Prefácio do tradutor



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6. Obstáculos da vontade


Dois amigos de opiniões opostas entabularam um dia o seguinte diálogo sobre um tema que se relaciona com a epígrafe deste capítulo. Diziam eles:

– Que farias, se tivesses de arriscar a tua reputação, o teu bem-estar material, o teu futuro nalgum concurso a um campeonato desportivo ou ainda num concurso científico ou literário?

– Essa pergunta é muito vaga, meu caro, e tu misturas nela o físico com o intelectual, como se fosse indiferente dar pontapés numa bola, compor uma novela ou escrever uma memória sobre a pluralidade dos mundos habitados.

– Para o caso é o mesmo. Pensa bem e descobrirás a analogia que há entre os três pontos que te parecem tão dessemelhantes.

– Ah! já sei. Queres dizer que, havendo tempo e paciência para isso, o suposto concorrente há-de colocar-se em condições de vencer no concurso, pois, de contrário, não poderá realizar o seta intento.

– Adivinhaste. Bem me queria parecer que um rapaz tão esperto como tu não havia de ficar embaçado com a resposta à minha pergunta.

– Obrigado pela lisonja. Mas, se não me engano, parece-me que o teu exemplo vem a significar que todos os que desejam valorizar a sua vida e fazer algo de eficaz e relevante, têm de entrar num concurso idêntico.

– Perfeitamente. E eu ainda acrescentarei que, ao entrarem num conflito tão grave e transcendental que ameaça todo o futuro, a primeira coisa que devem fazer é remover todas as dificuldades que sirvam de estorvo à vontade, que deprimam o espírito, que debilitem o esforço, que obscureçam as faculdades e façam perder a energia, até deixarem o caminho do êxito livre de obstáculos. Repara no que sucede nas corridas pedestres. Por muito desejo que um corredor tenha de vencer, perderá a corrida, se não se tiver preparado para a vitória, libertando-se da gordura do tecido adiposo e da roupa que lhe tolhe os movimentos.

– Tudo isso ê muito verdade; mas parece-me um pouco vago. Deixa-te de generalidades, concretiza o teu pensamento e dize-me quais são esses obstáculos da vontade.

– Cada um tem os seus, embora poucos consigam vê-los e muito menos vê-los nos outros. O mal está em todos querermos triunfar e apenas um por cento poder consegui-lo. Os mais não caminham para a frente, têm as pernas presas, estão manietados, e não procuram libertar-se do que os estorva. Precisavam duma marreta na cabeça para os fazer andar. Confiam demasiado na sorte.

– Pois, meu caro, pelo que tenho visto, não é a sorte um fator tão desprezável que se possa prescindir dele no problema da vida. Lê as biografias de todos esses homens que, aos olhos do mundo inteiro, chegaram ao apogeu da fortuna e verás como a sorte os favoreceu, senão em tudo, pelo menos, nalguma coisa. Que teria sido de Colombo, se não tem a sorte de encontrar o frade Marchem? Que seria de Haendel, se não fosse a criada que, às escondidas, levou para a água-furtada o velho clavicórdio? Desengana-te, que não há homem sem homem, sem alguém que o proteja, sem, finalmente, ter sorte.

– Mas essa sorte não é a estouvada fortuna nem a cega casualidade dos céticos. É o auxílio que Deus dispensa a quem faz o que lhe cumpre. E a melhor maneira de fazer o que nos cumpre é removermos os obstáculos da vontade.

– E lá voltas à mesma. É como se andasses a tirar água a uma nora. Desculpa a analogia, mas isto é devido à confiança que temos. O que eu quero saber é quais são esses obstáculos.

– Em primeiro lugar, temos a trindade satânica.

– A trindade quê?

– A trindade satânica, torno a dizer. As mulheres, o vinho e o jogo. Quem tiver inveterado algum destes vícios de tal maneira que cheguem a constituir uma verdadeira paixão, não espere triunfar nos combates da vida e muito menos nos da consciência.

– E quem for escravo de toda a sataníssima trindade?

– Irá dar com os ossos numa cadeia, se não tiver a suficiente astúcia para escapar pelas malhas do código penal.

– Mas eu vejo por aí homens que não são muito respeitadores do sexto mandamento, que freqüentam as salas dos cassinos mais nobres, onde criminosamente se joga, e que têm conta aberta nas mais bem providas tabernas. E, contudo, não engrossam o número dos infelizes e dos vencido, nas lutas da vida; ao passo que outros tão castos como o filho predileto de Jacob, que não provam vinho, não conhecem um baralho de cartas nem sabem o que é uma roleta, parecem esmagados pelo infortúnio, sem poderem erguer a cabeça, condenados eternamente a sofrer. Como explicas tu este paradoxo?

– Primeiro que tudo, deves notar que a vontade é susceptível de inúmeros graus de desenvolvimento e, embora não fique de todo paralisada, apesar dos três obstáculos que apontei, mantém-se de pé a minha afirmação, porque o escravo do vício desenvolvê-la-ia em grau muito mais elevado, se formasse o propósito de se libertar da escravidão a que está sujeito. Se atares um barbante a uma perna dum pássaro sem lhe cortar as asas, ele voará como se estivesse livre, até à distância que lhe permita o comprimento do barbante. Quanto mais comprido este for, menor será o obstáculo ao vôo do pássaro; e quanto mais curto, maior será esse obstáculo. Mas, se ele fosse capaz de se soltar, a sua liberdade teria unicamente por limite a potência das asas.

– Agrada-me o paralelo que estabeleceste, e vou apresentar-te outro para que vejas que também alguns me ocorrem a propósito. Imagina que prendes curto um cavalo fogoso, vencedor nas corridas por ser muito veloz. De que lhe servirão as quatro patas? Uma pequena corrente de bronze com meia dúzia de elos será o suficiente para o inutilizar. Do mesmo modo, há muitos homens com excepcionais qualidades para uma determinada profissão, que não podem revelá-las nem utilizá-las frutuosamente, porque estão subjugados por uma paixão violenta que obsta ao desenvolvimento do seu espírito. Não progridem, enquanto se não libertarem do obstáculo.

– Tens razão. Um gigante encerrado numa masmorra ficaria com a força muscular atrofiada, por não ter espaço onde se pudesse mover livremente. Também a maior parte das pessoas vivem numa atmosfera que esfria o entusiasmo, gasta a energia e malbarata o tempo. Não têm força bastante para quebrar as algemas das paixões, a cadeia dos vícios, as convenções sociais e para se colocarem num ambiente favorável ao exercício das suas faculdades.

– Pelo que dizes, além das mulheres, do vinho e do jogo, há outros obstáculos da vontade?

– É claro. Não tão luxuosos, mas talvez mais formidáveis, porque estão dentro e não fora de nós.

– Quais são?

– A timidez, o tédio, a ignorância, o orgulho, a irascibilidade, a grosseria, a deslealdade e a mentira. São estes, além dos três que já mencionei, os oito obstáculos da vontade. Os oito remos do barco do inéxito.

– Contaste-os bem?

– São, pelo menos, os de maior tomo. Há ainda outros que hei-de de dizer, quando nos tornarmos a ver.

Ficou por aqui o diálogo entre os dois amigos, a que não será de todo mal fazer alguns breves comentários.

Há tempos, numa pequena povoação, havia um rapaz de notável talento artístico que, por circunstâncias da vida, passava os anos a peregrinar duma profissão para outra. Não estimulava os seus dons naturais, nem fazia o menor esforço para se livrar dos pequenos obstáculos que lhe barravam o caminho duma carreira artística triunfal. Esse rapaz era pobre e, para cúmulo da desgraça, tinha receio das privações e dos desgostos que, na sua opinião o esperavam, se abandonasse a ingrata profissão em que ganhava a vida, mas em que não fazia gosto nenhum.

Durante muitos anos, manteve-se na espectativa duma ocasião favorável, que nunca era como ele a desejava. Assim, foi diminuindo lentamente o seu amor pela arte, até que se extinguiu por completo. A timidez não lhe deixou manifestar o verdadeiro significado da sua vida.

O mesmo sucede a muitos rapazes que não se atrevem a deixar o certo pelo duvidoso, quando este se adapta melhor do que aquele às suas faculdades naturais. Não dão um passo para a frente com medo de o darem em falso. Esperam, inutilmente, que algum misterioso poder lhes dê coragem e esperança.

O tédio é outro obstáculo da vontade. Participa, ao mesmo tempo, da preguiça, do egoísmo, do pessimismo e da desconfiança. Qualquer trabalho violento que nos contrarie, os sofrimentos duma doença penosa ou incurável, ou um desgosto moral, costumam ser os fatores que dão origem ao tédio, quando não é firme o sentimento genuìnamente religioso, sendo a sua principal origem a fadiga física ou mental, resultante do excesso de trabalho.

O tédio é mais uma doença mental do que nervosa, e, portanto, para a curar, é preciso transformar a atitude pessimista da mente em atitude otimista, adaptando-nos às circunstâncias favoráveis e sobrepondo-nos às adversas. As abluções frias pela manhã, os intervalos de descanso, mesmo só de dez minutos, no trabalho cotidiano, quando se nota fadiga, o sono suficiente para restaurar as forças e um normal regime alimentício, contribuirão para mudar a nossa acabrunhante atitude mental numa atitude prazenteira, dissipando o tédio, como a luz dissipa as trevas. Tudo é uma questão de suportar um pouco o esforço necessário para operar a mudança de atitude mental.

Há outros a quem a ignorância serve de obstáculo à vontade. Nunca conquistam a liberdade que a educação proporciona. As suas faculdades intelectuais permanecem latentes. Imaginam que já são demasiado velhos para começarem por onde começam as crianças, e assim se conservam num nível inferior, quando poderiam ter subido até ao ponto onde a superioridade se alcança. Entendem que não servem para nada, que estão condenados pela má sorte a uma penúria perpétua, e são tão cegos que não dão sequer pela escravidão, que os subjuga.

O orgulho é uma das muitas modalidades do egoísmo, e, como tal, instiga contra o orgulhoso a animosidade dos que por ele se sentem humilhados e que não o auxiliam nas suas empresas, quando são solicitados por ele. Geralmente, os que são escravos desta paixão, que paraliza, ou, pelo menos, dificulta a vontade, são os que não chegaram à situação do mando pelos caminhos da obediência voluntária, mas sim por caprichos do favoritismo ou por condescendências do compadrio. Foi por estas vias que conquistaram situações de destaque impróprias da sua anterior preparação. Julgando-se intrinsecamente superiores aos que estão sob as suas ordens, tratam-nos com desdenhosa altivez, sem atenderem a que, na realidade, os que lhes estão subordinados são colaboradores e não servos da empresa comum que o orgulhoso supõe ser coisa exclusivamente sua.

Notemos que o homem de indiscutível valor se mostra tanto mais modesto quanto mais sábio é.

– Podes estar certo, ó Sócrates, que Minerva te concedeu o título de sábio, disseram ao sublime mestre os seus discípulos, depois de consultarem o oráculo.

– Muito me admira a concessão de semelhante título, e parece-me que, desta vez, ou se enganou o oráculo ou quem o recebeu, porque não vejo motivo algum para essa divina sentença. Há outros mais justos, mais temperantes, mais eloqüentes e mais úteis à pátria do que eu. Eu o que sei é que não sei nada.

– Nisso não tens razão, ó mestre, porque, se sabes que não sabes, alguma coisa sabes; e, se não sabes que sabes, não tens razão para dizer que não sabes.

– Então também jogais com sofismas como quem joga com palavras? Deixai-vos de argumentos capciosos e crede que, se Minerva me escolhe para sábio, o meu deus interior, que vale tanto ou mais do que a deusa da sabedoria, segreda-me que é estupidez orgulharmo-nos de ter sabedoria e ciência.

Também levanta obstáculos no seu caminho o que ostenta de sábio e o que altivamente abusa do seu poder, confundindo o orgulho com a energia. Diz Carlos Miguel Schwab:

Há muitas pessoas que não triunfam na sua vida, porque não reconhecem a vantagem de ser amáveis e corteses com os seus subordinados. A benevolência, sem baixeza, para com toda a gente, é sempre útil para quem a exerce; além de que é um prazer ser amável para com todos.

Dizem que a virtude consiste no meio termo, o que não é verdade, embora seja verdadeiro o conceito que o autor da sentença quis exprimir. Por meio termo não devem entender-se aqui as meias tintas, as cores indefinidas, mas o equilíbrio, a equanimidade tão difícil de conseguir, enquanto o homem não é senhor de si e não tem dominado a sua natureza inferior. Então, deixa de ser orgulhoso para ser duma tal melifluidade que até as moscas o comem. Coloca-se no fiel da balança, cujos pratos são a soberba e a baixeza. A sua vontade pode assim atuar livremente no sentido da justiça, que, com mais direito do que a caridade mal interpretada, é a rainha das virtudes e a única base sólida das relações dos homens entre si.

Semelhante à embriaguez, pelos seus efeitos, é a iracundia ou irascibilidade, que significa propensão para a ira pelo vicioso hábito de se irar. Também se chama cólera e raiva, porque a medicina medievel, julgava, e não andava muito longe da verdade, que os acessos da ira provinham dum humor do corpo e que deram o nome de cólera. E é assim que, por força da tradição, ainda hoje dizemos que uma pessoa está de mau humor, quando mostra a irritação que antecede a ira.

É uma paixão tão violenta que altera as feições do rosto, perturba a mente e, segundo diz Juvenal, impele o homem irado como um rochedo enorme que, perdendo subitamente o seu ponto de apoio, se precipita do cume duma montanha. E Ovídio acrescenta que o semblante do colérico começa a intumecer, as veias enlivedecem e os olhos despedem chispas mais ardentes do que as das fúrias.

O aspecto mais terrível da ira é o iracundo tornar-se tão louco que faz o contrário daquilo a que o arrastaria a sua paixão.

O festejado dramaturgo espanhol Antonio Garcia Gutiérrez, que floresceu no período álgido do romantismo, dá-nos um exemplo do ponto a que chega a obcecação da ira, no seu magnífico drama O Trovador, musicado mais tarde pelo gênio inspirado de Verdi. Narremos o caso:

O conde de Luna mandou queimar viva uma cigana que, na sua opinião, enfeitiçara o filho mais velho que ele tinha, uma criança de dois anos de idade. Açucena, a filha da condenada à fogueira, seguia-a de longe, quando a conduziam ao suplício, debulhada em lágrimas, como uma filha que pranteia sua mãe e levando nos braços um filhito de dois anos. Já próximo da fogueira, a ré encarou com a filha, fazendo um gesto de terror e, com voz surda, gritou-lhe: “Vinga-me”. Açucena jurou vingá-la duma maneira horrorosa; e poucos dias depois teve ocasião de consegui-lo, porque pode entrar ocultamente no palácio do conde e raptar o filho, no intuito de o queimar vivo no mesmo sítio onde baviam queimado sua mãe. O pobrezinho chorava numa aflição e, como se intuitivamente pressentisse o perigo, afagava Açucena de maneira a que ela se compadecesse dele. Os lamentos da infeliz criança aplacavam a ira da cigana e rasgavam-lhe o coração, porque também era mãe. A luta entre as desencontradas emoções que no ânimo de Açucena provocava o choro da criança e o grito da mãe: Vinga-me, que ainda ressoava, aos seus ouvidos, era superior às suas forças e ela foi acometida duma violenta comoção. Mas, de repente, como num sonho lúcido, representou-se-lhe a cena do suplício, os soldados com as suas lanças, a mãe desgrenhada e pálida que, com passo trêmulo, caminhava lentamente, muito lentamente, para a morte, voltando-se para trás para a ver, e para lhe dizer: “Vinga-me”. Então apoderou-se de Açucena uma cólera indefinível, um furor violento, incomparável, e, louca de desespero, em vez de atirar às chamas o filho do conde, engana-se, no meio da obcecação que a dominava, e arremessa à fogueira o seu próprio filho.

Embora este exemplo, criado pela imaginação do drarrnaturgo, não tenha verdade histórica, não haverá ninguém que alguma vez na vida não tenha experimentado, por si ou pelos outros, os funestos resultados da ira que atingem sempre aquele que se encoleriza, porque, no seu desvairamento, luta consigo mesmo.

A grosseria é outro obstáculo da vontade nos caminhos do êxito. Muitas vezes, uma falta de atenção, um gesto desdenhoso, o não cumprimento duma promessa, o deixar de pagar uma visita, o silêncio a uma carta e outras coisas que para nós parecem insignificantes, são de muitíssima importância para os outros que as tomam por desprezo, e o desprezo é uma chaga incurável do coração humano. Os louvores e aplausos dos nossos adversérios desvanecem-nos; mas o desprezo dos amigos humilha-nos. Basta uma grosseria da nossa parte para desmerecermos no conceito alheio, de maneira a sermos esquecidos ou desprezados por quem tenha a ocasião de nos ajudar e não queira para isso aproveitar o ensejo.

A cortesia, a urbanidade e os bons modos valem muito e nada custam, quando são como devem ser – a expressão espontãnea dum caráter equânime; mas depõem contra o que é forçadamente cortês e que, em vez de se apresentar com simpática elegância e agilidade de maneiras, se apresenta timidamente e com ar suplicante, como raposa açoitada, dando assim prova dum valor medíocre.

Deste modo, são igualmente prejudiciais para o êxito que se pretende alcançar estes dois extremos – a grosseria insolente e o acanhamento servil.

Precisava um comerciante dum empregado que conscienciosamente lhe fizesse a escrituração da sua casa e, segundo o costume, mandou um anúncio para os jornais. Acudiram muitos indivíduos a solicitar o lugar, e o comerciante ia observando o aspecto de cada um, colhendo informações, inquirindo dos seus antecedentes, sem prometer a nenhum deles nada de positivo, pois podia dar-se o caso de aceitar um e apresentar-se logo outro numas condições mais vantajosas. Entre os pretendentes, havia alguns que ficavam logo desenganados. O seu aspecto e os seus modos grosseiros eram motivo suficiente para infundir repulsa. Um deles entrou no escritório do comerciante com ar consternado, e; depois de responder às perguntas do estilo que geralmente se fazem nestes casos, começou dizendo num tom de lamúria:

– Suplico-lhe por tudo quanto há que me dê a mim o lugar. Estou na miséria.

– Mas, meu caro senhor, deve compreender que a minha casa não é um asilo de beneficência. Pode haver quem reúna melhores condições de que o senhor para desempenhar o lugar.

– Eu fico por tudo o que V. Exa. me quiser dar. Outros talvez exijam mais ordenado. Veja, senhor, que estou no último extremo e já não sei a que porta deva ir bater, porque todas se me fecham.

– É porque o senhor não bate de forma que o ouçam e que o atendam. Em todo o caso, deixe-me o seu nome e a sua morada, que eu avisarei, se me convier.

Escusado é dizer que o comerciante não pensou mais em quem demonstrava tão pouca confiança em si próprio. Os modos acanhados do pretendente, a incoerência das suas palavras, o tom de servilismo em que suplicava eram motivos reveladores dum caráter mesquinho num homem que o comerciante não podia admitir para colaborar no seu negócio.

Em compensação, apresentou-se outro com tal ar de naturalidade, com gestos e atitudes de tão requintada cortesia, onde não havia a menor sombra de afetação, que parecia mais um indivíduo que confiadamente entrasse no escritório a propor um negócio do que a solicitar um emprego.

Às preguntas do comerciante respondeu sem titubear, num tom de quem sabe perfeitamente dominar-se:

– Tenho a dizer a V. Exa., com toda a franqueza, que um lugar semelhante ao que aqui está por preencher, estou eu desempenhando na casa tal. Como, sem vaidade, creio que mereço maior ordenado do que o que me dão, e o dever de todo o indivíduo é ir prosperando na sua carreira, solicitei o aumento; mas responderam-me que a situação financeira da casa não permitia aumentar as despesas. Eu posso garantir a V. Exa. que sei desempenhar o meu lugar e cumprir todas as minhas obrigações. O tempo se encarregará de confirmar as minhas palavras, que não são ditadas por um espírito de vaidade, mas pela certeza adquirida pela experiência. Agora, V. Exa. dirá da sua justiça.

Este rapaz nem era servil nem arrogante. Tinha plena confiança em si mesmo, porque conhecia bem a técnica contabilista, e não havia problema, embora difícil, que ele não fosse capaz de resolver. O comerciante convenceu-se de que tinha finalmente encontrado o homem que desejava e que, pelas suas palavras, maneiras e atitudes, revelava a energia necessária para trabalhar com vigor e entusiasmo no lugar que lhe ia ser confiado.

Henrique Pomeroy Davison, presidente da Junta Suprema da Cruz Roxa dos Estados Unidos e sócio do Banco Morgan, era, quando rapaz, um simples moço de recados, e um dia tinha passado rapidamente deste modesto emprego para o de cobrador dum Banco pouco importante de Bridgeport (Connecticut), quando leu nos jornais que se estava fundando um novo Banco em Nova Iorque. Imediatamente, tomou a resolução de que devia obter um lugar nesse Banco e, munido duma carta de recomendação dum dos directores do Banco de Bridgeport, que conhecia o caixa do de Nova Iorque, tomou, naquela mesma tarde, o comboio e apresentou-se nos escritórios, entregando a carta.

O caixa recebeu-o muito amavelmente, apesar de nem ao menos lhe dar esperanças de obter o lugar que ele desejava. Mas o moço Davison não era dos que se declaram facilmente vencidos e, regressando a Bridgeport, pensou que era conveniente insistir no pedido.

No dia seguinte, terminado o seu trabalho no escritório, tornou a meter-se no comboio que o conluzia a Nova Iorque. O caixa, embora algo surpreendido de o ver novamente, recebeu-o com a mesma cordialidade, dizendo-lhe, porém, que não era possível dar-lhe o lugar de pagador que solicitava, porque não lhes convinha um indivíduo de fora da terra, mas um homem que conhecesse a praça de Nova Iorque e tivesse desenvolvidas relações comerciais.

O jovem Davison nem por isso ficou menos lisongeado com a afabilidade com que o caixa o tratava, e ainda desta feita não desanimou, porque, no dia seguinte, estava outra vez em Nova Iorque, mais resolvido do que nunca a obter o ambicionado lugar.

– O caixa não virá hoje em todo o dia - disseram-lhe os contínuos do Banco.

– Onde mora ele?

– Em tal parte.

Daí a meia hora, estava Davison em casa do caixa. O criado disse-lhe:

– O patrão está-se a vestir para assistir a um convite de cerimônia.

– Está bem; eu espero. Só lhe quero dizer três palavras.

O criado foi participar ao amo que Davison o estava esperando e, daí a pouco, veio dizer a este que podia entrar.

O caixa, quando viu Davison, soltou uma gargalhada.

– Ah! Ah! Ah! Então o senhor outra vez por aqui? Já me parece a sombra de Nino.

– Pois sou ele mesmo, respondeu Davison também com o riso nos lábios. Mas vamos ao que importa. Eu tenho a certeza de que sou o homem de quem V. Exa. necessita para pagador. Sou um homem e não uma máquina. Terá V. Ex.a em mim um fiel auxiliar. Sinto ter que lho dizer pessoalmente, mas não tenho mais ninguém que o diga por mim. Se me der o lugar, garanto-lhe que não se há-de arrepender.

O ardor, o tom de sinceridade, o ar perseverante e cortês com que ele se exprimia, impressionaram o caixa tão profundamente que o levaram a admitir o pretendente ao serviço do Banco.

– Quanto quer o senhor ganhar?

– Eu queria 1.500 dólares, mas contento-me com 600 ou 700, o necessário para viver.

– Pois ficará então no lugar de pagador, com o ordenado anual de 1.500 dólares.

Louco de contentamento, despediu-se do Banco de Bridgeport para descansar uns dias em sua casa, antes de tomar posse do seu novo lugar, quando recebeu uma carta do Caixa, dizendo-lhe que o diretor do Banco não tinha aprovado a sua proposta, e que, para evitar questões, conviria que ele renunciasse ao lugar de pagador, aceitando em troca outro lugar inferior e com menos ordenado. Todavia, em vista de o Caixa ter empenhado a sua palavra, o diretor conformar-se-ia, no caso de Davison insistir em manter o seu direito.

O intrépido moço, com o generoso intuito de livrar o seu protector do cuidado em que estaria até receber a resposta por carta, telegrafou imediatamente nestes termos: “Concordo plenamente aceitar o lugar inferior e ordenado.” Este telegrama satisfez tanto o director do Banco que, mudando de parecer, ratificou a Davison o lugar de pagador.

A trapacice ou ciganice, que também podia chamar-se improbidade, é talvez o maior obstáculo do êxito. Apesar de vulgarmente se dizer que todos os patifes têm sorte e vermos homens que arranjaram fortunas colossais por meios ilícitos, não podem eles gozá-las como desejam, porque, além dos remorsos da consciência que, moralmente, os não deixam tranqüilos, há as doenças crónicas, derivadas da febre com que dirigiram os seus negócios, e que lhes amarguram a existência, deixando-os miseráveis no meio de tanta riqueza inca-paz de lhes dar a menor parcela de saúde e de felicidade.

A prosperidade duradoura é inimiga irreconciliável dos negócios ilícitos e dos ruins processos de que se servem os trapaceiros e velhacos de toda a espécie para enriquecerem à custa alheia.

A vontade converte-se em desejo apaixonado, quando segue o tortuoso caminho da cobiça e da velhacaria. A trapacice ou improbidade é tão prejudicial no comerciante como no empregado, no patrão como no operário, no superior como no inferior. Há quem exija a mais rigorosa honestidade da parte dos seus empregados, e, por outro lado, não se importe de os ensinar a iludir os compradores no peso, na qualidade ou na porção da mercadoria, como se isto fosse a coisa mais natural deste mundo.

Nos mercados e nas lojas de comestíveis, principalmente, não pode ser maior a velhacaria dos vendedores. Quando pesam qualquer gênero, parece que dão o peso exato, por terem a habilidade de conseguir que a balança fique certa, e, contudo, roubam – é o têrmo – uma certa porção ao artigo, que vendem. Poderão estes comerciantes e vendedores gozar do fruto dos seus latrocínios, e ainda escarnecer das multas que a autoridade lhes aplique em flagrante delito, porque a importância da fraude é muito superior à importância da multa; mas dia virá em que, inesperadamente, hão-de ver diminuir a pouco e pouco a freguesia, até que perderão tudo o que, por meios ilícitos, adquiriram. Sob o ponto de vista do interesse material, é muito melhor ter probidade do que usar de velhacaria.

– Que é a honradez? perguntava Benjamim Franklin a seu pai.

– Não sei que deva responder-te, meu filho, Cada um entende-a conforme convém aos seus interesses pessoais. Quem mais rigorosamente a exige dos seus inferiores, menos a respeita quase sempre nas suas relações com as pessoas de igual categoria. Para a maioria dos indivíduos, a honradez consiste em não roubar, nem furtar, nem vigarizar. Na sua opinião, pode-se ser um libertino e, contudo, ser-se honrado, por nunca se haver tirado um centavo a ninguém.

– Pois a mim parece-me, respondeu o jovem Franklin, que a honradez consiste na prática de todas as virtudes cívicas e morais, sem excluir uma só, porque, quem infringir a lei num único ponto, é como se a infringisse em todos, do mesmo modo que, para inutilizar uma cadeia, não é preciso partir-lhe todos os anéis, basta partir-lhe um só.

– Assim deveria ser como tu dizes, respondeu o pai, e muito folgo em te ver discorrer tão acertadamente, embora as tuas idéias discordem das que apresentam a maior parte das pessoas. Parece-me que, se continuares por esse caminho, hás-de erguer o nosso nome tão alto que o irás pôr nas nuvens.

– Não digo menos disso, porque se me meteu na cabeça que os relâmpagos não são mais do que um raio entre as nuvens.

– E que tem isso que ver com a honradez?

– É que também deve haver honradez científica, meu pai, e tão criminoso é o que rouba em descampado como o que não tem escrúpulo em considerar suas as invenções alheias.

– De maneira que entendes que a honradez deve ser extensiva a todas as relações humanas? Era preciso que todos tivéssemos nascido santos, e então não haveria ninguém honrado.

– Não exageremos até esse ponto, meu pai. Nem tanto nem tão pouco. O que eu quero dizer é que todo aquele que, na ausência dum seu superior, não proceder como quando ele está presente, revela tanta falta de probidade como o negociante que engana os seus fregueses. E o que é capaz de revolver o mundo inteiro para descobrir o dono duma jóia que encontrou na rua e a entrega sem estar atido a qualquer gratificação, não é honrado se, por outro lado, for um mau marido, um mau pai, um mau irmão ou um mau filho.

Tinha razão Franklin, a darmos crédito ao que dizem as crônicas; mas, quando ele não tivesse pessoalmente formulado os raciocínios que aí ficam, nem por isso eles são menos verdadeiros, e o que importa é que se diga a verdade, venha ela da boca dum judeu ou dum quacre.

Por outro lado, a improbidade é companheira inseparável da mentira. O que furta, rouba, vigariza ou caloteia, há-de forçosamente ser embusteiro, porque, para fugir das dificuldades em que o colocam as suas falcatruas, tem de recorrer a mil astúcias e artifícios que, enleando-se uns nos outros, formam a rede em que fica preso o embusteiro. A mentira é a moeda falsa do comércio intelectual. A sociedade tem por traço de união entre os homens a palavra falada ou escrita, único meio de manifestarmos claramente os nossos pensamentos e emoções. Quem dá á palavra uma expressão contrária à verdadeira é um falsário, um vigarista de idéias, e, como ninguém pode ter confiança na infidelidade da sua palavra, todos os caminhos da prosperidade lhe ficam obstruídos. Os esforços que tivermos de fazer para nos livrarmos de todos estes obstáculos da vontade chamarão, em nosso auxílio, forças espirituais e físicas, que teriam permanecido latentes toda a vida, sem darmos por elas, se a necessidade não nos obrigasse a desenvolvê-las.

Diz Filipe Brooks que ninguém pode ter uma vida fictícia, quando se convence de que é capaz de viver integralmente dentro do que a vida tem de melhor. Mas também ninguém pode viver na plenitude da sua existência, enquanto estiver ligado pelos laços do desejo passional a um ponto qualquer da sua natureza inferior. Há-de ser tão livre de pensamento como de ação, para chegar ao seu verdadeiro nível individual.

Os obstáculos da vontade que não nos deixam avançar no caminho da vida não são coisa que se possa remover num só dia, nem também é fácil eliminá-los todos duma vez. Convém, para o melhor resultado deste aperfeiçoamento moral, combater primeiramente o vício que estiver mais radicado nos nossos hábitos, porque, assim, os outros não custarão tanto a vencer. Quem verdadeiramente quiser, poderá vencê-los, porque nunca a tentação será superior às suas forças.

O talento em liberdade tem muito mais merecimento do que o gênio encarcerado.


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