Prefácio do tradutor



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18. Pobreza e fortuna


Na sua obra intitulada: O Evangelho da riqueza, diz André Carnegie:

Não está longe o dia em que toda a gente deixe de prantear e de venerar o homem que morra, deixando uma fortuna de muitos milhões, seja qual for o destino que dê a essa coisa vil que não pôde levar consigo. Infeliz do que morrer milionário. A maior parte dos filhos dos ricaços são incapazes de resistir às tentações com que a riqueza os acomete e desaparecem numa vida estéril. O que começa por ser pobre não deve temer a rivalidade por parte dos filhos dos ricos, mas sim a dos mais pobres do que ele, a dos que começam por varrer escritórios, servir de moços de fretes e aviar recados.

Sem dúvida, o honroso esforço para se libertar da pobreza é e tem sido sempre um dos fatores que eficazmente desenvolve as qualidades potenciais do adolescente. Se todos nascessem na abastança e no meio de riquezas, sem necessidade de trabalhar para comer, a humanidade ainda hoje estaria na sua infância. Não há maior obstáculo ao progresso individual do que viver, gozando constantemente as delícias de Capua.

Se nos países que ainda têm uma curta história, como as repúblicas americanas, todos tivessem nascido ricos desde os tempos da colonização, ainda estariam por utilizar os vastos recursos daquelas terras. O ouro, o ferro, o carvão e o cobre continuariam dormindo nos seus jazigos ignorados, e Buenos Aires, Santiago, Rio de Janeiro e Nova Iorque seriam umas cidades no seu estado embrionário.

Pode bem afirmar-se que o fator capital da civilização é a luta constante do homem para se libertar da pobreza, porque o maior esforço e a menor obra correspondem sempre ao período da vida em que lutamos, para conquistar aquilo que ambicionamos. Geralmente, ninguém trabalha, se a imperiosa necessidade a isso o não obrigar. O homem que precisa de melhorar de posição para se pôr a salvo da pobreza e da miséria, é obrigado a trabalhar, fortalece a sua vontade e avigora o seu caráter.

A história dá-nos exemplos de homens que foram infelizes, apesar da sua fortuna, indicando-nos, pelo contrário, outros que, nascidos na ínfima pobreza, chegaram ao apogeu da celebridade pelo seu talento ou pela fortuna que alcançaram. Pobres foram na sua infância Franklin, Lincoln, Grant, Garfield, entre os estadistas; Edison, Graham Bell, Faraday, entre os homens de ciência; Carnegie, Rockefeller, Schwab, entre os milionários; e, se fôssemos a citar mais nomes, veríamos que a maior parte dos nossos industriais, fabricantes, catedráticos, escritores, artistas, inventores e banqueiros não são de descendência nobre. Ou eles ou seus pais foram educados na severíssima escola da necessidade, senão na da pobreza, e alguns na da miséria.

Poucos são os jovens, embora alguns sejam uma honrosa exceção, que, nascidos em bons lençóis, como costuma dizer-se, acostumados desde a mais tenra infância a todas as comodidades e luxos que lhes proporciona o carinho materno, sem se verem obrigados a ganhar o pão já custa do seu trabalho, poucos são, repetimos, os que denotam energia de caráter ou força de vontade. São como o frágil abeto dos bosques, em relação ao gigantesco carvalho que, desde que a semente germina, vai crescendo em luta constante contra os ventos e tempestades.

É impossível aperfeiçoar o caráter ou fortalecer as qualidades individuais, sem combater e triunfar nas lutas pela vida. Quem vive sem ter passado por qualquer prova nas lutas diárias, perde esterilmente metade da sua existência. Que diríamos daquele que, para robustecer os músculos, se sentasse na sala dum ginásio, contentando-se com ver os aparelhos? Se o pai trabalha, enquanto o filho anda vadiando, não há pior maldição para o filho nem mais tremenda responsabilidade moral para o pai, embora ao morrer lhe deixe uma fortuna avultada, para o livrar da pobreza no resto da vida.

As riquezas são como muletas de aleijado, porque deixam ao herdeiro do rico a ocasião de se servir da sua mente e dos seus braços.

Perguntaram a um artista notável se acreditava que um jovem discípulo seu chegasse com o tempo a ser um grande pintor, e ele respondeu: “Não, nunca o será. Tem um rendimento de seis mil libras por ano”.

As preocupações vulgares brigam neste ponto com o senso comum. Quando, excepcionalmente, um rico trabalha com tal decisão como se fosse um pobre que procurasse todos os meios para se libertar da sua pobreza, atribui-se o seu gesto a uma ambição desmedida, o que na realidade não é mais que repugnância à ociosidade. Exclamam então os que o conhecem: “Que necessidade tem esse homem de trabalhar com a fortuna de que dispõe? Se não era melhor deixar-se de negócio e viver tranqüilamente, sem tantas quebreiras de cabeça”.

Mas é que o rico laborioso não trabalha por cobiça nem por ambição de acumular dinheiro; trabalha, porque o trabalho para ele é tão indispensável como a água é para a fonte, como o gorjeio para o canário e o brilho para a estrela. Com toda a sua fortuna sentiria aborrecimento, se não fizesse nada, e nem as viagens, nem as diversões, nem os teatros, nem os desportos poderiam proporcionar-lhe o gozo interior que ele experimenta, ao contemplar o resultado do seu esforço individual, quando, com a graça do Supremo Criador, terminou a sua obra. Não é um trabalho servil aquele em que se ocupa o rico laborioso. É um trabalho de direção e de ordem, de investigação e de análise, com o fim de imprimir à humanidade e à sua profissão uma característica um pouco melhor do que tivera até então.

Assim trabalhou Henrique Cavendish, o descobridor do hidrogênio, do ácido nítrico e da composição da água, que foram outros tantos passos agigantados no progresso da química. Assim trabalhou, naqueles tempos do século XVIII, sem embargo da sua enorme fortuna de mais dum milhão de libras.

A filosofia popular, que possui um espírito incompatível com as superstições e patranhas também populares, tem entre os seus muitos apotegmas o que diz que a necessidade é a mãe das invenções; mas a filosofia racional deve ratificar este apotegma noutro sentido. É que, quando a vontade não está orientada para o bem por meio da sabedoria, a necessidade, ou melhor, a pobreza é a mãe sinistra das invenções, e, em vez de estimular a uma legítima prosperidade e a uma virilidade virtuosa, induz ao crime, preocupando-se apenas em enriquecer sem atender aos meios, e dizendo que é preferível ser acoimado de ladrão do que desprezado por ser pobre. Está claro que temos de prevenir a juventude contra este perigo que deploravelmente coloca a riqueza acima da virtude. A sabedoria de que falamos não consiste em escapar-se arteiramente por entre as malhas do código penal, nem dar aparências da honradez à velhacaria; consiste em ter pleno conhecimento do ofício ou dá profissão que se tenha seguido, em virtude de uma vocação natural, concentrando no trabalho todas as energias da vontade e todas as faculdades do espírito.

Considerando a pobreza e a riqueza duma maneira absoluta, ambas são prejudiciais à vida do verdadeiro homem. Não são fins, são meios que a lei da vida nos confia para, com a sua utilização tirarmos o proveito positivo e permanente que resulta do aperfeiçoamento da nossa individualidade. A pobreza é o ponto de partida, e a riqueza o da chegada, nesta longa jornada da vida. A pobreza é como o aparelho ginástico que nos serve de meio para desenvolvermos as nossas forças. Considerada em si, é um mal, uma escravidão, um obstáculo que a lei opõe no princípio da vida ao que nasce pobre, para ver se consegue vencê-lo e sair da pobreza.

Poderá dizer-se que a maioria das pessoas nascem, vivem e morrem pobres, sem que consigam alguma vez libertar-se da pobreza, apesar de todos os seus esforços. Mas nisto vemos uma nova prova da evolução do espírito humano.

Se todos os pobres chegassem a ser ricos, dava-se um caso idêntico ao que se daria, se todas as teclas dum piano tivessem o mesmo som. O progresso seria uma palavra vã, e a humanidade ficaria como a água estagnada dum pântano, sem poder evoluir. Os esforços do pobre, para se libertar da pobreza, não são de todo improdutivos. Alguma coisa ganha, embora não realize toda a sua aspiração, e essa alguma coisa servir-lhe-á de ponto de partida, de capital psíquico, para começar com êxito os seus esforços, quando avance outra etapa no caminho da sua evolução. Assim se devem interpretar as palavras de Cristo: “Tereis sempre pobres no meio de vós”. Isto é, haverá sempre entre vós pobres de sabedoria ou ignorantes, pobres de vontade ou indolentes, pobres de coragem ou pusilânimes, não porque intrinsecamente tenham de sê-lo assim em oposição aos sábios, aos enérgicos e valorosos, mas porque ainda não chegaram ao ponto da sua evolução espiritual, em que desenvolvam as qualidades de sabedoria, vontade e ação.

O principal esforço para sair da pobreza não é a fortuna material que com o esforço pode alcançar-se; está nas qualidades, nas potências e nas faculdades que se vão desenvolvendo pelo esforço realizado para alcançar a fortuna. Diz a este respeito o senador norte-americano J. P. Dollixer, que também nasceu pobre:

Se dais a um adolescente cem mil dólares, para que entre nos combates da vida, é muito possível que saiam frustrados os seus esforços. Não sabe o que custa o dinheiro. Melhor será colocar os cem mil dólares a um lado e o adolescente ao outro, a ver se ele os ganha. A choupana onde nasceu Lincoln não deu abrigo à infância dum rei, mas à dalguém superior a um rei: à infância dum homem.

Se o adolescente sabe que há-de herdar uma fortuna colossal, é natural que pense e diga: Que necessidade tenho eu de me levantar cedo e de estar todo o dia a trabalhar, se possuo uma fortuna mais que suficiente para não me preocupar com a vida, ainda que viva mil anos? Por isso, a sua única preocupação são os desportos estéreis, os devaneios consumptivos, a ociosidade viciosa, tudo quanto deprime o espírito e rebaixa o caráter.

Pelo contrário, o que sabe que só pode contar consigo mesmo e mobiliza as suas reservas espirituais, mentais e físicas para lutar contra a adversidade, tem Deus por único protetor, se nEle confia e obedece às suas leis, e, com a proteção divina e o seu esforço pessoal, transforma-se de pigmeu em gigante.



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