Prefácio do tradutor



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16. O direito à vida


Um rapaz de quinze anos compareceu no tribunal de menores de Cleveland, por ter furtado oito dólares.

– Que foi que te obrigou a furtar? perguntou-lhe o juiz.

– Não tenho pais nem pessoa nenhuma de família. Andava ao abandono pelas ruas, nu e esfomeado. Vi o dinheiro em cima do mostrador duma loja, onde entrei a pedir esmola, e tirei-o, porque tenho direito à vida.

– E quem te disse que tens direito à vida?

– Ouvi muitas vezes dizer nas reuniões socialistas que todos temos direito à vida; e então pensei que, em vez de morrer de fome, podia tirar os oito dólares para comprar qualquer coisa de comer.

Neste breve interrogatório se notam as conseqüências que na gente moça produz a errada interpretação de idéias e doutrinas, que propagandistas não sabem expor com a necessária ponderação para não desorientarem cérebros juvenis.

O ratoneiro de Cleveland julgava que a sociedade era obrigada a sustentá-lo, e, nesta mesma crença, vivem muitíssimos dos que se chamam deserdados, em cujo espírito vai fermentando a revolucionária idéia do terrorismo.

A quem se devem lançar as culpas da situação espantosamente crítica a que ficaram reduzidas todas as nacionalidades do mundo depois da guerra? Em todos os países e climas na Europa e na América, no Oriente e no Ocidente, na Ásia e na Oceania, se ouve atentamente o surdo rumor das ígneas correntes subterrâneas que, a espaços, fazem estremecer a crosta social do globo, ameaçando quebrá-la com tremendas convulsões, se não encontrarem uma cratera suficientemente ampla para a erupção.

A culpa desta violenta colisão entre a reação que reprime e a ação que impulsiona deve dividir-se em duas partes: uma, para os governantes que durante muitíssimos anos mantiveram os povo na ignorância dos seus direitos; e outra, para os demagogos que, na tribuna e na imprensa, os conservavam na ignorância dos seus deveres.

Sobre esta questão conversavam duas amigas, feministas entusiastas, embora uma delas fosse partidária dos processos de violência, à maneira de sufragista inglesa, e a outra se inclinasse mais aos processos ruidosos, com muitas manifestações estrondeantes, cheias de cartazes ironicamente sugestivos, muitos discursos e uma grande profusão de alocuções impressas às portas dos Parlamentos.

– Mas dize-me cá: porque estou eu neste mundo? Quem me trouxe cá? Eu não vim espontaneamente, porque, se me tivessem consultado se queria ou não vir, diria redondamente que não.

– Olha, isso são coisas muito transcendentes em que não nos devemos meter, para não darmos em malucas. Acredita no que te digo: não te metas em fantasias e encara as coisas como elas são, porque, se queres que sucedam como tu desejas e não como devem suceder, virias a arrepelar-te certamente, se visses o teu desejo realizado,

– Pois a mim não há quem me convença do contrário. Trouxeram-me ao mundo sem minha vontade e, portanto, nada devo ao mundo. Pelo contrário, o mundo é que me deve reconhecer o direito à vida.

No fundo, tens razão, mas falta-te discernimento para compreenderes em que consiste esse direito à vida, A cada passo ouves dizer a pessoas sensatas que todos temos direito à vida; que, quando o sol nasce, é para todos; que Deus castiga justos e pecadores; que não se deve deixar morrer ninguém de fome...

– É que todos somos iguais como irmãos, visto sermos filhos do mesmo Deus.

– E onde viste que sejam iguais os filhos dum mesmo pai? Um será louro, outro moreno; este terá os olhos pretos, aquele tem-nos azuis; uns serão bem feitos de corpo, outros desajeitados.

– Mas todos se sentarão à mesma mesa e comerão do mesmo pão. O pai não deixará morrer nenhum de fome.

– Pois aí tens, tu mesma, sem reparares, expões o verdadeiro sentido do direito à vida, porque, quando viemos ao mundo, sem querer saber porque viemos, donde viemos e para onde vamos, nascemos no seio duma família...

– Ou no desvão duma porta, onde te deixam abandonada como coisa inútil, dizendo: “Fica-te para aí”.

– E para que servem os hospícios?

– Para vergonha da civilização.

– Modera os teus ímpetos e não vás imaginar que sou um deputado antifeminista. Não é possível corrigir num século os erros de cem. Lá virá dia em que os hospitais, os asilos, os manicômios, as rodas e outros estabelecimentos de beneficência regulamentada sejam antiguidades tão curiosas como são hoje os hieróglifos egípcios ou os cilindros de Babilônia. Mas continuemos com o nosso ponto de vista, e deixemos lá as exceções e irregularidades. Quem a este mundo nos traz, embora não pareça que viemos por nossa vontade e conveniência, dá-nos uns pais que têm o dever de nos alimentar, de nos educar e de nos dar bons exemplos, como sempre ordenou a lei natural, muito antes da doutrina cristã o haver prescrito. No dever dos pais está o direito dos filhos à vida.

– Isso é muito bonito de dizer-se! E senão, vejamos. Cumprirão esse dever os pais que tenham mesa farta e o dinheiro suficiente para viver. Mas não há milhões de crianças a quem os pais vilmente exploram, apenas elas começam a falar e a andar, obrigando-as a um trabalho violento? Que espécie de direito à vida têm esses infelizes?

Dão ao mundo muitíssimo mais do que dele recebem.

– Esse também é um dos muitos males que certamente se hão-de remediar com o tempo. A nossa época, a esse respeito, está melhor do que antigamente, apesar dos ignorantes dizerem que vamos do mal a pior. Hoje em dia, as leis, harmonizando-se com os costumes, respeitam o direito que à vida têm os menores, tendo diminuído, em enormes proporções, o número das crianças condenadas pela cobiça paterna a um trabalho prematuro.

– Mas os abusos ainda se cometem.

– É que do dizer ao fazer vai muito. Uma coisa é fazer uma lei, e outra coisa é cumpri-la. Todavia, a consciência pública irá subindo de nível., até chegar a um ponto em que seja impossível a escravidão da infância.

– Isso há-de ser muito tarde.

– Estás enganada. O mundo marcha com movimento uniformemente acelerado, em progressão geométrica e não aritmética, de modo que, em cinqüenta anos, adianta hoje dez vezes mais do que dantes em dois séculos. Lembras-te da anedota do inventor do xadrez?

– Sabe Deus quem o teria inventado! Havia de ter sido um eminente matemático.

– Fosse quem fosse, que ao certo não se sabe, conta-se que o rei, admirado do invento, disse ao inventor que pedisse, como prêmio, o que quisesse. Ele respondeu que, visto o tabuleiro ter sessenta e quatro casas, se contentava com um grão de trigo pela primeira casa, dois pela segunda, quatro pela terceira, oito pela quarta, dezesseis pela quinta, e assim dobrando de cada vez os grãos da casa precedente até chegar à sessenta e quatro. O rei desatou a rir, pensando que era uma bagatela o que o inventor pedia, e disse logo que sim; mas ao fazer a conta quantos grãos de trigo supões tu que somavam as casas do tabuleiro?

– Uma conta enorme, eu sei lá quanto seria! Talvez não fosse menos de um milhão de grãos.

– Mais um pouco.

– Dois milhões?

– Mais um bocadito.

– Mil?


– Mais, mulher, mais.

– Então não sei quanto dá. Dize lá quanto foi.

– Não fiques assombrada nem deites a fugir. Dezoito trilhões, quatrocentos e quarenta e seis mil e setecentos bilhões de grãos de trigo. Se reduzires o trigo ao seu equivalente em dinheiro, calculando, pelo menos, sessenta escudos o hectolitro, dá a bagatela de quarenta e quatro bilhões, duzentos e setenta e dois mil e oitenta milhões de escudos. Já vês que não era nenhum parvo o inventor do xadrez, quando pediu esta quantia.

– É um absurdo! Ao pé desse pedinchão, qualquer multimilionário do nosso tempo não mais do que um liliputiano.

– Tudo o que te disse é salvo erro ou omissão. Não venha algum menino prodígio emendar-me o cálculo ou o preço do trigo.

– Mas que tem tudo isto que ver com o direito a vida?

– Não é o pão o nosso principal alimento, a ponto da sua falta dar origem a desordens e assaltos a padarias? Não é de trigo que se faz o pão? Pois, se o pão é o primeiro alimento da vida e o trigo a primeira matéria de que o pão é feito, não foi digressão impertinente misturar o trigo com o direito à vida. Outros o misturam com milho e passam por ser grandes pessoas.

– Ora! Não digas mais tolices e cinge-te ao assunto. Que entendes tu por direito à vida e que relação tem este direito com a vontade, com o querer e o poder?

– Falando seriamente e fora de mangação, dir-te-ei que o direito à vida consiste, a meu ver, em sustentar e educar, durante a sua menoridade, todo o indivíduo que nasce, de modo que vá desenvolvendo as suas faculdades e revelando as suas aptidões, para que, quando chegar à maioridade, seja senhor dos seus atos, sem perigo de cometer loucuras, e possa fazer o que quiser e souber, em harmonia com a lei fundamental da vida.

– Dessa forma, o direito à vida só prevalece durante a menoridade.

– Espera. A ninguém se hão-de negar os meios de dar à sua atividade um emprego útil. O mais eficaz é a educação recebida na infância; mas já na virilidade não deve haver privilégios, nem monopólios, nem foros, nem coisa que coarcte a livre atividade individual. O que um fizer, podem fazê-lo todos, contanto que satisfaçam as condições naturalmente exigidas pelo caráter da obra.

– Admitindo que todas essas belas coisas se passam realizar, que me dá o mundo em troca do meu trabalho? O indispensável, para não morrer de fome. Nós que não temos camarote de assinatura, lugar reservado no restaurante, voz nos comícios, nem automóvel de passeio, temos de comer para viver, viver para trabalhar e trabalhar para comer. Nem tu, nem todas as tuas filosofias serão capazes de me tirar deste círculo vicioso.

– Alto lá. O círculo vicioso será o do camarote, do restaurante, dos comícios e do automóvel dos que, pela manhã, fazem gala em servir a Deus e à noite são escravos de Mammon. O círculo de comer para viver, de viver para trabalhar e de trabalhar para comer é um círculo mais perfeito que o da verdadeira roda da fortuna. Na tua mão está trabalhar com prazer, viver satisfeita e comer com apetite. Que mais queres?

– O mesmo direito à vida que têm as outras.

– Coitada! O direito à verdadeira vida, a vida superior, ninguém to nega, nem to pode postergar. Depende de ti mesma, porque é natural, inalienável, imprescritível e ilegislável.

– Oh! que chuva de adjetivos!

– Que são verdadeiros substantivos.

– Mas nada substanciosos, se não derem de comer.

– Estás sempre a pensar na gamela, como os da vista baixa.

– Não comas e verás em que dão todas as tuas filosofias. Simplesmente em ossos.

– A minha filosofia é a filosofia da vida prática. Não a das cátedras a dois contos de ordenado por mês e com dez meses de férias por ano.

– Mas afinal que devo eu ao mundo?

– O trabalho que para ti tem feito toda a civilização através dos séculos. Tu estás colhendo tranqüilamente o fruto que as gerações passadas semearam a força de sacrifícios, de infortúnios, de perseguições e de trabalhos. Tens coragem para te defrontares com os mineiros do progresso humano e aproveitares-te dos benefícios do seu trabalho, sem lhes dares nada em troca? Quem não agradece comovidamente o bem que os antepassados fizeram ao mundo é um parasita da sociedade e um ladrão do trabalho alheio.

– Não é tanto assim, filha, não é tanto assim. Eu creio, pelo contrário, que esses progressos materiais que a ciência trouxe ao mundo vieram complicar a vida e dificultar o direito que todos deveríamos ter a ela, em vez de a simplificarem e difundirem o bem-estar entre todas as pessoas. Tu falaste no telégrafo, no telefone, nas estradas de ferro, nos aeroplanos, nos automóveis, na radiografia, na rádio-telegrafia, no cinematógrafo, nos comboios elétricos, no fonógrafo, eu sei lá! em todas essas maravilhas que a ciência descobriu. Mas o mundo dá-tas sem interesse? Dá-te essas coisas ao menos baratas? É o dás! Custam-te os olhos da cara e não as tens, quando mais urgentemente precisas delas. Vais à pressa e queres tomar um comboio? Passam todos já cheios de passageiros. Queres ir ao ultramar? Não tens bilhete de passagem. Precisas de telefonar com urgência? Está a linha impedida ou não responde chamada, talvez pela ligação estar mal feita. Convém-te transmitir pelo telégrafo uma notícia ou perguntar alguma coisa de que porventura possa depender o teu futuro? Tens de te encostar à boca do guichê e esperar três horas, para que o telegrama chegue no seu destino dois dias depois da carta que tiveres mandado. A civilização é como a cabeça dum busto: formosa, mas sem miolos. Podes acreditar. Melhor estava o patriarca Abraão sentado à porta da sua barraca, à sombra da figueira, do cicômoro ou do que quer que fosse.

– Que exageros tu dizes! Vês as coisas pelo seu lado tenebroso. Vê-as pelo seu aspecto luminoso e verás que tudo quanto existiu antes de ti faz parte da tua vida e da tua época. Gozas da soma de todos os momentos passados no tempo e de todos os instantes decorridos no espaço. Lembra-te dos rios de sangue vertido pelos antepassados, dos milhares de mártires que morreram no meio de tormentos ou se extinguiram dentro das masmorras, para comprarem com as suas vidas a liberdade do pensamento, da palavra e da ação de que hoje gozas.

– Protesto!

– Contra quê?

– Contra o que acabas de dizer. Para que me vens falar em liberdade de pensamento, de palavra e de ação e doutras futilidades, quando, sem lei votada no Parlamento, me têm suspendido as garantias constitucionais, durante anos inteiros, e até trazem beleguins a vigiarem-me os passos? O que te digo é que nos tempos da tão odiada Inquisição se publicavam livros com frases que a censura hoje cortaria nos jornais.

– Em compensação, podes tu e outras como tu, discutir e barafustar, sem que ninguém vos ponha uma mordaça, nem vos corte a língua ou vos ampute a mão, como na Inglaterra medieval.

– Isso é o que tu querias.

– Não tenho tão mau coração como supões.

– Parabéns, e em conclusão te digo, sem receio de que me desmintas, que nem os sábios com a sua ciência, nem os santos com a sua virtude foram capazes de melhorar o mundo, de modo que as condições econômicas e sociais valorizassem o direito à vida, mesmo segundo a tua opinião. Falta ainda qualquer coisa que vibre nas entranhas virgens do futuro. Falta a justiça distributiva que dê a cada um o que lhe pertence e merece, segundo a sua capacidade, e o coloque no lugar onde perfeitamente contribua com a sua ação para o harmônico funcionamento do organismo social.




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