Quando a autoridade “toca” a alma: considerações acerca da presença da função parental para o crescimento dos filhos1



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Quando a autoridade “toca” a alma: considerações acerca da presença da função parental para o crescimento dos filhos1

Michele Melo Reghelin2

A autoridade foi recusada pelos adultos, e isso somente pode significar uma coisa: que os adultos se recusam a assumir a responsabilidade pelo mundo ao qual trouxeram as crianças.” (Hannah Arendt, 2007, p.240).

Quando iniciei a escrita deste trabalho pensei em falar sobre o quanto a ausência e a omissão dos pais pode matar, psiquicamente, os filhos. Após leituras e reflexões sobre o tema, ponderei que deveria conferir a esta tarefa, cor, luz, uma possibilidade de transpor obstáculos e promover crescimento. Com esta ideia de nascimento, e não morte, componho algumas ideias com o intuito de propor ao leitor novas reflexões acerca do papel do adulto, especialmente dos pais. “Passagens” musicais embalam a melodia deste trabalho.



Vida é o filho que cresce
Uma estrada, um caminho
É um pouco de tudo, é um beijo, um carinho.”


(Vida - Ricardo Engels Garay & Carlos Ludwig )

O diálogo e a liberdade de expressão contemporânea oportunizaram aos pais o questionamento de atitudes que outrora eram consideradas corretas. No lugar disso, encontram-se agora a dúvida e a angústia sobre como educar os filhos. Os lugares ocupados pelos pais tornam-se indefinidos, e o mal-estar oriundo de tais indagações faz com que se tenha que pensar sobre os impasses vividos na educação dos filhos e se deparar com as suas falhas. Diante disso, este trabalho aborda a importância da autoridade dos cuidadores - pai e mãe - no vínculo afetivo, questionando a forma como podem ajudar as crianças a saírem de seus núcleos familiares, este que muitas vezes as aprisiona e as adoece quando não as ajudam a enfrentar a vida.

Não é possível negar a influência do ambiente externo para a condição saudável do desenvolvimento infantil, tendo em vista que os grupos exercem influências para a aquisição de valores. O ambiente é responsável por formar o caráter do sujeito, e nesse sentido a família pode e deve contribuir para o crescimento e enriquecimento da personalidade de cada membro, afinal “a palavra dos pais tem eficácia simbólica” (Kupfer, 2007, p.37).

Antigamente as famílias eram constituídas pelo casal de pais e seus filhos, ao passo que hoje as famílias podem ser constituídas pelas mais diversas configurações vinculares. Mesmo que ainda prepondere no imaginário coletivo a ideia do núcleo familiar ser constituído por pai, mãe e filhos, o homem necessariamente não é mais o provedor do lar, traçando assim novos perfis para pais e mães. Nessa perspectiva as figuras parentais se confundem no exercício de suas funções (Hack, 2010).

Falar de pai e de mãe pressupõe falar de uma ação entre pessoas que, nomeadas dessa forma, desempenham papéis e funções que envolvem as dimensões do real e do imaginário, referem Outeiral e Cerezer (2003b). A partir das experiências infantis, armazena-se um significado para mãe e um significado para pai (independente de gênero) de modo que quando eles não estão mais presentes de forma real, fica guardada a ideia simbólica do que é ser pai e do que é ser mãe, porque é preciso ir além da imagem para compreender o seu significado e a sua função (Goldstein, 1999).

Das roupas velhas do pai queria que a mãe fizesse uma mala de garupa... Pra que digam quando eu passe ‘saiu igualzito ao pai’.”

(Guri - César Passarinho)

A moral da infância é reflexo das primeiras identificações vividas quando criança, e assim a sua capacidade de julgar e decifrar o mundo é construída ao longo do tempo, sendo modelada a partir do superego dos seus pais, o que pode ser visto como uma promessa para o futuro (Kaplan, 1986). Ainda que haja uma tendência para evocar o passado nostalgicamente como um recurso defensivo para se confrontar com as exigências do presente, as expressões de autoridade marcadas pelo autoritarismo já não servem mais, referem Torres e Castro (2009). Os adultos devem proteger suas crianças e apresentá-las ao mundo que já existia antes de nascerem.

No início o amor dos pais é experimentado pela forma como eles cuidam do seu bebê, provendo um ambiente favorável no qual ele tenha oportunidade para crescer. “Na arte de viver, isto implica se dar exemplo à criança, não um melhor do que você realmente é, insincero, mas um exemplo aceitável e decente” (Winnicott , 1963/1983, p.95). Dessa forma, os primeiros objetos de amor desejados – pai e mãe – são os primeiros representantes de autoridade, de lei e de ordem. “São os olhos que vêem e as vozes que proíbem.”3 (Kaplan, 1986, p.104)”. Eles freiam o desejo e regulam a sua consumação, garantindo segurança à criança. Esse diálogo de proteção, vital, é responsável por gerar momentos de discussão e, portanto, ódio, já que as crianças necessitam expressar seus sentimentos, pontos de vista, discordando e até mesmo frustrando os pais que tanto amam.

Para poder ser é preciso ter uma figura paterna na qual se tenha respeito para poder desafiá-la, enfrentá-la a fim de superá-la, tendo a certeza de que ela é capaz de sobreviver a tudo isso (Corso, 2011). Ser amado é o que se espera da figura materna que desde a vida intrauterina abriga seu bebê, mas para crescer é fundamental sair dessa zona de conforto que é o aconchego da mãe e olhar o exterior com os próprios olhos. Para que esse olhar se constitua, o pai deve interromper essa ligação simbiótica existente entre mãe e bebê, entrando na relação através das brincadeiras e do estímulo à exploração do mundo. Através do exercício da função crítica, o pai representa o princípio de realidade em meio ao prazer que existe entre a mãe e o bebê, demarcando o limite da interdição do incesto e inaugurando, desta forma, o psicológico da criança que a ajudará a entender as exigências necessárias para viver fora do grupo familiar. Ainda, é possível dizer que o vínculo entre pai e filho é uma conquista de ambos, já que não há gestação, amamentação e cuidados maternos primários envolvidos. A mãe torna-se intermediária dessa relação ao permitir a entrada do pai, legitimando a relação. Nessa triangulação, são exercidas as funções de afeto e proteção.

... Há muita coisa que você tem que saber... Olhe pra mim, estou velho, mas sou feliz. Eu já fui como você é agora, e eu sei que não é fácil ficar calmo quando você Percebeu algo acontecendo. Mas vá com calma, pense muito...”.4(Father and son - Cat Stevens)

A atitude dos pais é um exemplo a ser seguido pela criança, pois o modo como interagem com os outros e as relações que estabelecem causam impacto sobre os filhos, que reproduzirão com seus pares o que viram e o que aprenderam. Nesse sentido, Hack (2010) acrescenta que pais que não impõem limites aos filhos contribuem para que a criança perpetue o seu narcisismo infantil e a sua onipotência, dificultando que tomem contato com o princípio de realidade, permanecendo no princípio do prazer e, portanto, não podendo amadurecer. Fachin e Calveti (2011) contribuem ao dizer que a criança que cresceu não percebendo os limites da convivência social provavelmente invadirá o espaço do outro. Sendo assim, o adulto tem a responsabilidade de promover o diálogo intervindo no momento adequado, fazendo com que a criança se reconheça nas situações em que está envolvida e a auxiliando na compreensão dessa dinâmica (Vieira, 2009). Ademais, o adulto deve enxergar a criança, a sua singularidade sem julgar seu passado ou presente, analisando como ele se comporta diante dela.

Oh, bebê. Você sempre irá ser uma criança para mim.




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