Psicanálise, psiquiatria e poder



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Psicanálise, psiquiatria e poder1


Maria Cristina Reis Amendoeira2

Resumo


A partir das idéias de Berlinguer (1976), consolidadas no livro Psiquiatria e Poder, com o material produzido no seminário intitulado Psiquiatria, psicologia e relações de poder, em 1969, a autora referencia algumas questões ali levantadas, para destacar as relações existentes entre psicanálise e psiquiatria na contemporaneidade.

Palavras chave – Psiquiatria. Psicanálise. Contemporaneidade



Introdução

A psicanálise e a psiquiatria pertencem ao nosso cotidiano, pois, há muito, romperam os limites da especialidade e influenciam as relações sociais, os costumes e a cultura.

No caso da psiquiatria, esta ampliação de interesses deve-se, segundo seminário do Instituto Gramsci em 1969 (Berlinguer, 1976), a três razões: a primeira delas seria o aumento notável das condições definidas como psiquicamente anormais, em função de fronteiras cada vez mais incertas e imprecisas entre o diagnóstico de saúde e o de transtorno mental; a segunda, seria o uso crescente de meios e de pessoal de formação científica para o controle e a manipulação da mente humana através da informação, da publicidade, da educação e da indústria cultural - aos especialistas é confiada a tarefa de adequar os homens às exigências do poder, de segregar e reprimir os que recusam as suas leis; e a terceira razão, a revolta de uma parte destes especialistas diante da função carcerária que lhes foi atribuída, na época.

Esse panorama histórico-político da saúde mental na Itália vai ser utilizado, aqui, como ponto de referência para uma “re-visão” em nossa época.

Berlinguer estabeleceu uma historicidade dos transtornos mentais e suas diversas interpretações. Um primeiro ponto seria o de que credibilidade e certeza nos diagnósticos dos transtornos mentais, em 1969, era bastante baixo, havendo um desacordo nos diagnósticos da esquizofrenia, estados ansiosos e depressão, por exemplo. O segundo, as divergências de diagnóstico, decorrentes da competência científica do médico, das fronteiras incertas entre saúde e doença e, principalmente, da atitude de poder que o médico assumia diante de seu cliente.

Um terceiro ponto, o paradoxo de uma profissão médica reduzida a uma atividade mercantil, na qual a renda cresce em proporção ao número de doentes, na qual prospera o comércio dos “diferentes” em instituições públicas, em serviços assistenciais sem controle, em consultórios e clínicas particulares. Como quarto ponto, o modo de cada população lidar com os doentes, se são tratados com simpatia, humanidade, se mantidos nas famílias, tirando-lhes a responsabilidade excessiva, mas confiando-lhes um certo trabalho a eles adaptado. Mesmo as mais evidentes psicopatias se manifestariam num ambiente assim com sintomas de menor agressividade. Nossa sociedade procura e necessita de indivíduos altamente eficientes e especializados, o que faz com que selecione e, em alguns casos, agrave os transtornos mentais. Os paradigmas de nossa civilização ocidental, altamente produtiva e competitiva, tornam-se prejudiciais à saúde psíquica de um indivíduo frágil e mal ajustado.

Berlinguer ressaltou a impossibilidade de uma real oposição entre os elementos biólogicos, psicológicos e sociais, nos transtornos mentais. Torna evidente a inter-relação entre estes elementos na eclosão de uma doença: um idoso pode ter sinais de demência em cuja origem estão o sentimento de solidão, uma aposentadoria insuficiente, uma dieta carente, distúrbios cardiorrespiratórios, redução da visão e outros fatores associados.

Estes questionamentos criam um campo de idéias que os aproximam da psicanálise e justificam uma reflexão sobre a atitude de psiquiatras e psicanalistas, na contemporaneidade.

Na abertura do simpósio da Sociedade Brasileira de Psicanálise, no Rio de Janeiro3 (2004), ressaltavam-se as mudanças no mundo em que vivemos e os sentimentos contraditórios que nos provocam. Por um lado, produzem fascínio e orgulho ante tantas realizações; por outro lado, trazem inquietação e incertezas perante as transformações da vida.

A atual cultura do narcisismo, marcada pelas imagens, busca frenética da satisfação, velocidade, fugacidade dos relacionamentos e por uma sexualização extensa da vida, voltada apenas para o prazer, prescindindo de relações humanas mais profundas, com o predomínio de mecanismos primitivos, propicia falhas de simbolização e de representação psíquica (Eizirik, 2004).

O trabalho, as relações pessoais, os costumes, os ideais, as manifestações da violência, a sexualidade, a família, o gênero, as relações de parentesco e as próprias condições da reprodução humana transformaram-se e nos levam a reconsiderar referências estáveis e, certamente, a repensar os modos pelos quais nos representamos.

O ser humano vive num processo de desenvolvimento interminável, com transformações e mudanças que duram toda a existência; nunca se está pronto e acabado para as vicissitudes da vida. Neste processo de construção e desconstrução prevalecem, em condições normais, um senso de integração, que nos faz únicos, e um sentimento de continuidade em nossas experiências – o que configura nossa identidade. O homem, imerso nestas mudanças, não consegue acompanhá-las e, pressionado por resultados, eficácia e desempenho, regride ao uso dos recursos mais primitivos em seu desenvolvimento. A onipotência, o isolamento, o embotamento, a anestesia afetiva, a desconfiança excessiva podem culminar na perda do contato efetivo e da capacidade de lidar e transformar sua realidade (Amendoeira, 1999, 2004).




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