Prefácio do tradutor



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2. A vontade em ação


O primeiro impulso da vontade é a firme resolução de a aplicar a um determinado fim. Antes de realizarmos um ato, devemos formar a atenção de o realizar; e, antes de formarmos essa atenção, devemos examinar detidamente as condições, as circunstâncias e a natureza do empreendimento que nos propomos efetuar, para nos certificarmos de que não é humanamente impossível realizá-lo, nem superior aos meios ou possibilidades de que dispomos ou de que eventualmente possamos dispor.

Sob o ponto de vista teórico e ideológico, não há nada mais nobre, generoso, magnânimo e cavalheiresco do que a inabalável resolução de D. Quixote em ser “casto nos pensamentos, honesto nas palavras, liberal nas boas obras, valente nos feitos de armas, paciente nas provações, caritativo com os necessitados e, finalmente, defensor da verdade, embora à custa da própria vida”. Mas não lhe bastou querer para poder, porque lhe faltava a ciência dos meios, das circunstâncias e das condições exigidas pela realidade para a efetivação do seu idealismo. Era assim que o engenhoso fidalgo fazia coisas próprias do maior louco do mundo e apresentava tão judiciosos argumentos que anulavam e deixavam a perder de vista os seus feitos de armas.

Quando, porém, o fim é nobre e os meios exeqüíveis, a vontade, impulsionada por um decidido propósito, tem muitíssimas probabilidades de triunfar.

Para exemplo admirável, citaremos Lincoln, modelo de auto-educação, que deveu tudo o que foi à confiança que teve em si mesmo e ao auxílio de Deus. Não era Lincoln tão néscio que se julgasse capaz de vencer todas as dificuldades apenas com as forças de que dispunha. Confiando em si, confiava também em Deus, que o auxiliaria na grandeza das suas intenções, sempre repassadas do mais puro altruísmo, porque todo o seu ardente desejo consistia em elevar o nível moral do gênero humano, em estabelecer o reinado da justiça e em abolir a iniqüidade. O seu triunfo foi devido à índole altruística dos seus propósitos. Lincoln, por um lado, confiava no feliz resultado dos seus esforços, e, por outro, não temia o inêxito de qualquer empreendimento, porque, se não conseguisse o que desejava, ficava ao menos com a consciência do dever cumprido.

Não foi de repente nem por intrigas de gabinete que Lincoln chegou a ser presidente dos Estados Unidos; foi avançando a pouco e pouco e com firmeza, sem arrepiar caminho, sem um desfalecimento, conservando, nas circunstâncias mais críticas, a integridade do seu caráter, que ele conquistou a estima pública e a lealdade dos cidadãos do pais.

A vida foi para Lincoln o mesmo que é para toda a gente: uma série de rápidos e furtivos sorrisos da sorte. A diferença está em os homens de vontade enérgica, como Lincoln, saberem aproveitar-se desses efêmeros sorrisos da fortuna, enquanto os pusilânimes e os néscios não dão por eles ou os desprezam. Para dar uma idéia do modo como Lincoln foi exercitando a sua vontade, depois de a ter fortalecido por auto-educação, ouçamos o que ele próprio refere pela pena dum dos seus biógrafos:

Contava eu uns dezoito anos, quando um dia me surgiu a idéia de construir uma barca, onde pudesse transportar pelo rio abaixo, até ao mercado mais próximo, os produtos da granja. Se, na minha infância, não tivesse aprendido a serrar madeira nos bosques de Indiana e a pô-la depois em obra, com certeza que não seria capaz de fazer uma barca que para mim foi tão útil e que me saiu tão perfeita como se fosse executada por um calafete. O que é certo é que me serviu para vender mais facilmente as frutas, os legumes e as hortaliças que a granja ia produzindo.

Um dia, depois de ter vendido todo o meu carregamento, estava eu a descansar na minha barca junto à margem, quando de repente apareceu deslizando pelo rio abaixo um navio a vapor, o primeiro que eu via na minha vida. Ao mesmo tempo, acercaram-se de mim dois homens, vindos de terra, com malas na mão, e perguntaram-me se eu queria levá-los na minha barca a bordo do vapor. Acedi. Em paga do serviço que lhes prestei, cada um deles me deu meio dólar. Olhei para o dinheiro e mal podia crer no testemunho dos meus olhos. Para qualquer outra pessoa, um dólar pareceria uma insignificância; mas, para mim, habituado a ganhar durante um dia de trabalho meia dúzia de centavos, foi o incidente mais extraordinário da minha vida. Parecia-me ver um mundo de felicidade na minha frente, ao ser remunerado com um dólar só por cinco minutos de trabalho. Desde então tive uma esperança mais sólida no futuro e mais ilimitada confiança em mim mesmo.

O que é conveniente é que o exercício da vontade seja precedido e acompanhado do exercício das faculdades intelectuais e especialmente da atenção, porque a atenção gera o interesse, e este estimula a vontade.

Tudo quanto nos cerca, os fenômenos da natureza, os fatos e as condições da vida, o ambiente social, o tempo e o espaço, são o mesmo para todos os homens de determinado grupo geográfico. Unicamente varia o grau de percepção em cada um de nós.

A lâmpada da catedral de Pisa oscilava igualmente à vista de todos os circunstantes; mas só Galileu conseguiu deduzir as leis do pêndulo, ao fixar a atenção nas suas oscilações. Centenas de exploradores de ouro passavam junto à choça que um grupo deles construíra nos arredores de Wooming, mas só Cookson reparou nos extraordinários rochedos que formavam as paredes da choça, e que vieram a ser as vértebras colossais, cujo exame determinou o descobrimento dos abundantíssimos jazigos de fósseis das montanhas Rochosas.

Por outro lado, o exercício da vontade exige a cooperação do discernimento, que consiste em apreciar as coisas pelo seu justo valor, sem as engrandecer mais pelo proveito pessoal a que possam dar lugar, nem tão pouco depreciá-las pelo prejuízo que ameacem causar aos nossos interesses individuais.

É ainda Lincoln que nos oferece um formoso exemplo de imparcial discernimento no exercício da vontade. Vejamos como:

No tempo em que Abraão Lincoln contava dezenove anos de idade, deu-se um dia o caso de ele conduzir, por conta dum comerciante chamado Gentry, um carregamento de mercadorias numa barca que seguia pelo rio Ohio, com destino a Nova Orleans. Acompanhava-o um filho do dito comerciante, o moço Allen, da mesma idade que Lincoln, e, depois de haverem navegado afanosamente durante um dia inteiro, atracaram na margem do rio para dormirem naquela noite. De repente ouviram um rumor de passos. Abraão, que era tão forte de músculos como de vontade, ergue-se rapidamente, gritando: “Quem vem lá?” Ninguém respondeu. Desconfiando, pelo silêncio, de que fossem gatunos, colocou-se na defensiva, empunhando um estadulho. Nisto, surgiram sete alentados negros, em ar de salteadores, que evidentemente se propunham saquear a barca.

O primeiro negro que saltou a bordo foi recebido com uma tão valente cacetada na cabeça que caiu à água, sucedendo o mesmo a outros três que também tentavam atacar a barca. Os outros, ao verem a impossibilidade de triunfar do hercúleo ex-lenhador e do seu companheiro, deram às de Vila Diogo, perseguidos pelos corajosos mancebos que, alcançando os fugitivos, sustentaram com eles uma luta tremenda braço a braço. Por último, os ladrões resolveram fugir, deixando o moço Abraão assinalado no rosto para toda a vida.

É claro que, num caráter menos imparcial, aquele incidente teria despertado um ódio inextinguível contra os negros, declarando-se logo o indivíduo com tal caráter um partidário acérrimo da escravatura. É que a maioria das pessoas não vêem as coisas como realmente são ou como deveriam ser, quando elas se não apresentam normalmente; vêem-nas por um lado egoísta, visando o interesse pessoal, e encaram-nas duma maneira apaixonada, guiadas muitas vezes pelos seus preconceitos. Desta maneira, é tão difícil fazer justiça ao adversário como conseguir fazer distinção entre os casos particulares e os gerais, entre a regra e a exceção.

Provando por esta forma a sua grandeza de alma, o seu claro entendimento e imparcial critério, esqueceu Lincoln aquele incidente, atendendo a que a pilhagem e o latrocínio não são peculiares da raça negra, pois também há infelizmente quadrilhas de salteadores com a pele branca.

Em compensação, durante aquela viagem pelo Ohio, presenciou Lincoln o comovedor espetáculo para sempre inolvidável, e que, com o andar do tempo, havia de ser o ponto de aplicação da sua vontade indomável. Viu os escravos trabalharem à sobreposse, tendo por única remuneração o escasso alimento das roças. Viu os mercados em que eles eram vendidos em bandos como se fossem reses; aqui o filho arrebatado dos braços da mãe, além o irmão brutalmente separado da companhia da irmã, todos obrigados a juntarem-se em grupos para enriquecerem o cruel negreiro com o produto da venda, que os pais amaldiçoavam da maneira mais atroz. Depois os açoites, as torturas, os castigos bárbaros, que o guarda desumano infligia quase sempre por motivos fúteis, intimidavam aqueles infelizes de tal maneira que lhes deixavam embotada a consciência.

Foi então que Lincoln prometeu, com o auxílio de Deus, dedicar toda a força da sua vontade e toda a energia da sua alma em conseguir um dia a emancipação dos escravos. Prometeu a Deus que havia de conseguido, e esta resolução aumentou, com a sua vontade tenaz, a possibilidade de realizar o seu intento. Desencadearam-se as iras dos partidários da escravatura contra o signatário do célebre manifesto de emancipação; mas nada houve que o fizesse recuar. Nem os libelos, nem as caricaturas que o ridicularizavam, nem o ataque dos inimigos, nem tão pouco a deserção dos amigos conseguiram quebrantar-lhe a fé indomável na possibilidade de acaudilhar a parte sã da nação para a luta mais gigantesca da sua história.

A vida de Edison dá-nos um exemplo do muito que pode o perseverante exercício da vontade. A este homem deve a civilização moderna uma gratidão imperecível, só por causa dum dos seus múltiplos inventos – a lâmpada elétrica – que, não sendo talvez tão admirável, é, contudo, mais útil do que o fonógrafo. Haverá quem tenha contribuído, em grau tão elevado, para a comodidade, satisfação e engrandecimento da vida humana?

Aos sete anos começou a ir à escola pública de Gratiot (Michigan), para onde tinham ido viver os pais, quando saíram de Milan (Ohio). E, para que se veja até que ponto iludem as aparências e como é absolutamente indispensável reformar os processos pedagógicos, o professor não foi capaz de descobrir o precioso engenho que se escondia nos recessos daquela alma infantil, destinada verdadeiramente a iluminar o mundo. O pequeno Tomaz era sempre o último da classe, talvez porque, como acertadamente diz Donnay, os primeiros na escola são os últimos da vida. Como quer que seja, o professor um dia dirigiu-se ao futuro inventor do fonógrafo e disse-lhe:

– Olha, Tomaz, por mais voltas que dês, nunca passarás de ser um estúpido. És bronco demais para aprender. O único remédio que tenho é mandar-te embora. Escusas de voltar mais à escola.

O pobre pequeno foi para casa a chorar muito triste; mas a mãe consolou-o, prometendo-lhe que lhe ensinaria o que o professor não fora capaz de lhe ensinar; e assim fez.

Aos onze anos, vendia Tomaz jornais no comboio que circulava entre Port Huron e Detroit, e aproveitando a carruagem destinada aos fumadores, que nunca era utilizada pelos passageiros, instalou nela um prelo minúsculo para publicar um semanário do tamanho dum lenço de assoar, intitulado Weekly Herald (O Heraldo Semanal), de que era ao mesmo tempo o único redator e impressor, vendendo 400 exemplares de cada número que publicava.

O texto constava das notícias referentes à guerra da Secessão, que ia colhendo nas estações do trânsito. Nisto provou Edison possuir uma das qualidades necessárias para triunfar na vida, isto é, sabia aproveitar as ocasiões que os outros perdiam. 0 público lia com avidez as notícias do pequeno semanário, e Edison conseguiu satisfazer perfeitamente a curiosidade geral, com a cooperação dos telegrafistas ferroviários que, por simpatia, lhe comunicavam as notícias recebidas. Do Weekly Herald apenas existe um exemplar, correspondente ao dia 3 de Dezembro de 1862, que a esposa de Edison conserva como uma relíquia de grande valor.

Com pronunciada inclinação para as ciências experimentais, instalou, ao lado do prelo, um laboratório químico e uma pilha elétrica, até que um dia, em conseqüência duma violenta trepidação do comboio, saltou dum matrás um pedaço de fósforo a arder, que pegou fogo ao vagão e que incendiaria todo o comboio, se os revisores não acodem a sufocar o incêndio. O condutor pegou num braço do inexperiente moço, pô-lo no meio do cais da estação imediata, juntamente com o prelo, a pilha e toda a bateria química e, por despedida, aplicou-lhe uma saraivada de murros que o deixou atordoado. Deste incidente lhe proveio a surdez que havia de atormentá-lo por toda a vida.

Quando, porém, se fecha uma porta, abre-se logo outra, e as boas ações têm sempre a sua recompensa, mais tarde ou mais cedo. Meses antes do incidente que acabamos de referir, tinha Edison arriscado a vida para salvar a do filho do telegrafista da estação, que ia sendo colhido pelo comboio. Na crítica situação a que o reduzira o narrado incidente, foi recolhido em casa do telegrafista, que se ofereceu para lhe ensinar telegrafia. Ao fim de dois meses, estava um telegrafista consumado, sendo-lhe confiada a estação de Port Huron. Depois de muitas revezes de sorte, cujo relato assumia proporções de biografia que não queremos dar a este rápido bosquejo, chegou pobre e faminto a Nova Iorque, no ano de 1869.

Uma tarde, ao passar por Wall Street, viu uma chusma de curiosos às portas dos escritórios da Gold & Stock Telegraph Company2 que, por meio de indicadores automáticos, expõe ao público, em tiras de papel, as cotações da Bolsa. O mecanismo dos indicadores tinha-se desarranjado, e o dr. Laws, gerente da empresa, estava desesperado, sem saber o que havia de fazer.

Aqui vemos praticamente demonstrado o que disse no capítulo anterior, isto é, que não basta querer para poder, mas sim que é necessário saber e acompanhar a sabedoria com determinadas qualidades de caráter, entre as quais se destaca a de aproveitar as ocasiões e vencer as circunstâncias de momento.

Edison nasceu com particulares aptidões para o estudo e aplicação das ciências experimentais, mas teve de deduzi-las e desenvolvê-las pelo perseverante exercício da vontade. As experiências realizadas no comboio onde vendia jornais foram, relativamente à sua auto-educação intelectual, o que são, em geral, os exercícios ginásticos e os desportos atléticos na educação física. Se não fosse a vontade de Edison, se não fosse o fato de querer chegar a ser mais do que um simples vendedor de jornais, não teria podido aproveitar a ocasião que lhe proporcionou o incidente de Wall Street.

Pelo exercício da sua vontade e com os olhos postos no futuro, preparou-se Edison para aproveitar a ocasião que se lhe oferecia em utilizar os seus conhecimentos. Mas esta preparação custou-lhe não poucos sacrifícios, porque o triunfo não se conquista sem fadiga, nem, segundo o adágio popular, se pescam trutas a bragas enxutas. Em vez de desperdiçar, em cavaqueiras e frivolidades, o tempo que mediava entre a chegada dos comboios a Detroit e o seu regresso a Port Huron, ia para a Biblioteca pública de Detroit, onde aumentou consideravelmente os conhecimentos científicos que lhe serviam de base às suas experiências.

Todavia, mesmo com todos os seus conhecimentos valorizados pela prática, não aproveitaria Edison aquele momento supremo da sua vida, se tivesse hesitado ou se, por timidez, tivesse receio de se abalançar. A decisão, isto é, a vontade em pleno exercício, foi o eixo em que girou o destino da sua vida. Intuitivamente, lembrou-se de que, naquela situação crítica, o gerente da empresa aceitaria fosse o que fosse para se livrar do apuro em que o colocava a avaria do aparelho e, com absoluta confiança em si mesmo, rompeu por entre o grupo dos circunstantes, entrou no edifício e dirigiu-se a Laws, dizendo-lhe:

– Não se apoquente vossa excelência. Tudo se há-de arranjar. Se os indicadores não funcionam, eu comprometo-me a pô-los a trabalhar.

E quem é o senhor?

– Eu sou Tomaz Alva Edison, mas neste momento o meu nome não faz nada ao caso; valem mais as minhas mãos que o meu nome.

– Pois então ande lá, que nada se perde em experimentar, desde que não deixe ficar o aparelho pior do que ele está.

– Garanto-lhe que o vou consertar.

– É preciso provar o que afirma.

Edison, com efeito, meteu mãos à obra e em vinte minutos pôs os indicadores a funcionar perfeitamente.

O Dr. Laws abraçou o mancebo com paternal carinho e disse-lhe:

– O senhor já daqui não sai. Fica desde já encarregado de lidar com os manipuladores, e receberá o ordenado de trezentos dólares por mês.

Edison, que não sabia onde havia de cear e dormir naquela noite, julgou que o gerente estava troçando com ele; mas, ao convencer-se de que era garantida a proposta que lhe fazia, aceitou profundamente comovido. Em vez, porém, de se dar por satisfeito com aquele triunfo que, para outros de vontade menos enérgica, representaria a conquista final das suas aspirações, continuou a ser infatigável nas suas experiências, que deram em resultado a construção dum indicador automático muito mais simples, mais exato, mais perfeito e seguro do que os que então se usavam.

O gerente, admirado do novo invento, chamou-o um dia ao seu gabinete de trabalho e perguntou-lhe:

– Quanto quer o senhor pela patente de invenção?

Edison pensava em pedir cinco mil dólares; mas cuidando que seria demasiado, não respondeu à pergunta, como a custar-lhe pedir uma quantia que julgava exorbitante.

Nisto, o gerente, com um ar quase suplicante, perguntou-lhe de novo:

– Ficaria satisfeito se lhe desse quarenta mil dólares?

Edison julgou não ter ouvido bem; mas, repetida a oferta, aceitou e recebeu logo um cheque de quarenta mil dólares, com a liberdade absoluta de se estabelecer por sua conta, se assim o desejasse, o que ele fez, instalando as oficinas de Newark. Contava então vinte e três anos. A era dos seus prodigiosos inventos e ruidosos triunfos ia ter o seu início.

Napoleão Bonaparte também nos oferece um exemplo de enérgica vontade, larga previsão e delicadeza de tato, embora num sentido muito diferente dos grandes homens que lutam pelos ideais incruentos da paz.

Evidentemente, os que desejam ver convertido o mundo num paraíso e anseiam pelo império da confraternização universal, amaldiçoarão a memória dos conquistadores, dos guerreiros que ensoparam de lágrimas o solo de todas as pátrias, que encheram os ares de queixas e lamentos, e juncaram de cadáveres os campos onde sinistramente batalharam. Mas pondo de parte, por não corresponder ao tema capital desta obra, a influência das guerras e, portanto, dos guerreiros na evolução humana, advertiremos que, para o caso, consideramos a vontade como força anímica nas suas características de grandeza e intensidade, sejam quais forem a sua direção e sentido. Todavia, não deixaremos de aconselhar os moços, desde já, a que dirijam a sua vontade no sentido da justiça, da verdade, da beleza e do bem, para com os seus esforços auxiliarem, e nunca dificultarem, o progresso do mundo e da humanidade.

Se bem examinarmos as vidas dos homens célebres, veremos que, num ou noutro sentido, nos provam que as leis da natureza imperam igualmente nos seus três reinos. Assim como cada árvore, cada arbusto, cada planta, enfim, considerada individualmente, difere das outras por certas particularidades de constituição, apesar das características comuns da sua espécie, assim também cada ser humano, quando nasce, traz em embrião as qualidades, aptidões e faculdades que, desenvolvidas pela educação ou irrompendo espontaneamente sob o impulso da sua própria exuberância, hão-de constituir o seu caráter em plena virilidade e marcar o destino da sua existência. Nuns manifestam-se desde a primeira infância as qualidades do caráter, noutros não aparecem distintamente até à adolescência, e nalguns ficam latentes, até que um supremo acaso ou um extraordinário revés da sorte as faz de repente vibrar.

Contudo, seja qual for a índole das qualidades constitutivas do caráter, estão elas subordinadas à vontade que, segundo a condição moral do indivíduo, se manifesta nas diversas formas de ambição, desejo, constância, ansiedade, perseverança e insistência, que podem considerar-se como estados alotrópicos do querer.

Napoleão, desde os primeiros anos da sua existência, revelou estas qualidades predominantes no seu caráter: ambição e tenacidade – duas variedades, ou melhor, dois aspectos da vontade, acompanhados de extraordinária aptidão para o cálculo matemático.

Desde muito criança, preferia os divertimentos belicosos, deleitando-se em seguir as tropas da guarnição de Ajácio nas suas marchas e exercícios, não como costuma fazer a maioria das crianças, em que é vulgaríssima esta tendência, mas como se observasse detidamente os movimentos das tropas. A sua atitude era tão singular que despertou a atenção dos oficiais, os quais dirigiam ao pequeno algumas chalaças.

Aos sete anos, teve Napoleão ensejo de por em prática a sua predileção pelos combates, suscitando a rivalidade entre os garotos da povoação e os do lugar limítrofe, pondo-se à frente daqueles para os fazer lutar com os suburbanos, a quem venceu várias vezes devido aos seus cálculos estratégicos. Freqüentemente, trocava o pão alvo da sua casa pelo da manutenção militar, dizendo que tinha de se ir habituando, pois estava destinado a ser soldado.

Na Academia de Brienne e depois na de Paris distinguiu-se pela sua aplicação ao estudo, empregando as horas vagas em proveitosas leituras sobre o governo, leis e religiões da antiguidade e da história contemporânea da Europa. Promovido a oficial de artilharia, era já capitão, quando foi incorporado num regimento de guarnição em Niza.A esse tempo, as tropas do general Carteaux haviam recebido ordem de reconquistar a cidade de Toulon, entregue pelos habitantes aos ingleses. A 7 de setembro de 1793, ocupou o exército revolucionário os desfiladeiros de Ollioules, depois de repelir um contingente de toloneses que intentaram barrar-lhe a passagem. Neste combate ficou ferido o comandante de artilharia Doumartin, tornando-se necessário substituí-lo por um chefe inteligente, porque o êxito da operação dependia precisamente do fogo da artilharia contra a cidade e os fortes.

Os comissários da Convenção que vigiavam o exército encarregaram um emissário, chamado Cervoni, de ir a Marselha procurar um oficial de artilharia que fosse capaz de tomar o comando da arma. Cervoni foi ter com José Bonaparte, que estava então em Marselha, e ele lembrou-lhe o nome de Napoleão, dizendo que era um militar que havia de corresponder perfeitamente ao desejo dos comissários.

Foram Cervoni e José avistar-se com Napoleão e expuseram-lhe o fim da sua diligência. O brioso oficial recusou a princípio, por não reconhecer no general Carteaux qualidades militares, mas depois acabou por aceitar, em proveito da arma a que pertencia.

Napoleão viu o que estava à vista de todos, e contudo, ninguém, nem mesmo o general em chefe, tinha visto coisa alguma antes dele. Estudou convenientemente a respectiva importância de todos os fortes da praça e concluiu que o mais estratégico era o da Eguillette, que dominava as duas enseadas. Se os republicanos o tomassem, derrotada ficaria a esquadra inglesa que, com a sua artilharia, estava desbaratando as operações do cerco.

Os ingleses adivinharam o plano de Napoleão e, sem demora, construíram quatro novos redutos para reforçarem as barreiras do forte.

Aqui agora é que vai reconhecer-se o que vale o exercício da vontade.

Se isto se desse com outros, teriam desanimado ao verem descoberto um plano que talvez já não pudessem realizar; mas Napoleão, em vez de desistir, aplicou-se com febril atividade à colocação de mais cinco baterias, que abriram fogo contra a esquadra inglesa, fazendo-a sair do porto de abrigo.

Não teve, porém, Napoleão que lutar simplesmente contra os sitiados, pois no seu próprio campo se via em dificuldades com os disparatados planos do general em chefe. Mas esta dificuldade também o não desanimou. Cortando o mal pela raiz, disse aos comissários que, para o bom êxito da empresa, era preciso que Carteaux renunciasse aos seus impertinentes projetos. Confiando no apoio dos comissários, Napoleão deliberou desobedecer abertamente ao general que, embora despeitado, dominou a sua cólera, não só com receio de que a Convenção o destituísse, mas por conselho de sua mulher, que lhe observou:

– Deixa fazer esse moço o que ele entender, porque sabe mais do que tu e não te pede conselhos. Se ele acertar, será tua a glória, e, se errar, a culpa será dele.

O resultado final das operações foi Carteaux ser substituído no comando pelo general Doppet e este, por sua vez, por Dugommier, que deixou Napoleão em completa liberdade para realizar o seu plano, como efetivamente o realizou com pleno êxito.

Todos os historiadores são unânimes em atribuir a Napoleão a glória do triunfo, acrescentando que não se sabe que mais admirar neste homem extraordinário – se a grandiosidade do plano que arquitetara, se a tenaz perseverança em o levar a efeito. Tinha ele então vinte e quatro anos de idade. Começou deste modo a sua prodigiosa carreira. O cerco de Toulon foi o ponto inicial da sua celebridade no mundo militar e a base da sua maravilhosa ascensão.

Aos vinte e três anos de idade, era já ministro do Fomento do governo inglês o notável estadista Guilherme Pitt, segundo filho do não menos celebre estadista do mesmo nome. Como justificadamente dizem os seus biógrafos, era nele tão profundo o sentimento do poder e tão excepcionais as suas qualidades de governo, que parecia ter já nascido ministro. A qualidade que nele predominava era a grande confiança que, sem orgulho, tinha em si mesmo, e mais ainda a sua enérgica vontade, acompanhada dum profundo conhecimento da psicologia do povo inglês, além da facilidade de palavra, com rasgos de eloqüência verdadeiramente assombrosos.

Quando em 1783 Fox e North se coligaram contra o governo e especialmente contra Pitt, o jovem ministro viu-se obrigado a pedir a demissão, e então disse ao duque de Devonshire em tom profético de absoluta confiança:

– Tenho a certeza de que ninguém mais é capaz de salvar este país senão eu.

Efetivamente, após uma curta viagem pela França, voltou ao Parlamento, onde combateu com tão progressiva eloqüência o projeto de lei apresentado por Fox sobre a índia, que o rei Jorge IV, a aristocracia e a maioria parlamentar reconheceram o talento e o prestígio de Pitt. Aos vinte e quatro anos, a 18 de dezembro de 1783, assumia o cargo de primeiro ministro da Inglaterra, chegando a salvar o país, como prometera.

O notável escritor e estadista Benjamim Disraeli, descendente duma das famílias de judeus expulsos de Espanha em 1492, também pôs a sua enérgica vontade em ação. Tendo-se dedicado às letras desde os vinte e dois anos, escreveu várias novelas em que revelava um profundo conhecimento do coração humano, e mais tarde, em 1832, ingressou na política militante, propondo-se como candidato liberal pelo distrito de Chipping Wycombe.

O candidato oposicionista e os seus partidários perguntavam em tom de mofa: Quem é Disraeli? Ao que o destemido mancebo respondeu com a mesma pergunta num folheto intitulado: Quem é ele? onde expunha o seu programa eleitoral. Derrotado naquelas eleições, mudou radicalmente de idéias políticas, e em 1835, apresentou-se como candidato conservador pelo distrito de Taunton, apesar das violentas diatribes com que o atacaram os amigos doutro tempo e especialmente O'Connell, que lhe chamou apóstata, saltimbanco e digno herdeiro do mau ladrão. Também nesta segunda tentativa fracassaram os seus esforços, até que finalmente em 1837 foi eleito deputado por Maidstone. A sua presença na tribuna foi acolhida com cicios, murmúrios e gritos de protesto, que teriam descoroçoado outro menos destemido. Disraeli, porém, sentou-se, envolto naquela atmosfera de manifesta hostilidade, e disse tranqüilamente:

– Tempo virá em que me hão-de ouvir.

E veio, com efeito, esse tempo em que os murmúrios se converteram em aplausos e os foras deram lugar aos vivas: foi quando, chefe do governo, ele traduziu em leis grande número de reformas políticas e sociais.

É surpreendente ver a maneira como os adversários ajudam e prestigiam um ânimo arrojado, um espírito de decisão, e como os obstáculos desaparecem do caminho dum homem que, sem arrogâncias fátuas, confia em si mesmo. Não há ciência, nem arte, nem meio algum que leve um homem a fazer uma coisa, se ele julgar que a não pode fazer.

Que triunfos não realizará o homem de alma forte, que sabe o que quer e confia na sua sabedoria e na sua vontade, desprezando o ridículo, a diatribe, o libelo e até a calúnia?

Para proveitosamente pôr a vontade em ação, é indispensável não escutar outra voz senão a da sua própria consciência, sem atender outras reclamações que não sejam as das circunstâncias de lugar e tempo, manifestadas pela consciência pública. Não hão-de ensoberbecê-lo os aplausos nem amedrontá-lo os protestos. Como misticamente diz o Bhagavad Gita, deve “manter-se inalterável na presença do amigo e do inimigo, quando adquire celebridade e quando cai na ignomínia, na felicidade e no infortúnio, no louvor e no vitupério”. Nem a pobreza será então capaz de o desalentar, nem a desdita de lhe deter os passos, nem os revezes da sorte de o dissuadir do seu propósito. Suceda o que suceder, conserva os olhos fitos no seu ideal e caminha para a frente.



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