Prefácio do tradutor



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3. A vocação e o ambiente


Todo aquele que, depois de observar os fatos, pensa e medita sobre eles, não pode deixar de reconhecer a profunda transformação que, com o andar do tempo, sofreram as idéias coletivas. O que ontem se repudiava unanimemente como erro manifesto, admite-se hoje como verdade axiomática; e o que há séculos atrás foi tido como traição infame, merecedora do cadafalso, ou como heresia abominável, digna das fogueiras da inquisição, enalteces-se hoje como patriótica façanha ou eleva-se ao sublime apogeu da santidade. Assim o demonstra a experiência, que é a mestra da vida humana.

Não imagine o leitor que vou fazer uma digressão inútil. É indispensável divagar um pouco para se compreender a relação que existe entre a vontade e a vocação, e ao mesmo tempo é necessário uma argumentação favorável às conclusões da psicologia transcendental que, não obstante explicarem racionalmente muitos fenômenos metafísicos, são consideradas como absurdas e quiméricas pelos que se acham imbuídos de superstição e fanatismo.

Quando em 23 de abril de 1521 os comunheiros de Castela ficaram vencidos na batalha de Villalar, por culpa da sua “má fortuna e não da sua boa vontade”, foram condenados sumariamente à pena última por traidores à coroa real destes reinos, segundo reza a sentença original que se conserva no arquivo de Simancas.

Ao levar ao patíbulo Padilla, Bravo e Maldonado, chefes das comunidades sublevadas contra os regentes que, na ausência do rei Carlos I, administravam vergonhosamente o reino, o pregoeiro ia gritando:

– É esta a justiça que Sua Majestade, o seu condestável e os governadores em seu nome mandam aplicar a estes cavaleiros. Mandam-nos degolar por serem traidores e amotinadores do povo.

Ouvindo isto, João Bravo replicou indignadíssimo:

– Mentes tu e quem te incumbiu de dizer essa aleivosia. Traidores não, ciosos do bem público e defensores da liberdade do reino, é que deves dizer.

E como o alcaide Cornejo, para o castigar, lhe batesse com a vara, Padilla disse ao seu companheiro:

– Senhor João Bravo, ontem lutamos como cavaleiros, hoje morremos como cristãos.

Quem seria então capaz de sair em defesa dos comunheiros para os defrontar, proclamando em voz alta que era verdade o que dizia João Bravo e mentira o pregão do rei? Pois ninguém, diria, naquele dia funesto para a Espanha, que ao fim de quatro séculos, a 23 de abril de 1921, havia de engrandecer-se e glorificar-se a memória daqueles que foram decapitados por traidores à coroa real desses reinos, como ninguém diria que essa mesma coroa real, cingida na fronte augusta do legítimo descendente de Carlos I, havia de presidir a esse engrandecimento e glorificação, corrigindo assim as faltas do seu antepassado.

Neste exemplo vemos confirmada a versatilidade dos juízos humanos, de maneira que não podemos considerar infalível e imutável coisa alguma neste mundo.

Remontemos aos tempos longínquos da história. A 6 de janeiro de 1412 nascia na aldeia francesa de Domremy uma menina que ia dar ao mundo a prova mais concludente do que pode a vontade estimulada pela vocação. Desde que os seus olhos aprenderam a ver, os seus ouvidos a ouvir e os seus lábios a rezar, escutava comovida os relatos das calamidades que ao tempo flagelavam a França.

A rivalidade entre esta nação e a sua vizinha Inglaterra, iniciada em 1328, quando Eduardo III pretendeu abertamente o trono da França que lhe foi negado pelos Estados gerais ou Parlamentos daquela época, havia chegado ao ponto culminante no segundo período da guerra dos Cem anos. O rei de Inglaterra, Henrique V, invadira o território francês, aproveitando-se da espantosa demagogia que dominava no reino, em conseqüência das lutas intestinas entre os partidos de Orleans e de Borgonha. Os ingleses vitoriosos em Azincourt, apoderaram-se de várias cidades da Normandia. A sorte das armas ia correndo para os franceses de mal a pior, até que teve o seu termo no tratado de Troyes. Por este tratado, o rei Carlos VI deserdava seu filho, o delfim Carlos, reconhecendo por herdeiro do trono de França Henrique V da Inglaterra, que casou com a princesa Catalina, irmã do esbulhado delfim. Tinha a esse tempo Joana d'Arc oito anos de idade. A Inglaterra lograra a sua ambição de se apoderar da França.

Nisto vemos um novo exemplo das mudanças radicais que experimenta o ambiente mental dos povos com o andar dos tempos. O ódio entre ingleses e franceses parecia inextinguível, de tão entranhado que era e, após curtas intermitências, havia de recrudescer com a maior intensidade durante o período napoleônico, para se transformar na cordialíssima harmonia ou firme aliança que liga atualmente as duas teimosas rivais.

Claramente se demonstra aqui a verdade daquela sentença de Tomás de Kempis: “Os que hoje estão a teu favor, amanhã estarão contra ti, e os que estão hoje contra ti, estarão amanhã a teu favor”.

O deserdado delfim, porém, não ficou de todo abandonado nem perdeu o ânimo com receio. Confiava “em Deus e na sua espada”, isto é, tinha confiança em si mesmo, mas sem a soberbia de julgar dispensável o auxílio divino.

Acompanhado dalguns leais defensores da legitimidade dos seus direitos, refugiou-se para além do rio Loire, onde ainda permaneciam fiéis ao nome da França sete províncias do reino, estabelecendo a sua pequena corte em Bourges, capital da província de Berry, enquanto Henrique V entrava triunfante em Paris.

Ao fim de dois anos, morreu Henrique V, deixando as coroas da Inglaterra e da França na fronte pueril de seu filho Henrique VI, que ao tempo contava apenas seis anos, ficando por este motivo entregue as regências dos reinos da França e Inglaterra, a seus tios paternos, respectivamente o duque de Bedford e o de Glocester.

Joana d'Arc era já uma perspicaz rapariga de dez anos, que nas suas orações quotidianas rogava a Deus pela salvação da sua pátria, e que ao mesmo tempo ouvia a misteriosa voz das fadas gemebundas na ramaria do azinheiro secular de Maio formoso, de cujo tronco brotava uma fonte, cujas águas tinham, na opinião dos aldeões, a virtude de acalmar a febre.

Talvez neste ponto os céticos mudem de folha ou atirem desdenhosamente com o livro para o lado, exclamando

– Estamos agora em pleno iluminismo. Afinal, a menina Joana sai-nos uma histérica como Margarida de Alacoque e outras de temperamento semelhante. Isso de ouvir a voz das fadas não passaria de ser uma ilusão acústica.

A este ímpeto de incredulidade cabe responder com os numerosíssimos, embora ainda invulgares, casos de clarividência e clariaudiência que os psicólogos de gabinete, incapazes de explicarem satisfatoriamente, atribuem a histerismo e a alucinação. Mas os que percebem um pouco das coisas invisíveis, que, segundo a crença cristã, são obra de Deus como são as visíveis, sabem que há pessoas que nascem clarividentes e clariaudientes, como na verdade o foi Joana d'Arc.

Também pode suceder que outros digam que a clarividência e a clariaudiência são coisas de feitiçaria e embustice contrárias à ortodoxia. Aos que de tal suspeitam, bastará, para lhes dissipar a dúvida, a paráfrase duma passagem da Bíblia, entre as muitas que corroboram a realidade das faculdades referidas:

Andava Benadad, rei da Síria, em guerra com Joram, rei de Israel, e reunindo em conselho os seus capitães, combinou pôr emboscadas em vários pontos da região. O conselho celebrou-se na câmara secreta do rei Benadad; e contudo, o profeta Eliseu, que se achava em Israel a muitos quilômetros de distância, ouviu o que em conselho se dizia, e enviou mensageiros ao rei Joram, dizendo-lhe:

– Acautela-te, não passes por tal ponto, por que os sírios estão lá de emboscada.

Ou a Bíblia mente, ou aqui não só temos uma prova de clariaudiência, isto é, da faculdade de ouvir o que normalmente não ouvem ouvidos humanos, mas estamos também em presença dum fenômeno de transmissão do pensamento, que os preconceitos do fanatismo atribuem hoje a artes diabólicas.

Continuaremos, porém, a narração:

Avisado por este modo o rei de Israel, tratou de ser o primeiro a ocupar os pontos indicados, de maneira que, quando os sírios foram para se emboscar nesses pontos, encontraram já lá o inimigo, à semelhança do que vai buscar lã e sai tosquiado. Isto aconteceu várias vezes, até que um dia o rei Benadad, inquieto com tais decepções, teve novo conselho de guerra com os seus generais, dizendo-lhes:

– Com certeza há entre vós um traidor que descobre os meus planos ao rei de Israel. Porque não direis quem é?

Ao que um dos generais respondeu:

– Meu rei e senhor, nenhum de nós é traidor, podeis crê-lo. Simplesmente o profeta Eliseu transmite ao rei de Israel tudo o que direis no sítio mais recôndito da vossa câmara.

– Pois se assim é, tratai de saber onde ele se encontra que eu o mandarei prender, respondeu Benadad.

Partiram esculcas por toda a parte, em demanda do profeta Eliseu, e ao fim dalguns dias trouxeram aviso ao rei de que o profeta estava em Dothan, lugar próximo de Siquem, na tribo de Manassés. Benadad enviou então um corpo de tropas com muita cavalaria e grande número de viaturas, que foram as precursoras dos modernos tanques de hoje, e pôs cerco à cidade de Dothan, onde se achava Eliseu.

O criado do profeta, quando pela manhã se levantou e saiu da cidade, como costumava, em busca de ervas e raízes para o almoço, ficou apavorado de ver tão poderoso exército, e, voltando para trás a correr, foi ter com o amo e disse-lhe:

– Ai, meu senhor! Desta vez é que não escapamos. Estão às portas da cidade milhares de homens a pé e a cavalo e com carros de guerra, que vêm para nos prender. Que havemos de fazer agora?

Eliseu, porém, respondeu tranqüilamente:

– Nada receies, porque temos por nosso lado muito mais homens para nos defender do que eles têm.

O criado ficou boquiaberto, supondo que o amo, com o susto, havia perdido a razão. Mas Eliseu orou a Deus, dizendo:

– Senhor, abre os olhos a este homem, para que ele veja.

E o Senhor abriu os olhos ao criado e ele viu o monte cheio de cavalos e carros de fogo a cercarem o exército sitiante.

Pois assim era Joana d'Arc, clarividente e clariaudiente, embora talvez em grau inferior. Via e ouvia as entidades que lhe pareciam fadas, e talvez o fossem, apesar de também poderem ser anjos, como os classificam as religiões, desses que sempre nos protegem, pelo menos o anjo da guarda, se a ortodoxia não mente.

Joana via com os olhos espirituais da intuição as povoações arruinadas, os bosques e as messes incendiadas, os campos juncados de cadáveres, o rei legítimo destituído da coroa e errante, na sua própria pátria, sarcasticamente achincalhado com o apodo de reisete de Bourges. Todos estes quadros se lhe representavam como se pessoalmente os presenciasse, e o seu coração infantil ardia numa chama de piedade e de patriotismo.

Tinha catorze anos, quando um dia, apascentando o rebanho de seu pai, ouviu pela primeira vez uma voz que, distinta e claramente, lhe dizia:

– Joana! Tens de acudir em socorro do delfim para, com o teu auxílio recuperar o reino que lhe pertence.

A rapariga ficou logo atemorizada, julgando ser vítima duma alucinação. Que poder tinha ela para se aventurar a uma empresa superior à sua idade, à sua profissão e ao seu sexo?

De vez em quando, porém, tornava a ouvir a mesma voz que, no mesmo tom, repetia as mesmas palavras. Por fim, a voz materializou-se numa aparição etérea, tornando-se para Joana visível e audível ao mesmo tempo, e repetindo-lhe os avisos anteriores. Dizia-lhe que o reino da França estava em completa ruína e que era preciso que ela fosse ao encontro do delfim, levando-o à catedral de Reims, para que lá o sagrassem como rei.

Era esta a inspiração clara e definida que chamava Joana ao cumprimento do seu histórico destino, como para corresponder aos veementes desejos e fervorosas orações que desde a sua infância sentira e elevara com sincera fé, base fundamental de todo o êxito.

Três anos esteve Joana em freqüente comunicação com os seres misteriosos, visíveis e audíveis só para ela, guardando, mais o seu gado, o segredo do que acontecia.

Um dia, porém, a seu pesar, deixou escapar algumas frases soltas. O pai ouviu-as e coligiu do que se tratava. Exasperado por tal motivo, disse-lhe:

– Enlouqueceste? Estarás em teu juízo? Que significa essa tolice de te meteres com soldados? Se tal intentasses, dava cabo de ti. Tira essas loucuras da cabeça, que eu vou tratar de te casar quanto antes, para ver se teu marido te mete em trabalhos.

A voz misteriosa, contudo, tinha para Joana maior autoridade e prestígio do que a de seu pai. Negou-se redondamente a aceitar por esposo o rapaz que a pretendia, e, quando as tropas borgonhesas saquearam a aldeia de Domremy e queimaram a igreja, ouviu novamente a voz que, com acento cominatório, lhe dizia:

– Não te demores. Vai a Vaucouleurs e fala com Roberto de Baudricourt.

Joana conseguiu ganhar a confiança dum seu tio, que, simpatizando com os sentimentos dela e possuído da mesma fé, tomou o encargo de ir ter com o comandante Baudricourt, chefe da guarnição de Vaucouleurs. O chefe, porém, despediu-o com modo brusco, dizendo-lhe que certamente o tinha vindo procurar para troçar dele. Apresentou-se então Joana pessoalmente, mas Baudricourt tomou-a por uma louca. A heroína donzela não se deu por vencida ante a repulsa do comandante. Tinha absoluta confiança no seu destino. Estava certa de que não eram aparentes nem quiméricas as vozes e as aparições que a incitavam à tentativa de salvar a pátria. A sua vontade submetia-se de bom grado à inspiração do céu.

Ficou em Vaucouleurs, hospedada em casa duma família das relações do seu tio, e, embora naquela época não houvesse jornais, nem telefones, nem telégrafos que transmitissem as novidades com a rapidez do relâmpago, como séculos depois profetizou o eminente dramaturgo espanhol Lope de Vega, o que é certo é que prontamente correu por todo o país a notícia de que havia uma corajosa donzela, inspirada por Deus, que garantia salvar o rei.

Vendo que Baudricourt ficava indiferente aos seus rogos, partiu Joana para a aldeia de Petit-Burci, onde pouco depois se soube que o usurpador-regente, duque de Bedford, havia posto cerco à cidade de Orleans, chave do Meio-dia da França, e reduzira ao extremo desespero o seu valoroso defensor, o cavaleiro Dunois. Chegaram aos ouvidos de Carlos VII os rumores da voz pública, por intermédio de Baudricourt, que por fim se viu obrigado a dar conhecimento à corte do que sucedia. O rei enviou-lhe uma mensagem, dizendo-lhe que gostaria muito de ver a donzela que o povo admirava.

O próprio Baudricourt deu-lhe uma espada; seu tio comprou-lhe o cavalo; cortaram o cabelo à donzela, vestiram-na de soldado e, escoltada por seis cavaleiros, pôs-se a caminho, chegando à aldeia de Fierbois a 5 de março de 1429. Imediatamente Joana escreveu ao rei, que estava no castelo de Chinon com a sua corte, e solicitou-lhe a honra duma entrevista.

Os cortesãos dividiram-se em dois partidos: um era de opinião que o rei recebesse Joana, o outro era de opinião contrária. Triunfou no ânimo do rei o partido favorável à donzela, capitaneado por Yolanda de Aragão, sogra do monarca; mas, para não descontentar de todo o partido contrário, combinou o rei vestir-se modestamente para ver se Joana se enganava, confundindo-o com um escudeiro.

Posta esta condição, introduziram-se na sala principal do castelo Chinon, onde estavam reunidos os grandes da corte, ficando o rei num segundo plano, disfarçado em escudeiro. Apesar de tudo, Joana d'Arc encaminhou-se na direção de Carlos VII, arrojando-se-lhe aos pés e abraçando-o pelos joelhos. Ele, porém, disse-lhe, indicando um dos magnatas

– Eu não sou o rei. É aquele.

A vidente replicou sem hesitar:

Em nome de Deus, gentil príncipe, sois vós e mais ninguém. Sereníssimo delfim e real senhor, eu chamo-me Joana, a Donzela e sou enviada por Deus em vosso auxílio e no do vosso reino, para combater contra os ingleses. Porque não credes em mim? Posso garantir-vos que Deus se apiedou de vós, do vosso reino e do vosso povo.

O rei, comovido, ordenou aos cortesãos que se retirassem, ficando a sós com Joana. Quando terminou a conferência, não duvidava já da veracidade da sua missão.

Todavia, os clérigos hesitavam em crer que ela fosse realmente urna enviada de Deus, e para terem a certeza, conseguiram do monarca que Joana fosse em Poitiers examinada pelos teólogos de Paris, que ali se haviam refugiado para se livrarem do jugo inglês. Entre outras objeções, apresentaram-lhe as seguintes, que a donzela ia refutando sem titubear:

– Se Deus quisesse libertar a França, não seriam necessários os exércitos.

– Em nome de Deus hão-de pelejar os exércitos e Deus lhes dará a vitória.

– Em que língua falam as vozes que ouvis?

– Numa língua que é melhor do que a vossa.

– Dá-nos uma prova da tua missão.

- Não vim a Poitiers para apresentar provas. Levai-me a Orleans e lá as vereis. Em nome de Deus farei com que os ingleses levantem o cerco, levarei o delfim a Reims para receber a cerimônia da sagração, e depois deixá-lo-ei regressar á cidade de Paris.

– Mas os livros eclesiásticos não preceituam o que dizes.

– Os livros de Deus valem muito mais do que os vossos.

Respondeu Joana d'Arc duma forma tão terminante, refletia-se no seu semblante uma confiança tão absoluta e ao mesmo tempo uma tão profunda sinceridade, que os doutores declararam que não tinham visto nela mais do que bondade, devoção, honradez, castidade, singeleza e humildade, acordando, por isso, em que fosse conduzida a Orleans, para que lá desse a divina prova que prometera.

E deu-a da maneira mais completa. Os ingleses levantaram o cerco de Orleans. O exército francês, capitaneado por Joana, apodera-se das praças fortes de Jargeau e Beaugenci e derrota completamente o inglês, enviado por Talbot, na célebre batalha de Patay. De vitória em vitória, levou Carlos VII até Reims, onde recebeu a sagração régia.

Mas agora os céticos, os que atribuem à sorte e ao acaso tudo quanto existe e sucede no universo, argumentarão a seu modo, dizendo:

Afinal, que demonstram todos esses exemplos? Precisamente o contrário da intenção que levou o autor a expô-los. Porque Lincoln, apesar de toda a sua força de vontade, morre assassinado no palco dum teatro. Napoleão, acaba os seus dias lamentavelmente vencido em Santa Helena. Bismark construiu o seu império a custa da sua vontade de ferro, para nos nossos dias o vermos desmoronar-se como um castelo de cartas. A própria Joana d'Arc, por último, foi prisioneira dos ingleses e condenada a morrer na fogueira, acusada de herege e relapsa. De que serviu a esses espíritos fortes a sua vontade indomável, se após uns efêmeros triunfos, caíram na definitiva derrota? Não se nota em tudo isto a veleidade do cego acaso? A verdadeira resposta a estas perguntas tem certa semelhança lógica com a que poderia dar-se a quem aduzisse como argumento contra a lei da gravidade a elevação dos aerostatos, fenômeno que mais a corrobora. Do mesmo modo, os elementos funestos, próprios da natureza humana, que intervieram nas ações desses históricos personagens, mudaram o triunfo em derrota, por eles terem ultrapassado os limites do seu destino.

O primeiro imperador dos franceses poderia ter consolidado o seu trono, se a ambição o não cegasse depois de ter cumprido o que Deus lhe determinou, que foi garantir uma nova situação à humanidade revolucionada. A obra de Bismark poderia ter sido duradoura, se se limitasse a confederar politicamente os países desagregados de raça alemã, sem se enfurecer com os vencidos. E Joana d'Arc não teria um fim tão lamentável, se, depois de realizada a missão de que a voz misteriosa a havia encarregado, não tivesse ficado indiferente aos seus incitamentos, quando a aconselhou a voltar para junto dos seus rebanhos. Por lhe ter desobedecido é que lhe sobreveio o desastre que a aniquilou, como por lhe haver obedecido de começo conquistara o êxito brilhante que a exaltara.

De tudo isto se infere uma lição sumamente proveitosa para quantos dão os primeiros passos no caminho da vida. Não há ninguém, por muito humilde que pareça a sua condição, que não tenha vindo ao mundo para realizar uma determinada obra no vastíssimo campo das atividades humanas. Evidentemente, se não trata da empresa grandiosa dum Lincoln, dum Edison, dum Napoleão ou duma Joana d'Arc mas o êxito não consiste na grandiosidade da obra, consiste na realização completa da obra que se empreendeu. Não serão as vozes misteriosas que a donzela de Orleans ouvia distintamente que virão aconselhar-nos a que saibamos cumprir até ao fim o nosso dever; mas, se não são essas vozes, são outras que bradam dentro de nós e que podem dar lugar a que a vocação se manifeste em forma dum irresistível desejo de utilizarmos a nossa atividade.

A voz interior que vibrava dentro de Sócrates e a que ele chamava o seu demônio – cuja acepção etimológica e verdadeira significação é a de divindade ou gênio, e não a significação vulgar de diabo – não era mais do que o impulso da vontade sem a influência estranha do conselho. A este respeito diz Montaigne:

Cada indivíduo sente em si uma inclinação súbita, veemente e imprevista. Eu próprio tive impulsos semelhantes aos de Sócrates, que me convenciam ou despersuadiam dum determinado assunto. Obedeci a esses impulsos em horas tão felizes e com tal proveito para mim, que parecia haver neles uma como que inspiração divina.

É necessário, porém, não confundir a inclinação passageira com a vocação deliberada, nem tampouco os intuitos egoístas com os propósitos honestos, e deste modo deve apreciar-se a vocação na pedra de toque da consciência moral.

Há profissões, como, por exemplo, as de prestamista, magarefe, jogador e usurário, para as quais nenhuma vontade bem equilibrada, nenhum caráter nobre pode sentir vocação. Tudo o que consiste em auferir lucros à custa da desgraça, do infortúnio, da miséria ou da morte será incompatível com o delicado temperamento emocional da pessoa educada, por muito poderoso que seja o engodo da ganância material, sempre em proporção geométrica com a perda moral.

Há tempos, recebi uma carta dum rapaz de qualidades apreciadas, com competência para desempenhar cargos de confiança e de responsabilidade, em que ele me dizia:

Por circunstâncias da vida, estou metido num negócio de tão ruim natureza que ameaça pôr em cheque o meu caráter.

O desgosto de me ver nele envolvido e a profunda aversão que colhi a tal negócio, sufoca-me de tal maneira o ambiente em que tenho de agir, que estou ansioso por me ver livre dele o mais rapidamente que possa, sem prejudicar interesses alheios. Embora ganhe dez mil dólares por ano de ordenado, sem outros proventos para sustentar a família, não posso resistir a este gênero de trabalho nem dedicar-me com vontade e entusiasmo a um negócio que consiste em comerciar com a credulidade das pessoas de fortuna modesta. Não há nada que eu mais deteste do que é a hipocrisia, e, contudo, vejo-me continuamente obrigado a ser hipócrita, porque a burla e as modalidades mais requintadas da velhacaria elegante são a alma do negócio.

Reconheço que tudo isto influi deploravelmente no meu caráter. Repugnam-me os processos que tenho empregado, e envergonho-me de que os meus amigos saibam o que eu faço. Compreendo que deveria mudar de profissão; mas deixei-me iludir pela perspectiva dum ordenado rendoso, e, como adquiri hábitos que me ficam caros, não tenho a força de vontade precisa para arranjar outro modo de vida.

Aqui manifesta-se a relação íntima entre a vontade bem educada e a profissão bem escolhida. Se durante a infância e a puberdade a educação fundamental fortaleceu as vossas boas qualidades e deduziu as nobres aptidões, a voz interior – a vocação - não vos aconselhará a abraçardes uma profissão condenável nem a aviltardes as profissões nobres e honradas, por muito remuneradora que seja a ruindade dos processos para vos colocardes.

Não podereis respirar num ambiente mefítico, porque a vossa vontade se terá acostumado a praticar o bem. Além disso, o funesto emprego da atividade poderá produzir de momento resultados invejáveis no conceito vulgar; mas tempo virá em que o diabo leve as riquezas mal adquiridas, ou em que os desgostos, as doenças, os infortúnios, as desavenças domésticas, a perversão dos filhos e o remorso da consciência quase sempre intranqüila, não deixem desfrutar em paz os bens materiais.

O adolescente, quase a entrar na virilidade, deve lembrar-se de que não nasceu para que os outros lhe prestem serviços, mas para servir o próximo, aplicando as suas faculdades na obra em que melhor possa produzir e não naquela para que, sem ter competência, se sinta atraído pelo maior lucro que lhe possa dar. Se a vocação é definida, confirmada pela consciência e de harmonia com a lei moral, triunfará aquele que lhe obedecer. Se o móbil da vocação é o egoísmo, e se o que o possuir não obedece aos ensinamentos que Deus lhe marcou na própria personalidade, então será certo o inêxito. O triunfo não consiste no interesse material.

Podeis ter muito dinheiro, pode o vosso ideal resumir-se em acumulardes riquezas, com os olhos cobiçosos de quem só ouro vê adiante de si; mas, se acumulardes esse ouro à custa do bem-estar dos outros, não vos ufaneis pelo êxito alcançado, por que será ilusório todo esse mar de rosas, e a vossa decadência será inevitável. Amontoar dinheiro à força de praticar velhacarias é sempre um mau negócio, por muita habilidade que haja em as encobrir sob a aparência agradável do respeito e sinceridade para com todos.

Procedei sempre de harmonia com a voz da consciência que, nas circunstâncias críticas da vida, ressoará aos vossos ouvidos espirituais como ressoaram as palavras que compeliram Joana d’Arc ao cumprimento da sua missão. Obedecei a essa voz interior, embora vos pareça que da obediência vos tenha de sobrevir algum prejuízo material. Se lhe obedecerdes, toda a lei, toda a ciência, tudo quanto possa agir na natureza virá em vosso auxílio, porque a conquista da harmonia e da justiça é o plano do universo, a verdadeira natureza das coisas. Se não lhe obedecerdes, todas as energias que na natureza existem se congregarão para vos vencer.

Os rapazes que erraram a vocação e irrefletidamente seguiram um modo de vida qualquer, que lhes desagrada, por não corresponder às suas aptidões ou porque lhes repugne à sua consciência, acharão a princípio muito difícil, senão impossível, mudar de profissão como desejariam; mas a única circunstância de abandonarem um emprego, um ofício ou outra profissão de natureza ilícita, sem se preocuparem com as conseqüências que deste fato derivam, aumentará o seu valor pessoal, despertará neles maior confiança, e o prestígio derivado do sentimento do triunfo sobre o egoísmo dar-lhes há o aspecto de vencedores, em vez de parecerem vencidos. Ninguém perde nada em ser justo, quando, com decisão, firmeza e energia, levanta o pendão da justiça.

Numa das duas cidades limítrofes que na Catalunha rivalizam com a atividade fabril de Manchester, vivia um casal que tirava fartos lucros com o ofício pouco honesto de vender carnes brancas no mercado. Diariamente degolava, pois seria impróprio dizer que sacrificava, dúzias de aves de capoeira, e os dois cônjuges iam prosperando em tão cruenta indústria, até que um dia, tendo aprendido a conhecer o valor inestimável da vida, convenceram-se de que andavam por mau caminho para conquistarem o seu aperfeiçoamento espiritual. Resolveram imediatamente abandonar aquele ofício, apesar do abundante lucro material que lhes proporcionava, e esta firme resolução deu-lhes coragem para empregarem a sua atividade noutros misteres, inteiramente de harmonia com a renovação que os ensinamentos colhidos haviam operado na sua consciência.

A vocação é uma bússola cuja agulha indica a justiça com mais precisão do que a agulha do mareante indica a estrela polar. A Providência deu-vos esta bússola, quando pôs a vossa alma a bordo do navio do vosso corpo, lançado à água do mar da vida. É o único guia que vos conduzirá com segurança ao porto do triunfo.

Basta um leve descuido para desviar a bússola da sua posição normal. Não consintais que a ambição ou o utilitarismo desviem a bússola do sentido da vossa consciência, nem reprimam os cominatórios impulsos da vossa vocação.

Mas, para satisfazerdes à vossa vocação, é necessário que vos coloqueis num ambiente favorável, sem que isto signifique conformidade com a teoria do meio ambiente, que supõe a vontade escrava das circunstâncias. Poderá assim suceder com a maioria das pessoas; mas a experiência mostra-nos exemplos de homens que, nascidos e criados num ambiente inteiramente hostil à sua vocação natural, acabaram por se libertar dele e, até no meio das circunstâncias mais adversas, se rodearam dum ambiente especial completamente favorável à sua vocação.

Que diríamos do indivíduo que, tendo vocação para jurisconsulto, se cercasse dum ambiente médico e passasse o tempo lendo obras de medicina? Chegaria a ser legista eminente, seguindo tal procedimento? É claro que não. Há-de, pelo contrário, envolver-se numa atmosfera de jurisprudência e estudar as obras dos insignes jurisconsultos e legisladores de todas as épocas, até harmonizar todos os seus sentidos com o sentido jurídico.

O mesmo se pode dizer a respeito de qualquer outra vocação. É necessário concentrarmos nela todas as energias da nossa alma, a fim de que seja o principal objetivo da nossa vida, sem, contudo, chegarmos ao extremo vicioso de nos entrincheirarmos nessa vocação, como numa torre blindada que nos separe da harmonia social.

O pensamento é uma energia tão poderosa como a eletricidade, e a constante afirmação das nossas faculdades imanentes de querer saber e poder transformarão o ambiente adverso num ambiente favorável.




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