Prefácio do tradutor



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17. A vontade e a sorte


Nós não devemos ser uns fetichistas da vontade. É uma força poderosa, mas não onipotente. Há outra força superior e que prevalece sobre a vontade humana – é a vontade divina – que, por caminhos ocultos, dirige a realização dos seus desígnios, valendo-se das ações humanas.

Portanto, temos de atender a que há coisas sobre as quais não tem o menor poder a vontade do homem, porque dependem diretamente da vontade de Deus, não por arbítrio ou capricho, mas por formarem parte do plano da evolução universal, cuja finalidade deve ser necessariamente o triunfo definitivo do bem.

Se conhecêssemos todas as leis que a natureza ainda conserva envoltas no mistério, e que irá revelando à medida que se aperfeiçoe o homem coletivo, não atribuiríamos à sorte nem à casualidade nada do que sucede, pois tudo está disposto e ordenado de modo que, sem prejuízo do livre-arbítrio, se cumpram os desígnios de Deus.

Segundo a idéia mesquinha, limitada e errônea, que sobre a vida têm a maioria dos europeus e americanos, em conseqüência da falsa instrução que recebem desde a infância, só deveríamos admitir o fator sorte ou o seu equivalente, a casualidade, para o êxito ou inêxito das ações humanas. Vemos que alguns progridem no seu modo de vida, chegam a ocupar elevadas posições, adquirem riquezas materiais e prosperam nos seus negócios, não pelo seu próprio mérito, mas pelo favor alheio, pela proteção que lhes concedem os seus parentes, amigos e colegas.

A cada passo, ouvimos queixas contra a injusta postergação do mérito e contra a marcha ascensional dos medíocres ou dos nulos, que tiveram a sorte de ser parentes, amigos ou protegidos de quem os podia fazer subir. É verdade que contra o mérito genial e extraordinário nada pode o favor, sob pena de manifesta e flagrante injustiça que levanta clamores de indignação; mas é freqüentíssimo que prevaleça contra o talento ou a aptidão, como todos os dias o estamos vendo.

Acontece outras vezes um mísero jornaleiro ou uma humilde lavadeira receber uma herança dum parente falecido em terras longínquas, e todos os que vêem apenas o aspecto externo dos acontecimentos humanos, exclamam: “Aquilo é que foi uma sorte!”

Milhares de pessoas, ansiosas por enriquecerem dum momento para o outro, compram bilhetes e décimos das loterias, sós ou de sociedade, e, de cem mil, só algumas, talvez uma apenas, terá a sorte de receber o prêmio maior.

Centenas de passageiros vão a bordo dum transatlântico. Sobrevêm um temporal, ou o navio vai de encontro a um bloco de gelo, como sucedeu ao Titanic, e no naufrágio perecem todos, menos uma dúzia de pessoas que têm a sorte de salvar-se milagrosamente, sem saberem como conseguiram escapar.

Chocam dois comboios, e do sinistro resulta ficarem várias carruagens feitas em estilhas, morrendo todos os passageiros, menos dois que, sem procurarem salvar-se, têm a sorte de ficar ilesos por milagre.

Recebe o chefe duma empresa qualquer vários bilhetes anônimos, ameaçando-o de que o hão-de matar. Não faz caso deles e continua tratando da sua vida, sem tomar a mais leve precaução. Uma noite, é surpreendido pelos agressores que lhe disparam sete tiros quase à queima-roupa, não sendo atingido por nenhum. Todos os que têm conhecimento do atentado dizem que o homem esteve com sorte. O agredido não fez absolutamente nada para evitar a agressão. O que se deu foi uma coisa independente da sua vontade.

Dois políticos rivais, que disputam entre si o predomínio numa cidade, acabam por ajustar um duelo à pistola. A bala disparada por um deles não fere o adversário, e a do outro vai achatar-se contra a fivela do cinto que segura as calças do primeiro.

“Também andou com sorte!”, exclamam as testemunhas do duelo e todas as que dele têm conhecimento pelos jornais.

Em compensação, à sorte opõe-se a desgraça, que ainda é mais inexplicável, segundo o vulgar conceito da vida. Ao menos, na boa sorte – que, como o êxito, se toma sempre em sentido de felicidade, embora a rigor tanto possa haver boa como má sorte e êxito feliz ou infeliz – nota-se uma favorável disposição do invisível poder que concede o benefício, e, sem diminuir os seus atributos, podemos dizer que a sorte é um favor de Deus, por muito incompatíveis que sejam a misericórdia e a justiça com o favoritismo. Na desgraça, porém, ou na sorte, que muitas vezes persegue os bons, a ponto de se não contentar em atormentá-los com infortúnios passageiros, mas que, pelo contrário, os martiriza, afogando-os num naufrágio, queimando-os num incêndio ou trucidando-os num sinistro ferroviário – como é possível ver a misericórdia, a justiça e a bondade divinas, se apenas vemos a vida pelo prisma por que a vêem os que supõem ser a terra a residência das almas?

Vai um passageiro na plataforma duma carruagem de primeira classe, porque todos os lugares estão já ocupados. É pessoa de representação social. Um seu amigo, que está dentro da carruagem, vê-o e oferece-lhe o seu lugar. O convidado recusa, mas o outro insiste. Por fim, aceita. O amigo muda para outra carruagem, em vez de ir para a plataforma, como parecia natural. Decorridos poucos minutos, dá-se um choque tremendo. O passageiro que aceitou o lugar morre no sinistro. A carruagem em que ele ia fica feita em pedaços. O passageiro que cedeu o seu lugar não sofre a menor arranhadura, e a carruagem para onde ele mudou fica indene. A vontade dum ou doutro é que provocou o incidente? De maneira nenhuma. São incidentes e contingências que ninguém prevê nem calcula, e só neles tem parcial ingerência a intuição, manifestada no que vulgarmente se chamam pressentimentos. Porque é que um morre e o outro se salva? É uma casualidade? É infortúnio para um e sorte para outro? Que vontade, que lei, que razão ou justiça preside a estes acontecimentos independentemente do querer e do poder do homem?

Outros exemplos: Uma viúva com dois filhos, um de quatorze e outra de dezesseis anos, tem por único amparo o que lhe oferece um seu irmão que, por estar numa posição desafogadíssima, quer e pode ocorrer às necessidades de sua irmã e sobrinhos, cujos estudos vai custeando. Os dois irmãos concluíram os seus estudos com distinção, tendo ambos tirado a bacharelado. O tio pergunta-lhes o que desejam como prêmio da sua aplicação. Eles respondem que gostariam imenso de visitar o encantador Alto Minho, que é, sem dúvida, a Suíça Portuguesa. Tomam o comboio, cheios de júbilo e, muito satisfeitos, infinitamente reconhecidos para com seu tio que os considera como filhos, a mente cheia de projetos para o futuro que se abre na sua frente, fazem a viagem de regresso, ansiosos por abraçarem a mãe que, com o mesmo anseio, os espera, morta por saber como lhes tinha corrida a excursão. Mas o comboio em que viajavam chocou com um rápido que ia muito atrasado, e o abnegado protetor com os seus dois protegidos morrem instantaneamente na catástrofe. A abnegação daquele homem merece ser premiada desta maneira? O prêmio do seu sacrifício deve confinar-se na morte violenta e inesperada? Que delito cometeram aqueles dois rapazes, filhos modelares, em quem a mãe depositava todas as esperanças, legítimo orgulho do tio, garantia segura da pátria e da humanidade, pelas virtudes e pelo talento que os exornavam? Porque é que as suas vidas, que começavam a desabrochar esplendidamente são de repente mutiladas como botões em flor que o granizo corta e a multidão espezinha? Foi a má sorte? Foi a desgraça? Que motivo, que fundamento racional teve tão tremendo infortúnio? Seria realmente desgraça ou sorte para as vítimas do sinistro?

O maquinista dum expresso português, que dirige uma sólida e poderosa locomotiva alemã, prevê o choque, e, embora se possa salvar, bastando saltar habilmente da máquina e deixar o comboio e os numerosos passageiros que leva entregues à sua sorte, mantém-se firme no seu posto. Sabendo positivamente que vai morrer, aperta os freios, diminuindo o mais possível a velocidade do comboio e consegue atenuar os efeitos do sinistro. Neste exemplo vemos a vontade transformada em heroísmo.

O intrépido e heróico maquinista – mais digno de receber o aplauso da posteridade do que certas figuras ridículas, cuja memória, por falta de virtualidade memorável, desaparecerá do fervor cultual das multidões – sentiu perpassar-lhe pela mente, naquele trágico instante, o sublime pensamento do dever, antevendo, por assim dizer, o horrendo espetáculo da iminente catástrofe. Quis e fez tudo quanto pode para a evitar, oferecendo a sua vida, como Cristo, para salvar a do próximo. Uma ação tão heróica não deve ter outra recompensa diferente da que assegura o futuro material da família do morto? E não se compreende que é estultícia atribuir à casualidade, à sorte cega e vária, a uma fatal coincidência de circunstâncias combinadas pela acaso, fatos que tão formidavelmente se interpõem contra a vontade humana?

É preciso, se quisermos satisfazer as exigências da razão, admitir um novo conceito da vida, que tenha por base a evolução do espírito e o reconhecimento do verdadeiro homem, cuja vida real não interrompe o seu curso nem morre, embora se desmembre e desapareça a forma corpórea em que temporariamente reside. A única explicação para este fato consiste em ver em todos os acontecimentos, circunstâncias e acidentes da nossa vida os elos duma extensíssima cadeia, das que, em mecânica, se chamam sem fim, que, partindo do seio de Deus, vai terminar no seio do mesmo Deus. Cada elo desta cadeia é uma conseqüência natural do elo anterior, como o efeito é natural conseqüência da causa, embora com os olhos corporais só possamos ver uma pequena porção da extensíssima cadeia.

E assim, chegamos à conclusão de que a sorte ou a desgraça na vida real não tem mais do que a continuação dos atos de cada um na vida presente. Embora na nossa vida haja acontecimentos, circunstâncias e fatores independentes da nossa vontade, há em compensação, outros acontecimentos, circunstâncias e fatores que, com a vontade, a sabedoria, e a retidão de proceder em obediência à lei de Deus, podemos combinar, num resultado previsto, com a certeza do químico que, obediente às leis de proporcionalidade, combina os elementos para obter um determinado composto.


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