Prefácio do tradutor



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5. Auto-educação


João Wanamaker foi urna vez convidado a tomar parte numa expedição organizada para tirar do fundo do mar os tesouros submergidos juntamente com as fragatas espanholas, metidas a pique pelos navios ingleses, quando regressavam da América, carregadas de ouro. O futuro multimilionário de Filadélfia respondeu:

Com muito prazer tomaria parte na vossa expedição, se não me seduzisse outra muito melhor e que, com menos perigo, aqui mesmo posso empreender. Sob os vossos pés jazem tesouros incalculáveis de que vos podeis apossar, estudando-vos e conhecendo-vos a vós mesmos. Acreditai no que vos digo. Não vos contenteis em extrair muito carvão das minas, nem em construir poderosas locomotivas, nem em fabricar formosas tapeçarias. Por entre o percutir das picaretas, o bater dos martelos, o efervescer das caldeiras, o revoltear das rodas e o matraquear dos teares, pensai no imortal mecanismo que Deus vos confiou e educai a mente, a vontade e o sentimento, para que prestem o maior e o mais nobre serviço que puder ser.

O homem inculto está sempre em manifesta desvantagem. Por muita inteligência que possua, não se lembra de que pode ser ignorante, pois não basta possuir dotes naturais. É preciso valorizá-los e torná-los eficientes, por meio da disciplina mental.

Muitos moços desprezam as pequenas ocasiões que se lhes proporcionam para se educarem a si próprios, porque esperam outras mais favoráveis. Deixam passar os anos sem cuidarem do seu aperfeiçoamento, até que a experiência da vida vem provar-lhes que ignoram o que deviam saber.

Aqueles mesmos que receberam a educação basilar nas escolas primárias hão-de concordar que não lhes é suficiente essa educação que receberam, quase sempre incompleta, limitada ou deficiente. O período da educação é indefinido, porque a vida oferece-nos sempre ocasiões de cultivarmos em maior grau a nossa inteligência, robustecer a nossa vontade e orientar melhor a nossa conduta.

A cada passo, vemos criaturas na plenitude da sua existência, que encontram grandes dificuldades no seu caminho por não terem educadas as suas faculdades naturais. Nunca é tarde demais para se praticar o bem e muito menos para o aperfeiçoamento individual. Em poucos anos, têm aumentado extraordinariamente os meios de cultura, e as escolas, bibliotecas, jornais, revistas, conferências e academias proporcionam ocasiões favoráveis para trabalhos de auto-educação a todos os que queiram tirar aos prazeres frívolos o tempo necessário para estudarem.

O primeiro passo que tendes a dar consiste em tomardes a firme resolução de não quererdes viver humilhados pela ignorância nem embaraçados com obstáculos, que na vossa mão está remover por todos os modos. Vereis então como tudo se vos apresenta debaixo dum novo aspecto, porque outra é a vossa atitude para com tudo o que vos cerca. Há-de surpreender-vos a facilidade com que podereis aumentar os vossos conhecimentos, uma vez que positivamente vos determineis a fazê-lo. Tomai essa resolução com a mesma firmeza com que vos resolveríeis a ganhar muitíssimo dinheiro.

Antigamente dizia-se: “Fortuna te dê Deus, filho, que o saber pouco te vale.” E havia quem alterasse ironicamente o sentido do adágio com a interposição duma vírgula, dizendo: “Fortuna te dê Deus, filho, que o saber pouco, te vale”.

Mas isto era e continua a ser verdade, simplesmente quando se confunde o saber com o verbalismo, quando se sabem muitos livros e se entende pouco do que eles dizem, e quando esse mesmo pouco que se sabe não tem aplicação prática na profissão que se exerce ou no ofício que se aprendeu. Se, porém, os conhecimentos são úteis e adaptáveis ao nosso mister, então o saber equivale a poder, como a este equivale o querer.

O homem foi criado para atingir, por meio da evolução, o ponto culminante do seu aperfeiçoamento individual. É este o objetivo da sua existência. Se não fosse possível esta evolução para o aperfeiçoamento, não nos teria aconselhado o divino Mestre, dizendo-nos que fôssemos perfeitos como perfeito é o nosso Pai que está nos céus. Este conselho admonitório demonstra a possibilidade de nos aperfeiçoarmos e, portanto a conveniência e também a necessidade da auto-educação.

Mui louvável é o desejo de ampliarmos um pouco mais os nossos conhecimentos, de fazermos recuar dia a dia o horizonte da ignorância, de sermos hoje melhores do que ontem e amanhã melhores do que hoje. A educação não termina com o período escolar. Os homens mais bem educados são os que estão sempre a aprender e a assimilar conhecimentos novos, que vão buscar onde seja possível e em qualquer ocasião favorável.

O mundo é uma vasta universidade. Desde o berço ao túmulo estamos sempre a aprender, como se fôssemos eternas crianças a estudarem na escola de Deus, onde todas as coisas nos ministram uma lição especial e nos revelam os seus segredos. A facilidade em aprender essas lições e descobrir esses segredos depende da perspicácia em examinar tudo o que nos cerca e da sagacidade em compreender aquilo que vemos.

Poucos são os que olham para as coisas com olhos de ver. Muitos vão por esse mundo afora, olhando superficialmente para o que os rodeia, e as suas percepções visuais são tão débeis e confusas que deixam escapar pormenores de importância capital. E contudo, a vista é um sentido que educa bastante. O cérebro está encerrado no crânio e nunca se revela ao mundo exterior. Depende dos seus cinco servidores – os sentidos que lhe proporcionam os materiais da sabedoria, e grande parte destes materiais chegam até ele por intermédio da vista. Quem aprende a arte de examinar as coisas com atenção, é como se as visse com o cérebro.

Um amigo meu ia um dia a passar por uma rua, quando viu junto ao passeio uma espécie de prego, de cerca de oito centímetros de comprido, que supôs tivesse sido perdido por algum operário. Movido pela superstição que considera feliz o que achar um prego ou uma ferradura, baixou-se para o apanhar, reparando então, muito admirado, que o que lhe parecia um prego era uma preciosa lapiseira de prata oxidada.

Com certeza, passaram por aquele sítio muitos indivíduos que viram a lapiseira, mas, porque não a examinaram convenientemente, julgaram que era um prego sem valor apreciável.

O mesmo costuma acontecer a muitas pessoas que não vêem o que outras mais atentas e curiosas descobrem entre a infinidade de objetos que as rodeiam. A atenção demorada é o talento dos inventores, como a paciência infinita é o segredo do gênio,

Quantos não têm ido a Roma e não viram o que nela existe! Quantos astrônomos não têm observado o céu com o telescópio que amplia a sua vista normal e, contudo, poucos são os que descobrem novos astros! E, afinal, esses astros estavam lá há milhões de séculos e não se escondiam, por timidez, da vista de ninguém. Houve muitos que examinaram e não viram um só desses astros; mas houve apenas um indivíduo que conseguiu ver o que não viram centenas de olhos.

Como todos os sentidos, o da vista, é susceptível de ser educado, e, entre os vários processos adotados para a educação dos sentidos, não deixa de ser engenhoso o que emprega outro amigo meu com um filho que tem, o qual, ao mesmo tempo que exercita a vista, educa o espírito de observação. Leva-o a passear por uma rua das mais concorridas, e quando regressa a casa, pergunta-lhe o que ele viu e observou. Acompanha-o aos museus, às exposições e aos espetáculos públicos, com a obrigação de, na volta, lhe descrever os objetos que mais lhe prenderam a atenção. Garante esse meu amigo que estes exercícios têm inveterado no filho o hábito de ver as coisas, em vez de se limitar a olhar para elas.

Se formos pelo mundo além, como um ponto de interrogação, sempre vigilantes, sempre atentos a tudo quanto se passa, adquiriremos conhecimentos muito mais valiosos do que as riquezas materiais.

Ruskin conseguiu canalizar grande cópia de idéias, por meio do estudo da natureza, observando as aves, os insetos, os quadrúpedes, as árvores, os rios, as montanhas, o pôr do sol, os panoramas e as paisagens. Não houve nada que, para o seu espírito investigador, lhe não ministrasse uma lição e lhe não revelasse um segredo.

O hábito de ouvir atentamente quem sabe mais do que nós, vale-nos de muito, pois quanto mais fugirmos do convívio com os nossos semelhantes, mais tímidos e mais sem valor nos mostramos. Quem se relacionar com as pessoas estranhas e tiver espírito investigador, cria uma grande soma de forças mentais. Na vida social, todos nós estabelecemos intercâmbio de idéias. Hoje em dia, quem desejar progredir nos seus negócios, tem de estar em contato com o mundo comercial, para sentir as palpitações da sua vida ativa; de contrário, não obterá os elementos necessários para triunfar.

Um único talento que eficazmente se aplique à sua modalidade prática vale mais do que dez talentos incultos e agrilhoados pela ignorância. A educação intelectual para nada serve, se o indivíduo não assimila os conhecimentos que hão-de preparar a integração do seu corpo mental, como os alimentos do regime dietético se assimilam e convertem em parte integrante do seu corpo físico. Os conhecimentos sem aplicação prática são tão inúteis como o vapor da água que se escapa pela chaminé das locomotivas.

A auto-educação, porém, não pode ser encarada dum modo tão absoluto que dispense qualquer auxílio. Há nela este inconveniente: se o indivíduo que deseja fazer auto-educação é pouco clarividente, apesar de bem intencionado, e não sabe como há-de conseguir o que deseja, arrisca-se a tomar por caminhos errados ou a seguir a linha de maior resistência, em que perde tempo e esforços, que seriam mais bem aproveitados, se tivesse melhor orientação.

Para evitar este contra, tem de pedir a alguém que o aconselhe e o oriente, alguém que conheça a sua vocação e necessidades, e seja por isso capaz de lhe traçar um programa dos estudos mais próprios para vencer a técnica da sua profissão. É indubitável que o adágio: o saber não ocupa lugar, tem um fundo de verdade; mas, por outro lado, consome tempo e trabalho. Portanto, quem quiser poder distinguir-se na atividade profissional para que tenha vocação, não deve perder tempo e esforço em adquirir conhecimentos que rigorosamente lhe não serviam para o fim que tem em vista.

Dirá talvez alguém que isto é o mesmo que fomentar o chamado utilitarismo, contra a cultura integral nobilitadora de todas as faculdades; mas convém notar que o nosso conselho só se entende com os que chegaram, pouco menos do que analfabetos, a meio da sua existência, e ainda assim aconselhamo-los apenas a que atendam primeiramente à aquisição dos conhecimentos especiais que lhes permitam vencer a técnica da sua profissão, sem deixarem de aumentar a sua bagagem intelectual com estudos superiores, logo depois de realizado o trabalho primordial.

Primeiro que tudo, é preciso vencer a técnica, isto é, a aplicação da teoria à prática, de maneira que ambas conjugadas uma com a outra, possam produzir a obra perfeita.

Não se imagine que circunscrevemos a auto-educação à modalidade estritamente científica. Também ela é possível nos pontos de vista artístico e literário. A este respeito, oferece-nos a história notáveis exemplos de homens nascidos num ambiente e numa esfera aparentemente hostis às suas congênitas aptidões, e que, não obstante, souberam vencê-los, colocando-se em condições favoráveis pelo esforço da sua vontade.

O célebre artista Ambrósio Bardone, conhecido durante toda a sua vida por Giotto, apócope ou abreviatura final de Ambrogiotto, pela qual o apelidaram desde criança e que era o diminutivo toscano do seu nome de batismo, foi pastor na sua infância e, estimulado pela sua inclinação artística, entretinha-se a desenhar árvores, montanhas, rios, lagos e a paisagem que abrangia com a vista, não deixando também de representar as ovelhas que guardava.

A sorte, mais solícita ainda com os moços cheios de boa vontade do que com os audaciosos, pois, se favorece estes, é pelos seus atos volitivos e não pelos seus atos de arrojo, interveio em auxílio do humilde zagal. Aconteceu passar pelo aprisco o pintor florentino Gualterio Cimabue, que por aqueles sítios andava procurando motivos para os seus quadros, e admirou-se de ver os rápidos desenhos do rapaz, que tão notáveis aptidões revelava para a arte.

– Quem te ensinou a manejar o lápis? perguntou-lhe Cimabue.

– Isto para mim é uma coisa tão natural como adivinhar quando as ovelhas têm sede ou conhecer as que estão doentes.

– Nunca andaste na escola?

– Não sei o que é uma escola. A minha escola é o monte, a minha mestra a natureza e as ovelhas os meus condiscípulos.

– Queres vir comigo? Servir-me-ás de criado e eu ensino-te a fazer desenhos muito mais bem feitos do que esses que fazes.

– Diga a senhor isso a meu pai. Eu por mim, iria agora mesma sozinho para ver esses quadros tão bonitos que dizem que há em Florença e na Toscana.

Não levantou grandes embaraços o pai de Giotto à proposta de Cimabue que, levando consigo o rapaz, lhe ensinou a técnica da arte com tão esplêndido resultado da parte do discípulo, que não tardou em exceder o mestre.

Antes da fama do seu nome chegar aos ouvidos do papa Bonifácio VIII, encarregou-o o governo de Florença duma pintura a fresco; mas, para começo da obra e segurança do contrato, exigiram-lhe, à laia de exame prévio, que desse uma prova do seu conhecimento pleno da arte pictural, sobretudo no desenho, visto o governo desejar na pintura a maior perfeição possível.

Por única resposta, Giotto pegou num pedaço de gesso e, rapidamente, traçou na parede uma circunferência tão geometricamente perfeita que não houve necessidade de melhor prova que demonstrasse a sua completa idoneidade para desempenhar o encargo a contento do governo.

O poeta Ovídio, digno rival de Horácio e de Virgílio, com os quais forma o glorioso triunvirato da poesia latina, teve de lutar em criança com a atitude irredutível do pai, que formalmente se opunha a que ele compusesse versos. Mas a criança não podia nem queria sufocar a voz interior que o chamava para a cultura das letras, e, às escondidas do pai, entregava-se avidamente à leitura de todas as poesias que os companheiros emprestavam. Um dia, porém, o pai surpreendeu o filho escrevendo uns versos à pressa, e, pegando-lhe por um braço, deu-lhe uma sova mestra, daquelas que marcam uma época na história das rebeldias infantis.

O mais engraçado foi que, para se livrar da sova do pai, o futuro autor do Ars Arnandi exclamou em tom suplicante: Juro, juro pater, nunquam facere versos, que na linguagem vulgar significa: “juro, meu pai, não tornar a fazer versos”. E contudo, naquela exclamação saiu-lhe espontaneamente um perfeito verso latino.

A auto-educação exige que se aproveite o tempo tão escrupulosamente como se os momentos fossem pequeníssimas lascas de diamante, granalha de platina ou partículas de rádio. O hábito de nunca estarmos sem fazer nada ajuda-nos a empregar os momentos que a maior parte das pessoas chamam momentos de ócio, por nunca terem aprendido a concentrar a mente em qualquer coisa útil nem a apreciar o valor do tempo.

As pessoas de são critério e de espírito de observação, que estejam nas condições de vos ajudarem, não deixarão de vos prestar o seu auxílio, se virem que tendes suficiente força de vontade para limardes as arestas do vosso caráter, aumentardes o cabedal dos vossos conhecimentos e aproveitardes todas as ocasiões que se vos oferecerem para serdes, com o andar do tempo, alguém de merecimento neste mundo.

Não deveis ser dos mais incompetentes na vossa profissão, porque, quando um rapaz trabalha por si e com entusiasmo, sem esperar que lhe dêem a papa mastigada, logo é ajudado por Deus, misteriosamente oculto sob a figura imaterial da sorte, ou materializado na pessoa dum protetor.

A sabedoria não abre as suas portas aos que se recusarem a pagar os direitos de entrada com a incoercível moeda das privações, com o sacrifício dos prazeres mundanos e com a perseverante laboriosidade. Deste modo, a educação recebida na infância é apenas um preparativo para mais tarde aproveitarmos as lições da experiência e aumentarmos o grau da nossa liberdade, pelo fortalecimento da nossa vontade e pela ampliação dos nossos conhecimentos.

Assim como o instinto ou, melhor, a propensão natural, serve de estímulo à vontade, assim também o hábito é o resultado do exercício da mesma vontade. Neste mundo, porém, o homem agita-se entre diversas dualidades de forças opostas, que simultaneamente o solicitam para ver a qual delas cede mais facilmente, e assim se vê ao mesmo tempo, atraído pela verdade e pelo erro, pelo bem e pelo mal, pelo egoísmo e pelo altruísmo, pela luz e pelas trevas, pela virtude e pelo vício, pela diligência e pela preguiça. Conforme a vontade ceder a uma ou outra força destas dualidades, assim formará hábitos que favoreçam ou contrariem o seu progresso moral, entendendo-se, neste caso, por hábito a aptidão para repetir, cada vez mais facilmente, uma ação determinada. Se a ação é boa, o hábito será virtuoso, e por conseguinte, favorável ao aperfeiçoamento do caráter e ao robustecimento da vontade. Se a ação é má, o hábito será vicioso e constituirá um obstáculo, uma resistência mais ou menos poderosa ao progresso moral.

O costume, nome por que também é conhecido o hábito, é uma segunda natureza. Diz a este respeito Montaigne:

O mau costume, ou hábito vicioso, é um mestre tirano que temos na vida. Começa primeiro a ensinar-nos duma maneira suave e carinhosa, para depois nos ir impondo pouco a pouco a sua autoridade e, finalmente, nos encarar com aspecto tirânico, a ponto de nem sequer nos atrevermos a erguer para ele os olhos. Quando os cretenses queriam amaldiçoar alguém, rogavam aos deuses que lhes fizessem adquirir um hábito vicioso.

Mas o hábito virtuoso produz efeitos contrários ao hábito vicioso, e, por isso mesmo, favoráveis ao desenvolvimento harmônico das nossas forças e faculdades anímicas.

Pois bem; a auto-educação compreende também o aspecto moral do indivíduo. E, como geralmente adquirimos desde a infância hábitos mais ou menos viciosos, que são outros tantos obstáculos ao triunfo que desejamos obter na vida, é necessário um esforço de vontade, proporcional à natureza e à inveteração do hábito vicioso, que nem por isso será impossível fazer desaparecer. Também neste caso querer equivale a poder, quando, por experiência, conhecemos as funestas conseqüências do vício que nos domina e nos propomos livrar-nos da sua vergonhosa tirania.

O eminente psicólogo Guilherme James, tratando da maneira de fugir ao domínio dum hábito inveterado, diz:

Devemos pensar seriamente em acumular em torno da nossa firme e deliberada iniciativa todos os motivos e circunstâncias que lhe sirvam de apoio, colocando-nos em situação favorável, para darmos o primeiro passo no caminho da reabilitação. Devemos por todos os modos criar embaraços ao vício inveterado. Isto dará um impulso tão formidável à vida nova que queremos iniciar, que a tentação não sobrevirá tão rapidamente como doutro modo poderia sobrevir. Cada vez que resistirmos vitoriosamente à tentação, maior força teremos para a vencer em ulteriores ataques, e em cada vitória se radicará mais firmemente o hábito contrário. Se umas vezes resistirmos à tentação e outras cedermos, acontece-nos o mesmo que a uma pessoa que, com muito trabalho, vai enrolando uma fita e, quando a operação já vai adiantada, lhe escapa das mãos de repente, sendo preciso novo tempo e trabalho para tornar a enrolar a parte que se desmanchou.

Claro está que os vícios ou maus costumes, embora todos eles desviem o homem do verdadeiro caminho, não o colocam todos à mesma distância, e, portanto, se uns são mais graves e inveterados do que outros, serão mais difíceis de aniquilar ou de substituir pela virtude oposta.

De todos os vícios, foi sempre a embriaguez um dos mais abomináveis. Assim como o mosto, quando fermenta no tanque do lagar, faz vir à superfície as impurezas depositadas no fundo, assim o álcool que ferve no sangue agita toda a lama da natureza brutal do ébrio.

Lembremo-nos, porém, de que a vontade é uma força espiritual e o apetite uma força concupiscente. A vontade tem no auxílio da graça divina ilimitadas possibilidades de vencer, enquanto a energia concupiscente está limitada pela sua própria natureza abominável. Quem quiser libertar-se dum vício, pode consegui-lo, contanto que se sujeite a empregar o esforço necessário para o vencer.

O notável orador norte-americano João B. Gough era, na sua juventude, um rapaz de brilhantes qualidades, mas muito inclinado a bebidas; e, embora, reconhecesse que era melhor dar ao cérebro uma aplicação útil, em vez de o enfraquecer com o excesso do álcool, seguia nisto o critério dalguns filósofos antigos, para quem as bebidas alcoólicas não eram tão perigosas como atualmente supõem os adeptos da temperança.

Um dos seus companheiros, que estava filiado numa das muitas associações de temperança dos Estados Unidos, disse-lhe um dia:

– Ora vamos a ver, João...

– O quê? Beber um copito? Vamos lá.

– Não, homem, não: quero eu dizer que vamos a ver se consigo converter-te. É uma vergonha ver-se sempre um rapaz como tu, de tão excelentes qualidades, esperança da pátria e honra da família, a bebericar como um borrachão. Não sei que diabo de prazer tu encontras nas bebidas. Se eu bebesse um dedal de licor de anis, ficava logo com as entranhas queimadas.

– Não sejas tolo. O álcool não manda em mim, sou eu que mando nele. Não leste o que diz Juvenal? Pois olha, diz que não era fácil vencer os teutões, ainda que eles estivessem bêbados como um cacho. E conta-se que Ciro, o vencedor da Babilônia, dentre os muitos predicados de que se orgulhava para se distinguir de seu irmão Artaxerxes, tinha o de ser muito mais amigo da pinga do que ele.

– Ora adeus! Deixa-te de contos e não te importes com o que fizeram esse personagens, que a tua bisavó nem sequer chegou a conhecer. O que é preciso é tu deixares esse vício. Os antigos emborrachavam-se com vinho, como sucedeu com o pai Noé, mas os borrachões de hoje ficam encandeados com o álcool das bebidas brancas.

– Sabes o que te digo? Quando eu resolver não beber, nem sequer provo uma gota. Sou homem que tenho vontade própria. Quando quiser, sei que hei-de poder conseguir o que desejo. Mas, enquanto não me resolver a isso, não me tornes a pregar mais sermões e deixa-me cá com as minhas bebidas.

A conversa ficou por aqui. Ao fim dum certo tempo tornaram a encontrar-se os dois amigos. O temperante perguntou a Gough:

– Então? Como te vais dando com as tuas bebidas?

– Cala-te, homem, que estou desesperado. Tinhas razão. Eu imaginava que quem mandava no álcool era eu, e não ele em mim; mas agora vejo que, se não fizer um esforço violento para quebrar a cadeia que a ele me prende, nunca recuperarei a minha perdida virilidade.

– Eu bem to dizia. Os laços do vício, que a princípio se partem sem grande esforço, por serem frágeis, converteram-se num poderoso cabo que te prende, como se estivesses algemado.

– E agora que remédio tenho para me livrar das algemas?

– Aconselho-te um remédio, que deu, noutros indivíduos, excelentes resultados. Amanhã as sociedades de temperança celebram uma grandiosa assembléia de propaganda. És homem sério?

– Essa pergunta ofende-me.

– Antes assim. Não esperava de ti outra resposta. Pois amanhã aparece e assina um compromisso incompatível com o vício inveterado que tens. Empenha a tua palavra de honra em abster-te de toda a qualidade de bebida alcoólica, a partir da hora em que firmares o teu compromisso.

Gough seguiu o conselho e assinou com mão trêmula o compromisso formal. Então, começou para ele uma luta titânica para se dominar. Durante dias e noites, lutou com o demônio do vício que procurava todos os meios para recuperar a presa; mas, por fim, embora extenuado pela violência do esforço, conseguiu alcançar completa vitória. O homem vencera o demônio que o queria assassinar. O S. Jorge da natureza superior atravessara de lado a lado, com a espada flamejante da vontade, o dragão da natureza inferior.

Depois de vencido o vício do álcool, converteu-se Gough no mais ardente apóstolo da temperança. Um dia, foi aconselhar-se com ele um amigo seu, que não era dado a bebidas, mas era escravo do hábito nocivo de mascar tabaco, o que lhe prejudicava gravemente a saúde. O eloqüente orador respondeu-lhe:

– Só há um remédio verdadeiramente eficaz: a energia da tua vontade. Quando fores para casa, atira fora com o cachimbo e com a tabaqueira, juntamente com todo o tabaco que tiver dentro.

– Se basta só isso, prometo-te que antes de meia hora farei o que me aconselhas.

– Espera aí, meu caro. Não é só atirar fora com os utensílios do fumador; há ainda o apetite, a ânsia do tabaco que fica sempre e que é tão violento como no ébrio é violento o desejo do álcool. Se não prometeres firmemente resistir à tentação ser-te-á difícil vencê-la. Quando perceberes a investida, dize em voz alta, de maneira que só te ouça a tua consciência: “Eu não nasci para ser escravo deste vício. A imagem de Deus, que reside, na minha alma, não pode ser profanada com vício tão asqueroso. Eu nunca darei prova dos nobres sentimentos que possuo, se continuar a aviltar-me nesta degradação. Nunca serei o homem que Deus quis fazer de mim e que eu me prezo de ser, enquanto der acolhida a este disfarçado inimigo que consome a minha vitalidade e diminui as probabilidades de êxito que tenho na vida. Hei-de acabar com este inimigo. A partir de hoje, hei-de apresentar-me diante de toda a gente como vencedor e não como vencido, como senhor e não como escravo. Hei-de livrar-me para sempre das tuas garras, vício maldito”. Se disseres isto, verás que hás-de ter brio para vencer a tentação, que nunca será superior às tuas forças.

Prometeu o amigo fazer o que lhe era aconselhado, e, efetivamente, desfez-se do cachimbo e da tabaqueira, dizendo que já estava tudo acabado e que não havia de tornar a fumar e muito menos mascar tabaco. Mas isto era apenas o prelúdio do terrível sofrimento que ele havia de experimentar. Em poucas horas, os desejos de tabaco foram tão intensos, que para os mitigar começou a mascar macela, genciana e até palitos de dentes. Num momento de fraqueza, comprou um maço de tabaco, não para o mascar, mas para o trazer consigo e iludir o vício. O apetite de estar sempre a roer chegou a ser tão violento, que pegou num ligeiro fio de tabaco para acabar com a aflição em que estava; mas, quando o ia para meter à boca, lembrou-se da palavra de honra que empenhara perante o seu amigo e a sua consciência, e, como cedendo a um impulso divino, exclamou, atirando fora com o tabaco:

– Tu és uma erva e eu sou um homem. Hei-de vencer-te, nem que seja à custa da minha vida.

E venceu.

A intensidade que as nossas forças interiores são capazes de adquirir pela auto-educação excede tudo quanto o mais otimista poderia presumir. São inesgotáveis por natureza, como inesgotável é a Fonte perene de que dimanam; mas, se é certo elas existirem latentes em todo o ser humano, logo ao nascer, desenvolvem-se nuns mais rapidamente e com maior intensidade do que noutros, conforme a origem donde cada um provém, a educação que recebe, o ambiente mental e moral que respira, e sobretudo, conforme o grau de evolução espiritual com que nasce.

Afirmam gratuitamente os doutrinários que, conforme Deus vai criando as almas, à maneira de bolas de sabão, umas maiores, outras mais pequenas, assim as vai dotando caprichosamente, sem merecimento individual, a umas com qualidades nobres, e outras com sentimentos vis, predestinando estas para a santidade, a partir do momento em que as formou, e condenando aquelas, sem mais formalidades, à sorte horrenda das penas eternas. Ora, admitir um arrojo deste jaez, seria negar a justiça, a misericórdia e a sabedoria dum Deus infinito.

Mas se isto sucede com as almas, não é menor a arbitrariedade que se nota, segundo o critério doutrinário, na formação dos corpos.

Porque é que uns nascem formosos e bem conformados, e outros nascem cegos, mudos, surdos ou aleijados?

E, em relação às faculdades intelectuais, porque existem essas enormes desproporções, não já entre os indivíduos de talento e os medianamente inteligentes, nem entre estes e os de inteligência vulgar, mas entre o homem de gênio e o idiota? Não terá alma o idiota? Não a criou Deus tão pura como a do gênio, e sem antecedentes espirituais como a dele? Então para que há-de haver essa enorme diferença entre a criança-prodígio e a criança imbecil? Altos mistérios de Deus, respondem os que imaginam que a terra é o único centro das almas. Mas os mistérios de Deus não podem ser absurdos e muito menos considerados impossibilidades morais. O que os doutrinários chamam mistérios de Deus, para coonestar a sua ignorância ou para não romperem com os seus preconceitos, deixa de ser mistério para ter esta explicação satisfatória: admitir a evolução do espírito, do verdadeiro ser humano, que tem o corpo por invólucro aparente e exterior, onde, segundo afirma o apóstolo S. Paulo, a alma divina tem a sua morada, como se ela fosse o templo do Espírito Santo.

Deste modo, resplandece com mais intenso fulgor a importância da auto-educação, porque, à medida que o indivíduo elimina os seus defeitos e fortalece as suas virtudes, vai aperfeiçoando o sela caráter e coloca-se num nível superior ao que antes ocupava, demonstrando assim aos olhos da sua própria consciência a realidade da sua evolução espiritual. Se o espírito não evolucionasse, o homem ficaria sempre no mesmo estado. Ora nós vemos que, conforme os anos vão decorrendo, assim variam as nossas idéias, as nossas emoções, os pontos de vista sobre a maneira como encaramos a vida e os outros homens, os nossos sentimentos e afetos; e, apesar destas variações às vezes radicalíssimas, a consciência da nossa individualidade permanece invariável, embora seja muito diferente a consciência que tenhamos das nossas relações com o mundo exterior.

Poderão os doutrinários replicar, dizendo que tudo isto são sofismas expostos milhares de vezes e outras tantas refutados; mas não pode ser sofisma o que está em harmonia com a natureza das coisas e as leis da vida. Refutar com palavras é facílimo, quando o polemista tem a suficiente esperteza para encobrir o erro com a máscara da verdade. Mas temos os fatos, os fenômenos, a experiência e o discernimento para demonstrar que, sem a evolução do espírito, o homem fica reduzido a um fantoche, o universo a uma cega casualidade e Deus a uma palavra inútil.

Por muito indispensável que seja a auto-educação, o seu resultado seria muitíssimo mais rápido e proveitoso, se o homem a ela estivesse habituado desde criança pela influência da boa educação.

À mãe cabe a responsabilidade moral deste encargo, antes de confiar o seu filho à direção do professor. É a ela que compete primeiro fazer vibrar a alma do homem, e desta vibração depende a maneira como convém ser dirigida a força da sua vontade.

Há um exemplo digno de ser imitado que nos oferece a mãe de George Washington, a qual, precisamente pelo muito amor que dedicava ao filho, reprimia sem contemplações aquela imprudente ternura, que tantas vezes leva as mães a estimular as paixões e os vícios dos filhos, condescendendo estultamente com os seus caprichos. Isto dá em resultado criar neles os maus hábitos, que não será possível banir mais tarde sem penosos e violentos esforços da vontade. Mas vamos ao caso.

A mãe de Washington acostumou o filho desde tenra idade a estas duas principais disciplinas da educação moral: obedecer-lhe sem replicar e dizer sempre a verdade.

Tinha ela na sua granja um formoso poltro alazão, de que muito gostava, e que, apesar de ter apenas dois anos, era indomável, por ser de natureza rebelde, não se atrevendo ninguém a montá-lo. George, que a esse tempo contava dezesseis anos, recebeu um dia a visita duns amigos que tinham ido passar o dia na granja, e disse-lhes que segurassem eles todos o animal, enquanto ele o montava, pois tinha resolvido amansá-lo.

Foi George buscar o poltro e, depois de lhe ter posto os arreios, o que deu a todos bastante trabalho, montou galhardamente sobre ele. O poltro, ao sentir carga em cima, deitou a correr à doida, encabritando-se a cada passo, no intuito de lançar por terra o cavaleiro, que se segurava na sela. Começou então entre o homem e o animal uma encarniçada luta que assustou os amigos, até que por fim o poltro, fazendo um violentíssimo esforço para derrubar o domador, rompeu uma artéria, caindo morto instantaneamente.

O moço Washington nada sofreu na queda, mas ficou extremamente apoquentado pelo inesperado e desagradável desfecho da proeza. Que diria sua mãe, que tanto gostava do poltro?

A hora do almoço, como a mãe já tinha dado por falta do poltro, perguntou aos rapazes:

– Então, meninos, que tal correu a partida? Que é feito do meu alazão? Fugiu?

Ninguém respondeu.

Repetida a pergunta, disse Washington serenamente, mas com tristeza:

– O poldro morreu, minha mãe.

E contou exatamente todas as circunstâncias e pormenores do incidente.

A mãe, apesar de desgostosa pela perda do seu favorito, respondeu:

– Penaliza-me bastante a morte do poldro; mas rejubilo por ter um filho que me diz sempre a verdade.

Depois de firmada a paz em que a Inglaterra reconhecia definitivamente a independência dos Estados Unidos, recolheu-se Washington à vida privada, qual outro Cincinato, donde a 14 de abril de 1789 o foi arrancar o voto unânime de todos os seus concidadãos, para o elevar à presidência da jovem república constelar. Ficou confundido por esta honra, que ele considerava imerecida, pois a modéstia, característica peculiar do verdadeiro mérito, não o deixava reconhecer a sua capacidade para assumir, naquelas circunstâncias arriscadas, a suprema magistratura nacional. Mal imaginava ele as fortes energias que ia desenvolver com assombro de todo o mundo. Esta mesma disposição de ânimo a manifestou ele nos seguintes parágrafos duma carta dirigida a um amigo:

No acaso duma vida toda entregue a serviços públicos, é com sacrifício que vou trocar a paz do meu lar por um oceano de dificuldades, para cujo triunfo careço da necessária habilidade política. Parece-me que nesta viagem vou empenhar, junto com a minha reputação pessoal, a voz do povo que clama por mim. Veremos o que será de ambas, quando regressar da viagem. Só Deus o sabe. Pela minha parte, a única garantia que posso dar é a integridade e firmeza de caráter que nunca me abandonarão, quer seja curta ou longa a viagem, e embora me veja abandonado por todos os homens. O mundo não me poderá privar da consolação que a integridade e a firmeza de caráter me hão-de dar em qualquer circunstância.

Integridade e firmeza de caráter. Eis as duas pedras angulares do êxito, da felicidade, de todos os bens eficazes e de indiscutível valor. Têm a mente por alicerce. Firmai na vossa mente aquilo a que justamente aspirais o que se há-de manifestar na vossa conduta. Firmai-o confiadamente, com inquebrantável fé, sem a menor incerteza, e ser-vos-á mais fácil o processo da vossa auto-educação.



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