Prefácio do tradutor



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8. O entusiasmo no trabalho


– Qual foi o segredo do seu êxito? , perguntaram uma vez a Daniel Guggenheim, o rei das minas, como lhe chamam nos Estados Unidos.

– O entusiasmo com que sempre trabalhei. O espírito de otimismo e confiança que infundi no meu trabalho.

– Mas a verdade é que tem aqui um gabinete no maior luxo: quadros preciosos, móveis riquíssimos, lâmpadas soberbas... Isto é que é gozar a vida!

– Pois note uma coisa: o gabinete, os quadros, os móveis, as lâmpadas e todo este luxo que o faz admirar, custaram-me quarenta anos de penosos sacrifícios no México, no Chile e em Alaska. É muito cômodo invejar os luxos citadinos e não fazer os esforços necessários para os gozar legitimamente.

– E o que é preciso para obter o êxito?

– Sacrifício, sacrifício e sacrifício. Depois, é preciso principalmente ter perseverança, entusiasmo no trabalho e tenacidade. Sem estas qualidades, ninguém espere vencer na vida. Desde todo o princípio, devem ser acompanhadas do conhecimento da profissão que se exerce, porque de nada valeria ao ignorante a mais enérgica vontade, se primeiro a não aplicasse ,à cultura profissional.

– E que mais?

– Há muitas outras regras que podem apresentar-se sob a forma de conselhos úteis. Assim como um revés dá lugar a outro revés, assim também um êxito é a origem doutro êxito. Portanto, convém sair triunfante dum combate antes de entrar noutro.

– E qual lhe parece melhor: o talento ou o entusiasmo no trabalho?

– Se me dessem a escolher entre um homem de extraordinário talento e excepcionais aptidões, mas sem entusiasmo nem perseverança, e outro de mediana inteligência, mas perseverante e entusiasta em último grau, eu, sem hesitar, preferiria o segundo.

Não é preciso perguntar a um homem se gosta da profissão que exerce, porque ele manifestará esse prazer no semblante e no espírito de ilimitado entusiasmo que puser na sua obra. Se gostar dela, esse gozo íntimo resplandecerá em todo o seu ser.

Uma prova reveladora do caráter do indivíduo é o espírito com que ele executa o seu trabalho. Nunca ocupará um lugar proeminente na sociedade, se o fizer forçadamente, como escravo azorragado, e se não puser nele o entusiasmo necessário, de maneira a sentir gozo espiritual, em vez de penosa fadiga. Nunca poderá obter da sua profissão os esplêndidos resultados que tinha a esperar quem fizer da vida uma idéia tão errônea que não compreenda o motivo por que o homem tem de trabalhar para viver, em lugar da natureza lhe dar tudo quanto ele necessita, sem esforço da sua parte.

Muitíssimas pessoas não têm consideração alguma pelo seu trabalho. Não vêem nele o meio de eduzir faculdades latentes e de proveitosamente se exercitarem para melhor produzirem; consideram-no antes como uma desagradável necessidade para lhes proporcionar o sustento e abrigo, e como uma inevitável fadiga que a cada instante os atormenta.

E aqui temos nós mais um argumento em prol da evolução do espírito. Para que uns homens nasçam com todas as qualidades de caráter, indispensáveis ao bom êxito, e outros tenham de desenvolver, tardiamente e em menor grau, as mesmas qualidades, sujeitos a um rude trabalho em que é muitíssimo maior o esforço do que o proveito, temos necessariamente que atribuir este fato à evolução espiritual; aliás, só poderíamos invocar o motivo inadmissível dos caprichos de Deus ou dos seus secretos desígnios, o que é o mesmo.

Admitindo, porém, a evolução do espírito, o resultado é este: é que, assim como no universo material não se perde um átomo de matéria nem um dine de energia, no universo moral não há esforço, por mais leve que seja, que não tenha a sua mediata ou imediata utilidade para quem o exerce com prudente entusiasmo.

A desigualdade entre os homens está na posição e não na sua nobreza hereditária. Daqui a importância do estímulo para desenvolver as qualidades latentes que outros já manifestaram em anteriores etapas de evolução, podendo todos os que ainda as não tenham desenvolvidas consegui-lo mais tarde ou mais cedo, se seguirem o exemplo dos que já as desenvolveram,

– Porque é que Guggenheim, o rei das minas, excedeu neste negócio todos os seus competidores? perguntou alguém a um dos seus mais íntimos amigos.

– Porque sempre se distinguiu pelo seu admirável critério para escolher as ocasiões mais oportunas. Pelo seu inquebrantável otimismo, pela sua fé no futuro, pela sua confiança no aperfeiçoamento dos métodos siderúrgicos. Pela sua extraordinária sagacidade em escolher os seus subordinados e em lhes fazer ver as coisas tal como ele as via, comunicando-lhes o espírito de decisão e de entusiasmo de que era possuído. Pelo paternal carinho com que tratou todos os seus empregados, assegurando-lhes os meios de subsistência, sem que eles dispendessem um centavo. E porque não receou gastar um milhão de dólares em empresas que prometiam cinqüenta de rendimento, como por exemplo, nas minas chilenas de cobre, cujos jazigos estavam num árido e montanhoso deserto, a três mil metros acima do nível do mar. Era um terreno onde não se conhecia vegetação, nem há memória de que alguma vez tivesse caído uma gota de chuva, sendo preciso conduzir a água duma distância de 64 quilômetros, sem caminhos nem atalhos por onde passar. Era um sítio onde tudo mais parecia repelir do que convidar os seres humanos. O laborioso entusiasmo de Guggenheim converteu o triste deserto numa florescente povoação mineira.

A propósito deste fato, diz o próprio Guggenheim.

Os borrachos não voam para a vossa boca já assados e prontos para serem comidos. Haveis primeiro de ver o borracho, depois agarrá-lo, depená-lo e, em seguida, assá-lo antes de o comerdes. Pois nos negócios acontece o mesmo.

Deus colocou os minerais em sítios muito afastados das habitações humanas; por isso o negócio das minas seduz pouca gente. Todos preferem ficar na cidade, gozando as comodidades que ela oferece. Não querem sair para fora do seu ambiente, em busca de inexploradas riquezas, e lutar durante vinte ou trinta anos com tremendas fadigas.

Não encontrareis minas de cobre, chumbo, prata ou ouro, em Nova Iorque e em outras cidades. Haveis de ir a lugares desabitados e inacessíveis, onde tudo é rude, incômodo, áspero e ingrato. O único gozo que ali podeis experimentar é o do entusiasmo no trabalho que deve fazer prosperar a vossa empresa. Não podereis ir ao teatro, nem ao concerto, nem ao museu, nem ter magníficas alfombras, móveis confortáveis e quadros formosos. Tereis de trabalhar todo o dia como escravos, tendo por único recreio um pouco de leitura à noite, à luz dum candeeiro de petróleo.

As ocasiões para progredir são hoje tão numerosas como sempre o foram, desde que, para se aproveitarem, se esteja resolvido a fazer os necessários sacrifícios. Sem sacrifício, ninguém pode obter êxito legítimo, seja qual for a sua profissão. Em parte alguma se obtém nada por coisa nenhuma, porque o que nada custa nada vale nem nos proporciona prazer algum. O prazer, o gozo derivam do trabalho árduo, do esforço fatigante, do sacrifício feito para realizar a nossa aspiração. Quanto maior for esse sacrifício, mais intenso será o prazer do triunfo. Trabalho entusiasta, estudo minucioso e sacrifício pessoal –eis o que é indispensável para obter o êxito que alegra a alma, satisfaz a consciência e enxuga as lágrimas de muitos, deixando os corações tranqüilos.

Quando começamos com o negócio de metais, lembro-me de que meu pai nos disse, ao sete irmãos que éramos: “Ides estabelecer-vos por vossa conta, com o propósito firme de trabalhardes afanosamente. Mas lembrai-vos de que não será demais nenhum sacrifício que fizerdes para vos sairdes bem da vossa empresa”. A estas palavras de meu pai posso eu acrescentar, a título de conselho aos jovens que desejem ser alguma coisa neste mundo: “Os borrachos não voam para a vossa boca já assados e prontos para serem comidos”.

Este aforismo final do rei das minas exprime a mesma idéia que o antiqüíssimo rifão português: não se pescam trutas a bragas enxutas. Mas não basta trabalhar afanosamente e estar sujeito a perigos e prejuízos que atingem toda a empresa humana; é necessário que a índole do trabalho se harmonize com a do caráter, isto é, que haja uma relação exata entre a aptidão e a profissão, pois só assim se pode trabalhar com entusiasmo. O trabalho, então, é um verdadeiro prazer e é preferido às mais atrativas diversões mundanas.

Quando o indivíduo não ocupa o lugar que a natureza lhe destinou, é impossível trabalhar com entusiasmo. Deve necessariamente estar descontente, inquieto, desgostoso consigo mesmo e com a sociedade, contra cuja organização se revolta o seu desagrado pessoal.

Por conseguinte, não basta dizer às pessoas jovens: “Trabalhai com entusiasmo; não desanimeis; sede perseverantes na vossa empresa; concentrai todas as vossas energias no trabalho que fizerdes; não vos poupeis a esforços nem a sacrifícios, pois Deus ajuda a quem da sua parte fizer o que lhe compete, e ninguém vos ajudará, se da vossa parte não fizerdes o que vos cumpre.”

Tudo isto é muito bonito para se dizer numa passagem de literatura que incite ao trabalho; porém, para se passar das palavras aos fatos, exigem-se certas condições que não dependem em absoluto da vontade individual, mas que são o resultado da influência da educação recebida na infância e na adolescência.

Se os pais dão aos filhos uma errada orientação profissional, desviam-nos assim do caminho do êxito e levam-nos fatalmente para o da derrota. Desta forma, ficam os filhos numa posição falsa, visto exercerem uma profissão de índole oposta às suas naturais aptidões, de nada servindo os esforços duma vontade que esterilmente se debata contra si mesma:

Diz um escritor a este respeito:

A escola deve ser um laboratório psicológico, onde o professor descubra as naturais aptidões do educando e o oriente para a profissão social que melhor lhe convenha. Se, porém. o educando não se encontra satisfeito nessa profissão e não pode trabalhar nela com todo o seu entusiasmo, é sinal de que o professor errou na sua maneira de ver, e então o educando deve obedecer imediatamente aos impulsos da sua vocação já definida, enquanto é tempo para mudar de rumo.

É lamentável ver uma criatura, que Deus criou para ser uma nota harmônica no conceito social, desafinar deploravelmente, por ter sido colocada por mãos desajeitadas em sítio de pentagrama onde as suas vibrações não afinam com as outras notas.

Pouco importa que o vosso trabalho seja modesto e humilde. A qualidade dele será determinada pelo espírito com que o realizardes. É mais louvável tornar uma rua bem higiênica do que redigir atabalhoadamente um projeto de lei. O que principalmente deveis ter em vista é nunca fazerdes o vosso trabalho de má vontade nem o deixardes em meio, porque, além de ficar incompleto e, portanto, sem utilidade, desmerecereis no conceito dos vossos superiores, se trabalhais por conta alheia, ou perdereis o crédito na vossa profissão, se trabalhais por vossa conta.

Não adquirais o hábito de fazer as coisas sem o devido escrúpulo e ponderação. Lembrai-vos de que do resultado do vosso trabalho deve depender o vosso futuro. Fazei-o com a mesma solicitude e entusiasmo, como se tivésseis de apresentá-lo num exame, exibi-lo numa exposição ou levá-lo a um concurso.

Há uma relação tão íntima entre a força espiritual e a material que, conforme fora a atitude anímica com que o homem empreenda um trabalho, assim será o resultado dele. As coisas também têm alma, mas quem lhes inspira essa alma é quem as executa com entusiasmo.

A antiga máxima que diz que cada um é filho das suas obras, poderia completar-se, dizendo que as obras de cada um revelam as aspirações, os ideais e as características do autor. Ninguém pode atingir o máximo da sua energia individual, enquanto considerar o seu labor como trabalho forçado ou fardo inevitável.

Mas ainda no caso desfavorável de que as circunstâncias vos tenham colocado numa profissão de que não gosteis, vencei essa repugnância até achardes ocasião oportuna de descobrirdes outra profissão melhor e mais útil, o que decerto conseguireis.

Os ofícios, por mais humildes que sejam, podem sempre nobilitar-se, sabendo-os desempenhar habilmente, de maneira a transformá-los numa profissão digna.

Todavia, ao entusiasmo é preciso aliar a inteligência, a sabedoria, o senso comum, as faculdades intelectuais, enfim, que devem acompanhar as anímicas.

Diz a este respeito um indivíduo que triunfou nos combates da vida:

A coisa mais poderosa que eu conheço depois da vontade é o cérebro dum homem. Com ele pode lavrar diamantes e abrir túneis. Deus deu um cérebro a cada um de nós. Mas como costumamos utilizar este dom? Não há ninguém que, tendo aproveitado o tempo em adquirir conhecimentos úteis durante a infância e a puberdade, não possa fazer progredir a sua obra, desde que a ela se dedique de todo o coração e aplique utilmente o seu cérebro. O êxito é garantido para quem se colocar em atitude mental de conseguir o que deseja, e depois trabalhe, trabalhe incansavelmente e no trabalho faça consistir o motivo da sua existência.

Mas cá temos outra vez em animada conversa os nossos dois amigos, que encaram as coisas por dois aspectos diferentes e as vêem, conforme o prisma por que as examinam. Registremos o que eles dizem:

– Eu não confio tanto como tu na eficácia da literatura que incita ao trabalho, porque essa literatura trata especialmente das vidas dos homens, cuja preocupação única consistiu em amealhar dinheiro. Se todos os rapazes que lêem esses exemplos fossem capazes de os seguir, guiados apenas pelos estímulos da leitura, daria em resultado chegarem todos a ser milionários, ou todos pobres dentro das suas riquezas, o que é o mesmo, porque o pobre desapareceria como termo de comparação. Ora a riqueza sem a pobreza havia de ser uma coisa tão monótona como seria a luz sem a sombra, a virtude sem o vício, a verdade sem o erro e o bem sem o mal.

– Lá tornas tu com os exageros do costume. Eu não creio que os que escrevem obras de estímulo para a juventude tenham a veleidade de querer que os seus conselhos sirvam para toda a gente. Nada disso. Aproveitam somente os que reúnam circunstâncias especiais para pôr o conselho em prática.

– Mas não contestas que muitos homens se colocaram em atitude mental favorável para obterem o que desejavam e, apesar da sua perseverança e laboriosidade, e do seu entusiasmo para o trabalho, chegaram a envelhecer e a morrer sem triunfarem dos seus esforços.

– Porque não souberam utilizar o cérebro. Se o tinham, era um cérebro desequilibrado. Vou apresentar-te um exemplo: Há alguns anos morreu um opulento industrial que tinha um filho único. Por sua morte, deixou a este o negócio que ia prosperando de dia para dia. O filho, pesando a responsabilidade que ia assumir, tomou a direção do negócio, procurando mantê-lo na mesma grande prosperidade. Mas, como sucede com os noventa por cento dos negociantes, quis encarregar-se de todas as particularidades inerentes à sua indústria, e, ao fim dum mês, começou a adoecer de tal maneira que, tendo a mania de fazer tudo, acabou por não fazer nada. Nestas condições, o negócio começou a falhar e ele foi-se arruinando. Tudo isto por não haver utilizado convenientemente o seu cérebro.

– Nisso estou de acordo. Nem sempre havemos de estar a discutir como os políticos ministeriais e de oposição, entre os quais uns afirmam uma coisa, e outros passam logo a negá-la. Também entendo que o entusiasmo no trabalho não consiste em o dono do estabelecimento estar a espanar as prateleiras e deixar lá ficar o pó, ou estar a aviar os fregueses e a escrever cartas ao mesmo tempo.

– Evidentemente. O que tal fizesse seria um lojista e não um comerciante. Seria um carrejão e não um trabalhador consciente. O homem que quer triunfar, pensa, medita, prevê as coisas, toma planos e confia a empregados, sabiamente escolhidos, a execução dos pequenos assuntos. O dono do estabelecimento é o cérebro e o coração do negócio; os empregados são o braço que executa.

– É absolutamente verdade tudo o que dizes! Por mais que examine e observe o meio comercial, só vejo negociantes rotineiros que se assustam e desanimam, quando têm de pagar direitos alfandegários. Não pensam no verdadeiro sentido da palavra negociante.

– E não só não pensam como não vêem o que há além do dia ou da semana que lhes marca o calendário.

– Depois, queixam-se de que os tempos são maus e de que o governo não os protege, quando do que necessitam é de pôr o cérebro em vibração, em vez de o deixarem parado como um órgão sem vida, privado de todo o movimento.


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