favor, professor, não deixe que ele leve tia Liana! Ajude! - Ele não vai levá-la. Acalme-se, Eurico. Vamos dar as mãos e rezar. Juntos havemos de afastá-lo de Liana. Sentaram-se ao redor da mesa e deram-se as mãos enquanto o professor murmurava uma prece, pedindo ajuda para Liana. Quando terminou, ele disse: - Lembre-se, Eurico. Deus tem todo o poder. Quando sentir medo, peça ajuda. Sente-se mais calmo agora? - Sim. Eu vi que aquela mulher apareceu e o levou embora. - Como é que você viu se a tia está na sala e nós estamos aqui? estranhou Amelinha. Foi Alberto quem respondeu: - Isso é possível porque Eurico enxerga com os olhos da alma e, nesse caso, pode ver através das paredes. - Puxa! - disse Nico. - Eurico tem esse poder? - Tem, sempre que ele estiver enxergando com os olhos da alma. - Eu também quero enxergar com os olhos da alma! - reclamou Amelinha. - Pois eu não queria ver nada disso - respondeu Eurico. - Porque você é medroso! - retorquiu ela. - Só porque ele não sabe bem como isso acontece - disse Nico. - É verdade. Quando ele compreender melhor essa sua capacidade, vai perder o medo. Principalmente quando perceber o quanto está ajudando Liana a sarar. Ela não está doente do corpo, e por isso os médicos não sabem curá-la. Ela está sendo subjugada por uma alma do outro mundo. Para isso temos de usar outros métodos. - Minha mãe não acredita. Se eu contar, ela me leva ao médico de novo. - Por isso temos de pensar em um outro jeito. Fiquem aqui, que vou ver como ela está. Ele voltou à sala e Liana, pálida, estava sentada no sofá enquanto Eulália tentava fazê-la engolir um chá que ela recusava. - Meu estômago está enjoado. Não quero tomar nada agora. Depois eu tomo. - Está bem. Vamos esperar um pouco. E o médico, que não chega? 159 - Estou melhor. Não precisava incomodar o Dr. Marcílio. - O certo mesmo era você ir a São Paulo ver o Dr. Caldas. Esses médicos do interior não sabem nada. Até agora ele não conseguiu curá-Ia. Vem com uma conversa maluca de má influência, etc. Não confio nele. - O Dr. Marcílio é muito considerado. Tem curado muita gente, Dona Eulália - disse Alberto. - Um médico da roça. Se ele fosse bom, estaria na capital, teria subido na vida. Mas não temos outro remédio senão chamá-Io. Enquanto Eulália ia até a copa ver as crianças, Alberto sentou-se na poltrona ao lado do sofá, perguntando: - Conte, Liana, o que você sentiu? - Eu estava bem. Um pouco desanimada, mas a isso já me acostumei. Minha vida é assim mesmo. De repente senti uma tontura e perdi os sentidos. - Não se recorda do que aconteceu enquanto esteve desmaiada? - Não. Só sei que acordei oprimida, apavorada. TIve a sensação de que alguém me agarrava e eu queria fugir. - E agora, sente-se melhor? - Sim. Estou bem. Só um pouco assustada. E se acontecer de novo? - O que você precisa é decidir sua vida. Acabar com esse noivado, assumir sua profissão e esquecer o passado. - Está difícil. - Engano seu. Você pode assumir o controle de sua vida. Esqueça o que passou e já não tem remédio. O que importa é o que você está fazendo de sua vida agora. Acredite: só você pode mudar sua vida. Enquanto ficar na culpa, na depressão, no desgosto, julgando-se errada, vai atrair o mal. Precisa reagir, tentar sair dessa tristeza, confiar no futuro, lutar para conseguir felicidade. Não se entregue assim, como se fosse incapaz. Você é uma mulher forte, cheia de qualidades, tem de reaver sua alegria. . - Não consigo. Eulália voltou em companhia do médico. Alberto levantou-se e depois de cumprimentá-Io afastou-se para que ele examinasse Liana. Ficou. No jardim com as crianças e, quando o Dr. Marcílio saiu, meia hora depois, ele perguntou: - E então, doutor? O médico fez um gesto evasivo. - O caso dela torna-se difícil, porquanto eles não acreditam na verdadeira causa do problema. Alberto interessou-se: 160 - Sabe qual é? - Sei. Mas esse é um assunto delicado. Se me permite, preciso ir. Estou sem carro e tenho hora em casa. - Posso levá-lo com o maior prazer. Precisamos conversar. Espere só eu me despedir. Alberto entrou, despediu-se e, uma vez no carro com o médico, foi direto ao assunto: - Liana está sob a influência de um espírito desencarnado. - Você notou? - Sim. O espírito do coronel Firmino. Ele a está molestando e, segundo sei, quer levá-Ia. Diz que ela é sua esposa. - Então é isso! Bem que eu desconfiei. Mas não tinha certeza de que era ele. Como é que sabe disso? Alberto contou-lhe como descobrira e Marcílio não se conteve: - Que mediunidade desse menino! - É verdade. Mas os pais não aceitam e por isso ele não recebe esclarecimentos. Fica apavorado. Sua saúde é delicada e, se não fosse por Nico, poderia ficar pior. O médico balançou a cabeça pensativo: - Não sei como poderemos ajudar. Tenho alguns amigos médiuns e reunimo-nos em minha casa duas vezes por semana para contatos espirituais. Vou colocar o nome dela no livro de orações. - Isso é ótimo, mas penso que, no ponto em que está, o caso dela precisa de um atendimento mais direto. Liana está com problemas emocionais, tem um desgosto e se deprime. Por isso ele consegue dominá-Ia. - Se as pessoas soubessem que quando entram na queixa, na culpa, na depressão, baixam o teor de suas energias e se tornam presa fácil dos espíritos infelizes, nunca se deixariam levar pela tristeza. Estariam sempre lutando para manter a alegria, mesmo quando os acontecimentos não são como elas gostariam. - Fico feliz em encontrar alguém que pensa como eu. Gostaria muito de ir às suas sessões. - Quinta-feira à noite, estaremos reunidos às sete horas. Apareça em casa. Será bem-vindo. - Obrigado. Irei. Depois que deixou o médico, Alberto não conseguiu parar de pensar no assunto. O caso de Liana era grave. Se ele não conseguisse ajudá-Ia, o coronel poderia conseguir o que pretendia. No dia seguinte tentaria falar com Eulália. Ela precisava compreender. 161 Entretanto, ela não entendeu. Assim que ele começou a falar em influências espirituais, ela foi logo dizendo: - Com certeza foi o doutor quem colocou essas idéias em sua cabeça. Não quero ouvir nada desse assunto em minha casa. Meu filho é de saúde delicada. Tem alucinações e isso lhe tem minado a saúde. Se quiser continuar vindo a esta casa, nunca mais fale nisso. Alberto calou-se. Nesse instante teve a sensação de que um vulto passava rindo ao lado dele. Voltou-se rápido, mas não viu nada. Sentiu vários arrepios. Teve certeza de que o espírito do coronel estivera ali, ouvindo-os conversar. Voltou para casa e não pôde dormir. Por mais que desejasse esquecer Liana e repetir que nada poderia fazer para ajudá-Ia, ela não lhe saía do pensamento. Levantou-se de madrugada, abriu a janela e respirou o ar fresco que vinha de fora. Depois, olhou o céu cheio de estrelas. Dirigiu a Deus ardente prece pedindo que o inspirasse em como proceder. Quando terminou, deitou-se e finalmente conseguiu dormir. Na manhã seguinte, depois da aula, foi ter com Liana na sala. - Sente-se melhor? - indagou. Ela sorriu levemente. - Sim. - Podemos conversar um pouco? - Claro. - O que lhe disse o médico? - Bom, ele veio com aquela conversa de sempre. Que estou sob a influência de um espírito e que os remédios não vão me ajudar. - Você não acha que ele pode ter razão? - Não sei. Parece um tanto fantasioso. Um médico não pode falar essas coisas. - Você sabe que Eurico viu o espírito que a fez desmaiar? - Viu? O que foi que ele viu? Ele falou para Eulália? - Ele tem medo de que ela lhe dê remédios. Por isso, ficou calado. Só falou para Nico. - Nico também viu? - Não. Estou lhe contando, mas peço que não fale nada à sua irmã. Ela me proibiu de tocar nesse assunto. Se souber o que estou lhe contando, despede-me. - Ela não gosta de falar nisso mesmo. - Mas eu tenho de lhe falar. Não posso deixá-Ia nessa situação e me omitir. 162 - Mas Eurico tem alucinações. Não pode acreditar no que ele diz. - Você também viu um espírito. Já esqueceu? - Nunca vou esquecer. Foi horrível. - Para Eulália foi uma alucinação. Você acha que foi? - Não. Eu o vi. Ele estava lá, perto da escada. Fico arrepiada só em lembrar. - Eurico vê sempre e ninguém acredita. Já pensou como ele sofre com isso? - Se tudo que ele dizia for verdade... puxa... pode ser mesmo. - Eu tenho certeza. Ele viu o mesmo homem que você e diz que ele quer levá-la para o outro mundo. - Quer me matar? - Sim. Ele quer que você vá viver ao lado dele. - Que horror! Tenho pavor dele. - Nesse caso tem de reagir, lutar para reconquistar sua alegria, afastar sua influência. - É isso que não consigo. Eu tento, mas quando Mário aparece sinto vontade de fugir. - Escute. Tenho um plano. Se concordar, ficará livre de tudo isso. - De que forma? - Case-se comigo. Sou viúvo agora. Nosso casamento será apenas de aparência. Só para que você deixe esta casa. Depois de algum tempo, quando estiver bem, houver resolvido o que fazer de sua vida, nós nos separaremos. Você irá para onde quiser. Estará livre. - Faria isso por mim? - Gosto de você. Desejo ajudá-ia. Se ficar aqui, nunca sairá dessa situação angustiosa. - Não posso aceitar. Iria arruinar sua vida. - Por quê? Sou livre. Não pretendo mais me casar. Depois, é só por algum tempo. Creia, Liana, é a única forma de você resolver todos os seus problemas. Uma vez em minha casa, estaremos livres para procurar a ajuda espiritual de que você precisa. - Só em pensar em libertar-me do compromisso com Mário, sinto-me mais leve. - Então! Pense em minha proposta. Acabe com esse noivado e poderemos nos casar e resolver tudo sem que você precise ir viver com alguém que não ama. - Vou pensar. - Ficarei feliz se aceitar. 163 Naquela noite, Nico acordou com Eurico sacudindo-o: - Nico! Nico! Ele está lá de novo. Nico levantou-se e foram para a cama de Eurico. - Ele está aí mesmo? - Está. - Vou pegar o caderno e o lápis. - Não me deixe sozinho com ele. - Está aqui, na gaveta da sua mesa. Eurico deitou-se, cobriu a cabeça e Nico tomou: - Por que cobre a cabeça? Não adianta mesmo. - Sei lá. Assim acho que fico mais protegido. Ele está rindo e dizendo que vai me perseguir a vida inteira. - Vai nada. Deus não vai deixar. Olhe aqui, seu coronel, você morreu e não tem o direito de vir assustar os vivos. Se não parar com isso, vou chamar aquela mulher e ela leva você embora já. Você assusta o Eurico, mas eu não tenho medo de você. Por que não aparece para mim! - Ele disse que você é bobo e que precisa sair do caminho dele. Já chega o que você fez com ele. - É mentira dele. Eu nunca o conheci. - Ele disse que você esqueceu, mas ele não. Que você ainda vai pagar por isso. - Ele quer me assustar, mas eu não tenho medo. Não acredito em nada que ele fala de mim. - Ele disse que um dia vai provar, que é melhor sair do caminho dele. - Enquanto ele não deixar de perseguir as pessoas desta casa, eu não vou sair. - Ele disse: dê um recado àquele professorzinho de meia-pataca que não tente se meter, senão vai sobrar para ele. Que ele não vai permitir o casamento. - Será o casamento com o Dr. Mário? - Não. É o casamento com o professor. - Com o professor? Tem certeza? Quem vai se casar com a Liana é o Dr. Mário. - Ele disse: dê o recado e não se meta. Ele nunca vai se casar com Liana. Eu vou impedir. Você vai ver. - Já escrevi. O que mais ele disse? - Mais nada. Ele sumiu. - Puxa! Acho que ele não está dizendo coisa com coisa. Tem certeza que ele falou tudo isso mesmo? 164 - Tenho. Eu escutei tudinho. - Bom, nesse caso não estou entendendo nada. Ele foi embora mesmo? - Foi. - Então vamos dormir. Estou com muito sono. - Deite-se aí do meu lado. Não quero ficar sozinho. - Está bem. Vou ficar até você pegar no sono. Depois vou para minha cama. Sua mãe não gosta que eu durma no seu quarto. Nico esperou e, quando percebeu que Eurico estava dormindo, levantou-se e foi para sua cama. Na manhã seguinte, quando mostrou ao professor o que havia escrito, Alberto emocionou-se. Aquela era uma prova conclusiva de que Eurico realmente via o espírito do coronel. Ninguém sabia nada a respeito da proposta de casamento que ele fizera a Liana. As crianças nunca poderiam ter inventado aquele recado. Estava no caminho certo. Realmente o coronel estava ao lado de Liana, ouvindo tudo, tentando manter seu domínio sobre ela. Claro que ele iria tentar atrapalhar o casamento. Sabia também que Eulália não iria gostar da idéia, uma vez que preferia Mário e sempre demonstrava seu interesse em ver Liana casada com o engenheiro. Parecia-Ihe também que ela, apesar de tratá-Io com afabilidade, não o desejava como cunhado. Iria opor-se, com certeza. Havia ainda Norberto, que, fosse qual fosse o pretendente de Liana, estaria contra. Apesar de tudo isso, ele pensava que podia contar com o mais importante, que era a ajuda espiritual. Era um homem de fé, interessado em ajudar uma pessoa. Além do mais, pediria o apoio do Dr. Marcílio, já que contava com ele para tratar espiritualmente de Liana, quando ela estivesse em sua casa. Por isso, o recado do coronel não o preocupou. Ele confiava e sabia que o bem é sempre mais poderoso do que o mal. Se ele estava no bem, quem poderia vencê-Io? 165 Capítulo 12 Alberto chegou em casa disposto a encontrar um jeito de levar adiante seu plano. Tinha certeza de que, se conseguisse tirar Liana daquela casa, poderia, com a ajuda espiritual, libertá-Ia daquela obsessão. Entretanto, diante das dificuldades que certamente encontraria, precisava de apoio. Lembrou-se que era quinta-feira. Consultou o relógio: seis horas. Tinha tempo para tomar um banho e ir para a casa do Dr. Marcílio. Faltavam quinze para as sete quando ele tocou a campainha da casa do médico. Foi recebido pela esposa dele, que imediatamente o conduziu à sala, onde algumas pessoas conversavam alegres. O médico abraçou-o apresentando-o aos presentes: - O professor veio para participar de nossa reunião. É um estudioso do assunto. Depois dos cumprimentos, sentaram-se ao redor da mesa, sobre a qual havia uma toalha bordada, alguns livros de Allan Kardec, papel, lápis, uma bandeja com uma jarra de água e alguns copos. Alberto sentiu-se bem naquele ambiente. A sala simples porém mobiliada com gosto era muito aconchegante. Havia flores nos vasos e as pessoas mostravam-se muito agradáveis. Todos sentados ao redor da mesa, Marcílio abriu um livro e leu um trecho. Depois cada pessoa comentou o tema. Por fim, as luzes apagaram-se, ficando acesa apenas pequena lâmpada azul. Adélia, esposa do médico, proferiu ligeira prece, solicitando a ajuda dos espíritos superiores para todos os presentes, trazendo esclarecimentos e orientação. Imediatamente uma das senhoras suspirou fundo e em seguida começou a falar: - Finalmente conseguimos reuni-Ios todos aqui. Sinto-me grata por isso. Saber que posso contar com a ajuda de vocês emociona-me e enternece-me. É a primeira vez que venho, trazida pelo carinho do Dr. Neves, mentor deste trabalho. Ele se prontificou a ajudar-me a vencer nesta luta em que venho me empenhando há muitos anos. Para que possam me entender, preciso contar o drama que envolveu nossas vidas no passado e que até agora continua nos infelicitando, apesar das oportunidades que a misericórdia divina vem nos oferecendo e que alguns dos envolvidos, presos ainda às suas amigas ilusões, se recusam a aproveitar. 166 Muitos anos atrás, minha filha muito amada reencarnou em uma importante cidade da Europa, com o espírito cheio de esperança e uma vontade louca de vencer. Nós vivemos em um lugar no astral onde a beleza, a arte são fundamentais. Lá os espíritos têm o senso do belo desenvolvido, tendo aprendido a enxergar nas belezas do universo a grandeza de Deus. Apesar disso, ela precisava desenvolver outros lados de sua personalidade. Reencarnada, procurou a carreira artística, e conseguiu fama como cantora e atriz. Teve sucesso, dinheiro, popularidade. Foi famosa. Conheceu um pintor muito talentoso, mas que não foi compreendido em sua época, não tendo vendido seus quadros em vida e só sendo reconhecido como um gênio muitos anos mais tarde. Considerando-se fracassado, ele sofria muito, principalmente porque Helena, famosa e rica, custeava suas despesas. Ela valorizava o imenso talento dele e não se importava com dinheiro. Tinha certeza de que um dia ele conseguiria o reconhecimento público. Contudo, ele se sentia infeliz, incompreendido. Mergulhou nas drogas, o que prematuramente o matou. Helena sofreu muito por isso. Ela o amava com loucura. A vida sem ele parecia-lhe sem nenhum sentido. Estava grávida, mas nem isso conseguia confortá-Ia. Afundou-se na bebida, tentando esquecer. Bebia a princípio para poder dormir, depois para poder suportar seu desespero. Até que uma noite, no auge de sua loucura, atirou-se pela janela do terceiro andar do prédio onde residia. Inútil dizer de seu sofrimento quando acordou e descobriu que a morte não conseguira destruir seu espírito nem, o que é pior, seu inferno interior. Só que agora havia o espírito de um jovem agarrado a ela. Era o filho que ela não deixara nascer. Chorando, dizia que a odiava, chamando-a de assassina, cobrando sua necessidade de reencarnar que ela cortara com seu tresloucado gesto. Apavorada, ela percebeu que em seu egoísmo havia assassinado seu próprio filho e que ele lhe cobrava seu direito à vida. Debalde Helena tentou explicar-lhe, fazê-Io entender sua loucura. Quanto mais ela tentava desculpar-se, mais ele se enraivecia, não lhe dando paz em nenhum momento. Fiz o que pude para ajudá-Ios, mas eles haviam escolhido o próprio caminho e nada pude fazer senão os acompanhar e esperar que estivessem prontos para receber ajuda. 167 Durante anos, Amadeo e Helena vagaram pelo astral qual duendes enlouquecidos, sem se encontrar, cheios de amargura e desilusão. Por fim, chegou um momento em que, cansada, arrependida de seu gesto de revolta, Helena resolveu optar pela paz. Aceitou seus erros e dispôs-se a esperar que a vida lhe ensinasse o que ela precisava aprender. Finalmente sentiu-se aliviada. Pensou em Deus, suplicou ajuda, orou por seu filho, implorando que a perdoasse. Abriu seu coração, colocou-se na posição de aceitar tudo que Deus lhe mandasse, sem revolta. Descobriu o quanto fora arrogante, pretendendo comandar os desígnios da vida e da morte, colocando seu julgamento frágil e deficiente nos fatos imponderáveis da sabedoria divina. Seu filho acalmou-se, adormeceu, pôde ser desligado dela e conduzido a um local de refazimento. Helena foi recolhida a uma colônia de recuperação, onde se esforçou para melhorar e aprender. Entretanto, quanto mais ela melhorava e aprendia, mais a consciência de seu gesto a incomodava. Descobriu que Amadeo, o homem amado, apesar de ser visto como suicida, estava bem melhor do que ela e havia reencarnado. Teve uma encarnação curta, apenas para eliminar resíduos e restabelecer o equilíbrio de seu corpo astral. Com ajuda de amigos espirituais, Helena tomou conhecimento do passado e descobriu que Amadeo e Salvatore eram inimigos havia longa data, tendo sempre se digladiado, alimentando um ódio que não vem ao caso agora mencionar. Ele havia prejudicado muito Amadeo e tudo fazia para seu fracasso. Por isso, a vida havia programado que ele deveria reencarnar como seu filho, e, uma vez juntos, acabar com aquela inimizade. Helena soube que, se Amadeo não houvesse afundado nas drogas e Salvatore tivesse tido oportunidade de nascer, tudo teria sido diferente. Amadeo teria tido mais chance de obter sucesso e a alegria de ver suas obras valorizadas em vida. Claro que os dois, como pai e filho, teriam problemas de relacionamento, mas o amor filial teria aliviado essas diferenças, transformando-as em amizade. Contudo, eles não tiveram paciência para esperar. Com sua rebeldia, truncaram o bem programado e encontraram a infelicidade. A médium fez ligeira pausa, respirou fundo e continuou: - Depois de algum tempo, tanto Helena quanto Amadeo compreenderam que cada pessoa tem uma missão no mundo. Quem reencarna na Terra, enquanto experiencia desafios que visam a desenvolver sua consciência, amadurecendo, deve retribuir os benefícios que essa oportunidade oferece, contribuindo para a melhoria da qualidade de vida do planeta, utilizando os dons que já conquistou para isso. 168 Há os que nascem com o dom de curar, seja na medicina ou na mediunidade, os que possuem sabedoria para facilitar as conquistas sociais; os que têm talento para desvendar os mistérios da natureza, descobrindo meios de aliviar o sofrimento humano. Há muitas e diversificadas tarefas para as quais o ser é criado. Desempenhá-Ias bem traz alegria e prazer. A nós, artistas, que já desenvolvemos o senso da beleza e da arte, cabe a tarefa de levar as pessoas a perceber a espiritualidade através do belo, seja na música, na pintura, na literatura, na arquitetura, na ecologia, enfim, em tudo quanto glorifica a grandeza de Deus e concorre para sensibilizar, embelezar e tornar agradável este mundo. Certos de que não haviam realizado esse trabalho, Helena e Amadeo desejaram voltar a nascer, para desta vez cumprir sua missão. Contudo, Salvatore não compartilhava da mesma opinião. Continuava cultivando o ódio passado, não desejando esquecer, recusando qualquer sugestão deles. Para o sucesso de seus projetos, era imprescindível conseguir pelo menos o perdão de Salvatore. Sem isso, ele, mesmo distante, continuaria enviando energias destrutivas, o que, além de dificultar a nova vida programada para o casal, ainda lhes oferecia o risco de um novo fracasso. É fácil, quando estamos aqui no astral, imaginarmos uma vida boa na Terra. Mas quando reencarnados, esquecidos do passado, presos às energias viciosas que alimentamos sem pensar, tudo se torna muito mais complicado e difícil. Por causa disso, eles foram aconselhados a esperar mais um pouco. Salvatore nasceria primeiro, o que os libertaria temporariamente de sua influência, e eles iriam mais tarde. Amadeo reencarnaria dois anos antes de Helena, que nasceria como filha de Salvatore para que ele, pressionado pelo amor de pai, pudesse transformar o sentimento que nutria por Helena em amizade. Entretanto, com receio de se deixar envolver novamente pelas tentações da fama e da bebida, Helena pediu para nascer em lugar tranqüilo, longe das grandes cidades, no que foi atendida. Salvatore nasceu na capital de São Paulo, em uma família abastada. Desde cedo revelou-se autoritário e irascível. Quando se casou, aos vinte anos, comprou uma fazenda no interior e mandou construir a mansão que vocês todos conhecem nesta cidade. Foi nela que colocou sua mulher e a mantinha fechada. Mariquita, jovem de rara beleza, não amava o marido. Casara-se obrigada pelo pai e sua vida era um tormento constante, porquanto o coronel Firmino, como Salvatore se tornou conhecido nessa vida, era ciumento, exigente, mal-humorado. 169 Suas atitudes feriam a sensibilidade de Mariquita, moça delicada e fina. Entretanto, educada de maneira dura pelo pai, nem sequer pensou em rebelar-se. Passou de um senhor a outro e procurou acomodar-se acreditando que a vida era isso mesmo e nada havia para fazer. Quando Helena nasceu, deram-lhe o nome de Maria e logo o apelido de Mariinha. Ela se tornou o enlevo de Mariquita, que fez de seu amor pela filha sua razão de viver. Tudo seguia relativamente calmo quando Mariinha se apaixonou por um jovem filho de lavradores da fazenda, rapaz bonito e cheio de sonhos que tocava e cantava com maestria, fazendo serenatas, sonhando com a carreira artística. Foi correspondida. Entretanto, quando o coronel Firmino descobriu, foi acometido de ódio. Ele não suportava a presença de Ângelo, chamando-o de vagabundo, sem profissão, proibindo a filha de vê-Io. Mas o casal continuou encontrando-se às escondidas. Quando ela descobriu que ia ser mãe, eles combinaram a fuga. Uma noite, enquanto a mansão dormia, Mariinha, levando apenas pequena trouxa com algumas roupas, fugiu em companhia de Ângelo, deixando um bilhete amoroso para a mãe. Enfurecido, Firmino procurou os dois por toda parte. Mariquita, pela primeira vez na vida, insurgiu-se contra o domínio do marido e tentou fugir para ir ao encontro da filha. Ele a prendeu no quarto, ameaçando-a de morte caso tentasse fugir novamente, jurando encontrar os dois para vingar-se. Tanto fez que descobriu finalmente o casal e contratou dois capangas para matar Ângelo e trazer sua filha de volta. Quando os dois homens, empunhando uma arma, entraram na pequena casa onde o casal vivia, Mariinha colocou-se entre Ângelo e as espingardas e eles tentaram tirá-Ia do caminho. Não podiam ferir a filha do coronel. Enquanto um deles tentava arrastá-Ia, o outro se preparava para atirar. Ângelo agarrou uma escultura que estava trabalhando na pedra e arremessou-a sobre ele, que caiu ao chão disparando a arma, cuja bala se perdeu. Os dois rolaram pelo chão enquanto Mariinha lutava como podia, mordendo o outro, resistindo, até que ele, cheio de raiva, a atirou ao chão e ela perdeu os sentidos. Depois, vendo que seu colega estava estirado no chão, tirou a faca e pulou sobre Ângelo em uma luta de vida e morte. Ângelo foi ferido. Quando Mariinha recuperou os sentidos, apanhou a arma, fez pontaria e atirou. 170 O homem rolou por terra e ela correu para Ângelo, que sangrava na altura do ombro esquerdo e no braço. Assustada, ela apanhou um lençol e tentou estancar o sangue. - Vamos sair daqui antes que eles acordem. Você precisa de um médico. - Estou atordoado. - Está perdendo muito sangue. Vamos, antes que seja tarde. Abraçou-o decidida e saíram em busca de ajuda. Socorrido, Ângelo quase perdeu a vida, mas conseguiu superar. Entretanto, Mariinha, por causa do choque, perdeu o filho, tendo ficado muito mal. Finalmente, recuperados, mudaram-se para São Paulo, onde conseguiram continuar juntos. Entretanto, o coronel Firmino não se conformou. Jurava vingança e sempre que podia tentava encontrar os dois fugitivos, sem conseguir. Mariquita nunca mais saiu do quarto. Quando ela morreu, ele não queria que tirassem o corpo dela de lá para ser enterrado. Foi preciso que as autoridades de outra cidade o prendessem para que o enterro pudesse ser realizado. Sem disposição para cuidar da fazenda, ele loteou as terras, conservando apenas a casa, onde continuou vivendo de suas lembranças. Quando a morte o vitimou, recusou-se a sair de lá. Agora que Mariquita está de volta, ele tem a chance de compreender. Para isso, contamos com a ajuda de vocês todos, a quem agradeço do fundo do coração. A médium calou-se e o Dr. Marcílio perguntou: - Como podemos ajudar? - Tirando Liana, que é Mariquita reencarnada, daquela casa. Ela foi atraída para lá por uma necessidade natural de acabar suas ligações com o coronel. Bem como Amadeo, que é Nico; Amelinha, que é Helena; e Eurico, que é o filho que ela perdeu quando reencarnou como filha do coronel Firmino. Juntos no astral, combinamos dissolver velhos ressentimentos, ilusões dolorosas que estão dificultando a que todos possam viver melhor. É por isso que agora estão todos reunidos naquela casa. Alberto não se conteve: - Quer dizer que Nico é aquele famoso pintor? - Isso mesmo. Seu carisma, seu conhecimento é inegável. Claro que vem de outras vidas - respondeu a médium. - Quer dizer que estou certo em desejar tirar Liana daquela casa, ainda que precise casar-me com ela? 171 - Não lhe pedimos tanto, mas, se se dispõe a fazer isso, ficarei muito agradecida. Agora, preciso ir. Mas preciso dizer que Firmino vai fazer tudo que puder para impedir que Mariquita deixe a casa. Você precisa ficar atento, manter a ligação conosco, não se deixando envolver pelas dificuldades que surgirem. Estaremos a seu lado. Não deixe de comparecer às nossas reuniões aqui. Juntos haveremos de vencer. Alberto, comovido, calou-se. Marcílio agradeceu, proferiu ligeira prece e encerrou a reunião. Todos os presentes, comovidos em desvendar o passado da mansão que eles haviam ouvido contar de diversas formas pelos colonos da região, prontificaram-se a cooperar para que o desfecho pudesse desta vez ser cumprido e o entendimento entre os envolvidos viesse a prevalecer. Quanto a Alberto, sentia-se mais do que nunca disposto a envolver-se no caso. Faria tudo para que Liana aceitasse sua proposta. Foi para casa disposto a tratar do assunto no dia seguinte. Liana parecia mais fraca e deprimida a cada dia. Tinha de agir o quanto antes. Contudo, no dia seguinte não conseguiu falar com Liana. Eulália não a deixara um só momento, preocupada com sua palidez, desejosa de alegrá-Ia, tentando conversar. No sábado ele combinou uma aula extra com as crianças só para ver se conseguia aproximar-se dela. Estava com as crianças no jardim quando Mário chegou e, logo em seguida, Norberto. Depois de cumprimentá-Io, conversou com Nico, inteirando-se de seus progressos. Liana estava lendo na sala, e Mário dirigiu-se a ela. Sentia-se triste, desanimado. - Então, Liana, sente-se melhor? - Sim - respondeu ela tentando dissimular o mal-estar. Mário olhou seu rosto pálido, seu ar abatido, e disfarçou a tristeza. - Você parece melhor - mentiu. Norberto aproximou-se com Eulália: - Você continua na mesma, Liana - disse ele. - Norberto acha que os ares de Sertãozinho não lhe fizeram bem. Quer que vá ficar algum tempo em São Paulo. - Eu estou bem. Não quero viajar agora. - Você está definhando aqui - respondeu Norberto com tristeza. - Uma jovem cheia de vida como você não pode ficar aí, nessa apatia, nessa depressão. Vou levá-Ia para São Paulo e lá o Dr. Caldas vai dar jeito em sua saúde. O que não pode é ficar como está. A cada dia que passa está mais magra e mais triste. 172 - Impressão sua. Estou bem. Quero ficar aqui com Eulália e as crianças. Eulália fez ligeiro aceno ao marido para que se calasse. Sabia que com Liana era contraproducente insistir. O melhor seria esperar um momento mais oportuno e voltar ao assunto. Depois do almoço, os dois casais, em companhia do professor, foram sentar-se no caramanchão para o café. Alberto notava que Liana fazia tudo para esquivar-se de Mário, que ia ficando cada vez mais desanimado. Houve um momento em que ele não suportou mais a pressão e saiu. Alberto acompanhou-o, andando de seu lado. - Calma - recomendou ele. - Não consigo entender o que há de errado com ela. Primeiro aceitou meu pedido, agora parece que se arrependeu. Vive se esquivando, não permite nenhuma intimidade. Afinal, somos noivos, pretendemos nos casar logo. Há momentos em que chego a duvidar de seu amor. Acho que ela se arrependeu de haver aceitado meu pedido. Não pode haver outra explicação. - Pode ser. - Ela não age como uma noiva. É fria, desinteressada. Quando fala de nosso casamento, parece falar de um enterro. - Se sente assim, por que não fala francamente com ela? Em um relacionamento deve haver sinceridade. Não dá para começar uma vida a dois sem que haja entendimento, - Tem razão. Eulália garante que está tudo bem, que Liana me ama, que ela está doente. Mas, nesse caso, por que se recusa a ir tratar-se em São Paulo? - São perguntas que só ela pode responder. Se eu estivesse em seu lugar, não iria embora sem ter uma conversa franca com ela. -É. Acho que tem razão. Vou tentar fazer isso. Obrigado pelo conselho. Quando os dois voltaram ao caramanchão, Eulália tentou alegrar o ambiente falando sobre as crianças, principalmente de como Eurico estava melhorando, aprendendo. - Eurico é um menino muito inteligente - esclareceu Alberto. - Até que enfim escuto alguma coisa boa em relação a ele - comentou Norberto. - É um alívio ver que ele aos poucos está acompanhando os outros dois, interessando-se pelas coisas. Para mim, é um verdadeiro milagre. Graças a você, Alberto. 173 - E a Nico. Esse menino, além de muito bom e prestativo, tem um carisma especial. Na vila todos gostam dele. - É muito bem-educado, nem parece filho de gente tão humilde. O pai é um ignorante - disse Eulália. - Mas a mãe dele é muito educada - respondeu Alberto. - Isso é. Esteve aqui, sabe como se portar. - Do jeito que eles estão, dentro de um ano, ou pouco mais, poderão tirar o diploma do primário. - Já? - indagou Eulália com satisfação. - Amelinha também? - Sim. Ela os acompanha com facilidade. É uma menina muito viva e inteligente. - Acho que a melhor coisa que fizemos foi contratar você para ensiná-Ios. Na escola, eles teriam de esperar mais tempo para terminar os estudos - tomou Norberto. - É o método que o professor usa - interveio Liana. - Ele tem um método de ensino revolucionário e muito eficiente. Eu mesma, se voltasse a lecionar, tentaria aplicá-Io. Mário olhou surpreendido para o professor. Fora para falar dele que Liana se interessara no assunto. Sentiu uma ponta de ciúme. Enquanto ele ficava o tempo todo ausente, o professor estava lá todos os dias. Esse pensamento o incomodou. Certamente eles conversariam bastante. Liana parecia bem informada das atividades de Alberto. Mordeu os lábios nervoso. E se fosse isso? E se ela estivesse se interessando pelo professor? Olhou-o com atenção. Teve de reconhecer que era um homem bonito, bem-posto, elegante. Passava serenidade, segurança, como se soubesse o que fazer em qualquer circunstância. Era culto, inteligente. Um escritor. Não seria perigoso deixá-Io ali, em convivência diária com Liana? Falaria com Norberto a respeito. No fim da tarde, quando o professor se despediu, ele esperou que as mulheres se recolhessem antes do jantar para conversar com Norberto. - Você não se preocupa, estando sempre ausente, em deixar o professor aqui, freqüentando sua casa diariamente? - Por que pergunta isso? - Por que ele é muito moço, inteligente, prestativo. Qualquer mulher pode interessar-se por ele. - Não estou entendendo aonde quer chegar. - Liana interessou-se em nossa conversa só para elogiá-Io. - Você está com ciúme. O professor foi muito bem recomendado, trata-se de pessoa séria e de confiança. 174 Além disso, Eulália nunca notou nada nele que a desagradasse. Tem se mostrado discreto, educado e tem cumprido bem sua tarefa de educador. Mário inquietou-se, a expressão de seu rosto modificou-se um pouco quando ele disse: - Sinto que precisamos tomar cuidado com ele. Acho que está interessado em Liana. Gostaria que o afastasse desta casa. Norberto olhou-o surpreendido. Mário havia se modificado. Nem parecia a mesma pessoa. Sua voz estava mais dura, seus olhos mais abertos, falara em um tom agressivo que nunca usara. Tentou contemporizar. Se o professor estivesse interessado em Liana, Eulália teria percebido. Depois, não tinha por que o afastar, justamente quando as crianças estavam aproveitando tanto. Alberto nunca dera motivos para isso. - Não posso fazer isso - respondeu com voz firme. - Você está enganado. Alberto tem sido impecável. Não temos nenhum motivo para despedi-lo. Ao contrário, precisamos muito dele. As crianças estão aprendendo e, o que é melhor, sentindo prazer em estudar. O ciúme é mau conselheiro. Não se deixe envolver por ele. Não há nada entre Liana e o professor. - Espero que você não venha a se arrepender mais tarde. - Você está assim porque Liana está desmotivada ao casamento. - Às vezes, apesar de Eulália afirmar o contrário, penso que ela não me ama. - Para ser bem franco com você, que é meu amigo, eu também penso assim. - Pensa o quê? - Que ela não o ama o suficiente para consumar o casamento. Não parece interessada nem na cerimônia, que sempre motiva uma moça. Mário empalideceu. Norberto continuou: - Se eu fosse você, daria a ela chance de romper o compromisso. - Acha isso? Por.quê? Ela falou alguma coisa? - Não. Ela nunca diria nada, principalmente para mim. Estou falando baseado nas atitudes que ela vem mantendo quanto ao casamento. Depois, ela não me parece uma noiva amorosa, ansiosa para a chegada do noivo. Noto nela até uma certa frieza quando você chega. Desculpe dizer isso, mas você é meu amigo e não desejo que continue iludido. - O que você está me dizendo tenho repetido a mim mesmo várias vezes. Só não tenho coragem de colocar. 175 - Por quê? Prefere viver nessa angústia? Eu teria acabado logo com a situação. Apesar de tudo, a verdade é sempre melhor que a ilusão. Mário respirou fundo: - É, tem razão. Amanhã mesmo falarei com ela. Ou marcamos o casamento para o mês que vem ou acabamos tudo. Norberto tentou contemporizar: - Não precisa ser tão radical. - Tenho de fazer as coisas do meu jeito. Ou ela marca a data ou rompemos definitivamente. Não vou mais aceitar desculpas para protelar. Norberto mordeu os lábios e não respondeu. E se Liana marcasse o casamento? Ele sabia que ela desejava sair daquela casa para fugir do remorso. - Talvez convenha não pressioná-Ia desse jeito. Ela está doente. É preciso ter paciência. - Não entendo você. Há pouco me aconselhou a buscar a verdade. - Descobrir se ela o ama. Depois, conforme o resultado, você toma sua decisão. - Vou pensar. - Pense. Se chegar a uma conclusão, avise-me. Farei tudo para ajudá-lo. - Obrigado. Depois dessa conversa, Mário sentiu-se mais inquieto. Ele sentia que Liana não o amava, mas teimava em não aceitar essa idéia. Norberto, com suas palavras, havia expressado o que ele não desejava admitir. Apesar disso, ele temia conversar com Liana sobre o assunto. E se ela, aproveitando a ocasião, rompesse definitivamente com ele? No início do namoro, ele sentia que a amava e esse sentimento era prazeroso, mas, nos últimos tempos, quanto mais ela se esquivava, mais ele se inquietava e esse amor havia se transformado em paixão, deixando-o infeliz, mas ao mesmo tempo sem coragem para um rompimento. Só em pensar nisso ele sentia aumentar sua agonia. Ele nunca se sentira assim por nenhuma mulher. O que estava acontecendo com ele? Por que não se sentia com forças de terminar tudo de uma vez? À noite, Mário não conseguiu dormir. O dia estava clareando já quando ele resolveu: não iria embora sem uma conversa franca com ela. O domingo amanheceu nublado, embora ainda um pouco quente, e Mário acordou já passava das dez. Levantou-se apressado. Arrumou-se e desceu. Hilda estava na copa e, vendo-o, aproximou-se: 176 - Bom dia, Mário. Venha, vou mandar servir-lhe o café. - Desculpe, Dona Hilda, perdi a hora. - Domingo é dia de descanso. Sente-se, por favor. Depois do café, Mário foi até a sala onde Liana se encontrava lendo. Aproximou-se: - Bom dia, Liana. Sente-se melhor? - Bom dia. Estou bem, obrigada. - O que está lendo? - Pelos Caminhos da Metafísica, do professor Alberto. Mário sobressaltou-se. A situação era pior do que ele imaginava. Fingiu indiferença e considerou: - É um assunto árido. Não pensei que se interessasse por essas coisas. - Engana-se. Trata-se de um tema muito interessante, ensina-nos a enxergar a vida de uma forma diferente de tudo que aprendemos. É esclarecedor. Mário mordeu os lábios. Ela defendia Alberto com calor. - Os intelectuais inventam teorias para justificar sua postura e ganhar dinheiro com elas. - Alberto não é um intelectual. É um homem simples, lúcido, de grande conhecimento. - Você o admira! - É um bom amigo. Tem me ajudado muito em meus momentos de depressão. Mário aproximou-se e tomou as mãos dela, dizendo emocionado: - Você está apaixonada por ele? Ela soltou as mãos e olhou-o admirada. - Você está misturando as coisas. Ele é só um bom amigo. Nada mais. Ele não se conteve: - Esta situação não pode mais continuar. Precisamos esclarecer tudo. Tenho tido muita paciência, mas estou chegando ao limite de minha resistência. Eu amo você. Vivo sonhando com nosso casamento. Entretanto, não noto em você o mesmo entusiasmo. Vive se esquivando, há momentos em que me evita abertamente. O que está acontecendo? Você não me ama? Liana empalideceu. Não queria perder a chance de deixar a casa da irmã, mas ao mesmo tempo havia algo dentro dela que sentia repulsa de Mário. Era impossível evitar isso. Tentou contemporizar: - Mário, tente entender. Tenho estado doente, deprimida. De repente a vida perdeu todo o significado para mim. 177 Nada mais me entusiasma. Parece que estou morta. Aliás talvez essa seja a melhor solução para mim. - Por que diz isso? Você é jovem, bela, até há pouco tempo era cheia de vida, de entusiasmo. O que está acontecendo com você? Por que, de repente, perdeu toda a alegria e a vontade de viver? Sou seu noivo, eu a amo, estou disposto a fazer tudo para ajudá-Ia. Seja sincera, conte-me: o que foi que a deixou tão triste? - Não aconteceu nada. - Ainda não respondeu à minha pergunta. Você me ama? Liana olhou-o indecisa. A pergunta era direta e ela sentia que não podia mentir. Respirou fundo e respondeu: - No momento estou incapaz de amar. - Então é verdade mesmo. Você não me ama. - Não me sinto capaz de qualquer sentimento. - Pelo jeito nosso noivado tornou-se um fardo pesado para você. - Eu não disse isso. - Não, mas suas atitudes falam por você. Não precisa dizer mais nada. Liberto você do compromisso. Vou embora agora mesmo. Liana colocou a mão sobre o braço dele, dizendo; - Sinto muito, Mário. Não queria magoá-lo. Eu gosto de você. É um homem bom, generoso, sincero. No momento não estou em condições de retribuir seus sentimentos, nem de consumar um casamento que faria sua infelicidade. Por favor, perdoe-me. - Você gosta de outro? - Não. Como eu disse, estou incapaz de amar quem quer que seja. Estou morta, Mário. E um morto não sente nada. Entendeu? - Não posso entender por que você age assim. - Eu também não entendo o que está acontecendo comigo. - Se pelo menos você concordasse em se tratar, ir a São Paulo. Lá temos excelentes médicos. Falarei com Eulália. Você não pode continuar aqui deste jeito. Ela precisa fazer alguma coisa com urgência. - Não se preocupe. No momento só desejo paz. Eulália entrou na sala e vendo-os parou indecisa. Percebeu logo que algo havia acontecido entre eles. Ia retirar-se quando Mário tornou: - Venha, Eulália. Chegou em boa hora. Acabamos de ter uma conversa definitiva. Liana confessou que não me ama e por isso resolvemos romper nosso compromisso. Vou arrumar minhas coisas e voltar a São Paulo agora mesmo. 178 Eulália aproximou-se olhando-os com preocupação. Tentou contornar a situação: - Não se precipite, Mário. Liana está deprimida, nervosa. Ela não quis dizer isso, tenho certeza. - Ela foi delicada o bastante para dizer que no momento se sente incapaz de qualquer sentimento de amor. - É por causa do estado dela. - Eu sei, Eulália. Contudo eu também não me sinto capaz de suportar a indiferença dela. Eu a amo e respeito. Não quero ser um peso a mais em sua vida. Por isso, peço-lhe que desculpe minha fraqueza, mas nosso noivado está desfeito. Eulália tentou dissimular o desapontamento. Liana estava sendo muito precipitada aceitando o rompimento. Perder um partido daquele! Por certo iria arrepender-se. - Não fale como se esse fosse o único caminho. Por que não dá um tempo, até que Liana se restabeleça? Quando ela ficar boa, poderão voltar ao assunto. - Ela sabe que eu a amo e que, se um dia sentir que me ama, retomaremos nosso compromisso. Por enquanto, ela está livre. Vou arrumar minhas coisas. Com licença. Depois que ele saiu, Eulália voltou-se para a irmã, mas, antes que dissesse alguma coisa, Liana pediu: - Não diga nada, por favor. Estou cansada demais para suportar mais uma cena. Deixe as coisas como estão. Foi melhor assim. - Como pode dizer uma coisa dessas? Perder um partido desses, um engenheiro, bonito, rico, apaixonado. Um dia você vai se arrepender do que está fazendo. - Eu nunca poderia fazê-Ia feliz. Não posso estender minha infelicidade, prejudicando sua vida. Foi melhor assim. Eulália impressionou-se com o tom com que Liana disse essas palavras. - Não posso vê-Ia se acabando desse jeito. Dizendo que é infeliz! Sempre fiz tudo por sua felicidade. Não posso entender sua atitude. - Você sempre foi tudo para mim. Sinto muito estar dando tanto trabalho. Infelizmente não posso evitar. Venho me sentindo tão mal, tão deprimida. Eulália abraçou-a com carinho. - Você vai ficar boa. Tenho certeza. Liana não respondeu. Sentia-se imersa em grande apatia, só pensava em ficar quieta, descansar, esquecer. 179 Capítulo 13 A partir desse dia Liana passou a sentir-se mais fraca. Norberto, que a princípio ficara aliviado com o rompimento do noivado, preocupou-se mais. Tentou conversar com ela, aproveitando um momento em que Eulália se ocupava com o banho dos filhos. - Liana, você precisa reagir. Não pode ficar desse jeito. Mário já se foi e você agora é livre. Pode viver sua vida em paz. - Eu preciso sair desta casa. Agora, sem o casamento, ficou mais difícil. - Não tem de fazer isso. Escute, eu a amo muito. Quero que me perdoe pelo mal que lhe fiz. Eu estava louco. Não pude controlar-me. Por favor, não me castigue dessa forma. - Você não é culpado. Eu é quem devia ter me contido. - Trate de esquecer. Juro que nunca mais a incomodarei com meu amor. Só peço que continue aqui. Eulália ama-a muito, as crianças adoram-na. Por favor, reaja. Estou disposto a cuidar melhor de minha família, esse é meu dever. Sossegue seu coração e esqueça o passado. Não se atormente com o que já aconteceu. Não podemos voltar atrás e mudar os fatos. - Ah, se eu pudesse fazer isso! - Mas não pode. De que adianta se atormentar? Não suporto vê-Ia se acabando desse jeito. Prometa que vai reagir, voltar a ser a mesma de antes, para a alegria de toda a nossa família. Ele tinha lágrimas nos olhos, e Liana tentou sorrir: - Farei o possível. Você vai ver. Vou melhorar. Entretanto isso não aconteceu. Apesar de se esforçar, Liana sentia imensa fraqueza e muitas vezes um sono incontrolável. Tinha enjôos com. freqüência e mal-estar. Duas semanas depois do rompimento do noivado de Liana, Alberto foi a reunião em casa do Dr. Marcílio e eles receberam a visita do espírito interessado em ajudar Liana. Depois de identificar-se com o nome de Anita, ela chamou por Alberto: - Precisamos tomar algumas providências com urgência. A cada dia que passa Firmino consegue mais ascendência sobre Liana. 180 Temos de impedi-lo. Alberto, você tem de tirar Liana daquela casa imediatamente. Não podemos mais esperar. Se demorar, poderá ser tarde demais. - Como fazer isso? Eulália não aceita sequer falar sobre espiritualidade naquela casa. - Dê um jeito. Faça qualquer coisa, mas tire-a de lá. - Vou pensar em uma solução. Espero que me ajudem. - Estamos ajudando. Só precisamos que a tire daquela casa. - Vou ver o que posso fazer. - Que seja o quanto antes. - Amanhã mesmo tentarei uma solução. Depois que terminou a reunião, eles ficaram conversando, tentando encontrar uma saída. Alberto, depois de muito pensar, propôs: - Amanhã à noite, quando a casa estiver silenciosa, eu entro e retiro Liana de lá. Levo-a para minha casa. - Vai ser um escândalo - disse Adélia. - No dia seguinte, toda a cidade vai comentar. Eulália vai buscá-Ia e levá-Ia para casa. Não vai adiantar. - Vai, sim. Você, Marcílio, vai me ajudar. É amigo do juiz. Basta convencê-Io a realizar nosso casamento e pronto. Quando Eulália aparecer, estaremos casados. Não haverá nenhum escândalo e tudo estará resolvido. Poderemos fazer todo o tratamento de Liana livremente. - Você está disposto a casar-se com ela? Não está indo longe demais? - Não. Será a única forma de fazer com que ela saia de lá e sua família deixe de intervir diretamente na vida dela. Só precisamos do juiz. - Só há um problema. Casamento não se faz assim, de um dia para o outro. Há que ter certo tempo para os papéis. - Não se você convencer o juiz e garantir que somos ambos livres. Tenho documentos em ordem. Sou viúvo. Liana é muito conhecida e é solteira. Acho que será a única forma de a retirarmos daquela casa. - O professor tem razão - concordou Adélia. - Otaviano é seu amigo de longa data. Se você pedir, contar por quê, ele faz. - Posso tentar. Mas pode demorar. Anita disse que é urgente. - Precisamos fazer isso. A meu ver, é o único caminho - tornou Alberto. - Amanhã cedo vou procurá-lo. Assim que tiver alguma notícia, eu aviso. Eles se despediram e Alberto custou a dormir, imaginando como faria para tirar Liana daquela casa sem que os outros soubessem. 181 No dia seguinte, Alberto esperou ansiosamente notícias do médico. Ele passou em sua casa ao meio-dia. Depois de fazê-Io entrar, Alberto perguntou: - E então? - Bem, ele a princípio recusou. Tem amizade com Norberto e receia que ele não aprove o casamento. Contei-lhe uma história que me ocorreu na hora. Deus vai me perdoar a mentira. Alberto sorriu: - O que foi que disse? - Que vocês estão apaixonados. Como Liana rompeu o noivado para se casar com você, a família dela é contra porque Mário os ameaçou de morte. Esse é o motivo pelo qual vocês desejam casar-se à noite, às escondidas, para evitar a ira do engenheiro. Vendo o caso consumado, ele terá de se conformar. - Puxa, você é bom nisso! Eu sou o escritor e você é quem tem a melhor história. - Bom, aí ele concordou. Conheço Otaviano. É um romântico. Até há pouco tempo fazia serenatas no meio da noite. Depois, eu não podia dizer que estávamos fazendo tudo isso por causa dos espíritos. Ele é descrente. Ia pensar que estamos loucos e se recusar. - Fez muito bem. - Só que não dá para ser hoje à noite. Temos de apanhar os documentos e levar para ele preparar tudo. Terei de assinar como testemunha de que vocês são livres e podem se casar. - Meus documentos posso dar já. Os de Liana tenho de conseguir. - Como pensa convencê-Ia a participar? Acha que ela vai concordar com isso? - Creio que sim. Alberto apanhou todos os seus documentos e entregou-os ao médico. - Vou para a mansão daqui a pouco. Hoje à tarde mesmo levarei os documentos dela em sua casa. - Estarei esperando. Enquanto Alberto se dirigia à mansão, ia pensando numa forma de conseguir o que pretendia. Não sabia onde Eulália guardava os documentos de que precisava. Talvez as crianças pudessem ajudar a descobrir. Uma vez reunido com eles na sala de aula, Alberto começou: - Nós somos amigos e sei que posso contar com vocês. Eu e o Dr. Marcílio estamos empenhados em ajudar Liana. Ela está pior a cada dia. - É a alma do coronel que a está perturbando - disse Nico. 182 - Ele garantiu que vai levá-Ia com ele - interveio Eurico. - Você acha que ele tem esse poder? - Eu não quero que ele leve tia Liana embora! - lamentou-se Amelinha com voz chorosa. - O Dr. Marcílio sabe lidar com esses casos. Faz sessões em sua casa e tem a ajuda de alguns espíritos bons. Nós fizemos uma consulta para Liana e eles nos disseram que precisamos tirá-Ia desta casa o quanto antes. - Ela não quer ir - disse Amelinha. - O coronel não deixa - ajuntou Eurico. - Foi isso mesmo que disseram na sessão. Mas eles vão nos ajudar para conseguir isso. Alberto contou seu plano, finalizando: - O juiz concordou em fazer os papéis, mas preciso levar os documentos de Liana. - Mamãe guarda todos os documentos na gaveta da escrivaninha - disse Amelinha. - Tia Liana já sabe que você quer se casar com ela?- perguntou Eurico. - Ainda não. Pretendo conversar com ela ainda hoje. - E se ela disser não? - ponderou Amelinha. - Ela deseja melhorar. Vai dizer sim - contrapôs Alberto. - Mamãe vai ficar furiosa! - disse Amelinha. - Ela não vai poder fazer nada quando descobrir que já estão casados. O difícil vai ser tirar tia Liana daqui. Se vocês vissem a cara do coronel quando diz que não vai deixar. - Eu sei, Eurico. Mas nós temos fé em Deus. Depois, os bons espíritos prometeram nos ajudar. Só preciso que vocês peguem esses documentos ainda hoje. - Eu vou fazer isso - propôs Amelinha. - Quando você vai falar com tia Liana? - perguntou Eurico. - Hoje, depois de nossa aula. - Não vou conseguir prestar atenção em nada, com tudo isso acontecendo aqui! - tornou Amelinha. - Será que a alma do coronel vai aparecer de novo para ela? - Ele que não apareça para mim! Não quero mais ver a cara dele - reclamou Eurico. - Pois eu queria muito o ver - disse Nico. - Não tenho medo. Se ele aparecer, vou dizer-lhe poucas e boas. Onde já se viu judiar da Liana, sempre tão boa? 183 - Não é hora de brigar, Nico. Todos precisamos agora é rezar para que dê tudo certo. A alma do coronel é atormentada e precisa muito de oração. Vamos ajudá-Io a sentir o quanto está se prejudicando. - Agora mesmo vou ver se posso pegar esses documentos - disse Amelinha. - Cuidado. Sua mãe não pode perceber nada. Vamos agir como sempre. Esse é mais um segredo nosso. - Você vai se casar com minha tia e vai ser meu tio. Que bom! tornou Amelinha, alegre. - Você a ama? - indagou Eurico. - Eu gosto muito de Liana. Mas nosso casamento não é de amor. Não estamos namorando, se é isso que quer saber. Só vamos nos casar no papel, por causa da maldade das pessoas. Se ela for morar em minha casa sem se casar, todos, a começar por sua mãe e seu pai, vão pensar que estamos agindo mal. Temos de casar para que nos deixem em paz e ela possa fazer esse tratamento. - Se a Dona Eulália aceitasse o tratamento com os espíritos, vocês não iam precisar se casar - disse Nico. - Isso mesmo. Eu gosto muito de Liana e desejo que ela fique bem. Quero levá-Ia para minha casa para poder ajudá-Ia do jeito certo. - Mamãe vai se zangar. E se ela não deixar mais você vir aqui para dar aula? - perguntou Amelinha. - Se ela fizer isso vai se arrepender - disse Eurico. - Vou ficar doente de novo. - Você não precisa adoecer para conseguir o que quer. Pode fazer isso de outra forma. - Como? Ela nunca me escuta! Nunca acreditou que eu vejo alma do outro mundo! - É difícil para ela. Com o tempo ela vai saber que tudo quanto você dizia era verdade. Agora vamos estudar. - Vai ser difícil prestar atenção. Minha cabeça está fervendo! retrucou Amelinha. - A minha também - disse Eurico. - Temos de fazer tudo como sempre. Ninguém pode desconfiar de nossos planos. - O professor tem razão - concordou Nico. - Temos que enganar até a alma do coronel. - Será que ele não está ouvindo nossa conversa? - perguntou Amelinha. 184 Não o estou vendo aqui agora - garantiu Eurico. - Vamos pedir a Deus que ele não perceba - disse Alberto. Quando terminou a hora da aula, Alberto disse que iria conversar com Liana e enquanto isso Amelinha cuidaria de pegar os documentos da tia. Alberto encontrou-a na sala estendida no sofá, tendo nas mãos um livro que nem sequer abrira. Vendo Alberto aproximar-se, Liana tentou sorrir. - Como vai? - indagou ele com interesse. - Bem. E você? - Vim para conversar. Onde está Eulália? - Na copa com Hilda. - Temos de falar a sós. É importante. Gostaria de andar um pouco pelo jardim? Ela suspirou desanimada: - Estou tão cansada! Não pode ser aqui? - A tarde está muito bonita. Um pouco de ar far-Ihe-á bem. Você tem ficado muito dentro de casa. - Não tenho ânimo para sair. - Poderemos nos sentar no caramanchão. Venha. Vou ajudá-Ia a levantar-se. Ele apanhou sua mão e ajudou-a a levantar-se. - Estou tonta - reclamou ela, apoiando-se nele. - Segure-se em meu braço. Vamos andar um pouco. Ela obedeceu e saíram. Alberto acomodou-a no banco do caramanchão e sentou-se a seu lado, fitando-a penalizado. Liana emagrecera bastante. Seu rosto estava pálido, olhos encovados, lábios sem cor. Estava muito diferente da moça cheia de vida que ele conhecera ao chegar ali. Sentiu que não havia tempo a perder. Depois de uma ligeira olhada para ver se não havia ninguém por perto, foi direto ao assunto: - Fiz uma consulta para você na sessão na casa do Dr. Marcílio. Eles confirmaram tudo quanto Eurico tinha dito sobre a alma do coronel. - Então é mesmo verdade? - Claro. Ninguém lá sabia que Eurico o havia visto. - Que horror! Eu não quero ver aquele homem horrível outra vez. Só em pensar nisso fico gelada. - Calma, Liana. Os bons espíritos prometeram nos ajudar a libertá-Ia dele. Vão ajudá-Io também a esclarecer-se. Ele está iludido, preso no passado. Agora é hora de resolver problemas que vocês não conseguiram solucionar em outras vidas. 185 - Custo a crer! Eu nunca vi esse homem antes! - Isso não importa agora. O importante é que ele se agarrou a você e está sugando suas forças e você não está conseguindo libertar-se. - Eu não quero que ele fique perto de mim. - Para isso é preciso que você saia desta casa o quanto antes. Uma vez fora daqui, que seja tratada pelo Dr. Marcílio, que conhece esse assunto, e pelos bons espíritos que o ajudam. - Não posso sair daqui! Alberto apanhou a mão gelada de Liana e apertou-a com carinho: - Pode e vai sair amanhã à noite. O Dr. Marcílio e eu temos um plano para que você se liberte logo. Amanhã à noite virei buscá-Ia sem ninguém saber e você irá para minha casa. Lá, um juiz estará com os papéis prontos e fará nosso casamento. Você ficará morando comigo, até ficar em condições de cuidar de sua própria vida. Será um casamento de aparência. Para todos, estamos apaixonados, mas na intimidade, seremos como irmãos. Dessa forma, você estará livre de todos os problemas que a afligem e com sua situação regularizada perante sua família. - Eulália vai ficar furiosa. - Norberto mais ainda. Apenas no princípio. Depois, com o tempo, tudo se normalizará. Afinal, eles desejam sua felicidade. - Não sei... é arriscado. Não posso envolver você em meus problemas. - Já me envolvi o suficiente. Não tolero vê-Ia definhar dessa forma. Gosto muito de você. Deixe-me devolver-lhe a alegria e o bem-estar que você merece. - Só em pensar em sair daqui, me dá um medo... - Eu sei. Mas a meu lado nada de mau vai acontecer. Não a deixarei um minuto sequer. Liana apertou a mão dele com força: - Meu Deus! Estou me sentindo tão fraca! - Você não é fraca. Ao contrário. Você é forte. Vai conseguir sair dessa, com ajuda de Deus. - Não sei, não... - Diga que sim e eu tomarei conta de tudo. - Está bem. Irei. Quero terminar com essa situação, ainda que seja às custas da própria vida. - Você vai viver saudável e feliz. Amanhã depois da aula conversaremos para acertar o horário em que virei apanhá-Ia. É absolutamente necessário que guarde segredo. As crianças sabem e estão nos ajudando. 186 Mas não convém conversar sobre isso, alguém pode ouvir. Todo cuidado é pouco. - O que eles dizem? - Eles a amam muito e querem vê-Ia boa. - Nunca pensei chegar a este ponto... - Não se lamente. Você é muito querida e tem muitos amigos. Agora vamos voltar para a sala antes que alguém desconfie. Ela se apoiou no braço dele e dirigiram-se para a casa exatamente no momento em que Eulália saía olhando atenta para todos os lados. Vendo-os, suspirou: - Não a vi na sala e fiquei preocupada. Está bem? - Estou melhor, obrigada. - Liana precisa sair um pouco, respirar ar puro. - Ele tem razão, Liana. Eu insisto, mas ela não quer. Ele a conduziu até o sofá na sala, e quando estava se despedindo Nico apareceu perguntando: - O senhor vai passar perto da casa da minha mãe? - Vou, Nico. Quer carona até lá? - Quero. Posso ir, Dona Eulália? - Pode. Só não volte muito tarde. Eurico fica impossível enquanto você não chega. Nunca vi. Parecem irmãos siameses. Vivem um grudado no outro. - Não demoro. Vejo a minha mãe e volto logo. Quando estava no carro, Nico tirou um envelope do bolso e entregou-o ao professor. - Veja se são esses os documentos que precisa. Ele verificou e sorriu satisfeito: - Está tudo certo. Quem pegou? - A Amelinha. Ela é danada de esperta. Enquanto o Eurico dava trabalho para a Dona Eulália na cozinha, ela subiu e pegou tudo. Ninguém percebeu. - Ela é muito esperta. - E a Liana, concordou? - Relutou um pouco, mas concordou. Amanhã, quando todos estiverem deitados, voltarei para buscá-Ia, sem ninguém saber. Vou precisar da ajuda de vocês. Na aula de amanhã combinaremos tudo. Tenho de ver com o Dr. Marcílio o que é melhor fazer. - Puxa vida! O Eurico e a Amelinha vão gostar de saber. Eles pediram que eu perguntasse tudo. 187 - Diga-Ihes que está tudo combinado. Amanhã trataremos dos detalhes. Depois de deixar Nico em casa, Alberto dirigiu-se à casa de Marcílio. Entregou-lhe os documentos com satisfação. - Está tudo combinado. Liana aceitou. As crianças estão nos ajudando. - Como pensa tirá-Ia de lá? - Amanhã à noite, depois que todos dormirem, irei buscá-Ia. Ficarei esperando do lado de fora. Vou pedir para Nico me fazer um sinal quando todos estiverem dormindo. - Precisa ir prevenido. Fazer prece antes. O coronel Firmino pode tentar impedir que Liana saia da casa. - De que forma? - Acordando alguém, aparecendo novamente para ela, ou mesmo fazendo-a perder os sentidos. - Nesse caso seria melhor que você fosse comigo. - Posso ir. O juiz ficou de estar em minha casa lá pelas nove horas. - É cedo. Eulália pode estar acordada ainda. - Ele sabe que vocês vão fugir. Vai ficar esperando o quanto for preciso. Aliás, Adélia já preparou alguns quitutes e uma cervejinha gelada do jeito que ele gosta. - Está bem. Combinado. Passarei em sua casa às nove e iremos juntos até a mansão esperar o sinal. Quando Alberto chegou em casa, foi ao quarto verificar se tudo estava em ordem. Desde que tivera a idéia de levar Liana para sua casa, transformara o quarto de vestir em um quarto de hóspedes. Mandara limpar tudo com carinho. No dia seguinte compraria flores para colocar sobre a cômoda. Queria que Liana se sentisse confortável em sua casa. Deitou-se mas não conseguiu dormir. Sentia-se emocionado e inquieto. Mais uma vez sua vida estaria se modificando na noite seguinte. Não tinha dúvida de que conseguiriam libertar Liana do assédio do coronel. Mas, quanto aos problemas íntimos que Liana carregava dentro do coração, só ela poderia resolver. Para isso precisava deixar o passado ir embora e retomar a alegria de viver. 188 Capítulo 14 Na tarde seguinte, quando o professor chegou à mansão, encontrou as crianças ansiosas para saber os detalhes do plano daquela noite. - Vamos precisar da ajuda de vocês - disse ele. - Chi!... Ninguém pode saber. Se mamãe descobre... - lembrou Amelinha. - Não seja boba, ela não vai saber. Nós não vamos contar - garantiu Eurico. - E, depois, se ela descobrir já será tarde. Eles estarão casados e pronto. - A ajuda que vou precisar é pouca. Ninguém vai descobrir, a não ser que vocês contem. - Como vai ser? - perguntou Nico. - Hoje, mais ou menos às nove, eu e o Dr. Marcílio viremos para buscar Liana. Ficaremos na rua dos fundos esperando todos irem dormir. Aí é que precisamos de ajuda. Vocês vão para a cama como sempre, mas fiquem acordados esperando. Quando perceberem que todos já se recolheram e todas as luzes se apagaram, acendam e apaguem a luz do quarto de Eurico três vezes. Esse é o sinal. Assim saberemos que é hora. Vão avisar Liana e ajudem-na a sair. - E se o coronel aparecer e ela não puder ir? - perguntou Eurico. - Nesse caso vocês tornem a dar o mesmo sinal e nós entraremos para buscá-Ia. - E a porta? Hilda costuma fechá-Ia bem -lembrou Amelinha. - Eu posso descer e abrir para vocês - propôs Nico. - Não. Eu vou. Se mamãe descobre que foi você quem abriu a porta, pode não deixar mais você ficar aqui. Sabe como ela é. Comigo não vai poder fazer nada - interveio Eurico. - Aprecio sua coragem, Eurico. Acho que tem razão - concordou Alberto. - Não tenho medo - disse Nico. - Para ajudar a Liana faço tudo. Depois, sei como andar sem fazer barulho. Ninguém vai saber que fui eu. - Bom. Isso só vai acontecer no caso de Liana ter dificuldade em sair. Por isso o Dr. Marcílio virá junto. Deus vai nos ajudar. Vai dar tudo certo. - Ela vai ter que arrumar uma mala. Vou ter que ajudar a carregar, ela está tão fraca... -lembrou Nico. 189 Não se preocupe com isso. Ela não precisa levar nada. O principal é sair e nos casarmos esta noite. Amanhã, quando todos souberem, viremos buscar os pertences dela. - Puxa! Eu queria estar lá na hora do casamento! - lamentou-se Amelinha. - Vai ter bolo de noiva? - Deixe de ser boba - tornou Eurico. - Eles vão se casar sem nada disso. - Vai ter bolo, sim. A esposa do Dr. Marcílio preparou uma comemoração ligeira. É mais para comemorar a libertação de Liana. - Está vendo só? - rebateu Amelinha. - O bobo é você. Todo casamento tem bolo e eu queria comer um pedaço do bolo de casamento de tia Liana. - Não sei como as coisas estarão amanhã. Mas se der jeito trago ou mando um pedaço do bolo para vocês. Afinal, sem a ajuda que nos deram, seria muito difícil conseguirmos realizar nossos planos. Após a aula o professor despediu-se, lembrando: - Agora vou falar com Liana para confirmar os detalhes. Estamos combinados. Quando todos estiverem dormindo e todas as luzes apagadas... - Nós acendemos e apagamos a luz de meu quarto três vezes. - Aí vamos ao quarto da tia ajudá-Ia a sair ao encontro de vocês... - completou Amelinha. - Se houver alguma dificuldade, repetimos o sinal e vamos abrir a porta para que vocês entrem para buscar a Liana. - finalizou Nico. - É melhor abrirem a porta dos fundos. Fica mais perto do local onde estaremos esperando - lembrou Alberto. Ele saiu, dirigindo-se até a sala onde Liana costumava ficar. Porém Eulália estava com ela. Após os cumprimentos, ele disse com naturalidade: - Sente-se melhor, Liana? - Sim - respondeu ela com voz fraca. - Estou aqui tentando convencê-Ia a consultar o Dr. Caldas em São Paulo. Poderemos ir neste fim de semana com Norberto. - Não quero ir, Eulália. Não tenho nada. Só estou um pouco cansada. Logo estarei bem. Você vai ver. - Ajude-me a convencê-Ia, professor. Ela quase sempre ouve o que você diz. - Você precisa se cuidar - disse ele. - Fazer aquele tratamento de que eu lhe falei. Garanto que vai ficar boa. - Que tratamento? - quis saber Eulália. - Um método novo que associa psicologia e medicina. 190 - Ainda acho que seria melhor o Dr. Caldas, que é médico de nossa família - assegurou Eulália. - Você não pode continuar assim, desse jeito. Estou resolvida. Se não quer ir a São Paulo, vou pedir a Norberto que traga o Dr. Caldas aqui neste fim de semana. Hilda apareceu na porta dizendo nervosa: - Dona Eulália, Eurico está impossível! Não quer tomar banho nem trocar de roupa. Só está brigando com Amelinha. Eulália levantou-se imediatamente: - Esse menino! A cada dia fica mais desobediente! Com licença, professor. Alberto acenou ligeiramente com a cabeça concordando, mas sorriu ligeiramente. Estava claro que Eurico estava fazendo manha para atrair a atenção da mãe e ele poder combinar tudo com Liana. Assim que a viu distante discutindo na cozinha com Eurico, Alberto foi direto ao assunto: - Liana, está tudo pronto para esta noite. Depois que todos estiverem dormindo, eu e o Dr. Marcílio viremos buscá-Ia. Ficaremos esperando junto ao portão dos fundos. As crianças irão a seu quarto avisá-Ia quando chegar a hora. É só vir ao nosso encontro e cuidaremos de tudo. Ela suspirou e não escondeu a preocupação: - Não sei... Será preciso tudo isso mesmo? É melhor esperar um pouco mais... - É preciso e urgente. Não tenha medo. Vamos cuidar de você com muito carinho. O Dr. Marcílio, Dona Adélia, eu. Você ficará bem e dentro em breve estará livre do mal que a vitimiza. Só precisamos que confie em nós e coopere, aceitando a ajuda que oferecemos de coração. Temos pouco tempo. Eulália pode voltar a qualquer momento. Esteja pronta, que esta noite mesmo sairá desta casa. Diga que concorda. - Está bem. Sinto-me atordoada. Não estou em condições de pensar. Minha cabeça está pesada. Farei o que você pede. - Isso mesmo. Estou certo de que não se arrependerá. Maria apareceu na.sala trazendo uma bandeja: - Aceita um café, professor? - Aceito, obrigado. Eulália voltou à sala e após o café Alberto despediu-se. Eulália acompanhou-o até a porta. - Estou muito preocupada - disse. - A cada dia que passa Liana fica mais abatida. Não sei mais o que fazer. - Já experimentou rezar? 191 - Rezar? Não sabia que você era uma pessoa religiosa. - Não sou, Eulália. Mas a ligação com Deus, a prece sincera acalma, ajuda e muitas vezes resolve nossos problemas. Eu tenho fé. - Essas palavras, vindas de um professor, me surpreendem. - Por quê? Não sou só professor, mas uma pessoa que sente, que pensa. Deus vai ajudar Liana a recuperar a saúde. Tenho certeza. Tenha fé. - Seguirei seu conselho. Até amanhã, professor. No caminho de casa, Alberto repassava o plano de logo mais. Se alguma coisa desse errado, tudo estaria perdido. Eulália não o deixaria mais freqüentar a casa, tinha certeza. Por isso, eles precisavam tomar o máximo cuidado. O espírito do coronel poderia estar trabalhando no sentido oposto. O tempo custava a passar e ele esperava ansioso a hora marcada. Em sua casa tudo estava em ordem. Dona Adélia estivera lá durante o dia arrumando tudo para a cerimônia daquela noite. Apesar das circunstâncias, ela achava que uma noiva é uma noiva e precisava ter um mínimo de atenção: as flores na mesa onde o juiz faria o casamento, o buquê para a noiva segurar, o brinde com champanhe e o bolo. Se a tivessem deixado, teria até arranjado um vestido de noiva com véu e grinalda, o que AIberto a fez desistir de fazer. Às cinco para as nove, Alberto estava na casa do médico. Confirmados os detalhes, os dois saíram. Dentro em pouco o juiz deveria chegar e Adélia se encarregaria de acompanhá-Io até a casa do professor, onde esperariam a chegada dos noivos. Ela sabia que eles poderiam demorar, por isso havia deixado tudo pronto para que o juiz esperasse sem reclamar. A cervejinha gelada, os salgadinhos de que ele gostava e até o doce de leite especial de minas servido com queijo meia cura. Quando eles chegaram ao portão dos fundos da mansão, havia luz em algumas dependências da casa, e eles, dentro do carro, se dispuseram pacientemente a esperar. Pouco a pouco as luzes foram se apagando. Até que, por fim, viram o sinal combinado. As crianças haviam esperado no quarto de Eurico. Amelinha não se conformara em ficar sozinha em seu quarto e, assim que pôde, juntou-se a eles. Não queria perder nada. Quando acharam que era hora, deram o sinal combinado e foram pé-ante-pé até o quarto de Liana. Abriram a porta com cuidado e entraram. Ela estava deitada e parecia dormir. Eurico aproximou-se, tocando-a levemente. 192 - Tia Liana! Acorde. Está na hora. De repente, ele deu um pulo para trás, agarrando Nico: - Ele está aí. Segurando-a! - O coronel? - perguntou Nico, assustado. - Sim. Ele está me ameaçando e disse que não vai deixá-Ia sair. Está nos mandando embora. - Ele não pode fazer isso - garantiu Nico. - Mas ele está - reclamou Eurico com voz trêmula. - Eu vou embora. Não vai adiantar nada. Ele não vai deixá-Ia sair daqui. - Pois eu não tenho medo dele. Ela vai sair e pronto. Vamos voltar para o seu quarto e avisar o professor. - Eu também vou - disse Amelinha. - Não quero ficar aqui com ele. - Cuidado com o barulho. Venham. Voltaram ao quarto e deram o sinal. - Agora temos que abrir a porta dos fundos para eles entrarem disse Nico. - Eu vou. - Eu prometi, mas não quero ir sozinho. - Eu também - tornou Amelinha. - Vamos todos. Mas, pelo amor de Deus, sem fazer barulho. Cuidado quando descer a escada. Tem aquele degrau que range. Vamos devagar. Nico foi na frente, andando com cuidado, Eurico agarrado nas costas dele e Amelinha no braço do irmão. Chegaram à porta dos fundos, saíram pelo jardim e foram ao portão combinado, onde Alberto e o médico esperavam. - Onde está Liana? - perguntou o professor. - O que aconteceu? - Ela está dormindo e não quer acordar - respondeu Nico. - Eu vi a alma do coronel segurando-a. Ele me ameaçou e nos mandou embora. Disse que não vai deixá-Ia sair. - Vamos entrar - disse Marcílio. - Cuidado com o barulho. Ninguém pode acordar agora. Subiram cuidadosamente até o quarto onde Liana continuava dormindo. - Feche a porta com cuidado - recomendou o médico. - Ele a está segurando - disse Eurico. - Disse que vai derrubar o primeiro que tocar nela. - Vamos rezar e pedir a ajuda de nossos amigos espirituais. O médico começou a proferir uma prece em voz baixa. Em certo momento, Nico não se conteve. Aproximou-se de Liana dizendo: 193 - Eu não tenho medo dele. Vou acordá-la, sim. - Não faça isso. Ele disse que vai pegar você - advertiu Eurico, assustado. - Pois a mim ele não engana. Estou com Deus e nada é mais forte do que eu agora. Enquanto Eurico torcia as mãos nervoso, Nico aproximou-se de Liana, sacudindo-a. - Acorde, Liana. Está na hora. Não o deixe dominar você. Ela abriu os olhos sem perceber o que estava acontecendo. Nico continuou: - Venha. Ele não tem nenhum poder sobre nós. Eu ajudo você. Ao mesmo tempo ele a sacudia e ela se esforçava para acordar e perceber o que estava acontecendo. - Ele está ameaçando você - disse Eurico. - Repita o que ele está dizendo - pediu o médico. - "Eu pego você. Você já me fez sofrer muito, mas desta vez vai me pagar. Eu me vingo de tudo. De você e de Mariinha. Não é justo. Deixe minha mulher em paz. Ela é minha." - Vamos continuar rezando - pediu o médico. - Aquela mulher que sempre vem chegou e está pegando-o pelo braço. Ela sorriu para mim e disse que vai levá-lo embora. Está agradecendo minha ajuda. - Graças a Deus! - disse o professor. - Vai ficar tudo bem - concordou Marcílio. - Ela o levou embora - disse Eurico. Marcílio abraçou Eurico com carinho: - Meu filho, Deus o abençoe. Sua ajuda foi preciosa. Esse dom que você tem é uma bênção de Deus. Nunca se esqueça disso. Eurico sentiu as lágrimas virem aos olhos. Nunca ninguém falara nada assim para ele. Tentou disfarçar: - Nico é muito corajoso. - De fato. Todos vocês estão nos ajudando muito. Alberto conversava com Liana, que, embora ainda estivesse tonta e meio fora de si, obedeceu ao que eles disseram. Conforme o combinado, ela havia dormido vestida e por isso foi fácil prepará-la para sair. Amelinha calçou os sapatos na tia enquanto os dois meninos saíram no corredor para verificar se não havia ninguém. Tudo estava calmo e às escuras. Ninguém havia acordado. Com cuidado eles saíram com Liana. 194 O caminho até o portão dos fundos pareceu muito mais comprido do que de costume. Uma vez lá, as crianças beijaram-na com carinho e emoção. - Tia Liana, quero ver você curada! - disse Eurico. - Eu queria tanto ver seu casamento! - comentou Amelinha. - Você vai ficar bem e será feliz! - garantiu Nico. - Amanhã vocês fingem que não sabem de nada. Não quero que sofram nenhum castigo - recomendou o professor. - Ninguém vai desconfiar - garantiu Eurico. - Quero só ver a cara de mamãe quando souber! Vai ser uma bomba! - Não podemos despertar suspeitas. Eles terão que descobrir sozinhos onde ela está. Ninguém vai falar nada, está bem? - disse Nico. - Isso mesmo. Não quero envolver vocês nisso. Eu assumo tudo sozinho - declarou Alberto. - Agora vão deitar antes que alguém acorde. Cuidado com o barulho. - Você vai nos dar notícias? - pediu Eurico. - Contar como foi o casamento? - tomou Amelinha. - Se for difícil para ele, eu venho e conto tudo quando sua mãe não estiver por perto - garantiu Marcílio. - É o mínimo que podemos fazer depois do que vocês fizeram. - E o bolo? -lembrou Amelinha. - Darei um jeito de mandar - disse o professor. - Agora, vão. Eles entraram, fecharam a porta e os dois, amparando Liana, entraram no carro dirigindo-se à casa de Alberto. Durante o trajeto, o médico foi segurando a mão de Liana e rezando em pensamento. Aos poucos ela foi recuperando a lucidez e ao chegar à casa de Alberto sentia-se mais animada. Adélia, depois de abraçá-Ia, conduziu-a para o quarto de hóspedes, onde ela deveria ficar. Lá já havia um lindo vestido que ela providenciara para a ocasião. - Vamos, Liana. Hoje é um grande dia. Precisa vestir-se de acordo com a ocasião. - Estou nervosa. Eulália vai ter um grande desgosto quando descobrir. O que estamos fazendo não é direito. Ela é como se fosse minha mãe. Não vai me perdoar nunca. - Bobagem. O que ela quer mesmo é que você fique bem. Depois do primeiro susto compreenderá. - Eu não tinha o direito de envolver Alberto em meus problemas. Ele pode ser prejudicado por esse casamento. 195 - Não vejo em quê. Ele gosta muito de você. Nunca pensou que ele pode estar apaixonado? Liana não respondeu. Ela sabia que o professor estava apenas desejando ajudá-Ia. Nunca notara nele qualquer indício de amor. Se isso fosse verdade, não teria concordado em casar-se com ele. O que a animava era justamente a idéia de que aquele casamento era apenas aparente. Depois de sua trágica aventura com o cunhado, Liana pensava que nunca mais seria capaz de amar ninguém. O arrependimento de seu ato impensado era maior do que qualquer sentimento que pudesse sentir por Norberto. O que ela desejava mesmo era viver em paz. Apesar do nervosismo, reconhecia que a proposta de Alberto a salvara de um casamento sem amor e da desagradável situação familiar. - Vamos. Vou ajudá-Ia a se preparar. Trouxe minha maleta de maquiagem. Você vai ficar linda! - Não é preciso. - É preciso, sim. Esse vestido eu comprei especialmente. É meu presente de casamento. O buquê, foi Alberto quem mandou fazer. Liana corou levemente. Deixou-se conduzir por Adélia, que a arrumou com carinho. Vendo-a pronta, deu um passo para trás para admirá-Ia. - Está linda, minha querida. Abraçou-a emocionada, continuando: - Algo me diz que você ainda terá muita felicidade. Liana sentia o coração apertado e tentou sorrir. - Agora vamos. Eles estão esperando. Liana entrou na sala com Adélia, e Alberto olhou-a surpreendido. Ela parecia outra pessoa. A maquiagem reavivara as cores de seu rosto, tornando-o menos abatido. - Liana já reviveu - comentou Marcílio com satisfação. A cerimônia foi realizada com simplicidade e, ao final, depois de os noivos assinarem o livro, o juiz foi o primeiro a desejar-Ihes felicidades. Depois dos cumprimentos e abraços de Marcílio, Adélia e Gislene, a empregada de Alberto, abriram uma champanhe e os noivos cortaram o bolo. Apesar do nervosismo, do receio e da insegurança que Liana sentia, o carinho daquelas pessoas fazendo tudo para que ela recuperasse a saúde e fosse feliz comovia-a muito. Sentia que eles estavam sendo sinceros, mostravam-se tão confiantes no futuro, que ela se esforçou para mostrar coragem e não os desapontar. 196 - Não podemos esquecer de mandar bolo para as crianças - lembrou Alberto. - Eu prometi a Amelinha. - Uma pena eles não terem podido vir. Estavam tão animados! Verão as fotos que tirei - respondeu Marcílio. Passava da uma quando todos se despediram. - Pode ir, Gislene. Obrigado por tudo - disse Alberto. - A senhora precisa de alguma coisa mais? - indagou ela a Liana. - Não. Obrigada, Gislene. Depois que ela se foi, Liana aproximou-se de Alberto: - Obrigada por tudo. Você foi além do que eu esperava. Nunca pensei que a cerimônia pudesse ser tão bonita. Depois, o carinho das pessoas, tudo... Não sei como agradecer o que está fazendo por mim. - Para mim não custou nada. Você agora está livre. Vai receber tratamento adequado, ficar bem e depois decidir o que quer fazer de sua vida. Estou feliz em tê-Ia em minha casa. Tenho certeza de que nos daremos muito bem. - E Eulália? O que fará quando descobrir? - Vamos tentar resolver o assunto com ela. Amanhã, quando acordarmos, iremos até lá contar-lhe a novidade. - Ela ficará furiosa. - Levaremos os documentos comprovando nosso casamento. Ela vai desabafar e depois perceberá que o melhor será aceitar. Ela a quer muito. - Não pode saber o verdadeiro motivo pelo qual eu quis sair de casa. - Não precisa saber. Diremos que nosso amor é tão grande que não pudemos mais esperar para nos casar. - Ela vai pensar que mantivemos um relacionamento íntimo. - Será melhor do que descobrir a verdade. Afinal, estamos casados, o que eliminará da cabeça dela qualquer julgamento ruim. Liana colocou a mão no peito, suspirando nervosa: - Não vou conseguir dormir. Estou tão inquieta... - É natural. O Dr. Marcílio deixou um vidro de calmantes na mesa de cabeceira, em seu quarto, com a receita indicando quantas gotas tomar. É suave, mas bom o bastante para você relaxar e dormir. Quer que eu o prepare? - Eu mesma farei. Obrigada. Você já fez demais por hoje. - Adélia foi tão gentil que, além do vestido, comprou traje de dormir, chinelos, escova de dentes. - São pessoas maravilhosas. - Amigos que desejam nos ver felizes. 197 Acompanhando-a ao quarto, Alberto perguntou: - Acha que ficará bem? - Sim. Pode ir descansar. - Não passarei a chave na porta de meu quarto. Se precisar de alguma coisa, se não se sentir bem, ou mesmo se não conseguir dormir, pode me chamar. - Obrigada, Alberto. Ele pegou a mão dela, apertando-a e dizendo: - Quero que se sinta bem aqui. Pode ter certeza de que tudo farei para vê-Ia feliz, saudável e em paz. Liana sorriu e respondeu: - Deus o abençoe pelo bem que me fez. Depois que ele saiu, ela fechou a porta e preparou-se para dormir. Sorriu ao vestir a fina camisola de seda cor de pérola, digna de uma noite de núpcias. Adélia sabia que aquele casamento não era de amor e que ela não teria nenhuma intimidade com o marido. Por que fizera questão de dar-lhe aquele presente? Estaria pensando que eles estivessem fingindo? Sorriu levemente, mas gostou do toque delicado da seda em seu corpo e da beleza de seu talhe, que vestiu como uma luva. Leu a receita, preparou o remédio e tomou-o. Depois se deitou. O calor das cobertas na cama macia, cheirando delicadamente a lavanda, foi-lhe muito agradável. Suspirou e apagou a luz do abajur. Um calor gostoso acometeu-a e quase sem perceber Liana deixou-se ficar sem pensar em nada e em seguida adormeceu. Acordou na manhã seguinte, e pelas frestas da veneziana percebeu que o sol já ia alto. Olhando o quarto, recordou-se do que acontecera na noite anterior e sentiu um aperto no coração. Eulália já teria dado por sua falta? Saltou da cama, vestiu o penhoar e foi ao banheiro. Ao passar pelo quarto de Alberto, viu que a porta estava aberta e ele já se havia levantado. O relógio da sala marcava dez horas, e ela se admirou. Dormira demais. Gislene, vendo-a, perguntou: - Dona Liana, quer tomar o café na sala ou no quarto? - Não se incomode. Estou sem fome. - O professor disse que a senhora precisa se alimentar bem. O que gosta de comer pela manhã? - Vou até a cozinha ver. Estou sentindo um cheiro tão bom de café. - Eu posso pôr a mesa na sala. - Não. Eu vou comer na mesa da cozinha mesmo. 198 Foi até a cozinha e sentou-se à mesa, enquanto Gislene colocava em sua frente, além do café com leite, várias guloseimas. - O pão está fresquinho. Fui pegar logo cedo. Apesar de não estar com fome, Liana tomou café com leite e comeu um pãozinho com queijo e manteiga. - A senhora não vai provar essa geléia de goiaba? Foi minha tia que fez. Está uma delícia. Liana experimentou um pouquinho, e estava mesmo deliciosa. AIberto aproximou-se, olhando-a satisfeito: - Você está com boa aparência. Dormiu bem? - Por incrível que possa parecer, desmaiei. Fazia tempo que eu não dormia tão bem. - Você vivia dormindo ultimamente. - Mas não do jeito que dormi esta noite. Eu dormia, mas ao mesmo tempo era um sono pesado, cheio de pesadelos. O remédio do Dr. Marcílio é milagroso. Tomei aquelas gatinhas e pronto. Só acordei agora. Ela acabou de comer e ele a levou até a sala, dizendo: - Nós havíamos planejado ir até a mansão, mas teremos de esperar. O Dr. Marcílio foi até lá falar com Eulália. - Aconteceu alguma coisa? - Ela logo cedo deu por sua falta e ficou desesperada. - Eu sabia!... - Aí, Nico, que não queria contar nada, telefonou discretamente ao Dr. Marcílio e ele foi até lá para explicar tudo. A esta hora, eles devem estar conversando. - Meu Deus! O que será que está acontecendo lá? - Marcílio passou por aqui a caminho da mansão e prometeu passar de novo quando sair de lá e contar tudo. De certa forma, será melhor ele conversar com ela primeiro. Quando formos lá, ela já estará mais conformada. - Não sei, não. Às vezes ela é tão radical. - Nada poderá fazer agora. Tudo está consumado. Norberto pode ficar mais revoltado do que ela. Ele tem ciúme de você. - É bom que ele pense que nos amamos e trate de esquecer aquele nosso deslize. Eulália nunca poderá saber de nada. - O passado está morto. Você está casada e eles pensam que você me ama. Tudo voltará ao normal, você vai ver. - O que faremos agora? - Teremos de esperar. Enquanto isso, venha até o escritório. Desejo mostrar-lhe as anotações de uma pesquisa que estou fazendo para o próximo livro. 199 Liana havia vestido a roupa com a qual saíra da casa da irmã na noite anterior, o que fez Alberto observar. - Quando as coisas se esclarecerem, iremos apanhar suas roupas e pertences na mansão. Se precisar, poderemos comprar alguma coisa enquanto isso. - Vamos esperar. Estou ansiosa para pedir a Eulália que me perdoe e não fique magoada comigo. Alberto concordou e levou-a ao escritório, fazendo-a sentar-se em uma poltrona. Em seguida apanhou algumas folhas de papel entregou-as a Liana, dizendo: - Leia e diga o que pensa. Enquanto ela mergulhava na leitura, ele se sentou em frente à maquina de escrever, colocou papel e começou a escrever. Marcílio chegou à mansão, pediu para falar com Eulália e foi logo recebido por ela. - Ainda bem que apareceu, Dr. Marcílio. Estou desesperada. Liana desapareceu. Não consigo encontrá-la. Ela não estava bem ultimamente. Ai, meu Deus! Aonde terá ido? Ela está fraca e não agüenta andar muito. Já procurei por toda parte. Em casa ela não está e ninguém a viu sair! - Acalme-se, Dona Eulália. Liana está muito bem. Estou aqui justamente para conversar sobre isso. - O senhor? Por quê? Ela piorou? - Ao contrário. Ela está muito bem e em boas mãos. - Não compreendo. - Posso explicar. Ela saiu de casa durante a noite para se casar. - O quê? Casar?! Tem certeza do que está afirmando? - Tenho. Fui padrinho de seu casamento ontem à noite. Ela está muito bem casada e feliz. Eulália olhou para ele sem entender. Ouviu mas não quis acreditar. - Não pode ser. Ela rompeu o noivado com o Dr. Mário e não tinha nenhum namorado. Como pode ter se casado? - Casou-se com o professor Alberto. - Com o professor? Não acredito! Assim, de repente, fugindo de casa no meio da noite como uma adolescente? Não pode ser verdade. Liana foi sempre muito cordata e obediente. Nunca me faria uma desfeita dessas! Logo com o professor! 200 - O coração tem suas razões, Dona Eulália. Nunca lhe ocorreu que Liana estava sofrendo por amor? - Como assim? - Estava noiva de Mário, mas amava Alberto. Esse conflito a estava infelicitando muito. - O que me diz? Por isso andava tão triste... Por que ela não me contou? - Ela achava que você preferia o Dr. Mário e não aprovaria a troca. - Nunca a obriguei a fazer nada que não quisesse. Fica parecendo que eu fui muito autoritária com ela. Isso não é verdade! - Nós sabemos. Liana tem por você muito amor e respeito, e só fala bem. Não foi por sua causa que ela resolveu casar-se de repente. - Não? - Não. Ela teve medo da reação de Mário. Ele ficou muito abalado com a desistência dela, suspeitou a verdade, ficou com raiva de AIberto. Acho até que ele o ameaçou. Para evitar uma briga entre eles, resolveu casar-se de surpresa. Com o casamento consumado, Mário terá de se conformar. - Ela poderia ter feito isso com ele, mas comigo não. Estou desapontada e muito magoada com essa atitude. - Ela nunca pretendeu magoá-Ia. Está apaixonada, quer ser feliz. Depois, disse que não queria um casamento pomposo, cheio de rituais. Sempre preferiu uma cerimônia simples. Eulália cobriu o rosto com as mãos e respirou fundo. - Isso me parece um pesadelo. Vou acordar de repente e encontrar Liana em seu quarto, como sempre. - Ela está muito feliz. Finalmente conseguiu o que desejava. Sua única preocupação é com você. Queria vir vê-Ia o quanto antes, mas não permiti. Afinal, foi sua primeira noite de núpcias. Não achei justo. Pedi a ela que me desse permissão para vir dar-lhe a notícia. - Eles me enganaram direitinho. O que dirá Norberto quando souber? Vai ser uma vergonha. - Eles estão casados, Dona Eulália. Não há nenhuma vergonha. Eu e Adélia fomos testemunhas, assinamos todos os documentos, e o juiz Otaviano oficializou a cerimônia. Eulália não conteve as lágrimas: - Um juiz! Junto com estranhos! Como ela pôde fazer isso comigo, sua irmã? - Ela virá aqui mais tarde para lhe explicar. 201 - Não é preciso. Se ela foi capaz de cuidar de tudo e se casar às escondidas, pode continuar sem mim pelo resto da vida. De hoje em diante não quero vê-Ia nunca mais! E esse professor traidor nunca mais porá os pés nesta casa! - Não leve as coisas dessa forma! Liana cuidou da própria felicidade. Ela tinha esse direito. Não deseja que ela fique curada? - A saúde de Liana não tem nada a ver com esse casamento equivocado. - Verá que tenho razão. Com a realização desse casamento, ela já melhorou de aparência. Não fique contra ela! Saiba compreender... - Não vou aceitar isso nunca. Esse traidor que foi recebido em minha casa como um amigo me apunhalou pelas costas. - Alberto é um homem correto. Seu filho melhorou muito com a convivência dele. Seja mais cordata. Saiba compreender a situação dela. Deixe-a vir explicar tudo e procure entender. - Não. Diga-lhe que fique onde está. De hoje em diante, esqueça que é minha irmã. Eles que não apareçam aqui. Não vou recebê-Ios. - Ela precisa vir apanhar seus pertences. Quer conversar com você. - Ela que fique por lá. Hoje mesmo vou arrumar todas as suas coisas e as mandarei entregar na casa do professor. - Está cometendo uma injustiça, Dona Eulália. Com certeza vai se arrepender. - Assumo a responsabilidade por meus atos. Não quero vê-Ia mais. Marcílio ainda tentou convencê-Ia a mudar de idéia, mas Eulália estava irredutível. Depois que ele saiu, reuniu os criados e disse com voz irritada: - Liana fugiu esta noite para se casar com o professor sem meu consentimento. De hoje em diante, tanto ela como ele estão proibidos de entrar nesta casa. Você, Hilda, arrume o que é dela e mande Nequinho levar tudo à casa de Alberto. - As crianças vão achar falta deles! - comentou Maria. - Eu mesma falarei com eles. Vocês estão proibidos de falar o nome deles aqui. Para mim os dois morreram. Quando ela saiu da sala, antes que Maria comentasse alguma coisa com a copeira, Hilda foi logo dizendo: - Vamos subir e arrumar tudo conforme Dona Eulália mandou. Não quero nenhum comentário com ninguém. Nós não temos nada com isso. Enquanto elas subiam para o quarto de Liana, Eulália ligou para Norberto. Apesar da força que fazia para suportar a situação, sentia-se agoniada, traída. 202 Tantos anos de dedicação, e Liana abandonara-a sem consideração. - Norberto, aconteceu uma coisa horrível! Gostaria que você viesse imediatamente. Estou desnorteada! - O que foi? Eurico piorou? - Não é nada disso. Liana fugiu de casa ontem à noite para se casar. Norberto guardou silêncio por alguns instantes. Ela repetiu: - Liana fugiu de casa e se casou. - Não pode ser! Casou-se como? Com quem? Mário não saiu de São Paulo. - Ela se casou com o professor. Os dois planejaram tudo com a cumplicidade daquele médico metido que teve a desfaçatez que vir hoje dar-me a notícia. Arranjaram um juiz, fizeram tudo às escondidas. Não posso me conformar. Tenho vontade de cometer uma loucura! Onde já se viu tanta ingratidão? - Tem certeza do que está dizendo? Você falou com ela, viu os documentos? Será que não estamos sendo vítimas de alguma mentira? - Por que fariam isso? Ela o mandou na frente para não ter de me enfrentar. Está lá, na casa de Alberto, casada desde ontem à noite. - Você precisa conversar com ela, saber se é verdade mesmo. Ninguém se casa assim, de repente. Essa história está mal contada. Vá até lá verificar a verdade. - Eu não. Proibi-os de entrarem aqui. Para mim, ela está morta. Não desejo vê-ia nunca mais. Se ela foi capaz de fazer tudo isso sozinha, não precisa de nós para nada. - Você está errada, Eulália. Liana não estava bem de saúde. E se eles a coagiram? Esse médico, você não gosta dele. Não terá dado a ela alguma bebida e induzido ao casamento? - Ele disse que eles se casaram por amor. Ela era noiva de Mário e gostava do professor. - Você acreditou em tudo que ele disse! Eu duvido. Temos o dever de verificar se tudo isso é verdade. Você não pode abandonar Liana confiando no que lhe contaram. Tem de falar com ela. - Não me sinto com coragem. Por que não vem para cá me ajudar? - Está bem. Vou ultimar alguns negócios e hoje mesmo estarei aí. - Estarei esperando ansiosa. Só você pode me ajudar nesta hora. - Acalme-se, Eulália. As coisas podem ser diferentes do que lhe contaram. - Não creio. Ele parecia tão convicto! 203 - As aparências enganam. Tenha calma, que logo estarei aí. Eulália desligou o telefone no momento em que as crianças entravam na sala. - O professor não veio para a aula hoje. Por que será? Ele nunca falta... - tornou Eurico, procurando esconder a curiosidade. - O professor não virá mais para aula nenhuma - respondeu Eulália com voz ríspida. - Foi despedido. - Despedido? - exclamou Amelinha. - Por quê? - Porque não serve mais para dar aulas aqui. Seu pai vai chegar hoje à noite e vamos arranjar outro professor para vocês. Esse não volta mais. - Eu não quero outro, quero o professor Alberto! - reclamou Eurico com voz chorosa. - Vão brincar agora. Aproveitem a folga. Depois falaremos sobre isso. - Onde está tia Liana? - perguntou Amelinha. - Ela viajou. Agora vão brincar e me deixem em paz. Tenho coisas importantes a fazer e não posso ficar jogando conversa fora. Os três saíram e foram para o jardim, sentando-se no caramanchão. - Mamãe já sabe e não quer nos contar - disse Amelinha. - Claro que sabe. O Dr. Marcílio ficou falando com ela um tempão. - Ela está com uma cara! Acho que não perdoou os dois. Ouvi quando ela conversou com o pessoal na cozinha e proibiu o professor e a Liana de vir aqui - esclareceu Nico. - Ela não pode fazer isso. Eles estão casados - disse Amelinha. - Se ela não deixar o professor vir para as aulas, vai ver comigo! - ameaçou Eurico com raiva. - Não seja vingativo. Minha mãe diz que a vingança só piora as coisas, porque o diabo escuta, fica do seu lado e sua vida só vai para trás - asseverou Nico. - Vire sua boca para lá! Não quero nada com o diabo. Cruz credo! Você nem sabe do que está falando. Nunca vê nada! - disse Eurico. - Não vejo e não tenho medo de nada. Nem do diabo. Estou com Deus e pronto. Ele me protege de tudo. - Nico não tem medo de nada. Não é como você... - Cale essa boca, Amelinha. Onde já se viu? Quando a alma do coronel aparecer, vou falar para ele vir puxar sua perna de noite. - Eu não quero que o coronel venha! Tenho medo! - choramingou ela. - Não faça isso com ela, Eurico. Minha mãe diz que quando você está amolando os outros, fazendo malcriações, está deixando o bem de lado. 204 E, quando você deixa o bem de lado, em sua vida só acontecem coisas ruins. - Então ela que me deixe em paz. Não fique me criticando. - Ela não vai mais fazer isso - respondeu Nico. - Temos que dar um tempo, ter calma, esperar que as coisas se acalmem. Sua mãe está muito chocada. Ela vai pensar melhor e mudar de idéia, vocês vão ver. - Espero que isso aconteça, senão vou fazer tudo de que ela não gosta - ameaçou Eurico. - Vamos esperar - contemporizou Nico. - Será que vão se lembrar do bolo? - disse Amelinha. - Estou pensando em sair hoje e ir até a casa do professor saber como estão as coisas - tornou Nico. - Ah, se eu pudesse ir com você... - respondeu Eurico. - Sua mãe iria desconfiar. Vou sozinho e depois conto tudo. - Quero saber todos os detalhes - exigiu Amelinha. - Pode deixar comigo. Não me esquecerei de nada. - Puxa, não vejo a hora que você volte! - exclamou ela. - Não sei por que minha mãe não me deixa sair com você pela cidade - disse Eurico. - Você já pediu para ir na minha casa comigo mas ela não deixou. Ela tem medo que você se sinta mal. - Estou muito melhor. Quero ir com você. - Vamos ver, Eurico. Agora com tudo isso acontecendo não é uma hora boa para tentar nada. Eu prometo que falo com ela quando tudo ficar mais calmo. Hilda apareceu no caramanchão chamando-os para almoçar. Eles obedeceram imediatamente. Queriam que o tempo passasse logo, para que Nico pudesse sair e saber as novidades. 205 Capítulo 15 No fim da tarde, assim que conseguiu sair, Nico foi até a casa do professor. Gislene abriu a porta, convidando-o a entrar. Alberto e Liana estavam conversando no escritório. Nico entrou e foi logo dizendo: - Vim saber como estão as coisas. - Não muito bem - respondeu Liana, triste. - Eu sei. A Dona Eulália ficou muito sentida. Mas isso passa, tenho certeza - tornou Nico. - Essa é minha opinião. Ela está chocada, mas vai passar. Logo tudo ficará bem - disse Alberto. - Conheço Eulália. Quando diz uma coisa, não volta atrás. - Ela chamou o Dr. Norberto. Ele vai chegar ainda hoje. Liana olhou para Alberto preocupada: - Como será que ele vai reagir? - Acredito que com mais bom senso que ela. Afinal, já estamos casados, e eles terão de se conformar. - Como foi o casamento? Os dois lá em casa estão doidinhos para saber todos os detalhes. Querem que eu pergunte tudo. - Foi uma cerimônia muito bonita. O Dr. Marcílio tirou algumas fotos e vai mandá-las a vocês quando estiverem prontas - contou Liana. - Oba! Eles vão ficar contentes, mas não vão agüentar esperar pelas fotos para saber tudo. Como é que foi? Alberto procurou descrever a mesa, os convidados, o bolo, até o vestido da noiva. - Nós guardamos um pedaço do bolo para vocês - lembrou Liana. - Vou ter que esconder. Se a Dona Eulália souber, vai brigar comigo - disse Nico. - Ela não precisa saber. Eu levo você de volta e daremos um jeito - propôs Alberto. - Ela disse que teremos outro professor. O Eurico está muito revoltado. Garantiu que de hoje em diante vai fazer tudo que ela não gosta. - Ele não deve fazer isso - disse Liana. - Foi o que eu disse para ele. Mas sabe como é: toda vez que não fazem o que ele quer, pronto: ele pinta o sete. 206 - Você, Nico, que é mais ajuizado, converse com ele, diga-lhe que tenha paciência. Vocês não podem parar de estudar logo agora que estão próximos dos exames - aconselhou Liana, preocupada. - Isso mesmo, Nico. Vocês precisam ter paciência, saber esperar. Logo tudo ficará bem. Eles conversaram mais alguns minutos, depois Alberto pegou a caixa em que estava acondicionado um grande pedaço do bolo, dizendo: - Vou levar Nico até a mansão. Volto logo. - Cuidado para que ninguém os veja juntos. Se Eulália souber que Nico esteve aqui, pode mandá-Io embora também. Sabe como ela é... - Não se preocupe, ninguém nos verá - garantiu Alberto. Liana levantou-se dizendo: - Espere um pouco. Foi até o quarto, apanhou uma pequena caixa e entregou-a a Nico: - Leve para Amelinha. É o enfeite que havia sobre o bolo. Quero que ela guarde como recordação. Que ela não deixe Eulália saber. Diga que estou morrendo de saudade dos dois. - Direi, sim, Liana. Quando eles saíram, Liana deixou-se cair pensativa em uma cadeira. Sentia-se triste. Por que se envolvera com o cunhado? Não fora isso, ela ainda estaria em casa com a família. Sentia-se triste e infeliz. Mas preferia isso a que um dia Eulália pudesse descobrir toda a verdade. E Norberto, como teria recebido a notícia de seu casamento? Teria entendido que ela o fizera para evitar novas tentações e para preservar o bem-estar da irmã e dos sobrinhos? Ou teria acreditado que ela estivesse apaixonada pelo professor? Era difícil dizer. Contudo, ela preferia que ele imaginasse que ela o houvesse esquecido. Dessa forma, nunca mais falaria do passado, e assim seria muito mais fácil esquecer. Já havia escurecido quando Alberto parou o carro no portão dos fundos da mansão. Nico desceu, e Alberto perguntou: - Como vai fazer com o bolo? - Pode me dar a caixa. Tenho um esconderijo aqui, do lado de fora. Eu e o Eurico o fizemos para guardar nosso tesouro. Deixo lá e depois, quando ninguém perceber, pego do lado de dentro. - Está bem. Sempre que for ver sua mãe, passe em casa para nos contar as novidades. - Vou ficar atento. Amanhã mesmo eu volto. - Não. Eulália pode desconfiar. Você tem de fazer tudo como sempre. 207 Precisamos ter cuidado. Se ela descobrir, você não poderá mais nos visitar. - Deixe comigo. Farei tudo direitinho. Só achei a Liana meio triste. Tem certeza que ela vai ficar feliz? - Tenho, Nico. Ela está triste por causa da família. Mas, se Deus quiser, logo tudo estará em paz. - Vou rezar para vocês serem muito felizes. - Obrigado, Nico. Você é um bom amigo. Depois de um abraço, Nico, segurando as caixas com cuidado, dirigiu-se a um ponto do muro, e, afastada uma planta com cuidado, apareceu uma abertura onde ele as colocou. Depois, acenando para Alberto, deu a volta e entrou no portão principal. Eles já haviam jantado. Sempre que ele ia visitar a mãe, jantava com ela, e por isso não guardaram nada para ele. Mas Nico não se importou. Estava com fome, mas pensava no bolo e sua boca enchia-se de água. Logo que se viu a sós no quarto de Eurico, este o cravou de perguntas, mas ele respondeu: - Vamos esperar a Amelinha, senão vou ter que repetir tudinho. - Vai demorar! Papai chegou e eles ainda estão conversando no quarto. A luz está acesa, dá para ver por debaixo da porta. - Você ouviu alguma coisa do que eles disseram? Prometi contar tudo que acontecer aqui para a Liana e para o professor. - Só sei que mamãe estava muito nervosa. Tentei ficar na sala, fingindo que estava brincando, mas ela me mandou embora. - Você não ouviu nada? - Ouvi-a reclamando de ingratidão, dizendo que não queria mais ver tia Liana. - E seu pai? - Ele dizia que não podia ser assim. Que ela precisava ir conversar com ela, saber a verdade, porque ela nunca dissera que gostava do professor. Sabe de uma coisa? - Não. - Ele desconfia que tia Liana se casou enganada. Que o Dr. Marcílio deu alguma droga para ela e quando ela acordou estava casada. - É nada. Ela se casou acordada, com vestido novo, buquê e tudo. Ele está enganado. A porta abriu-se e Amelinha entrou sussurrando: - Não agüentei esperar que eles apagassem a luz. Não param mais de conversar! Estou morrendo de curiosidade. 208 - Psiu! - fez Eurico. - Se mamãe vê você aqui, pode desconfiar. - Que nada. Ela está tão preocupada com o caso da tia que nem vai perceber. Depois, se ela vier, eu digo que estava com medo e pronto. - Vamos para o meu quarto. Fica mais longe do quarto deles - pediu Nico. - Assim você vai poder contar tudo - disse Eurico. - É. Vou falar bem baixo. Tem bolo e um presente que a Liana mandou para você, Amelinha. Depois que todos dormirem, iremos buscar. - Puxa, o que será? - exclamou Amelinha curiosa. - Coisas de mulher, com certeza - adiantou Eurico. - É. Acho que é. - Mas conte logo. Vamos... - pediu Amelinha. Os três sentaram-se na cama de Nico e ele contou tudo, fazendo suspense e detalhando um pouco mais para causar admiração. Eulália, em seu quarto, estava inconformada. Aquela história da paixão de Liana pelo professor não lhe saía da cabeça. - Pensando melhor, bem que eu desconfiei que ele andava de olho em Liana. Cheguei a comentar sobre isso. Você me tirou da idéia. - Não me pareceu verdade. - Mas era. Pensando melhor, recordo-me que ela vivia defendendo-o, dizendo que era um homem excepcional. Lia seus livros. Ele a envolveu. - Ainda não acredito que ela estivesse apaixonada por ele. - Tem de estar! Para ela fazer a loucura que fez... Como explicar essa fuga, assim, na calada da noite? Ela rompeu o noivado, estava livre, poderia ter dito que estava gostando dele. Por que não o fez? - Ela sabia que você não gostava dele e não aprovaria. - Se ela me houvesse consultado, eu teria feito tudo para impedir esse casamento. Um homem que já foi casado, que foi até suspeito de causar a morte de sua mulher. .. Acha que servia para marido de Liana? - Ela não pensava assim, uma vez que fugiu com ele. - Isso é o que me intriga. Ela estava tão enfraquecida. Não se importava com nada. Como encontrou forças para fazer o que fez? - É o que me intriga também. A cumplicidade do médico parece-me suspeita. Eles bem podem havê-Ia induzido, forçado o casamento. - Com que fim? Liana não tem fortuna própria. - O professor pode ter se apaixonado por ela e ter tramado tudo. É por isso que você não pode ser tão radical. Tem de procurá-la, saber como aconteceu e por quê. 209 - Não posso fazer isso. - É sua única irmã. Você tem o dever de saber como foi. Depois você toma a decisão que quiser. Mas temos de descobrir a verdade. Ela pode mesmo estar sendo uma vítima. - Você acha mesmo? - Acho. Amanhã você vai até a casa do professor e conversa com Liana. - Não. Na casa dele, não. - Talvez seja melhor chamá-Ia aqui. Ela queria vir e você não permitiu. - Não mesmo. Mandei arrumar tudo que é dela, e Nequinho vai levar amanhã logo cedo. - Não faça isso. Mande Nequinho dizer a ela que venha até aqui para conversarmos. Aqui teremos mais liberdade para dialogar. - Tem razão. Faremos isso. - Agora estou cansado. Vamos dormir. - Não sei se vou conseguir. Estou tão nervosa! - Acalme-se. Amanhã conversaremos com ela. Se o que penso for verdade, se ela foi coagida de alguma forma, trataremos da anulação do casamento. - Acha possível? - Acho. Seria a melhor solução. Pode ser até que a estas horas Liana já esteja arrependida e desejando voltar para casa. - Deus o ouça! Depois que eles se deitaram e apagaram a luz, Nico entreabriu a porta e, notando que estava tudo às escuras, disse baixinho: - Vou pegar as caixas. - Vou com você - respondeu Eurico. - Eu não fico aqui sozinha. Também vou - exclamou Amelinha. - Psiu!!! Querem acordar todo mundo? Vamos sem fazer barulho. Pé-ante-pé, saíram, apanharam as caixas e subiram novamente para o quarto. Assim que fecharam a porta, Amelinha disse: - Acenda o abajur. Quero ver o presente de tia Liana. Eurico obedeceu e ela abriu a caixa: sobre papel de seda branco estava um casal de noivinhos, e Amelinha não se conteve: - Que lindo! É do bolo da noiva! - Fale baixo, senão estamos fritos - pediu Nico. - Eu não disse que era coisa de mulher? - comentou Eurico. 210 - Eu também gosto. É muito bonito! - respondeu Nico. - É lindo! Olha só o vestido dela! Tem o buquê, a aliança, tudo. - É... reconheço que é bonito. Para um bolo de noiva até que fica bem - concordou Eurico. - Vamos comer o bolo. Estou morrendo de fome. Não jantei -lembrou Nico. Eurico pegou uma faca e cortou um pedaço e experimentou: - Está uma delícia! Os outros dois fizeram o mesmo. Comeram até se fartar. - Estou com sede - disse Amelinha. - Vou descer e beber água. - Não precisa. Escondi aqui duas garrafas de guaraná - tomou Eurico com satisfação. - Você pensa em tudo! - comentou Nico. - Bolo tem de ser com guaraná. Por isso, quando subi trouxe estas garrafas. Sabia que você traria o bolo e pensei na sede. - Fez muito bem - concordou Amelinha, bebendo alguns goles no gargalo da garrafa. Depois, limparam as migalhas que haviam caído no chão e esconderam no armário a caixa com a sobra que pretendiam comer no dia seguinte. Só depois de tudo arrumado foram cada um para seu quarto, satisfeitos e com sono. Na manhã seguinte, Nequinho foi à casa do professor levando um bilhete de Eulália para Liana, pedindo-lhe que fosse até lá conversar. - Dona Eulália pediu resposta - pediu Nequinho. - Espere um pouco. Já volto. Liana deixou Nequinho esperando na sala e foi falar com Alberto, que estava no escritório entregando-lhe o bilhete. - Norberto convenceu-a. Iremos, com certeza. Depois que Nequinho foi embora, Liana procurou Alberto. - Este bilhete me deixou nervosa. - Sem razão. Você não queria conversar com eles, tentar convencê-Ios a aceitar nosso casamento? - O que mais desejo é fazer as pazes com Eulália. Mas, não sei por quê, só em pensar em ir até lá sinto um arrepio... um medo... - Se eles desejam conversar, é sinal de que desejam entender melhor nossa atitude. É uma boa oportunidade de reconquistarmos a compreensão deles. Não há o que temer. Nossos papéis estão corretos, somos casados legalmente. 211 - Apesar de desejar muito que eles compreendam, não sinto vontade de ir até lá. - Hum... Não me parece natural esse seu receio. Pensando bem, talvez não seja ainda o momento de voltarmos à mansão. - Por quê? Você mesmo disse que é um bom presságio. - Falar com eles, sim. Mas o espírito do coronel Firmino continua lá. Talvez você sinta receio de tornar a encontrá-Io. - Credo! Não me fale nesse homem. Não quero vê-Io nunca mais. Liana estava pálida e seu corpo tremia. Alberto aproximou-se segurando suas mãos geladas, tentando infundir-lhe coragem. - Acalme-se, Liana. Se você não quiser ir, pediremos a eles que venham aqui. - Será melhor. Não me sinto com coragem de entrar naquela casa de novo. E se ele estiver me esperando e aparecer? - Ele não poderia fazer-lhe mal. Estamos protegidos. Vamos conversar com o Dr. Marcílio. Ele nos dirá como agir. O que você não pode é alimentar esse medo. O espírito do coronel Firmino está dementado, preso em um tempo que já passou, tentando manter seu poder sem perceber que isso só aumenta o próprio sofrimento. - Se ele sofre, deveria aprender a não ser maldoso com os outros. - Ele não pretende ser maldoso. Quer resolver seus problemas pessoais como se estivesse ainda naqueles tempos. - Se os espíritos bons estão nos ajudando, por que não o esclarecem e acabam logo com o sofrimento dele? Assim nos deixaria em paz. - Não é assim que as coisas funcionam. Ele precisa perceber a verdade, aprender algumas coisas para evoluir. Esse é um trabalho interior que só ele poderá fazer. Ninguém, por mais poderoso que seja, conseguirá fazer por ele. O amadurecimento do espírito, o desenvolvimento da consciência é trabalho individual e intransferível. Ele tem o dele, eu o meu, e você o seu. Para crescer em espírito, todos teremos de pagar o preço da aprendizagem. Por isso, por mais que os bons espíritos desejem nos ajudar, precisam esperar o momento certo para que obtenham bons resultados. E esse momento depende de nossas atitudes. - É desanimador. No caso do coronel, então... Ele está morto há tantos anos e continua igual. - Parece, mas não é. O sofrimento cansa, a alma deseja renovar, crescer. Chega uma hora em que ela atrai situações, pessoas, desafios que provocam as catarses necessárias e a abertura da consciência. Tenho certeza de que todos nós estamos vivendo um momento desses. 212 - Todos nós? - Sim. De alguma forma estamos ligados ao coronel. - Nem o conhecemos! - Nesta vida. - Você já me falou nisso. A reencarnação às vezes me parece tão racional, mas outras tão fantasiosa. Não sei como classificar. - É um fato natural. Todos passamos por várias reencarnações na Terra. Só assim poderemos entender as diferenças sociais e físicas entre as pessoas. - Esse é o lado racional. Mas o outro, morrer, sobreviver à morte em outro lugar, ficar pequeno de novo e voltar ao mundo como bebê, crescer, fazer tudo de novo, não será uma ilusão criada por nosso desejo de evitar a morte? - Não. Há muitas provas científicas da sobrevivência do espírito após a morte do corpo. Assim como as há também da volta desses espíritos em outros corpos de carne. Há pessoas que até se recordam de passagens de outras vidas conseguindo provas materiais sobre suas vidas passadas. - De que forma? - Investigando se suas recordações de outras vidas são verdadeiras. Verificando nomes, lugares, muitos conseguiram provas irrefutáveis. - Mesmo que isso seja verdade, não temos nada a ver com o espírito do coronel. - Aí que você se engana. Se não estivéssemos ligados por laços de vidas passadas, ele não teria se fixado em você. Ele acredita que foi seu marido. - Que horror! Ele está completamente louco. - É... pode ser. Mas, se o atraímos em nossas vidas, é porque de alguma forma estamos envolvidos em seu passado. - Tenho horror desse homem! Não posso recordar sua aparição naquela noite sem sentir muito medo. - Esse medo pode ter origem em fatos que aconteceram em outros tempos. - Não gosto de pensar nisso. O que eu quero mesmo é me livrar dele. Que nunca mais me apareça. - Penso que chegou o momento de desligá-Io de você. Vamos conseguir isso com a ajuda espiritual. - E se ele não estiver maduro? - A vida faz tudo certo. Se não houvesse chegado a hora, vocês não teriam se reencontrado. Não se deixe levar pelo medo. Ele agora não tem mais condições de prejudicar ninguém. 213 Ao contrário, precisa de ajuda. Nós temos de rezar por ele, para que perceba como tem perdido tempo agarrando-se ao passado e para que se disponha a enfrentar o presente, trabalhando pela própria melhoria interior. - Você acha que vamos nos libertar dele? - Tenho certeza. Ele vai ser ajudado, e a mansão ficará livre de sua presença. - Esse pensamento me deixa mais calma. - Vou conversar com o Dr. Marcílio. A manhã está bonita, quer me acompanhar até lá? Andar um pouco lhe fará bem. - Não. Ainda me sinto fraca, nervosa. Prefiro ficar em casa. Depois, não estou disposta a enfrentar a curiosidade das pessoas que vamos encontrar pelas ruas. - Nosso casamento criou uma auréola romântica muito a gosto deles. Tenho certeza de que estão do nosso lado. - Pode ser. Mas ainda não me sinto forte para enfrentar isso. - Como quiser. Depois que Alberto saiu, Liana sentou-se pensativa na poltrona da sala. Estava vivendo uma situação que lhe parecia irreal. Não se sentia casada, muito menos com Alberto. O que fizera de sua vida? Por que se entregara à paixão e pusera a perder sua paz? Até quando viveria uma vida de mentiras tentando acobertar sua traição? Ela não merecia ser feliz. Se pelo menos conseguisse esquecer, talvez pudesse encarar a irmã com naturalidade, sem se culpar. Alberto chegou à casa do médico, que, vendo-o, cumprimentou-o com alegria. - Vim conversar com você - disse ele. - Eulália quer que Liana vá até a mansão para conversar. Não sei se será conveniente Liana voltar lá agora. Ela sente receio. - Hoje à noite traga Liana para um tratamento espiritual. Assim, perguntaremos o que será melhor. - Eu já havia mandado o recado de que iríamos hoje até lá. - Transfira para amanhã. Assim ganharemos tempo. Alberto despediu-se, havendo combinado de voltar com Liana às sete da noite. Chegando em casa, ficou preocupado com o ar triste e abatido dela. Sentou-se a seu lado tentando distraí-la, mas Liana sentia-se distante e dispersiva. 214 Apesar das insistências dele e de Gisele, mal se alimentou, permanecendo prostrada, em grande apatia. Com paciência, Alberto redobrou a atenção procurando de vários modos interessá-Ia, sem grande sucesso. - São seis e meia, está quase na hora de irmos à casa do Dr. Marcílio. É melhor ir se arrumar. Liana balançou a cabeça, dizendo: - Vá você. Não estou me sentindo bem. - Nada disso. Você precisa ir. Eles vão rezar para você ficar boa logo. - Não adianta. Por mais que rezem, nunca vou esquecer a mágoa e o remorso que tenho dentro de mim. - Não diga isso. Você é jovem, tem uma longa vida pela frente. Tudo isso vai passar e você vai ficar bem. Vamos, vá se vestir. - Não quero! Por que insiste? Só desejo um pouco de paz. Não entende isso? Vendo as lágrimas que começavam a cair dos olhos dela, seu rosto contraído, Alberto não insistiu. Não poderia levá-Ia à força. Seria melhor ele ir sozinho e pedir ajuda espiritual. - Então eu vou. Gislene poderá fazer-lhe companhia até eu voltar. - Não precisa. Ela pode ir embora. - Nada disso. Ela ficará, não é, Gislene? - Fico sim, professor. Quando Alberto chegou à casa do médico, já encontrou os quatro médiuns que freqüentavam as sessões. Ele explicou que Liana se recusara a ir, ao que Marcílio respondeu: - Eu temia isso. O espírito do coronel Firmino a influencia mesmo à distância. - É possível isso? - indagou Alberto. - Claro. Ele pensa nela e manda energias controladoras. Pretende chamá-la de volta. - Ele pode conseguir? - Se não fosse a proteção que já a envolveu, ela voltaria, ou ele iria até onde ela se encontra. Para o espírito não há distância. - Nesse caso, sair da mansão não adiantou muito. - Engana-se, Alberto. Foi muito bom. Lá a ascendência era mais forte. Afastando-a, alguns amigos espirituais conseguiram protegê-Ia, evitando que ele a encontre pessoalmente de novo. Ele não se conforma de havê-Ia perdido de vista. Pensa nela todo o tempo, chamando-a de volta. Isso a perturba, mas por enquanto nossos amigos espirituais estão conseguindo mantê-Ia afastada. 215 Contudo, é importante iniciarmos logo um tratamento espiritual para que ele não venha a conseguir o que pretende. - Há esse risco? - Há. Infelizmente ela se deixa impressionar muito pelo medo, e ele se aproveita disso. - O que faremos, então? Ela se recusa a vir. - Vamos pedir ajuda. Marcílio reuniu os médiuns e pediu: - Vocês comecem a sessão. Adélia assume a direção. Orem por Liana, pedindo ajuda aos amigos espirituais. Enquanto isso, eu e Alberto iremos buscá-Ia. Ela precisa vir. Enquanto eles se reuniam ao redor da mesa e iniciavam as orações, os dois foram à casa do professor. - Onde está Liana? - indagou Alberto a Gislene. - Foi se deitar. Disse que estava com muito sono. - Temos de acordá-Ia - tornou o médico. Os três foram até o quarto. Gislene tentou acordá-Ia, mas não conseguiu. Ela parecia dopada. - Segurem a mão dela, cada um de um lado, e coloquem a outra mão em minhas costas e rezem. Gislene postou-se junto à cabeceira da cama e os outros dois fizeram o que ele pediu. Marcílio colocou as mãos sobre a testa de Liana e fechou os olhos em oração. O corpo da moça estremecia de quando em quando, até que ele abriu os olhos dizendo: - Vamos esperar um pouco. Podem largar. Alguns minutos depois, Marcílio aproximou-se de Liana chamando: - Liana! Liana! Acorde. Ela abriu os olhos, fitando-o admirada. - Aconteceu alguma coisa? - Viemos buscá-Ia. Levante-se, vamos. - Agora? - Sim. Nós vamos sair e Gislene vai ajudá-Ia a vestir-se. Assim que se viram fora do quarto, Alberto não se conteve: - Ela vai obedecer? - Vai. Conseguimos afastar por um pouco a magnetização do coronel Firmino. - Era ele que não a deixava ir? - Sim. Ele a chamava e dominava, mantendo-a sob seu controle. Foi preciso afastar a força dele para que ela agisse por si mesma. 216 - Não podemos afastar a energia dele de vez? - Ainda não. Eles estão ligados pelo passado, por assuntos não resolvidos. Os fatos indicam que está na hora de se libertarem. Mas isso vai ocorrer quando eles aprenderem o que a vida pretende ensinar com essa experiência. - Nesse caso, o tratamento espiritual pode não surtir o efeito que esperamos. - Pode. Às vezes até acontece. Principalmente com quem busca a ajuda dos espíritos, acreditando que eles vão intervir, resolver tudo, sem que precisem fazer nada. Basta orar, freqüentar sessões, tomar passes e pronto. Tudo ficará resolvido. Há até quem decida dedicar-se ao trabalho da mediunidade em benefício do próximo, pensando assim livrar-se de todas as dores. - O trabalho de assistência ao próximo é abnegado. O que vocês estão fazendo por Liana tem grande valor. - Tem mesmo. Todos nós temos muitos amigos que intercedem em nosso favor no plano espiritual. Entretanto, isso não nos garante o equilíbrio, o bem-estar, a felicidade. É preciso mais. É preciso cada um fazer a parte que lhe cabe no desenvolvimento da própria consciência. - Concordo plenamente. - Esse é um trabalho interior de cada um. - Sinto que os problemas aparecem quando já estamos maduros para enfrentá-los. - É uma idéia interessante. - A vida é perfeita, é Deus em ação. Quando podemos agir melhor e teimamos em manter atitudes que não condizem mais com nosso nível de conhecimento espiritual, a vida tenta nos alertar por todos os meios. Se teimamos em não ouvir, então surgem os problemas como desafios que nos empurram para onde temos de ir. - Quando aprendemos, tudo se resolve. - Só aprendemos quando identificamos a atitude que está causando nossos problemas e a substituímos por outra melhor. - A mudança interior, de que os espíritos sempre falam. - Que depende exclusivamente de nós. Assim como criamos crenças que geram as atitudes, podemos modificá-las em qualquer tempo. Basta querer. A porta do quarto abriu-se e Liana, pálida, apoiada no braço de Gislene, apareceu. Imediatamente Alberto aproximou-se dela. - Que bom que você vai! 217 Vamos embora - disse Marcílio tomando o braço de Liana, fazendo-a apoiar-se nele. - Você vai ficar bem. Quando chegaram à casa do médico, entraram na sala iluminada por delicada luz azul, onde as pessoas sentadas ao redor da mesa oravam em silêncio. Marcílio conduziu Liana para uma cadeira vazia ao redor da mesa, fazendo-a sentar-se. Alberto acomodou-se discretamente em um canto da sala. - Vamos fazer uma corrente - pediu Marcílio. As pessoas deram-se as mãos e Liana tentou se levantar assustada. Mas o médico, segurando-a pelos ombros, fê-Ia sentar-se novamente, dizendo: - Não tenha medo. Relaxe. - Não quero ficar aqui - respondeu ela. - Preciso ir embora. - Agora não pode. Tenha paciência. Logo, tudo vai passar. Liana caiu em pranto convulsivo enquanto todos, de mãos dadas, continuavam orando silenciosos. Aos poucos os soluços foram diminuindo, até que ela se calou. De repente um rapaz que estava em oração estremeceu e deu um soco na mesa, gritando enfurecido: - Finalmente a encontro! Não adianta vocês se meterem entre nós! Não vão conseguir nos separar. Desta vez isso não vai acontecer! Largue-me! Tenho de sair daqui levando-a comigo! Ela é minha, me pertence. Sou seu marido! Vocês não podem impedir. - Acalme-se! - disse Adélia com voz firme. - Ninguém aqui deseja prejudicá-lo. Ao contrário, queremos que você se liberte do passado. Chega de sofrer! Chega de reviver um tempo que passou e não volta mais. - É mentira! Quero-a de volta. Tenho esperado durante tanto tempo e agora que a encontrei não vou perdê-Ia. - O tempo passou. Tudo mudou. Por que resiste e quer continuar sofrendo? Seu corpo já morreu há muitos anos e você continua aqui, resistindo a deixar a casa onde viveu, preso às emoções daqueles tempos, quando as pessoas que você ama já estão em outras experiências, em outros corpos, desejando aprender a viver melhor. Só você continua rebelde, machucando-se, desejando voltar no tempo. Isso é impossível. - Eu morri, mas continuo o mesmo. Quero minha mulher. Ela morreu antes de mim. Não sei por que se escondeu nesse corpo jovem, mas eu a vejo como sempre foi. Ela se esconde de medo de mim. Mas não desejo fazer-lhe mal. Eu a amo! Só não admito que me contrarie. Ela ficou contra mim, ajudou aqueles dois traidores, e isso não posso perdoar. Eu, o chefe da família, que preciso ser respeitado, fui duas vezes ofendido. 218 Por minha mulher e por minha filha. Acha que poderia deixar passar? Eu sou o coronel Firmino! O dono destas terras, o homem mais rico deste estado! Todos me temem e respeitam. Como ser traído pela própria filha? - Sua filha não o traiu. Ela se casou com o homem que amava. - Um camponês miserável, sem eira nem beira. Um aventureiro que estava de olho em nossa fortuna. - Você se engana. Eles se amavam de verdade. - Todos eles me pagam! Aqueles patifes se esconderam naqueles corpos de criança, mas não conseguem me enganar. Principalmente aquele Neco malandro. Chamam-no de Nico, mas eu vejo quem ele é! Continua arrogante, enfrentando-me. Vive dizendo que não tem medo de mim. Qualquer hora ele vai ver só. - Pare de ameaçar os outros. Você precisa mais é cuidar de sua vida, que está muito complicada. Vive infeliz, sente dores, está doente, passa mal, mas ainda assim quer se meter na vida dos outros. - Foram eles que se meteram na vida de minha família. - Ninguém é dono de ninguém. A união da família só acontece por meio do amor, nunca com tirania. Vamos, coronel Firmino, pense em quanto tempo perdido na lamentação, na revolta, no ódio. Chega! Está na hora de deixar de sofrer, hora de buscar a felicidade a que tem direito. - Felicidade! - tornou ele com voz amarga. - Isso sempre me foi negado. Vivi anos de angústia e de solidão. Por que me negam o direito de ficar com minha companheira? - Porque você ainda não está pronto. Está doente. Precisa tratar-se primeiro. Depois, quando estiver melhor, poderá tomar suas decisões. Olhe, o médico está aí, a seu lado, desejando ajudá-lo. Vá com ele. - Não vou. Não quero. O que ele quer é me afastar de minha casa, de minha família, e me internar. Não vou ficar preso de jeito nenhum. Logo agora que sei onde os meus se esconderam. - Ele não deseja prendê-Io, apenas fazer um tratamento. Se for com ele, logo se sentirá aliviado, sem as dores que tanto o atormentam. Deixe o médico cuidar de você. - Isso é conversa. Sei o que ele quer. Já ouvi essa conversa antes. Ele me leva, depois vem com essa história de perdoar, esquecer tudo, nascer de novo. Isso nunca. Eu não vou nascer outra vez. Ser criança, não poder ter meu poder como sempre. Não, ninguém vai me tirar de minha casa. - Não pode ficar lá para sempre. Chegará o dia em que a vida o obrigará a deixar tudo isso. 219 E, quando acontecer, será de uma forma mais dolorosa. Quanto maior a resistência ao bem e ao progresso, maior a dor que você atrairá em seu caminho. Estamos querendo ajudá-Io. Não torne as coisas mais difíceis do que já estão. - É inútil. Ninguém vai me afastar de minha casa ou de minha família. Deixem-me em paz. Não me provoquem para que nada aconteça com vocês. - Não temos medo de suas ameaças - interveio Marcílio, colocando a mão direita sobre a cabeça do rapaz. - Estamos no bem e somos protegidos pela luz divina, essa mesma luz que agora está envolvendo você. Sinta a beleza do amor divino, a alegria de viver no bem e na paz. A cabeça do rapaz pendeu sobre a mesa e Marcílio proferiu uma prece em favor de Firmino. O corpo do moço estremeceu e ele abriu os olhos admirado. - Está tudo bem - garantiu Marcílio, batendo carinhosamente nas costas do jovem, que o olhava sem entender o que acontecera. - Já passou - assegurou Marcílio, oferecendo um copo com água ao rapaz. Esperou alguns segundos até que ele estivesse em si, apanhasse o copo e bebesse a água. Depois pediu que duas pessoas fizessem imposição de mãos, doando energias positivas sobre Liana, que durante todo o tempo chorava baixinho. Quando eles acabaram, ela havia parado de chorar. Bebeu a água que lhe ofereceram e Marcílio fez uma prece encerrando a reunião. Quando as luzes foram acesas, Alberto aproximou-se de Liana perguntando: - Sente-se melhor? - Um pouco. Foi terrível. Tive muito medo. Parecia que a qualquer momento ele iria se atirar sobre mim, aprisionando-me. Fiquei tão aterrorizada! Houve uma hora em que me vi deitada em uma cama e amarrada enquanto ele se aproximava e me beijava. Pensei enlouquecer de horror! Nunca mais quero ver esse homem! Marcílio, que se aproximara com Adélia, colocou a mão sobre o braço de Liana, dizendo sério: - Você precisa ser forte e enfrentar isso para se libertar. - Não entendo! Por que ele cismou comigo desse jeito? - Você foi esposa dele. A seu modo, ele a ama e quer tê-Ia junto. - Não diga uma coisa dessas! Que horror! Não pode ser verdade. - É melhor aceitar isso e não se impressionar. Aconteceu no passado, não foi uma boa experiência para você. Mas, de alguma forma, vocês ainda permanecem unidos. 220 - Se isso é verdade, por que ele não me deixa em paz? Eu não gosto dele. - Não é só o amor que cria laços de união entre as pessoas. O ódio, a revolta também unem. É por isso que precisamos trabalhar nossas emoções e compreender que cada pessoa é como é e só dá o que tem. Geralmente, a revolta, o ódio aparecem quando esperamos das pessoas mais do que nos podem dar. - Não me conformo em ter de perdoar tudo, agüentar tudo. Isso é se anular. - Não é isso que estou dizendo. Você não é obrigada a agüentar tudo nem a conviver com pessoas que não aprecia, sejam seus parentes ou não. Defender sua paz é um direito. O que eu disse é que fazer exigências, esperar compensação dos outros, irritar-se quando eles não fazem do jeito que você quer é ilusão. A vida vai destruir todas as ilusões, porque nos levam a uma visão falsa, distorcida, que cria sofrimento. - Se eu não gosto do coronel Firmino, também não lhe tenho ódio. Só não quero que ele me atormente. Esse é um direito! - Tem razão. Por isso estamos todos aqui, tentando esclarecer seu espírito para que compreenda a inutilidade de sua atitude. - Nesse caso, se não o odeio, por que ele se ligou a mim? - Você não se recorda do passado. Não sabe como foi sua vida ao lado dele. Por sua repulsa, podemos perceber que tiveram problemas dolorosos em comum. Como você teria reagido a eles, ainda não sabemos. - Alguma atitude sua, na vida atual, o atraiu - interveio Alberto. - A depressão, a culpa, a auto-imagem negativa podem ter acionado esse processo. - Pode ser. Quando estamos bem, positivos, cheios de vigor e força espiritual, nenhum espírito sofredor consegue nos envolver. Para que ele pudesse envolvê-Ia tão fortemente, se não foi porque você guardava por ele um ódio inconsciente, deve ter sido pela queda de seu padrão energético. - É o mais provável - concordou Alberto. - Você entrou em depressão, atraiu problemas do passado. Para sair deles, terá de aprender a fazer o oposto: fortalecer-se através de pensamentos otimistas, cheios de vigor e de alegria. Liana baixou a cabeça, pensativa. Sabia muito bem como entrara em depressão depois do que lhe acontecera com o cunhado. - Não fique triste, Liana. Você vai se libertar, ficará bem e terá ajudado a que esse espírito se esclareça - garantiu Adélia com entusiasmo. - Agora vamos tomar nosso café com bolo que já está na copa. 221 No trajeto de volta para casa, Liana estava pensativa e calada. Foi Alberto quem quebrou o silêncio: - Como está? Melhorou? - Um pouco. O peso, o sono irresistível, o atordoamento passaram. Estou conseguindo pensar com mais clareza. Isso torna mais aguda a sensação de culpa, de que estou sempre fazendo coisas erradas. - Se continuar pensando assim, será difícil fugir às influências do coronel Firmino. - Não diga isso, por favor! - Depois de tudo que conversamos, deve entender que, se deseja libertar-se da influência dele ou até de outros espíritos perturbadores, precisa mudar de atitude. Não ficar contra você, criticando-se, cobrando-se, julgando-se errada apenas porque se deixou levar por um instante de emoção e descontrole. - Dito assim, parece que não fiz nada. - Não fez mesmo. Quando aconteceu o fato, você foi envolvida, e nem teve tempo para lembrar-se de sua irmã ou de qualquer compromisso moral. Aconteceu. Não foi uma coisa boa, apesar de ter sido agradável. Mas depois você pesou o fato e decidiu que não deveria continuar. Essa atitude foi pensada, reflete o respeito e o amor que sente por sua irmã e a vontade de não a prejudicar. Fazendo isso, você manteve sua dignidade. Apesar de amar seu cunhado, renunciou, resistiu a seu assédio, mostrou-se forte. Por que se culpa ainda? - É difícil apagar essa mancha. - Isso é só um conceito moral tardio que não resolve nada, uma vez que não dá para voltar atrás e evitar o que aconteceu. Reflita, Liana. Você errou, agiu impensadamente, mas teve forças para não persistir no erro. Não pode agora continuar punindo-se pelo resto da vida. Você continua digna. Não se anule nem desperdice a oportunidade de uma vida feliz por causa disso. Liana colocou a mão sobre a de Alberto que estava na direção do carro, acariciando-a. - Obrigada, Alberto. Você me faz bem. Nunca poderei pagar tudo que tem feito por mim. - Seja feliz. Essa será minha recompensa. Ela sorriu. Haviam chegado em casa. Liana entrou e foi para a cozinha, dizendo: - Vou fazer um chá para nós. - Acabamos de tomar café com bolo. 222 - Não faz mal. Esse chá será como um mensageiro da paz. Sabe, quando eu tinha um problema, costumava sempre ir conversar com minha avó. Ela me abraçava, fazia um chazinho, servia e dizia: o chá é um ritual de amizade, ajuda a pensar, toma as pessoas mais íntimas e aconchegadas. E eu sentia que era verdade. Entre os goles de chá eu ia desabafando minhas mágoas e, ao terminar, sempre me sentia muito melhor. - Que seja. Vamos tomar nosso chá e trocar nossas confidências. Talvez eu também precise esquecer algumas mágoas. 223 Capítulo 16 - Dona Eulália, Eurico não quer sair da cama. Eulália suspirou contrariada, olhando para o marido, que terminava de almoçar. - Esse menino está me preocupando. Começou tudo de novo. Voltando-se para Hilda, que esperava uma resposta, continuou: - Diga-lhe que se não descer para o almoço não vou deixar Nico ficar no quarto dele hoje. Hilda saiu apressada, e Norberto tornou: - Sente-se e termine de almoçar. Ele está fazendo birra. - Não sei, não. Tem andado deprimido, não se alimenta bem, estou começando a ficar com medo. E se ele piorar de novo? - Esse menino é muito delicado. Não sei a quem saiu. - Ele disse que quer que o professor volte. Isso é impossível. - Infelizmente. Apesar de tudo, Alberto tinha um jeito especial de lidar com ele. - Ele não é confiável. Não depois do que fez. - Liana respondeu que viria para conversar, e até agora nada. - É. Ela mandou dizer que viria, mas não disse quando. - Não podemos ficar sem saber o que está acontecendo com ela. Pode ser até que esteja mal e não possa vir nos ver. - Não diga isso. Ela foi embora porque quis. - Aquele médico anda metido nisso. Ela pode ter sido coagida. - Será? - Você deveria ir até lá e ver o que está acontecendo. - Isso não. Depois do que ela fez, seria me rebaixar. Ela é quem deve vir e pedir perdão. - Bobagem. Nem sabe ao certo o que aconteceu. Se não tomar nenhuma providência, pode se arrepender. E se ela estiver mal? Eulália sobressaltou-se: - Você acha? - É uma hipótese. Ela pensou por alguns instantes, depois decidiu: - Só se você for comigo. Se estiver acontecendo alguma coisa grave, precisarei de sua ajuda para tirá-Ia de lá. 224 - Concordo. Iremos logo depois do almoço, sem avisar, para não dar tempo a que tentem alguma coisa. Hilda reapareceu na porta e Eulália perguntou: - E então? - Ele está se lavando e vai descer. - Onde estão os outros dois? - Na copa. Não os deixei subir, conforme a senhora mandou. - Muito bem. Eles terminaram de almoçar. Eulália subiu e arrumou-se para sair. Quando voltou, as crianças almoçavam na copa. - Hilda, verifique se Eurico se alimenta direito. Se ele não comer, não vai brincar com Nico nem com Amelinha. Se ele quiser ficar no quarto, ficará sozinho. Dando uma olhada desafiadora para Eurico, Eulália saiu com o marido. Quando Hilda foi até a cozinha, Nico disse baixinho: - Acho melhor comer, Eurico. Pelo menos hoje. O dia está bonito e bom para brincarmos no jardim. - É. Por hoje. Mas amanhã começo de novo. - Não adianta fazer isso com ela, não vai dar certo - ponderou Amelinha. - Sempre deu. Você vai ver. Ela vai trazer o professor de volta. - Se ela descobrir que eu levo comida escondido para você, me manda embora - murmurou Nico. - Ela não vai saber nunca. Só se alguma linguaruda contar. - Não olhe assim para mim. Nós temos nossos segredos, e eu nunca contei nada. - É verdade - disse Nico. - Ela tem sido uma boa companheira. - Você gosta de protegê-Ia só porque é mulher, como todos aqui fazem. Todas as meninas são faladeiras. - Não eu! - protestou ela. - Você está sendo injusto. Reconheça que ela nunca contou nada. - Está bem... Até agora ela não contou nada. - Aonde será que eles foram? Não costumam sair a essa hora lembrou Amelinha. - Acho que foram ver a Liana - sugeriu Nico. - Será? Será que vão fazer as pazes? - perguntou Eurico, contente. - Acho que não. Ainda ontem ela estava muito zangada com o professor. Eu ouvi quando ela disse a papai que ele nunca mais pisaria nesta casa - comentou Amelinha. 225 - Se ela fizer isso, vai ver só. Vou infernizar a vida dela outra vez. - Não faça isso, Eurico. Minha mãe sempre diz que a mentira dá mau resultado. Você vai fingir de doente e pode acabar doente de novo. Lembra como você passava mal quando chegou aqui? - Agora estou curado. O professor disse que sou forte como todo mundo. - Mas não abuse. Sua mãe não merece ser enganada. - Merece, sim. Ela é muito implicante e mandona. Queria que tia Liana se casasse com quem ela escolheu. Isso é errado. - Isso é. Ela gosta mais do Dr. Mário. Ele é uma boa pessoa, mas a Liana não gostava dele para casar. Também se casou com o professor só para poder fazer aquele tratamento. Ela não o ama. - É mesmo - interveio Amelinha. - Mas eles casaram com buquê, até com os noivinhos no bolo de noiva. Acho que eles se gostam, sim. - Vocês mulheres são tão bobas! O que tem a ver o bolo de noiva com o gostar?- desafiou Eurico. - Não adianta discutir por isso. O importante é a Liana sarar, ficar feliz. Com o professor e o Dr. Marcílio cuidando dela, vai dar tudo certo. Ela vai ficar boa e, no fim, sua mãe vai compreender, eles vão se entender e pronto. O carro de Norberto parou em frente à casa do professor. Ele desceu e tocou a campainha. Gislene abriu a porta. - Viemos falar com Liana - disse Norberto. - Queiram entrar, vou avisar Dona Liana. Ele voltou ao carro, abriu a porta e Eulália desceu. Entraram e sentaram-se na sala, tentando controlar a inquietação. Gislene procurou Liana e Alberto no escritório e disse baixinho: - Eles estão na sala, Dona Eulália e o Dr. Norberto. Perguntaram pela senhora. Liana olhou apreensiva para Alberto, que respondeu: - Diga-Ihes que ela já está indo. Gislene saiu e Liana sussurrou: - Meu Deus! E agora? - Acalme-se. Vai dar tudo certo. - O que diremos? - Vamos representar o papel de casal em lua-de-mel. Estamos muito apaixonados. Fugimos para não termos de esperar pelo casamento. - E Norberto? O que vai pensar de mim? 226 - Que você mudou, deixou de gostar dele e que me ama. Não é isso o que quer? -É. - É a maneira de tirá-Io definitivamente de seu caminho e devolvê-Io aos braços de Eulália. - Tem razão. Estou tão nervosa... Ele tomou as mão dela e acariciou-as, tentando esquentá-Ias. - Não vai acontecer nada. Estou do seu lado. Você está pálida. Vamos, vá se pintar um pouco. Tem de parecer uma mulher feliz e amada. - Está bem. Liana foi até o quarto, arrumou-se um pouco e voltou: - Estou bem? - Melhorou. Agora sorria, vamos entrar abraçados e fingir que nos amamos. Quando os dois entraram na sala abraçados, Eulália e Norberto levantaram-se. - Sejam bem-vindos à nossa casa - disse Alberto com gentileza, estendendo a mão a Norberto, que fingiu não perceber. Sem perder a compostura, Alberto continuou: - Sentem-se, por favor. Eles se deixaram cair no sofá, tentando encontrar palavras que expressassem o que sentiam. Liana aproximou-se de Eulália, dizendo: - Sinto muito, Eulália, por não haver contado o que pretendíamos fazer. - Você fugiu de casa, na calada da noite, como uma criminosa. Não precisava fazer isso. - Você abusou de nossa confiança, professor - disse Norberto fuzilando-o com os olhos. - Desculpe, Norberto, mas não fiz nada errado. Nós nos amamos. Liana desmanchou o noivado. Pensamos muito e achamos que, se nos casássemos dessa forma, pouparíamos tempo e comentários. - Não acredito que tenham se casado. Ninguém pode fazer isso sem o tempo necessário para as providências legais. Virando-se para Alberto, Liana pediu: - Meu bem, pode apanhar o comprovante do casamento? Ele saiu e Norberto não se conteve: - Liana, estou vendo e ainda não acredito. Como pôde fazer uma coisa dessas depois de tudo? - Ela empalideceu, e ele tentou corrigir: - Depois de tudo que sua irmã fez por você a vida inteira? 227 - Foi por amor. Eu amo meu marido. Gostaria que compreendessem e perdoassem a forma como entendi de procurar a felicidade. Alberto voltou e apresentou o documento a Norberto. Enquanto ele o examinava, sentou-se ao lado de Liana no sofá, abraçando-a com carinho, beijando-lhe a face delicadamente. Norberto estava pálido e ofendido. Não encontrou palavras para dizer. Em silêncio, passou o documento a Eulália, que o examinou atentamente. Depois, entregou-o a Alberto, dizendo: - É. Parece que está consumado. Nesse caso, nada mais temos a fazer aqui. Vamos embora. Levantou-se. Alberto levantou-se também, aproximando-se dela e de Norberto, dizendo: - Por favor, Eulália. Perdoe nossa atitude. Compreenda. Garanto a vocês que amo muito Liana e que tudo farei para vê-Ia feliz. - Ela escolheu você, contra nossa vontade. Portanto não precisa de nós para nada. Vamos embora. Liana colocou a mão carinhosamente sobre o braço da irmã, dizendo com voz súplice: - Por favor, Eulália! Não se vá. Eu não pretendi magoá-Ia. Fique. Diga que me perdoa e que poderemos continuar amigas como sempre. - Não posso. Como voltar a confiar em sua amizade depois do que fez? Você escolheu onde e com quem desejava ficar. De hoje em diante, siga seu caminho, eu seguirei o meu. Espero que não se arrependa do que fez. Vamos embora, Norberto. Segurou o braço do marido e praticamente o arrastou pela porta afora, lançando um olhar irado sobre Alberto. Liana fez um gesto para impedi-Ia, mas ela se desviou e saiu fechando a porta atrás de si. Liana, trêmula, deixou-se cair em uma cadeira, chorando copiosamente. Alberto tentou confortá-Ia. - Eu sabia que ela não ia me perdoar. Eulália sempre foi orgulhosa e determinada. Nunca mais ela vai querer falar comigo! Perdi minha irmã. - Não diga isso. Com o tempo ela vai refletir, pensar melhor. Sentirá sua falta, voltará atrás. Você vai ver. - Não creio. Sei como ela é. - Você tinha o direito de cuidar de sua vida do seu jeito. Por mais que ela tenha cuidado de você, não pode interferir. Você é livre. Vamos, enxugue essas lágrimas. Reaja. Estendeu o lenço, que ela apanhou enxugando os olhos e tentando parar de chorar. 228 - Assim é melhor - disse ele quando ela finalmente parou. - Agora sou eu quem vai fazer aquele chá especial de sua avó. Abraçou-a com carinho, conduzindo-a até a cozinha e fê-Ia sentar-se enquanto colocava a chaleira no fogo, fazendo um sinal para que GisIene os deixasse a sós. Preparou o chá, serviu e sentou-se a seu lado, sem que ela, abatida e triste, reagisse. Procurou conversar, mas Liana parecia ausente e não respondia ao que ele dizia. - Vou me deitar - disse ela. Sem esperar resposta, levantou-se, foi para o quarto e deitou-se. Preocupado, Alberto ligou para o Dr. Marcílio, contando-lhe o sucedido. - Ela ficou apática. Caiu em funda depressão. Tentei conversar, mas nem sequer me ouviu. - Vou dar uma passada aí para vê-Ia. Quando o médico chegou, Alberto já o esperava com impaciência. Gislene fora ao quarto de Liana e ela caíra em um sono pesado. Quando a chamaram, não quis acordar. - Ela estava tão bem! - explicou ele. - Foi a intransigência de Eulália que a deprimiu. Disse que havia perdido a irmã. - Liana está frágil. Tem alguma coisa que a oprime, ainda não sei o que é. Parece que sente prazer em se castigar. Alberto hesitou alguns segundos, depois respondeu: - Ela tem um segredo que a oprime. Não estou autorizado a lhe contar, embora pense que, como seu médico, deveria saber. - Os espíritos perturbadores exploram todas as fraquezas daqueles a quem pretendem dominar. Esse ponto fraco que ela tem permite que o padrão energético dela baixe e assim eles podem atingi-Ia. Por isso, quando não conseguem manter um assédio direto, procuram fazer com que pessoas ligadas a ela toquem esse ponto e assim conseguem obter os resultados que querem. - Isso está acontecendo com ela. - Está. No momento, por haver se deprimido, o espírito do coronel Firmino deve tê-Ia dominado, mesmo à distância. - Deve ser isso. Tentamos acordá-Ia, mas parece que está dopada. - Vamos tentar de novo. Dirigiram-se ao quarto e aproximaram-se de Liana. - Vamos orar e pedir ajuda - tornou Marcílio, estendendo as mãos sobre a cabeça de Liana. Os dois fecharam os olhos e oraram em silêncio. 229 Vá buscar um copo com água - pediu ele. Alberto obedeceu e voltou com o copo, colocando-o sobre a mesa de cabeceira. O médico colocou uma das mãos sobre o copo e continuou em oração. Depois se sentou em uma cadeira ao lado da cama, dizendo: - Ela está sendo atendida. Vamos esperar. De fato, Liana continuava adormecida, porém seu sono agora parecia regular e seu rosto estava mais corado. Alberto sentou-se também e ambos esperaram em silêncio. Os minutos foram passando e só se ouvia o tique-taque do relógio na mesa de cabeceira. Passados dez minutos, ela acordou, olhando-os admirada. Marcílio levantou-se, pegou o copo com água e deu-o a ela dizendo: - Vamos, beba. Liana obedeceu. Depois respirou fundo e perguntou: - O que aconteceu? Por que está aqui? Fiquei mal outra vez? - Ficou. - Sinto muito. Estou dando trabalho a vocês. - Está mesmo. E porque quer. Ela olhou assustada para ele: - Desculpe, não entendi. - Está na hora de entender. Você se deprime e com isso permite o acesso às energias do coronel Firmino. - Deus me livre! Foi ele? - Foi. Mas ele não teria tido acesso se você não lhe abrisse as portas. - Não diga isso. Não quero nada com ele! - Mas ele quer. E quando você fica negativa, deprimida, ele consegue envolvê-Ia. - Estou sofrendo muito. Não posso evitar a tristeza. Eulália não me perdoou. Disse que nunca mais quer me ver. - Ela disse. Mas quem garante que será assim? - perguntou o médico. - Eu sei que ela é obstinada. Nunca volta atrás. - Para conduzir as pessoas ao caminho melhor, a vida tem recursos que desconhecemos. Acho que você deve confiar. Afinal, não fez nenhum mal. Está apenas cuidando de sua cura. Um dia ela entenderá isso. O que não pode é se machucar dessa forma e permitir o envolvimento destrutivo do coronel. Precisa se defender. - Como? 230 - Tentando não dramatizar os fatos em sua vida. Nada é definitivo. Você já resolveu que Eulália nunca vai mudar. Quem pode garantir isso? Todos nós mudamos a todo momento. - Talvez eu não mereça viver em paz. Alberto fez ligeiro sinal para o médico e levantou-se dizendo: - Continuem conversando, que vou mandar fazer um cafezinho. Saiu. Queria dar oportunidade a que Liana contasse ao médico o verdadeiro motivo de sua depressão. Mandou preparar o café, mas não mandou servir. Queria dar mais tempo aos dois. Quando Eulália se sentou no carro ao lado do marido, não conseguiu esconder a indignação. - Eu não lhe disse? Ela fez tudo de caso pensado. Bem que eu não queria vir. E você pensou que ela estivesse seqüestrada. De onde tirou essa idéia? - Não sei. Nunca pensei que Liana fosse capaz de fazer uma coisa dessas. - Pois fez! Talvez a estas horas estejam rindo juntos da peça que nos pregaram. Viu como se abraçavam descaradamente em nossa frente? Norberto mordeu os lábios nervoso. Essa cena não saía de sua mente. Sentira vontade de esmurrar o professor. Aquele traidor! Com aquela cara de bom homem, respeitador. E pensar que fora ele quem o levara para dentro de sua própria casa! Cerrou os lábios com raiva. Teve medo de responder e deixar transparecer o que estava sentindo. Ela continuou: - Prepararam tudo com antecedência. Ninguém se casa de repente. Como são fingidos! Eu não percebi nada. Ela com aquela cara de coitada, sempre deitada, fraca, desvalida. Enquanto isso, estava sabendo muito bem o que queria fazer. - A culpa é daquele professor de meia-tigela. - E pensar que nós o colocamos dentro de casa! - Cale-se. Essa idéia está me mortificando. - Liana morreu para mim, definitivamente. Norberto hesitou, depois respondeu: - Não sei, Eulália. Apesar de tudo que vimos, ainda tenho algumas dúvidas. Liana estava pálida. Pintou-se, mas dava para notar sua palidez. Não está bem como quis parecer. - O que quer dizer? Ela estava um pouco abatida, mas muito feliz. Claro que ainda não recuperou totalmente a saúde. Mas de resto não há nada para duvidar. 231 Ela mesma disse que ama o marido e que se casou de livre vontade. Norberto sacudiu a cabeça pensativo: - Se pensarmos bem na Liana que conhecemos, que sempre foi cordata, obediente, prezando sua amizade e carinho, não podemos entender por que fez isso. Chego a pensar que por trás há alguma coisa que não sabemos. Aquele médico não sai de minha cabeça. Sobre a mesa da sala havia uma receita dele, eu vi. Se fosse em nossa casa, ele não teria tido acesso. Bem que eu queria levá-Ia a Caldas. Por que não insistiu? - Eu insisti. Depois, Alberto sempre se deu muito bem com o Dr. Marcílio. Várias vezes tentou me convencer de que eu deveria deixá-Io tratar Liana. Como se ele fosse uma sumidade! Claro que agora, ela sendo sua esposa, faz como quer. - É por isso que apesar de tudo eu ainda insisto. Não acho uma atitude sensata você fechar a porta a eles. - Depois do que fizeram? - Sim. Liana não tem estado bem ultimamente. E se ela estiver com as faculdades mentais alteradas? E se o professor tivesse se aproveitado desse fato para casar-se com ela e tê-Ia sob sua guarda? - Por que faria isso? - Por várias razões. Porque se apaixonou, porque pretende ligar-se à nossa família de alguma forma. - O dinheiro que temos é nosso. Liana não tem nada. - Então é por paixão mesmo. Um homem faz qualquer coisa por uma paixão. Eulália olhou-o admirada. Nunca imaginara que o marido pensasse dessa forma, sempre tão pacato, discreto. - Liana é bonita, mas não tanto a ponto de despertar uma paixão - respondeu ela. Norberto controlou-se. Estava difícil suportar a situação. Procurou manter a calma ao responder: - É verdade. Nesse ponto eu concordo. Mas sabe como é: tenho ouvido contar tantas coisas! Há homens desequilibrados. - Bom, aí eu também concordo. O professor deve ser um desses. Onde já se viu? Casar-se dessa forma, roubar a mulher como se estivesse no tempo das cavernas. Não tem nenhum respeito pela família. Por isso vive sozinho. Norberto meneou a cabeça, concordando, e, enquanto Eulália discorria sobre como deveria ser o respeito à família e à sociedade, ele pensava em conseguir uma forma de encontrar-se a sós com Liana a fim de descobrir a verdade. 232 Não acreditava que ela houvesse esquecido o amor que os unia. Tinha certeza de que ela o amava e havia se afastado por causa de Eulália. Na verdade, ela era o maior obstáculo para que eles pudessem ficar juntos para sempre. Tinha certeza de que, se sua mulher morresse, Liana não hesitaria em casar-se com ele. Essa era sua esperança depois que Liana desfizera o noivado com Mário. Em seu desespero, pensara algumas vezes em tirar Eulália do caminho, mas como? Não se sentia com coragem de cometer um crime, principalmente com a mãe de seus filhos. Mas desejava de coração que ela morresse, para que pudesse libertar-se desse peso e assumir o amor de sua vida. Queria que Liana continuasse vivendo com eles na esperança de um dia realizar esse sonho. Enquanto ela era solteira, havia esperança. Agora isso seria impossível. Ela havia preferido outro. Não podia acreditar. Liana nunca havia amado ninguém antes dele e entregara-se por amor. Precisava vê-Ia, ouvir de seus lábios que se casara apenas para fugir da paixão e do desejo que a atormentavam. Que quando se encontravam, mesmo na presença de Eulália e das crianças, ela sentia, como ele, a vontade de repetir o delírio daquela noite. Essa lembrança reaparecia sempre que a via, e isso lhe tirava o fôlego. Era a custo que conseguia dominar-se. Enquanto Eulália continuava falando, ele meneava a cabeça de vez em quando concordando e pensava como conseguir o que desejava. Arranjaria um jeito de tirar férias, ficar algum tempo na mansão, depois encontraria uma forma de encontrar-se com Liana a sós. Naquela noite, depois do jantar, Norberto voltou ao assunto. - Estive pensando, Eulália, em tirar umas férias. Estou cansado e penso que passar algum tempo aqui com vocês me fará bem. Eulália corou de prazer. Preocupado com seus problemas, o marido desejava confortá-Ia. Sorriu e respondeu: - É uma ótima idéia. Assim me ajudará com Eurico, que tem andado impossível. - Espero que sua saúde não tenha piorado. - Piorou. Não se alimenta como antes e vive querendo que eu chame de volta o professor. Temos de arranjar alguém que continue as aulas. Estavam indo tão bem! - Dessa vez tentaremos uma professora. É mais seguro. Voltarei a São Paulo amanhã, ajeitarei tudo para poder ficar aqui. 233 Vou ver com nossos amigos se consigo alguma moça boa, de boa família, que possa vir e dar aulas para as crianças. - Bem pensado. Quem sabe assim Eurico esquece esse assunto e deixa de me preocupar. Ele fica na cama, não come, e, se não fosse Nico, que consegue tirá-Io de lá, seria pior. Norberto suspirou. Sempre desejara um filho forte, viril, corajoso, inteligente. A vida deu-lhe Eurico, fraco, doente, sem capacidade de sobressair-se em nada. Paciência. Teria de suportar esse fardo pelo resto da vida. Na manhã seguinte, Norberto partiu prometendo voltar antes do fim da semana. Dois dias depois, ligou dizendo que voltaria no sábado levando uma professora que fora muito bem recomendada e lhe parecera muito culta e preparada. Na tarde do dia marcado, Norberto chegou, em companhia da nova professora. Na porta de entrada, Eulália examinou-a enquanto descia do carro. Era jovem, pouco mais de vinte anos talvez, pele clara, olhos e cabelos castanhos, bem-feita de corpo. Eulália fixou-a e ela não desviou o olhar. Aproximou-se da porta e parou, esperando que Norberto a apresentasse. Ele se adiantou e, depois de beijar levemente a face de Eulália, estendeu a mão para a jovem, dizendo: - Esta é Melissa Duarte, a nova professora. Eulália estendeu a mão: - Prazer em conhecê-Ia. Duarte? Por acaso será parente do Dr. Gabriel Duarte? - Sobrinha - respondeu Melissa com voz firme. - Ele é irmão de minha mãe. Eulália convidou-a a entrar. Mandou levar a bagagem para o quarto. - Deve estar cansada da viagem. Hilda é nossa governanta e vai mostrar-lhe seu quarto. Ela assentiu com a cabeça e depois das apresentações acompanhou Hilda. Assim que se viu a sós com o marido, Eulália comentou: - Essa professora não vai dar certo. - Porquê? - É muito jovem, e além do mais me pareceu um pouco petulante. - Trata-se de uma moça de muito boa educação, de família tradicional. Você conhece muito bem os Duarte. Depois, ela é pedagoga. Acredite que não foi fácil conseguir alguém desse nível que concordasse em vir para o interior, longe dos amigos e da família. 234 - Era isso que eu estava me perguntando. Por que uma jovem da melhor sociedade deixa a família e vem para o interior morar com estranhos e ensinar três endiabradas crianças? Não arranjaria um emprego muito melhor na cidade? - É possível. Mas Juca, quando sugeriu que a contratasse, disse-me que ela é do lado pobre da família. Precisa trabalhar para se sustentar. - Estava com roupas muito finas para ser tão pobre como você diz. - Não reparei. O que sei é que ela estava com vontade de sair da cidade e vir para o interior. Prefere a vida calma. Conversei com a mãe e com ela, e combinamos tudo. Ela vai ficar pelo menos até os exames do fim do ano. Faltam apenas três meses. - Se eles conseguirem passar para o quarto ano, será ótimo. Se Eurico tivesse mais saúde, poderíamos interná-Ios em um bom colégio e voltar a morar na cidade. - Infelizmente isso ainda não é possível. Vou subir para tomar um banho. Estou empoeirado. Depois do banho, Norberto estendeu-se na cama. Tinha tempo de descansar um pouco antes do jantar. Pretendia ficar o tempo que precisasse para conseguir se encontrar com Liana sem que Eulália soubesse. Liana! Como esquecer aqueles momentos que haviam passado juntos? Em sua saudade, Norberto visualizava todos os detalhes da conquista, revendo o prazer que havia sentido. Não percebeu que um vulto escuro se aproximou dele atraído pelo teor de seus pensamentos. Era o espírito do coronel Firmino. Colou-se a ele e, admirado, começou a sentir o prazer que Norberto estava sentindo ao visualizar aqueles momentos. Delirou com a relação íntima que eles haviam tido, experimentando emoções que ele não se recordava de haver sentido antes. Suas experiências sexuais com a esposa haviam sido sempre mantidas contra a vontade dela e nunca lhe haviam dado emoções tão fortes como as que experimentava agora. Num relance, brotou em sua mente a idéia de aproveitar melhor sua descoberta. Ele estava morto e, por mais que se esforçasse, não conseguia contato direto com ela. Contudo, se usasse o corpo daquele homem, poderia tê-Ia de volta mesmo antes de ela morrer. Assim, ele decidiu não abandonar mais Norberto. Ficaria ligado a ele para saber tudo que ele planejava. Percebeu que ele iria tentar encontrar-se com Mariquita. Que a amava e que era correspondido. Era a maneira de vê-Ia, de tê-Ia de volta. 235 Norberto passou a mão pelos cabelos nervosamente. De repente, seu desejo de ver Liana ficou insuportável. Fez grande esforço para se controlar. Precisava ter paciência. Não podia dar largas às suas emoções. Apesar de tudo, não pretendia pôr tudo a perder. Se Eulália descobrisse, seria o caos. Esforçou-se para pensar em outra coisa, mas não conseguiu. Levantou-se e desceu para o jantar. Sua cabeça estava pesada, sentia-se inquieto. Melissa desceu e Eulália já a esperava. - Vou chamar as crianças para conhecê-Ia. Hilda apareceu na sala acompanhada de Amelinha e Nico. - Onde está Eurico? - indagou Eulália. - Está deitado. Não quis levantar - esclareceu Hilda. - Vá lá e diga-lhe que estou esperando. Enquanto Hilda subia, Eulália fez as apresentações: - A Srta. Melissa é a nova professora. Esta é Amelinha, minha filha. Este é Nico. - Como vai? - disse Melissa, olhando-os com interesse e estendendo a mão para Amelinha. - Bem - respondeu a menina. - E você, Nico, como vai? - Bem. Seja bem-vinda, professora. - Obrigada. Hilda voltou mais corada do que o costume: - Ele disse que não vai levantar-se daquela cama nunca mais. - Está vendo? - comentou Eulália voltando-se para Melissa. Meu marido deve ter lhe falado sobre nosso filho Eurico. - Falou, sim. - Se a senhora quiser, posso subir e ver se consigo trazê-Io - ofereceu Nico. - É melhor mesmo. Vá lá, Nico, e faça isso. Não desejo perder meu bom humor. Nico subiu enquanto Amelinha olhava para Melissa com curiosidade. Norberto chegou e Eulália foi logo dizendo: - Eurico não quer se levantar. - Você vai falar com ele? - perguntou Norberto. - Nico já foi. Nesses casos ele é melhor que eu. Nico entrou no quarto de Eurico, que estava coberto até a cabeça. - Levante, Eurico. - Não vou. Logo hoje que veio aquela professora horrível. Deve ser velha, feia, malvada e burra, como todas as outras que já tive. Eu quero o professor de volta. 236 - Pelo que pude ver, ela não parece nada disso que você disse. É moça, bonita e tem boa cara. - Mesmo assim eu não quero nenhuma professora. Eu quero Alberto. - Você não está sendo inteligente. - Está me chamando de burro? - Não exagere. De que adianta querer uma coisa que agora não é possível? O professor mesmo me disse que precisamos ter paciência por enquanto. Sua mãe não quer fazer as pazes com eles. - Tem de fazer. Não pode ficar toda a vida de mal com tia Liana. Ainda mais agora que ela se casou com nosso professor. - Você não pode obrigar sua mãe a fazer uma coisa que ela não quer. - Mas eu quero. - Não seja tão mimado. Por que não podemos ficar com outra professora por algum tempo, só enquanto esperamos que eles façam as pazes? - Porque eu queria logo. - Não seja criança. Minha mãe sempre diz que querer o que não depende de nós é se machucar à toa. É o que está fazendo: se machucando sem nenhum resultado bom. Ao contrário. Irrita sua mãe, fica doente de novo e ela briga mais ainda com o professor e a Liana, pondo a culpa neles. - Se eu ficar doente de novo, a culpa é só dela. Eles não têm nada com isso. - A culpa é só sua. Está culpando sua mãe, mas é você quem está se machucando, sendo rebelde, ficando sem comer e sem ir brincar no sol. - É só por um pouco, até ela fazer o que eu quero. - Você está desafiando a vida. Está melhor e se finge de doente. Vai acabar ficando mesmo. A culpa é só sua. - Não vou ficar doente de novo. - Se continuar assim, vai. Por isso, levanta dessa cama. Vamos jantar. Como pode falar mal da nova professora sem conhecer? - Eu sei que ela é ruim e que não vai dar certo. - Eu só vou aceitar isso e concordar depois que você a conhecer e tivermos algumas aulas. Antes disso, eu não sei. - Você não acredita em mim. - Não mesmo. Você não pode saber se vai dar certo ou não sem experimentar. Está só fantasiando. 237 - Está bem. Eu vou levantar, conhecê-Ia, assistir a algumas aulas, só para provar a você que eu estava certo. - Isso mesmo. Então vou acreditar, e até ajudar você a fazer uma campanha contra ela. - Você me ajuda a azará-Ia? - Só se ela for ruim mesmo. Antes de saber isso, não. - Está bem... vamos ver... Ele se levantou disposto a provar a Nico que sabia o que estava dizendo. Observando-o enquanto se vestia, Nico sorriu levemente. Todos na mansão se queixavam de Eurico, dizendo que ele era muito difícil de levar. Nico pensava justamente o contrário. Sabendo conversar com ele, era muito fácil conseguir o que queria. 238 Capítulo 17 Eurico olhou para Melissa, que estava falando sobre história, e fechou o caderno. O sol lá fora estava brilhando e ele estava pensando em ir ver o ninho de passarinhos do limoeiro. Já teria filhotes? Não estava nem um pouco interessado em saber quem foram os presidentes dos países da Europa, nem por que haviam feito a Primeira Guerra Mundial. Melissa calou-se, observando-o enquanto Amelinha o cutucava por baixo da mesa tentando chamar sua atenção. Eurico, absorto, não percebeu. Continuou pensando nos assuntos de seu interesse, que nada tinham a ver com o que ela desejava ensinar. Melissa aproximou-se dele em silêncio e sentou-se a seu lado, calada. Os outros dois observavam sem coragem para dizer nada. Eurico demorou alguns segundos para perceber Melissa sentada a seu lado. Quando notou, olhou para ela com ar de desafio. Se ela tentasse repreendê-Io, sabia muito bem o que fazer. Passaria maI o resto do dia e Eulália acabaria por culpar a professora e mandá-Ia de volta para São Paulo. Ela continuou em silêncio, absorta, sem olhar para ele. O tempo foi passando, e Eurico irritou-se com o mutismo dela. - Não gosto de história e não vou estudar isso - disse ele. Melissa levantou-se, colocou-se na frente de Eurico e olhando-o nos olhos disse com firmeza: - Se não gosta, não faça. - Você é a professora. Não vai me obrigar? - Não. É um direito seu. - Não está sendo paga para me ensinar? - Estou. Esta é nossa primeira aula. Eu estou fazendo minha parte, ensinando. Cumpro meu compromisso. Ofereço um trabalho e sou paga. É uma troca digna. Você não pode dizer o mesmo. - Porquê? - Sua mãe faz a parte que lhe compete pagando seus estudos. Portanto, você tem tudo a seu favor. Só que, se não estudar, nunca terá independência para se sustentar. Se pretende continuar vivendo às custas de sua família pelo resto da vida, é uma decisão sua que eu respeito. Não pretendo forçá-Io a nada. Se não quiser mais comparecer às aulas, falarei com sua mãe e pronto. 239 Descontamos uma parte do dinheiro que ela paga e darei aula só para os outros dois. - Não quer dar aula para mim só porque não gosto de estudar? - Isso mesmo. Gosto de trabalhar com quem aproveita. Não sou de perder tempo com quem não deseja aproveitar. Sinto-me mal em fazer sua mãe pagar por alguma coisa sem proveito. - Já que você veio, não pode se recusar a me dar aulas. É sua obrigação. - Assim como eu respeito você se não deseja estudar, exijo que me respeite quando eu me reservo o direito de ensinar apenas os que desejam aprender. Portanto, se está sem vontade e prefere ir para o jardim, fique à vontade. - Está me mandando embora? - Não. Estou dando oportunidade para você escolher o que quer. - E se eu ficar? - Vou exigir atenção e vontade de aprender. - Pois eu vou embora mesmo. Você não é como o professor Alberto. Ele, sim, sabia dar aulas. Eurico levantou-se e saiu. Nico fez um gesto para detê-Io, mas Melissa fez-lhe sinal para que deixasse. Amelinha, que ia levantar-se, sentou-se novamente. - Muito bem - disse Melissa com voz suave. - Vamos continuar. Eurico foi para o jardim ver os passarinhos, entretanto não conseguia desviar a atenção da janela da sala de aula. O que estariam fazendo lá tanto tempo? Por que depois que ele saiu os outros dois continuaram lá como se nada houvesse acontecido? E a professora? Ela não sabia que a única razão de ser contratada em casa era porque ele não podia freqüentar uma escola? Se não desse aula para ele, os outros dois poderiam ir para a escola da cidade. Ela não tinha medo de perder o emprego? Ouvira seu pai dizer que ela precisava trabalhar para se sustentar. O que será que ela estava ensinando? Hilda, vendo-o, foi ter com ele, perguntando: - O que está fazendo neste sol? Por que não está na aula? - Por que não quero. Não gosto da aula dela. - Este sol vai fazer-lhe mal. Vamos entrar. - Não vou. - Vou falar com sua mãe. Essa professora não devia tê-Io deixado sair, ainda mais para ficar neste sol. 240 - Isso mesmo. Vá, sua linguaruda! Diga para ela que é melhor mandar essa professora embora. Ela não serve mesmo. Hilda saiu e ele se sentou no caramanchão. Essa aula estava demorando muito. Não acabava mais. O que ele iria fazer até que Nico estivesse livre? Entediado, esperou e, quando os viu sair para o jardim, foi ao encontro deles, que conversavam animadamente. - Ele tomava banho uma vez por mês, de roupa e sentado na cadeira - dizia Amelinha rindo. - Que banho? - disse Nico. - Enfiavam a cadeira dele no mar e a tiravam. Isso é banho? - Do que estão falando? - indagou Eurico. - De Dom João VI, rei de Portugal - respondeu Nico rindo. - Por que ele fazia isso? - Não vamos contar nada - disse Amelinha. - Quem mandou você não ficar na aula? Foi tão engraçado! - Estão falando da aula? - Estamos - respondeu Nico. - Sempre pensei que um rei fosse muito limpo. - Não conte nada para ele - disse Amelinha. - Foi só a primeira aula, e vocês dois já estão puxando saco da professora. - Não seja despeitado. Ela é boa e eu gosto dela - defendeu ela. - E você, Nico? - Foi a primeira aula e não nego que foi divertida. - Ela me mandou embora. Não tem paciência. - Para falar a verdade, Eurico, ela foi até muito boa. Não deu castigo nem obrigou você a nada. Só deixou você escolher. Foi você quem resolveu sair. Eurico mordeu os lábios nervoso. Essa Melissa era bem capaz de o fazer até perder o amigo. No dia seguinte iria tentar outra coisa, mas ele haveria de conseguir mandar essa professora embora. Norberto não havia conseguido dormir. Ficara se revirando na cama só pensando em um jeito de ver Liana a sós. Quando fosse até lá, não queria que o professor estivesse em casa. Ele não ia deixá-Ios sozinhos, tinha certeza. Liana teria contado ao marido o que acontecera entre eles? Essa dúvida o atormentava. Ardia por estar com ela de novo, e o desejo reacendera de forma insuportável, fazendo com que ele perdesse a vontade de comer, de fazer qualquer outra coisa. 241 Por que o casamento dela o descontrolara tanto? Ele a amava, mas conseguia se conter. Agora estava sendo difícil. Tinha ímpetos de sair correndo e ir até ela, tomá-Ia nos braços sem se importar com mais nada. Essa emoção era tão forte que o assustava. Depois do almoço, saiu dizendo que ia a uma loja da cidade, mas foi diretamente à casa do professor. As janelas abertas indicavam que estavam em casa. Não teve coragem de parar o carro em frente à casa. Deixou-o em outra rua e foi a pé até lá. A rua estava deserta e ele parou a alguma distância, observando. Viu quando Alberto, segurando um grande envelope pardo, saiu caminhando. Estava com sorte. Liana ficara em casa. Assim que Alberto virou a esquina, ele se aproximou e tocou a campainha. Gislene abriu e; vendo-o, assustou-se. - Preciso falar com Liana. - Ela está descansando. Acho que adormeceu. - Pois vá e acorde-a. É urgente. Ela o convidou a entrar na sala e foi ao quarto de Liana. Enquanto esperava, Norberto mal conseguia dominar a ansiedade. Finalmente ia saber a verdade. Alguns instantes depois, Liana apareceu. Ele teria vindo a mando de Eulália? Ela teria se arrependido? Gislene esperava na porta da sala, receosa. - Precisamos falar a sós - disse Norberto. - Pode ir, Gislene. Logo que ela saiu, ele se aproximou dela, abraçando-a e dizendo emocionado: - Liana, estou ficando louco! Como pôde fazer isso comigo? Ela o empurrou aflita: - Deixe-me. Não quero mais falar nisso. - Não consigo pensar em mais nada que não seja você. Não posso viver sem você! Tentava abraçá-Ia, e ela o empurrava nervosa. - Vá embora. Deixe-me em paz! Não quero nada com você! Olhando para ele, Liana foi tomada de um sentimento de horror. Pálida e apavorada, ela repetia: - Vá embora. Deixe-me em paz. - Não posso! Agora que estamos juntos de novo, não mais a deixarei. 242 - Você enlouqueceu? E Eulália? - Nada mais importa. Vamos fugir. Ficaremos juntos para sempre. Nunca mais nos separaremos. Vamos nos amar! Eu preciso de você! Ele a abraçava e Liana sentia-se sufocar enquanto ele a apertava em seus braços, beijando-lhe o rosto, os cabelos, procurando seus lábios. Foi aí que Liana deu um grito, seu corpo amoleceu. Norberto segurou-a, deitando-a no sofá enquanto Gislene apareceu assustada, dizendo: - O que foi, Dona Liana? O que aconteceu? - Vá buscar um copo de água - pediu Norberto, pálido. - O que fez com ela? Não sabe que está muito doente e que não pode passar emoções fortes? Vou buscar o remédio dela e chamar o médico. - Não quero que chame aquele médico. Vou levá-Ia comigo para casa. De lá iremos a São Paulo ver o médico de nossa família. - O senhor não vai levá-Ia daqui sem avisar o marido dela. - Eu me responsabilizo. Ela precisa de atendimento, e não vou deixá-Ia nas mãos daquele charlatão. O marido dela que vá depois nos procurar. Vou buscar meu carro, que está na outra rua. Enquanto isso, veja alguma roupa dela. Depois vai me ajudar a colocá-Ia no carro. Ele saiu e Gislene nervosa trancou as portas e fechou as janelas. Não iria deixar que ele levasse Liana. Tratou de buscar o remédio e tentou acordá-Ia. Ela parecia morta. Não dava acordo de si. Assustada, Gislene apanhou o telefone e ligou para a casa do Dr. Marcílio. Ele não estava, mas Adélia, informada do que acontecia, resolveu: - Sei onde Marcílio está. Vou imediatamente chamá-lo. Agüente firme e não abra a porta para Norberto. Seria bom se rezasse enquanto isso. Depois eu explico por quê. Gislene desligou e vistoriou toda a casa para ver se tudo estava bem trancado. Em seguida, ouviu a campainha. Ela estremeceu. Norberto estava de volta e tocava a campainha insistentemente. Ele entrou no jardim e esmurrou a porta, dizendo: - Sei que vocês estão aí. Abra a porta, senão eu arrombo. Gislene rezava, conforme lhe fora pedido, mas não conseguia prestar atenção na oração. Seu coração batia descompassado. Vendo que ele não desistia, ela tomou coragem, foi até a porta e gritou: - Não vou abrir para o senhor. Já chamei a polícia. Se não for embora, vai ter de explicar tudo ao delegado. - Você me paga, sua vadia. Vou entrar de qualquer jeito. - Não vai, não. A polícia já está vindo. Norberto olhou para a rua e viu o médico com a esposa, parando o carro em frente à casa. 243 Murmurando uma praga, ele saiu, entrou no carro e se foi. Marcílio bateu na porta, dizendo: - Sou eu, Marcílio. Pode abrir, Gislene, ele já se foi. Ela abriu a porta e caiu em pranto. - Ela está como morta. Ele queria levá-Ia para São Paulo. Foi horrível! Marcílio correu ao sofá onde Liana estava desacordada e tomou seu pulso. Depois, disse a Adélia: - Vamos fazer uma corrente para trazê-Ia de volta. Adélia chamou Gislene, recomendando que estendesse as mãos sobre Liana, e ela fez o mesmo. Marcílio colocou a mão sobre a testa dela, dizendo: - Liana, volte. Tudo passou. Você está protegida. Ele já se foi. Repetiu isso algumas vezes, até que um suspiro dorido escapou dos lábios dela. Depois ela abriu os olhos, dizendo apavorada: - Ele veio aqui para me levar! Foi horrível! - Quem? - indagou Marcílio. - O coronel Firmino. Estava aqui, agarrando-me. Fiquei apavorada. - Ela delira - disse Gislene. - Quem esteve aqui foi o Dr. Norberto. O médico olhou para a esposa e não disse nada. Depois para Gislene: - Faça um café, por favor. Ela precisa de um. Enquanto ela ia para a cozinha, Marcílio comentou: - As coisas estão se complicando. Ele agora tomou Norberto. Por isso ele estava tão violento. - Assim ele se fortaleceu. Vendo que Gislene voltava, eles se calaram. Liana estava tomando café quando Alberto chegou. Ele havia ido ao correio. Informado do que acontecera, disse emocionado: - De agora em diante não mais a deixarei só. - É melhor mesmo. - Ele veio - disse Liana, apavorada. - O coronel Firmino estava aqui! Queria me levar com ele. Alberto segurou as mãos dela com força, dizendo: - Eu estou aqui. Ele não vai poder fazer nada. - Acalme-se - pediu Marcílio. - Ele envolveu Norberto. Notou que ele a quer e está se aproveitando. - Meu Deus! Será possível? - murmurou ela assustada. Ele pode perder a cabeça. 244 Eulália vai perceber! O que faremos? Se ela descobrir tudo, eu não suportarei. - Não fique assim, Liana. Neste momento temos de ser firmes e ter fé. Deus está nos protegendo. O coronel nada poderá fazer - tornou AIberto, friccionando as mãos geladas de Liana na tentativa de aquecê-Ias. - De hoje em diante, não sairei de seu lado. Quando precisar sair, levo-a comigo. Se não puder ir, encarrego Gislene de tudo, mas não a deixarei. - É melhor mesmo - concordou Marcílio. - Pelo menos por enquanto. - Eu saí da mansão e pensei que tivesse me libertado dele. Agora sei que foi inútil- disse Liana. - Isso não é verdade - respondeu Adélia. - Lá ele estava dominando a situação. Aqui ele não tem a mesma força. - Isso mesmo, Liana - reforçou Marcílio. - Depois, nossos amigos espirituais continuam trabalhando em seu favor. O coronel Firmino está resistindo, mas é apenas uma questão de tempo. Por mais que ele lhe pareça assustador pela violência que demonstra, pela determinação que lhe dá muita força, ele nunca vencerá os espíritos do bem que estão apoiados pela força da vida e da luz. - Se eles têm mais poder - redargüiu Liana -, por que não o dominam e o afastam de vez? - Porque eles preferem convencê-Io a desistir, a enxergar a verdade. Só assim você estará livre para seguir seu destino. É preciso que entenda, Liana: vocês estão ligados por laços de um passado que os colocou frente a frente. É hora de ambos se libertarem. É hora de compreender e perdoar. - Só sei que o odeio, que não desejo vê-Io nunca mais. Só em falar nele sinto-me apavorada. - Seja o que for que tenha acontecido entre ambos, já passou. É preciso entender, Liana, que ele agiu de acordo com sua maneira de ser na época. O ódio é um sentimento terrível porque, ao invés de distanciá-Ia dele, a aproxima mais. - Deus me livre, Dr. Marcílio. - Por isso, quando sentir raiva dele, procure lembrar que ele é como é e não como você gostaria que ele fosse. É inútil querer mais de alguém que não tem para dar. - Eu nem sei por que sinto isso. Não sei se vivi outras vidas antes desta. 245 - Seu horror por ele é muito revelador. Embora não se lembre, os fatos do passado estão em seu inconsciente e refletem-se em seus sentimentos no presente. Você não precisa saber o que aconteceu, mas sempre que sentir essa repulsa por ele, essa raiva, pense que ele é como uma criança que ainda não tem discernimento para fazer melhor. - Dizem que ele foi maldoso em vida, morreu velho e até agora ainda pensa em fazer mal aos outros. - Se você não deixar de lado esse rancor, não vai conseguir livrar-se do coronel Firmino. Apesar de ter vivido muito, ele é um espírito ainda ignorante. Precisa desenvolver a consciência, aprender os verdadeiros valores da vida. Para isso terá de pagar um preço que nós não sabemos qual será. Tenho certeza, entretanto, de que terá de se esforçar, trabalhar muito para conseguir. Já você tem muito mais conhecimento. É um espírito mais lúcido e tem condições de compreender os limites dele. Quando fizer isso, terá condições de perdoá-lo. Então será mais fácil libertar-se de sua influência. - Não lhe desejo nenhum mal, doutor. Entenda isso. Só não quero tê-Io à minha volta. - Nesse caso terá mais facilidade em fazer o que estou lhe pedindo. Quando pensar nele, veja-o como alguém necessitado, reze para que ele abra seu entendimento e possa seguir um caminho melhor. Se fizer isso, estará nos ajudando a libertá-la de sua influência. - Vou me esforçar - garantiu Liana. - Amanhã desejo vê-la em minha casa para a reunião - interveio Adélia. - Estaremos lá - prometeu Alberto. As cores haviam voltado ao rosto de Liana, e o médico tomou-lhe o pulso por alguns instantes. Depois perguntou: - Sente-se melhor? - Sim - disse ela. - Nesse caso, temos de ir - disse o médico. Gislene, que acabava de entrar, disse: - Por favor, doutor! Sente-se um pouco pelo menos para um café. Já vou servir. - Se tiver aquele bolo de chocolate que você faz, não vou resistir! - respondeu ele sorrindo. - Pois tenho, sim. Liana sentara-se no sofá e Alberto continuava segurando sua mão, alisando-a com carinho. Estava ali para defendê-la e cumpriria seu papel. 246 Norberto saiu da casa do professor tentando controlar o rancor. Tinha ímpetos de voltar e arrancar Liana de lá à força. Não queria promover um escândalo, mas eles não perdiam por esperar. Não ia ceder com tanta facilidade. Deviam estar cantando vitória. Aquele professorzinho ia ver com quem estava lidando. Ela não disse que amava o marido. Esse casamento era uma farsa, e ele haveria de anular tudo. Sentia a boca amarga e uma forte pressão na nuca. Seu estômago também estava enjoado. Reconhecia que havia perdido a cabeça. Precisava controlar-se. Sua impulsividade assustara Liana. Esquecera que ela estava fraca e doente. Da próxima vez seria mais cuidadoso. Tinha certeza de que encontraria um jeito de vê-Ia a sós novamente. Sabia que depois do que acontecera ela seria mais vigiada. Era mais uma prova de que ela bem poderia estar ali a contragosto. Como conseguir o que pretendia? Daria alguns dias para que eles esquecessem o assunto, e depois encontraria um jeito de vê-Ia outra vez. Ao chegar em casa, Eulália estranhou: - Aonde você foi? Demorou tanto! - Fui dar uma volta. Não estava me sentindo bem. - Hum... Você está pálido. Está doente? - Não. Apenas ligeira indisposição de estômago. - Posso preparar um remédio. - Não é preciso. Já estou melhorando. Ela olhou para ele e não insistiu. Ele lhe parecia um pouco inquieto, sem o ar costumeiro que ela tão bem conhecia. Sentou-se no sofá da sala, recostou a cabeça e fechou os olhos. Preocupada, Eulália esperou meia hora e, como ele continuasse do mesmo jeito, aproximou-se e tocou de leve em seu ombro, dizendo: - Está se sentindo melhor? - Deixe-me em paz - respondeu ele sem abrir os olhos. Eulália ficou chocada. O tom áspero do marido surpreendeu-a. Em tantos anos de casamento, ele nunca se dirigira a ela dessa forma. Sem se dar por vencida, ela retrucou: - Por que está desse jeito? Aconteceu alguma coisa que eu não sei? - Já pedi que me deixe em paz. Não estou com vontade de conversar. Ela não insistiu. Afastou-se um tanto magoada. Acontecesse o que acontecesse, Norberto sempre fora educado. Esse era um forte traço de sua personalidade. 247 Mesmo nos momentos em que estava muito contrariado, conseguia controlar-se e expressar-se de maneira discreta. Intrigada, Eulália perguntava-se o que ele teria ido fazer naquela tarde que o transtornara tanto. Talvez estivesse doente e escondesse para não a preocupar. Logo afastou essa idéia. Sempre que ele não se sentia bem, ia ao consultório do Dr. Caldas, seu médico e amigo. Logo ela começou a pensar que era estranho o fato de ele tirar férias naquela época do ano para ficar com a família. Sentia que havia alguma coisa que ele escondia para não a deixar nervosa. O que seria? A esse pensamento, sentiu o coração oprimido. O que ainda estaria para acontecer? Já não bastava Liana ter-lhe dado tanto desgosto? Foi arrancada de seus pensamentos por Hilda: - Eurico está impossível. Foi se deitar e disse que não vai descer para o jantar. Nico está com ele. Mas eu disse que o sol iria fazer-lhe mal. Ele não me ouviu. - O que disse? Hilda contou-lhe tudo novamente, ao que Eulália respondeu: - Deixe-o por agora. Depois falo com ele. As coisas estavam se complicando novamente com o filho. Reconhecia que Alberto soubera conquistar a estima de Eurico. Durante aquele tempo ele se tomara mais calmo, mais forte e até mais participativo. Por que Liana fizera aquilo? Ela poderia ter se casado com Mário e tudo continuaria em ordem, Eurico em paz e eles todos juntos. Suspirou triste. A calma dos últimos meses fora truncada. Até Norberto estava mudado. Não falaria com ele até que lhe pedisse desculpas pela grosseria de momentos antes. Esse pensamento não a acalmou. Ao contrário, sentiu-se mais angustiada e só. Não tinha ninguém em quem pudesse confiar. Estava habituada a dividir tudo com Norberto e Liana. Ela a abandonara e ele não parecia disposto a apoiá-Ia. Eulália reagiu a esse pensamento e tentou sair da depressão. Seu marido estava indisposto, apenas isso. Descansaria um pouco, ficaria melhor e depois lhe pediria desculpas pela atitude grosseira. Nada havia mudado entre eles. Levantou-se e resolveu ver o que estavam fazendo para o jantar. Se ele não estava bem do estômago, teria de providenciar alimentos leves. Norberto sentou-se à mesa para o jantar sem dizer nada. Eulália notou que ele parecia melhor, mas não se arriscou a perguntar. - Onde estão as crianças? - indagou ele com naturalidade. 248 - Eurico não quis descer e os outros dois jantaram na copa. - Eurico não jantou por quê? - Não quis. - Ele não pode ficar sem se alimentar. Você precisa falar com ele. Não pode deixá-Io fazer tudo que quer. - Ele alega que não está bem. - Mais uma razão para ele não ficar sem comer. Você sabe que ele pode voltar a ficar anêmico. - Ele não quer aceitar a nova professora. Hoje não quis assistir à aula. - Isso não pode acontecer. Você tem de obrigá-Io a ir. - Já tentei. Ele não obedece. Por que não fala você com ele? - Falarei, depois do jantar. Apesar de Norberto parecer melhor, Eulália notou que ele a olhava de um jeito diferente do habitual. Não disse nada. Não queria arriscar-se a ser maltratada de novo. Depois do jantar, Norberto foi ao quarto de Eurico e mandou que Amelinha e Nico saíssem. Depois se aproximou da cama onde o menino, coberto até o pescoço, fechara os olhos para fingir que estava dormindo. - Abra os olhos, Eurico. Eu sei que está acordado. Ele abriu e não disse nada. Norberto continuou: - O que está acontecendo com você? Por que não foi à aula hoje? - Não gosto dessa professora. - Como pode saber? Era sua primeira aula com ela. - Eu sei que ela não é como o professor Alberto. Ele, sim, é que sabia dar aulas. Norberto trincou os dentes com raiva e respondeu: - Ela é muito melhor do que ele. Não quero que fale mais o nome dele nesta casa! - Eu quero que ele volte para dar as aulas. Enquanto ele não vier, não irei a nenhuma aula. Norberto aproximou seu rosto do de Eurico, olhou-o nos olhos com rancor e disse: - Irá, porque eu estou mandando. Amanhã cedo vai se levantar e ir à aula da professora. Eurico começou a chorar, dizendo: - Eu não quero! Não gosto dela. Eu quero o professor Alberto! Eu gosto dele. Ele tem de voltar aqui com tia Liana! Norberto enrubesceu. Agarrou Eurico pelos braços e sacudiu-o com força, gritando nervoso: 249 - Cale a boca! Nunca mais repita isso em minha frente. Aquele professor maldito nunca mais entrará nesta casa! Isso eu juro! Se ele fizer isso, darei cabo da vida dele! Eurico gritou apavorado: - Socorro! Nico! Venha me ajudar! O coronel Firmino está aqui e quer me matar! Nesse momento, Eulália, que escutara os gritos do marido e do menino, subira a escada correndo a tempo de intervir. Segurou o marido por trás, gritando apavorada: - Norberto! Você enlouqueceu? O que está fazendo? Quer matar nosso filho? Norberto soltou Eurico, que caiu na cama pálido, sem forças, enquanto Nico o abraçava dizendo baixinho: - Calma, Eurico. Eu estou aqui. Ele não vai lhe fazer nenhum mal. Eulália, inconformada, olhava nervosa para o marido, que empalidecera e cambaleara a tal ponto que, se ela não o amparasse, teria caído ao solo. Arrastou-o para uma cadeira enquanto Amelinha chorava assustada e Nico tentava confortá-Ia também. Hilda apareceu na porta e Eulália disse-lhe nervosa: - Ajude-me a levar Norberto para nosso quarto. As duas pegaram seu braço, uma de cada lado. Ele estava alheio e deixou-se conduzir com docilidade até o quarto onde Eulália o obrigou a deitar-se, afrouxou suas roupas e tirou-lhe os sapatos. Ele fechou os olhos parecendo dormir. Seu corpo estava suado e sua respiração descompassada. - Ele não parece nada bem - comentou Hilda. - Nunca o vi assim. O que aconteceu, Dona Eulália? - Não sei. Ele deve estar doente. Muito doente. Acho que teremos de voltar a São Paulo para ele se tratar. - Acho melhor não esperar. Vamos chamar o Dr. Marcílio mesmo. - Deus nos livre daquele charlatão! Está resolvido. É melhor preparar tudo. Amanhã irei com ele a São Paulo para uma consulta com o Dr. Caldas. Tonico dirige o carro, você toma conta das crianças. - Ele está pálido, a respiração esquisita. Desculpe, Dona Eulália, mas médico é médico. Se eu fosse a senhora, chamava o Dr. Marcílio mesmo. Formado ele é. - Não. Vamos esperar. Prefiro levá-lo amanhã ao médico de nossa confiança. Hilda calou-se. 250 No quarto de Eurico, Nico tentava acalmar os outros dois: - Ele não pode fazer nada. Não precisa ter medo. - Não era meu pai que estava me sacudindo! Era o coronel. Eu vi! Ele queria me matar! Estou com medo. Ele pegou o corpo de meu pai. - Não quero que ele pegue o corpo de papai! - disse Amelinha, chorando nervosa. - Ele pode querer levá-Io como quis levar tia Liana. - Temos que buscar ajuda. Como vocês não podem sair, eu irei. - Não agora! Você não vai me deixar sozinho com ele! - Ele já foi embora. Não precisa ter medo. - Não quero que vá. Perto de você ele não vem. Você vai ficar comigo. - Está bem, eu fico. Mas tenho que pedir ajuda ao professor. - Eu também não quero que você vá agora - disse Amelinha. Estou com medo. E se ele voltar? Eulália entrou no quarto e eles se calaram. Aproximou-se da cama do filho, dizendo: - Viu o que você fez? Deixou seu pai perder a cabeça com sua teimosia. - Eu não fiz nada. Só disse que queria ter o professor de volta. - É impossível. Ele nunca mais porá os pés aqui. É melhor esquecer isso e não desafiar seu pai como fez hoje. - Ele quis me matar, mamãe! - Que loucura é essa, menino? Onde já se viu? - É verdade. Se você não viesse, ele teria me matado. Olhava para mim com tanto ódio... Eulália empalideceu e abraçou o filho preocupada. Ela notara isso ao entrar. Ele olhava para o filho com muito ódio. Seu marido estaria enlouquecendo? Ele nunca levantara a voz com o menino, principalmente por sabê-Io tão fraco e delicado. Sacudi-lo com tanta violência foi terrível. Por mais que pensasse, ela não podia acreditar que ele desejasse matar o próprio filho. - Isso não é verdade, meu filho. Você está enganado. Seu pai ama-o muito, sempre fez tudo por você. Nunca haveria de querer matá-lo. De onde tirou essa idéia? - Estava nos olhos dele, mamãe. Eu vi. Eulália sentiu um aperto no peito e não encontrou palavras para retrucar. Beijou-o na testa com carinho, depois disse: - Estou começando a desconfiar que seu pai está doente. Hoje não estava se sentindo bem. Esqueça isso. Amanhã irei com ele a São Paulo para uma consulta ao Dr. Caldas. 251 Vocês ficarão com Hilda até eu voltar. Agora vou fazer um chá para você e vai dormir. Amanhã tudo terá passado. Só lhe peço que não afronte seu pai. Vá assistir à aula, por favor. Não custa nada. Se depois de algumas aulas não gostar da professora, arranjamos outra. Mas faça o que lhe estou pedindo. - Ele vai, sim, Dona Eulália - garantiu Nico. - Eu o levo. - Só se você deixar Nico dormir aqui hoje. Estou com medo. - Eu também quero ficar aqui - disse Amelinha. - Não vou ficar sozinha em meu quarto. Eulália pensou um pouco e resolveu concordar. Era melhor mesmo que eles ficassem juntos aquela noite. Não sabia como Norberto iria despertar. E se ele ficasse violento novamente? - Está bem - concordou ela. - Vou mandar pôr dois colchões no chão. Mas cada um vai ficar em sua cama. - oba! - disse Eurico, satisfeito. - Amanhã quero ver você na aula - exigiu Eulália. - Vamos ver - tomou Eurico. - Ele vai, pode contar - rematou Nico. Colocaram os colchões, arrumaram tudo, e, quando os viu deitados cada um em seu lugar, Eulália recomendou a Nico: - É melhor fechar a porta com chave. Assim ficam mais tranqüilos. Se eu quiser entrar, baterei. Depois que ela se foi, Nico passou a chave na porta e imediatamente os três se uniram na cama de Eurico. - Você viu mesmo a alma do coronel Firmino em papai? - perguntou Amelinha, preocupada. - Vi. Era ele. Estava furioso. - Ele não pode fazer nada, está morto - explicou Nico. - Você diz que não pode, mas papai estava fazendo o que ele queria. Sacudiu-me que eu fiquei tontinho. Pensei que fosse morrer ali. Se mamãe não chegasse, ele podia mesmo ter me matado. Apesar de preocupado, Nico não quis dar o braço a torcer: - Ele não faria isso. Você está exagerando. Ficou com medo porque ele estava junto. Mas seu pai nunca iria matar você. Tenho certeza disso. - Nós fechamos a porta, mas isso para ele não adianta nada. Ele atravessa pela parede - lembrou Eurico preocupado. Amelinha encolheu-se mais junto a eles: - Não diga isso, que estou com medo. Não vou dormir a noite inteira. Se ele vier, tenho de estar acordada para chamar mamãe. Por que não disse para ela que viu a alma do coronel Firmino no corpo de papai? 252 - Está louca? Se eu dissesse, ela me levaria junto amanhã ao Dr. Caldas e começaria tudo de novo. Aqueles remédios horríveis! Eu nunca mais quero tomar aquelas porcarias. Não adianta nada mesmo. Não estou doente. - Eurico tem razão. Foi melhor não contar. Amanhã irei procurar o professor e ele nos ajudará. - Como, se ele não pode vir aqui? - retrucou Eurico. - Daremos um jeito, você vai ver. O que não podemos é ficar com medo daquela alma penada. Acho melhor rezar. Vamos nos dar as mãos e rezar. Pedir a proteção de Jesus. Assim estaremos protegidos. Os três deram as mãos e rezaram o pai-nosso. Depois Nico pediu proteção para eles e todos da casa. E finalizou: - Agora vamos dormir. Podem ficar sossegados, que nada vai acontecer. Vou ficar acordado até vocês pegarem no sono. - Você não sabe nenhuma história bonita para nos contar? - pediu Amelinha. - Sei. Vou contar uma que minha mãe sempre contava quando eu era pequeno e estava com medo de assombração. Era uma vez... Com voz pausada, Nico foi contando sua história enquanto os outros dois ouviam com interesse. Aos poucos foram fechando os olhos. Quando os viu adormecidos, Nico acomodou-se e, agradecendo a proteção de Deus, adormeceu. Eulália, sentada ao lado da cama do marido, não tinha sono. Ele dormia ainda vestido e ela permanecia em vigília, com medo de que ele acordasse maldisposto. Parecia-lhe que de repente uma onda de desgraças caíra sobre sua família. Por quê? Eles eram pessoas honestas e de bom comportamento. Não mereciam nada do que lhes estava acontecendo. Pensamentos desencontrados passavam por sua cabeça, e ela se perguntava de que jeito Norberto iria acordar. Lembrava-se de que durante o jantar, embora ele houvesse se comportado normalmente, havia alguma coisa em seus olhos que o tornava diferente do que sempre fora. Não podia acreditar que Norberto, um homem equilibrado e correto, enlouquecesse de repente, ficasse violento a ponto de agredir o filho doente. Não podia conformar-se com isso. Alguma coisa muito grave estava acontecendo com ele e ela tinha de descobrir. 253 Não podia deixar seus filhos à mercê de uma situação inesperada como a que ocorrera. Precisava protegê-Ios de qualquer forma. Pretendia levar Norberto a São Paulo no dia seguinte e ter uma conversa muito séria com o médico. Precisava saber até que ponto Norberto estava desequilibrado e se isso poderia pôr em risco a segurança de sua família. Hilda bateu na porta e Eulália foi abrir: - Desculpe, Dona Eulália, mas eu não pude dormir. Vim saber como ele está e ver se precisa de alguma coisa. - Está na mesma, Hilda. Não acordou. Mas pode ir dormir. Se eu precisar, chamo. - Não, senhora. Estou vendo que ainda nem se trocou. Se a senhora pode ficar acordada, eu também posso. Se me permite, prefiro ficar aqui, a seu lado, a ficar em meu quarto. Eulália olhou para ela surpreendida. Hilda sempre lhe parecera indiferente e fria. Sentiu-se confortada. Sorriu e respondeu: - Está bem. Se quer ficar, eu agradeço. Não consigo dormir também. - Vou buscar um chá de cidreira para nós. Acalma e faz bem. Ela se foi e alguns minutos depois voltou com a bandeja. Enquanto tomavam o chá, Eulália confidenciou: - Estava me sentindo muito sozinha. Obrigada, Hilda, por fazer-me companhia. - Temos vivido juntas tantos anos. Nesta hora temos de nos apoiar - respondeu ela com simplicidade. Eulália suspirou. Depois disse: - Como será que ele vai acordar? - Talvez estejamos preocupadas sem razão. Pode ser que ele esteja bem. - Deus a ouça. Mas, mesmo assim, amanhã iremos ao médico. Não desejo facilitar. - Tem razão, Dona Eulália. As duas continuaram conversando mais algum tempo até que aos poucos, cansadas, reclinaram-se na poltrona em que estavam sentadas e adormeceram. 254 Capítulo 18 Eulália acordou sobressaltada e olhou em volta. Estava sozinha. Norberto não estava no quarto, nem Hilda. Apressou-se em descer as escadas. Sentia o corpo doer, certamente por haver passado a noite na cadeira. O dia já havia amanhecido e o cheiro do café indicava que os empregados já haviam levantado. Preocupada, foi à cozinha, onde encontrou Hilda. - Bom dia, Hilda. Não a vi sair do quarto. - Eu acordei e resolvi fazer um café. Maria não veio ainda. É muito cedo. - Você viu Norberto? - Quando saí do quarto, ainda dormia. Ele não está lá? - Não. Aonde terá ido? - Não sei. - Vou procurá-lo lá em cima. Procure-o aqui embaixo. Eulália subiu novamente as escadas com o coração batendo forte. Ao passar pelo quarto de Eurico, verificou que a porta ainda estava fechada à chave. - Ainda bem - pensou. - Aqui ele não entrou. Foi para o quarto do casal e verificou que a porta do banheiro estava fechada. Ouvia-se perfeitamente o barulho da água da torneira. Respirou aliviada. Só podia ser ele se lavando. Olhou-se no espelho da penteadeira e não gostou do que viu. Estava pálida, seu cabelo em desalinho. Tratou de arrumar-se. Foi até o banheiro do corredor, lavou-se, penteou-se e voltou ao quarto. Norberto estava diante do guarda-roupas escolhendo algo para vestir. - Bom dia, Norberto - disse ela procurando controlar-se. Não queria que ele percebesse seu nervosismo. - Bom dia - respondeu ele com naturalidade. - Sente-se melhor? Ele olhou para ela admirado. - Estou bem. Por que pergunta? - Ontem você teve uma crise de nervos e sentiu-se mal. Sacudiu Eurico com tanta força que precisei intervir. - Aquele menino me tira dei sério. É preciso ser firme com ele. Estou cansado de deixá-lo fazer tudo o que quer. 255 Eulália sentiu sua preocupação aumentar. Nunca Norberto tivera uma atitude como aquela. Sempre fora afável e cordato. Dava-lhe liberdade para educar as crianças conforme ela quisesse. - Deixe-o por minha conta. Sei como lidar com ele. - Tenho minhas dúvidas. Acha bom colocar aquele menino controlador do lado dele? - Nico? Ele tem sido uma bênção para Eurico. Graças a ele nosso filho melhorou muito. - Teria melhorado de qualquer jeito. Para isso ele mudou de clima. Se ele não me obedecer e continuar a fazer essa chantagem, mandarei Nico embora. Eulália sentiu um aperto no peito. Norberto falava com voz dura, muito diferente do que costumava. Era evidente que ele não estava em seu estado normal. Resolveu não o contrariar e respondeu: - Você é quem sabe. Eu marquei hoje uma consulta com o Dr. Caldas para você. Temos de ir a São Paulo. Pedi a Tonico para dirigir o carro, não quero que você se canse. - Não vou a lugar nenhum. Estou muito bem. Não preciso de consulta nenhuma. Pode desmarcar. Quem deveria ir é Liana. Essa, sim, eu quero levar a Caldas. Eulália tentou contemporizar: - Ela está casada. Não podemos interferir na vida dela. Depois, ela não quer ir ao Dr. Caldas. Está se tratando com o Dr. Marcílio. - Aquele curandeiro. Não vou permitir que continue tratando dela. - Calma, Norberto. Não temos como a obrigar a ir conosco para São Paulo. - Pensando melhor, não precisa desmarcar a consulta. Passarei na casa de Liana e ela irá comigo ver Caldas. Você fica aqui com as crianças, Eulália. - Não quero que interfira na vida de Liana. Ela escolheu o próprio caminho. Você não está bem e eu vou levá-Io ao médico hoje. Norberto aproximou-se dela e olhando-a nos olhos disse com raiva: - Não se meta entre nós! Meu compromisso é com Liana. É ela que eu quero. Tenho de tirá-Ia daquele traidor. Eulália abriu a boca e fechou-a de novo, sem saber o que dizer. O marido estava fora de si. Sentiu medo. Ele lhe parecia outra pessoa. Norberto havia enlouquecido. O que fazer sozinha com ele e as crianças naquela casa? Eles poderiam estar correndo sérios riscos. 256 Repugnava-lhe pedir ajuda aos empregados. Pensou em ligar para o Dr. Caldas e pedir-lhe que viesse imediatamente. Pagaria o que ele pedisse. Enquanto isso, tentaria acalmá-Io. - Está certo - disse ela. - Farei como você quiser. Não precisa ficar zangado. - Melhor assim. Não tenho nada contra você ainda. Não se meta, e ficará fora disto. - Está bem. O café está pronto. Quer que eu traga a bandeja aqui? - Por quê? Vou tomá-Io na copa. Eulália concordou, embora preferisse que ele não deixasse o quarto. Precisava telefonar ao médico sem que ele percebesse. - Vou descer e ver se está tudo em ordem. Ela desceu enquanto ele acabava de vestir-se. As empregadas já estavam na cozinha e ela fez um sinal para Hilda. Quando ela se aproximou, disse nervosa: - Hilda, ele não está bem. Não está falando coisa com coisa. Parece outra pessoa. Quer ir pegar Liana e levá-Ia para São Paulo. Está fora de si. Preciso de sua ajuda. Você tem de ligar para o Dr. Caldas, sem que ele perceba, e contar-lhe o que está acontecendo. Peça-lhe para vir imediatamente. Pagarei o que ele quiser. - Está bem. - Vendo que Norberto descia as escadas, continuou em voz alta: - Sim, senhora. Já mandei colocar tudo no lugar. Posso servir o café agora? - Pode, Hilda. - As crianças ainda não acordaram. - Deixe-as dormir mais um pouco - respondeu Eulália. - Ainda é muito cedo. A aula é às nove. Hilda concordou e voltou à cozinha, enquanto Eulália se sentava com o marido na copa. Enquanto Maria colocava os bules na mesa, Eulália levantou-se, foi à cozinha e aproximou-se de Hilda, dizendo-lhe baixinho: - Não os deixe sair do quarto. Leve-Ihes o café lá. Diga-Ihes para manter a porta fechada à chave. Hilda assentiu com.a cabeça e Eulália voltou à mesa, olhando preocupada para o marido. Não queria que ele percebesse o que ela estava tentando fazer. Ele comia em silêncio, olhos fixos em um ponto distante, alheio ao que acontecia à sua volta. Ela respirou aliviada. Precisava distraí-Io enquanto o médico não chegasse. Na melhor das hipóteses ele demoraria de cinco a seis horas para chegar. Ia ser difícil. Se Norberto tivesse alguma crise, não sabia como agir. 257 Depois do café, Norberto sentou-se na sala, apático. Hilda fez sinal para Eulália, chamando-a para o jardim. Disse-lhe preocupada: - Dona Eulália, o Dr. Norberto está muito mal. Precisamos fazer alguma coisa. - Telefonou para o Dr. Caldas? - Telefonei. Ele não estava. - Ligou para a casa dele? - Sim. Falei com sua esposa. Ela me disse que ele teve um chamado de urgência e saiu ainda de madrugada. Há um cliente dele passando muito mal. Talvez ele não volte logo. - Deixou o recado para quando ele voltasse? - Deixei. Expliquei o que está acontecendo. Ela sugeriu que chamássemos outro médico. Acha perigoso esperar. Estamos longe da capital. Mesmo que ele saia logo, até chegar aqui vai demorar muito. Temos crianças em casa. Eulália juntou as mãos, apertando-as nervosamente. - Meu Deus! O que vai nos acontecer? - Se eu fosse a senhora, chamaria o Dr. Marcílio mesmo. Ele nos socorrerá até o Dr. Caldas chegar. Pode dar algum calmante para ele. - Não posso fazer isso depois de tudo que aconteceu. - Não temos outra saída. Se o Dr. Norberto tiver outra crise de loucura, o que faremos? - Nem me fale uma coisa dessas! Podemos mandar Tonico a Ribeirão Preto. Lá há bons médicos. - Ele demoraria pelo menos duas horas. Não conhecemos ninguém lá. Mande buscar o Dr. Marcílio mesmo. - Ele pode não querer nos atender. - É um médico, não fará isso. Depois, apesar de tudo, tenho ouvido falar muito bem dele. Salvou a vida de muita gente por aqui. - Vamos ver. Pode ser que Norberto fique calmo. Vamos esperar. - A professora já está tomando café. Vamos suspender a aula de hoje? De onde estava, Eulália via Norberto sentado na sala. Lançando um olhar para ele, decidiu: - Melhor irem para aula como sempre. Se suspendermos, eles ficarão soltos pela casa. Não acho isso aconselhável. Vamos mantê-Ios ocupados. Hilda saiu e Eulália entrou. Estava resolvida a esperar. Se notasse qualquer agitação nele, mandaria chamar o Dr. Marcílio. 258 Suspirou angustiada. Não lhe restava outra saída. Voltou à sala. Apanhou uma revista, sentou-se no sofá e começou a folheá-la, fingindo interesse. Mas estava observando o marido atentamente. As crianças acordaram, tomaram o café no quarto e foram avisadas que deveriam descer para a aula. Eurico não estava querendo ir, mas Nico conseguiu convencê-Io: - Não acho bom provocar seu pai agora. Já pensou se ele fica nervoso e volta com o coronel Firmino? - Nem fale uma coisa dessas! - disse Eurico, nervoso. - Eu tenho medo dele! - tornou Amelinha. - Não precisa. Ele não vai nos fazer nada. Estou pensando uma coisa... - O que foi, Nico? - indagou Eurico - Tenho que avisar o professor. Ele entende de alma do outro mundo. - Não quero que você saia hoje. Já pensou se o coronel aparece de novo? - retrucou Eurico. - Vou e volto logo. Temos que tomar uma providência. - Como você vai fazer isso? Minha mãe não vai gostar de você perder aula. - Ela só vai saber se vocês contarem. - Eu não conto - prometeu Amelinha. - Eu também não. Mas e a professora? - Deixe-a comigo. - Vai contar para ela? - perguntou Eurico. - Não. Ela não vai acreditar. Vou dar um jeito. Vocês vão ver. Uma vez na sala de aula, depois de cumprimentarem a professora, Nico aproximou-se dela dizendo: - Dona Melissa, pode me fazer um favor? - Depende. O que é? - Tenho que ir até minha casa agora. Hoje a senhora vai conferir aquele trabalho, e eu deixei o caderno na casa da minha mãe. - Você pega à tarde. Eu vejo amanhã. Nico não se deu por achado: - Fiz com tanto capricho! Ficou tão bom! Eu quis mostrar para minha mãe e esqueci lá. - Deveria ser mais atento. Vamos à nossa aula de história. Vou repetir o ponto que dei. - Oba! - fez Amelinha. - Eu gostei muito daquela história. - Dona Melissa - tornou Nico -, eu sei essa história na ponta da língua. 259 Enquanto a senhora dá essa aula, eu vou até em casa, pego o caderno e volto. Quando acabar, já estarei aqui. - Não acredito que já saiba tudo. - Eu sei. A senhora pode perguntar. - Você é insistente. Já vi que está querendo mesmo ir até lá. Confesse que está com saudade de sua mãe! - Um pouco. - Está bem, Nico. Peça a Dona Eulália. Se ela deixar, eu deixo. Nico sentou-se desanimado. - Eu desisto. Ela não vai deixar. - Quer que eu o deixe sair e não conte a ela? Não posso fazer isso. Nico olhou para os amigos com tristeza. Depois decidiu: - Está bem. Vou pedir a ela. Saiu e Hilda segurou-o pelo braço. - Aonde vai? - Falar com Dona Eulália. - Agora não. Ela está com o Dr. Norberto na sala. É melhor voltar para a aula. Nico não se conformou: - Sabe o que é? Eu esqueci o meu caderno com o trabalho para hoje lá na casa da minha mãe. Dona Melissa disse que deixa eu ir até lá buscar se a Dona Eulália concordar. - Não precisa incomodá-Ia para isso. Pode ir. Eu deixo. Diga à professora que eu assumo a responsabilidade por isso. Nico voltou radiante, deu o recado e saiu pelos fundos para não ser visto por Norberto. Foi o mais rápido que pôde. Chegou eufórico à casa do professor. Gislene abriu a porta, convidando-o a entrar. - Preciso falar com o professor. É urgente. Antes que ela fosse dar o recado, Alberto apareceu na sala: - O que foi, Nico? Aconteceu alguma coisa? - Aconteceu, professor. O Dr. Norberto ficou nervoso com o Eurico e sacudiu ele com força. Parecia louco. Então o Eurico viu que o coronel Firmino estava no lugar dele. Alberto suspirou preocupado. O que ele temia acontecera. - Conte-me tudo com detalhes. Não esqueça nada. Nico contou e finalizou: - Quando eu saí, a Dona Eulália estava vigiando ele na sala. Ele parecia outra pessoa. Estava calado, cara esquisita. Lá na mansão todo mundo está com medo dele. A Liana está melhor? 260 - Está, Nico. Agora está. Ele veio aqui e agrediu-a também. Queria levá-Ia com ele. - Cruz credo! - Agora não posso sair daqui. Tenho de ficar do lado dela. Ele pode voltar. - O que vamos fazer? Faço força para mostrar coragem perto do Eurico e da Amelinha, mas tem hora que fico com medo. Ele é muito perigoso e tem força. - Não precisa ter medo. Ele só tem força com as pessoas que não têm fé e que não se ligam com Deus. Nós temos proteção. Só precisamos estar atentos. Ouça bem. Vou conversar com o Dr. Marcílio. Ele tem uma sessão espírita com pessoas que entendem dessas coisas. Conta com a ajuda de muitos espíritos superiores. Precisamos ficar firmes na fé. Se acontecer alguma coisa, se o coronel Firmino voltar a ameaçar vocês, reze. Peça a ajuda de Jesus. Ele os protegerá. O bem é mais forte que o mal. - Se ao menos a Dona Eulália acreditasse! Ela estava tão abatida... Não sabe o que fazer. - Vamos ajudar, Nico. Fale com as crianças e procurem ficar longe de Norberto. Vão para o jardim, fechem-se no quarto, mas não se aproximem dele. - Está bem. Agora tenho que ir. Prometi à professora estar de volta logo. - Vá, Nico. Deus o acompanhe. Obrigado por ter vindo me avisar. Depois que o menino saiu, Alberto foi para o escritório, apanhou o telefone e ligou para o Dr. Marcílio contando-lhe a visita de Nico. Finalizou: - Precisamos fazer alguma coisa para ajudá-Ios. O que o senhor me aconselha? - Prece. Faça prece e continue vigilante. Ele está com idéia fixa em Liana. Não se afaste dela por nada. Conserve as portas da casa trancadas. Vou reunir os médiuns e pedir orientação. Qualquer coisa, comunique-me. Eu farei o mesmo. Depois de desligar o .telefone, Alberto foi ao quarto ver Liana. Ela estava dormindo. O médico dera-lhe um relaxante. Aproximou-se da cama, curvou-se e alisou o rosto dela com carinho. Estava pálida. Ele se comoveu. Estava ali para protegê-Ia. Não deixaria ninguém lhe fazer nenhum mal. Sentou-se ao lado da cama, segurou a mão dela e levou-as aos lábios, beijando-a com delicadeza. 261 Liana abriu os olhos e, vendo-o, sorriu. Acanhado, ele largou sua mão, mas ela se remexeu na cama, procurou a mão dele, segurou-a e fechou os olhos novamente. Alberto sentiu um calor brando invadir-lhe o peito. Ela confiava nele e sentia prazer ao seu contato. Era muito bom sentir esse aconchego. Nico voltou à mansão, entrou na casa e apanhou o caderno de que precisava. Desceu, pediu licença e entrou na sala de aula. Enquanto a professora retomava o assunto, Nico fez pequeno sinal afirmativo com a cabeça para os outros dois. Assim que a aula acabou, eles foram ao jardim e Eurico perguntou: - E então? - Falei com o professor. Ele pediu para ficarmos o mais longe possível do Dr. Norberto, pelo menos enquanto o coronel estiver com ele. Disse também para não termos medo, para rezarmos, que os espíritos superiores iam nos ajudar. O Dr. Marcílio fala com eles e ia pedir para virem aqui. - Puxa! Como serão esses espíritos superiores? - perguntou Amelinha. - Só fazem o bem. Trabalham para Jesus - esclareceu Nico. - Eles são anjos? - retrucou ela. - São pessoas - interveio Eurico. - Aquela mulher que sempre aparece para buscar o coronel Firmino quando ele está me assustando deve ser um espírito desses. Ela é tão bonita! Quando a vejo, eu me acalmo e perco o medo. Às vezes ela sorri para mim. - Puxa! Que sorte a sua! - exclamou Nico. - Bem que eu gostaria de ver esses espíritos. - Pois eu não. Se pudesse, trocava com você. Aí eu ia ver se está falando a verdade, se não tem medo mesmo. - Essas almas não têm poder nenhum. Todo poder vem de Deus. Como eu estou com Deus, não tenho nada a temer. Hilda chamou-os para o almoço. Querendo afastar-se de Norberto, eles pediram para fazer o prato e comer na mesa do caramanchão. Hilda conversou com Eulália, que achou até bom, uma vez que Norberto continuava na sala, calado. Angustiada, ela não o deixava só nem por um instante, com medo de que ele tivesse alguma crise. Almoçaram os dois em silêncio e depois ele se sentou novamente na sala, olhando de vez em quando para o relógio. Quando o carrilhão da sala bateu duas vezes, ele se levantou dizendo: - Tenho de ir. Mande tirar o carro. 262 - Aonde você vai? - A São Paulo. Não temos uma consulta para Liana às cinco? Eulália tentou contemporizar: - Não. Terá de ficar para outro dia. Infelizmente o Dr. Caldas viajou e não poderá nos atender hoje. - Não importa. Vou levá-Ia de volta a São Paulo. Lá esperaremos por ele. Eulália aproximou-se dele, dizendo preocupada: - Você não pode fazer isso! Ela não quer ir. O marido dela não vai deixar! Os olhos de Norberto brilharam rancorosos. Ele disse com raiva: - Pouco me importa o que esse impostor quer. Ela é minha, entendeu? Ninguém a tira de mim! Eulália empalideceu e não soube o que dizer. Ele continuou: - Ela é minha! Está na hora de ir buscá-Ia e de ficar a meu lado para sempre. Nosso amor é mais forte que tudo! - Você está fora de si, não pode sair desse jeito! Meus Deus! Ele está enlouquecendo! - Não se meta em minha vida. Chega! Saia de meu caminho. - Espere um pouco. Não saia desse jeito! - Não tente me impedir. Nada vai me fazer desistir agora. Custou muito para conseguir chegar até aqui. Empurrando-a com força, Norberto saiu e Eulália, apavorada, foi atrás dele chamando por Hilda, que apareceu em seguida. - Chame o Dr. Marcílio. Peça-lhe que venha imediatamente. Norberto entrou no carro que se encontrava na garagem e deu a partida. Eulália ainda tentou impedi-Io, mas não conseguiu. Vendo o carro arrancar e sair pelo portão principal, em pranto correu para casa. Vendo Hilda ao telefone, perguntou: - É o Dr. Marcílio? Hilda fez que sim com a cabeça e ela apanhou o telefone, dizendo: - Dr. Marcílio, é Eulália. Ajude-nos, pelo amor de Deus. Meu marido enlouqueceu de repente. Saiu com o carro e não consegui segurá-Io. Disse que vai tirar Liana de casa e levá-Ia com ele para São Paulo. - Acalme-se, Dona Eulália. Vou imediatamente à casa de Liana avisá-Ios. Se sabe rezar, reze. É o melhor que tem a fazer agora. - Rezar? Quero que o senhor encontre Norberto e lhe aplique uma injeção para fazê-Io dormir. Depois trataremos da saúde dele. 263 - Sei como agir em casos como o dele. A oração terá o dom de ajudá-Ia a acalmar-se. A fé é alimento da alma. A oração é um santo remédio. - Está bem. Não temos tempo agora. Vá procurá-Io, por favor. Depois que o médico desligou, Eulália disse com voz desconsolada: - Ele me mandou rezar! Onde já se viu um médico como esse? Como podemos confiar nele? - Pois eu acho que foi um sábio conselho. Sou pessoa de fé. Acredito que, quando não podemos fazer nada para resolver nossos problemas, Deus pode. Depois, Dona Eulália, a senhora está muito nervosa. A oração faz bem e tem o dom de acalmar. Eulália andava de um lado a outro inquieta. Depois resolveu: - Vamos até lá ver o que está acontecendo. Não podemos ficar aqui esperando. Vai ser um escândalo. Ele vai querer tirá-Ia pela força e é claro que o professor não vai deixar. Meu Deus, o que pode acontecer ainda? - É melhor ficar aqui, Dona Eulália. Não vai acontecer nada. O Dr. Marcílio vai cuidar de tudo. Ele deve saber como lidar com um caso desses. Vai ver que logo estará de volta trazendo o Dr. Norberto. - Não sei. Tenho medo. Nunca vi Norberto desse jeito. Está fora de si. Seus olhos pareciam de um louco! - Não diga isso, Dona Eulália. Calma. Vamos esperar. - Não. Mande Tonico tirar meu carro e vamos até lá. Pediremos a Melissa que faça companhia às crianças. Marcílio chegou à casa de Liana acompanhado de Adélia e mais dois médiuns que participavam das sessões espíritas em sua casa. Alberto fê-los entrar, e Marcílio tornou: - Prepare-se. Norberto vem vindo novamente. Eulália ligou-me pedindo ajuda. Ele saiu como louco dizendo que vinha buscar Liana para levá-Ia com ele a São Paulo. Não tenho dúvida de que o espírito do coronel Firmino o está dominando. Como está Liana? - No quarto. Ainda se sente fraca - respondeu Alberto. - Vamos nos preparar para recebê-lo. Você, Alberto, vá para o quarto de Liana, tome a mão dela, fique em oração. Se ela acordar, diga-lhe que não tenha medo de nada. Nós estamos cuidando de tudo. Enquanto Alberto obedecia, ele disse para Gislene: - Ponha sobre a mesa aquele vaso com flores e uma jarra com água. Fique observando da janela. Quando o Dr. Norberto chegar, avise-nos. Depois ele se sentou ao redor da mesa em companhia de Adélia e dos outros dois e pediu: 264 - Vamos nos ligar com nossos guias espirituais e pedir proteção para Liana e o coronel. Cada um cerrou os olhos e começou a orar em silêncio. Passaram alguns minutos quando Gislene avisou: - Parou um carro aqui. É ele. Está descendo. Norberto bateu na porta, dizendo com voz calma: - Liana, abra. Precisamos conversar. Ninguém respondeu. Ele continuou: - Não tenha medo, Liana. Só quero seu bem. Abra a porta. Sei que está doente e precisando de ajuda! Vamos, abra. Durante alguns minutos ele tentou, enquanto os três ao redor da mesa oravam em silêncio. Por fim, Marcílio abriu os olhos e pediu a Gislene: - Abra a porta e deixe-o entrar. Ela olhou assustada para ele, mas, apesar de estar trêmula, obedeceu. Abriu a porta e ele entrou rapidamente, dizendo: - Vá chamar Liana imediatamente. - Ela está dormindo. - Acorde-a. Estarei esperando. Gislene saiu da sala e então foi que Norberto viu os quatro sentados ao redor da mesa na sala de jantar. Estremeceu, olhando-os assustado. Depois gritou: - O que estão fazendo aqui, tramando contra mim? Saiam de meu caminho se não quiserem ser esmagados por minha raiva. Sei como acabar com todos vocês. - Você não tem esse poder, coronel Firmino - disse Marcílio com voz firme. - Quem me desafia? Não sabe que eu mando e todos me obedecem? - Quando você estava na carne, gostava de mandar em todo mundo. Mas esse tempo acabou. Seu corpo morreu e você não passa de um fantasma sofrido e solitário. - Não é verdade. Você está querendo me iludir para atrapalhar meus planos. Pensa que não sei? Algumas pancadas na porta da frente fizeram-no estremecer. Marcílio levantou-se e foi abrir. Vendo Eulália e Hilda, fez-Ihes sinal para que entrassem. - Vi o carro de Norberto - explicou Eulália. Marcílio fez-lhe sinal para que se calasse, tomou-as pelo braço e conduziu-as até a sala de jantar indicando as cadeiras para que se sentassem. As duas deixaram-se cair, olhando assustadas para Norberto e os dois em volta da mesa sem entender nada. 265 Marcílio, voltando-se rara Norberto, tornou: - Você está enganado. Só queremos ajudá-Io. Não está cansado de tantos anos de sofrimento? Por que teima em querer voltar ao passado, se ele já acabou faz tempo? Não percebe quanto tempo está perdendo? - Chega de conversa fiada. Onde está Liana? Ela é minha e tem de me obedecer! - Ela é livre. Aquele tempo acabou. Hoje ela é casada com outra pessoa. - Isso não vale nada. Ela é minha mulher! Custei a encontrá-Ia. Não vou perdê-Ia de novo. Marcílio levantou-se e aproximou-se de Norberto, que em pé a um canto da sala, olhos fixos em um ponto indefinido, continuava mergulhado em sua obstinação, e colocou sua mão direita sobre a cabeça dele, que estremeceu e começou a gritar enfurecido: - Saia daqui. Vá embora. Não se meta em minha vida. Você não vai conseguir nada. Sou mais forte do que você e do que todos os seus asseclas. Marcílio continuou orando em silêncio com a mão colocada sobre a nuca de Norberto. Depois foi até Felipe, um dos moços que estava sentado ao redor da mesa, e colocou a mão sobre a nuca dele, continuando em oração. Alguns segundos depois o corpo de Norberto amoleceu e ele caiu ao chão, enquanto o rapaz na mesa agitava-se exclamando: - O que está fazendo? Que truque é esse? Está tirando minhas forças! Você vai me pagar! Eulália levantou-se para socorrer o marido, mas um gesto enérgico de Marcílio a deteve. - Fique onde está! Ajude-nos com suas orações. Ela se sentou novamente e desta vez começou a rezar de fato. Marcílio, com a mão direita sobre a cabeça do rapaz, continuou: - Ao invés de querer brigar comigo, por que não aproveita este momento para melhorar sua vida? Não está cansado de viver sozinho, triste, de um passado que nunca mais voltará, ao invés de aproveitar o que pode agora, de encontrar pessoas que gostam de você, que só esperam que aceite as mudanças de sua vida para virem a seu encontro? Por que prefere a infelicidade quando já pode viver melhor e ser mais feliz? Com voz embargada, Felipe respondeu: - Você fala isso porque não sabe o que é viver como estou vivendo. Não sabe o que é vagar em busca dos que ama e nunca os encontrar. 266 Sentir-se sozinho sem que ninguém se importe com sua dor ou com seus sofrimentos. - Você está assim porque quer. Agarrou-se ao passado, recusa-se a obedecer às orientações daqueles que têm condições de ajudá-lo. Fechou-se em sua teimosia e recusa-se a deixar a mansão, como se ainda fosse o dono dela! - Eu a construí. Aquela casa é minha! - Você a construiu. Mas agora ela é do mundo e daqueles que a herdaram. Você não pertence mais a este mundo. Vive em outra dimensão, onde há coisas maravilhosas esperando por você, onde pessoas que o amam esperam que acorde dessa ilusão e possa finalmente deixar o passado, tomando consciência do presente e seguindo adiante para a conquista da felicidade. - Você diz isso, mas eu sei que fui muito ruim. Cheguei ao crime, minha filha me odeia! Não. Não acredito que haja alguém que goste de mim ainda, mesmo depois de tudo que fiz para a minha própria família. - Pois há. Aqui mesmo está alguém que espera ansiosamente que você saia dessa ilusão para poder abraçá-Io e ajudá-Io a buscar o caminho do equilíbrio e da renovação. Olhe. Felipe remexeu-se na cadeira e depois gritou em lágrimas: - Mãe! É você! Vá embora. Eu não mereço. Fui muito egoísta, mau. Não me abrace, mãe. O outro moço que estava ao lado disse com voz emocionada: - Meu filho! Descanse em meus braços, que sempre estarão abertos para recebê-Io! Entregue-se a este momento de amor e venha comigo. Vou levá-Io a um lugar onde você ficará sob meus cuidados. Venha. Perceba que ninguém é culpado pelo que lhe aconteceu. Você plantou e colheu de acordo com sua semeadura. Arranque todas as mágoas de seu coração, perdoe a todos, mas principalmente a si mesmo por ter sido tão resistente. Felipe soluçava sentidamente. O outro rapaz continuou: - Isso, meu filho. Extravase toda a sua mágoa. Deixe ir todas as suas dores. Descanse a cabeça em meu colo. Vou levá-Io comigo. - Mãe, ajude-me a encontrar a paz! Eu quero esquecer! Felipe respirou fundo e estremeceu. Depois abriu os olhos, ajeitando-se na cadeira. O outro rapaz ainda disse: - Obrigado, amigos. Voltarei outro dia para conversarmos. Marcílio sentou-se, fez uma prece de agradecimento a Deus. Quando terminou, levantou-se, aproximou-se de Norberto, que, estendido no chão, parecia dormir, e chamou: 267 - Acorde, Norberto. Já passou. Ele abriu os olhos e olhou assustado para todos os presentes, como quem acorda de um pesado sono. Marcílio ajudou-o a levantar-se e fê-Ia sentar-se ao redor da mesa. Apanhou um pouco de água e deu-lhe para beber enquanto os outros dois serviam os demais. Eulália e Hilda estavam mudas. Não se atreviam nem a perguntar. Norberto recuperara seu estado normal, olhou-os admirado e perguntou: - Podem explicar-me o que estamos fazendo aqui? O que aconteceu? Marcílio respondeu com simplicidade: - O espírito do coronel Firmino incorporou em você e tivemos de esclarecê-Ia. Garanto que de agora em diante ele não mais aparecerá a ninguém naquela casa, muito menos a Eurico. - O coronel Firmino? Estou ouvindo bem? - disse Norberto, admirado. Desta vez Eulália tomou coragem e interveio: - Pois foi. Você ficou como louco. Foi horrível. Se não fosse o Dr. Marcílio e essas pessoas aqui, você estaria internado em um hospício. Meu Deus! Eurico estava dizendo a verdade! Por que não acreditei? - Ele disse muitas vezes que via espíritos - lembrou Hilda. - Ele estava certo - esclareceu Marcílio. - Esse menino tem uma sensibilidade especial. Ele vê e ouve os seres de outras dimensões. - Mas o coronel está morto! - disse Norberto. - Engano seu. Ele está vivo. Quem morre neste mundo vai para outras dimensões, mas continua vivendo. - É difícil acreditar. - Para quem nunca se interessou pelo assunto, pode ser - respondeu o médico. - Entretanto, para os que são chamados a essa realidade, o contato com quem já partiu é natural. Norberto passou a mão pelos cabelos um pouco inquieto e disse: - Gostaria de saber como chegaram a essa conclusão. Minha própria mulher, que nunca acreditou nisso, agora está afirmando que a alma do coronel existe mesmo. - Eu posso esclarecer como foi. Você não se recorda de nada? - De certa forma, não perdi a lucidez. É difícil dizer. Havia momentos em que me sentia atordoado, fazia coisas desconexas, mas não conseguia parar. Era como se estivesse em um sonho em que as idéias se embaralhavam em minha cabeça. Foi horrível! - Então você percebeu que sacudiu Eurico com violência, assustando-o? - perguntou Eulália. 268 - Eu fiz isso mesmo? Houve um momento em que senti muita raiva de Eurico, tive vontade de... - Norberto parou horrorizado. - De acabar com ele - completou Marcílio, calmo. - Nessa hora, quem sentia toda essa raiva e queria fazer isso não era você, mas o espírito do coronel Firmino. Sempre que ele aparece, demonstra sentir raiva dos meninos, porque de certa forma eles atrapalharam o que ele pretendia fazer. - Esses sentimentos brotavam dentro de mim e chocavam-me. Eu amo meus filhos. Sempre fiz tudo para que Eurico ficasse bem, com saúde. - Você se chocava, sentia-se culpado por sentir isso, e o coronel conseguia dominá-lo ainda mais. - O que me conta é incrível! Nunca pensei que uma situação dessas acontecesse. - Agora experimentou. Não pode mais duvidar. - Ainda bem que Eulália interveio. Não sei o que poderia ter acontecido. O que Eurico está pensando de mim? Fui rude demais. - Ele sabe que não era você. Nessa hora ele viu em seu lugar o coronel Firmino - esclareceu Marcílio. - Como sabe? - Ele teve medo de que lhe acontecesse alguma coisa e pediu a Nico que viesse nos procurar e contar tudo - explicou o médico. - Estou admirado! Quero saber tudo a respeito. Se ele fez isso, foi porque sabia que vocês podiam nos ajudar - disse Norberto. - Agora não há mais motivo para que não saibam toda a verdade. Esses meninos são maravilhosos. Seu filho vê e até conversa com os seres de outras dimensões. Ele tem medo, mas Nico não, e o tem ajudado a enfrentar esses encontros com coragem e firmeza. Graças a ele, Eurico está reagindo e melhorando a cada dia. - É verdade - interveio Eulália. - Você ameaçou mandá-lo embora. Sentia raiva dele também? - Sim. De repente parecia que ele estava me atrapalhando, que era meu inimigo. - Ele estava atrapalhando os planos do coronel Firmino, ajudando-nos a libertar Liana da interferência dele - disse Marcílio. Norberto assustou-se: - Liana? Por que ela? - Vocês ignoram porque vieram morar naquela casa. Não foi apenas por causa da saúde de Eurico. A vida trouxe-os aqui porque tinha seus motivos. Era preciso que vocês todos se reencontrassem, principalmente Liana com Firmino - esclareceu Marcílio. - Posso contar tudo desde o começo. 269 - Gostaria de entender - pediu Eulália. - Por favor - tornou Norberto. Marcílio falou sobre reencarnação, sobre os laços que uniam Liana e as crianças ao espírito do coronel, a intenção dele de continuar a dominá-Ia. Eulália não se conteve: - Por isso você disse que amava Liana! Norberto empalideceu: - Eu disse isso? - Sim. Disse também que ela era sua mulher. Pensei que tivesse enlouquecido. Agora entendo... era o coronel que sentia isso! - Era - apressou-se a dizer Marcílio. - Mas é preciso lembrar que ele se aproveitou de sua amizade por sua cunhada e por seu interesse em ajudá-Ia levando-a a seu médico de confiança. - É. Ele dizia que ia levá-Ia ao Dr. Caldas. Tentei impedi-lo, mas não consegui. Você estava como louco! Norberto remexeu-se na cadeira. Sentia-se envergonhado. - Isso já passou. Está se sentindo bem agora? - perguntou o médico. - Sim. Apesar de assustado, estou bem. Quando vocês falam, parece que se referem a outra pessoa. - Era outra pessoa mesmo - confirmou Marcílio. - Só não entendo uma coisa. Vocês estavam todos aqui quando chegamos. Como sabiam? - perguntou Eulália. Marcílio contou a razão pela qual tiraram Liana daquela casa às escondidas para o casamento, mas omitiu o fato de eles haverem se casado apenas na aparência. Explicou também como, com a ajuda dos espíritos superiores, haviam ido até lá naquela tarde para esperá-lo. - Quando ele saiu de casa como louco e não me deixou acompanhá-lo, não pude suportar. Vim atrás. - Fez bem. Assim pôde assistir a tudo que aconteceu aqui - disse o médico. Eulália hesitou um pouco, depois decidiu: - E Liana, como está? - Melhor. Está no quarto, e Alberto está com ela. Pedi-lhe que ficasse em prece ao lado dela para fortalecê-Ia. As energias do coronel eram fortes e poderiam envolvê-la. Ela se encontra ainda um tanto debilitada. 270 A obsessão dele em dominá-Ia fazia-o emitir energias controladoras que sugavam as forças dela, enfraquecendo-a. - Por isso ela estava sempre deprimida, apática, sem vontade? perguntou Eulália. - Sim. Esse estado é próprio da subjugação espiritual. O coronel jogou energia de domínio sobre Liana e ela não reagiu. Se tivesse usado sua força para afastá-Io de sua aura, não teria sido tão atingida. - Ela não sabia de nada disso - lembrou Eulália. - Tentei avisar. Eurico via. Ela mesma chegou a ver o coronel, lembra-se? - É verdade! - concordou Eulália. - Quem poderia imaginar tudo isso? - comentou Norberto, perplexo. - E agora? - disse Eulália. - Estou com medo de voltar àquela casa. Acho melhor voltarmos para São Paulo. - Não há mais motivo para isso. Eurico deu-se bem aqui, apesar do que aconteceu. Garanto que o coronel agora não oferece mais perigo. Foi afastado. O espírito de sua mãe sofria muito vendo-o naquele estado. Há muito tentava ajudá-ia. Agora conseguiu que ele compreendesse e resolvesse aceitar afastar-se daquela casa e receber tratamento. Se um dia ele voltar, estará melhor e não prejudicará mais ninguém - esclareceu Marcílio. - Não sei. Essas coisas de almas do outro mundo me assustam. Antes não tinha medo porque não acreditava nelas, mas agora... - considerou Eulália. Marcílio sorriu e respondeu: - Quer saber por que Eurico não se dava bem na cidade grande? Ele teve dificuldade em reencarnar por problemas de sua vida passada. Estava frágil e sensível. A pressão das energias negativas é muito maior na cidade, onde há muito mais pessoas, mais problemas, mais violência. O acúmulo de gente energeticamente representa acúmulo de problemas. A sensibilidade dele sofria com isso. Aqui, tudo é mais calmo, as energias menos agressivas, ele pode ir aos poucos assumindo melhor a encarnação. Se ele continuar aqui por mais algum tempo, garanto que chegará à idade adulta saudável e recuperado. - É o que eu mais desejo neste mundo! - tornou Eulália. - É preciso também cuidar da sensibilidade dele. Precisam aprender as leis que regem o campo das influências, para que ele aprenda a viver bem com a sensibilidade que possui. 271 - Depois do que me aconteceu, não posso ignorar - disse Norberto. - Desejo saber tudo, estudar o assunto, para que não aconteça novamente. Tremo só em pensar nessa possibilidade - Faz bem. Tenho estudado sem cessar e possuo em minha casa extensa biblioteca sobre o assunto. Está à sua disposição. - Obrigado, doutor. Alberto apareceu na sala e Marcílio chamou-o: - Aproxime-se, Alberto. Como está Liana? - Bem. Houve momentos em que ficou inquieta, queria sair do quarto, ir embora daqui, estava apavorada. Com a mão dela entre as minhas, fiz prece e aos poucos ela se acalmou. Agora quer levantar-se. Ouviu vozes e eu lhe disse que era você. Ela quer vê-Io e saber se já pode se levantar. - Ela deve estar se sentindo muito melhor. Felizmente o coronel Firmino foi afastado. Agora ela ficará bem - disse o médico. Eulália hesitou um pouco, depois disse: - Só agora ficamos sabendo a causa da doença dela. Estou arrependida de ter sido tão descrente. Será que eu poderia conversar com ela? - Claro - respondeu Alberto sorrindo. - Tenho certeza de que sua visita será para ela um excelente remédio. Eulália olhou para o médico, que disse: - Pode ir, Dona Eulália. A alegria só faz bem. Eulália olhou para o marido, que decidiu: - Vá sozinha. Será melhor. Minha presença agora pode não ser muito agradável. Eulália foi até lá enquanto Alberto pedia a Gislene que servisse um café com aquele bolo gostoso que ela sabia fazer tão bem. 272 Capítulo 19 Eulália empurrou a porta do quarto de leve, enfiando a cabeça para ver se Liana estava acordada. Vendo-a, a moça teve uma exclamação de alegria: - Eulália! Você veio! Ela entrou, aproximou-se da cama e disse: - Eu vim, mas fui empurrada pela vida. Agora eu sei o que se passa com você e estou arrependida de ter sido tão dura. Será que pode perdoar-me? Liana sentou-se na cama, estendendo os braços: - Perdoá-Ia? Eu é que tenho de lhe pedir perdão por haver saído de sua casa sem contar a verdade. Eulália abraçou-a, e a emoção aflorou. Seja por ter estado tensa durante tantas horas, seja pelo reencontro com a irmã que ela queria bem, ou pela realidade espiritual de que estava tomando consciência naquele dia, as lágrimas apareceram e ela começou a soluçar. Liana abraçava-a com força, impressionada com o volume de suas emoções. Não se lembrava de tê-Ia visto chorar daquele jeito antes. Sempre a julgara rígida e indiferente, mais forte que a maioria das pessoas. Estava enganada. A mulher que a abraçava era tão sensível e frágil como qualquer outra. Quando se acalmou, ela disse: - Não foi só com Alberto que fui injusta, com o Dr. Marcílio também. Pensei que Norberto estivesse enlouquecendo, fez coisas terríveis. Veio aqui disposto a levá-Ia com ele. Não quis que o acompanhasse, mas eu vim assim mesmo. Quando cheguei, eles estavam reunidos e falando com Norberto. Ele estava possuído pela alma do coronel Firmino. Quando ele foi afastado, Norberto acordou como se nunca tivesse feito tudo aquilo. Compreendi a verdade. Eurico estava certo quando falava que via os espíritos. Fiquei chocada. Pobre Eurico, vendo esses espíritos sem ninguém que o apoiasse. Já pensou que horror? - É verdade. Felizmente Nico tem muita força e Alberto entende desse assunto. Foi ele quem orientou os meninos, ajudando-os para que se defendessem e resistissem ao assédio do coronel Firmino. 273 - Lamento ter sido contra seu casamento. Agora percebo que ele a ama muito e fez tudo para protegê-Ia enquanto nós, sua família, só atrapalhamos. - Vocês não sabiam a verdade. Estou contente que tenham compreendido. Assim poderão apoiar Eurico. Ele vê mesmo os espíritos! - Eu sei. Quem diria! Tivemos nossa lição. Norberto agora quer estudar. Ficou de ir à casa do Dr. Marcílio buscar alguns livros. - Tanto esse médico quanto sua esposa e todos que freqüentam sua casa são maravilhosos. As sessões são verdadeiros bálsamos de paz. - Vocês têm ido? - Sim. - Sente-se melhor? - Muito. Hoje, por exemplo, parece-me haver acordado de um longo pesadelo. Sinto vontade de cantar, de levantar, ver as flores de nosso jardim, ir à rua. - De fato, seu aspecto está muito melhor. Está até corada! O Dr. Marcílio entrou e foi logo dizendo: - Como você melhorou! - Ela está corada. - Posso levantar-me? - Vim buscá-Ias para o café com bolo de Gislene. É imperdível. Estamos esperando as duas na sala. Liana levantou-se, trocou de roupa e arrumou-se. Estava renovada e feliz. Antes de sair do quarto, abraçou a irmã, dizendo emocionada: - Que bom que você está aqui! Nunca mais me abandone. Ao que Eulália respondeu: - Nunca. De agora em diante voltaremos a ser uma família. O que Alberto fez por você tocou meu coração. Sinto-me envergonhada do que fiz. Elas foram para a sala, e Norberto, vendo-as, não disse nada. Sentia-se constrangido pelo que fizera. Foi Liana quem se aproximou dele, dizendo: - Hoje é um dia feliz. Estou contente que estejam aqui. Alberto aproximou-se: - Tem razão. Desde que nos casamos, vê-Ios aqui era nosso maior desejo. Liana sentiu muita falta da família. - Lamento que tenha sido dessa forma. Sinto-me envergonhado - respondeu Norberto. Marcílio interveio: - Não se preocupe com isso. Todos nós sabemos como a influência desses espíritos pode ser forte. 274 O que importa agora é conhecer as leis que interferem nesses fenômenos para saber como se defender. - Sinto que é hora de aprender - tornou Norberto com humildade. - Tem razão. Sua sensibilidade abriu-se e, se não atentar para essa realidade, o que lhe aconteceu pode se repetir. - Deus me livre, doutor! Nunca em minha vida fiz papel de louco como hoje. Fico arrepiado só em pensar. - Gostaria de conversar consigo. Vá em casa qualquer dia desses. - Se não se importar, gostaria de ir hoje mesmo. Sinto-me inseguro e preocupado. Sempre mantive completo domínio sobre meus atos. É difícil para mim admitir as loucuras que fiz. - Depois de nosso café, conversaremos. O lanche decorreu alegre, e tanto Eulália quanto Liana estavam bem-dispostas. Alberto fez as honras da casa, atencioso para com todos. Quando o médico se despediu, convidou Norberto para acompanhá-lo. Eulália levantou-se, mas Marcílio tornou: - Fique mais um pouco, Dona Eulália. Depois de tanto tempo, vocês têm muitas coisas para conversar. Nossa conversa será a dois. - Também gostaria de entender do assunto. Meu filho precisa de minha compreensão - objetou ela. - Falaremos outro dia. Hoje quero conversar com o Dr. Norberto. - Nesse caso, ficarei mais um pouco. Hilda me fará companhia na volta. Eles saíram, e os três sentaram-se na sala enquanto Hilda acompanhava Gislene na cozinha. As duas conversavam animadas, e Hilda queria a receita daquele bolo tão gostoso que ela servira com o café. Eulália foi a primeira a romper o silêncio. - Quero pedir-lhe desculpas, Alberto. Fui intolerante e teimosa. As crianças sentiram muito sua falta. Eurico fez de tudo para que o chamasse de volta. Ficou impossível. - Eu sei. Nico contou-me. Ele se habituou a conseguir tudo que deseja dessa forma. Sabe de sua preocupação com sua saúde e explora isso. - Já notei. Infelizmente esse é meu ponto fraco. Ele sempre deu muito trabalho. Tinha febre por qualquer coisa, não se alimentava, nunca foi igual às outras crianças. Amelinha sempre foi muito diferente. Eu sentia que ele era muito mais frágil, e tinha medo de perdê-lo. - Dá para entender. Mas agora ele já superou essa fase. Está mais forte. Precisa aprender a se colocar de outra forma. 275 Eulália baixou a cabeça e ficou pensativa alguns segundos. Depois disse: - Talvez eu seja culpada disso também. Sempre impus o que eu queria sem ouvir o que ele dizia. Para mim, ele era incapaz de discernir. Confundi as coisas, pensei isso por causa de sua debilidade física. Agora, com o que aconteceu, percebi que ele sabia mais que eu, pelo menos sobre essa história de almas do outro mundo. - Ele ficará feliz quando souber que você acredita nele agora - disse Liana. - E que vocês voltarão a freqüentar nossa casa. Alberto, pretextando um trabalho a fazer, deixou-as a sós para que pudessem conversar à vontade. Marcílio chegou em casa e conduziu Norberto a seu escritório, fechando a porta. Depois que se acomodaram, o médico tomou: - Fico feliz que você tenha compreendido a verdade. Agora já vejo uma saída para os angustiantes problemas de sua família. Norberto olhou-o preocupado. O que acontecera naqueles dias aparecia em sua mente de maneira obscura. Lembrava-se de ter feito algumas coisas incontroláveis, mas não de tudo que dissera. Eulália contara que ele dissera amar Liana. Era isso que mais o assustava. Por pouco pusera tudo a perder. E se acontecesse de novo? E se ele acabasse revelando o segredo de seu amor por ela? - Tudo ficará bem se a alma do coronel não voltar. - Liana foi esposa dele em outra encarnação. Mas não teria conseguido envolvê-Io daquela forma se você não lhe desse oportunidade. - Eu nem acreditava na existência dele. Você diz que Liana foi casada com ele em outra encarnação. Para mim é difícil acreditar. Ainda agora, apesar do que aconteceu, estou duvidando. O coronel pode ter se enganado. Liana pode ser parecida com a esposa dele. - Entendo sua dificuldade. Eu afirmo: Liana foi a esposa do coronel, e digo mais. Estou informado pelos espíritos superiores que Amelinha foi a filha que ele perseguiu, Nico o genro que ele queria matar e Eurico o neto que ele impediu de nascer. Norberto abriu a boca e fechou-a novamente sem encontrar palavras para dizer. O tom de Marcílio era sério e firme. Ele estava afirmando, e Norberto não se sentiu com coragem de contradizer. O médico continuou: - O espírito de Eurico teve muita dificuldade para reencarnar, por isso a infância difícil. Mas agora a encarnação firmou-se e, com a graça de Deus e a ajuda de vocês, ele reconquistará o equilíbrio. 276 A ida de sua família para aquela casa não foi por acaso. Para que eles pudessem viver em paz, era preciso que o espírito do coronel Firmino se esclarecesse. Ele, mesmo à distância, continuava envolvendo Eurico, que era inimigo dele de outros tempos. Enquanto ele não desistisse de procurá-los e de persegui-Ios, seria difícil o menino manter a saúde. Vendo que Norberto acompanhava atentamente suas palavras, continuou: - Liana foi a mãe de Amelinha e esposa do coronel. Elas sofreram muito ao lado dele e o odiavam profundamente. A vida trabalha para a harmonia do ser. Ninguém pode ter saúde física e mental sem limpar o coração, sem largar o passado e perdoar a ignorância alheia. - Como pode ser isso? Liana não conhecia o coronel nem se lembrava dele. Como poderia odiá-Io? - Ela reencarnou e esqueceu. Sempre que renascemos a vida apaga a consciência de nosso passado, mas as energias continuam em nosso inconsciente. A mágoa, a raiva estavam lá todo o tempo, e bastou que ela o reencontrasse para que tudo viesse à tona. Lembre-se que quando ela o viu perto da escada ficou apavorada. - Qualquer um ficaria, vendo um espírito. - Com ela foi pior. Sentiu pavor de que ele a dominasse energeticamente. - De fato, fizemos tudo e ela não reagiu. Nunca entendemos essa atitude. Liana sempre foi forte, determinada, ativa. Ficou completamente deprimida, apática. - Por isso foi preciso que a tirássemos de casa daquela forma. Se ela ficasse lá, não teríamos como ajudá-Ia, ainda mais que vocês não permitiam nossa presença. - Sinto que tenhamos sido tão resistentes. - Quando ela se foi, ele ficou com raiva e percebeu que poderia envolver você. Então começou a pressioná-Io para buscar Liana. - Ele sabia que eu não aceitei o casamento dela. - Ele sabia mais. Ele sabia tudo quanto você pensava. Para os espíritos desencarnados, nossos pensamentos são visíveis. Norberto remexeu-se na cadeira inquieto. - Ele sabia tudo que eu pensava? - Tudo. Por isso, descobrindo seus sentimentos para com Liana, viu uma oportunidade de conseguir o que queria. Norberto baixou a cabeça envergonhado. Como é que o médico podia saber de tudo? Liana teria contado? Não se conteve: 277 - Liana falou sobre isso? - Falou. Ela contou tudo que houve entre vocês. Esse é o ponto fraco que facilitou o assédio do coronel. Vive arrependida, não se perdoa pelo deslize, teme que a irmã descubra. Liana tem a alma nobre, é muito honesta. Respeita sua família. Vive se atormentando com o que aconteceu. - Às vezes também me arrependo. A presença de Liana enlouquece-me. Esse amor está acabando comigo. Depois, sei que Liana também me ama. - A vida separou vocês. É preciso entender que o momento não é para que fiquem juntos. Por enquanto ainda não nos foi revelado por que você está dentro desta história, que laços do passado existem unindo a família do coronel Firmino, você e sua esposa. Mas, se estão juntos nesse processo, certamente atraíram essa experiência por alguma razão. No universo nada acontece por acaso. - Acha isso mesmo? Teremos vivido outras vidas também? - Com certeza. O que sei é que somos responsáveis por nossas atitudes. Há valores essenciais que necessitamos aprender se quisermos viver melhor. Neste mundo somos submetidos a energias perigosas que despertam nossas paixões. Estamos aqui para aprender a dominá-Ias. Ficar cada vez mais forte no bem é nossa garantia de equilíbrio, de saúde e de felicidade. Ninguém pode ficar bem entregando-se às paixões. Elas exacerbam as emoções e são insaciáveis, exigindo cada dia mais. É sofrimento o tempo todo. - Quanto a isso concordo. Desde que me apaixonei por Liana, minha vida tem sido um inferno. Não tive mais um momento de paz. - A paz tem o preço da honestidade e do respeito. Você mentiu, desrespeitou sua alma, e a consciência de seu erro não lhe permite desfrutar de paz. Norberto colocou a cabeça entre as mãos em desespero. Aquelas palavras o emocionavam muito. Ele estava mexido, sensível, e não suportou. As lágrimas desceram por seu rosto e ele rompeu em soluços. Marcílio deixou que ele desabafasse e ficou em silêncio. Intimamente orava aos amigos espirituais pedindo que o ajudassem a aliviar aquele coração aflito. Quando serenou, Norberto enxugou os olhos com um lenço e disse: - Desculpe, doutor. Não pude suportar. - As lágrimas às vezes lavam a alma. - Se elas pudessem me ajudar a sair dessa confusão em que me encontro, seria bom. Infelizmente, não têm esse poder. 278 - É, mas Deus tem. Ele tem a magia do amor e pode não só aliviar mas também curar as feridas do coração. - Eu gostaria muito de ter essa fé, de poder acreditar que um dia me libertarei desse tormento. - Se é isso que quer de verdade, se seu coração estiver sendo sincero, tenho certeza de que conseguirá o que pretende. - Eu gostaria muito de viver para minha família. Quando pensei em me casar, procurei uma moça boa que pudesse ser a mãe de meus filhos. Não pensava em amor, confesso. Nosso casamento foi uma espécie de arranjo. Mas gostei de Eulália. Ela me atraía como mulher. Mas nunca senti por ela o que sinto por Liana. Aliás, nunca havia sentido isso por nenhuma mulher. Arrependi-me de haver casado, mas era tarde. Agora, estou perdido. Eulália tem sido boa companheira, fiel, devotada à família. Eu gostaria de amá-Ia como merece. Liana está casada, sinto que não devo mais infelicitar sua vida. Sei que ela ainda me ama, e é isso que me tira o sossego. Ela não pode amar o marido. Era a mim que ela amava! - Você está enganado. Liana ama o marido. Eles foram feitos um para o outro. Deixe-os viver em paz. - Se isso é verdade, eu gostaria de esquecer. Mas como? - Feche os olhos e vamos pedir a ajuda de Deus. Neste momento, procure esquecer esse problema. Pense que você está cansado e que agora não precisa tomar nenhuma decisão. Entregue-se à paz. Deixe que a luz da harmonia brilhe à sua volta, e peça que Deus o proteja e oriente. Você deseja o bem e só o bem. Vamos orar. Marcílio proferiu comovida oração e aos poucos Norberto sentiu-se mais calmo. - O desabafo fez-me bem. Obrigado por ter-me escutado. - Vou emprestar-lhe alguns livros que estudam os fenômenos de influência e como manter a saúde mental protegendo-se das investidas dos espíritos perturbadores. - Vou ler com atenção. Nunca mais quero passar por isso outra vez. Marcílio olhou sério para ele e disse com naturalidade: - Você vai saber como é o processo, mas o importante é descobrir como você está atraindo essas influências. Assim como nossa sociedade tem leis para preservar o próprio equilíbrio, a vida estabeleceu os valores verdadeiros do espírito eterno. Criou leis cósmicas que funcionam naturalmente, respondendo a cada um de acordo com suas atitudes. E, se as leis humanas se modificam conforme a humanidade progride, as leis cósmicas nunca se alteram, porque representam a verdade absoluta. 279 Por isso, quem quer gozar de saúde física, mental, espiritual, ter felicidade, paz, alegria de viver, precisa estudar a vida, entender como ela funciona. Assim, quanto mais verdadeiro você for dentro dos valores da espiritualidade, mais equilibrado e feliz será. - A religião está sempre pregando moral, mas tenho visto que mesmo os que cumprem os preceitos de sua religião sofrem muito neste mundo. - Não estou me referindo às religiões nem à moral humana. Elas estão cheias de preconceitos e inverteram quase todos os valores. Estou falando do que a vida quer, de como ela reage acionando o progresso humano provocando o desenvolvimento da consciência. - Como posso saber o que a vida quer? Sempre cumpri com meus deveres de cidadão, de esposo e pai. Como foi acontecer comigo essa paixão que não pedi e que está infelicitando toda a nossa família? - Eis o que você precisa descobrir. Consulte seu coração, peça a Deus para mostrar-lhe a verdade. Jogue fora a culpa. Ela deturpa os fatos e enfraquece o espírito. - Mas é o que eu mais sinto. Culpa. Por minha causa Liana está sofrendo e estamos nessa confusão. - Como pode se culpar se reconhece que essa paixão brotou em seu peito sem que planejasse? - É, foi. Mas agi de forma errada. - Deixou-se dominar pelas emoções. E o que era atração acabou tomando-se paixão. Assim você acabou descobrindo que, quando não controlamos as emoções, elas acabam por nos controlar. Quando não pisamos no freio, o carro se desgoverna e acabamos por nos machucar. - E como! - Você agora está mais forte que antes. Quando sentir atração por alguém, vai dominar-se, porque já sabe a que sofrimentos as emoções descontroladas podem conduzir. - Concordo, doutor. Nunca mais quero me envolver com ninguém dessa forma. - Se está decidido a preservar sua paz, não se culpe mais. Reconheça que foi imprudente mas que agora, mais experiente, saberá agir melhor daqui para a frente. - Suas palavras têm o dom de me acalmar. Sinto como se tivesse tirado um peso enorme de cima de mim. 280 - A culpa pesa. Liberte-se dela. Você tem uma família linda, está bem financeiramente, agradeça a Deus essa felicidade. Não perca tempo alimentando ilusões que só trazem dores, sofrimentos. Norberto baixou a cabeça pensativo e ficou calado por alguns instantes. Depois disse: - Obrigado por haver me mostrado a verdade. Assim como estou tirando o peso da culpa do coração, gostaria que me ajudasse a tirar essa paixão do peito. - Infelizmente não tenho esse poder. - Nem eu. Confesso que tenho tentado. - Amar Liana não é proibido. O amor é e sempre será uma bênção. Se não consegue tirar esse sentimento de seu coração, transforme-o em alguma coisa elevada. Liberte-a definitivamente. Não interfira mais em sua vida, deixe que ela encontre seu verdadeiro destino. A vida separou-os e deve ter seus motivos. Ela sempre faz tudo certo. - Liana é a mulher da minha vida. Tenho certeza disso. - No momento estão em lugares opostos, cada um cumprindo seus compromissos. Quem garante que sua felicidade seja ao lado dela? Você gosta de sua mulher. Não estará ao lado de sua família a melhor oportunidade de uma vida mais proveitosa e feliz? São considerações para você pensar. Norberto suspirou fundo. Sentia que naquele momento era incapaz de decidir qualquer coisa. O médico levantou-se, dizendo: - Vou apanhar os livros. Norberto meneou a cabeça, concordando. Pensou que soubesse muito sobre a vida, mas agora percebia que havia ainda muito a aprender. Quando deixou a casa do Dr. Marcílio, Norberto sentia que precisava reconquistar a paz. As palavras do médico fizeram-no refletir sobre seus sentimentos. Ele amava Liana, mas não queria que Eulália descobrisse que fora traída. Ao pensar nisso, sentia um aperto no peito e sua inquietação aumentava. Se ela descobrisse tudo, saberia que ele fora um fraco, que não soubera controlar as emoções dentro de sua própria casa. Ela o julgava um homem correto, admirava-o e respeitava-o. O pensamento de aparecer diante dela como um mau-caráter deixava-o apavorado. Teve de reconhecer que o apoio, a consideração, o carinho de Eulália eram muito importantes em sua vida. Recordou-se do namoro, do casamento, do nascimento dos filhos, dos problemas que haviam dividido nos doze anos de convivência, e sentiu que não queria mais separar-se da família. 281 Recordando-se que propusera fugir com Liana, sentia-se nervoso. Felizmente ela tivera o bom senso de não aceitar. Quanto mais pensava, mais se arrependia de ter se envolvido nessa aventura. Agora ela estava casada e ele poderia esquecer a culpa de a ter deflorado. Se Alberto a aceitara mesmo assim, se eles se amavam como o médico afirmara, ele, Norberto, não tinha mais nenhuma responsabilidade pelo futuro dela. Essa idéia o preocupava. A perda da virgindade era motivo até de anulação do casamento. Pensando melhor, reconhecia que o casamento de Liana, ao contrário do que pensara, viera em auxílio deles, porquanto o obrigava a controlar a atração que sentia por ela. Depois do que acontecera, eles freqüentariam sua casa novamente. Teria de conviver com ela. Como se sentiria? Conseguiria controlar suas emoções? Eulália voltou para casa e, enquanto Hilda ia dar as ordens para o jantar, ela reuniu as crianças na sala. Depois de verificar que haviam estudado e tomado banho, disse: - Sentem-se e vamos conversar. Eles se olharam admirados. Ela nunca se dirigira a eles nesses termos. Parecia até que estava falando com visitas. Acomodaram-se logo. Ela continuou: - Eu sei de tudo. Eles se olharam e continuaram em silêncio à espera de que ela prosseguisse. - Não precisam ter medo. Hoje descobri a verdade. A alma do coronel Firmino tomou conta de Norberto e obrigou-o a fazer coisas que ele não queria. Eurico suspirou aliviado: - Puxa!! Até que enfim! A senhora também o viu? - Não fisicamente. Mas vi como seu pai mudou, fez loucuras, parecia outra pessoa. Cheguei a pensar que tivesse enlouquecido, mas o Dr. Marcílio conversou com ele como se fosse com o coronel, e ele respondeu tudo. Depois rezamos e ele acabou se arrependendo e concordando em ir embora. Não sei como é isso, mas parece que veio uma outra alma buscá-lo. - Eu sei - disse Eurico. - Foi aquela mulher bonita que, sempre, que ele estava em meu quarto e eu rezava, aparecia e o levava embora. Eulália admirou-se: 282 - Você a viu também? - Vi. Ela é muito bonita e sorri para mim. Quando ele está me amolando e ela chega, ele fica como que esquecido de tudo e ela pega no braço dele e o leva. - Por isso você sentia tanto medo! - considerou Eulália. - Sinto muito, meu filho, por não ter acreditado no que você dizia. Nunca pensei que isso pudesse ser verdade. Se soubesse, não teria vindo morar aqui. - Não ia adiantar. Eu o via na outra casa também. - Como assim? Não foi depois que nos mudamos para cá que ele começou a aparecer para você? - Não. Desde pequeno que ele me persegue. - Acho que agora ele não vai voltar mais - tornou Nico. - Como é que você sabe? - perguntou Amelinha. - Minha mãe sempre dizia que as almas do outro mundo aparecem quando se sentem infelizes e precisam de alguma coisa. Se nós rezamos, conversamos com elas para saber o que desejam, elas vão embora e nunca mais voltam - garantiu Nico. - Tem certeza? - tornou Eurico. - Você conversou com a alma do coronel muitas vezes e ele sempre voltava. - Eu conversei, mas ele não me levou a sério. Acho que é porque sou criança. Agora, com o Dr. Marcílio, que entende dessas coisas, vai ser diferente. Acho que estamos livres dele. - Tomara. Fico arrepiado só em lembrar a cara dele! Eulália levantou-se e abraçou o filho penalizada. As crianças haviam enfrentado tudo isso sozinhas e com muita coragem. Reconheceu que Nico era um menino especial. Norberto entrou, colocou os livros sobre a mesinha e disse: - Posso saber qual é o motivo dessa reunião? - Eurico está me contando como ele via o coronel - respondeu Eulália. - Eles conversavam com ele e tentavam fazer o que o Dr. Marcílio fez. Norberto admirou-se: - Expliquem como é isso. Ele respondia? - Respondia, sim, papai - confirmou Eurico. Nico interveio: - Bom, Sr. Norberto, o Eurico o via, ficava com medo, cobria a cabeça com o lençol, mas continuava vendo assim mesmo. Me chamava, contava o que ele estava lhe dizendo e eu tentava conversar para ver se ele desistia de assustar o Eurico. 283 - Ele só ia embora quando aquela mulher aparecia e o levava. - Vocês foram muito corajosos. - Eu tinha muito medo - lembrou Amelinha. - Eu também - afirmou Eurico. - Eu não. Minha mãe sempre diz que as almas do outro mundo não podem nos fazer mal. Basta rezar e pedir a ajuda de Jesus, que somos protegidos. Norberto e Eulália entreolharam-se. Estavam assustados mas ao mesmo tempo interessados em saber mais. A certeza de que depois da morte as pessoas continuavam a viver em outros mundos, de onde podem interferir na vida dos que ficaram, modificava todos os seus conceitos antigos. Indagações novas surgiam e eles queriam respostas. Havia muito que aprender nesse novo caminho, mas uma coisa era certa: as crianças falavam a verdade e, por mais incrível que pudesse parecer, eles acreditavam. 284 Capítulo 20 Sentados ao redor da mesa, na casa do Dr. Marcílio, Norberto, Eulália, Liana e Alberto, juntamente com os freqüentadores habituais, oravam na sala iluminada por pequena lâmpada azul. Depois do que acontecera, Norberto e Eulália iam à casa do médico duas vezes por semana assistir às sessões, de onde saíam cada vez mais interessados. Ele aproveitara aqueles dias de férias para ler os livros que Marcílio lhes emprestara, e, se a princípio o fez movido pelo receio do que lhe acontecera, acabou descobrindo que atrás dos fenômenos que tanto o assustaram havia uma verdade maior revelando segredos da vida que ele nunca supusera possíveis, descortinando toda a perfeição do universo, fazendo-o refletir e compreender sua grandeza. Estudando a reencarnação, encontrou respostas para todas as suas indagações com relação às aparentes injustiças das desigualdades sociais. Sentiu-se mais respeitoso para com o que ainda não podia compreender, entendeu que as pessoas podiam ser diferentes umas das outras, cada uma dentro do próprio processo de desenvolvimento espiritual. Era sexta-feira, e no domingo ele teria de voltar a São Paulo. Suas férias haviam terminado. Era com pesar que regressaria à capital. As longas conversas que ele e Eulália mantiveram com o médico durante aquele período haviam esclarecido muito. Eles estavam cada vez mais desejosos de saber detalhes da vida astral, captação de energias, reencarnação, influências dos espíritos desencarnados, etc. Marcílio sorria observando a euforia deles, comum a todos os que passam pelas primeiras experiências da mediunidade e obtêm provas da vida após a morte. Ele respondia o que podia com paciência, alertando para o uso do bom senso no trato com os desencarnados, com os quais é necessário ter os mesmos cuidados que se têm com as pessoas à nossa volta. - Não podemos esquecer que nem todos os que estão vivendo na outra dimensão são pessoas elevadas. Os embusteiros, os maldosos que viveram aqui estão lá e continuam iguais ao que eram. A morte do corpo não modifica o nível de ninguém. Cada um continua sendo o que é. - Não devemos evocar espíritos? - indagou Norberto. - Nunca. A não ser quando chamamos os que sabemos superiores. Não estou me referindo a parentes nossos, mas a espíritos de alto nível, como Jesus, Maria, S. Francisco de Assis. Esses podemos evocar, a eles podemos nos ligar e pedir ajuda. 285 - Estava pensando em evocar a alma de minha mãe - disse Eulália. - Por que ela nunca veio às nossas sessões? - O que sei é que, se lhe fosse permitido vir, ela teria vindo sem que a evocássemos. Quando a manifestação de alguém que amamos é espontânea, vem acompanhada de sinais que provam sua autenticidade. Quando evocamos, nem sempre podemos afirmar que foi a própria pessoa quem compareceu. Depois, nossa evocação pode perturbá-Ia se estiver em recuperação, em fase de reencarnação ou mesmo já tendo reencarnado. O que acontecerá se pedirmos a ajuda de um parente desencarnado e ele estiver sem condições de nos atender? Ficará em conflito, sofrerá, algumas vezes até tentará nos socorrer e acabará por atrapalhar mais. Por isso, é preciso ter fé. Confiar. O importante é saber que a vida continua, que cada um é responsável por suas atitudes e atrairá para si fatos e pessoas em sua vida, conforme acredita e faz. O resto vai por conta de nossa insegurança, sempre esperando que os outros nos digam como proceder. - Compreendo o que deseja dizer. Não basta saber, é preciso viver de acordo com o que acreditamos, senão estaremos apenas intelectualizando e não assimilando. Marcílio sorriu satisfeito: - Nada como falar com pessoas inteligentes. Você disse em poucas palavras o que eu quis dizer com toda essa conversa. Sentado ao redor da mesa, Norberto pedia a ajuda de Deus para que ele pudesse encontrar a paz do coração. Naqueles dias em que haviam reatado as relações com Liana e Alberto, vendo-os juntos, muitas vezes ele sentira o coração apertado. Nessa hora se controlava pensando que Liana era feliz e ele desejava viver para sua família dali para a frente. Depois do que acontecera, Eulália aproximara-se mais dele, interessada em estudar a medi unidade para poder apoiar Eurico. Estava lendo os livros que o Dr. Marcílio emprestara e os dois ficavam horas conversando sobre o assunto. Norberto surpreendeu-se com a lucidez de Eulália, sua postura firme, interpretando o que liam com inteligência e perspicácia, muitas vezes esclarecendo suas dúvidas com certa facilidade e brilho. Se antes a admirava como esposa, passou a admirá-Ia como pessoa. Cada dia que passava, mais e mais se arrependia de haver se deixado levar pela paixão a ponto de perder a paz e pôr em risco o futuro de sua família. 286 Amava os filhos, queria que eles o amassem e respeitassem. Começou a pensar que havia sido um erro ele ter ficado separado da esposa. Enquanto estiveram sempre juntos, ele não sentira nada por Liana. Pela primeira vez começou a duvidar da veracidade do amor que pensava sentir por ela. Seria bom se ele pudesse ficar ao lado de Eulália o tempo todo. Mas tinha receio de pedir-lhe que voltasse a viver na cidade. E se Eurico piorasse novamente? Ele parecia tão bem! Não se lembrava de tê-Io visto assim tão disposto. Por outro lado, ele não podia abandonar os negócios e ir viver na mansão. Naquele instante, Norberto pediu a Deus que o ajudasse. Estava arrependido e com vontade de viver em paz. - Boa noite, amigos! - disse um dos médiuns presentes. - Venho novamente hoje agradecer a ajuda que recebemos de vocês. Finalmente Firmino está aceitando a verdade. Esse está sendo um importante passo para que vocês se libertem do passado e possam seguir adiante. Eu já relatei como começou esta história e hoje quero esclarecer mais alguns pontos. Eu só contei que Liana, que se chamava Mariquita quando se casou com Firmino, era uma jovem de rara beleza e vivia com seus pais e uma irmã um ano mais nova. Foram educadas com muita severidade. Inês, a irmã, não era tão bonita como Mariquita e sofria muito, ouvindo desde cedo as pessoas dizerem que elas nem pareciam irmãs. Sentia muita inveja e fazia o que podia para infelicitar Mariquita. Quando Inês descobriu que o jovem Gilberto estava apaixonado por sua irmã e lhe enviava bilhetes amorosos, pensou logo em conquistá-Io. Se ela o tirasse de Mariquita, certamente ninguém mais diria que ela era mais feia ou menos inteligente. Para isso arquitetou um plano. Sabia que Firmino, filho de abastada família, estava apaixonado por Mariquita e que ela não o queria. Procurou o pai e contou-lhe que vira a irmã aos beijos com Firmino, dando a entender que tinham intimidade. Furioso, o pai procurou o rapaz e exigiu uma explicação, e ele, em comum acordo com Inês, aproveitou e pediu a mão de Mariquita. De nada valeu Mariquita chorar, implorar, pedir. Nada demoveu seus pais, e acabaram se casando. Inês fingiu-se amiga de Gilberto, que estava inconsolável pela perda de Mariquita, e acabou finalmente se envolvendo com ele. Casaram-se. Ela o amava de verdade. Entretanto, sentia que agira errado e, insegura, exigia cada vez mais atenção do marido, querendo que ele provasse constantemente seu amor e sua fidelidade. 287 A vida deles tornou-se um inferno. O ciúme dela era doentio. Ele queria filhos, mas ela o queria só para si. Não desejava dividir seu amor com os filhos. Foram infelizes, desencarnaram frustrados e angustiados. Ao se encontrarem no astral depois da morte, souberam de todos os sofrimentos pelos quais Mariquita passara com o marido. Inês sentiu-se culpada pelos sofrimentos da irmã. Foi procurar Gilberto e contou-lhe toda a verdade. Choraram juntos. - Se você ainda a ama - disse Inês -, estou disposta a ajudá-Ia a reconquistá-Ia. Quando ele se foi disposto a procurar Mariquita, Inês sentiu-se muito só. Pela primeira vez lamentou-se por não ter filhos. Seus conhecidos tinham pessoas na Terra que eles amavam. Ela não tinha ninguém. Arrependida, lamentou o tempo perdido. O tempo havia passado, mas Gilberto não havia esquecido o primeiro amor de sua juventude. Foi procurar Mariquita. Ela o recebeu com carinho. Porém, quando ele lhe falou do antigo amor, ela respondeu: - Sei que está sendo sincero. Mas eu mudei. Depois de tudo que passei, não sou mais a mesma. Aqui, conheci uma pessoa que me tem ajudado a atravessar os desafios que a vida me enviou e me ensinado coisas novas. Eu o amo e é com ele que desejo ficar. Perdoe-me. Tenho certeza de que não sou eu a mulher de sua vida. - É definitivo? - É. Devo reencarnar em breve, terei ainda alguns desafios nessa encarnação. Ele vai nascer antes de mim e, quando chegar o momento, estará comigo para ajudar-me. Estou certa de que vamos vencer. - E eu? - Não se deixe envolver por uma ilusão. Nós nem sequer chegamos a nos conhecer melhor. Como sabe que nosso relacionamento daria certo? Depois, Inês ainda o ama. Por que não tenta entender-se com ela? - Viver com ela foi difícil e frustrante. Não desejo viver aquilo tudo novamente. Depois, como pode dizer isso? Ela foi a causa de. sua infelicidade. Fez tudo para nos separar, e você ainda a defende? - Não a culpo por minha infelicidade com Firmino. Se eu não tivesse necessidade de passar por essa experiência, nem sequer teria me casado com ele. Ela não teria conseguido nada. - O que quer dizer com isso? - Que eu precisava aprender essa dura lição, e ninguém a poderia evitar. 288 - Ela a invejava. - Ela me amava e admirava tanto que gostaria de ser igual a mim. Só que ela não acreditava no próprio valor, e por isso queria o impossível, que era ter o meu. Eu sei que ela é uma alma divina e que dentro dela há um ser maravilhoso, cheio de luz e beleza. Quando ela descobrir isso, nunca mais sentirá inveja de ninguém. Será feliz e espalhará a felicidade. Por que não tenta ajudá-Ia a descobrir sua riqueza interior? Gilberto saiu de lá encantado com o que ouvira. Procurou por Inês para contar-lhe que fora recusado e Mariquita estava amando outro. E finalizou: - Como vê, fui derrotado duas vezes. Ela garante que não é a mulher de minha vida. A partir daquele dia eles se tomaram inseparáveis amigos. Inês procurara a irmã sem constrangimento e abraçaram-se com carinho. Inês foi chamada e disseram-lhe que ia reencarnar. Ela alegou que estava arrependida do que fizera à irmã e desejava ajudá-Ia de alguma forma. Queria ter muitos filhos. Foi informada de que Mariquita seria sua irmã mais nova. Ela se casaria novamente com Gilberto e receberiam como seus filhos Mariinha e o filho dela que não chegou a nascer por causa do atentado que ela sofreu quando estava grávida. Naquele tempo, ela se recuperou, mas não pôde ter filhos. Esse espírito estava em um processo difícil e com muita dificuldade de nascer. Por atitudes que agora não vale a pena mencionar, ele havia lesado seu corpo astral. Por isso deu tanto trabalho desde que nasceu. Mas graças à dedicação de todos, ele melhorou muito e já conseguiu reequilibrar-se. Temos certeza de que, de agora em diante, sua reencarnação se firmará. Só queremos que ele se dedique à mediunidade. Trouxe essa capacidade e o compromisso de libertar-se através do trabalho em favor dos que sofrem. Doando amor e energias, ele finalmente conseguirá o que tanto deseja: saúde e alegria. Agradecemos a ajuda e queremos que continuem na fé em Deus e no caminho do bem. A médium calou-se. Marcílio fez comovida prece de agradecimento e encerrou a sessão. Quando as luzes se acenderam, ninguém comentou. Todos estavam comovidos e pensativos. Eulália via-se na pele de Inês, a irmã invejosa; Norberto sentia-se como Gilberto. Todos sabiam que o menino doente era Eurico. Norberto criou coragem e pediu para falar com o Dr. Marcílio em particular, ao que Eulália indagou: - Posso ir também? 289 - Claro - respondeu Norberto. - Venha. O que quero falar interessa também a você. Foram para outra sala, acomodaram-se e Norberto começou: - Estou muito emocionado, doutor. Esta noite tivemos revelações muito importantes. - É verdade. Raramente podemos contar com tanta clareza. Se o fizeram, é porque vocês já têm esclarecimento para saber a verdade. - Está claro que falavam de nós - disse Eulália. - Tenho certeza de que eu fui Inês. - E eu Gilberto. Isso me explicou muitas coisas. Até a doença de Eurico. Nunca havia entendido por que ele nasceu tão diferente de Amelinha. - Agora já sabem. Sabem também que ele está recuperado e daqui para a frente gozará de boa saúde. - É sobre isso que desejo falar. Estou me sentindo muito só na capital. - Não é bom para um homem ficar sozinho. - Concordo, doutor. Eulália me faz muita falta. Porém estava disposto ao sacrifício por causa de Eurico. Mas agora. .. - Depois do que ouvimos hoje, acho que já podem voltar para a capital. Eulália sentiu-se emocionada com as palavras do marido. Norberto nunca lhe dissera que sentia sua falta. Ela também queria ficar ao lado dele. - Eu gostaria muito de estarmos todos juntos. Será que Eurico não vai se ressentir? - Penso que não. Acho que agora está na hora de ter vida normal, de ir para a escola como todos os meninos de sua idade. - Só há um problema: Nico. Ele não vai querer separar-se dele lembrou Eulália. - É verdade. Eu também gosto muito desse menino - esclareceu Norberto. - Ele é tão bom, ajudou tanto Eurico. Às vezes diz coisas que estão muito além do que dizem os meninos de sua idade. - Trata-se de um espírito carismático. De um grande artista, esqueceram? - Como sabe? - indagou Eulália. Marcílio contou-lhes o que lhes fora revelado anteriormente sobre a vida de todos eles e finalizou: - Por que não o levam para a cidade e financiam seus estudos? 290 Acho que ele merece e vai aproveitar. Seus pais são muito pobres, como sabem. Ele nunca terá chance ficando aqui. - É uma boa idéia - concordou Eulália, satisfeita. - Ele é muito apegado à mãe. Será que vai aceitar? - Ela vai aceitar - garantiu Norberto. - Ama o menino, e é o futuro dele que está em jogo. Depois, continuaremos a vir para cá e ele poderá ir ver a família. - Nesse caso penso que Eurico vai querer ir - concluiu Eulália. Liana e Alberto saíram da casa do médico em silêncio, sem esperar pelos demais. Cada um ia imerso nos próprios pensamentos, sem coragem para abordar o assunto. Por fim Alberto disse: - Esta noite pudemos compreender muitas coisas. - É verdade. - Deu para saber que seu antigo apaixonado de outros tempos conserva no coração o mesmo amor. Está claro que se trata de Norberto. Ela baixou a cabeça, pensativa. Chegaram em casa pouco depois. - Vou preparar um chá. Você quer? Ele concordou e ela foi à cozinha, enquanto ele se sentou na sala pensativo. Por que Liana havia recusado o amor de Norberto antes de reencarnar e depois se apaixonara por ele? A quem ela se referira ao dizer que estava amando outra pessoa? Ao pensar nisso seu coração se descompassava. Teria sido ele? Teriam estado juntos no astral e combinado o casamento? Teria sido por amor? Ele sempre se sentira atraído por Liana. Fizera grande esforço para banir esses pensamentos, porque não queria mais se envolver com ninguém por amor depois da experiência desastrosa que tivera com o casamento. A idéia de se casar com Liana para ajudá-Ia teria sido sincera ou apenas um ardil que inconscientemente usara para enganar-se e mergulhar sem medo nesse casamento? Se fosse com outra pessoa, teria se casado? Estava confuso. Não conseguia encontrar as respostas com clareza. Liana chamou-o para tomar o chá com biscoitos. Ele se sentou à mesa e serviu-se em silêncio. Foi Liana quem falou: - Não consigo esquecer o que ouvimos esta noite. Deu voltas à minha cabeça. Parece que à sua também. - Confesso que sim. Há muitas perguntas sem resposta circulando dentro de mim. Ela pensou alguns instantes, depois respondeu; 291 - Comigo ocorreu o contrário. Encontrei respostas para muitas coisas que me aconteceram nesta vida. - Quais, por exemplo? - Por que Norberto se interessou por mim. - Ele gostava de você e continua gostando. Mas e você? Por que o recusou lá e o amou aqui? - Não sei. O fato é que saber tudo me deu calma. Pela primeira vez comecei a pensar que meu amor por ele não passou de uma ilusão. Devo confessar: depois de nossa reconciliação, quando voltamos a freqüentar sua casa, ele me pareceu outra pessoa. Percebi atitudes e particularidades nele que antes não havia observado. Algumas vezes cheguei a questionar meus sentimentos, percebendo claramente que ele não tinha nada para me atrair. Mas eu recusava aceitar esse pensamento. Se não era amor, eu me entregara a ele por atração física. Eu não quero aceitar que posso ser venal. - Muitas vezes fiquei com receio de que, voltando a conviver com ele, ficasse mais difícil para você esquecê-Io. Se por um lado gostei que fizesse as pazes com sua família, por outro senti muito medo. Cheguei a desejar que as férias dele acabassem e que ele fosse embora. Liana olhou-o nos olhos e tomou: - Você sabe o quanto estou arrependida daquela fraqueza. Nunca mais quero passar por isso. Eulália e as crianças merecem respeito. Se eles soubessem a verdade, eu morreria de vergonha. Por haver fraquejado, quase enlouqueci. Minha consciência não suporta uma atitude como essa. Pode ter certeza de que estou imunizada definitivamente. Se fui capaz de resistir ao assédio de Norberto mesmo quando me julgava apaixonada, agora que percebi meu engano posso ficar com ele a sós em qualquer lugar sem que me sinta tentada a nada. Alberto segurou a mão de Liana, apertando-a com força, e perguntou: - Tem certeza de que não o ama mais? - Tenho. Esta noite, quando aquele espírito relatou que ele me havia procurado e eu não o aceitara dizendo que amava outro, tudo ficou claro em minha cabeça. Sei que ele não é o homem de minha vida! Pode imaginar como me sinto feliz? O pensamento de que eu estava roubando o marido de Eulália me esmagava. Agora estou livre. Eu o havia devolvido a ela antes e estou contente porque mesmo sem me lembrar de nada eu me recusei a fugir com ele e a aceitar seu amor. Tenho me sentido muito bem ultimamente. Nossas conversas, seu apoio, seu carinho, sua proteção devolveram-me a alegria de viver. 292 A ajuda espiritual, o Dr. Marcílio, os amigos têm sido uma bênção que nunca poderei pagar. E esta noite completou minha cura. Não me sinto mais culpada pelo que aconteceu com Norberto. Foi ocasional. Ele estava longe da esposa; eu, carente de afeto. - Mas ele continua amando você. - Não creio. Reparou como ele e Eulália conversam e estão sempre juntos? - É verdade. - Isso não acontecia antigamente. Penso que eles foram feitos um para o outro e estão descobrindo isso. O casamento deles foi um arranjo em que o amor ficou em segundo plano. Sinto que estão mudando. - Pode ser. Desejo sinceramente que eles se entendam e se amem. - Eu também. No domingo, Eulália convidou-os para almoçar na mansão. Norberto iria embora no fim da tarde. As crianças estavam agitadas, e, assim que Alberto chegou com Liana, já os esperavam no jardim. Foi Amelinha quem falou primeiro: - Tenho uma novidade, tia... - Língua comprida! Deixe que eu falo! - gritou Eurico, tentando empurrá-Ia para trás. - Calma - pediu Liana. - Cada um fala por sua vez! - Eu sou primeira! - Nós vamos voltar a morar na cidade! - disse Eurico, eufórico. - Está vendo, tia? Ele não tem educação mesmo. Nem me deixou falar. - É verdade? - indagou Alberto. - É - disse Amelinha rapidamente, antes que Eurico respondesse. - E Nico também vai! - Você tinha de falar, sua linguaruda! - É verdade, Nico? Você vai para a cidade com eles? - Vou, Liana. A Dona Eulália foi pedir à minha mãe para eu ir morar com ela na cidade para estudar com o Eurico. Ela deixou. - Que bom, Nico! - tornou Alberto, contente. - Já resolveu que carreira vai seguir? - Ainda não sei. Mas estou um pouco nervoso. A vida da cidade é diferente. - É. Mas é muito boa também - explicou Alberto. - Você vai gostar, tenho certeza. 293 Depois do almoço, enquanto as crianças brincavam no jardim, eles foram tomar o café na sala de estar, e Eulália comentou: - Nós vamos voltar a morar em São Paulo. - As crianças já nos contaram as novidades - disse Liana. - Norberto sente-se muito só. Está com saudade da família. Falamos com o Dr. Marcílio, que nos garantiu que Eurico já está forte o bastante para levar vida normal. Aliás, ele precisa ir à escola como os outros meninos. - É verdade - disse o professor. - Ele é muito inteligente e aprenderá depressa. É só vocês não entrarem no jogo dele e tudo irá bem. - Esse eu conheço bem. Ele se aproveitava de sua debilidade física para nos chantagear. Conseguia porque naquele tempo estava doente mesmo, passava mal, mas agora está saudável. Acabou aquela anemia. Não conseguirá mais nada. - Eurico é um bom menino. Basta valorizar suas qualidades reais e não dar importância às manifestações de seu mimo - garantiu Alberto. - Não posso esquecer que foi você quem o ensinou a gostar de aprender. Você e Nico. Esse menino vale ouro - reconheceu Eulália. - Se depender de mim, pretendo ajudá-Io a progredir na vida interveio Norberto. - Sou muito reconhecido a ele. - Além de bondoso, tem inteligência acima dos meninos de sua idade. Várias vezes me surpreendeu com suas palavras - tornou Alberto. - A mãe dele é uma mulher maravilhosa - aventou Eulália. Adora Nico. Ele sempre foi seu companheiro dedicado. O marido é um inútil e nenhum de seus outros filhos é como Nico. É com ele que ela costuma conversar mais. Mas, quando lhe pedi para deixá-Io mudar-se conosco para São Paulo, ela concordou. Em seus olhos brilhava uma lágrima, mas ela garantiu que a felicidade dele e seu futuro estavam em primeiro lugar. Disse que ele gostava muito de nós e ela tinha certeza de que ele seria muito feliz em nossa casa. - Comove o amor dessa mulher pela família. Enquanto o marido é um encostado, ela trabalha duro para mantê-Ios. Sem revolta, até com alegria, vai vivendo sua vida - declarou Norberto. Eulália interveio: - Não sei se vocês sabem, mas, quando ajustei Nico para fazer companhia a Eurico, ele trabalhava para ajudar a mãe. Fiz um trato com ele, dando-lhe um pequeno salário para que sua mãe não sentisse falta da ajuda que ele lhe dava. Era um valor insignificante. mas ele o aceitou com dignidade e só assim concordou em ficar aqui. 294 Agora que ele vai conosco, Norberto resolveu mandar uma mesada a Dona Ernestina. Assim ela não precisará trabalhar tanto. - Vou sentir falta de vocês, principalmente das crianças - disse Liana. - Por que não voltam a morar em São Paulo? Gostaria muito de ter vocês por perto - sugeriu Eulália. Foi Alberto quem respondeu: - Eu gosto daqui. Por enquanto não pensamos em nos mudar. - É verdade. Agora que estou melhor sinto vontade. de voltar a lecionar. - Não desejo ser indelicada - tornou Eulália -, mas gostaria de perguntar uma coisa a você, Alberto. - Pergunte o que quiser. - Quando você veio para cá, disseram-nos que você aceitou dar aulas para as crianças como um complemento de sua renda mensal. Desde que interrompemos essas aulas, esse dinheiro não lhe tem feito falta? - Felizmente não. Tenho trabalhado para revistas e jornais, que pagam pelos artigos. - Não seria melhor você voltar a trabalhar em São Paulo? - indagou Norberto. - Tenho certeza de que ganharia muito mais. - Mas gastaria muito mais. - Pretende se enterrar aqui para sempre? - perguntou Eulália. - Gosto deste lugar. Pode ser que amanhã eu mude, mas no momento a calma, a simplicidade, a paz daqui têm sido inspiradoras. Sinto que estou mais perto de mim mesmo, de meus sentimentos. - E você, Liana o que diz? - perguntou Eulália. - Também gosto daqui. Estou me recuperando e essa calma também tem me ajudado a recolocar a cabeça no lugar. Era noite quando eles se despediram. No trajeto de volta, Alberto não se conteve e perguntou: - Você gosta mesmo de ficar morando aqui? Agora que a crise passou, não deseja ir viver na cidade, retomar o fio de sua vida normal? - Não sei se estou pronta para retomar alguma coisa em minha vida. Tenho sentido vontade de voltar a lecionar, de me ocupar. Sempre fui pessoa ativa. Depois, estou sendo pesada a você. Além de me ajudar, tem pago todas as despesas da casa. Não é justo. - Se é por isso que deseja retomar as aulas, não precisa. O que ganho dá e sobra para as nossas despesas. 295 - Não é só por isso. Você tem sido bom demais. Não quero abusar. Depois, estava habituada a ter meu próprio dinheiro, a pagar minhas despesas. Já fez muito por mim. Nunca poderei pagar o bem que me fez. Alberto calou-se. Chegaram em casa. Ele apanhou um livro e sentou-se no escritório para ler. Porém nem sequer o abriu. Permaneceu assim em silêncio até que Liana o procurou: - Você quer alguma coisa, um chá ou um café? - Não, obrigado. - Já vou dormir. Boa noite. Ele a olhou sério, depois disse: - Talvez esteja na hora de conversarmos sobre as nossas vidas. - O que quer dizer? - Combinamos que, quando tudo estivesse resolvido, nós nos separaríamos. Ela estremeceu ligeiramente: - Acha que já está na hora? - Não sei. Fiquei pensando em suas palavras de há pouco. Não desejo que se sinta tolhida em sua liberdade. Se deseja voltar a São Paulo, recomeçar a vida de outra forma, lecionar, não se prenda por nada. Esse foi o nosso trato. Quando quiser romper, basta falar. É justo que deseje cuidar de seus interesses. - Não estou aqui me sentindo presa. Ao contrário. A seu lado tenho me sentido livre como nunca havia sido. Antes eu vivia sob os olhos de Eulália, que é muito boa, mas, desde que nossa mãe morreu, assumiu que devia cuidar de mim e tomou conta de minha vida. Depois, vivi esmagada pelo peso da culpa. Você me ensinou a perceber melhor as coisas. Respeitou-me e deu-me toda a liberdade. - Se é assim, está bem. Quando resolvi cooperar com você, foi de coração. Só não quero que se sinta no dever de ficar a meu lado por gratidão. Quero deixar claro que, quando desejar ir embora, é só falar. - Talvez esteja na hora de eu ir mesmo. Acho que já lhe dei trabalho demais. Você tem o direito de viver sua vida sem se ocupar com meus problemas. Vou pensar e resolver o que fazer. - Acho que não entendeu. Gosto de sua companhia. Tenho prazer em que fique aqui para sempre. Estou pensando apenas em você. Desejo que se sinta livre para escolher seu futuro. Agora você pode. - Vou pensar. Boa noite. - Boa noite. 296 Alberto sentiu um aperto no coração, mas controlou-se. Por que tocara naquele assunto? E se ela resolvesse partir? Percebeu que não queria que ela se fosse. O que faria de sua vida quando ela o deixasse? Estava acostumado a seu sorriso pela manhã, a seu olhar confiante e carinhoso, às conversas inteligentes no aconchego da sala de leitura, onde trocavam idéias a respeito da vida e de tudo. Reconhecia que sua presença trouxera encanto nas pequeninas coisas, dera-lhe motivação para ornamentar o jardim, a casa, olhar a vida de forma mais otimista, interessar-se pela própria aparência. Quando saía, desejava voltar logo para casa para sentar-se a seu lado, naqueles momentos de intimidade na cozinha, tomando chá e conversando. Percebeu que uma lágrima caía, e ele a deixou fluir. Liana havia se tomado indispensável em sua vida. Ela era a mulher que sempre desejara ter a seu lado. Lembrou-se com clareza da força que precisava fazer para controlar o desejo de abraçá-Ia, de beijar-lhe os lábios, de se entregar àquele amor que descobria agora em toda a sua plenitude. Ele amava Liana! Sempre a amara, desde o dia em que a vira pela primeira vez. Como pôde ser tão cego? Como pôde confundir o amor com uma simples atração física e banal? Ele não podia demonstrar o que sentia. Ela era muito bondosa. Estava frágil e sensibilizada pelas emoções que passara. Se lhe contasse a verdade, ela o aceitaria por gratidão. Ficou ali, pensando. Se ela o amasse, seria a glória. Mas nunca notara nela nenhum traço desse sentimento. Ele era apenas o amigo que a ajudara no momento difícil. Por isso decidiu: ela nunca saberia de seus verdadeiros sentimentos. Ouviu o ruído de alguns trovões, a chuva despencou lá fora com força, lavando a poeira dos telhados e das ruas. Ele deixou também que as lágrimas lavassem sua alma naquele momento de descoberta e de amor. 297 Capítulo 21 Liana entrou em casa satisfeita procurando Alberto. Ele estava no escritório trabalhando um artigo para o jornal. Vendo-o, ela foi logo dizendo: - Começo a trabalhar na segunda-feira. Consegui. - Como você queria? - Isso. Ficarei como substituta por pouco tempo. Logo reassumirei a cadeira. Ele a fixou sério e perguntou: - Tem certeza de que prefere lecionar em Ribeirão Preto? Se desejar, pode pedir transferência para São Paulo. Ela se aproximou dele sustentando o olhar: - Você quer que eu faça isso? Ultimamente tem sugerido que eu mude para lá. Tenho impressão de que deseja retomar sua privacidade. Se for assim, pode dizer que irei embora. Ele se levantou e colocou a mão no braço dela sem desviar os olhos: - Ao contrário. Se for embora, sentirei muito sua falta. Mas não se trata de mim. Às vezes penso que você fica aqui comigo por gratidão. Notou que gosto de sua companhia, quer cuidar de sua vida, mas fica só para me agradar. - Você está enganado. Sou grata a você, sim, mas se desejasse ir embora iria. Você me ensinou a viver. A seu lado encontrei carinho, respeito, dedicação. Não penso em ir embora, não. Para onde iria? - Os olhos dela encheram-se de lágrimas, e ela continuou com voz trêmula: - Não consigo imaginar minha vida sem você. Pode parecer egoísmo, mas esta casa, nossas conversas, as sessões na casa do Dr. Marcílio tornaram-se indispensáveis. Gosto de ficar cuidando de minhas coisas sabendo que você está aqui, trabalhando. Que a qualquer momento vai me chamar para trocar idéias, contar-me alguma coisa boa ou para tomarmos um café juntos... Ela parou, tentando conter as lágrimas. Alberto olhava-a sustendo a respiração, descobrindo não só em suas palavras mas na emoção que percebia em seus olhos que seu amor tinha chance de ser correspondido. Abraçou-a, apertando-a de encontro ao peito, sentindo seu coração bater mais forte. Procurou seus lábios e beijou-a, extravasando toda a emoção de seu amor reprimido. 298 Sentindo que ela correspondia, ele a beijou repetidas vezes. - Eu amo você, Liana! Muito, muito! Ela o apertou com força, dizendo baixinho: - Quanto desejei este momento! Se estiver sonhando, não quero acordar! Beijaram-se muitas vezes. Alberto puxou-a para o sofá: - Diga que também me ama! Que deseja viver para sempre a meu lado! - Amo! Amo! Amo! Tanto que estava difícil ficar perto de você sem o tocar. - Quando descobriu que gostava de mim? - Logo depois que Norberto se libertou do espírito do coronel Firmino, comecei a notar que quando você estava ausente eu ficava ansiosa esperando sua volta. Quando você ficava muito próximo ou me tocava de alguma forma, minhas pernas tremiam, meu coração acelerava e eu queria ficar mais perto. Imaginava como seriam seus beijos, e estremecia só em pensar nisso. E você, desde quando soube que me amava? - Senti-me atraído por você desde que a vi, mas julgava que fosse apenas uma atração física. Você é bonita, inteligente, agradável. Lutei muito para vencer essa atração. Você amava outro homem e eu não queria misturar as coisas. Você estava muito machucada e eu não queria me aproveitar de suas fraquezas. - Nunca notei seu interesse. Só amizade. - Fiz tudo para que fosse assim. Depois da mudança de Norberto, quando ele reassumiu a família, seu problema estava resolvido. Ele nunca mais a incomodaria e Eulália nunca desconfiaria de nada. Havíamos alcançado nossos objetivos e você não precisaria mais ficar comigo, estava livre para ir embora. Então descobri que a amava de verdade. Talvez a tenha amado desde o primeiro dia. Se olhar bem no fundo do meu coração, talvez possa até dizer que por trás de minha proposta de casamento já havia a esperança de vir um dia a conquistar seu amor. Só que não confessava nem a mim mesmo. - Eu quero falar de meus sentimentos. - Há uma pergunta que sempre tive medo de lhe fazer. Você ainda sente alguma coisa por Norberto? Ela sacudiu a cabeça negativamente: - Não. O que eu sentia por ele não era amor. Foi mera atração. Ficamos os dois sozinhos na mesma casa durante algum tempo. Ele longe da esposa e eu sonhando com um amor, querendo descobrir a vida. Não estou querendo justificar minhas fraquezas. 299 Eu errei e paguei um preço alto por meus erros. Mas hoje já posso compreender como nos deixamos levar em um jogo perigoso e traiçoeiro. Envolvemo-nos em uma paixão que nos tornou infelizes enquanto durou. - Aconteceu o mesmo comigo e Eugênia. Só que éramos livres e casei-me com ela, para arrepender-me em seguida. Foi paixão, e a paixão provoca sofrimento enquanto dura. - Senti-me aliviada quando percebi que Norberto havia mudado. Não me olhava mais com aquele fogo de antes, mas até com certa reserva, como querendo dizer-me que não sentia mais por mim nenhuma atração, que eu podia ficar em paz porque ele não iria mais me perturbar. - Notei isso também. Tanto que às vezes me pergunto até que ponto o que houve entre vocês dois teria sido provocado pelo espírito do coronel Firmino. - Você acha possível? - Não quero com isso tirar a responsabilidade que lhes cabe nos fatos. Claro que poderiam não ter se deixado envolver pelas energias dele. Mas ele sabendo que Norberto em outra vida havia se interessado por você pode tê-Io envolvido para conseguir seus propósitos. Quando ele finalmente foi afastado, Norberto voltou ao normal, desejando dedicar-se à sua família. - Você pode estar certo. Norberto mudou completamente depois que o coronel foi afastado. Voltou a ser como era quando se casou com Eulália. Pelo menos da parte dela, não foi por amor, mas agora acho que ela aprendeu a gostar dele. - Apesar do que houve, não há como negar que ele tem muitas qualidades. - Uma família! Vê-Ios bem é meu maior desejo. - Agora falemos de nós. Preciso saber o que você pensa, se quer ser minha esposa de verdade e ficar comigo pelo resto da vida. Liana passou as mãos ao redor do pescoço dele e beijou-o nos lábios com amor. Depois disse: - Quero ficar com você para sempre, seja onde for. Emocionado, Alberto apertou-a de encontro ao peito, beijando-a nos lábios. Depois se levantou, tomou-a nos braços e levou-a para o quarto de casal, onde ela durante todos os meses de casamento dormira sozinha. Deitou-a sobre a cama, dizendo emocionado: - Hoje é o dia mais feliz de minha vida! 300 Ela o puxou para si e esqueceram tudo o mais, entregando-se completamente aos sentimentos que os uniam, assustados diante da profundidade e do volume das emoções que nunca haviam experimentado antes, percebendo a importância daquele amor em suas vidas. As semanas que se seguiram foram de encantamento. Estavam felizes e radiosos. O Dr. Marcílio notou a mudança, e, quando eles lhe contaram o que acontecera, comentou: - Eu sabia que vocês se amavam. Vocês foram feitos um para o outro. Serão muito felizes. Fazia apenas um mês que Eulália havia voltado com a família para São Paulo e mandava notícias regularmente. Apesar de estarem no segundo semestre, as crianças haviam conseguido matricular-se em um bom colégio e estavam acompanhando regularmente as aulas. Tudo para eles era novidade. Principalmente para Nico, sempre entusiasmado com tudo que via. Sua inteligência, alegria, disposição, boa vontade encantavam professores e até colegas. Claro que havia os que o invejavam e tentavam aproveitar-se dele, percebendo tratar-se de um menino do interior que nunca havia estado em uma grande cidade. Mas, apesar de encantado com as novidades, ele era muito arguto, tinha bom senso e não se deixava enganar. Acabava levando a melhor. Os três eram inseparáveis. Eurico não fazia nada sem ele e às vezes ficava com ciúme dos colegas que, atraídos por seu carisma, estavam sempre à sua volta convidando-o para jogos ou brincadeiras. Mas Nico não dava importância ao mau humor de Eurico nesses momentos. Ao contrário, conversava com ele, fazendo com que participasse também, colocasse para fora suas idéias, e ficava feliz quando ele conseguia mostrar-se inteligente e criativo. Eulália sentia-se realizada. Finalmente seu filho estava levando vida normal. À noite, depois que as crianças se recolhiam, Eulália ficava conversando com Norberto. Falavam dos filhos, dos livros espiritualistas que estavam lendo, comentavam o que lhes acontecera, e Norberto surpreendia-se com a lucidez da esposa. Ela tinha idéias práticas, objetivas e claras. Reconhecendo isso, aos poucos ele começou a conversar com ela sobre seus negócios. Obteve dela colaboração eficiente, e isso o deixou orgulhoso e agradecido. Nesses momentos, arrependia-se amargamente do que fizera. Tendo a seu lado uma mulher tão maravilhosa como Eulália, por que se deixara iludir, envolvendo-se naquela paixão terrível? Nesses momentos, olhando-a tão segura, confiante e fiel a seu lado, tão companheira, sentia terrível remorso. 301 Prometia a si mesmo que nunca mais a trairia. Uma noite em que ele estava pensando no assunto, Eulália aproximou-se dizendo: - Há momentos em que me pergunto para onde vai seu pensamento. Você fica tão distante! - Impressão sua. - Agora que temos conversado mais, posso dizer que muitas vezes cheguei a pensar que você se arrependeu de haver se casado comigo. Ele a olhou admirado. Durante todos aqueles anos de casamento, Eulália nunca havia levado a conversa para o lado pessoal. Teria percebido alguma coisa? - Por que diz isso? Sempre fui dedicado a você e à família. - Não estou me queixando de nada. Mudemos de assunto. - Não. Sinto que precisamos conversar sobre nossos sentimentos. Nunca falamos sobre eles. - É difícil para mim. - Posso compreender. Você foi educada de maneira antiquada e muito rígida. Notando isso, nunca toquei no assunto. - Nem sei por que comecei a falar de nós. Você tem sido um marido muito dedicado e não quero que pense que estou insatisfeita com alguma coisa. O único problema que tínhamos era a saúde de Eurico. Graças a Deus vencemos. Ele está bem. Norberto aproximou-se dela, segurou sua mão e disse: - Embora você nunca me tenha dito, sei que se casou comigo sem amor, apenas para obedecer a seus pais. - É. De fato. Eu era muito nova, tinha a cabeça cheia de ilusões, fazia do amor alguma coisa distante. Não pode considerar isso. Eu não sabia o que queria. Penso que meus pais sabiam o que era melhor e fizeram a escolha certa. - Eu preferia que tivesse sido diferente. - Diferente como? - Que você me tivesse amado desde o princípio. Que houvesse se casado comigo por amor, conforme seus pais me disseram. - Por quê? Eu não o conhecia como agora. Não podia amá-lo. Era tímida e minha mãe nunca falou comigo sobre o amor, a não ser de maneira superficial durante nosso noivado. - Alguma vez gostou de alguém, antes de me conhecer? Eulália corou um pouco mas sustentou o olhar. 302 - Não. Mas desde que minha mãe falou comigo sobre como deveria ser uma boa esposa, tenho me esforçado para não o decepcionar. Do jeito que fala, você dá a entender que esperava mais... - calou-se, um pouco embaraçada. - Não nego que tinha minhas ilusões. Sonhava ser amado com paixão. Sabe como é, fantasias da mocidade. - Eu não sabia. - Você não me amava mesmo. Percebi logo no início de nosso casamento. - Sempre o tratei com carinho e atenção. - Eu sei. Mas faltava o fogo do amor. Eulália olhava-o surpresa. Na educação rígida que recebera, sua mãe sempre dizia que a paixão carnal era pecado. Que a mulher precisava preservar sua pureza mesmo no casamento para ser digna da família e dos filhos. Eulália nunca se permitira qualquer gesto que pudesse revelar seus desejos de contato e relacionamento sexual. Nunca tivera qualquer iniciativa nesse sentido. Esperava que o marido a procurasse e entregava-se a ele preocupada que ele se sentisse satisfeito e feliz. - Esperava isso de mim? - No início. Mas não era do seu temperamento. - Sempre pensei que estivesse sendo uma boa esposa... - E é. Nem sei por que estou falando isso. Você tem sido excelente mãe, boa esposa e companheira. Talvez melhor do que eu mereça. Estou feliz com a família que construímos. Eulália não respondeu. Mas a partir daquele dia não podia esquecer aquelas palavras. Norberto estava mudado. Ela sentia. De vez em quando percebia em seus olhos um brilho emotivo diferente do habitual. E pensava: se ela não fora a mulher que ele desejava, ficara decepcionado. Como seria a mulher que ele idealizara? O que ele esperava de uma mulher que o amasse? Mas ela sentia que amava o marido e o quanto ele era importante em sua vida. Mas seria amor mesmo ou apenas convivência, hábito, apoio? Eulália, que antes nunca questionara seus sentimentos, que sempre aceitara resignada o que a vida lhe dera, começou a prestar atenção às suas emoções, tentando entender o que o marido dissera. Tinha vontade de conversar com alguém que pudesse ajudá-la a esclarecer seus sentimentos. Mas não se sentia com coragem de abrir-se. Antes do Natal eles decidiram passar férias na mansão. 303 Estavam satisfeitos, porquanto as crianças finalmente haviam conseguido completar o quarto ano primário e preparavam-se para o ginásio. Foi com alegria que se prepararam para essas férias. Liana, que durante esse tempo supervisava os trabalhos dos caseiros da mansão, sentiu-se feliz com a vinda deles. Foi com alegria que avisou a mãe de Nico e cuidou de tudo para que eles fossem recebidos com carinho. No dia da chegada, Liana mandou preparar um bom jantar na mansão e colocou arranjos de flores pela casa. Desde cedo ela e Alberto haviam ido lá cuidar dos preparativos. Quando os dois carros chegaram com a família, os criados e as malas, eles estavam na porta esperando. Abraçaram-se contentes. As crianças falavam sem parar, querendo saber como estava tudo, fazendo tanto ruído que Eulália lhes pediu que saíssem e fossem conferir pessoalmente o jardim, os passarinhos, as plantas. Liana acompanhou Eulália até o quarto, onde as malas já estavam, e, uma vez lá, cobriu a irmã de perguntas, sobre a escola, as crianças. Eulália contava feliz os progressos dos filhos, dizendo que sua melhor decisão foi colocar Nico ao lado deles. A certa altura, ela perguntou: - E você, como vai? Estou vendo que está muito bem de saúde. - É verdade. Estou feliz. - Olhando para você posso perceber. Há uma luz em seus olhos que eu gostaria muito de ter. - Noto que há uma ponta de tristeza em sua voz. O que foi, não se sente feliz? - Reclamar seria até pecado. Tudo está bem em nossa vida agora. - Então o que é? Eulália hesitou um pouco, depois respondeu: - Ultimamente venho questionando muito meus sentimentos. Sinto-me angustiada, insegura. - Você? Sempre foi uma pessoa prática, que sabe o que quer. - Não é bem assim. Sou ignorante em questões de amor. - Seu rosto cobriu-se de rubor e ela continuou: - Viu? Só em falar nisso fico encabulada. Não sei mais o que é certo e o que é errado. Não tenho sido para Norberto a esposa que ele esperava. Liana sobressaltou-se. Segurou a mão da irmã e disse: - De onde tirou essa idéia? Você é uma mulher maravilhosa. - Norberto deu a entender que ficou decepcionado comigo porque eu não o amava como ele deseja. 304 - Ele não pode dizer isso... Você tem se dedicado exclusivamente a ele. Está sendo injusto. - Ele não reclamou, e foi isso que mais me impressionou. Ele se conformou em viver com uma mulher que não tem, como ele disse, "o fogo do amor" que ele desejava quando se casou. - Ele disse que você é uma mulher fria? É isso que ele pensa? - Não disse assim, mas deixou transparecer. - Pois eu penso o contrário. Você era uma menina tímida e inexperiente quando casou. Ele é quem precisava saber despertar esse fogo de amor que desejava. Eulália meneou a cabeça negativamente: - Não sei o que dizer. Ele pode estar certo. Venho tentando descobrir se um dia eu seria capaz de amar da forma como ele gostaria. - É difícil querer ser como os outros desejam. - Nesse assunto me sinto perdida. Eu mesma não sei como eu sou. - Ninguém pode saber isso se não experimentar. - Fica difícil. Não teria coragem para tentar uma experiência dessas. - Por que não? - Teria vergonha. Ele pode pensar que sou uma mulher vulgar. - Você é ingênua, Eulália. Além de tudo, preconceituosa. Norberto é seu marido. Entre vocês o amor deve ser livre. Não tenha vergonha de mostrar seus sentimentos. - A vida inteira não me permiti sentir. Quando ele me beija, fico tentando não desagradá-Io. Nunca digo o que sinto. - Quando ele não a procura, nunca sentiu vontade de fazer amor? - Bem, já. Mas controlo. Não fica bem a uma mulher procurar. O papel da mulher é ser passiva. Liana olhou admirada para ela e pensou: se Eulália houvesse sido diferente, o incidente entre Norberto e ela teria acontecido? - Você está enganada, Eulália. O amor não existe de um lado só. É uma parceria em que os dois se descobrem e trocam experiências. - Não sei se saberia amar dessa forma. Liana sorriu: - Você está longe de ser uma mulher fria. Antigamente eu pensava que você fosse equilibrada, controlada. Mas descobri que é uma mulher forte, cheia de vida e de vontade. Dentro de você há uma fogueira que já começa a arder. Quando ela emergir, não poderá segurar. - Não diga isso. Não quero fazer nada errado. 305 - A única coisa errada no amor é tentar impedir sua manifestação. - Não sei como fazer isso sem ir contra meus princípios. - É hora de entender seus sentimentos, não de agarrar-se em princípios e regras que a educação errada colocou em sua cabeça. Eulália baixou os olhos pensativa e Liana continuou: - O mais importante é saber se você ama Norberto. - Claro que amo. Não poderia viver sem ele. - Estou falando de amor, não de companheirismo ou de convivência. Precisa observar o que você sente quando ele a toca, que emoções surgem quando ele a acaricia. Não dar ouvidos aos pensamentos que passam por sua cabeça, mas ao que seu coração está sentindo, o que seu corpo quer nessa hora. Se fizer isso, saberá diferenciar amor de amizade. É isso que precisa descobrir. - E se for só amizade, e se eu não for capaz de amar? - Por que se precipita? Não pense nada. Experimente apenas. Sinta. Observe. - É. Talvez possa fazer isso. Ele nem vai notar. Liana sorriu ao responder: - Vamos ver o que acontece. Experiência é experiência. Não deixe que a cabeça interfira. Nessa hora, deixe-se apenas sentir e abra mão de qualquer controle. Permita-se fazer apenas o que sente. - Não me parece tão fácil como você diz. Às vezes percebo que estou dividida em duas. Sempre que estou fazendo alguma coisa, tomando alguma atitude, há um lado meu observando, criticando, julgando, dando opinião. Mamãe costumava dizer que em tudo precisávamos ter discernimento. Analisar para evitar erros. - Eu me lembro. Ela dizia que os olhos de Deus estavam sempre nos observando, conhecendo nossos pensamentos mais íntimos. Durante anos me senti como você, dividida entre o certo e o errado, entre o bem e o mal, entre a crítica e a aprovação. - Então pode entender como me sinto. - Entendo e sei que essa maneira de pensar impede nosso progresso como pessoa, apaga nossa luz natural, anula a ousadia, a criatividade, e nos transforma em pobres prisioneiros de nosso próprio juiz. Um juiz severo que a pretexto de evitar erros e sofrimentos futuros nos deixa parados no tempo, fracos e sem coragem de viver. - Você me assusta. - Mas é verdade. Eu era assim como você, hoje mudei. Alberto abriu-me os olhos. Por isso me maravilhei quando li seus livros. 306 Eles me libertaram dessa prisão. A vida é muito diferente dos acanhados e limitantes conceitos que nos ensinaram na infância. - É, você mudou! Seus olhos brilham, vem de você uma alegria gostosa e uma calma que me encanta. Sua mudança foi como um milagre. Você renasceu! - Sou feliz. A felicidade é uma bênção. Sei que você também pode transformar sua vida para melhor. Dá para notar que você, apesar de ser mais velha que eu, ser mãe e haver experimentado coisas que nunca experimentei, continua presa às regras aprendidas. Desconhece sua verdadeira natureza e o manancial de forças que estão adormecidas dentro de você. - Gostaria muito de começar a aprender. Acha que posso? - Claro. Vou emprestar-lhe um dos livros de Alberto. Fará a você o mesmo bem que me fez. Mostrará com clareza tudo que já pode saber sobre si mesma. - Lerei com atenção. - Não basta ler com atenção, é preciso questionar os conceitos, experimentar. Você se surpreenderá com os resultados. Enquanto elas conversavam no quarto, Norberto já havia descido e estava na sala com Alberto. Apesar de haver mantido contato à distância, era a primeira vez que se encontravam depois que eles havia se mudado para a capital. Agora, depois do tempo decorrido, Norberto se sentia um pouco tenso tendo de enfrentar novamente o antigo problema que tanto o perturbara. Bastou um olhar para perceber o quanto Liana mudara. Estava radiante. Não teve mais dúvida de que ela encontrara o amor. Enquanto esperavam, ele e Alberto conversaram sobre outros assuntos, mas nenhum dos dois conseguia deixar de pensar no passado. Apesar da tensão, uma coisa estava clara para Norberto. Ele se sentia aliviado com o rumo que os acontecimentos haviam tomado. A única coisa que ainda o incomodava era o receio de voltar a sentir a atração pela cunhada e o ciúme que tanto o perturbara. Estava inseguro, com medo da própria reação. Elas desceram sorridentes e alegres, e a conversa fluiu com naturalidade. As crianças estavam entusiasmadas e o jantar decorreu agradável. Eles foram para a sala tomar café e as crianças subiram para o quarto. Passava das dez quando Liana e Alberto se despediram. Depois que eles saíram, Eulália ficou pensativa. 307 - O que foi? - indagou Norberto. - Estava pensando em Liana. Estou contente com a melhora dela. - De fato. Ela voltou a ser como antigamente. - Está melhor do que antes, muito melhor. Irradia felicidade. Norberto sorriu bem-disposto ao perceber que a felicidade de Liana e Alberto não o incomodava. Ao contrário, dava-lhe uma sensação de alívio, de liberdade. Um pensamento de euforia passou em sua mente. Estaria curado daquela insana paixão? Teria vencido para sempre aquela fraqueza? Ainda era cedo para dizer, mas ele começava já a acreditar que havia conseguido. Disse apenas: - Alberto era o marido certo para ela. - Tem razão. Lamento ter demorado para descobrir isso. - Cada pessoa tem o direito de decidir e escolher o próprio caminho. Nosso erro foi querer decidir por ela. - Fui criada assim. Achava que os mais velhos têm mais experiência e por isso podem intervir para ajudar a felicidade dos filhos. Como mais velha, habituei-me a ver Liana como uma filha. Hoje percebi o quanto estava errada. - Por que hoje? - Porque conversando com ela aprendi algumas coisas. Ela está mais amadurecida, mais segura de si mesma. Gostaria de ter a mesma clareza de idéias que ela tem. - Não diga isso, Eulália. Você é uma mulher inteligente, lúcida, prática, segura. Tem me ajudado até nos negócios. Ela levantou para ele os olhos, que tinham um brilho diferente quando respondeu: - Falar, elaborar teorias e idéias nunca foi difícil. Mas olhar para dentro de mim e me situar, saber como eu sou de verdade, nunca me pareceu tão difícil. - Tenho notado que você tem mudado. Eu também mudei. O tempo passa e nós amadurecemos. Houve um tempo em que eu também não sabia analisar meus sentimentos. Esse tempo passou. Agora já me conheço melhor e sei o que desejo da vida. - Claro que eu desejo a felicidade de nossa família, mas eu, pessoa, às vezes me sinto incapaz de escolher, sabe, pequenas coisas. De sentir prazer com elas ou de não gostar e dizer não. Parece uma coisa boba, difícil de explicar, mas que ultimamente vem me incomodando. Tenho a sensação de que a vida está passando e estou perdendo alguma coisa importante. 308 - Já me senti assim. Parece que a sensibilidade desaparece. É como se fôssemos um boneco sem sentimentos passando pela vida, obedecendo às regras estabelecidas. Ela se levantou: - Vamos subir. Quero ver se as crianças já se deitaram. Se deixar, eles ficam conversando até tarde. Norberto aproximou-se dela e passou o braço sobre seus ombros com naturalidade. Ele não tinha o hábito de abraçá-Ia dessa forma. Eulália estremeceu. Foram subindo as escadas abraçados e conversando. Ela sentia a proximidade, e o calor que vinha dele acelerava as batidas de seu coração. Teve medo. Sentiu vontade de esquivar-se, porém lembrou-se das palavras de Liana e controlou-se. Parou no quarto de Eurico e conforme previra os três estavam juntos na mesma cama conversando animadamente. - Está na hora de dormir. Vamos. Amanhã vocês têm todo o tempo livre para brincar. A custo conseguiu que obedecessem. Quando viu cada um em seu quarto, foi ter com Norberto. A sensação de momentos antes perturbava-a. E se ele a abraçasse de novo, o que faria? Ele já havia vestido o pijama e preparava-se para deitar. Silenciosamente, Eulália procurou sua camisola e foi ao banheiro para se trocar. Ela nunca tirava a roupa na frente do marido. Quando voltou, ele já se havia deitado. Ela se deitou e, vendo que ele não apagava a luz do abajur, perguntou: - O que foi, está sem sono? - Estou pensando no que conversamos. Você tem razão. - Em quê? - Na dificuldade de discernir nossas emoções. É que elas muitas vezes fogem completamente ao que esperávamos. - Explique melhor. - Nós formamos opinião dizendo que diante deste ou daquele fato faríamos isto ou aquilo. Aí acontece alguma coisa e agimos muito diferentemente do que havíamos pensado. Quando acontece, dá para notar o quanto ainda ignoramos a nosso respeito. Eulália suspirou conformada: - Ainda bem que não sou apenas eu quem se sente assim. Liana vai emprestar-me um livro de Alberto. Disse que ele é especialista em comportamento e que ela aprendeu muito com ele. 309 - O que não me surpreende. Lembra-se como ele conseguiu que as crianças tomassem gosto com os estudos? Acho que vou ler também. Vamos dormir. Boa noite. - Boa noite - respondeu ela, satisfeita com o que ele dissera. Norberto apagou a luz e acomodou-se virando de lado para dormir. Eulália, sentindo o calor que vinha do corpo dele, teve vontade de encostar-se, de abraçá-Io, mas não se moveu. Ficou ali, do lado, sentindo esse desejo, lutando para conter-se até que, cansada, virou-se para o outro lado e conseguiu finalmente adormecer. 310 Capitulo 22 Eulália queria que Liana e Alberto fossem almoçar todos os dias com eles para passarem juntos o maior espaço de tempo. Eles aceitaram ir no dia seguinte e no domingo, quando teriam também a companhia do Dr. Marcílio e de Adélia. No domingo, Norberto acordou alegre, bem-disposto, interessando-se até pelas brincadeiras das crianças, entretendo-se com eles como nunca fizera. Apesar de ser um pai responsável e dedicado, habitualmente era formal com os filhos. Fora criado com disciplina. Na casa de seus pais as crianças não podiam conversar durante as refeições e ninguém lhes dirigia a palavra, a não ser o mínimo indispensável. Seu pai chamava isso de respeito. Para ele, criança não tinha querer nem opinião. Qualquer manifestação de vontade era considerada rebeldia. Por isso, a figura do pai para Norberto era sisuda, séria, disciplinar. Jamais participava das brincadeiras com os filhos. Conversava pouco com eles e deixava para Eulália participar mais da vida deles. Essa era a parte da mulher. Ela podia transigir algumas vezes, mas ele não. Tinha de manter o respeito e a disciplina em família. Eulália, vendo-o conversar animadamente com Alberto e as crianças no caramanchão, interessando-se pela opinião delas, trocando idéias, participando, surpreendeu-se muito. Comentou com Liana: - Norberto está mudado. Veja como ele conversa com as crianças. Está até brincando com elas. - É que a alegria deles é contagiante. Alberto adora entreter-se com eles. Norberto está descobrindo esse prazer. - Sabe que é verdade? Às vezes eles também me surpreendem. Falam cada coisa. Bom, com Nico não estranho. Esse menino sempre foi assim, inteligente, criativo. Mas Eurico você nem imagina. Está cada dia mais surpreendente. - Ele agora está bem e começando a revelar sua verdadeira personalidade. Vocês ainda vão se orgulhar dele. Alberto sempre diz isso. Um brilho de prazer passou pelos olhos de Eulália: - Eurico está curado. Esse foi o maior presente que a vida me deu. O médico chegou com a esposa e eles os receberam com alegria. A conversa fluiu agradável. 311 Depois do almoço foram conversar no caramanchão. Uma brisa fresca soprava, apesar do sol de verão. As crianças brincavam do lado de fora. De repente, Liana levantou-se e foi até a entrada do caramanchão. Alberto notou que ela empalidecera. Imediatamente foi ter com ela, indagando: - O que foi? Não se sente bem? - Fiquei tonta e pensei que fosse desmaiar. - Dr. Marcílio, Liana não está bem... O médico levantou-se e tomou-lhe o pulso. - Está passando. Acho que foi o calor... - disse ela. - Você está pálida - tomou Eulália, preocupada. - Vamos entrar - propôs o médico. - Quero examiná-Ia. As crianças haviam se aproximado, e Eurico disse assustado: - Ele voltou! A alma do coronel voltou! É ele quem está ao lado dela! Eulália empalideceu. Norberto sobressaltou-se. Liana olhou para o médico aterrorizada. - Calma - pediu ele. - Não há o que temer. Vamos lá para dentro. Uma vez na sala, Marcílio examinou Liana cuidadosamente e disse: - Ela não tem nada. Está tudo bem. - Mas e o coronel? - indagou Eulália, inquieta. - Acalme-se. Ele não nos pode fazer mal. Chame as crianças, por favor. Os três estavam do lado de fora da porta tentando ouvir o que se passava lá dentro. Eurico dizia: - Eu vi. Era ele de novo! O que vamos fazer agora? - Calma, Eurico. Ele não vai fazer nada. Calma. Assim que Alberto abriu a porta, eles entraram. Marcílio, dirigindo-se a Eurico, perguntou: - Você viu o coronel Firmino? - Vi, doutor. Ele ainda está aí, ao lado dela. - Vamos descobrir o que ele deseja. Enquanto conversamos com ele, vocês procurem nos ajudar fazendo uma oração. Vendo que eles fechavam os olhos e rezavam, Marcílio disse: - Coronel Firmino, por que você voltou? - Ele está triste - disse Eurico. - Acho até que está com medo. - Ele está diferente do que era? - Sim. Não me olha mais com raiva. Parece pedir alguma coisa. 312 - Estamos aqui, coronel Firmino. Pode falar. Por que voltou? - Ele disse que foi para pedir perdão. Está arrependido de tudo que fez. Precisa muito do perdão de tia Liana. - Se ela o perdoar, ele irá embora? - tornou o médico. - Vou repetir as palavras dele: "Depende". - Do quê? - De ela me perdoar de coração e não para se ver livre de mim. - E você, Liana, o que diz? - tornou Marcílio. - Sente-se capaz de perdoar? - Sim - respondeu ela. - Quero esquecer. Não lhe desejo mal. Quero que me deixe em paz. - Eu preciso de mais. Todas as portas se fecharam para mim. Ninguém mais quer me ajudar. Apesar de tudo que eu fiz e de você haver me rejeitado a vida inteira, ainda a amo. Reconheço meus erros, sofro muito por saber que nunca poderá ser minha esposa outra vez. Seu destino é outro. Mas apesar disso quero provar que estou mudado. Tenho aprendido muito. Por favor, não me negue a oportunidade que lhe peço. - Ela disse que o perdoa - interveio Marcílio. - O que mais quer? - Preciso voltar! Quero nascer! Por favor, Liana, não feche a porta de seu coração para mim. Você foi mãe amorosa, cuidou de nossa filha com carinho. Já que não posso ter você como mulher, acolha-me em seu coração e permita que seja seu filho! Grande emoção acometeu os presentes e Eurico disse com voz embargada: - Aquela senhora veio e o levou! Ele já foi embora. Marcílio fez comovida prece de agradecimento. Quando se calou, Liana soluçava nos braços de Alberto, as crianças tinham lágrimas nos olhos, Eulália e Norberto entreolhavam-se admirados. A segurança de Eurico transmitindo as palavras do coronel Firmino, o assunto inesperado, deixou-os emudecidos. Marcílio disse sério: - O espírito do coronel Firmino deseja uma oportunidade para reencarnar. Compete aos futuros pais decidirem. - Liana é quem vai decidir. De minha parte, não faço objeção. - Apesar do que ele disse, ainda sinto medo. Como conviver com ele se sua proximidade já me fez mal? Como tê-Io a meu lado, unido a mim gerando um corpo em minhas entranhas se a simples lembrança de seu nome me aterroriza? Eurico aproximou-se de Liana, colocando a mão em seu braço: 313 - Tia, posso falar? - Fale. - Eu também sentia muito medo dele. Mas hoje, quando vi como está mudado, triste, senti pena. Está abatido, eu queria que você o tivesse visto. Nem parece o mesmo. Estava com os olhos cheios de lágrimas. Ele mudou, tia, mudou muito. - Ele tomou consciência da verdade. Arrependeu-se. Apesar disso, é você quem precisa decidir se concorda ou não em tê-lo como filho - esclareceu Marcílio. Liana olhou-o indecisa: - Não precisa resolver nada agora. Reflita, ouça seu coração e decida. - O senhor não acha arriscado ela o ter como filho sabendo de seu temperamento, das coisas que ele fez no passado? - Se ela se sentir capaz de recebê-lo como um necessitado que precisa de ajuda e o amar de verdade, esquecendo o passado, ajudando-o em sua reeducação, passando-lhe os verdadeiros valores do espírito que ela já possui, só terá a ganhar. Porém, se não conseguir perdoar de verdade, esquecer a multidão dos pecados que ele cometeu, então será melhor adiar esse reajuste para quando se sentir mais forte. - Da forma como fala, doutor, o senhor acredita que a união entre eles será inevitável. Hoje ela poderá protelar mas um dia terá de acontecer. É isso? - interveio Norberto. - Os relacionamentos inacabados sempre voltam para que os laços de ligação se desfaçam e os envolvidos se libertem. - Quer dizer que apesar de ele ter ido embora, de certa forma seu espírito continua ligado a ela. Nesse caso - reconheceu Alberto -, será melhor enfrentar logo do que protelar. - Enfrentar os medos é o caminho dos vencedores. Pense, Liana. Sinta seu coração. Não se obrigue a fazer nada, mas fique atenta a seus sentimentos. Estou certo de que saberá escolher o melhor a fazer agora - esclareceu o médico. Eulália abraçou o filho, dizendo comovida: - Meu filho! Você viu a alma do coronel, conversou com ele! Portou-se como um homem. Muitos não teriam sua coragem. - Graças a ele pudemos mais uma vez contribuir para a harmonização desta família. Então, Liana, sente-se melhor? - Sim, doutor. Estou bem. Só um pouco assustada. Pensei que nunca mais teria esses achaques. 314 - Amanhã vá a meu consultório. Desejo fazer alguns exames. - Irei, pode esperar. Eulália mandou servir um café com bolo e as crianças foram à copa tomar um lanche. Eurico estava pensativo. Amelinha tomou: - O que foi agora? Você ficou quieto de repente. Está vendo alguma coisa? - Não. Estou pensando. - No quê? - No que o coronel disse. - Ele quer nascer outra vez - esclareceu Nico. - E o pior é que ele quer ser nosso primo. Já pensou? É isso que está me preocupando. - Ele vai ser criança de novo? - indagou Amelinha. - Claro. Você sabe o que é reencarnação - disse Eurico e continuou: - Ele vai dar trabalho, vai querer mandar em tudo. - Bobagem, Eurico. Nós é que vamos mandar nele. Somos mais velhos. Quando ele tiver nossa idade, já seremos adultos, e as crianças precisam obedecer aos mais velhos. Não é isso que nos ensinam todos os dias? - É mesmo! Vai ser divertido nós mandarmos nele - concordou Amelinha. - Bom, pensando bem, nós não podemos fazer isso. Os pais é que vão ter que mandar nele. Os primos e os amigos não. Depois, ele vai nascer e esquecer o passado. Não vai saber quem nós somos. Lembra que o professor ensinou que quando reencarnamos nos esquecemos de tudo? - É mesmo! Eu não lembro nada de minha encarnação anterior concordou Eurico. - Nem eu - concluiu Amelinha. - Em todo caso, é bom saber que quando ele tiver nossa idade já seremos adultos, e ele, mesmo que queira ser mandão, não vai poder fazer nada - afirmou Nico, satisfeito. - Será que tia Liana vai concordar em ser a mãe dele? - indagou Amelinha. - Eu não aceitaria. - Eu tinha medo dele, mas agora não tenho mais - tomou Eurico. - Você fala, mas quando ele apareceu ficou tremendo - lembrou Amelinha. - Fiquei, mas não foi de medo. É que quando vejo uma alma do outro mundo me dá arrepio. Até com aquela senhora bonita eu sinto isso. Eu me alegro quando a vejo, mas me arrepio. - Você ficou com pena do coronel - observou Nico. 315 - Fiquei, sim. Ele me olhou pedindo ajuda. Estava acabrunhado, humilde, ele mudou muito. Pensando bem, acho até que, se ele nascer, não vai querer mais mandar em ninguém. - Não sei, não, Eurico. Se ele vai esquecer o passado, pode esquecer também por que tudo deu errado em sua vida e começar de novo ajuntou Nico. - Vamos perguntar ao professor o que ele pensa de tudo isso - sugeriu Eurico, ao que Nico respondeu: - É bom, mas vamos deixar para quando ele vier conversar conosco. Ele está cuidando da Liana. Apesar de sentir-se melhor, Liana não conseguia esconder a preocupação. Alberto, atencioso, cercava-a de carinho, e os demais não tocaram mais no assunto, porém todos se sentiam um tanto inquietos. Só o Dr. Marcílio e Adélia se sentiam serenos e, compreendendo o que se passava com os amigos, contavam casos alegres procurando aliviar-lhes a tensão. À noite, quando Liana voltou para casa, foi logo dizendo: - Convidei-os para vir almoçar aqui amanhã. Não me sinto com coragem de voltar àquela casa. - Você está nervosa. Vai passar. - Eu estava muito bem. Foi só começar a ir lá que o espírito do coronel Firmino voltou. Acho até que ele nunca saiu de lá! - Não foi isso que o Dr. Marcílio falou. Depois, Eurico constatou que ele está mudado. Não deseja mais obrigá-Ia a nada. Não precisa ter medo. - Sempre desejei ter filhos, mas agora não quero mais. Só em pensar que ele ficaria muito tempo ligado a mim, fico toda arrepiada. Não posso. Não estou pronta. Não quero. - Está bem. Faremos como você decidir. Se não quer, não teremos filhos e pronto. O que eu desejo é vê-Ia feliz. Vamos esquecer esta história. - Dr. Marcílio disse que posso escolher. Já escolhi. - Tudo bem. Acho que devemos tomar nosso chá e retomarmos nossa paz. Alberto foi à cozinha, esquentou a água, preparou tudo e chamou-a. Liana sentou-se à sua frente em silêncio. Alberto serviu-a e tentou conversar. Porém Liana não estava prestando atenção ao que ele dizia. A certa altura, rompeu em soluços e Alberto levantou-se, abraçando-a preocupado: - O que foi, Liana? 316 - Estou sendo vingativa, maldosa. Ele pediu perdão e eu perdoei, mas estou me sentindo culpada. Não foi de coração. - Por que se atormenta dessa forma? Sei que, apesar do que ele fez, você não lhe deseja nenhum mal. Mas tem o direito de preservar sua intimidade se sua presença lhe é penosa. Você ainda não superou o medo que sente dele. - Mas ele disse que eu sou a única porta para que possa nascer. Terei o direito de fechá-Ia? - Seu compromisso maior é com o próprio bem-estar. De nada valerá aceitar uma situação e fazer dela um inferno para ambos. Marcílio foi bem claro. Precisa consultar seu coração e aceitar a incumbência se perceber que pode desempenhá-Ia com serenidade. Enquanto sentir medo, horror à simples presença do coronel, não conseguirá ajudá-Io e com certeza estará infelicitando-se também. - Eu queria que ele me esquecesse, que nunca mais me procurasse. Que fosse feliz longe de mim. Alberto passou a mão carinhosamente pelos cabelos de Liana, acariciando-a: - Ele a ama. À sua maneira, é verdade, mas ama. Essa talvez seja a única porta para abrir o coração dele e fazê-Io mudar. O amor tem muita força. Talvez seja por isso que.a vida o esteja colocando novamente em nosso caminho. - Eu gostaria de poder fazer isso, mas está muito difícil. - Você não tem de resolver nada agora. Vamos dar tempo ao tempo. Não quero que adoeça novamente. Eu estou aqui e a amo mais que tudo no mundo. Depois, lembre-se que, quando não podemos resolver alguma coisa, Deus pode. Entregue o assunto nas mãos dele e acalme seu coração. Tenho certeza de que a vida já tem uma boa solução para o problema. Vamos guardar serenidade e esperar que ela se manifeste. Liana abraçou-o um tanto aliviada. - Bendita hora em que você apareceu em minha vida! Ele riu bem-humorado e retrucou: - Eu não disse que a vida faz tudo certo? Juntou-nos para sermos felizes. Não acha que merece um crédito de confiança? Liana assentiu e sorriu. A crise havia passado. Mas no fundo ambos sabiam que, quando fosse o momento, o assunto voltaria e teriam de decidir. Nos dias que se seguiram, Liana não quis voltar à mansão. Eulália estava inconformada. 317 - Liana, pensei que íamos ficar juntas todos os dias e aproveitar esses momentos. Compreendo o que aconteceu, mas não é bom você alimentar esse medo de ir à nossa casa. - Foi lá que ele apareceu de novo - justificou-se ela. - Pelo que tenho aprendido nos livros, os espíritos podem ir a toda parte. Ele pode estar aqui sem que nós saibamos. - Não diga isso. Se ele estivesse, eu sentiria. Depois, Eurico teria visto. Ele gosta é de ficar lá, e eu não desejo encontrá-la. À noite, reuniram-se na casa de Marcílio para a sessão costumeira, e Eulália voltou ao assunto: - Dr. Marcílio, Liana não quer mais ir à minha casa com medo do coronel Firmino. Não acho que seja uma boa atitude. Afinal nós estamos lá todo o tempo, inclusive Eurico, a quem ele costumava perturbar, e ele não tem aparecido. - Se eu for, ele pode voltar. - Você sabe que o coronel Firmino mudou. Sofreu. Arrependeu-se. Aprendeu. Tornou-se mais humilde. Já não é mais violento e aproximou-se para lhe dizer isso. Não creio que sua presença possa fazer-lhe mal. - Mas eu me sinto. Pensei que fosse desfalecer quando se aproximou de mim. - O que está lhe fazendo mal não é a presença do espírito do coronel mas as lembranças desagradáveis que ele desperta em você. Apesar do tempo decorrido, de haver esquecido detalhes de sua vida passada, as energias acumuladas naqueles dias ainda estão aí provocando desequilíbrio e dor. Você também aprendeu, sofreu, está agora desfrutando de uma ótima oportunidade de progresso, mas esses bloqueios energéticos a impedem de alcançar o equilíbrio. Por isso a vida está lhe trazendo a chance de limpar esses resíduos e libertar-se para poder progredir. - Poderia explicar melhor, doutor? - pediu Liana. - Quando você foi esposa de Firmino, ele foi violento, arrogante impiedoso. Era sua maneira de ser na época. Você talvez pudesse ter escapado, como fez sua filha, mas, seja pelo que for, não o fez. Ele a dominava pela força física, então você, sentindo-se impotente diante dele, acovardou-se, não assumiu a própria força. - Como poderia? Ele era mais forte... - Não falo da força física, mas da força interior que com certeza a faria encontrar uma forma de escapar. Você se acovardou, colocou-se na postura de vítima indefesa, alimentando o ódio como única forma de vingança. 318 Não era ódio, mas mágoa. - Se não fosse ódio, não estaria agora vivenciando essa experiência. Reconheça isso, mas não se culpe. Você reagiu como sabia naquela época. Precisa saber que os pensamentos cultivados durante certo tempo, aos quais damos força, nos quais colocamos grande dose de emoção, tomam forma, materializam-se no mundo astral. Ficam colados em nosso corpo astral e interferem em nosso dia-a-dia. - Está falando das formas-pensamentos? - indagou Norberto com interesse. - Isso mesmo. Nas sessões espíritas, muitas vezes os médiuns julgam estar incorporando espíritos de pessoas desencarnadas que perturbam os presentes, mas estão recebendo apenas as formas-pensamentos dessas pessoas. - Como podemos perceber quando isso acontece? - perguntou Eulália. - Se prestar atenção, perceberá a diferença. Um espírito desencarnado reage diferentemente. Tem mais personalidade. As formas-pensamentos revelam problemas emocionais armazenados durante certo tempo. São resistentes e repetitivas. - Interessante - tomou Alberto. - Nesse caso, um bom psicólogo também pode ajudar. - Pode, e a recíproca é verdadeira. Quantas vezes o psicólogo acredita estar trabalhando no paciente seus problemas emocionais e está doutrinando um espírito? Nenhum profissional das áreas humanas pode ser eficiente se desconhecer essas variáveis, porque elas interferem no processo. - É o meu caso? - indagou Liana. - É. A causa de seu mal-estar está em você, não na presença do espírito do coronel Firmino. Ele pode evoluir, ficar muito bem, espiritualizar-se, mas, se você não acabar com essas formas-pensamentos, sempre se sentirá mal com a presença dele. - Mas eu não desejo conservar essas lembranças. Quero esquecer. - Você deseja, mas continua a alimentá-Ias, ainda que inconscientemente. - Não. Eu não as alimento. - Você se sentia agredida. Ao invés de reagir e libertar-se, cultivou o medo, e é ele que ainda as está alimentando. Sempre que o coronel Firmino se aproxima, o medo reaparece tal qual era naqueles tempos, reforçando as formas-pensamentos que criou. No momento em que enfrentar o passado, vencer esse medo que a paralisa, você as estará destruindo para sempre, libertando-se. 319 Então poderá olhar para o passado sem se sentir mal e para Firmino sem ódio. Liana, pensativa, baixou a cabeça por alguns instantes, depois disse: - Eu não sinto que o odeio. Só desejo livrar-me dele. Não haverá outra maneira de fazer isso? - Não. Ele já foi embora, mas você ainda está presa a ele. - É injusto. Se tudo isso aconteceu mesmo, eu fui a vítima. Não deveria ser punida duas vezes. - Você se engana, Liana. Ninguém é vítima. Se a vida a colocou ao lado de um marido déspota e cruel, foi porque você precisava dessa experiência. - Para quê? Só consegui sofrer e carregar até hoje esse peso. - Você colheu os resultados de suas atitudes. Foi o melhor que conseguiu fazer naquele momento. Entretanto, a vida é perfeita e não joga para perder. Se ela a colocou ao lado de um homem como Firmino, foi porque você já tinha elementos não só para enfrentá-Io, mas também para ajudá-Io a tomar-se mais humano, puxando para fora seu lado melhor. Entretanto tal não aconteceu. Você se acovardou, não usou todo o seu poder interior, não acreditou na própria força. Por isso o relacionamento entre vocês continua inacabado. Ainda há muitas coisas que um pode ensinar ao outro até que se libertem. O mais importante agora é que você pense em tudo que conversamos. Faça mais: peça a ajuda de Deus para que consiga ver claro e decidir. - É o que farei. Alberto me ajudará, estou certa. Ele a abraçou com carinho, beijando-a na face. - Pode contar comigo. Estarei sempre a seu lado. - Lembre-se que essas formas-pensamentos que você criou impedem que possa discernir com lucidez. Firmino mudou, mas você continua vendo-o como ele foi naquele tempo. Quando se livrar delas, conseguirá vê-Io como ele é agora e tomar uma decisão mais clara. Vamos nos acomodar, está na hora de nossa reunião. Sentaram-se ao redor da mesa orando em silêncio. Marcílio fez uma oração comovida e depois disse: - Hoje não vamos fazer os estudos de costume. Nossos amigos espirituais já estão presentes. Na penumbra da sala iluminada apenas por suave luz azul, eles permaneceram em silêncio por alguns instantes. Depois, um dos presentes remexeu-se na cadeira inquieto e começou a falar: - Hoje eu vim com a permissão dos amigos que estão me ajudando nesta casa. 320 Por isso peço que me escutem. É difícil encarar a verdade. Há momentos em que minha cabeça roda e tudo se embaralha de tal sorte que tenho receio de enlouquecer. Estou doente. Meu corpo está desgovernado e há momentos em que não consigo controlá-Io. Então, sinto-me inquieto. Vejo-me novamente em minha casa com minha família, sinto seu desprezo, Mariquita, e isso me fere fundo. Eu a amei desde o dia em que a vi. Em meu desespero, sinto medo de perdê-Ia e novamente a amarro no leito à noite para que não escape. Você chorava e me punia com seu ódio e eu sofria. E quanto mais sofria, quanto mais a dor me atormentava, mais eu a fazia sofrer, porque não era justo que eu, que desejava dar-lhe todo o meu amor, fosse tão machucado. Ele interrompeu o discurso, porquanto os soluços o impediam de continuar. Depois de alguns-instantes ele prosseguiu: - Mas tudo que fiz foi doloroso e inútil. Atormentou você, aumentou meu sofrimento, mergulhei na loucura. Passei anos dementado circulando pela casa que foi nossa, vendo-a em todos os cantos, sofrida e odiando-me cada vez mais. Às vezes, quando tinha momentos de lucidez, sentia sua falta, sabia que havíamos morrido, mas ficava ali, na esperança de que um dia você reaparecesse. Sempre ouvi dizer que quem morre descansa. Comigo não foi assim. Descobri que continuava vivo depois de meu corpo haver sido roído pelos vermes e que os sofrimentos continuavam. Estou falando isso não para que você sinta pena de mim, mas para que possa saber que estou pagando caro por meus erros. Quando você reapareceu em nossa casa, exultei. Tentei conversar, mas você não me ouvia. Com você, todos os outros vieram e me enfrentaram, apesar de estarem em um corpo de criança ainda. Eu não sabia bem o que estava acontecendo. Acreditava que todos se haviam disfarçado em outros corpos para poderem se vingar. Havia momentos em que eu mergulhava no passado e acreditava que ainda estávamos vivendo naqueles tempos. Quando minha loucura estava no máximo, minha mãe aparecia, falava comigo e me acalmava. Eu dormia algum tempo, mas, quando acordava, o inferno recomeçava. Depois que resolvi aceitar a ajuda que me ofereceram, fui recolhido a um hospital, e lá tenho sido tratado com consideração e carinho. Entretanto, meu tormento continua. Minha loucura reaparece e perco a noção da realidade. Quando o tratamento que recebo me tira desse estado e tenho como agora momentos de lucidez, sou orientado e procuro obedecer. Quero melhorar, sair desse estado de dependência mental que criei. Não culpo mais ninguém pelo que estou passando. 321 Sei que a responsabilidade é só minha. Eu escolhi esse caminho e desequilibrei minha vida. Disseram-me que só a reencarnação pode abreviar esse tormento, oferecendo-me um corpo novo, um cérebro virgem para registrar e aprender novos valores para quando eu, aos doze ou treze anos, reassumir de todo minha personalidade anterior, já tenha desenvolvido elementos para reagir de outra forma aos desafios que a vida vai me trazer. Firmino fez ligeira pausa, depois prosseguiu: - Terei uma boa chance se você, Mariquita, me aceitar como seu filho. Sei que desfruta agora de uma vida feliz e mais equilibrada ao lado de quem você ama. Eu mudei. Reconheço que não posso mandar em seu coração. Se me aceitarem, serei muito agradecido. Minha maior felicidade será apagar o mal que lhe fiz e conseguir sua estima. Agora preciso ir. Já abusei demais da bondade de vocês. Eu lhe peço: me dê a chance de voltar para aprender. As lágrimas desciam pelas faces de Liana e ela estremecia de vez em quando, tentando conter os soluços que teimavam em querer sair. No mesmo instante uma senhora ao redor da mesa começou a falar: - Boa noite, amigos. Vim agradecer de coração toda a ajuda que temos recebido. Gostaria de esclarecer algumas coisas com relação ao que está se passando aqui. - Pode falar - disse Marcílio. - Todos desejamos aprender. Ela continuou: - Firmino, como tantas pessoas ainda pensam, acreditava que a morte fosse o eterno descanso ou o eterno tormento no inferno. Posso adiantar que não é nem uma coisa nem outra. O progresso, a conquista da sabedoria trazem a serenidade e é ela quem leva à conquista de um estado de paz interior que muitos chamam de estado de graça, de elevação espiritual. Só alguns já alcançaram esse bem-estar; para a maioria, o estado de tormento é o mais comum. A morte do corpo muda o cenário externo e torna mais vivo o mundo interior. Entretanto, o mais importante e que poucos sabem é que tanto um quanto outro estado de espírito é criado pela própria pessoa. Suas atitudes, suas crenças, sua maneira de olhar os fatos do dia-a-dia, à medida que vão se tornando importantes para a pessoa, vão sendo materializadas em seu mundo mental, criando formas que têm vida astral e conservam as emoções e idéias que as caracterizam. Damos a isso o nome de formas-pensamentos. Todas as pessoas que vivem no mundo as têm alimentado e a maioria infelizmente tornou-se prisioneira delas. 322 São responsáveis por muitos desacertos humanos, e depois da morte do corpo elas continuam a atormentar seu criador, que muitas vezes consome larga cota de tempo no umbral, lutando com elas, acreditando que sejam seres astrais, sem saber que está em suas mãos modificá-Ias, substituindo-as por outras mais otimistas, melhorando sua qualidade de vida. Por isso aconselhamos os exercícios de pensamentos positivos, os bons pensamentos e a crença no bem maior. Essa é a causa da loucura de Firmino. Ele criou, alimentou tantas ilusões, e agora vive prisioneiro delas. Já sabe a verdade, mas ainda não consegue fazer a mudança. O medo é um elemento destrutivo e muito forte que o impede de libertar-se. Devo esclarecer que essas formas estão materializadas no mundo astral e precisam ser desfeitas. Só a própria pessoa pode fazer isso. Claro que nossos terapeutas ajudam e nossos benfeitores espirituais cooperam mandando energias de sustentação e auxílio. Mas é só o que podem fazer. Cada um precisa aprender a lidar com as energias e descobrir como a vida funciona. Por isso ninguém faz a parte que lhe cabe. Apenas ajudam, esperando que a própria pessoa a faça. Está na hora de falarmos sobre isso. Agora tenho de ir. Se tiverem alguma pergunta, na próxima reunião tragam-na, que procuraremos responder. Até breve. Marcílio fez ligeira prece de agradecimento e encerrou a sessão. Enquanto tomavam seu copo com água, os presentes comentavam com interesse os ensinamentos. Havia muita curiosidade. Já tinham ouvido falar das formas-pensamentos, mas não sabiam que podiam ser tão importantes e que influenciavam tanto a vida de cada um. Liana estava calada e pensativa. As palavras de Firmino haviam-na impressionado muito. Teria sido ele mesmo quem falara? Parecia-lhe tão diferente do Firmino que ela conhecia, sempre ameaçador e agressivo. Comentou com Marcílio: - Foi o espírito do coronel Firmino que se comunicou mesmo? O senhor o viu? - Sim. Foi ele. Qual é a dúvida? - É que ele veio tão humilde, diferente. Não se parece nada com o coronel que conhecemos. - Com o coronel que você tem em sua mente - esclareceu Marcílio. - Pense em tudo quanto ouviu esta noite. Ele mudou, mas você ainda o vê como ele era. Sua reação é esclarecedora. Fique atenta e vai perceber o que está acontecendo. Liana calou-se. Depois do café com bolo costumeiro, despediram-se. 323 Enquanto Eulália e Norberto conversavam sobre as revelações e os ensinamentos daquela noite, Liana seguiu com o marido para casa, calada. Alberto, por sua vez, impressionado com tudo que ouvira, não sentia vontade de comentar. Queria observar melhor, experimentar, saber o que havia de verdade em tudo aquilo. Capítulo 23 O tempo correu rápido e as férias da família estavam terminando. Encorajada pelo marido e por Eulália, Liana voltou a freqüentar a mansão. A princípio temerosa, mas notando que nada de novo acontecia, foi ficando mais à vontade. Havia também Norberto, cuja atitude para com ela se modificara inteiramente. Nunca mais o surpreendeu olhando-a como antigamente. Tratava-a com respeito e amizade, e ela notava com satisfação que ele estava se dedicando mais à esposa e aos filhos, interessando-se mais em participar da vida familiar. Contente, comentou com Alberto, que concordou: - Tenho observado também que Eulália mudou bastante. Eles conversam muito mais que antes. Estão mais unidos. Notou como ele a ouve com satisfação? Troca idéias com ela até sobre seus negócios. Pelo que observei deles, não era assim antes. Não mesmo. Sempre foi atencioso, cuidou da família, mas eu sentia que entre eles havia certa distância. Talvez porque ele soubesse que Eulália se casou sem amor, apenas para obedecer aos pais. - Quero crer que muitas coisas aconteceram também por influência do coronel Firmino. - Falando assim, dá a impressão de que nós não fomos culpados. Isso não é verdade. - Cada um tem sua parcela de responsabilidade. Contudo vocês não entendiam nada sobre espiritualidade. Nem sequer acreditavam na possibilidade de serem influenciados por um espírito desencarnado. Isso fez com que ele pudesse envolvê-Ios sem ser notado, o que o colocou em vantagem. Norberto sentia-se atraído por você, Firmino aproveitava-se transferindo para ele sua paixão, deixando-o enlouquecido. Ele sentia e acreditava que esse sentimento fosse dele. - Acha mesmo que foi isso? - Acho. Ele mudou depois que Firmino foi afastado. Quer prova maior? - Tem razão. Agora percebo que o que houve entre nós foi uma grande ilusão. Felizmente consegui reagir. Tenho pensado muito nisso. A cada dia que passa fico consciente de como somos diferentes. Ele não é o tipo de homem por quem eu me apaixonaria. 325 - E eu, tenho chance de ser esse homem? Liana abraçou-o, beijando-o nos lábios com amor. - Você é exatamente o meu tipo. Alberto apertou-a nos braços, sentindo que ela estava dizendo a verdade. A cada dia, mais eles notavam o quanto se queriam. No sábado eles foram cedo para a mansão. Eulália queria passar o dia inteiro com eles. - É nosso último fim de semana aqui. Segunda-feira voltamos para São Paulo. As aulas das crianças começarão logo. Temos de preparar tudo para a volta à escola - pedira Eulália. O dia estava bonito e eles passaram momentos agradáveis. As crianças brincaram no jardim o dia inteiro. No fim da tarde, entraram contrariadas para tomar banho enquanto Hilda insistia para que se apressassem. Liana comentou contente: - Veja só, Eulália, Eurico está incansável. Estou admirada. O dia inteiro correu, brincou sem se cansar. Comeu de tudo com apetite. Olhando-o agora, não dá para acreditar que tenha sido tão doente. - Todos os dias agradeço a Deus sua cura. De vez em quando ele ainda tenta me comover fingindo-se de doente. Olho seu rosto corado, e percebo logo sua intenção. Não me deixo influenciar e ele acaba se traindo. Depois, Nico e Amelinha caçoam tanto que ele acaba rindo e acaba o mimo. O jantar decorreu alegre. As crianças recolheram-se cedo. Pretendiam aproveitar ao máximo o domingo, já que era o último dia de férias. Nico acomodou-se e dormiu logo. Acordou com Eurico sacudindo-o: - Nico! Nico! Acorde! Sonolento, ele balbuciou: - O que foi? O que aconteceu? - Ele voltou, Nico. Acorde. Mande-o ir embora. - Ele quem? O que foi? - O coronel Firmino. - De novo? Perguntou o que ele quer agora? - Eu? Não. Sem você não falo com ele. Nico sentou-se na cama: - Onde ele está? - Aqui. Olhe, nos pés de sua cama. Vou deitar com você... Ele pulou na cama e cobriu a cabeça com o lençol. - Deixe de ser medroso. Você não disse que ele está mudado e que não sentia mais medo dele? - Eu disse, mas agora estou sentindo... 326 Nico olhou para os pés da cama e, embora não visse nada, disse sério: - Por que você voltou? O que quer? Como Eurico não dissesse nada, Nico tornou: - Então, Eurico, o que foi que ele respondeu? - Ele não disse nada. Está muito triste e abatido. Parece doente. - O senhor não está bem? Nós podemos ajudar em alguma coisa? - indagou Nico. - Ele pede para rezarmos por ele. Agora aquela senhora bonita chegou. Está do lado dele e sorri para mim. - Nós vamos rezar por você, coronel Firmino. A senhora pode nos dizer alguma coisa? - Ela abraçou o coronel com carinho e disse: - Precisamos da ajuda de vocês. - O que podemos fazer? - Dar um recado meu a Liana. - Pode falar. - Ela quer que você escreva. Nico acendeu a luz do abajur, procurou papel e lápis, sentou-se na cama e descobriu a cabeça de Eurico: - Você disse que não tem medo dela. - Ela me deixa sentir muito bem. Parece que estou flutuando. Além disso, tem um perfume agradável. Está sentindo? Nico aspirou o ar e disse alegre: - Estou. Parece de jasmim. - Isso mesmo. Ela está sorrindo. É linda! Você não está vendo? - Não. Mas estou sentindo o perfume. - Escreva: "Querida Liana. Preciso muito de sua ajuda. Vou procurá-Ia durante o sono para conversarmos. Tenho certeza de que juntas venceremos. Um beijo da amiga de sempre, Amália". Eurico fez silêncio por alguns instantes, depois continuou: - Ela está abraçando você. Puxa, como ela é linda! Seu rosto parece de porcelana. Ele se calou e de repente começou a chorar. Assustado, Nico abraçou-o perguntando: - O que foi, Eurico? Por que está chorando? Ele não respondeu logo. Continuou soluçando e Nico olhava-o preocupado. Quando ele se acalmou, disse: - É que ela me abraçou, beijou a testa e eu senti uma emoção muito forte. Não sei explicar. Não consegui segurar. Nico respondeu comovido: 327 - Eu também senti. Parecia que eu estava flutuando, como você disse. Nunca senti isso antes. Puxa, que mulher! - É mesmo. Ela desapareceu e levou o coronel. Precisamos contar para tia Liana. Que horas são? - É tarde. Passa da uma. Amanhã entregamos o bilhete. É melhor irmos dormir. - Ainda me sinto flutuando. Acho que não vou conseguir dormir logo. Fiquei muito emocionado. - Eu também. Vamos ficar conversando. Quando vier o sono, você vai para sua cama e pronto. - Às vezes fico pensando: como será a vida no outro mundo? - O professor disse que há muitos mundos e cada pessoa vai para O lugar que precisa. Acho que o mundo onde vive essa mulher deve ser muito lindo, cheio de flores e perfumes. Se ela aparecer de novo, vamos perguntar como é lá. Será que ela conta? - Acho que sim. Ela parece tão boa. Dá vontade de ficar ao lado dela. - Mas você estava com medo. - Não era bem medo. É que eu começo a tremer, sinto arrepios, não sei explicar. Já o mundo do coronel deve ser triste. Ele parece tão deprimido. Está acabado. Olhos tristes, rosto abatido. Queria que você visse como ele está diferente. - Você lembra que o professor explicou que quem morre vai viver no mundo que ele mesmo fez durante a vida? Se fez muitas coisas ruins, está triste, doente, assim será o mundo em que irá viver. Se foi alegre, ficou no bem e viveu contente, viverá em um mundo onde as pessoas também são assim. - Ainda bem que eu sarei. Vou me esforçar para ser sempre alegre e ficar no bem. - Eu também. - Acha que vou conseguir? - Tenho certeza. Principalmente se deixar de fingir de doente para enganar sua mãe. Já pensou se a doença volta? - Deus me livre! Agora posso brincar, ir à escola como qualquer um. Nunca mais vou fingir de doente. Nico riu e considerou: - Veja bem o que está dizendo. Se esquecer, farei tudo para você se lembrar. Na manhã seguinte eles acordaram com Amelinha batendo na porta do quarto de Eurico: 328 - Abra a porta, Eurico. É tarde. Foi Nico quem acordou primeiro e ouviu. Eurico ainda estava em sua cama, dormindo. - Acorde, Eurico. Amelinha está chamando. Ele abriu os olhos e fechou-os novamente: - Estou com sono. Ontem custei a dormir. - Eu sei. E você nem foi para sua cama. Já pensou se a Dona Eulália souber? Trate de acordar e vá para o seu quarto. Ele se levantou contrariado, e como Amelinha insistisse, batendo em sua porta, foi abrir: - O que você quer cedo desse jeito? - Passa das nove. O dia está lindo. Hoje é nosso último dia aqui. Precisamos aproveitar. Depois, mamãe mandou chamar vocês dois. A mesa do café não pode ficar posta o dia inteiro esperando. - Está bem... eu vou. Pode ir agora. Amelinha não foi. Ficou esperando até que ele estivesse pronto para descer. Nico entrou no quarto, dizendo: - Não esqueça o bilhete para a Liana. - Que bilhete? - indagou Amelinha. - Como você é curiosa! Vai saber quando chegar a hora. - Foi um recado daquela mulher bonita que aparece com o espírito do coronel Firmino. Ela quer que entreguemos para Liana - esclareceu Nico. - Por que não me chamaram? Vocês ficaram conversando e não fiquei sabendo de nada! - Não era com você que ela queria falar. Vamos descer, que mamãe está esperando, - Vamos. Depois eu mostro a você. Eles desceram e Eulália já os esperava. - Pensei que fossem se levantar mais cedo para aproveitar o dia. O sol está alto. Acho que ficaram conversando no quarto até tarde. - Não, Dona.Eulália. Nós dormimos cedo. Estávamos cansados. É que no meio da noite recebemos visitas - respondeu Nico. Eulália olhou-os surpreendida: - Visitas? Como assim? - O coronel Firmino voltou - disse Eurico. - Por que não nos chamaram? Ele tentou algo contra vocês? Eles relataram o que havia acontecido e mostraram o bilhete que Nico escrevera para Liana. 329 Quando Liana e Alberto chegaram, eles já os esperavam no jardim para contar a novidade. Com mãos trêmulas, Liana apanhou o bilhete e leu. - Amália! É esse o nome dela! Que estranho. - Você se emocionou. Ela é sua conhecida? - indagou Alberto. - Não. Mas ao ler esse bilhete senti que ela me é muito familiar. Parece-me haver retomado alguma coisa de minha vida, mas não sei o que é. - Tudo indica que seja sua amiga de outras vidas. - Ela é tão linda! Quando ela conversar com você, verá como ela é. Além disso, tem um perfume delicioso. Nico também sentiu disse Eurico. - Senti. Parecia de jasmim. Fiquei emocionado. - Será que ela é uma santa? - indagou Amelinha. - Eu também queria ver! - Deve ser um espírito bom e iluminado - esclareceu Alberto. - Iluminada ela era -lembrou Eurico. - Em volta dela havia muita claridade e seus olhos eram brilhantes como estrelas. Nunca vi ninguém assim. - Isso nos deixa felizes - tornou Alberto. - A proximidade de um ser como esse traz energias superiores que nos fortalecem e ajudam. Liana ouvia calada. Depois considerou: - Ela disse que vai me procurar durante o sono. Será que vou me lembrar de nossa conversa quando acordar? - Não sei. A maior parte das experiências que temos quando nosso espírito se desliga durante o sono se apagam de nossa consciência quando retomamos o corpo físico, porém ficam registradas em nosso inconsciente, de onde continuam nos influenciando. É comum pretender mos resolver algum assunto de certa forma e no dia seguinte acordar com uma idéia completamente diferente da anterior. -Se ela vier mesmo conversar comigo, gostaria de estar consciente e me lembrar de tudo. - Às vezes isso acontece. Vamos esperar para ver. As crianças foram brincar e eles entraram na casa onde Norberto e Eulália já os esperavam. Claro que a conversa girou em torno do bilhete de Amália e de como seria possível o encontro dela com Liana. À tarde, quando o Dr. Marcílio e Adélia chegaram para o chá de despedida com os amigos, foram logo informados do que acontecera. Com naturalidade ele comentou: - Vocês têm muita ajuda espiritual, Liana. Com essa proteção, tenho certeza de que vencerão todos os problemas do passado. 330 - Gostaria de ter essa certeza - respondeu Liana. - Há momentos em que me sinto tão insegura. - Às vezes você não acredita na própria força e sente-se fraca. Essa é sua maior ilusão. Por haver se enganado em algumas escolhas que fez em sua vida, julga-se errada e culpa-se. Daí se ilude acreditando-se incapaz e fraca, o que não é verdade. Coloca-se na posição de vítima da própria incapacidade e subestima suas qualidades reais. Vem o medo, a insegurança, a infelicidade. É preciso sair disso, Liana. A vida está escolhendo você e dizendo que é hora de enfrentar seus medos. Ela não joga para perder. Sabe que você é forte e capaz de vencer todos esses desafios. Por que não confia no que ela está lhe pedindo? - Será que estou pronta para fazer isso? Não estarei sendo provada para ver se consigo melhorar? - A vida não está testando você. Ela sabe que é capaz. Quer apenas que você perceba isso, o que só vai acontecer quando decidir enfrentar todas as coisas, guiando-se apenas pelo seu bom senso e pela sua confiança em Deus. Você já possui conhecimento espiritual suficiente para viver melhor. - Não penso assim. Faz tão pouco tempo que estou estudando esse assunto! - Não falo de conhecimento técnico, nem do que se pode conhecer através dos livros e das experiências de outros, mas da sabedoria da alma. Você já possui conhecimento do que é bom ou mau para você. Sente quando está agindo bem ou não. Você está tão consciente da ética espiritual que qualquer deslize a incomoda terrivelmente. Isso demonstra o grau de lucidez que seu espírito já tem. Você é completamente capaz de levar a bom termo toda a sua missão terrena, por mais difícil que ela lhe pareça agora. - O senhor se refere ao caso do coronel Firmino? - Falo de um modo geral. Não pretendo induzi-Ia a tomar nenhuma decisão. Só desejo que tome consciência de sua própria força e não se julgue menos do que é. Norberto ouvia calado e recordava-se de como Liana fora mais forte do que ele naqueles momentos de desequilíbrio que tinham vivido. Sentia horror só em pensar o que teria sido de suas vidas se ela houvesse aceitado fugir com ele. Fora a força dela que os salvara. Embora ela tenha fraquejado, sua consciência reta, seu bom senso fizeram-na recuar a tempo de evitar um mal maior. 331 Agora, havendo modificado sua forma de ver, estava convencido de que ela sempre estivera certa, e agradecia a Deus por isso. Ele era um homem que valorizava a família. Adorava os filhos. Queria ser respeitado por eles. Gostava de desfrutar da calma familiar. Odiava escândalos e situações dúbias. Além disso, descobrira outras qualidades em Eulália e até não acreditava muito que ela houvesse se casado com ele sem amor. Ela era tímida. Fora educada com rigor, por isso encobria seus sentimentos. Sentia vergonha de mostrá-Ios. Foi lhe ensinado que a mulher precisava manter-se controlada para não parecer vulgar e leviana. Olhou para ela, que, sentada ao lado de Liana, prestava atenção ao que o médico e ela conversavam. Lábios entreabertos, olhos brilhantes, postura firme, rosto expressivo, toda a sua aparência revelava que ela não era uma mulher fria. E se ele a provocasse? E se ele tentasse penetrar e conhecer as profundidades daquele coração? Sempre respeitara sua intimidade agindo de acordo com a postura dela. Mas agora se perguntava se isso fora bom. Ele precisava fazê-Ia sentir o calor de um relacionamento mais verdadeiro, sem máscaras nem fingimentos. Ele era um homem ardente. Desde jovem aprendera que no trato com as mulheres precisava manter diferentes posturas, conforme a posição delas. Com a esposa não podia ser venal como com as amantes. Uma era a mãe dos filhos, a mulher de família. Com as outras ele poderia dar vazão a todas as fantasias amorosas. Entretanto, Norberto descobrira que o que o fazia feliz seria realizar com a mulher escolhida um relacionamento franco, sem papéis sociais ou preconceitos. Nunca havia sido feliz levando vida dupla. Se por um lado com a esposa continha seus impulsos amorosos com receio de ofendê-Ia, com as outras não se sentia bem. Quase sempre, depois de alguns encontros, acabava indiferente e entediado, com raiva de si mesmo. Depois da experiência com Liana, do sofrimento daquela desastrada paixão, havia decidido renunciar para sempre esse seu desejo secreto de uma vida regular e plena com uma mulher. Acreditara ser impossível em uma sociedade falsa e tão conturbada realizar esse sonho. Diante disso havia decidido viver para a família e aceitar os limites da relação íntima com a esposa. Mas o fato é que a descoberta do mundo espiritual, os acontecimentos que os envolveram, os aproximaram muito, tornando-os mais íntimos. Com isso descobriram um no outro qualidades e atitudes que não tinham observado antes. Passaram a sentir prazer em conversar, em estar juntos. 332 Para Norberto, Eulália havia se tornado uma nova mulher, mais natural e atraente. Haviam modificado a forma quase cerimoniosa com a qual se tratavam até na intimidade. Havia momentos em que ele chegava a esquecer como ela era antes e a abraçava com prazer. Depois que todos se foram, havendo combinado que Liana e Alberto voltariam na segunda-feira para despedir-se, Norberto comentou: - Gostaria de poder ficar mais um pouco por aqui. - Eu também. Sentirei saudade de Liana, apesar de ela estar muito feliz com o marido e não precisar mais de mim. - Ela valoriza muito sua companhia. - Eu sei. Gostaria que ela fosse morar mais perto de nós. Mas parece que ambos gostam daqui e não pretendem voltar à capital. - É compreensível. Isto aqui é um paraíso. Depois, Alberto é um escritor. Pode viver em qualquer lugar. Depois de verificar se tudo estava fechado, Eulália perguntou: - Você quer alguma coisa antes de subir? - Não, obrigado. Ele se levantou e ficou ao pé da escada esperando. Quando ela se aproximou, ele passou o braço sobre seu ombro para subirem juntos. Eulália estremeceu e ele notou que seu rosto se ruborizou. Norberto não controlou a curiosidade e pensou: como seria Eulália sem o rígido controle de sempre? Que tipo de mulher se ocultaria atrás daquela postura habitual? Estava decidido a descobrir. Assim que entraram no quarto, Norberto fechou a porta e, aproximando-se dela, apanhou sua mão e puxou-a apertando-a de encontro ao peito. Ele notou que ela estava trêmula e sua respiração agitada. Ela sentiu que ele estava diferente. Em seus olhos havia um brilho que ela nunca vira antes. Seu coração descompassou. Seu relacionamento íntimo com o marido sempre fora embaixo dos lençóis, na escuridão do quarto, e ela ficava o tempo todo esforçando-se para controlar as emoções, preocupada em não o desagradar e não ser vulgar. Norberto procurou os lábios dela beijando-a com ardor várias vezes. Depois, apertando-a de encontro ao peito, beijou com carinho todo o seu rosto, seu pescoço, como nunca fizeram antes. Eulália sentiu calor pelo corpo, enquanto uma emoção antes nunca sentida a invadia impedindo-a de raciocinar. Só sabia que queria que ele continuasse a apertá-Ia em seus braços e a beijá-Ia. Sem pensar em mais nada, entregou-se à emoção. 333 Quando ela o apertou em seus braços tomada de paixão, Norberto sentiu que naquele momento ela estava se revelando, sem reservas, mostrando seus verdadeiros sentimentos de amor. Então, inesperadamente ele foi tomado de deliciosa sensação. Ela era sua mulher e eles eram livres para amar. Entusiasmado, ele murmurou em seu ouvido: - Eulália, meu amor. É assim que sonhei ver você. É assim que eu quero que seja em meus braços. lnebriada de felicidade, Eulália deixou-se conduzir para a cama, encantada com o carinho que ele demonstrava, cobrindo-a de beijos, despertando seus sonhos adormecidos e suas mais loucas fantasias de felicidade. Naquela noite, finalmente, os dois se conheceram intimamente e se encontraram. No dia seguinte, quando Liana e Alberto chegaram para as despedidas, notaram que eles estavam diferentes. Havia um brilho novo nos olhos de Eulália, e Norberto rodeava-a de pequenas atenções, o que não era de seu feitio. Vendo-se a sós com Eulália enquanto ela arrumava as malas no quarto, Liana comentou: - Você hoje está diferente. O que foi? - Nada. Está tudo bem. - Há um brilho novo em seus olhos. Não sei o que é, mas você está radiosa. Está contente porque vai nos deixar? - Não diga isso nem de brincadeira. Sabe que eu gostaria que vocês fossem morar bem do nosso lado. Vamos sentir saudade, isso sim. - Eu também. Adoro essas crianças. Nunca vi ninguém como eles. Mas, se não é a viagem de volta que a deixou alegre, o que é? Eulália sentou-se na cama e deu profundo suspiro. Vendo que Liana a olhava curiosa, esclareceu: - Para você posso contar. Norberto ontem estava particularmente carinhoso. Nunca o vi assim. Vou confessar uma coisa. Eu amo meu marido. Amo muito. Agora entendo por que você saiu de casa para casar com Alberto. Se sentiu o que eu senti esta noite, não dava para segurar. Liana sorriu com satisfação. Sentia-se aliviada em saber que Norberto finalmente se dera conta do amor que sentia pela esposa. Seu pesadelo havia finalmente acabado para sempre. - Não há nada que se compare a uma noite plena de amor. Percebi logo ao chegar que Vocês estavam iluminados. - Eu ouvia falar de amor, imaginava que fosse fantasia. Mas eu senti a força desse sentimento e vi que ele também sentia. Foi maravilhoso. Ele me parece outro homem. 334 - E você é outra mulher. Mais humana, mais experiente. Que Deus a conserve sempre feliz como hoje. - E vocês também. Que sejam sempre felizes como até agora. Norberto estava chamando e perguntando se podia mandar apanhar as malas. Eulália apressou-se a responder. As crianças faziam mil recomendações ao caseiro para cuidar dos passarinhos, não lhes deixando faltar água com açúcar que eles se habituaram a procurar no caramanchão e comida para que se fartassem. Chegou a hora das despedidas. Abraçando a irmã, Eulália tinha lágrimas nos olhos quando disse baixinho a seu ouvido: - Vou sentir sua falta. Você me ajudou a perceber muitas coisas e a aprender a ser feliz sem medo. Sua coragem de defender seu amor por Alberto impressionou-me muito, confesso. - Também sentirei saudade. Desejo que seja sempre feliz. Não tenha medo de amar, de mostrar seus sentimentos. Vocês se amam. Aproveite as alegrias do amor correspondido - murmurou Liana emocionada. Norberto aproximou-se dela, abraçando-a e murmurando: - Obrigado, Liana. Você me ajudou a encontrar a verdadeira felicidade. Sempre lhe serei grato. Que Deus a abençoe. Ela não respondeu. A emoção era grande e não encontrou palavras. Quando os carros sumiram na curva da rua, Alberto abraçou-a com carinho. - Você se emocionou. Vamos sentir falta deles. - Estou feliz. Finalmente eles compreenderam que se amam e estão felizes. Agora posso ficar em paz. - Eu notei que eles estavam diferentes. Norberto estava mais falante, seus olhos brilhavam e estavam sempre procurando por Eulália. Você está certa. Ele descobriu seu amor pela esposa e ela correspondeu. Que bom. - Apesar de ter percebido que o interesse dele por mim havia terminado, de vez em quando eu ainda me sentia culpada pensando que por minha causa, por haver despertado essa louca paixão no coração dele, eu havia roubado algo de minha irmã. Hoje, ao despedir-se, ele murmurou palavras a meu ouvido que me devolveram a paz. - O que ele disse? - Agradeceu e abençoou-me. Disse que eu o ajudei a encontrar a verdadeira felicidade. Eu compreendi. Senti que ele percebeu a loucura que estava cometendo quando quis deixar a família e fugir comigo. Como eu o repudiei com firmeza, ele agora percebe o quanto foi boa minha atitude. Ele estava descontrolado. Eu consegui colocar cada coisa em seu verdadeiro lugar. Eles estão bem, graças a Deus. 335 - A Deus e a você. Ele está certo. Você, apesar de perturbada, teve o bom senso de reagir. Hoje ele sabe que, se continua a ter uma vida familiar tranqüila, foi graças a você. - E à ajuda espiritual, não se esqueça. - Nunca vou esquecer. Sem falar que eu fui o maior beneficiado. Se você não tivesse vivido aquela situação em casa, talvez nunca viesse a aceitar-me para marido. Ela riu com gosto. - Você teria conseguido de qualquer jeito. Nós estávamos destinados um para o outro. Não foi o que os espíritos disseram? - Ainda bem. O que seria de minha vida sem você? Abraçados e alegres, eles foram para o carro conversando com animação. O momento era de calma e de paz, eles queriam aproveitar. 336 Capítulo 24 Liana acordou indisposta. - O que foi? - indagou Alberto, preocupado com a palidez de seu rosto. - Não sei. Acho que comi alguma coisa que me fez mal. - Melhor irmos ver o Dr. Marcílio. Você comeu o mesmo que eu. Não havia nada pesado. - Isso não é nada. Vai passar logo. Ela se levantou e foi ao banheiro lavar-se. Era o primeiro domingo de maio. A manhã estava fresca, agradável. Quando ela se sentou à mesa para o café, Alberto notou que as cores haviam voltado a seu rosto e sorriu. - Sente-se melhor? - Sim. - Em todo caso, falaremos com o Dr. Marcílio. - Não é preciso. Estou muito bem. O cheiro do pão fresco despertou meu apetite. Comeu com disposição, porém nos dias que se seguiram ela acordava sentindo-se enjoada. Alberto convenceu-a a procurar o médico. Ele a examinou cuidadosamente e indagou: - Acorda indisposta, mas logo depois passa? - É. - Você está muito bem de saúde. Mas preciso fazer um exame. - Exame? - estranhou ela. - Sim. Acho que está grávida. Liana levantou-se assustada: - Grávida? Acho que não. Minha menstruação não está atrasada. Marcílio sorriu e respondeu: - Há mulheres muito sensíveis que podem sentir a gravidez no momento da fertilização do óvulo. Liana olhou para Alberto indecisa. Sempre desejara ter filhos, mas, depois que soubera do pedido do coronel Firmino para reencarnar através dela, evitara pensar no assunto. Alberto abraçou-a emocionado. Ele não tivera filhos do primeiro casamento. 337 O médico olhou-os com satisfação e esclareceu: - Compreendo a emoção de vocês. Já presenciei muitos nascimentos, mas o milagre da vida sempre me emociona. Você me parece preocupada. Não está feliz? - Sempre desejei ser mãe. Contudo, nestas circunstâncias, sinto receio. - Você está muito bem de saúde e na idade boa para ser mãe. Do que tem medo? Ela hesitou um pouco e depois respondeu: - Do coronel Firmino. Será que é ele que vai nascer? - É cedo para saber - disse o médico. - Não deve preocupar-se com isso, Liana. Deus sempre faz tudo certo - interveio Alberto. - Bem, não pensei que fosse acontecer assim, de repente. Os espíritos disseram que ele só nasceria se eu o aceitasse. Nunca sonhei com ele, não me recordo de havermos conversado e de haver concordado em ser sua mãe. - Nesse caso, pode não ser o espírito dele que vai nascer. Não acha, Dr. Marcílio? - Pode ser. Entretanto, o mais importante é reconhecer que a vida não erra. Se ela programou esse nascimento, tudo está certo e você não deve preocupar-se. Vamos fazer o exame e confirmar a gravidez. Depois, é cuidar-se bem e esperar o bebê com alegria. Isso é o que importa agora. No caminho de volta para casa, Alberto não escondia o entusiasmo. Vendo sua alegria, Liana animou-se. - Vou telefonar para Eulália. Ela será a primeira a saber. - Estou pensando na casa. Vamos precisar de mais um quarto. O que acha de procurarmos uma maior? - Não sei. Gosto tanto de nossa casa... Vamos esperar um pouco mais para decidir. Eulália vibrou com a notícia! - Que maravilha! Como se sente? - Por enquanto bem. Um pouco enjoada de vez em quando. - É natural. Meu primeiro sobrinho! Faço questão de comprar um enxoval completo para ele. O mais lindo que encontrar. - Ainda é muito cedo, Eulália. - Qual nada. O tempo passa depressa. - Alberto quer procurar uma casa maior, mas eu gosto tanto da nossa que ainda não decidi. 338 - Você vai precisar de companhia. Eu gostaria de estar a seu lado agora. Por que não voltam a morar aqui? - Nós gostamos da calma do interior. Não nos habituaríamos mais com a cidade. - Nesse caso, por que não se mudam para a mansão? Liana teve um sobressalto: - Que idéia, Eulália... - Por que não? É uma casa linda, com conforto. Mesmo que morem lá, há espaço para nos acolher quando resolvermos passar férias aí. Além de economizarem o aluguel, ficariam mais bem instalados. - Obrigada, Eulália, mas não podemos aceitar. O que Norberto iria dizer? - Ficaria muito contente. Em nossas conversas, muitas vezes lamentamos que uma casa tão boa, tão bonita, permaneça fechada tanto tempo. Vocês cuidariam bem de tudo e nos fariam muito felizes. - Agradeço, mas você sabe: eu não gostaria de voltar a morar lá, por causa do espírito do coronel Firmino. Já pensou se ele me aparecesse de novo? - Qual nada! Ele já se foi. A casa agora está livre. Converse com Alberto. Prometa pensar no assunto. - Está bem. Direi a ele. Gosto da casa, é linda, mas não me sinto com coragem de morar lá de novo. Assim que desligou o telefone, Liana comentou com Alberto, que disse apenas: - A casa é ótima, mas, se você se sente assim, não vamos aceitar. Quero que se sinta feliz, alegre. Vamos escrever uma carta a eles agradecendo e pronto. Não falaram mais no assunto. Nos dias que se seguiram, Liana fez todos os exames necessários e o Dr. Marcílio concluiu satisfeito que ela estava muito bem. No mesmo dia em que soube da novidade, Eulália participou às crianças a chegada do sobrinho. - É o espírito do coronel Firmino - afirmou Eurico. - Como é que você sabe? - interveio Amelinha curiosa. - Isso mesmo - comentou Eulália. - Ninguém sabe. A natureza tem seus segredos. - Claro que é ele. Estava louco para nascer. Pediu muito, chorou. Agora conseguiu. 339 - Isso é você que está concluindo - disse Eulália. - Liana não falou nada a esse respeito. Portanto é melhor não ficar afirmando isso. Ela pode ficar nervosa se achar que é o espírito dele. - Quem mais pode ser? Ele é que estava querendo... - lembrou Eurico. - Nem tudo que ele quer pode ter. No lugar onde ele vive agora há disciplina. Para nascer, ele precisaria de permissão superior. - Acha que ele não conseguiu? - perguntou Nico com interesse. Não sei. É provável que não. Em todo caso, não acho prudente desde já acreditar que seja ele. - Mas e se for? - teimou Eurico. - Se for, um dia saberemos. Tenho estudado sobre a reencarnação e aprendido que não devemos fantasiar sobre o assunto. O espírito que nasce esquece o passado e isso evita problemas, ajuda seu progresso. Não quero que falem com Liana sobre isso. Ela pode ficar nervosa, e não é bom para sua saúde. Eles prometeram não comentar com a tia, mas quando se viram sozinhos Eurico não se conformou: - Tenho certeza de que é ele. - Pensando bem, você pode ter razão - concordou Nico. - E se for ele, o que faremos? - volveu Amelinha. - Nada, ora. O que podemos fazer? - respondeu Eurico. - Se for ele, deve estar do lado dela e você pode ver -lembrou Nico. - É. Mas eu não quero ver nada. Eu posso me assustar e dar com a língua nos dentes. Já pensou se tia Liana passar mal por causa disso? - A não ser que ela já saiba - aduziu Nico. - Pelo que mamãe disse, não. Depois, ela não o queria, lembra? tornou Eurico. - Ela pode ter mudado de idéia. Ter visto como ele está diferente - sugeriu Nico. - Mamãe disse que iremos até lá no fim da outra semana. Poderemos perguntar a ela - disse Amelinha. - Eu é que não vou perguntar nada - garantiu Eurico.- Logo agora que tudo está tão sossegado. - Você tem dormido bem. Não me chamou mais durante a noite. - Eles me deixaram em paz. Não quero que voltem. Mamãe tem razão. Vamos esquecer esta história. - Se for ele, vai aparecer de novo mesmo - concordou Nico. - Será que ele vai aparecer como nenê? Isto é, se ele for nascer? - perguntou Amelinha. 340 - O professor disse que ele pode ser visto como ele era ou como ele vai ser. Depende. - Chi!!! Nico, você agora está confundindo minha cabeça - tornou Amelinha. - Como pode ser isso? - Ora, na outra dimensão o tempo é diferente. Quem vê os espíritos está olhando para a outra dimensão. Pode ver o que já aconteceu, o que está acontecendo e o que vai acontecer. - É isso mesmo - concordou Eurico. - Já aconteceu comigo. Uma vez eu vi tia Liana como ela era quando foi esposa do coronel. - Como é isso? - indagou Amelinha. - Ora, eu olhava para ela, e ela estava com outra cara. Parecia outra pessoa. Uma vez olhei para Nico quando ele dormiu do meu lado, e não era ele. Era um moço bonito, de cabelos castanhos, e que, engraçado, não estava dormindo. Olhou para mim e sorriu. Quase morri de medo! - Como sabe que era eu? Podia ser um espírito que estivesse do meu lado. - Não. Naquela hora eu sabia que era você. Não dá para explicar. - Puxa! E eu? Você nunca viu como eu era na outra encarnação? - Vi. Você era feia e faladeira. Como agora. Sempre dando palpites em tudo. - É mentira! Não acredito. Você está querendo debochar de mim - reclamou ela chorosa. - Ele não viu você - disse Nico com voz conciliadora. - Tenho certeza que você foi uma moça muito bonita e agradável. Eurico olhou para eles e disse sério: - Você deve saber mesmo. Naquele tempo andava sempre agarrado a ela! Os dois olharam-no admirados. - Por que está dizendo isso? - perguntou Nico. - Não sei. De repente pareceu-me vê-Ios adultos e abraçados. - Você sabe que às vezes eu também me sinto assim, moço e ao lado de Amelinha? Será que já nos conhecemos de outra vida? - Acho que de tanto andar juntos acabamos por imaginar coisas. - É mesmo. É melhor deixar esse assunto de lado. Não vamos poder saber ao certo mesmo - concluiu Nico, e os outros dois concordaram. Quinze dias depois, eles foram passar o fim de semana na mansão. Eulália estava ansiosa para ver a irmã. Comprara já algumas coisas para o enxoval do bebê e não falava em outra coisa. 341 Norberto, ao saber a notícia, ficara pensativo. Sentiu receio de descobrir que havia dentro de si um pouco do antigo sentimento que nutrira pela cunhada. Mais tarde, sozinho no quarto, resolveu analisar melhor o que ia dentro de seu coração. Ele e Eulália estavam vivendo uma vida feliz. Ela a cada dia revelava-se a companheira perfeita. Tendo descoberto o amor, tornara-se ardente, apaixonada, e Norberto sentia que a amava mais a cada dia. Era com ela que ele sentia mais afinidade. Analisando melhor seus sentimentos, ele se sentiu aliviado, e todo o receio desapareceu. A gravidez de Liana não despertara nele nenhum ciúme ou desagrado. Ao contrário, sentia-se alegre, desejava que tanto ela como Alberto encontrassem a felicidade, formando uma família como a que ele possuía. Foi, pois, com disposição e prazer que participou da alegria de Eulália, ouvindo-a discorrer sobre o que comprara para presentear o futuro sobrinho, elogiando seu bom gosto. Pouco depois de chegarem à mansão, Liana e Alberto apareceram para abraçá-Ios. O ambiente estava alegre e eles conversavam animadamente. As crianças estavam entusiasmadas com as roupinhas do bebê que Eulália levara e faziam perguntas querendo saber quando ele chegaria, se ele iria dormir no quarto do casal, como seria o berço. Estavam tomando o café da tarde quando Maria informou Nico que seu irmão o procurava, muito agitado. Nico atendeu-o imediatamente: - O que foi, Zé? - Ainda bem que você veio! O pai teve um ataque e a mãe mandou chamar você. Está muito nervosa. - O pai? O que é que ele tem? É melhor chamar o Dr. Marcílio. - Ele está lá agora. Acho melhor você ir comigo lá. - Eu vou. Espere um pouco. - Eu vou com você - disse Eurico, que ouvira tudo. - Eu também quero ir - ajuntou Amelinha. - Sua mãe não vai deixar. Vou falar com ela. Nico foi até a sala acompanhado dos outros dois. - O que foi, Nico? - indagou Eulália. - O Zé veio me chamar. Meu pai sofreu um ataque e o Dr. Marcílio está lá. Preciso ir. - Eu vou com ele! - decidiu Eurico. - Eu também - tornou Amelinha. - Não é preciso. O médico está cuidando dele. Pode ser que já esteja bem. 342 - Vou mandar o motorista levá-lo para ir mais rápido - determinou Norberto. - Obrigado. - Vocês dois ficam aqui - resolveu Eulália. - Nico vai sozinho. O Dr. Marcílio está lá cuidando. Em todo caso, Nico, pode contar com nossa ajuda. Se precisar, telefone. Depois que os dois irmãos saíram, Alberto considerou: - Fiquei com vontade de ir com eles. - Podemos passar lá quando sairmos - sugeriu Liana. - Faremos isso. Ao passarem pela casa de Ernestina, viram o Dr. Marcílio chegando também. Ficaram sabendo que Jacinto havia sofrido um derrame, cuja extensão só um exame especializado poderia informar. O Dr. Marcílio medicou-o e ficou lá observando a evolução da doença. Depois que ele deu ligeiro sinal de melhora, o médico foi até sua casa apanhar alguns medicamentos e voltou para reexaminá-lo. Nico estava conversando com os irmãos na cozinha e aproximou-se de Alberto e Liana quando entraram na sala. - O Dr. Marcílio está tratando dele. Vai ficar bom - disse Liana notando o ar preocupado do menino. - Ele é um grande médico. Vamos confiar - tornou Alberto. - Eu sei disso - respondeu Nico - Seus irmãos estão assustados e você inquieto, angustiado. Acalme-se. Sua mãe vai precisar de sua ajuda. Como fazer isso se não se acalmar? - lembrou Liana. - Minha mãe tinha medo que um dia isso fosse acontecer. - Como assim, Nico? - perguntou Liana. Ernestina aproximou-se e pediu: - Nico, vai com as crianças conversar lá fora. - Enquanto o menino obedecia saindo com os irmãos, ela se voltou para o casal e continuou:- Vamos sentar, por favor. - A senhora está ocupada, não queremos incomodar - respondeu Liana. - Só viemos saber como ele está e dizer que podem contar com nossa ajuda em tudo que precisar - completou Alberto. - Obrigada. Sei que são nossos amigos. O doutor está com o Jacinto e pediu que eu saísse. É até bom nessa hora ter com quem conversar. - Sentem, por favor. Eles se sentaram e Alberto perguntou: 343 - Nico disse que a senhora previu que seu marido iria adoecer. Por quê? Ele já havia tido alguns sintomas? Ela fez um gesto vago e respondeu: - Não. Mas eu deduzi que ia acabar assim Veja: ele sempre foi muito forte e saudável. Tinha apetite, bons braços, pernas ágeis, mas nunca os usou bem. Não é pessoa má, mas nunca foi disposto pra trabalhar. Vivia se encostando, sentado, tudo pra ele era trabalhoso. Então eu pensei: Deus dá bons braços e pernas, saúde, força pra gente usar. A vida é muito prática e não gosta de coisas inúteis. Tudo na natureza se movimenta, trabalha, produz. Pode ver: a água parada apodrece e cria bicho; se você põe gesso na perna ou no braço, quando tira, não pode movimentar como antes. Leva tempo, precisa exercício pra voltar a ficar bom. Tudo é assim. A vida tem sua linguagem e, quando observamos, podemos sentir o que ela vai fazer com as pessoas que não se importam em usar os bens que ela lhes dá. Com o Jacinto eu sabia que ele não ia ter bons resultados dessa sua atitude. O Dr. Marcílio está lá. O Jacinto acordou, mas não está conseguindo mexer o lado direito do corpo. O braço e a perna estão paralisados. - Mas hoje em dia a medicina está muito adiantada. O Dr. Marcílio é um médico excelente. Tenho certeza de que o Sr. Jacinto aos poucos vai melhorar - interveio Liana. - Com a ajuda de Deus, e eu desejo isso. Mas no fundo do meu coração eu sinto que vai ser difícil. Ele sempre gostou de viver parado, a vida está dando a ele o remédio que ele sempre pediu. Ernestina falava com naturalidade e Alberto olhou admirado para Liana, que comovida abraçou Ernestina, dizendo: - Vamos esperar que ele se recupere, porque pode ser justo para ele, mas não o será para a senhora, que já luta com tanto trabalho e terá agora de ficar cuidando dele. - Estou pronta pra fazer o que puder. Ele é meu marido. Tem seus defeitos assim como eu os meus, mas, se ele não se recuperar e eu precisar ajudá-Io, farei de coração. Ele é o pai dos meus filhos e o meu companheiro. O Dr. Marcílio saiu do quarto e Ernestina voltou-se para ele: - Como ele está, doutor? - Na mesma. Amanhã vou conseguir uma ambulância para levá-lo ao hospital em Ribeirão Preto para fazer alguns exames. Depois poderei falar melhor sobre o caso. - Vou ficar ao lado dele. 344 - Já dei o remédio e ele vai dormir um pouco. Vou explicar-lhe como dar os medicamentos. Venha. Eles foram para o quarto e Alberto comentou: - Que mulher extraordinária! - É admirável. Acho que Nico vai querer passar a noite aqui a fim de confortá-la. - É possível. Vamos esperar o Dr. Marcílio. Quero me informar melhor sobre o caso. Quando o médico voltou, eles se despediram e saíram juntos. Nico pediu a Liana que telefonasse para Eulália e dissesse que ele iria ficar com a família naquela noite. Uma vez lá fora, Alberto conversou com Marcílio sobre o estado de Jacinto. - Sua pressão arterial está descompassada. O processo ainda não se estabilizou. Não se pode prever como vai reagir. - O derrame pode repetir-se? - indagou Alberto. - Esse é meu receio. - Nesse caso então seria melhor interná-lo imediatamente? - A medicação que ele tomaria no hospital, já lhe apliquei. Removê-lo nesse estado pode deixá-lo mais assustado do que já está e provocar exatamente o que desejo evitar. Amanhã faremos a internação com calma, sem nenhum prejuízo para ele e a família. - Nós desejamos ajudar para que ele tenha todo o atendimento necessário. Norberto também quer colaborar. Portanto, informe-nos o montante das despesas. - Deixe comigo. Nada faltará a ele, pode ter certeza. Quanto às despesas, depois falaremos. De minha parte tudo farei para que ele seja bem atendido. Ao chegarem em casa, Liana ligou para Eulália e informou-a sobre a doença de Jacinto e finalizou: - Nico pediu-me para avisá-la que vai ficar esta noite com a família. Quer confortar a mãe e ajudá-ia. Se tudo correr bem, amanhã ele volta. - Está bem. Só espero que ele não queira ficar aqui mais tempo. Amanhã teremos de voltar para São Paulo. Ele não pode perder aula. Além disso, se ele ficar, Eurico vai me dar trabalho. Nunca vi coisa igual. Eles não se largam. Os três. Aonde um vai, os outros dois vão. 345 - É verdade. Nico é muito amoroso e preocupado com a mãe, mas ela tem bom senso. Não vai permitir que ele se prejudique por causa da doença do pai. É uma mulher prática e inteligente. Olhe, amanhã o Dr. Marcílio vai levar Jacinto a Ribeirão Preto para fazer alguns exames. Tenho certeza de que Ernestina vai convencer Nico a voltar com vocês para São Paulo. - Espero que sim. Esse menino já faz parte de nossa família. Às vezes chego a esquecer que ele não é nosso filho. Até Norberto costuma conversar com Nico sobre os assuntos de família e muitas vezes já o vi fazer as coisas exatamente como ele sugeriu. Não é surpreendente? - Se fosse com outro menino, eu diria que é. Mas Nico é um menino especial. Sempre percebi isso. É um líder natural. Os outros dois também acabam fazendo o que ele diz. Ainda bem que ele os influencia para melhor. Por isso vocês o estimam. - De fato. Se depender de nós, ele ficará conosco para sempre. Liana desligou o telefone e comentou com o marido: - Decididamente Nico já conquistou toda a família. Eulália está com medo de que ele deseje ficar mais tempo com os pais. - A mãe não vai permitir. Ela sabe o que quer. Liana sorriu e meneou a cabeça, concordando. Estava se preparando para deitar quando disse: - Sabe, aquela idéia de ir morar na mansão não é tão disparatada assim. Hoje, quando estava lá, observei como aquela casa é bonita. Dá gosto ver. - É verdade. Por mim, não tenho objeção. Você é que não gosta de lá. - Não sei onde eu estava com a cabeça quando disse isso. Por causa de uma bobagem eu estou me privando de ir viver em um lugar espaçoso e bonito como aquele. Afinal, o coronel já foi embora e nunca mais voltará. Não foi isso que o Dr. Marcílio disse? Alberto, apesar de surpreso, respondeu: - Foi. - Há um quarto que pode ser muito bem adaptado para nosso bebê. Fica logo ao lado do quarto de hóspedes, que seria nosso se nos mudássemos para lá. - Pelo jeito você esteve pensando nisso. - É. Hoje me senti bem naquela casa. Acho que as más influências foram embora. - Ainda bem. Finalmente você se sente livre. Isso é o que importa. Às sete da manhã seguinte, a ambulância chegou para buscar Jacinto, e Ernestina queria acompanhar o marido. 346 Vou ver se a Dona Ana pode tomar conta das crianças até eu voltar. - Pode ir, mãe. Eu fico aqui com eles. - Você precisa voltar para a mansão, Nico. Dona Eulália está esperando. - Não agora. Você vai e eu fico com eles. A Dona Ana tem muitos filhos e o marido dela é abusado, vai ficar brigando com ela. Deixa que eu fico. - Está bem. Não sei quanto tempo seu pai vai ficar lá. Mas, se ele estiver bem, eu volto e você poderá ir. - Eu quero ficar com você. Sei que vai precisar de mim. Ernestina passou a mão de leve na cabeça do filho: - Nada disso. Acha que não sou suficiente para tomar conta da minha família? Você não pode perder aula. Seu pai está bem assistido. O Dr. Marcílio vai fazer tudo, que puder por ele. Depois, tem o professor Alberto. Ele também vai nos ajudar. - É meu pai, é minha família. Eu é que tenho que ficar. - Vamos fazer os exames e seu pai vai ficar bem. Você vai poder voltar pra São Paulo. - E se ele piorar e eu estiver longe? - Se ele piorar e eu precisar de você, telefono chamando. - Promete? - Prometo. Agora tenho que ir. A ambulância já vai sair. Depois que eles se foram, Nico chamou José. - Senta aí. Precisamos conversar. - Acha que o pai vai morrer? - Não sei. Mas você é o filho mais velho. Se o pai está doente, é você quem tem que cuidar da família. - Eu?! A mãe nunca me dá ouvidos. Ela só fala no queridinho dela, que é você. Agora que as coisas estão complicando, eu é que tenho que pagar o pato? Nico levantou-se e aproximando-se do irmão olhou-o firme nos olhos e disse sério: - Você já fez treze anos. O que quer da vida? Acha que vai levar tudo assim, jogando bola, sem estudar nem trabalhar? Está na hora de começar a ajudar a mãe e a sua família. Viu o que aconteceu com o pai? - Vi. Mas não foi por minha causa. - Não? Eu ouvi a mãe falando que o pai ficou doente porque vivia muito parado. 347 - Isso é bobagem. Ele teve um derrame. - Mas ficou sem poder mexer o braço e a perna. Se não melhorar, não vai mais poder andar. Já pensou nisso? José baixou a cabeça e não respondeu, Nico continuou: - A mãe está certa. Se você observar, tudo se movimenta na natureza. E é isso que garante a vida. A água corre para o rio, o rio corre para o mar, o sol nasce e se põe, até a Terra gira em volta do sol. O vento movimenta as árvores, tudo se move. Quem fica parado emperra. Já pensou se o sol resolvesse parar e não voltar no outro dia? Se as águas não corressem para os rios e o sol, parado no céu, secasse tudo? Em pouco tempo todos nós morreríamos. A vida se sustenta porque cada coisa, cada ser vivo, cada pessoa faz a sua parte. Você recebeu de Deus o dom da vida, precisa fazer a sua parte, contribuir para que a vida seja melhor a cada dia e tudo continue existindo. Esse é o preço que você tem que pagar por estar vivo. José olhou o irmão admirado. Nunca havia pensado nisso. Não se deu por achado: - Eu não pedi pra viver. Deus me fez nascer porque quis. - Mas você nasceu, está vivo e com saúde. O que você fez em favor da vida? - Que idéia! Não preciso fazer nada. Eu quero viver, fazer o que eu gosto. Não sou como você, que vive puxando o saco dos outros. - Mas enquanto eu estou estudando, me preparando para viver melhor, você está a cada dia mais preguiçoso. Não ajuda a mãe, não estuda, não trabalha. Como pensa que será a sua vida quando crescer? - Quando chegar a hora vou pensar nisso. Agora sou criança. - Quando for grande, vai ter que pegar o cabo de enxada se quiser comer. Por enquanto a mãe trabalha e você tem comida todos os dias. Mas, quando ela ficar velha e você tiver que comprar a própria comida, como vai fazer isso? - Você sempre foi o queridinho dela. Eu sempre fui rejeitado. Você aparece aqui vestido como gente rica, mora na cidade, anda de carro, e ainda se dá o luxo de me chamar de preguiçoso? Nico colocou as mãos nos ombros do irmão e sacudiu-o com força: - Viu o que está fazendo com você? Você nunca foi rejeitado por ninguém. O que a mãe me ensinou também ensinou a você. Só que eu ouvi os conselhos dela, e você não. Não foi ela quem rejeitou você, foi você quem rejeitou o amor e os conselhos dela. Agora fica dando uma de coitado, mas eu sei que você não é nada disso, que é um menino inteligente, que tem saúde, que se quisesse poderia ser muito mais do que eu e conseguir tudo que precisasse para progredir na vida. Mas prefere dar-se ares de superioridade, de revoltado, não obedece à mãe, não ajuda, não faz nada. Acha que está se beneficiando com isso? Acha que está lucrando? Não, você está se enterrando, se acabando, se tornando um vagabundo. É isso que quer? 348 José sacudiu o corpo e escapou dele, dizendo: - Me deixa em paz. Você não manda em mim. O pai fala que eu sou criança para pensar na vida, que quem é esperto não precisa se matar de trabalhar pra viver. - Você dá ouvidos ao que ele fala e vai acabar como ele, vivendo às custas da mulher e entravado em uma cama. É isso que quer? - Não fica agourando. Você não tem nada com a minha vida. Dizendo isso, saiu. Nilce, que observava da porta, aproximou-se: - Você está perdendo tempo. A mãe dá tantos conselhos a ele, mas nunca ouve. Esse não tem jeito mesmo. - Apesar de tudo, ele é um menino inteligente. Um dia vai compreender e mudar. - A mãe também fala isso. Mas eu duvido. Vem tomar café, Nico. Eu fiz e tem bolo de milho. O Jaime e a Neusinha já comeram. - E o Zé? - Deve estar no quarto. Vou chamar. Pouco depois ela voltou admirada. - Ele saiu. Não está em nenhum lugar. Ele é sempre o primeiro a tomar café. Saiu sem comer. Aonde terá ido? - Foi esfriar a cabeça, mas volta logo, ainda mais que não tomou café. Vamos nós. Abraçando a irmã, Nico conduziu-a para a cozinha e sentou-se esperando que ela colocasse o bule na mesa. Felizmente Nilce estava crescida e tinha boa disposição para ajudar a mãe nos trabalhos da casa. Se seu pai estivesse melhor, ele poderia voltar para São Paulo na tarde daquele mesmo dia. No fim da tarde, Ernestina voltou informando que o marido ficara internado para mais alguns exames, mas que o estado dele havia estabilizado, o que afastava temporariamente a possibilidade de repetição do derrame. Assim, Nico podia voltar para São Paulo com Dona Eulália. Ele concordou, um pouco hesitante, mas Ernestina insistiu e ele finalmente aceitou ir. Entretanto, antes de ir embora, aproveitou quando todos estavam tomando um lanche na cozinha e disse: 349 - Eu vou, mas, agora que o pai não está, o Zé é que tem que tomar conta da família. É o homem da casa. Todos o olharam admirados. Ernestina olhou para Nico depois para José, e respondeu com voz calma: - Ainda bem que Deus não me deixou sozinha nesta hora. É bom ter um homem dentro de casa pra me apoiar. José estremeceu, endireitou o corpo, levantando a cabeça, mas não disse nada. Ernestina continuou tranqüilamente tomando seu café, conversando com os filhos com naturalidade. Quando acabaram, Nico beijou as crianças e despediu-se da mãe, fazendo-a prometer que o chamaria se precisasse dele. Ao sair, disse para José: - Eu gostaria de ficar, mas não posso. Confio que você vai ajudá-los mais do que eu. Vamos rezar para que o pai sare logo. José não disse nada, e Nico apressou-se em ir para a mansão. Eulália havia mandado avisar que partiriam às seis, e ele teria tempo apenas de arrumar suas coisas para a viagem de volta. 350 Capítulo 25 Jacinto ficou internado no hospital durante uma semana. O Dr. Marcílio achou melhor que ele ficasse lá para poupar um pouco Ernestina e dar uma assistência intensiva. Seu estado havia se estabilizado, porém não conseguia movimentar os membros do lado direito nem pronunciar as palavras com facilidade, o que o deixava mais nervoso. Ernestina informava-se do estado do marido pelo Dr. Marcílio. - Amanhã ele vai deixar o hospital e voltar para casa. Por enquanto não consegue andar, mas vou ver se consigo que Nelsinho venha cuidar dele. Ernestina olhou séria para o médico: - Ele vai ficar bom? Isto é, vai se recuperar e voltar a ser como era? - A fisioterapia vai ajudá-Io. Vamos ver como reage. Ele está nervoso e rebelde. Tem dado um pouco de trabalho. Mas tenho certeza de que você vai conseguir convencê-Io a fazer tudo direito. É preciso que ele saiba que esses exercícios representam sua oportunidade de cura. Se ele não reagir, se não fizer esse esforço, nunca mais vai andar. - Deixe comigo. Ele vai ter que fazer. - Vou ver se consigo também uma cadeira de rodas, pelo menos enquanto ele está assim. - Isso deve ser caro, doutor. Não sei se terei como pagar. - Não se preocupe, Dona Ernestina. A senhora tem muitos amigos. O Dr. Norberto e o professor já se prontificaram a pagar o tratamento. Jacinto vai ter tudo que for preciso para ficar bom. O importante agora é fazer com que ele se esforce para aproveitar. Jacinto voltou para casa no dia seguinte. Alberto e Liana foram visitá-Io. Ernestina recebeu-os com carinho, informando-os sobre o estado do marido, e finalizou: - O Dr. Marcílio tem sido bom demais. Sem falar de vocês, que vão pagar o Nelsinho. Amanhã o Jacinto vai começar os exercícios. Nem sei como agradecer tudo que têm feito pelo Nico e agora por nós. Só Deus pode lhes pagar. - Não se preocupe com isso, Dona Ernestina. Vamos rezar para ele ficar bom - respondeu Alberto. 351 - Pode contar sempre com nossa amizade - ajuntou Liana. - Nico é muito querido por todos nós. Eulália não esquece que ele contribuiu muito para que Eurico ficasse bom. Eu mesma devo a ele muitos favores. Seu filho é maravilhoso. Os olhos de Ernestina brilharam emocionados quando ela sorriu e disse: - De fato. Ele sempre foi a luz que Deus colocou em meu caminho. É um bom menino e merece ser feliz. Depois de passar ligeiramente pelo quarto do doente e desejar-lhe breve recuperação, despediram-se, oferecendo-se uma vez mais para ajudar Dona Ernestina no que precisasse. Ao sair, viram José sentado em um canto do jardim, pensativo. Alberto aproximou-se: - Como vai, Zé? O menino levantou os olhos e Alberto notou que ele havia chorado. - Não fique triste. Tenha fé. Seu pai vai melhorar. José não respondeu. Limitou-se a baixar a cabeça novamente. Alberto fez um sinal para Liana, que se afastou discretamente, indo esperá-lo do lado de fora. Depois, Alberto abaixou-se e colocou a mão no ombro do menino, dizendo: - Está sendo difícil para você suportar esse momento. Sei como é, porque já passei por isso também. Gostaria de ser seu amigo e dizer que pode contar comigo para o que precisar. Um soluço sacudiu o corpo do menino. Ele tentou se conter, levantou os olhos ch€ios de lágrimas e respondeu com voz emocionada: - Desculpa, professor. Eu não sou um fraco. Meu pai sempre me ensinou que chorar é coisa de mulher. - Não é verdade, Zé. Há momentos em nossa vida em que chorar alivia a alma. Eu mesmo já chorei muitas vezes. Deixe sair a sua dor. Chore, se tem vontade. O menino não conseguiu mais conter o pranto. Seu corpo foi sacudido pelos soluços enquanto as lágrimas lavavam suas faces e, embora ele com as mãos tentasse limpá-Ias, não paravam de cair. Alberto tirou um lenço do bolso e deu-o a ele. Quando o viu mais calmo, disse: - Agora enxugue os olhos e não se deixe abater. Seu pai vai melhorar. Você pode ajudá-lo não o deixando perceber sua tristeza. Sua mãe e seus irmãos também precisam de seu apoio. José suspirou, enxugou os olhos e depois tornou envergonhado: - Eu não sirvo pra nada, professor. Não sei ler nem trabalhar, como o Nico. Não posso ajudar ninguém. 352 - Não diga isso, Zé. Tudo que Nico faz você também pode fazer. É só querer aprender. - Estou muito grande para ir na escola. Tenho vergonha. Depois, estou com muito medo. - Medo? Por causa da doença de seu pai? - Por tudo. Eu tenho medo de ficar como ele, .sem poder andar. O pai nem pode mais falar direito. Não quero ficar como ele... - Você não vai ficar como ele. Não precisa ter medo. - O Nico disse que sou vagabundo, que não gosto de trabalhar. Quem fica parado acaba assim, como o pai. Quando eu vi ele desse jeito, pensei que o Nico podia ter razão. Eu não quero ficar assim. Eu ouvi o Dr. Marcílio dizer que não sabe se ele vai ficar bom como era. Eu não ouvia os conselhos da mãe, só os dele. Agora sei que ele estava errado. E eu estou grande demais pra aprender. Estou com medo. O que vai acontecer comigo? Alberto, penalizado, passou a mão pelos cabelos do menino. - Não vai acontecer nada de mau. Você ainda é criança. Reconhece que não estava agindo da melhor maneira. Mas tem tempo de aprender. - Não quero ir pra escola com os pirralhinhos. Estou muito grande. - Eu tenho a solução. Se tem mesmo vontade de estudar, posso ensiná-Io. José levantou para ele os olhos brilhantes de emoção: - O senhor é professor. Faria isso por mim? - Farei, se está mesmo disposto a estudar. Posso ensiná-Io e recuperar o tempo perdido. - Não tenho dinheiro pra pagar. - Eu exijo pagamento. Só que não precisa ser em dinheiro. - Como, então? - Sou pessoa ocupada e não posso perder tempo. Tem de aproveitar bem as aulas, prestando atenção, e estudar de fato. Depois, vai aprender a cuidar do meu jardim. José coçou a cabeça preocupado: - Eu quero, só que não sei como se cuida de um jardim. Nunca fiz isso. - Não importa. Vai aprender. Então, o que me diz? Ele se levantou e olhando nos olhos de Alberto disse: 353 - Acha mesmo que posso aprender? Que não sou muito burro? - Tenho certeza. Você pode fazer tudo que eu faço, ou que Nico faz. Basta querer. Podemos começar amanhã. Apareça lá em casa às duas da tarde. - Sim, senhor! Pode esperar! Alberto apertou a mão dele, tentando esconder a emoção. Procurou por Liana, que o esperava do lado de fora. - O que houve com ele? - indagou ela. - Um milagre. A doença do pai, alguma coisa que Nico disse, não sei bem o que foi, tocou a alma dele e parece disposto a mudar, a estudar e até trabalhar. - Que bom. Ernestina vai ficar muito contente. Sempre se preocupou com o futuro dele. - Vamos ver. Vou dar-lhe aulas. Começamos amanhã. Liana abraçou o marido e sorriu: - Tenho certeza de que ele vai aprender tudo. Você nasceu para ensinar. No dia seguinte, José apareceu na casa do professor antes da hora marcada. Havia tomado banho, penteado os cabelos e vestido sua melhor roupa. Antes do almoço ele já estava pronto e Ernestina, vendo-o limpo e calçado, o que não era seu costume, admirou-se: - Você vai a algum lugar? Ele hesitou. Não queria contar que ia começar a estudar. E se não conseguisse aprender? Não queria que os irmãos soubessem e o chamassem de burro. - Depois eu conto - respondeu olhando para Nilce, que estava ajudando a mãe com o almoço. Ernestina notou seu embaraço e disse com naturalidade: - Nilce, vai recolher a roupa do varal. O sol está forte e se secar muito vai ficar ruim pra passar. Depois que a filha saiu, Ernestina tornou: - Se é segredo, já pode falar. Estamos sozinhos. - É que ontem eu estava pensando... isto é... o professor Alberto falou comigo e pediu pra eu ir trabalhar no jardim da sua casa. Disse que me ensina. - Que bom. - Se eu limpar bem o jardim, ele vai me ensinar a ler e escrever. Ernestina abraçou o filho com carinho. - Fico feliz que tenha decidido cuidar do seu futuro. Pode contar comigo pro que precisar: cadernos, lápis, tudo. Acho que vou comprar mais duas mudas de roupas. Vai precisar. Por que não contou isso na frente da sua irmã? Ela sempre quis que você fosse estudar na escola dela. 354 - Não quero que ninguém saiba. O pai nem os irmãos. E se eu não conseguir aprender? - Você sempre foi um menino inteligente. Vai aprender tudo muito depressa. O que faltava era só vontade. - Não sou inteligente como o Nico ou a Nilce. Se eu fosse, não tinha fugido da escola e dado ouvidos às conversas do pai. - Qualquer pessoa, mesmo sendo inteligente, pode escolher errado. Foi o que aconteceu com você. O importante é que agora você percebeu e quer mudar. O seu sucesso vai depender da vontade que tem de melhorar a sua vida. Aprender coisas é alargar o seu mundo. Tenho certeza de que você vai adorar estudar com o professor Alberto. O Nico adorava. Gislene fez José entrar e Alberto conduziu-o para o escritório. Notou que o menino estava acanhado e respondendo por monossílabos. Fê-lo sentar-se no sofá e sentou-se a seu lado, dizendo: - Vamos conversar. Se vamos trabalhar juntos, precisamos nos conhecer melhor. Você já completou treze anos? - Já. - Qual é o dia de seu aniversário? - Dois de setembro. - O que você mais gosta de fazer? - Bom... eu acho que... eu gostava de jogar bola, mas agora tenho que mudar. - Você pode continuar a jogar bola. É um excelente esporte. - Mas é só o que eu fazia, e por causa disso não fui mais na escola. - Não há nada de errado em gostar de fazer algum esporte, ou se divertir fazendo o que gosta. É uma questão de saber organizar sua vida com inteligência. Se fizer isso, terá tempo para estudar, para trabalhar e para se divertir jogando bola, fazer qualquer outra coisa que lhe dê prazer, ou até não fazer nada. José arregalou os olhos: - Será? Eu levantava cedo e só pensava em jogar bola. - Na vida todos precisamos aprender disciplina. Sabe o que é isso? - Sei. É ter que fazer tudo que você não gosta. Alberto riu bem-humorado. - Quem disse isso a você? O menino enrubesceu e disse baixinho: 355 - Foi meu pai... mas agora acho que ele não estava certo. - Com certeza seu pai não teve quem lhe ensinasse isso. Vamos começar nosso estudo por aí. Alberto apanhou um livro de gravuras sobre a natureza e os fenômenos do universo e sentou-se novamente ao lado do menino, dizendo: - Vou chamar você de José. É esse seu nome. Veja esta gravura. É um retrato da Terra, o planeta onde nós vivemos. Alberto começou a contar ao menino toda a história da dimensão do universo, das galáxias, da formação dos planetas e de seus movimentos em torno do sol. Ia mostrando no livro e falando do equilíbrio dos planetas e da própria Terra, de como nasce o dia e como o sol se põe. A certa altura o menino não se conteve: - Quer dizer que nós estamos em cima dessa bola que gira sem cair? Como pode ser isso? - É que o planeta Terra tem uma força de atração que nos puxa para ela. Por isso não caímos de sua superfície. É por isso que, quando você joga a bola para cima, ela cai. - É essa força da Terra que puxa ela? - É. Isso é uma lei da natureza. - O que é uma lei? - É uma força natural a que tudo e todos estamos sujeitos. Essa força a que me referi é própria da natureza e nós a chamamos de lei da gravidade. - Puxa, professor! Nunca pensei que fosse assim. - O universo é maravilhoso. Há muito mais. Alberto descrevia e José ouvia deslumbrado, esquecido de tudo que não fosse o brilho das estrelas, a imensidão dos céus e os mistérios insondáveis dos mundos distantes. - Desejo que você perceba que Deus fez tudo isso, mas colocou cada coisa em seu devido lugar. Tudo é organizado, tudo se movimenta perfeitamente, dentro de uma ordem sem que os planetas se choquem. Cada coisa cumpre sua função e tudo acontece dentro do plano de Deus. Isso é disciplina, organização. Já pensou se as coisas fossem ao acaso e não houvesse um rumo para elas? - Ia dar confusão. Os planetas podiam se chocar, ia morrer todo mundo. - É verdade. Mas a sabedoria de Deus criou o universo e um sistema disciplinar para que ele funcione. 356 - Deus foi inteligente. - Isso mesmo. Você acaba de dizer que usar a disciplina é ser inteligente. E eu digo mais: que a disciplina com inteligência serve para facilitar nossa vida. - Como assim? - Se nós seguirmos certas normas, embora elas requeiram certo esforço, no fim vão facilitar muito e contribuir para melhorar nossa vida. - O estudo é uma disciplina? - É. Você percebeu bem. Às vezes você pode achar que é melhor passar o dia inteiro jogando bola, ao invés de dividir se tempo estudando, trabalhando, jogando bola. Mas o estudo vai lhe dar condições de conhecer mais como as coisas funcionam, de trabalhar melhor, de ser mais útil e ter mais realização. Além disso, quem sabe fazer coisas pode obter melhor salário. Quando for jogar bola, estará feliz, com dinheiro para poder comprar o que quiser, ajudar sua família, sentir-se realizado. Não acha que vale a pena aprender a ser disciplinado? - Acho. - Todas as coisas que você desejar fazer têm um caminho que você precisa percorrer para chegar aonde pretende. A disciplina é o jeito inteligente de encontrar o caminho mais curto. - Qualquer um pode aprender a fazer isso? - Pode, se tiver vontade e for observador. - Observador como? - Prestar atenção em como a vida funciona. A vida é a maior professora. - Como eu posso saber que é ela quem está me ensinando? - Quando uma coisa complica, pode ter certeza de que está errada. É melhor parar e tentar perceber onde você errou e recomeçar de outra forma. A vida gosta da simplicidade, do jeito prático, fácil. - O caso do meu pai está complicado, mas agora ele não pode voltar atrás. O médico disse que não sabe se ele vai voltar a ser como antes. - Ele precisava aprender a enxergar o valor do trabalho, da disciplina. Teve certo tempo para que ele fizesse isso. Como ele não o fez, a vida resolveu aplicar um remédio para curá-Io de vez. - Não foi remédio, foi doença. - Para ele a doença é o remédio. Por meio dela ele vai compreender o valor da disciplina e do esforço próprio. - E se ele não sarar, do que vai adiantar essa doença? 357 - É bom você saber que a vida não existe só enquanto estamos vivendo neste mundo. Ela continua depois da morte. - O Nico fala de espírito, mas eu tenho medo. - Se conhecer a verdade, o medo vai embora. É bom saber que a vida continua. Seu pai vai continuar vivendo mesmo depois que o corpo dele morrer. E, então, ele terá aprendido o que a vida deseja lhe ensinar. Sabe, José, a vida sempre ensina pensando na alma, que é eterna. - Quer dizer que se eu morrer vou continuar vivendo em outro lugar? - Vai. Seu espírito é eterno. A vida não tem fim. Você não sente que nunca vai morrer? - É. Eu sinto. Apesar de ver o cemitério cheio de túmulos, dentro de mim eu acredito que nunca vou morrer. - É porque o espírito nunca morre. Você já viveu outras vidas antes dessa e ainda viverá outras depois. - Eu não me lembro de nada antes de agora. - É assim mesmo. Nós nascemos e esquecemos, mas guardamos em nosso espírito todas as vidas passadas. Quando voltamos para o mundo de onde viemos, recordamos tudo. Assim, de vida em vida vamos aprendendo, experimentando, crescendo. - Minha avó era muito boa. Fiquei triste quando ela morreu. Quer dizer que ela está viva em outro lugar? - Está. A morte é apenas uma mudança, uma viagem. Liana apareceu na porta: - Vocês estão aí há mais de duas horas. Está na hora do lanche. - Já? - indagou José. - Vamos parar. Você já tem muito material para pensar. Amanhã continuaremos - resolveu Alberto. - Venha, vamos tomar nosso café. José levantou-se um pouco acanhado. Liana adiantou-se: - Venha, José. Vou levá-Io para lavar as mãos. Ele a acompanhou até o banheiro e quando saiu Alberto esperava-o e conduziu-o à copa, onde a mesa posta e o gostoso cheiro do café os esperavam. - Sente-se, José - pediu Liana. Percebendo o acanhamento do menino, Alberto disse com naturalidade: - Amanhã gostaria que você viesse cedo. A que horas levanta? - A hora que for preciso. A que horas posso vir? 358 - Às nove. - Eu trouxe caderno e lápis. Minha mãe disse que compra o que for preciso pra que eu faça as lições. - Por enquanto não vai precisar. Eu tenho aqui algum material. Quero que venha de manhã para trabalhar no jardim e à tarde para estudar. Você concorda? - Sim, senhor. Nós combinamos que eu devo trabalhar em troca das aulas. - Isso mesmo. José remexeu-se na cadeira. - O que foi, José? - É que eu não sei lidar no jardim. Está cheio de flores e eu tenho medo de estragar alguma coisa. - Vou ensinar como você vai cuidar de tudo. Não se preocupe. Vamos fazer juntos. Ele respirou aliviado. - Tome seu café, José - convidou Liana. - Experimente o bolo. É a especialidade de Gislene. Hoje ela fez em sua homenagem. José endireitou o corpo, olhou para Gislene, que colocava uma generosa fatia do bolo em seu prato, sorriu e disse: - Muito obrigado, Gislene. Nunca ninguém fez um bolo em minha homenagem. - Um menino que trabalha e estuda merece. Eu admiro você disse ela satisfeita. Quando saiu da casa meia hora depois, José sentia-se muito feliz. Nunca fora tratado com tanto carinho e respeito. Chegou em casa alegre, e Nilce foi logo perguntando: - E então, como foi? - Muito bem. Aprendi tudo que o professor ensinou. - Ele não passou lição de casa? - Ainda não. Ernestina entrou na cozinha carregando uma pilha de roupas que recolhera do varal. - Está com fome, Zé? Tem café no bule e pão no armário. - Obrigado, mãe, mas já comi. Sabe que na casa do professor a Gislene fez um bolo em minha homenagem? - Puxa! E você comeu? - interveio Nilce. - Claro que comi. Dois pedaços. Estava uma delícia. - Espero que você tenha agradecido e não tenha abusado. 359 - Não, mãe. Pode ficar sossegada. Eles são muito educados e eu vou aprender a ser como eles. - Isso mesmo, meu filho. É preciso respeitar as pessoas para ser respeitado. Não quero que nenhum filho meu seja malcriado. Nós somos pobres mas dignos. Quando começou a escurecer, José sentou-se no degrau da escada do jardim, perdido em seus próprios pensamentos. Olhava o céu, onde as primeiras estrelas já apareciam, e dava largas à imaginação. Nunca havia reparado na beleza do céu estrelado. Notou que algumas estrelas eram maiores e brilhavam mais do que as outras. Estariam mais perto ou seriam maiores? No dia seguinte perguntaria ao professor. Ficou ali contemplando o céu até que Ernestina o chamou: - Está na hora de entrar, Zé. Vamos dormir. Ele entrou e ajudou a mãe a fechar as janelas. Depois disse: - Amanhã vou levantar cedo. Preciso estar na casa do professor às nove horas pra trabalhar no jardim. Não quero perder a hora. Já que eu vou levantar mesmo, posso ir até a padaria buscar o pão. Ernestina concordou. Nilce, que passava pela sala e ouviu as palavras dele, comentou: - Uma alma se salvou agora. Os milagres podem acontecer! Você se oferecendo pra ir buscar pão?! - O que é que tem? Eu vou porque quero. Você não tem nada com isso. Ernestina interveio: - Ei, vocês dois! Vamos parar com isso. Você deveria agradecer a boa vontade do seu irmão. Se ele não se oferecesse, você é que tinha que ir. - Não está mais aqui quem falou, mãe. O Zé está mudado mesmo. - Isso é só o começo. Você ainda não viu nada. - Hum... pelo jeito está resolvido mesmo. Só quero ver até quando... - Deixa ele, Nilce, e vai ver se a Neusinha escovou os dentes. Ela comeu broa, tomou café com leite e foi direto pro quarto. Acho que já se deitou. Nilce foi para o quarto e José disse sério: - Mãe, a Nilce não acredita, mas eu estou mudado mesmo. Ainda hoje, lá na casa do professor, eu senti que era isso que eu queria da vida. Eles me chamaram de José, me trataram tão bem que me senti importante. Estou resolvido, mãe. O Nico está certo em querer ser gente. Eu também quero ter uma vida melhor. 360 Ernestina sorriu e seus olhos brilhavam de felicidade quando ela respondeu: - Filho, estou muito contente que tenha decidido isso. Eu sabia que um menino inteligente e esperto como você não ia ficar toda a vida se contentando em viver na miséria e na inutilidade. Não me enganei e estou orgulhosa de você. Estou certa que daqui pra frente você vai melhorar a cada dia. - Obrigado, mãe. Vou mostrar pra todo mundo do que sou capaz. - Isso mesmo, meu filho. Que Deus o abençoe. Depois que ele foi para o quarto, Ernestina foi ver se os filhos já estavam deitados e se o marido estava bem. Depois, quando viu tudo em silêncio, dirigiu-se a uma imagem de Nossa Senhora colocada em cima da cômoda, acendeu a lamparina como fazia todas as noites e começou a rezar. Agradeceu a mudança do filho; pediu a ajuda para o marido, que, inconformado com a doença, se tornara irascível e revoltado; pediu proteção para sua família e, por fim, forças para conseguir cuidar de todas as suas obrigações com alegria e coragem. Para não incomodar o marido, Ernestina colocara um colchão no chão, ao lado da cama do casal, e era lá que dormia desde que ele adoecera. Apagou a luz e deitou-se. A noite era clara e ela ficou olhando a luz que entrava pelas frestas da veneziana e pensando. O que seria de sua vida se o marido nunca mais pudesse andar? Nelsinho tentara de todas as formas que Jacinto fizesse alguns exercícios mas ele se recusava. Não queria sentir dor nem fazer nenhum esforço. Não queria cooperar, alegando que isso não iria valer de nada. Dizia que o médico não era bom e exigia que lhe dessem um remédio que o curasse. Ao sair, depois de muitas tentativas, Nelsinho comentara: - D. Ernestina, se o Sr. Jacinto não cooperar, não vai se recuperar. - Ele está revoltado. Nunca tinha ficado doente antes. Sabe como é, não tem paciência. Mas temos que insistir. O Dr. Marcílio disse que é preciso. - Ele tem razão. Por isso, em benefício dele mesmo, vou precisar ser mais duro. - Coitado. Está tão sofrido! - Ficar com pena só vai piorar o estado dele. O que ele precisa é tomar consciência de que, se não se mexer, não sara. 361 Depende dele melhorar ou ficar para sempre naquela cama. É isso que ele precisa saber e eu vou dizer-lhe. A senhora não repare se eu falar firme com ele. Faz parte da cura. - Eu entendo. O Jacinto sempre foi muito teimoso. Faça o que for preciso. Ernestina suspirou resignada. O dia seguinte ia ser trabalhoso. Jacinto, quando acordado, chamava-a insistentemente por qualquer coisa e muitas vezes ela só podia dar conta do trabalho nos momentos em que ele dormia. Ela sentia as costas doendo e o corpo cansado. Mas, apesar disso, estava contente com a atitude de José. Se ele se dispusesse ao trabalho e conseguisse ganhar algum dinheiro para as despesas, ela poderia trabalhar menos e dispor de mais tempo para cuidar do marido. Agradecia a Deus essa ajuda. Virou-se para o lado e, como estava cansada, logo adormeceu. 362 Capítulo 26 O tempo varreu os acontecimentos e dez anos depois vamos encontrar Liana feliz e alegre na mansão preparando tudo para receber Eulália e a família, que lá iriam passar as festas do fim de ano, como sempre faziam. Eles haviam se mudado para a antiga casa do coronel Firmino, dois meses antes do nascimento de seu primeiro filho. Liana, que a princípio não gostara da idéia, com o passar do tempo começou a sentir uma predileção especial por aquela casa, sentindo prazer em ir lá, em cuidar para que tudo ficasse sempre bem arrumado. Certa ocasião, Eulália voltou ao assunto, alegando a dificuldade de se encontrar uma casa tão confortável na pequena cidade: - Fico penalizada de ver uma casa tão espaçosa e bonita vazia quase o ano inteiro. Nosso maior desejo é que vocês se mudem para lá. Assim, em nossas férias ficaremos todos juntos. - Seria bom. Mas teríamos de fazer algumas mudanças para nos instalarmos e eu não gostaria de tirar o conforto de vocês. - Está resolvido, Liana. A casa é grande o bastante para todos nós. Como aparecemos de vez em quando, vocês continuarão tendo toda a privacidade. - Vou pensar. Uma vez a sós com Alberto, conversaram e resolveram aceitar. A alegria de Eulália deixou-os à vontade. Juntos cuidaram das mudanças necessárias. João Alberto nasceu dois meses depois, e seu choro forte encheu a casa, causando euforia até nos criados. Era um menino robusto e bonito. Imediatamente Alberto telefonou para Norberto comunicando o nascimento. No fim de semana eles chegaram para conhecer o novo membro da família, trazendo inúmeros presentes. Os meninos estavam curiosos, e alvoroçados subiram para o quarto onde ele dormia tranqüilo. Liana acompanhou-os recomendando silêncio para que não o acordassem. - Tia, eu quero pegá-lo no colo - pediu Amelinha. - Olhem que lindo! Tão pequenininho! 363 - Deixe-o acordar e eu o colocarei em seu colo um pouco. - Como pode ser tão pequeno? - indagou Eurico, admirado. - Vocês também já foram assim - comentou Eulália, que os acompanhara. Amelinha quis ver todas as roupinhas enquanto os meninos corriam para ver o caramanchão e os ninhos de passarinhos. A certa altura, Eurico ficou pensativo e Nico indagou: - O que foi, aconteceu alguma coisa? - A tia Liana não sabe, mas o coronel voltou. - Lá vem você de novo... - É ele, sim. Está pequeno, nasceu com outra cara, mas é ele mesmo. - Você quer dizer que o menino é ele? -É. - Você pode estar enganado, cismado. - Não estou, não. Eu vi direitinho. - Viu o quê? - Eu olhava para o rosto do bebê, via a carinha dele, mas atrás da cabecinha dele eu via o coronel Firmino. - Ele pode estar do lado do menino. - Não. Ele saía e entrava no rosto dele. - Chi!!... Você está complicando. - Não estou, não. É difícil explicar. Ele sumia, parecia que se transformava no rosto do nenê. Depois, ele saía e voltava a ser o coronel de novo. Eu senti que ele e o menino eram a mesma pessoa. - Acho bom não contar nada para sua tia. Ela pode ficar com medo. Logo agora que ela já esqueceu e até mora aqui na casa. - Foi ele quem quis morar aqui. Ela sentiu a vontade dele. Começou a gostar da casa depois que ele encarnou. - Ela se mudou antes do nascimento dele. - É, mas ele já estava dentro da barriga dela. - Puxa! É verdade. Vamos perguntar para o Dr. Marcílio sem que a sua tia saiba. No domingo, quando o médico apareceu para visitá-Ios, os meninos chamaram-no de um lado e contaram o que acontecera. - O senhor acha que precisamos contar para a tia Liana? - Eu penso que não - interveio Nico. - É melhor não - concordou o médico. - Nesse caso ela nunca vai saber que é ele? - indagou Eurico. 364 - Nesses casos, precisamos dar tempo ao tempo. Você viu isso e acredita que o menino seja o espírito do coronel Firmino reencarnado. Eu também acho que é. Entretanto, a vida deixou-o esquecer o passado, e ela faz tudo certo. Nós não temos o direito de interferir. - Nesse caso, não direi nada. - Será que é ele mesmo? - perguntou Nico. - Bem, nós não vamos comentar para não interferir na vida dele, mas podemos observar para nosso conhecimento. - Como assim? - indagou Nico. - Embora Firmino esteja esquecido do passado e tenha aprendido algumas coisas e se modificado, seu temperamento, sua personalidade ainda são os mesmos. - Eu sei - interveio Eurico. - Se for ele, vai ser mandão e vai querer comandar tudo. - Não se precipite - disse o médico sorrindo. - Você o conheceu muito pouco. Ele deve ter qualidades que você não teve tempo de perceber. Não se esqueça de que ele estava desequilibrado, sofrendo muito. - Duvido que ele tenha qualidades boas - disse Eurico. - Talvez seja por isso que a vida o colocou em sua família, para que vocês aprendam a conhecer os outros lados dele. - É. Eu acho que foi isso mesmo. Puxa! Eu nunca pensei nele quando era criança ou moço - comentou Nico. - Veja o que aconteceu com seu irmão. Ele mudou muito em pouco tempo. Tem ajudado sua mãe, trabalhado e já sabe ler corretamente. - Quem diria! Você dizia que ele era um vagabundo! - lembrou Eurico. - É, ele era. Mas agora criou vergonha. Ainda bem. - Bom, se ele criou vergonha e mudou, o espírito do coronel Firmino pode ter feito o mesmo - lembrou o doutor. Os meninos concordaram e não falaram mais no assunto. Dois anos depois, Liana deu à luz uma menina a quem chamaram de Rosa Maria, em homenagem à avó materna. Era linda e saudável como seu irmão. Mas desde cedo revelou um temperamento diferente do dele. Enquanto ele era barulhento e ativo, ela se mostrava doce e tranqüila. Seu sorriso encantava a todos e seu jeitinho carinhoso tornava-a muito querida não só por todos os membros da família mas também pelos amigos. Em São Paulo, Nico, Eurico e Amelinha continuavam inseparáveis, embora revelando diferentes inclinações. Enquanto Nico revelava sua paixão pelo desenho e pela pintura, Amelinha interessava-se pelo balé e pelo teatro. Eurico preferia matemática e as ciências exatas. 365 Ao contrário dos outros dois, que em suas horas de lazer procuravam na música e nas artes seu entretenimento, Eurico se sentia inclinado aos estudos da física. Apesar disso, andavam sempre juntos. Enquanto Amelinha, que se matriculara em uma escola de balé, ouvia música clássica, calçava suas sapatilhas e rodopiava pelo salão de festas de sua casa, local onde eles passavam suas horas de lazer, Nico manejava pincéis e tintas nas telas que comprara, e Eurico estudava as leis da gravidade, fazia cálculos imaginativos dos astros e ficava horas manejando alguns instrumentos de medição que conseguira ganhar do pai, anotando tudo e fazendo experiências curiosas com objetos, plantas, etc. Embora tivessem amigos no colégio, eles passavam a maior parte do tempo entretidos em casa, longe dos divertimentos comuns. Apesar disso, mantinham boas relações com os demais. Recebiam muitos convites para festas, aceitavam alguns, mas o que eles mais gostavam mesmo era de ficar em casa juntos, cada um exercendo as atividades de sua predileção. Todos sabiam que Nico não pertencia à família dos dois irmãos. Ele nunca escondeu sua procedência humilde e, com dignidade, oferecera-se para dar aulas aos alunos em dificuldade, e assim ganhava algum dinheiro para suas despesas pessoais. Certa vez uma colega fora até a casa deles em busca de uma matéria cuja aula perdera, e, ao ser conduzida ao salão onde eles se reuniam, encantou-se com uma tela que Nico pintara, oferecendo-se para comprá-Ia. Ele a deu de presente. A mãe da menina ficou encantada e procurou-o para ver seu trabalho. A partir desse dia ele começou a ser procurado por algumas mães de seus colegas interessadas em adquirir suas telas e ele, animado por Amelinha e Eurico, que vibravam com o sucesso do amigo, estipulava os preços e mostrava os trabalhos. Assim, ele começou a ganhar mais, a ter dinheiro para comprar material melhor e em maior quantidade, e do dinheiro que sobrava até mandava algum para ajudar a mãe, apesar de Eulália continuar dando a ela uma mesada. Seus professores interessaram-se por sua pintura, aconselhando-o a cursar uma escola de belas-artes. Ele, porém, não se decidia. Para ele, pintar era fácil e natural, mas, quando pensava em fazer disso profissão, sentia medo, tristeza e vontade de largar tudo. 366 No momento de escolher uma carreira, Norberto reuniu-os para uma conversa. Amelinha queria ser bailarina e fazer escola de arte dramática. Mas o pai tentou fazê-Ia mudar de idéia. Como ela insistisse, ele propôs: - Você pode continuar no balé, cursar a escola de arte dramática se quiser, mas, como isso não é profissão, terá de escolher outra coisa também. Ser professora, dentista, médica, vocês precisam se preparar para a vida. Arte é um hobby. Faz bem para a alma, mas é só. Nico abanou a cabeça, dizendo: - Dr. Norberto, eu não sei o que escolher. Pintar para mim é como o ar que respiro. Nunca aprendi, mas sempre soube. Mas penso que o senhor tem razão. Não quero fazer disso profissão. - Ainda bem, Nico. Você pode ser professor, como Alberto. Como eu disse, arte é só para passar o tempo. Por isso, acho bom os três pensarem no assunto e resolver. O ano está no fim e não podemos esperar mais. Quando ele se foi, os três sentaram-se no salão em meio aos objetos de costume e trocaram idéias sem chegar a nenhuma conclusão. - O Zé já escolheu o que ele quer ser -lembrou Nico. - Eu sei, ele disse que vai ser agrônomo. Mas sem fazer faculdade. Só prático. Estudando nos livros e experimentando. Depois do que ele já fez nas terras de sua mãe, acho que vai dar muito certo - tornou Eurico. - É mesmo. Aquilo está uma beleza! Minha mãe disse que ele tem uma mão! Tudo que ele planta dá. Ela nem está comprando mais feijão. - Eu vi o que ele fez no jardim da mansão. Está lindo! - interveio Amelinha. - O professor ensinou e deu muitos livros a ele. Agora tem até um ajudante. - Ele já escolheu, mas nós, o que faremos? - indagou Amelinha. - O que eu gostaria mesmo é de ser artista. Mas já sei que papai não vai deixar. Terei de escolher outra coisa. Mas o quê? - Escolha alguma coisa bem fácil, e assim você vai poder ter tempo de fazer a escola de arte - sugeriu Eurico. - Eu gosto de fazer minhas experiências. Quero escolher uma profissão que me permita fazer isso. - Eu quero pintar; gosto também de pegar no barro e fazer coisas. Mas isso não é profissão. Professor eu não sei... será que eu podia ensinar pintura? - Claro que não, Nico. Se pintar quadros não é profissão, quem vai querer aprender? Só se você se tornar pintor de paredes - disse Eurico. - Não é desse tipo de pintura que eu gosto. 367 - Você pode fazer arquitetura. Tem de desenhar e criar coisas sugeriu Amelinha. - É. Talvez. Vamos ver. Amanhã vou conversar com a psicóloga da escola. Ela disse que pode nos ajudar a encontrar nossa vocação profissional. - É uma boa idéia, Nico. Irei com você. - Eu também - concordou Eurico. Assim, Amelinha resolveu fazer pedagogia, Eurico engenharia química e Nico psicologia. Apesar de haverem escolhido carreiras diferentes, eles continuavam a estudar juntos. Eurico conseguira montar um pequeno laboratório de pesquisas nos fundos da casa, onde realizava suas experiências, nem sempre bem-sucedidas, o que provocava o riso dos outros dois e alguma preocupação de Eulália. Estavam satisfeitos com os cursos que escolheram, mas nas horas vagas continuavam, Eurico com as experiências, Nico com a pintura, Amelinha com o balé. Nico granjeara fama no bairro. Certa vez ele pintou o retrato de Amelinha vestida de bailarina para oferecer a Eulália como presente de aniversário. Eulália notava o movimento que Nico fazia com seus quadros, mas tanto ela como Norberto viam isso como um passatempo e nunca se interessaram em examinar com atenção o que ele fazia. Porém o retrato de Amelinha impressionou-os. Era óleo sobre tela e era difícil imaginar que ele houvesse sido feito por um jovem que nunca freqüentara nenhum curso de pintura. No dia do aniversário, ele a procurara e lhe entregara o quadro, dizendo sério: - Dona Eulália, quero que a senhora saiba o quanto lhe sou grato por tudo que tem feito por mim e pela minha família. Sempre desejei dar-lhe um presente, mas a senhora tem tudo e eu queria oferecer alguma coisa que viesse do meu coração. Então, pensei, o amor de mãe é sagrado, e fiz este trabalho. Quero que saiba que sinto um amor muito grande pela senhora, por Amelinha especialmente, sem falar do meu irmão Eurico e do Dr. Norberto. Comovida, Eulália abraçou-o e beijou-o na face: - Obrigada, meu filho. Eu gosto de você como um filho e estou muito orgulhosa por você ter feito um trabalho para mim. 368 Quando ela retirou as folhas de papel de seda com o qual ele embrulhara o quadro, olhou-o impressionada. Era uma tela de oitenta por setenta centímetros, e parecia haver sido pintada por um mestre. - Nico, é uma beleza! Vou pôr uma bela moldura e colocar em destaque em nossa sala de estar. Você realmente tem talento. Não sei se foi uma boa idéia estudar psicologia em vez de pintura. - Pintura eu não preciso estudar, Dona Eulália. Nasci sabendo. Agora, psicologia sim. Eu precisava aprender a lidar com minhas emoções. O Dr. Marcílio sempre diz que a vida nos leva para o que precisamos aprender. Ela olhou séria para ele. Aquele menino sempre a surpreendia com sua maneira única de dizer as coisas. Quando ela se foi, interessada em mostrar a tela a Norberto, Nico sentou-se pensativo. Na verdade, nos últimos tempos ele andava preocupado e desejoso de entender o que se passava em seu coração. Estava terminando o curso e habituara-se a examinar o teor de seus pensamentos para entender melhor seus sentimentos, mas, nos últimos tempos, emoções fortes e imperiosas acometiam-no, e ele não conseguia encontrar, no que aprendera, uma solução. O que estava acontecendo com ele? Estava com vinte e três anos e prestes a receber seu diploma de psicólogo. Deveria sentir-se realizado. Conseguira estudar, fazer uma universidade, ser respeitado, querido. Uma vez formado, poderia melhorar a vida de sua família, como sempre desejara, ter sua própria casa, comprar o que quisesse. Ele vencera. Por que então, quando pensava em sua formatura dali a dois meses, sentia um aperto no coração? A figura bonita de Amelinha surgiu em sua mente e ele se levantou inquieto. Ela se tornara muito bonita. Onde aparecia era sempre requesitada, elogiada. Os rapazes andavam à sua volta como abelhas no mel. Isso o irritava. Ele a vigiava constantemente. Comentava com Eurico: - Precisamos tomar conta de Amelinha. Eurico sacudia os ombros e dizia: - Qual nada! Ela já é grandinha e sabe se conduzir. Não vou perder tempo com isso. - Mas você não vê o perigo? Aquele malandro do Clóvis estava rodeando. Claro que com má intenção. Ele é o maior cafajeste do clube. - Ele é, mas Amelinha não vai entrar na dele. Mas Nico não se conformava. Onde ela andava ele a perseguia com os olhos e quando os rapazes se aproximavam dela Nico encontrava um jeito de intervir, procurando atrair sua atenção para outras coisas. 369 Ele desejava terminar os estudos, mas ao pensar nisso sentia um aperto no coração. Um dia descobriu o que o angustiava: sentia que, depois de formado, não teria mais motivos para continuar vivendo na casa de Eulália. Teria de ir embora, cuidar de sua vida. Eles já haviam feito demais. Não seria direito aproveitar-se dessa proteção. Depois, pensava na família, principalmente em sua mãe. Apesar de seu pai continuar inválido e requisitar muito sua atenção, Ernestina agora já não precisava trabalhar tanto. José tomara-se trabalhador e contribuía para o sustento da família, não só plantando feijão, milho, criando galinhas, que negociava na cooperativa trocando por outros alimentos, mas também cultivando mudas de flores e frutas que vendia a bom preço. Jaime interessara-se pelo trabalho do irmão e ajudava-o na lavoura, enquanto Nilce e até Neusinha aliviavam o trabalho caseiro de Ernestina, que dispunha de mais tempo para cuidar do marido. Ela continuava a lavar roupas para fora, mas agora ficara apenas com os melhores clientes. Apesar disso, Nico não esquecera o antigo sonho de oferecer à mãe e a toda família um padrão de vida melhor, em que ela não precisasse mais trabalhar para ninguém e até tivesse uma empregada para cuidar dos serviços domésticos. Além disso, queria que os irmãos continuassem estudando e pudessem tanto quanto ele mesmo desfrutar de uma vida melhor. Há algum tempo vinha guardando dinheiro para montar um consultório quando se formasse. Seus quadros eram muito procurados e nos últimos tempos havia muitas encomendas, o que possibilitou que ele pudesse ao se formar fazer isso com recursos próprios. Se por um lado isso era o que sempre sonhara, por outro deixar a casa de Eulália significava perder a convivência diária com Eurico e Amelinha, que já faziam parte de sua vida. Não podia deixar de pensar nisso, e um dia, quando viu Amelinha deixar a companhia dos dois e sair de mão dada com um rapaz, compreendeu o que o angustiava. Era dela que ele não queria separar-se. Era a presença dela que o fazia sentir-se alegre. Era sua proximidade que o fazia estremecer e seu coração se descompassar. Claro que ele havia tido algumas namoradas, mas nenhuma delas conseguira fazê-lo sentir-se tocado. Às vezes saía com elas apenas para fazer companhia a Eurico, que sempre arrumava um jeito de sair com alguma moça e o convidava para acompanhar a amiga dela. 370 A descoberta de que estava apaixonado por Amelinha deixou-o angustiado e nervoso. Ele se tornara seu confidente. Cada vez que algum rapaz se interessava por ela, Amelinha lhe contava, olhos brilhantes de prazer, mas até então não amara ninguém. Esquivava-se, dizia que não pretendia namorar ainda, queria dedicar-se aos estudos. Até então Nico sentira-se seguro, mas naquela tarde, vendo-a sair para ir a um cinema de mão dada com Raul, irmão de um colega dela, ficou preocupado. A dúvida assaltou-o e ele pensou: será que ela está apaixonada por ele? Foi para casa e não quis sair, pretextando dor de cabeça. Esperou ansiosamente que Amelinha voltasse. Quando a viu entrar, não se conteve: - E então? - E então o quê? - Esse moço com quem você saiu. Você gosta dele? - É muito atraente, simpático e culto. - O que ele faz? - É engenheiro e tem uma construtora. Nico mordeu os lábios nervoso. Além de formado, ele deveria ser rico. Baixou a cabeça pensativo. - O que foi, aconteceu alguma coisa? - perguntou ela. - Não. Nada. Estava pensando. -Em quê? - Bem, temos vivido juntos nós três todos estes anos e logo teremos de nos separar. - Separar? Como assim? - É. Não somos mais crianças. Logo mais cada um irá para um lado e não será mais como até agora. Amelinha colocou a mão no braço dele, dizendo inquieta: - Não diga isso! Nós nunca nos separaremos. Viveremos sempre juntos. Nico suspirou triste: - Gostaria que isso fosse verdade. Mas veja: quando me formar, terei de me mudar, trabalhar e levar minha vida. Não posso mais viver às expensas de sua família, que já fez muito por mim. Você logo vai encontrar um rapaz rico, de sua classe social, que a amará. Vai se apaixonar, casar e ir viver sua vida. Eurico fará o mesmo. - Isso não é verdade - disse ela sacudindo a cabeça negativamente, balançando os anéis de seus cabelos dourados que lhe caíam pelas espáduas, emoldurando seu rosto bonito. - Você nunca vai nos deixar. Vai trabalhar, ganhar dinheiro, ajudar os seus, mas ficará para sempre aqui. 371 Os olhos dela brilhavam emocionados e Nico sentiu seu coração disparar, encantado com a beleza lírica daquele rosto que ele amava. - Você sabe que vou montar consultório. Posso me sustentar, e não desejo ser pesado à sua família. Ela o abraçou, dizendo emocionada: - Não vou deixar você ir. Falarei com papai, ele não vai permitir. - Você diz isso agora, mas logo vai se apaixonar e então nem vai sentir minha falta. - Eu não vou me apaixonar por ninguém, e você não vai embora. - E o moço com quem você foi ao cinema esta tarde? Disse que ele era atraente, cheio de qualidades e, além de tudo, rico. Acho até que está se apaixonando por ele. - Quem disse isso? Ele pode ser tudo isso, mas quando me deu um beijo senti vontade de sair correndo do cinema. Acho que nunca mais quero sair com ele. Gostou? Acha que sabe tudo e pensa que vou me deixar levar pelo primeiro que aparece? Não é isso que eu quero na vida. Nico, sentindo a proximidade dela, teve vontade de beijá-Ia, mas conteve-se. Ele não podia demonstrar o que ia em seu coração. Apesar de haver sido criado com eles, sempre entendera a distância social que os separava e não queria que pensassem que estava abusando da bondade deles. Faria tudo para que ninguém nunca soubesse de seu amor por Amelinha. Não se conteve e indagou: - O que você quer da vida? - Quero viver, dançar, aprender coisas que embelezem minha vida. Não penso em ser igual à minha mãe, que se conformou com o horizonte estreito em que vive e nunca desejou mais. Eu nunca me conformaria em tornar-me uma matrona dentro de casa, criando filhos e mais nada. - E o amor? Toda mulher sonha com o amor, os filhos, uma família. - O amor é um sentimento natural, vai acontecer como o ar que respiro, vai me trazer alegria e vida, prazer e felicidade. Quando aparecer, saberei. Tenho certeza de que não vou precisar das regras da sociedade para ser feliz. - Do que você precisa? - Da cumplicidade na intimidade, do prazer de conviver com naturalidade, do companheirismo, da troca de idéias e de atitudes que alimentem a alma. É isso que eu quero. Só assim valerá a pena amar. 372 - Você se esqueceu do contato físico. - Também, é claro. Como é possível intimidade com alguém sem isso? Tenho observado que as pessoas se entregam quando sentem atração física e não questionam outros elementos importantes para um relacionamento bom. Para mim é preciso mais que isso. É preciso uma ligação de alma. - É difícil achar alguém que seja igual a você. - Você não entendeu. Não pretendo isso. Sei que cada um é um e não existem duas pessoas iguais. Mas o que eu sinto é que no companheirismo, na troca de intimidades, na ligação de almas, existe o respeito, o carinho, a compreensão, a admiração. Onde existe tudo isso, não há manipulação, mentiras ou competição. Apenas amor, troca afetiva, sustentação, paz. Nico respirou fundo, sentindo-se emocionado. Disse simplesmente: - Puxa, Amelinha, eu gostaria muito de sentir um amor assim. - Você? Com tantas garotas suspirando por você, nunca o vi interessado em ninguém. Como pode ser tão frio? Eurico já se apaixonou várias vezes, enquanto você não. Às vezes penso que é tão controlado que nunca será capaz de amar. Vai planejar tudo nos mínimos detalhes, como tem feito com esse seu plano de deixar esta casa quando se formar. - As aparências enganam. - Pois eu gostaria que se apaixonasse perdidamente a ponto de perder um pouco essa sua compostura bem-comportada. - O que ganharia com isso? - Teria certeza de que você não é indiferente, mas de carne e osso, como todo mundo. - Não diga isso. Sou mais frágil do que supõe. - Pois não parece. Sempre faz tudo certo, é calmo, muito diferente de mim e de Eurico. Tem sempre a resposta sensata e por isso acaba sempre nos convencendo a fazer do seu jeito. - Nunca pretendi ensinar nada. - Mas ensina. Sua segurança torna-o mais lúcido que nós. - Isso não é verdade. Talvez por eu ser pobre e ter tido desde cedo de lutar para sobreviver, eu possua certa experiência que vocês, que nunca precisaram preocupar-se em ganhar a vida, não têm. Mas, ainda agora, quando você chegou, eu estava mais inseguro que nunca, pensando em nossa separação. - Pois não pense. Tenho certeza de que nunca nos separaremos. Ele a olhou nos olhos e respondeu: 373 - Gostaria que isso fosse verdade. Não posso pensar em viver sem você... sem Eurico - emendou. - Nem eu. Nunca me separarei de você. - É o que você quer? -É. Os olhos dela brilhavam emocionados e Nico sentiu mais que nunca vontade de apertá-Ia de encontro ao peito e dizer o que lhe ia na alma. Não podia fazer isso. Controlou-se e procurou disfarçar. - Quando você se casar com um moço rico e bem-posto, não se lembrará mais de mim. - Nico! Estou falando sério. Nem pense em se mudar de nossa casa. Abra seu consultório, faça até uma clínica de psicologia depois que se formar, mas continuará morando aqui. Não abro mão disso. Tenho certeza de que o resto da família também não. O que seria de nós sem você? Eurico não saberia o que fazer da vida; e eu, quem irá me apoiar quando eu resolver ser bailarina? Está decidido. Você não irá embora. Não vou deixar. Nico sorriu. A veemência com que ela desejava que ele continuasse na casa emocionava-o. Não tocaram mais no assunto, porém apesar disso a sombra da separação rondava os pensamentos de Nico, inquietando-o, fazendo com que ele chegasse a desejar que o tempo não passasse para que esse dia nunca chegasse. 374 Capítulo 27 Amelinha entrou em casa eufórica procurando por Nico. A empregada informou que ele não chegara ainda. - Vou tomar um banho. Assim que ele chegar, avise-me. Não vá esquecer! Quando ele entrou, Maria deu o recado. - Está bem. Vou falar com ela. Fazia seis meses que ele havia se formado, ficara uma semana com a família no interior e voltara a São Paulo para começar a trabalhar. Alugara duas salas e montara seu consultório, onde já tinha alguns clientes, e o movimento melhorava a cada dia. Começou a ganhar mais, vestia-se melhor. Pensou em mudar-se da casa de Eulália, mas tanto ela quanto Norberto insistiram para que ele ficasse. Alegavam que o tinham como um filho e não queriam privar-se de sua companhia. - Enquanto você for solteiro, não o deixaremos sair. Eu só abriria mão se fosse para você morar com sua mãe. Mas sua família não deseja morar em São Paulo e você pretende trabalhar aqui. Portanto só vai se mudar quando se casar, isso se quiser. - Obrigado, Dona Eulália. Mas vocês já fizeram muito por mim. Não desejo abusar. - Fizemos uma troca maravilhosa, e nessa troca tivemos mais lucro do que você. Só a recuperação de Eurico vale tudo. E não é apenas isso. Conheço meu filho. É um menino bom, inteligente, mas um tanto fraco. Sem sua constante presença e seu bom senso, talvez ele hoje não estivesse tão bem. Tenho certeza de que tanto ele quanto Amelinha sofreriam muito se você nos deixasse. Por isso, peço-lhe que continue conosco. - Está bem, Dona Eulália. Para dizer a verdade, eu deveria me sustentar, agora que ganho meu próprio dinheiro, mas sofreria muito se precisasse deixar vocês. - Ainda bem, meu filho. Fico aliviada. Não se fala mais nisso. Nico tomara-se um moço elegante, bonito, fino. Vestia-se bem e estava economizando. Desejava comprar uma bela casa para a família. Subiu para o quarto, trocou de roupa, passou pelo quarto de Eurico, que ainda não havia chegado. Ele ainda tinha mais dois anos de faculdade. Bateu no quarto de Amelinha, que imediatamente abriu: 375 - Nico, temos de conversar! Aconteceu uma coisa maravilhosa! - O que foi? - A peça na faculdade. Hoje foi lá aquele diretor de que eu falei. Ele é profissional mesmo. Já dirigiu muitas peças. Lembra aquela que fomos ver no mês passado? - Lembro. - Foi dirigida por ele! O diretor da faculdade contratou-o para nos dirigir. Nem acreditei! Estávamos ensaiando quando ele apareceu, sentou-se lá calado. Ninguém sabia quem ele era. Quando paramos, o Sr. Gabriel nos chamou e apresentou-o. - Que bom! Essa peça vai ser um sucesso. - E não é só! Entre e sente. Amelinha arrastou-o para dentro do quarto e forçou-o a sentar-se. - O que foi? Você me assusta! - Não via a hora de lhe contar. Sabe o que ele fez? Disse que já havia lido a peça e que eu fui escolhida para o papel principal. Fiquei muda. Minhas pernas tremiam, pensei que fosse desmaiar. - “Você acha que serei capaz?" - eu disse trêmula. - Você é perfeita para o papel - respondeu ele. - Aí me perguntou se eu estava disposta a estudar muito. Disse que eu estava muito crua e precisava treinar bastante. Se eu realmente quisesse me dedicar, ele me ajudaria ensinando o que pudesse. Marcou já um ensaio para amanhã. Já pensou, Nico? - Parabéns. Esse diretor deve ser muito bom. Viu logo que você tem talento. - Você acha? - Claro. Ele não perderia tempo com você se não fosse isso. - Puxa, Nico. Vou fazer o papel da protagonista. Eu, que me contentaria com uma ponta. Parece um sonho. Trouxe o roteiro para estudar. Você pode me ajudar? - Claro. Quando quer começar? - Agora mesmo. Vamos para o salão. Seu rosto corado e o brilho de seus olhos tomavam-na mais encantadora, e Nico precisou se controlar para não beijar aquele rosto que tanto amava. A cada dia ficava mais difícil para ele controlar seus sentimentos. 376 A proximidade dela, sua espontaneidade abraçando-o, segurando seu braço, confidenciando seus pensamentos íntimos atraíam-no cada dia mais. Dizia para si mesmo que Amelinha o queria como a um irmão e não deveria alimentar nenhuma esperança. Acreditava que, se ela viesse a descobrir o que ele sentia, se afastaria. A esse pensamento, Nico estremecia de pavor. Ele haveria de sepultar esse amor no coração, porque só assim poderia continuar a desfrutar não só do carinho dela mas também da amizade de toda a família. A partir daquele dia eles começaram os ensaios. Ela ia para a faculdade de manhã, almoçava lá mesmo e ficava para os ensaios com o diretor e com o elenco. Depois do jantar, ela e Nico iam para o salão de festas da casa e ensaiavam. Eurico divertia-se vendo-os representar, porque, enquanto Amelinha fazia somente a protagonista, Nico era forçado a fazer todos os outros personagens, inclusive os femininos. A princípio eles haviam insistido para que Eurico participasse, mas ele recusara: - Não tenho paciência para esses salamaleques de teatro. Estou ocupado com um teste importante que ocupa todo o meu tempo disponível. - Mas você tem algumas noites livres - disse Nico. - Você disse bem. Eu tenho algumas noites livres e não vou gastá-Ias dessa forma. Prefiro a companhia de Elvira. Aliás, esta noite vamos ao cinema e Dalva irá com ela. Eu contava que você fosse conosco. Afinal ninguém gosta de segurar vela! - Nada disso - protestou Amelinha. - Nico vai ficar comigo ensaiando. - Veja como ela fala! E você deixa? Ela manda e você não reage? - provocou Eurico. - Não estou mandando. Acontece que Nico combinou comigo de ensaiar sempre que ele pudesse. Depois, se fosse para sair com alguém interessante eu entenderia, mas com Dalva... - O que é que tem Dalva? É bonita e educada. Além de tudo, EIvira disse-me que ela está caidinha por Nico. É sopa no mel! - Não acredito que ele se interesse por aquela lambisgóia. Eurico sacudiu os ombros e tentou ignorar as palavras dela: - E então, você vem comigo? - Não, Eurico. Eu prometi ensaiar com ela. Não temos muito tempo. Falta apenas um mês para a estréia. 377 Fingindo não perceber o olhar triunfante da irmã, Eurico comentou: - Puxa! Até parece que é você quem vai trabalhar na peça! Por que não fala com o diretor? Pode ser que ele o deixe fazer uma ponta. Sem se aborrecer com o tom maldoso dele, Nico tornou: - Não fique zangado comigo. Explique a Dalva que hoje não poderei ir. Irei outro dia. - Nesse caso também não vou. Telefonarei para Elvira. Nico colocou as mãos nos ombros de Eurico, olhando-o nos olhos enquanto dizia: - Comigo não pega. Conheço muito bem esse seu jeito de coitado. Não vou me sentir culpado de nada. Por isso, é melhor não entrar nessa. Vá com elas ao cinema, divirta-se e pronto. Não vou sair com você apenas para que não perca sua noite. É você quem deve se dar ao prazer de fazer o que gosta. Não eu. Eurico começou a rir, depois comentou: Sei porque gosto de sair com você. Depois, Dalva vai ficar decepcionada. - Agora você quer que eu me sinta culpado e fique com pena dela. Não temos nenhum compromisso, nem sequer a convidei para sair. E se ela ficar frustrada é porque criou expectativas sem fundamentos. Eu vou ensaiar com Amelinha e está decidido. - Está bem. Pelo que estou vendo, você leva esse negócio de teatro a sério mesmo. Nesse caso, vou indo. Ele saiu e os dois continuaram ensaiando. A estréia da peça no teatro da faculdade foi um sucesso, a tal ponto que o grêmio decidiu repetir o espetáculo vários sábados seguidos. Por causa disso, começaram a pensar em levar a peça a outras faculdades. Amelinha não pensava em outra coisa, e perdeu completamente o interesse pelos estudos. - O que eu quero mesmo é ser atriz! - confidenciou a Nico entusiasmada. - Você não sabe o que é pisar naquele palco, representar, sentir o interesse da platéia, seus aplausos. Nico coçava a cabeça e dizia: - Pelo menos termine a faculdade. Assim seu pai não ficará tão contra. - Ele pode ficar contra, mas sei o que quero! 378 Nico olhava e não respondia. Por um lado não queria que Norberto se aborrecesse e implicasse com a vocação dela, mas por outro, quando a via representando com naturalidade, como se sempre houvesse feito isso, vivendo seu papel com brilho e capacidade, olhos brilhantes de excitação ao colher os aplausos entusiasmados da platéia, sentia que essa era sua vocação. Sabia que chegaria um dia em que ela seguiria esse caminho e que ninguém a deteria. O problema apareceu no fim do ano, quando ela não conseguiu aprovação e o pai descobriu o quanto ela havia faltado às aulas. Irritado, chamou-a para uma conversa na qual tentou fazê-Ia compreender a necessidade de terminar os estudos. Amelinha, entretanto, havia tomado uma decisão. Recebera um convite para ingressar no teatro profissional. O diretor reservara-lhe um papel que não era o principal, mas tinha boas possibilidades, e ela, entusiasmada, aceitara-o. Não disse nada aos pais, na tentativa de retardar o conflito que sentia inevitável, mas aproveitou a ocasião para se colocar. - Papai, vou deixar a faculdade. Desejo ser atriz. - Nada disso, Amelinha! Você vai terminar os estudos. Se tivesse estudado, teria apenas mais um ano para concluí-Io. Mas, como foi reprovada, terá dois. - Não adianta, papai. Não sinto vontade de estudar. Não tenho vocação para lecionar. Escolhi essa carreira só para fazer a vontade de vocês, mas a cada dia percebo que não é isso que desejo fazer. - Ser educadora é uma nobre profissão, muito diferente do que ser uma atriz de segunda categoria de teatro. - É uma nobre profissão para a qual não tenho nenhuma inclinação. Eu tenho alma de artista, papai. Sempre senti desejo de trabalhar as emoções, de transmitir sentimentos, de entender os problemas de relacionamento, de experimentar situações como se fossem minhas, de compreender como a vida funciona. Norberto olhou-a admirado com sua veemência. Mas foi irredutível: - Você não vai abandonar os estudos. - Papai, é inútil gastar mais dinheiro com essa faculdade. Eu aceitei um convite para ingressar no teatro profissional, já tenho os documentos. É minha vocação e preciso dedicar todo o meu tempo a ela. Não terei condições de estudar nem de freqüentar as aulas. - Eu a proíbo de fazer isso. - Sinto que não aprove, papai, mas eu já o fiz. Norberto tentou de todas as formas convencê-Ia, inutilmente. Inconformado, procurou Eulália, para quem apelou a fim de conseguir o que pretendia. Amelinha estava decidida e não voltou atrás. 379 Norberto, nervoso, pretendia impedi-Ia a todo custo, mas Eulália conseguiu contornar, afirmando que era um capricho da filha. Era uma carreira difícil e são raros os que conseguem sucesso. Por isso achava melhor dar tempo a que ela compreendesse e voltasse atrás. Quando percebesse que o sucesso não vinha, certamente perderia o entusiasmo e essa ilusão passaria. Mas não passou. Amelinha dedicou-se inteiramente ao trabalho, freqüentando cursos com grandes atores, levando muito a sério sua carreira. Levantava cedo, ia para o curso de dança. Quando não estava no teatro ensaiando, estava estudando não só suas falas na peça mas também a vida dos grandes atores, seus sucessos e fracassos. Nico era seu companheiro habitual. Eurico ia com eles de vez em quando, mas preferia dedicar-se a outros entretenimentos. Bonita, com talento e carisma, ela brilhou nos palcos e o sucesso apareceu, ao contrário do que seus pais esperavam. Surgiram viagens, contratos, fotos em revistas da moda, e Amelinha viu-se envolvida em muitos compromissos. Por causa disso, aos poucos foi se afastando não só da família mas também de Nico, que vibrava com cada sucesso dela, mas sentia muita falta de sua companhia. Ele estava indo bem no trabalho, era muito procurado como psicólogo. Nos dois anos de formado, ele economizara mas ainda não juntara o suficiente para comprar a tão sonhada casa para a mãe. Amelinha ausentava-se, e ele se sentia sozinho. Eurico convidava-o para sair, mas ele recusava. Não encontrava prazer longe de Amelinha, e sofria em silêncio seu amor inconfessado. Fechava-se no salão, onde costumavam estudar juntos, montava o cavalete, escolhia tintas, pincéis e passava o tempo pintando. Era a forma de extravasar suas emoções, e suas telas ganhavam expressão, luz e força. Estavam no fim do ano e Eurico conseguiu formar-se. Alberto, Liana e os dois filhos chegaram para a solenidade. Amelinha, em viagem pela Argentina, onde estava se apresentando com a companhia, telefonara dizendo que ia fazer o possível para estar presente no grande dia. Nico colocou seus quadros em um canto e cobriu-os com panos. Deixou espaço livre para João Alberto e Rosa Maria brincarem. Alberto interessou-se em vê-los e não conteve sua admiração. Chamou Liana e comentou: - Veja que maravilha! Ele é um gênio. Como pode pintar um quadro assim sem nunca haver aprendido? Liana lembrou: 380 - Você sabe que ele foi pintor famoso em outra vida. Isso confirma as informações que temos. - É verdade. Isso não pode ficar oculto. Vou conversar com um amigo do jornal e vamos ver o que acontece. Alberto conversou com o colega, que foi até lá e ficou tão impressionado que em seguida levou um especialista, dono de uma galeria de arte, para vê-los. Depois de conversar com Nico, ele o convidou a fazer uma exposição. Para surpresa de todos, Nico hesitou. - Não sei se vale a pena. Para isso eu teria de me dedicar mais, talvez estudar um pouco. Acho que não estou pronto. - Nada disso. Você está mais do que maduro. Há muitos pintores formados em escolas de belas-artes que não têm sua força. Faço questão de organizar uma exposição. Ele ainda hesitava. - Eu terei de pintar mais alguns, e pintura para mim não é obrigação. Não sei se quero fazer isso. - Façamos uma coisa. Daqui a quinze dias tenho uma exposição em que apresentarei vários artistas. Se me permitir, podemos expor alguns de seus trabalhos e vamos ver como o público vai recebê-Ios. - Está bem. Se insiste... Escolha os que quiser e pode levar. Depois que eles se foram, Alberto considerou: - Pensei que você fosse ficar contente em fazer uma exposição. Entretanto, notei que ficou hesitante. Por quê? Não confia em sua arte? - Não sei. Mas ao pensar em expor meus quadros sinto um aperto no coração! Pintar para mim é tão natural como respirar. Sempre que olho as coisas à minha volta, até as pessoas, vejo-as retratadas em cores, como se ganhassem forma, força, colorido, expressão. A pintura para mim é um canal para extravasar meus sentimentos, minhas emoções. Se estou alegre, eu pinto; se estou triste, eu pinto também. E dessa forma. consigo equilibrar meu espírito. - Talvez você tenha muito de sua intimidade nessas telas e não deseje que os outros .as vejam. - Pode ser. - Você é alegre, bem-disposto, nunca o vi queixar-se, mas reconheço que nunca fala de seus sentimentos. É fechado. Não troca confidências, como Eurico ou Amelinha. - Não acredito que alguém sinta interesse em saber o que vai em meu coração. 381 Alberto colocou a mão em seu ombro e, olhando-o nos olhos, respondeu: - Eu sinto, Nico. Saiba que o admiro muito. Queria que soubesse que tudo quanto se relaciona à sua felicidade me interessa de verdade. E várias vezes tenho sentido que há alguma coisa dentro de você que coloca um brilho triste em seus olhos. O que é? Nico baixou a cabeça pensativo, ficou calado por alguns segundos, depois considerou: - Está dando para notar? - Você disfarça bem, mas eu o conheço muito. - É, deixar de ser criança tem seu preço. - Você é um vencedor. Nasceu em uma família pobre e conseguiu subir na vida graças a seu esforço, seu trabalho, sua determinação e coragem. Você só tem motivos para alegrar-se. Além disso, é estimado e respeitado. - Eu sei. Todos os dias agradeço a Deus e a todos vocês que me ajudaram a conseguir o que possuo. Saiba que sou muito agradecido à vida, que me deu muito mais do que mereço. - Se não é isso, o que é? Pelos olhos de Nico passou um brilho de emoção. - Minha mãe sempre dizia que, quando o mal não tem remédio, remediado está. Portanto, não adianta falar sobre isso. - Sua mãe é sábia e sabe o que diz. Contudo, nós nos enganamos muitas vezes quando acreditamos que um mal não tem remédio. E nisso é que reside o perigo. Eu já vi muitos doentes desenganados curarem-se enquanto outros aparentemente saudáveis morriam de repente. Nico sorriu: - Eis aí nosso querido professor que assume a antiga posição. - Não fuja do assunto, nem queira me confundir. Habituei-me a ler você como um livro aberto, e nunca vai poder me esconder nada. - Agradeço seu interesse, mas, creia, estou bem e não precisa preocupar-se. - Está bem. Não deseja falar, eu respeito. Mas saiba que estarei sempre aqui do seu lado para o que der e vier. Quando quiser conversar, serei todo ouvidos. O dono da galeria escolheu cinco quadros, mandou colocar neles luxuosas molduras e os expôs. O sucesso foi absoluto. Alguns críticos que a princípio haviam ignorado o novo pintor começaram a interessar-se. 382 Houve um dos quadros que saiu em importante magazine e, desde então, Nico não teve muito tempo para trabalhar em seu consultório. As encomendas sucediam-se e, por fim, ele achou que estava abusando fazendo o salão da casa de Eulália de ateliê e alugou uma pequena casa para onde levou seu material de pintura. Nesse tempo, absorveu-se inteiramente pela pintura, porque, enquanto pintava, sentia-se relaxado, esquecia o resto do mundo e também seu amor por Amelinha. Ela voltara a São Paulo e continuava cada dia mais conhecida como atriz. Foi folheando uma revista de moda na casa de Eulália que Nico foi tomado de pânico. Havia uma foto de Amelinha ao lado de um ator famoso e a notícia dizia que eles estavam apaixonados. O que ele sempre temera acabou acontecendo. Procurou controlar-se. Sabia que um dia ela se apaixonaria e ele teria de se conformar. Mas, apesar de seu esforço, não se conformou. Da janela de seu quarto viu quando ela chegou, depois da meia-noite, acompanhada pelo moço do retrato. Ele abriu a porta para ela descer, abraçaram-se e beijaram-se. Nico pensou que fosse desmaiar de angústia. Afastou-se da janela tentando acalmar-se. Sentiu vontade de ir falar com ela, dizer que ela não podia amar outro homem, que era a ele que ela pertencia. Passou a mão pelos cabelos tentando controlar-se. Ouviu os passos dela na escada e o barulho da porta de seu quarto fechando. Respirou fundo, resolveu deitar-se. Mas ficou revirando-se na cama. Eram duas da madrugada quando Nico, insone, nervoso, se levantou e foi à cozinha para tomar água. Sentia o peito oprimido e a respiração agitada. Apanhou o copo, encheu-o e sentou-se na copa tomando a água devagar, respirando fundo. A dor era muito grande. Ele percebeu que não poderia suportar ver sua amada nos braços de outro. Então resolveu afastar-se, ir embora dali. Já economizara o suficiente para construir uma nova casa para a família no terreno que possuíam. Iria para Sertãozinho. Não pretendia morar com a família. Estava disposto a viver sua vida a seu modo, manter sua privacidade. Lá, no sossego da pequena cidade onde nascera, continuaria pintando seus quadros, mandando-os para a galeria em São Paulo. Ficar longe de Amelinha seria um sacrifício doloroso, mas vê-Ia nos braços de outro seria um tormento maior. Não se sentia com forças para enfrentar isso. 383 Ouviu passos, e Amelinha envolta em um robe apareceu na copa. Vendo-o, assustou-se: - Puxa! É você? O que está fazendo aí, sentado no escuro? - Tomando água e pensando na vida. A claridade que vinha do jardim entrava pelo vitrô e ela não acendeu a luz. - Também senti sede. Apanhou um copo de água, sentou-se ao lado dele e continuou: - Foi bom encontrá-Io. Quero conversar. Preciso tomar uma decisão. Nico estremeceu. Tentou desviar o assunto: - É tarde. É melhor irmos dormir. - Estou sem sono. E, pelo jeito, você também. Faz tempo que não conversamos. Tenho sentido saudade. Ela havia colocado a mão sobre o braço dele e aproximado seu rosto a tal ponto que ele podia sentir seu hálito. Falava baixinho para não acordar o resto da família. - Eu também. Pensei que fosse só eu a sentir falta de estarmos juntos. Você tem andado tão ocupada... - Você também. É bom estarmos aqui, na penumbra, conversando como antigamente. Você se lembra quando íamos conversar no quarto de Eurico lá na mansão? - Foram os melhores dias de minha vida. Nunca esquecerei. Gostaria que o tempo não houvesse passado e fôssemos crianças ainda. - Pois eu não. Gosto de ser adulta, independente. Por mais saudade que tenha, agora estou fazendo o que quero, consegui seguir a carreira que sempre sonhei e meus pais estão conformados. Eu seria uma péssima professora. Do jeito que você falou, deu-me a impressão de que se sentia mais feliz naqueles tempos do que agora. - É verdade. - Não entendo. Você é um vencedor. Está ficando famoso. Tenho ouvido comentários elogiosos sobre suas telas. Você é um bom psicólogo, mas como pintor é um gênio. Não está contente? - Estou. É que, quando me recordo de nossa infância, sinto saudade. É só. - Você estava pensando na vida. Fazendo projetos para o futuro? - É. Decidi voltar para Sertãozinho. - Você?! No momento em que está conquistando fama e reconhecimento quer enterrar-se no interior? Pensei que planejasse viajar, ir para a Europa, ver o mundo como sempre sonhou, e você quer fazer o contrário? Não acredito. Alguma coisa errada está acontecendo. O que é? 384 - Não está acontecendo nada. Estou um pouco cansado da cidade. Creio que no interior terei mais inspiração para trabalhar. Vamos falar de você. Até quando a peça ficará em cartaz? Li que está nos últimos dias. - Ficaremos mais duas semanas. Para dizer a verdade, também ando um pouco cansada. Gostaria de tirar umas férias. Mas não para ir ao interior. Gostaria de ir para um lugar calmo e em boa companhia. Nico estremeceu. Ela prosseguiu: - Hoje Wilson me pediu em casamento. Faz algum tempo que estamos saindo juntos. Ele sugeriu aproveitarmos essas férias para firmarmos nosso compromisso. Quer aproximar-se da família e convidou a todos para irmos a uma fazenda de seu pai. Nico ficou calado. Tinha receio de que, se falasse, ela notasse sua emoção. Não conseguindo dominar a pressão, levantou-se de repente e ela fez o mesmo dizendo admirada: - O que foi? Está sentindo alguma coisa? Nico sentiu um nó na garganta, e, seja pela cumplicidade da penumbra ou pela proximidade dela, não conseguiu conter-se. Abraçou-a com força, beijando-a apaixonadamente nos lábios. Ela estremeceu, e ele, sentindo toda a força de sua paixão contida, beijou-a diversas vezes apertando-a de encontro ao peito. Ela se surpreendeu, mas não o repeliu. Ao contrário, correspondeu, e Nico, sentindo-a trêmula em seus braços, esqueceu todos os receios e ponderações a que se habituara. Quando conseguiu acalmar-se, largou-a dizendo baixinho: - Desculpe, mas não pude conter-me. Eu amo você, sempre amei. Sei que é impossível. Reconheço a distância que nos separa. Mas, quando você falou que ia casar-se, não pude controlar-me. Amelinha aproximou-se dizendo com doçura: - Nico, por que nunca me disse? Por que deixou que eu pensasse que éramos como irmãos? - Porque é como você me vê. Sei que não me ama. Nunca percebi nada que pudesse fazer-me acreditar que isso fosse possível. Mas fique tranqüila. Irei embora e nunca mais a incomodarei com meus sentimentos. - Nico, eu disse que fui pedida em casamento, mas não que havia respondido sim. Gosto de Wilson, ele é atencioso, agradável, carinhoso. 385 Mas, amor, não sinto por ele. Por isso hesitava em aceitar seu pedido. Não quero que vá embora por minha causa. Agora sei que não vou aceitar esse casamento. - Não confunda seus sentimentos, Amelinha. Minha falta de controle perturbou-a. Ela se aproximou ainda mais dele, olhando-o nos olhos e dizendo: - Nico, já tive alguns namorados, já me entusiasmei e pensei até estar apaixonada algumas vezes. Fui beijada, mas nunca senti com nenhum deles a emoção que seu beijo despertou. Ainda não sei o que é, mas foi como se uma força maior me arrebatasse e eu queria que nunca acabasse. Ele a abraçou novamente e a beijou com paixão. Naquele momento esqueceram-se de tudo que não fosse aquele calor no corpo, transbordando, o coração batendo forte e descompassado e a vontade de que aquele momento fosse eterno. Então Amelinha puxou Nico pela mão e levou-o até seu quarto. Fechou a porta e lá se entregaram inebriados às emoções que os uniam. O dia estava amanhecendo quando Nico abriu os olhos. Amelinha, cabeça encostada em seu peito, estava adormecida e ele ficou alguns minutos prendendo a respiração, comovido com a proximidade dela, olhando o rosto que amava, sem se mexer, com receio de acordá-Ia e acabar com aquele encantamento. Recordando-se do que acontecera, sentiu uma onda de pavor. Ele sucumbira e arrastara Amelinha com sua paixão. O que diria ela quando acordasse e se desse conta do que acontecera? Eles haviam se amado com paixão, mas ele temia que quando o entusiasmo do momento passasse ela o odiasse. Por que não pôde controlar-se? Ele fora recebido naquela casa como um filho e estava traindo a confiança das pessoas que tanto amava. Remexeu-se inquieto, e Amelinha ainda adormecida abraçou-o com carinho, apertando-o de encontro ao peito. Emocionado, Nico beijou seus cabelos com amor, depois delicadamente a afastou, ela se virou para o outro lado e continuou dormindo. Com cuidado, Nico levantou-se e foi para seu quarto. Sentia-se culpado, mas ao mesmo tempo as lembranças dos momentos de amor que haviam vivido emocionavam-no. O que faria quando todos acordassem? Não se sentia com coragem de aparecer diante de Norberto e Eulália depois do que havia feito. O melhor era ir embora. 386 Escreveria uma carta a Dona Eulália avisando que fora até Sertãozinho ver a família. Era o melhor a fazer, porque dali para a frente não se sentia com forças de conviver com Eurico como um irmão, nem com Amelinha. Agoniado, sentindo o peito oprimido, Nico arrumou uma mala, escreveu a carta, colocou-a sobre a mesa da sala de jantar. Depois apanhou a mala e saiu sem fazer ruído, levando a tristeza e o remorso no coração. 387 Capítulo 28 Nico levantou-se e foi até a janela. O jardim da mansão estava lindo como sempre e ele se recordou quando pela primeira vez havia entrado lá, com o coração cheio de curiosidade, desejoso de conhecer o interior da casa. Fazia um mês que ele estava hospedado lá a convite de Liana e AIberto, que não o deixaram procurar outro lugar para ficar. Nico falara de sua intenção de morar em Sertãozinho durante algum tempo e de alugar um lugar para montar seu ateliê. Agradecia o convite e o aceitaria enquanto procurava um espaço só seu. Agora que tinha recursos, desejava realizar esse sonho. Sua mãe não quisera mudar-se das terras da família e Nico construíra graciosa casa já em fase de acabamento, e eles estavam muito contentes. Cada filho teria seu quarto, e eles não viam a hora em que a casa ficasse pronta. Depois que deixou São Paulo, Nico nunca mais viu Amelinha. A princípio esperava que ela desse notícias, que o procurasse, ainda que fosse para reprovar sua atitude, mas ela não fez nada, nem um telefonema, nem um bilhete. Seu silêncio aumentava sua sensação de culpa, tornando-o triste e calado. Diante dos outros fazia o possível para esconder seus sentimentos, e, se conseguia diante de algumas pessoas, não enganava sua mãe. Uma noite em que não conseguira conciliar o sono, ao ouvir o galo cantar levantou-se e foi até a casa da mãe. Queria sentar-se mais uma vez a seu lado em baixo da mangueira, naquele caixão tosco que continuava no mesmo lugar, tomar aquele café gostoso e conversar com ela como nos tempos de infância. Como foram bons aqueles momentos de intimidade e confidência, só os dois no silêncio da manhã que despontava, ouvindo o chilrear dos pássaros e o cacarejar das galinhas, deixando o pensamento fluir, sonhando com o futuro. O futuro havia chegado, ele conseguira realizar muitas coisas com as quais havia sonhado. Entretanto, embora elas fossem boas, não haviam conseguido dar-lhe a felicidade que acreditaria obter com elas. É que ele não pensara no amor, nem como esse sentimento o deixaria vulnerável, estabelecendo outros objetivos que se tornariam importantes para a conquista da felicidade. Agora ele sabia, mas não via possibilidades de realizar o que sonhava. 388 Chegou à casa da mãe sentindo o cheiro do café que vinha da cozinha. Entrou, beijou-a e, como fazia antigamente, apanhou uma caneca, serviu-se direto do coador e foi sentar-se em seu lugar preferido. Ficou lá, sorvendo pequenos goles de café, observando os primeiros raios de sol que coloriam o céu e as últimas estrelas que desapareciam conforme a claridade aumentava. Ernestina logo foi sentar-se a seu lado, e ali, juntos como antigamente, Nico não teve receio de falar sobre o amor que tumultuava seu coração, os motivos que o fizeram voltar para sua cidade e o que ele pensava fazer no futuro. Ela escutou em silêncio, olhando-o com carinho, sem perder uma palavra. Quando ele terminou, disse apenas: - Você estudou, melhorou de vida, tem diploma de faculdade, é um artista de nome, mas ainda não deixou de ser aquele menino pobre que ia na porta da venda do Seu Nicolau à espera de carregar alguma compra e ganhar alguns níqueis. Na verdade, Nico, você nunca saiu daqui. - Por que está dizendo isso? - Porque essa é a verdade. Embora você hoje pareça outra pessoa, seja instruído, ganhe dinheiro, se vista como um doutor, nunca deixou de ser o Nico, o menino pobre, cuja mãe é lavadeira e o pai um incapaz. Então eu pergunto: de que te serviu tanto esforço? De que te serviu trabalhar tanto se o teu coração continua o mesmo? - Mãe, não estou entendendo. - Está, sim. Você fez tudo pensando em nos ajudar, em conquistar o respeito dos outros, e conseguiu. Mostrou que é inteligente, capaz, honesto e trabalhador. Mas se esqueceu de ver todas essas qualidades em você. O tempo todo ficou se sentindo menos do que o Eurico ou a Amelinha, pensando que estava com eles de favor. - Mas essa é a verdade. Eles foram muito bons comigo, me respeitam e me estimam. - Não estou dizendo o contrário. Eles são maravilhosos. Durante anos me ajudaram com uma mesada generosa que aliviou o sofrimento da nossa família. Sou eternamente grata a eles por isso e considero eles amigos de coração. Entretanto, você só vê esse lado. Esquece como retribuiu ajudando o Eurico a recuperar a saúde, sendo sempre sincero e amigo. Meu filho, o teu orgulho está te cegando, e isso é que está te infelicitando. 389 - Orgulho?! Não, pelo contrário. Estou considerando minha real posição. - Qual é a tua real posição? Você é ainda aquele menino pobre, sem estudos, precisando da ajuda dos outros? Claro que não. Você hoje é um psicólogo, tem diploma universitário, é um artista de nome. Talvez até mais nome do que a Amelinha, que está lutando pra conquistar um lugar de atriz, mas que apesar de ser relativamente conhecida ainda não atingiu fama igual à tua como pintor. - Não é tanto assim. - É, sim. Tenho acompanhado pelos jornais e revistas. O Dr. Marcílio sempre me traz as reportagens sobre você. Não que eu dê importância a isso, porque a fama é uma ilusão passageira, mas você está se colocando no lado oposto, como se fosse um fracassado, e isso não é verdade. Você é um vencedor e é digno de se casar com a mulher que ama, se ela te quiser. - Está falando como mãe. - Não, meu filho. Você sabe que eu sempre digo a verdade. Nunca menti pra você. Repito, o teu orgulho está te confundindo. Você não é mais o Nico daqueles tempos, você agora é o Antônio Juventino dos Santos, psicólogo, pintor famoso. Está construindo uma casa pra tua família. Essa é a realidade. Mas, enquanto fica se depreciando, com medo de assumir aquilo que é, de deixar ir embora aquele menino pobre que você foi, não merece conquistar a felicidade. Vai ficar aqui, enterrado nessa pequena cidade, sofrendo, se machucando, perdendo tudo que conquistou. Você conseguiu progredir, isso pode acontecer a qualquer um, com esforço, perseverança e trabalho, mas manter esse progresso só será possível quando aceitar no teu coração que você é tão bom como qualquer pessoa. - Talvez tenha razão, mas para a família de Amelinha sempre serei Nico, o menino que eles ajudaram por caridade. Ernestina colocou a mão no braço do filho ao responder: - É você quem está se colocando nessa posição. Pensando dessa forma, nunca chegará a ocupar o lugar que gostaria naquela família. Nunca te ocorreu que eles podem te ver de outra forma? Que não fariam objeção e até se sentiriam felizes em casar a filha com você? Nico sobressaltou-se: - Eles nunca consentiriam. - O preconceito é teu. Como pode saber se nunca perguntou pra eles? Nem sequer teve coragem pra se abrir com o Eurico, que é mais do que um irmão pra você. 390 - Não teria coragem de tocar nesse assunto com ele. - Por quê? Onde está a tua sinceridade? - Depois, Amelinha não me ama. De que serviria falar sobre meus sentimentos? - Você me decepciona. Nunca pensei que fosse covarde. Nico endireitou-se no banco. Ela continuou: - Por que será que essa moça se entregou a você depois de alguns beijos? Será que ela é assim tão fácil? - Claro que não! - objetou ele. - Eu fui o primeiro... E é isso que me está atormentando. Ernestina foi à cozinha e voltou logo em seguida com mais café na caneca. - Quer mais um pouco? Como ele fez que sim com a cabeça, ela despejou um pouco na caneca dele. - Tem bastante açúcar. É bom pra acalmar. Então essa moça, que nunca tinha tido um homem, se entregou a você. Por que será? Não é curioso? - Acho que a perturbei com meus beijos, ela me tem amizade, ficou confusa... - E arrastou você pro quarto em seguida. Pelo que contou, foi ela quem te levou lá, não foi? - Foi. Ernestina suspirou. Meneou a cabeça negativamente várias vezes, depois tomou: - Você gosta mesmo dela? - Gosto. Sem ela a vida não tem mais valor. - Custo a acreditar. - Eu a amo mais que tudo neste mundo. Por que diz isso? - Porque se amasse mesmo não tinha desistido sem ao menos tentar. Fica aqui perdendo tempo sem saber a verdade. Fugindo como se tivesse praticado um crime. - O que posso fazer? Não tenho coragem para olhar Dona Eulália e o Dr. Norberto. Se souberem o que eu fiz, vão ficar furiosos. - Mais furiosos ficarão se descobrirem através de outras pessoas. - Ninguém sabe, a não ser ela e eu. - E se ela contar? - Não se atreveria. Teria vergonha. - Não sei. Ela pode ser mais corajosa do que você. 391 Nico remexeu-se no banco, inquieto. - Ela teria coragem? - Não sei. O que sei é que você gosta da Amelinha, dormiu com ela. Ao invés de fugir, o mais decente era pedir a moça em casamento pros pais. - Não teria coragem. - Pois ia ser o mais digno. - Ela não me ama. - Tenho minhas dúvidas. Mas o correto era pedir a moça em casamento. Se ela não aceitar, não vai ser culpa tua. Eles não vão ficar magoados com você. - Isso é verdade. Estou começando a pensar que tem razão. - Pensa, meu filho. Vai pra casa e reflete em tudo que eu disse. Consulta o teu coração e não fica com medo de fazer o que tem vontade. A sinceridade é sempre a melhor escolha. Quantas vezes perdemos a chance de felicidade com medo de enfrentar algumas dificuldades? Você ama a Amelinha. Desejar casar com ela é natural. - Ela vai recusar... - Se recusar, pelo menos você tentou. Não fugiu nem perdeu por omissão. Nico deu um beijo no rosto da mãe e levantou-se: - Vou pensar. Prometo. Ele mal dormiu naquela noite, mas, quando voltou para a mansão, não sentiu sono, ficou pensando em tudo quanto Ernestina lhe tinha dito. Reconheceu que era verdade. Apesar das conquistas que fizera na vida, no fundo continuava vendo-se como o menino pobre e desvalido que precisava da ajuda dos outros para sobreviver. Reconheceu que estava vivendo um momento decisivo: ou assumia e via-se como uma pessoa que subira na vida e poderia ainda progredir mais, ou continuaria a julgar-se socialmente inferior. Nesse caso, sua mãe tinha razão: de nada lhe valera ter conquistado o diploma e o sucesso. As palavras dela continuavam se repetindo em seus ouvidos e ele não conseguia esquecê-Ias. Por fim decidiu. Voltaria a São Paulo e falaria com Amelinha. Afinal, havia se afastado sem nenhuma palavra sobre o que acontecera entre eles. Ela deveria estar magoada. Poderia estar pensando que ele desejava escapar à responsabilidade. A esse pensamento, sentiu-se inquieto. Sim, ele precisava voltar e enfrentar as conseqüências do que fizera. 392 Preparou a bagagem, despediu-se de Liana e Alberto e passou pela casa de Ernestina para contar-lhe sua resolução. - Estou contente que tenha decidido enfrentar a situação. Não é bom deixar mal resolvido um assunto tão importante como o teu. - É. Foi o que pensei. A senhora estava certa. Sei que Amelinha não me ama, acredito que Dona Eulália e o Dr. Norberto não gostariam que ela se casasse comigo, mas diante do que aconteceu, tenho de me posicionar. Primeiro, falarei com ela para dizer que não pretendo fugir à minha responsabilidade. Vou pedi-Ia em casamento. Desejo saber também o que ela pensa sobre o que aconteceu entre nós, se devo confessar a seus pais ou se ela prefere manter em segredo. - Você fala como se ela já tivesse recusado o teu pedido de casamento. E se ela aceitar? Se disser que gosta de você? Nico passou a mão pelos cabelos inquieto e suspirou fundo. - Claro que ela vai recusar. Durante tantos anos de convivência sempre me viu como um irmão. Ninguém deseja casar-se com um irmão. Ernestina sorriu. - Se eu fosse você, Nico, não tinha tanta certeza. As mulheres são imprevisíveis. - Nesse caso acho difícil. Apesar disso, estou disposto a enfrentar seja o que for. Afinal, aconteça o que acontecer, pelo menos as coisas se definem, é melhor do que ficar aqui me culpando. - Vai com Deus, meu filho. - Obrigado, mãe. Beijou Ernestina e saiu. Dirigindo seu carro de volta à capital, Nico ia pensando no que poderia estar acontecendo na casa de Eulália. Eurico ligara quase todas as noites contando as novidades e perguntando quando ele voltaria. Chegaria de surpresa. Passava das duas da tarde quando Nico chegou. Foi recebido com alegria por Eulália, que comentou: - Ainda bem que voltou. Espero que resolva ficar, porque Eurico anda impossível. Fala em você o tempo todo. "Porque vou ligar para Nico e contar isso... Vou perguntar quando ele estará de volta..." Vivia me pedindo para ir buscar você. Quanto a Amelinha, parece uma sombra. Não sei que bicho a mordeu. Anda de mau humor, quieta, o que não é seu costume. Ando desconfiada de que é alguma coisa de namorado. - Vai ver que brigou com ele. - Pode ser. Ele não tem aparecido para buscá-Ia. Acho que sua presença poderá ajudá-Ia. Comigo ela nunca se abre. Com você sempre foi diferente. Sei que conta todos os seus segredos. Por isso lhe peço: veja se consegue saber o que está acontecendo com ela. Não agüento mais vê-Ia tão apática, distraída e triste. 393 Tentando esconder a preocupação, Nico respondeu: - Conversarei com ela quando chegar. - Ela está no salão. Devia ter ido ensaiar, mas disse que não estava muito bem e queria descansar um pouco. Isso me deixou mais desconfiada de que algo não vai bem com ela. - Vou levar a bagagem para o quarto e depois falarei com ela. - Isso, meu filho. Você tem feito muita falta aqui em casa, viu? Todos sentimos saudade dos tempos em que estávamos todos juntos. - Eu também sinto saudade. Foi um tempo bom. - Foi, sim. Agora vá, meu filho. Deve estar cansado da viagem, com fome. Deixe a mala no quarto e venha tomar um lanche antes de falar com Amelinha. - Obrigado, mas eu comi na estrada. Estou bem. Não se preocupe. Nico subiu, deixou a mala, lavou-se, trocou a camisa um tanto suada e empoeirada da viagem e procurou Amelinha no salão. Abriu a porta e espiou. Ela estava deitada no sofá tendo ao colo um maço de papéis, olhos fechados. Estaria dormindo? Ele entrou e aproximou-se dela, chamando: - Amelinha. Ela abriu os olhos e disse: - Você! Você voltou! Colocou os papéis sobre a mesinha e sentou-se olhando para ele. - Voltei porque precisamos conversar. Ele se sentou ao lado dela no sofá. - Por que foi embora sem dizer nada? Sem desviar os olhos dos dela, que o fitavam firmes, ele respondeu: - Porque estava com medo. Senti-me culpado. Por não haver controlado minhas emoções, arrastei você a uma situação delicada. Devo-lhe desculpas por isso. - É só o que tem para me dizer? Que está arrependido? - Não. Vim para dizer-lhe que, se me aceitar, poderemos nos casar, embora seus pais possam se opor. - Por que se oporiam? - Você sabe. Não pertenço à mesma classe social que vocês. - E isso lhe dá o direito de decidir por nós? Você disse que me amava. Beijou-me com paixão. Está arrependido disso também? 394 Nico colocou a mão sobre o braço dela, dizendo nervoso: - Sabe, Amelinha, seus pais receberam-me nesta casa como um filho, e vocês me trataram como um irmão. Eu não tinha o direito de trair essa confiança. - Desde quando o amor acontece de acordo com as regras convencionais? Desde quando o amor entre duas pessoas livres e adultas é proibido? Se reconhece que o queríamos como se fosse da família, porque ocultou seus sentimentos e agora se envergonha deles? Será que esse amor não é uma ilusão? Será que não está confundindo nossa proximidade, nosso carinho, com amor? - Você está sendo cruel comigo. Eu gostaria de sentir por você apenas um carinho de irmão, mas o que fazer se quando me aproximo de você meu corpo treme, sinto desejo de abraçá-la, de beijá-la, de guardá-la em meus braços para sempre? Como posso explicar o que sinto e como me foi difícil ocultar esses sentimentos por perceber que você não sentia a mesma coisa? As lágrimas corriam pelo rosto de Amelinha, e Nico passou a mão pelo rosto dela como querendo enxugá-Ias e continuou: - Estou fazendo você sofrer. Não queria isso. Ela o fitou com os olhos molhados e rompeu em soluços. Nico não esperava por isso. Nervoso, abraçou-a dizendo: - Não chore mais, por favor. Não posso vê-la assim. Ela encostou a cabeça em seu peito e continuou soluçando. Ele alisava seus cabelos tentando acalmá-Ia. Por fim, Amelinha passou as mãos em seu pescoço, levantou sua cabeça e beijou os lábios dele, que inebriado retribuiu apertando-a de encontro ao peito, sentindo novamente dentro de si aquele turbilhão de emoções. Beijaram-se várias vezes. Nico estava trêmulo, emocionado. Notou que Amelinha, tanto quanto ele, não conseguia falar. Fez um esforço, tentou acalmar-se. Quando serenou um pouco, disse: - Eu amo você, Amelinha. Não é pela proximidade, nem pelo fato de estarmos sempre juntos. É amor de verdade. Faz tempo que descobri isso. Mas me contive porque você nunca demonstrou sentir atração por mim. - É que eu não sabia. Naquela noite, quando você me beijou, tudo ficou claro. Senti que o amava e foi por isso que o levei para meu quarto. Foi por amor! - Não está confundindo seus sentimentos, o carinho de irmão, a afinidade espiritual que sempre tivemos, com amor? 395 - Por que duvida de mim? Já lhe dei a maior prova que uma mulher pode dar. Depois, quando eu estava feliz, sonhando com nosso futuro, você foi embora sem uma palavra. Fiquei triste, cheia de dúvidas. Por que fez isso? - Senti-me culpado. Achei que a tinha induzido a fazer o que fez. Pensei na bondade e na confiança de seus pais que eu tinha traído. Fui embora com o coração partido. Sofri muito todo esse tempo. - E agora, por que voltou? - Porque resolvi deixar de ser aquele menino pobre que sempre fui e assumir o que sou hoje. Como pessoa que tem um diploma, uma profissão, que conseguiu realizar seu sonho proporcionando conforto e bem-estar à sua família, que tem, além de muito amor e carinho, condições de formar uma família e sustentá-la. Vim para pleitear a conquista mais importante de todas. Casar-me com você. Amelinha passou novamente os braços em torno do pescoço dele e beijou-o nos lábios com carinho. Depois se afastou um pouco e disse alegre: - Agora está falando verdade. Sempre admirei sua postura firme, sua lucidez, sabendo o que queria da vida, trabalhando para conquistar seus objetivos de maneira clara. Por isso, quando se colocou abaixo de mim, falou de diferença de classes, não entendi. O importante é o que você é, o que conquistou, com esforço, trabalho, perseverança e boa vontade. - Você se casaria comigo? - Depende. - Do quê? - De ver como encara esse casamento. Se for por amor, para ficarmos juntos toda vida, eu aceitaria; mas, se for apenas por causa do que aconteceu naquela noite, só para "reparar um erro", eu sofreria, mas diria não. Nico abraçou-a, beijando delicadamente seus lábios. - Passar o resto da vida com você é meu maior sonho. - Tem certeza? - Tenho. - Nesse caso, se me pedir, eu aceito. Beijaram-se longamente. Depois ele disse: - Bom, e agora? Terei de falar com seus pais. - É o primeiro passo. - Você acha que me aceitarão? - Vai ter de descobrir. - Vendo que ele franziu o cenho preocupado, ela sorriu e continuou: - Do jeito que eles gostam de você, será fácil. 396 A porta do salão abriu-se e Eulália entrou. Vendo-os abraçados, parou surpresa. Foi Amelinha quem falou primeiro: - Mamãe, Nico pediu-me em casamento e eu aceitei. Eulália abriu a boca e fechou-a de novo sem saber o que dizer. Nico interveio: - Dona Eulália, nós nos amamos. Descobrimos isso há algum tempo. Por isso fui embora. Pensei que estava abusando da confiança que tanto a senhora quanto o Dr. Norberto depositaram em mim. Mas, lá longe, sozinho, sofrendo, resolvi lutar por esse amor. Por isso voltei. Estou aqui. Conversamos, e Amelinha garantiu que também me ama. Pretendia conversar com a senhora e o Dr. Norberto juntos e falar de meus sentimentos e do que eu posso oferecer para a mulher que for minha esposa. Porém, já que fomos surpreendidos, acho melhor abrir meu coração. Eulália aproximou-se, olhando-os com interesse. Seus olhos brilhavam emocionados. Quando Nico se calou, ela disse: - Fez muito bem, meu filho, em voltar. Se vocês se amam de verdade, se pensam em casar-se, têm todo o meu apoio. Para ser bem sincera, ultimamente o futuro de Amelinha tem me preocupado. Ela foi sempre ajuizada, mas o ambiente onde trabalha é muito liberal. Há pessoas de todos os tipos. Várias vezes Norberto e eu conversamos sobre isso, sentindo receio de que um dia ela se apaixonasse pela pessoa errada e viesse a sofrer. Nós a amamos muito. Ela é nosso raio de sol, com sua alegria e beleza. Deixá-la com você, a quem amamos e confiamos, é para mim uma grande alegria e até certo alívio. Nico esforçou-se por segurar as lágrimas que estavam prestes a cair, mas não conseguiu. Elas lhe desceram pelas faces. Eulália abraçou-os com carinho. - Sejam felizes, meus filhos. Tenho certeza de que Norberto vai concordar comigo. - Obrigado, Dona Eulália. Depois de tudo quanto recebi da senhora nestes anos todos, ainda tenho este presente. Só Deus pode pagar o que tem feito por mim. Desde já tem minha promessa de que tudo farei pela felicidade de Amelinha. Eu a amo muito. - Eu sei, meu filho. Para dizer a verdade, estou me sentindo muito feliz. - Hoje, quando o Dr. Norberto chegar, farei o pedido. - Vou mandar fazer um jantar especial. Tenho certeza de que teremos muito a comemorar. Espere até Eurico saber! Ele vai ficar muito feliz. Estava reclamando tanto sua ausência. 397 - Também sinto falta dele. - Vamos tomar um café na copa. Quero saber tudo exatamente como aconteceu. Abraçados e alegres, eles foram até a copa, sentaram-se ao redor da mesa, trocando idéias, planejando o futuro. 398 Capítulo 29 O dia amanheceu lindo e todos na mansão acordaram cedo. Os empregados iam e vinham cuidando dos preparativos. Era o grande dia do casamento de Amelinha e Nico. Eles haviam decidido casar-se na igreja de Sertãozinho e depois a recepção seria na mansão. O ambiente era alegre e a expectativa grande. Norberto e a família haviam chegado na véspera. Os preparativos foram feitos por Alberto e Liana. Nico chegara dois dias antes e hospedara-se na casa de sua família. A casa que Nico mandara construir era espaçosa, arejada, mobiliada com conforto. Ernestina não lavava mais roupa para fora, mas não havia parado de trabalhar. Fazia doces tão gostosos que em pouco tempo sua fama ultrapassou os limites da pequena cidade e várias pessoas que passavam por Sertãozinho paravam em sua casa para comprá-Ios. Nico mandava-lhe dinheiro todos os meses e José havia tomado gosto pela plantação e pela criação de galinhas, ganhava dinheiro e contribuía para as despesas. Vendo a mãe às voltas com os doces na cozinha, Nico meneava a cabeça e dizia: - Você já trabalhou muito. Agora é hora de descansar. Ao que ela respondia: - Deus me livre de ficar preguiçosa! Não é do meu feitio. Depois, o Jaime já ajuda o Zé, mas a Nilce e a Neusinha não podem crescer sem trabalhar. Precisam aprender para valorizar a vida que têm. Você viu como elas já sabem fazer de tudo na cozinha? A Neusinha tem um gosto pra enfeitar os potes de doce que você precisa ver! Nico sorria feliz. Ele sabia que Ernestina nunca iria ficar sem trabalhar. O único que não havia mudado era Jacinto. Preso à sua cadeira de rodas, continuava mais do que nunca pendurado na família. A princípio, mostrara-se revoltado com a nova situação e com a dieta que o Dr. Marcílio o obrigara a fazer. Reclamava de tudo, dizendo-se vítima da fatalidade. Ernestina, entretanto, não se deixou impressionar pelas lamúrias do marido. Traçou para ele férrea disciplina no cumprimento do tratamento médico e, sempre que ele se queixava, ela argumentava: 399 - Queixar-se não vai melhorar o teu estado. A culpa do que te aconteceu é só tua. Não movimentava o corpo, comia muita gordura, e estragou a saúde. Depois, não quis fazer os exercícios que o médico mandou. Se tivesse feito tudo direito, teria voltado a andar. - Não tenho ânimo. Estou sofrendo muito. - E se continuar assim vai continuar sofrendo. Não se esforça para melhorar! - Você não tem pena de mim. - Não tenho mesmo. Você escolheu a tua vida. Nunca me ouviu. Agora me diga: por que eu tenho que ficar ouvindo as tuas queixas todo dia? Faz o favor de parar com isso! De agora em diante, toda vez que se queixar, deixo você sozinho. Cuido de você, mas não vou ficar me aborrecendo com as tuas reclamações. Eu e as crianças temos o direito de viver alegres dentro de casa. Ela disse e fez. Aos poucos, Jacinto deixou de se queixar e nos últimos tempos chegava a participar das brincadeiras e da alegria dos filhos. Jaime tocava violão e os outros cantavam. Nico sentia-se feliz observando o progresso dos irmãos e a alegria que reinava em sua família. Na mansão, Eurico conversava com Alberto, dizendo de sua satisfação de ter Nico como cunhado. - Para mim foi natural. Os dois não se largavam. Depois, Nico sempre teve uma queda por ela. Quando éramos crianças e brigávamos, ele sempre a defendia. Eu ficava louco de raiva. - Eles estavam destinados um para o outro. Anos atrás tivemos uma revelação sobre o passado de sua família. Eles se amavam desde aqueles tempos. - Puxa! Nunca ninguém me contou isso. - Temos de ser discretos com as revelações de nossas vidas passadas. Há de se ter bom senso e não fantasiar. As pessoas costumam exagerar esses fatos e acabam desiludidas quando as coisas não acontecem como elas esperavam. - Não se pode confiar nessas revelações? - Não se trata disso. Ocorre que elas registram parte de alguns fatos do passado. Querer adivinhar o futuro é ilusão. No presente as coisas mudaram, as pessoas mudaram, as oportunidades são outras, além de haver o livre-arbítrio de cada um, escolhendo a todo momento. - Mas você disse que estavam destinados um para o outro. Poderia ter se enganado. 400 - Poderia. Por isso nunca toquei no assunto. Mas, já que aconteceu, tenho certeza de que serão felizes. Liana entrou na sala acompanhada de João Alberto. - Vocês estão com fome? Vou mandar preparar um lanche. Alberto segurou-a pelo braço: - Não vá ainda. Sente-se um pouco conosco. Descanse. Está andando de um lado para o outro desde cedo. Ela se sentou no sofá ao lado do marido e João Alberto ficou em pé do lado dela. - Por que não vai brincar com Rosa Maria? - indagou Liana - Quero ajudar você. - Já ajudou. Agora vá brincar. Vou descansar um pouco conversando com eles. - Por que não conversa comigo? Eles estavam conversando muito bem. Liana franziu o cenho. - João Alberto, chega de ficar colado em mim. Acho que está na hora de tomar banho e se aprontar para o casamento. Aproveite que agora o banheiro está vazio. - Só se você for comigo para escolher a roupa que vou vestir. - Você está grande e sabe muito bem que vai vestir a roupa que compramos para o casamento. - Eu só vou se você for comigo. Liana levantou-se, dizendo: - Vou com ele até lá em cima, mas volto logo. Quando eles saíram, Eurico estava sério. - O que foi? - indagou Alberto. - O coronel Firmino. Continua o mesmo. Alberto sobressaltou-se: - Como assim? Você o viu? - Sim. Hoje ficou bem claro. - O quê? Eurico respondeu: - Ele agora se chama João Alberto, mas continua apegado a Liana. Seu filho é o coronel Firmino reencarnado. Penso que vocês já sabem disso. - Já. Mas com o tempo nos esquecemos. Você tem razão: ele é muito apegado a Liana e tem muito ciúme dela. Tanto que evitamos nos abraçar sempre que ele está perto. 402 Quando ele era menor e nos via abraçados, chorava, tinha crises, suava frio. Por causa disso, diante dele temos evitado manifestações de carinho. - A reencarnação é um fato. Tenho estudado esses fenômenos e freqüentado uma sessão de estudos na casa de um professor meu. - É bom ouvir isso. Nós também continuamos estudando e freqüentando as sessões do Dr. Marcílio. - Gostaria de ir também, antes de voltar a São Paulo. - Boa idéia. Ele vai ficar muito feliz. E você, não pensa em se casar? - Por enquanto não. Quem sabe um dia, se aparecer alguém que valha a pena... Alberto sorriu malicioso. Eurico havia se tornado um rapaz bonito e simpático. Já havia notado que as mulheres olhavam para ele com interesse. - Vai aparecer, estou certo. Está quase na hora. Acho que vou subir para me preparar. - Eu também. Quando Nico desceu do carro em frente à igreja da cidade, já o povo se aglomerava à espera. Ele estava bonito, muito elegante, e os que o haviam conhecido desde criança olhavam-no com entusiasmo, admiração e respeito. Ele entrou procurando a sacristia. Minutos depois Eurico apareceu abraçando-o emocionado. Aquele casamento era o acontecimento importante da cidade e o povo se comprimia lotando a igreja, olhando com curiosidade e alegria a beleza dos arranjos de flores dispostos em profusão e os candelabros com todas as velas acesas. Os convidados haviam chegado e lotavam os lugares que lhes foram reservados. Nico olhava o relógio com certa impaciência e comentou: - Espero que Amelinha não atrase. - O que é isso? Nunca vi você tão ansioso. Calma. Ela virá. Acha que o deixaria escapar? Está louquinha para agarrar você. Logo depois Nico foi convidado para dirigir-se ao altar, onde o padre já se encontrava. Nico sentia-se muito feliz. Parecia um sonho, e intimamente ele agradecia a Deus tanta felicidade. A música tocou, as portas principais abriram-se e Amelinha, de braços dados com o pai, entrou dirigindo-se a passos lentos até o altar, onde os membros das duas famílias já se encontravam. Nico aproximou-se para receber a noiva e os dois postaram-se diante do padre, que imediatamente iniciou a cerimônia. 402 A tarde estava linda e os presentes assistiam emocionados, vibrando pela felicidade do jovem casal. Em um canto da igreja, um casal assistia emocionado, sem que ninguém os pudesse ver. Era o espírito de Anita, acompanhada por seu amigo Neves. Quando a cerimônia terminou, os dois acompanharam os noivos até entrarem no carro que os levaria de volta à mansão. Neves perguntou: - Você deseja ir até lá? - Não. Temos de voltar. Estou contente e aliviada. Sei que eles desfrutarão de um período de tranqüilidade e progresso. Finalmente conseguimos nossos objetivos. Helena está feliz em companhia de Amadeo e não há nada que os possa atrapalhar. Sou muito grata a você e ao grupo de Marcílio. Sem vocês, teria demorado mais e o sofrimento deles teria sido maior. - Você sabe, Anita, como é o processo. Depende exclusivamente do esforço de cada um. Deus espera que as pessoas amadureçam para dar-lhes a felicidade. Nós os protegemos sugerindo bons pensamentos, idéias do bem, mas estamos proibidos de fazer a parte que lhes cabe. Anita sorriu, seus olhos brilharam emocionados e ela respondeu com voz suave: - Eu sei, Neves. Embora a felicidade seja nosso objetivo maior, ainda não sabemos distinguir o falso do verdadeiro. Criamos ilusões, perseguimos objetivos falsos e colhemos sofrimentos. Mas é por meio deles que aprendemos a conhecer a vida, a melhorar atitudes. É possível que venhamos a nos enganar outras vezes. Esse é o preço do progresso. Apesar disso, meu coração está em paz por saber que, acima de todas as nossas falhas e até de nosso livre-arbítrio, está a vida nos protegendo, conduzindo nossos passos para o bem maior. - A ansiedade atrapalha. As pessoas estão tão voltadas ao mundo material, não têm paciência de esperar, querem fazer tudo sozinhas. Não se ligam com a fonte de vida. Nem sequer percebem que um objetivo não alcançado, ao invés de ser um fracasso, pode ser uma ajuda. Em tudo só os valores verdadeiros permanecem. Assim, é preciso não esmorecer, fazer sempre o melhor que souber, confiar na sabedoria divina e esperar. - Essa é a lição que estou aprendendo agora. Há muito deixei a ansiedade. Decidi servir à vida, libertar minha alma das prisões do passado. Hoje consegui uma grande vitória. - Você mereceu, não se desesperou. Esforçou-se, trabalhou, soube esperar. 403 - É que eu sei que quem decide é a sabedoria divina, e ela, meu amigo, só faz acontecer quando chega a hora! Neves sorriu, colocou o braço dela no seu e disse: - Vamos embora. Os dois deslizaram para cima, desaparecendo na distância. No céu, as primeiras estrelas começavam a brilhar, iluminando a Terra e revelando a grandiosidade do universo e o poder de Deus. Fim 404


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