Província da África Austral – Sector de Moçambique



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36. Reflexão pessoal

A dimensão política da espiritualidade de Marcelino

Fiquei admirado e surpreendido durante o estudo de ÁGUA DA Rocha, quando ouvi falar sobre a “dimensão política da espiritualidade de Marcelino”. Assistíamos então à explicação do 4 º capítulo do livro ÁGUA DA ROCHA. Fala da proclamação da Boa Nova aos pobres. Eu tinha prestado atenção à explicação dos três outros capítulos. Neles encontrei coisas novas e interessantes. Mas esta "dimensão política da espiritualidade de Marcelino" deixou-me intrigado. Levantou a minha curiosidade. Queria saber o que isso significava.

Não ouço coisas assim todos os dias. Foi a natureza da obra apostólica que a província me confiou no planalto de Horombe que despertou a minha curiosidade. Normalmente, temos medo do adjectivo “político". Ouvi mesmo, algumas vezes, que os religiosos e os padres não devem fazer política. Finalmente compreendi que não apenas a devem fazer, mas se não a fazem, não estão a ser fiéis ao mandato evangélico que lhes foi confiado. Contudo, para que isso seja correcto, temos que definir a política no sentido mais geral do termo e ter em conta os diferentes níveis da actividade política.

Na verdade, existe apenas um nível proibido aos religiosos / religiosas e aos sacerdotes pelo direito canónico: é a política partidária. Esta proibição é perfeitamente aceitável, em virtude da natureza da política partidária: é uma política que divide enquanto que a essência do religioso e do sacerdote, dentro da Igreja e da sociedade, é a de serem criadores de comunhão.

Mas para além da política partidária que acabamos de referir, todos os outros níveis (votar, educação cívica e política dos nossos alunos, a protecção dos direitos humanos e das crianças, a promoção da justiça e da paz...) são necessários e é mesmo desejável que os sacerdotes e religiosos/as participem nela activamente.

De um modo geral, "a política é tudo o que nós fazemos para o bem da cidade". Foi a partir desta definição que comecei a compreender que existe uma dimensão política na espiritualidade de Marcelino. Como, na verdade, de um modo mais geral, há uma dimensão política da fé cristã e de todo o trabalho apostólico dentro da Igreja: desde que tudo o que fazemos seja para o bem da a cidade. E quem duvidaria de que o trabalho apostólico da Igreja e das Congregações religiosas serve, em altíssimo grau, para o bem da cidade e para a promoção e defesa da pessoa humana?

Na realidade, o nosso novo livro sobre a espiritualidade marista sem falar diretamente de “dimensão política” da nossa espiritualidade, refere-se a isso várias vezes. Seja, por exemplo, quando nos convida a olhar o sofrimento do mundo, com "a espiritualidade da compaixão e da missão" (AdR, 126) ou quando nos convida a estar atentos aos apelos do nosso tempo, defendendo a mesma dignidade para todos: os direitos humanos, a justiça, a paz, a partilha equitativa das riquezas do planeta (cf AdR, 128). O número 129 é ainda mais claro: "A nossa resposta apaixonada às necessidades do mundo deriva de nossa espiritualidade." Estamos, então, em presença de uma espiritualidade que se encontra no centro da política, no sentido mais geral do termo, atrás definido. Não é, de fato, aperfeiçoar e melhorar o mundo quando queremos responder às suas necessidades com uma espiritualidade de compaixão e de missão?

Mas poderíamos chegar a esta conclusão por outro caminho: o texto bíblico que introduz este capítulo. A Comissão escolheu o melhor texto possível para encabeçar este capítulo sobre o apostolado. E é a melhor escolhe possível, porque foi a escolha que o próprio Cristo fez ao começar a sua vida apostólica. Podemos estabelecer neste texto o que chamamos os "círculos concêntricos da missão." E "proclamar libertação aos cativos" é, em toda a verdade um "círculo político.”·


Com essa dimensão política da nossa espiritualidade sinto-me duplamente estimulado a continuar o meu trabalho nas regiões montanhosas do Horombe. Trata-se de libertar os cativos da ignorância e anunciar a força libertadora da educação. Trata-se de um anúncio "político", através das 17 escolas que já fundámos. E há ainda mais a fundar.


Irmão Richard Tiana




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