Prefácio do tradutor


Fatalismo, determinismo e livre-arbítrio



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4. Fatalismo, determinismo e livre-arbítrio


Se tudo quanto tem de acontecer ao homem já se acha previamente escrito, como crêem os muçulmanos, de que serviria a vontade? Que fundamento teria a doutrina do livre-arbítrio? Seríamos uns autômatos sujeitos à determinação dum destino fatal de causa desconhecida, superior e anterior a nós mesmos, e seríamos impotentes para alterar as condições estabelecidas no nosso ser, sem outro motivo além do capricho de quem nos deu uma vida que não pedimos, e nos colocou num mundo em que todos entramos chorando e do qual poucos saem rindo.

Mas embora a teoria fatalista predomine no islamismo com aparências de dogma, também no mundo cristão tem milhões de adeptos inconscientes, que receberam muitos ensinamentos e não os assimilaram, e ouviram muitas prédicas a que não prestaram atenção e muito menos compreenderam. Apesar de tudo isto, porém, têm a firme crença naquilo a que ingenuamente chamam a influência do planeta, ou seja a sua boa ou má estrela, que é a fatal sujeição do homem ao que o destino lhe determinou sem que a mais enérgica vontade consiga evitar o seu domínio.

Superstições do vulgo! – exclamarão os filósofos enciclopédicos. E, contudo, foi esta a crença dominante entre os grandes da corte, os príncipes e não poucos luminares da Idade Média, dos quais podemos citar Alberto, o Magno.

Se o fatalismo fosse, como supõem os seus adeptos, uma deliberada predestinação das ações humanas, de maneira a neutralizar o esforço da vontade que quisesse opor-se ao desenrolar dos acontecimentos tão ilogicamente preestabelecidos, a liberdade e a responsabilidade seriam palavras vãs; os códigos, as leis e os tribunais de justiça para nada serviam, porque na vida individual e coletiva só imperavam as leis do destino, fatalmente expressas nesta sentença que muitos não compreendem: nem uma só folha de árvore se agita sem a vontade de Deus.

Há, contudo, algo de verdade no fatalismo, embora não seja no sentido de inevitável, como pretende o vulgo. O destino, o fado, o karma, o planeta, o kismet, ou como se lhe queira chamar, é, sem dúvida, o conjunto de contingências, de circunstâncias, de obstáculos e de facilidades que hão-de constituir o ambiente do indivíduo durante a vida terrena, que tem por limites o berço e o túmulo.

Como, quando e porquê estabelece o destino tanta diversidade de condições entre os indivíduos, favoráveis nuns, adversos noutros, felizes em muito poucos, nestes angustiosos, naqueles terríveis, e entremeados de dor e de prazer em todos só pode explicar-se racionalmente, admitindo a doutrina da evolução da espírito humano, duma maneira tão ampla como a ciência hoje admite a evolução da matéria e da forma.

Admitindo nós a evolução do espírito, compreenderemos facilmente que se opere o desenvolvimento gradual das suas potências volitiva, intelectiva e emotiva, ou sejam a vontade, a inteligência e a sensibilidade. Se não admitíssemos essa evolução, todo o ser humano possuiria no mesmo grau as mesmas características de vontade, inteligência e sensibilidade, a não ser que o Criador tivesse procedido duma maneira parcial e, portanto, com manifesta injustiça na criação das almas.

Desde o momento em que uns homens têm mais força de vontade, mais inteligência e mais sensibilidade do que outros – e não acusando este fato pequenas diferenças, mas diferenças enormíssimas como a que separa um zulu de Newton, e um antropófago do Kamerun de S. Francisco de Assisocorre perguntar: Não saíram igualmente do mesmo seio de Deus estas quatro almas, estes quatro espíritos livres e responsáveis? Então em que consiste tão profunda diferença na sua maneira de agir? Por que é que a inteligência de milhões de selvagens é tão obtusa como a dum pingüim, e a de Newton tão perspicaz que penetra o firmamento e descobre o eixo dos astros? Por que é que a sensibilidade do canibal está tão embotada que não sente as palpitações do seu próprio coração no coração do seu semelhante? E por que é que a sensibilidade do Serafim de Assis é tão delicada que eleva o seu amor para além do reino dos homens e o esparge também sobre todos os seres vivos, reconhecendo a unidade da vida na diversidade das formas?

Quem meditar sobre estes fenômenos da psicologia humana, sem preconceitos nem fanatismos obcecantes, não poderá deixar de admitir a evolução do espírito, se não tiver outro arrazoado com que satisfatoriamente possa dar uma solução ao problema da vida.

Admitida a evolução do espírito e o gradual desenvolvimento das suas potências, facilmente se explica que, sendo a vontade uma delas, necessita, como toda a potência, duma resistência para se fortalecer e vigorizar.

Esta resistência é precisamente o conjunto de revezes, circunstâncias, ocasiões, obstáculos, facilidades, venturas e infortúnios que, segundo o seu grau de evolução, a lei da vida opõe à alma humana durante a sua permanência neste mundo, a fim de que a sua vontade empregue todo o esforço em ir de encontro ao que é adverso e em se aproveitar do que é favorável, para aumentar a sua energia, depois de vencida a resistência.

É possível que aqueles que façam dum argueiro um cavaleiro exclamem indignados: “Heresia! Isso é uma heresia! Cheira a neo-platonismo ou coisa parecida”.

Mas Calderon, que é um fértil e esclarecido engenho, a quem ninguém poderá titular de heterodoxo, estuda na sua obra magistral A vida é um sonho, sem pretensões a drama de tese, o problema do fatalismo nas suas relações com o livre-arbítrio, e resolve-o com uma tal elevação de conceito e uma tão admirável intuição de verdade, que excede quantos pensadores, filósofos, psicólogos e teólogos trataram destas árduas questões metafísicas. O seu critério é idêntico ao que atualmente sustentam os que vêem com os olhos do espírito, como o profeta Eliseu.


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