Proximidade de direito e distância de fato



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INTRODUÇÃO
O trabalho pretende, a partir de um levantamento bibliográfico sobre a história da loucura, os tratamentos a ela destinados e questões ligadas às formas de captura1 do contemporâneo, analisar as ações de um dos dispositivos de tratamento do CAPS (Centro de Atenção Psicossocial) Itapeva, a Dasdoida, frente às condições atuais do processo da Reforma Psiquiátrica.

Relaciono minha impressão ao escrever o trabalho com a transcrição de um diário de bordo cuja viagem não tem destino, somente trajetos que percorro junto à/na loucura desde o início de minha formação acadêmica.

De início, foi uma estranheza enfeitada por certo romantismo que despertou meu interesse pela loucura, sensação que hoje relaciono ao que Pelbart (1989) identifica como a proximidade de direito e distância de fato que caracterizam a relação da modernidade com a loucura, diferente do que ocorria na Grécia Antiga, pois:
Se antes ela era impensável por estar demasiado próxima e ao mesmo tempo excessivamente distante, tanto do homem como da razão - um pouco como o sagrado, e não sem relação com ele (...) - a modernidade poderá pensar a loucura porque, ao subordiná-la antiteticamente à racionalidade, médica ou filosófica, terá consumado, no mesmo gesto, sua subjugação (p.43).
O que me fascinava era justamente a imaginação sobre algo que estava longe, distante de fato, excluído. Porém, a possibilidade de aproximação a tornava estranha e o interesse se reduzia. Hoje compreendo melhor que a dificuldade estava em reconhecer-me em um outro tão diferente.

Foi justamente esse interesse ingênuo e cristalizado no discurso do senso comum que me levou ao Fórum Paulista da Luta Antimanicomial, onde não encontrei nenhum Schreber, nem Van Gogh, Artaud ou Ana O. , muito menos pessoas vagando ao léu, achando-se Deus; mas seres humanos, com suas histórias e singularidades (um tanto peculiares), que se tornaram meus amigos e companheiros de luta.

Se há algo que sempre me chamou a atenção em meus novos amigos é a sinceridade com que se relacionam, sentindo e denunciando as falhas das instituições. Ao contrário dos neuróticos que, em função de sua eterna busca pelo certo, fixam no mundo discursos acríticos, maniqueístas, rótulos e formas preestabelecidas de ser que excluem o diferente.

Para Pelbart (2003), o esquizo assemelha-se ao nômade, pois:


Ocupa um território, mas ao mesmo tempo o desmancha, dificilmente entra em confronto direto com aquilo que recusa, não aceita a dialética da oposição, que sabe submetida de antemão ao campo do adversário, por isso ele desliza, escorrega, recusa o jogo ou subverte-lhe o sentido, corrói o próprio campo e assim resiste às injunções dominantes. O nômade, a exemplo do esquizo, é o desterritorializado por excelência, aquele que foge e faz tudo fugir. Ele faz da própria desterritorizalização um território subjetivo (p.20).
Nesse contexto, mergulhei no mundo da saúde mental. Obtive informações sobre as diferentes experiências da Reforma Psiquiátrica na Europa, me informei sobre a política de saúde mental no Brasil, conheci diferentes serviços de atenção, grupos culturais e projetos de geração de renda.

Em 2008 comecei a estagiar na Associação Vida em Ação2, onde participei da produção de alimentos de um dos projetos existentes, o Bar Saci. Além da experiência rica por proporcionar trocas com pessoas implicadas com seu trabalho, conheci as dificuldades enfrentadas pelos usuários3 da saúde mental ligadas à falta de emprego, à dificuldade em receber benefícios contidos na LOAS (Lei Orgânica da Assistência Social)4, ao caráter tutelar de leis como esta, ao preconceito, entre outros obstáculos que dificultavam a reinserção social de sujeitos que já estavam fora dos manicômios há algum tempo.

Em minha convivência com os usuários, tanto no fórum quanto no Bar, me chamava a atenção o fato daquelas pessoas circularem como militantes ou trabalhadores sem perder o estigma de louco5. Eles apresentavam certa autonomia, freqüentavam os CAPS há anos, mas ainda não eram aceitos pela sociedade. Via que eles buscavam mudar e aprender para conviver com os ditos normais. E estes, que faziam?

Acredito que a sociedade ainda possui um olhar parecido com o que levou os loucos aos manicômios: tutelar, porém mais humanizado, pregando a não-violência, mas mantendo a indiferença que aumenta a cada dia o tamanho dos muros de nosso manicômio mental6. Lembro aqui da frase de um professor, “ninguém quer ver louco sofrer, mas ninguém quer o louco por perto”.

Tais constatações me levaram a questionar: aonde a Reforma Psiquiátrica emperrou? Por que os loucos, agora próximos, continuam a ser tratados como distantes de fato? Também me chamou atenção a presença, por um lado, de discursos tão libertários e grupos tão diversos e, por outro, posturas tão pragmáticas e utilitaristas.

Dessas inquietações nasciam as primeiras idéias para o que viria a ser meu Trabalho de Conclusão de Curso (TCC), ou seja, de que dispositivos dispomos hoje para promover o aparecimento das singularidades dos sujeitos, aceitando suas diferenças e que não se tornem formas de domesticação e nem de capturas?

Desse modo, passei a procurar quais seriam as alternativas para que os usuários saíssem de lugares sociais tão aprisionadores e que promovessem circulação e trocas com o meio.

Nessa procura do meu “objeto a ser estudado”, mais próxima do acaso do que da obstinação, esbarrei com a Dasdoida realizando um desfile na “Prainha7” na inauguração da Feira de Saúde Mental e Economia Solidária que ocorreu no CA (Centro Acadêmico) da Psicologia na semana da Luta Antimanicomial, no mês de maio de 2009.

A partir desse encontro, passei a pesquisar sobre a Dasdoida e confirmei minha intenção de fazer um TCC sobre a grife em função das peculiaridades que apresenta se comparada aos projetos de geração de renda existentes na saúde mental no que diz respeito: à sua popularidade e aparição em diferentes eventos; ao fato ser uma oficina de moda - elemento tão ligado ao glamour e ao capital - e por ser um dispositivo de tratamento do CAPS Prof. Luiz da Rocha Cerqueira (mais conhecido como CAPS Itapeva).

Este último fator foi essencial para escolha do “objeto”, pois pretendendo discutir questões ligadas à Reforma Psiquiátrica, nada melhor do que fazê-lo a partir do primeiro serviço substitutivo da cidade de São Paulo.

Considerando esse percurso inicial, buscarei analisar, frente às contradições do contemporâneo, o processo da Reforma Psiquiátrica no que diz respeito à criação de espaços terapêuticos que favoreçam a emergência dos sujeitos em suas singularidades e promovam a circulação e trocas com o meio através de um dispositivo de tratamento alternativo à medicalização e psicoterapia do CAPS Itapeva, a Dasdoida. Para tanto, procurarei expor o seu funcionamento, sua relação com a instituição e efeitos nos usuários, no serviço e no meio externo.

Os capítulos serão nomeados de acordo com uma caminhada, uma viagem, que, como a Reforma Psiquiátrica, não têm um fim estabelecido, mas é processo por reinventar-se de acordo com as condições que se apresentam e se modificam.

No Capítulo 1 intitulado, “O trajeto”, serão relatadas as diferentes formas de se abordar a loucura no decorrer da história e as forças de poder por trás de tais práticas, dando maior ênfase ao período em que ela foi apropriada pelo saber psiquiátrico, o questionamento deste na Europa que levou à Psiquiatria Democrática na Itália até chegar à Reforma Psiquiátrica no Brasil e à implementação dos serviços substitutivos.

O segundo Capítulo é denominado “Bifurcações”, pois o trajeto se expandirá em alternativas possíveis, mas repleta de caminhos tortuosos e cheios de obstáculos.

No Capítulo 3, Contextualização do Terreno, será descrito o funcionamento do CAPS Itapeva e a forma de organização da Dasdoida, explicando o sentido de seu surgimento para os idealizadores.

No Capítulo 4, denominado “O mapa”, não será desenhado apenas um terreno que contém o Caps como instituição de cuidado e a Dasdoida como oficina deste serviço, mas uma análise reflexiva acerca das idéias, pessoas, encontros, expectativas, enfim, acerca do que atravessou minha experiência.


Boa viagem!

MÉTODO
O presente estudo tem como método a etnografia, na qual o pesquisador não coloca o campo a ser estudado como mero local de coleta de provas, mas como espaço de interação, onde a observação é participativa, pois “a idéia de ir a campo e dele não fazer o elemento da administração da prova, mas o material indispensável para que o discurso sobre o outro tenha sentido, eis o que fundamenta a postura etnográfica” (BOUMARD, 1999, p.2).

Afinal, o campo não é um lugar pré-estabelecido, delimitado por fatores geográficos, área de atuação, condição social ou qualquer outra característica rígida, mas um campo-tema aonde se interconectam infinitos caracteres e sentidos sendo “um espaço criado (...) herdado ou incorporado pelo pesquisador e negociado na medida em que este busca se inserir na suas teias de ação” (SPINK, 2003, p.2).

Portanto, a experiência de campo deste trabalho não se reduz à atitude de um mero expectador, mas à implicação que me coloca em cada aspecto analisado para que seja possível apreender o ponto de vista do outro inserido em um campo. Este é múltiplo e acontece em muitos lugares diferentes que abrangem o funcionamento do local, as relações existentes, os conflitos e outras características que possam servir de material de análise.

A partir dessa perspectiva, freqüentei durante cinco meses as oficinas da Dasdoida no CAPS Itapeva, participei dos eventos externos da mesma, observei documentos referentes à história e propostas tanto da instituição, como das oficinas. Além destes dados mais específicos, considerei como informações indispensáveis para a análise: as conversas com usuários e trabalhadores do CAPS, os cafés tomados após as oficinas, os bastidores dos desfiles, os comentários que estes geravam no público, entre outros fatores.





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