Prefácio do tradutor



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A vida é um sonho representou-se, sem reparo da crítica, na época em que teve maior preponderância a Inquisição espanhola, que não permitia sequer a menor sombra de heterodoxia. Recordemos o argumento:

O rei Basílio da Polônia, com mais tendência para as matemáticas e para a astrologia do que para a política, teve de sua esposa Clorilene um filho, a cujo nascimento presidiu o terror dos elementos e dos fenômenos celestes. A mãe repetidas vezes sonhou, durante o período da gravidez, que um monstro com a forma humana havia de romper-lhe as entranhas impetuosamente e lhe produziria a morte. Nasceu num dia de eclipse total do sol, acompanhado de abalos sísmicos e violentas saraivadas que arrasaram as terras e tingiram de vermelho as águas dos rios. A mãe morreu a seguir ao parto, em cumprimento do que havia sonhado, apesar de que, nesse tempo, como agora não se deve acreditar em sonhos, porque é contrário ao que diz o primeiro mandamento.

O rei Basílio deduziu dos seus conhecimentos astrológicos o horóscopo de seu filho Segismundo, e por ele viu que havia de ser o homem mais arrojado, o príncipe mais cruel e o monarca mais ímpio, que devia arruinar o reino, obrigando o seu próprio pai a cair-lhe submisso aos pés.

Resolveu o rei Basílio opor-se ao vaticínio dos fados, sobrepondo a sua ciência aos decretos da sorte, e neste intuito mandou apregoar que o infante havia nascido morto, encerrando-o, porém, sob a guarda do alcaide Clotaldo, único que sabia do segredo, numa torre edificada entre rochedos e penhascos alcantilados, de que ninguém se podia aproximar, sob pena de morte. Ali cresceu Segismundo, sem ver outro rosto humano além do seu carcereiro Clotaldo, até que o rei, arrependido de ter tão facilmente acreditado no horóscopo, declarou diante da corte que bem poderia Segismundo vencer com o seu arbítrio a influência do destino, “porque a sorte mais esquiva, a influência mais poderosa, o planeta mais ímpio, só vergam a vontade, mas não a torcem”.

Calderon, com estas palavras que ficam entre aspas, postas na boca do rei Basílio, mostra-se partidário da ortodoxa doutrina do livre-arbítrio, oposto ao fatalismo, dando a entender que a vontade, quando quer, e o entendimento, quando sabe, podem dominar o destino em vez de se submeterem a ele, embora, como veremos mais adiante, se exijam para isso determinadas condições que nem sempre dependem da sabedoria e da vontade. Mas continuemos a relatar o argumento de A vida é um sonho:

Para experimentar, manda Basílio retirar o filho da torre enquanto dorme, sob a ação dum narcótico, e, ao acordar, Segismundo vê-se cercado pelos súditos e aclamado como príncipe herdeiro e governador geral do reino, por determinação de seu pai. O príncipe, porém, começa a revelar o seu caráter violentíssimo, como vaticinara o horóscopo, e o rei, convencido de que o filho carecia de indispensável força de vontade para reprimir o seu gênio e vencer o destino, torna a mergulhá-lo num sono profundo pela ação do narcótico, ministrado por Clotaldo, e é novamente encerrado na torre. Quando acorda, julga que foi um sonho tudo quanto se passou.

Tranqüilizada a consciência do pai por ter posto à prova a vontade do filho, pois desejava ver se ele, querendo, podia ser superior ao destino, nomeia herdeiro da coroa seu sobrinho Astolfo, duque de Moscóvia. O povo, porém, e parte do exército não querem Astolfo para rei por ser um estrangeiro, e, como já é notória a existência do herdeiro legítimo e toda a Polônia está inteirada do que ocorreu, estala uma revolta a favor de Segismundo e contra o rei Basílio e seu sobrinho Astolfo. Os revoltosos, arrancando Segismundo do cárcere, levam-no em triunfo, colocam-no à frente a comandá-los e, numa batalha campal, são vencidas as tropas leais que se convertem em traidoras do rei Basílio e de Astolfo, os quais se vão refugiar num monte. O rei, sob a proteção de Astolfo, pode, se quiser, pôr-se em fuga, mas prefere entregar-se ao filho, a cujos pés se roja, impelido pela força do destino. Segismundo, porém, tomou como lição a breve experiência que lhe pareceu um sonho, e consegue vencer o mau fado, triunfando de si próprio. Levanta do chão o pai, que se conservava de rojo, e oferece-lhe a cabeça para que ele se vingue. O rei, comovido por tão nobre ação, declara-o vencedor, digno dos louros e da palma da vitória.

Em diferentes passagens deste drama incomparável, dá Calderon a entender, pela boca dos seus personagens, que a astrologia judiciária não é uma ciência vã nem uma ridícula superstição como hoje afirmam os astrônomos que, por meio do telescópio e da fotografia, apenas observam movimentos, medem distâncias, calculam grandezas aparentes, anunciam previamente os eclipses e são, por assim dizer, os engenheiros da mecânica celeste, sem que a sua mente, só habituada a coisas concretas, consiga descobrir os segredos do dinamismo espiritual do universo.

Escolhamos as passagens em que Calderon, e com ele a censura eclesiástica do seu tempo, dão caráter de ciência verídica à astrologia judiciária. Diz assim o rei Basílio:

Esses círculos de neve, essas cúpulas de vidro, que o sol ilumina com os seus raios e a lua recorta nas suas fases; esses mundos de diamantes, esses globos cristalinos, que as estrelas esmaltam e que predominam sobre o destino dos homens, são o maior objeto de estudo da minha vida, são os livros onde, em papel de diamantes e em cadernos de safira, o céu escreve com linhas de ouro, em caracteres distintos, todos os fatos da nossa existência, ora adversos, ora favoráveis.

Isto não é mais nem menos do que a doutrina orientalista, segundo a qual todos os acontecimentos passados e futuros estão gravados na matéria cerúlea, a que em sânscrito se chama akasa, e com mais nitidez de estereotipagem do que a película que se projeta no écran. Todavia, os acontecimentos futuros não se acham caprichosamente preestabelecidos; são a conseqüência natural dos fatos passados, como o efeito é uma conseqüência da causa e a reação é o resultado da ação.

Pois muito bem. A vontade humana é uma força, cuja ação reside no querer, e, como tal, pode estabelecer livremente outras causas, cujos efeitos sejam contrários aos que resultam de causas anteriores, que tiveram por efeito os sucessos vaticinados pelo horóscopo, mas não fatalistamente.

Noutra passagem diz Clarim, mortalmente ferido:

Sou um desgraçado que, querendo livrar-me da morte, a fui procurar. Quis fugir dela e encontrei-a no meu caminho, pois não há sítio, por muito recôndito, que a morte não conheça; donde claramente se conclui que quanto mais se quer fugir às conseqüências, mais depressa elas se nos deparam. Por isso, voltai, voltai imediatamente à luta sangrenta, que entre as armas e o fogo há maior segurança do que no monte mais resguardado. Para a força do destino e para as inclemências da sorte é que não há lugar seguro. E assim, embora penseis em livrar-vos da morte, fugindo, da parte de Deus está em vos entregar à morte, querendo.

A isto responde o rei Basílio:

Inutilmente tenta o homem lutar contra uma força e uma causa superiores aos seus esforços.

Ambas as passagens parecem coonestar a doutrina do fatalismo; mas, analisado convenientemente o pensamento de ambas, verifica-se que não é porque Deus tenha decretado a seu capricho a morte dos que, fugindo a ela, tenham de morrer à força, mas porque a vontade do sentenciado não foi bastante enérgica para estabelecer uma nova causa contrária e maior do que aquela que, estabelecida anteriormente por si próprio, havia de ter como resultado a sua morte.

Idêntico raciocínio se pode aplicar às palavras do rei, pois, se ele diz que são inúteis as tentativas do homem em lutar contra uma força e uma causa superiores aos seus esforços, é evidente que triunfaria do destino, se, com a sua vontade, com o seu firme querer e com a sua prudente sabedoria, orientasse esses esforços, de maneira que a força e a causa que se lhe opõem, fossem menores do que a força da sua vontade e a nova causa por esta força restabelecida.

Assim o confirma prudentemente Clotaldo, quando diz ao rei:

Embora o destino, senhor, conheça todos os caminhos e descubra aqueles que deseja atingir na maior profundidade das fragas, não é cristão considerar a sua fúria como uma coisa muito natural. Não é, senhor, que o homem prudente triunfa do destino; e, se não estais precavido contra a dor e o infortúnio, procurai o meio de o conseguirdes.

Quer dizer: estabelecei uma causa favorável, empregai os meios mais sensatos para vos precaverdes, para vos livrardes da dor e do infortúnio com que vos ameaça o destino, que haveis criado com o vosso anterior procedimento.

Segismundo também corrobora a veracidade dos horóscopos, ou seja do destino com que nasce o indivíduo. Mas diz que quem quiser tornar próspero um destino adverso, o poderá fazer, se for prudente na sua conduta; se, porém, proceder erradamente, só tornará mais calamitoso o seu destino. Diz assim:

O que está determinado pelo céu e que Deus escreveu no azul do firmamento, em sinais misteriosos e admiráveis, a respeito da sorte dos mortais, é uma coisa que nunca falha, nunca mente.

Também isto parece ser uma defesa do fatalismo; mas afirmar que o que está determinado pelo céu nunca mente, não quer dizer que necessariamente tenha de suceder, mas sim que é infalível o que Deus escreveu, como resultado das ações anteriores daquele que tem o seu destino marcado. E assim o horóscopo, quando empregado utilmente, como lição preventiva que nos dá a certeza de não falhar nem mentir, pode servir ao homem para orientar a sua conduta, de modo que o arbítrio predomine sobre o destino.

Mas, se o horóscopo é profanado em, mãos de charlatões e usurários, que o vendem por determinado preço, e apenas serve como motivo de curiosidade ou de receio vão a quem o compra, então não passa a astrologia de ser uma superstição tão ridícula como é a dos espiritistas, das cartomantes, das sonâmbulas e adivinhadeiras, que ganham a sua vida a iludir os papalvos.

O horóscopo deve ser calculado e delineado por um profundo conhecedor da dinâmica celeste, do grandioso pentagrama da harmonia das esferas, da fraternal solidariedade dos mundos, sóis e sistemas dentro da variada unidade dos Cosmos. E quem receber de tão autêntica procedência o que bem poderia chamar-se a estatística dos seus antecedentes penais, tem de aproveitá-la como um verdadeiro aviso do céu para normalizar a sua conduta e governar a sua vida, de modo que, quando sobrevier a vicissitude, a contingência, a ocasião ou a circunstância vaticinada no horóscopo, possa resistir-lhe e vencê-la, se é adversa, ou aumentar a sua eficácia, se é favorável.

Estas razões coincidem exatamente com as que Calderon põe nos lábios do príncipe Segismundo, quando, depois de dizer que o horóscopo nunca falha nem mente, acrescenta que quem mente e é falível é o que, não sabendo aplicá-lo bem nem aproveitar-lhe as lições, pretende evitar malevolamente os seus vaticínios.

O rei Basílio atemorizou-se de ver o horóscopo do filho, e o temor levou-o pelo caminho oposto ao que devia seguir, pois, com o desejo de o livrar da cólera, converteu-o numa fera humana; de maneira que a descendência que ele tivesse, tornaria ferozes os costumes do reino, embora ele, príncipe, fosse de origem dócil e humilde. Diz Segismundo:

O destino não se vence com vinganças e injustiças, porque isto torna-o mais adverso. Quem o quiser vencer, tem de usar de prudência e comedimento. O que prevê o perigo, não se livra dele antes dele sobrevir; e, embora pense em se livrar dele, só na ocasião em que ele surge é que se resolve a evitá-lo, porque a ocasião é coisa que se não pode impedir.

Nesta passagem está admiravelmente enunciada a lei universal da casualidade ou de causa e efeito, de ação e reação, em que a vontade humana é já de si uma força componente do complicado sistema do universo moral, mas capaz de coincidir com a resultante em grandeza, intensidade, direção e sentido.

O fatalismo tem razão quanto ao fato de não haver um único meio de impedir que a ocasião sobrevenha, isto é, a vicissitude, a contingência ou a circunstância que há-de servir de resistência à potência da nossa vontade. Portanto, o que é preciso é fortalecer a vontade por meio da educação, a fim de querermos, sabermos e podermos resistir à adversidade e vencê-la, quando ela sobrevier.

O rei Basílio não cai rendido e humilhado aos pés do filho, porque assim tivesse de acontecer fatalmente por sentença do céu, mas porque “errou na maneira de o vencer”.

Há outra espécie de fatalismo, mais lógico na aparência, segundo o qual a vontade humana, por mais que queira, não poderá alterar em coisa alguma o plano de Deus, se tudo quanto sucedeu, sucede e há-de suceder foi por Ele determinado desde todo o princípio.

Todavia, se refletirmos sobre este ponto, notaremos que a vontade divina não se opõe ao arbítrio da vontade humana, cuja ação é livre dentro dos limites e nas condições do mundo de que dispõe para campo de experiência; mas, como Deus é onisciente, onipotente e está em toda a parte, quer em essência, quer em presença ou como potência, sabe o uso que cada um tem de fazer do seu arbítrio, sem que por este motivo violente a vontade humana.

O determinismo, revestido de ostentosa roupagem científica, não considera o homem sujeito a um destino fatal e inevitável; mas, no fundo, esta doutrina não é mais do que uma modalidade atenuada do fatalismo, pois baseia-se no fato de em tudo haver um motivo determinante, por não existir efeito sem causa, e, conseqüentemente, tudo estar determinado pelas leis imutáveis que regem o universo, contra as quais é impotente a vontade humana.

Segundo os deterministas, todas as nossas ações, boas ou más, se acham determinadas por um motivo, e, quando um homem se vê impelido para uma ação por vários motivos opostos, cede ao mais imperioso, como se, no nosso íntimo, houvesse um sistema de forças psíquicas, cuja resultante determinasse essa ação. Deste modo, segundo diz Leibniz, seria a alma humana um autômato espiritual, tendo por molas os motivos e por pesos e contrapesos os pensamentos e emoções. Se não admitimos a evolução do espírito, ou seja da consciência, em correlação com a evolução da vida e da forma, já admitida pelos cientistas, ficam tendo razão os fatalistas e os deterministas, cujas doutrinas são como os dois lados dum ângulo unidos por um vértice comum. Mas, se admitimos a evolução do espírito humano e vemos no universo o seu campo de evolução, ficam harmonicamente conciliadas as três doutrinas do fatalismo, do determinismo e do livre-arbítrio, as quais, sem o reconhecimento da evolução espiritual, não é possível conciliar. Igualmente se não pode compreender a razão dos inegáveis fenômenos psicológicos em que o fatalismo, umas vezes, e, outras, o determinismo, predominam evidentemente sobre o livre-arbítrio.

Admitida a evolução espiritual, infere-se dela que a vontade não está igualmente desenvolvida em todos os indivíduos, e é mais ou menos fraca ou mais ou menos enérgica, segundo o grau de evolução de cada um. Os que, todavia, tenham uma vontade débil como os indolentes, não poderão vencer o seu destino, isto é, os desagradáveis efeitos das causas estabelecidas pelas suas frouxas ações, porque a força da sua vontade será nula ou insuficiente para estabelecer outra causa que produz efeitos iguais e contrários aos que sobre eles estão iminentes, como a espada de Dâmocles. O indolente não tem outro remédio senão sofrer os rigores da sorte, porque a sua vontade é hesitante. Está sujeito ao fatalismo. A resistência é muitíssimo maior do que a potência.

A vontade dos que estão no ponto médio da evolução espiritual parece-se com uma balança sempre a oscilar entre o bem e o mal, entre a virtude e o vício, movida pelo incessante desequilíbrio dos pesos (emoções, desejos, pensamentos, tentações, etc.), cujo dinamismo varia, a cada passo, dum para outro prato. Neste caso, a potência é umas vezes maior, outras menor e outras igual à resistência. É o período da luta, do combate entre os motivos determinantes e a vontade que se determina. Freqüentemente, vencerá o motivo dimanante da natureza inferior, sem que o arbítrio intervenha; mas, de vez em quando, obterá a vontade assinalados triunfos que a robusteçam e predisponham para o exercício pleno do seu livre-arbítrio.

Na etapa superior de evolução, tem o homem completamente desenvolvidas todas as faculdades do seu espírito. A vontade e a sabedoria chegam ao ponto culminante da perfeição. O homem seguiu o conselho sublime com que Cristo termina o Sermão da Montanha: “Sede, pois, perfeitos, como perfeito é o vosso Pai celestial”.

Se o espírito não fosse susceptível de evolução, isto é, do desenvolvimento gradual das suas inerentes e divinas potências, de nada serviria o conselho de Cristo; mas as palavras do Mestre da Compaixão e da Sabedoria são a mais concludente prova da perfectibilidade do nosso ser. Quando o homem é perfeito como o Pai que está nos céus, goza então da liberdade suprema e absoluta, porque fica livre das paixões. Soube dominar a sua natureza inferior. É senhor de si próprio. Tem a perfeita autonomia da sua vontade. Assim se prova que o querer é poder.




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