Prefácio do tradutor



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14. Dinheiro e trabalho


Será um lugar comum afirmar que o dinheiro é um mau dono e um bom escravo. Mas como precisamente o que parece lugar comum aos eruditos e intelectuais de alta escola é o que mais convém repetir, para que, como a água na pedra, entre no espírito de toda a gente, vale bem a pena arrastar as iras dos críticos detratores e mostrar, a quem disso não esteja ainda convencido, que o dinheiro é coisa que a ninguém desagrada, nem mesmo aos que, por fazerem voto de pobreza individual, possuem fabulosas riquezas coletivas.

Não são estas páginas lugar apropriado para considerar o dinheiro no seu sentido econômico, mas como o meio material de poder realizar o que queremos e sabemos fazer.

Tal como está organizada a sociedade, na sua atual etapa de civilização – que não é a última nem a melhor – é indispensável o dinheiro não só para a obscura vida cotidiana, mas talvez ainda, com maior exigência, para tentar e realizar qualquer empreendimento em benefício do progresso humano.

Todavia, isto não significa que quem queira e saiba produzir alguma coisa de verdadeira utilidade, quem conceba novas idéias, novos processos de trabalho, novos inventos, cuja exploração prometa lucros regulares, segundo o cálculo de probabilidades, tenha de pessoalmente estar na posse do dinheiro necessário para dar realização prática à sua nova descoberta. Sabe que o encontrará nos cofres alheios, porque o dinheiro está sempre à espera de rendosa aplicação, e cada uma das suas moedas pode considerar-se como uma semente que, bem lançada, se reproduza, mais ou menos abundantemente, na colheita.

O dinheiro, por si só, nada vale. Precisa do coeficiente do trabalho para ter algum valor, enquanto o trabalho só por si vale o que não vale o dinheiro. O ouro, a prata, o níquel e o cobre, com que se cunham as moedas que constituem o dinheiro, têm intrinsecamente o valor que a sua utilidade como metais e não como moedas lhes pode dar, quando convenha aplicá-las às necessidades artificiais da vida. Mas, se esta necessidade não sobrevém, nem como metais nem como moedas têm o menor valor.

Suponhamos um navio açoitado pela tempestade, com o leme partido, a bússola desconjuntada, as máquinas avariadas, sem a mais pequena parcela de mantimentos, mas com cem caixas cheias de barras de ouro e outras tantas de moedas do mesmo metal. Os passageiros, pela sua parte, levam as carteiras e os bolsos recheados de dinheiro e de notas do Banco. De que lhes serviria todo aquele ouro, que seria uma enorme riqueza em terra firme e civilizada? Apesar de toda a sua fortuna, morreriam certamente de fome naquela conjuntura. Mas um dos passageiros, que é hábil mecânico, familiarizado com os maquinismos marítimos e com muita vocação para coisas de arte, oferece-se ao capitão para remediar uma situação tão arriscada. Com as ferramentas e instrumentos de bordo, ajudado pelos tripulantes que o capitão põe às suas ordens, enquanto o resto da marinhagem, dirigida pelos oficiais, luta denodadamente com a tempestade, o passageiro conserta o leme, compõe a bússola, põe as máquinas a funcionar, e o seu talento e trabalho salvam a nau, conduzindo-a a bom porto, onde o dinheiro recupera o autêntico valor que perdeu durante o sinistro que esteve iminente.

Este mesmo pensamento exprime Daniel de Foe, quando o seu herói Robinson encontra, após o naufrágio, entre os restos do desmantelado navio, trinta e seis libras em ouro com algumas outras moedas, exclamando:

Oh! vaidade das vaidades! Oh! metal impostor! De que me serves? Para mim nada vales, e não quero dar-me ao incômodo de me abaixar para te guardar. Um destes cutelos vale para mim muito mais do que todos os tesouros de Creso. Não preciso de ti. Fica-te para aí, ou será melhor que te atire para o Fundo do mar como objeto indigno de ver a luz do dia.

Mas Robinson é homem civilizado e não pode deixar de ressentir-se dos erros e preconceitos da civilização. Muda de parecer depois destas apóstrofes e, quase sem querer, embrulha as moedas num bocado de pano e leva-as para a sua ilha deserta. Deixa, porém, ficar a um canto aquele miserável tesouro, que lhe parecia tão inútil como um bocado de lama, e diz:

Com que prazer eu daria um punhado desse ouro em troca duma mó para pisar o meu trigo! Daria tudo por um punhado de ervilhas e uma garrafa de tinta. Na minha situação, não podia tirar a menor vantagem daquelas moedas que a umidade da cova oxidava dentro da caixa em que estavam enterradas. E, se, em vez de moedas, eu tivesse possuído diamantes, também não faria caso deles.

Nos meios urbanos, porém, o dinheiro é como uma locomotiva sobre os carris ou como um pato na água. Está no seu elemento e tem uma força prodigiosa, embora não onipotente. Muitíssimas coisas alcança o dinheiro no intercâmbio comercial; mas há outras que muitos milhões não são capazes de conseguir nos intercâmbios intelectual e moral. Não se compra o talento, nem a formosura, nem a virtude, nem a ciência, embora se saiba comprar, nos centros de palestra, falsas reputações de virtude, talento e formosura, ou, nos clubes acadêmicos diplomas, inculcando ciência.

O dinheiro honradamente adquirido é o denominador comum do trabalho; e, como conseqüência deste, converte-se, por acumulação, em meio material de iniciar novas empresas laboriosas. o dinheiro está para o trabalho como a máquina para a produção. A máquina aumenta e desenvolve a produção, mas não é a produção em si. E, assim como para obter o máximo rendimento de qualquer instrumento de trabalho é indispensável conhecê-lo e saber lidar acertadamente com ele, assim também é preciso conhecer o valor relativo do dinheiro e lidar com ele habilmente, para que não se arvore em nosso dono, devendo ser nosso escravo.

Este valor positivo que o dinheiro eventualmente possui na vida material é causa de aqueles que fazem alarde de desprezar os bens terrenos, se esfalfarem por o obter a todo o custo. Parece que os que têm mais obrigação de escutar e cumprir o que Cristo disse no célebre sermão da montanha fazem ouvidos de mercador a este conselho:

Não queirais amontoar para vós tesouros na terra, onde a ferrugem e a traça os consomem e donde os ladrões os desenterram e roubam. Mas amontoai para vós tesouros no céu, onde não os consomem a ferrugem nem a traça e donde os não desenterram nem roubam os ladrões.

Contra este conselho vemos o acervo colossal de tesouros amontoados por velhacaria, astúcia, dolo, vigarismo e captação de vontades em todo o mundo civilizado, sem distinção de categoria plutocrática. Mas cá temos outra vez os nossos dois interlocutores, que estão mortos por meter colherada no assunto. Dizem eles:

– A que propósito vem essa citação evangélica, se precisamente o país onde a Bíblia está mais vulgarizada é no país dos multimilionários e dos caçadores do dólar?

– Temo-la outra vez travada. Aposto tudo quanto há em como não vais fazer reclamo mercantilista dos industriais norte-americanos, que adornam os seus produtos duma forma berrante, para os venderem como maravilhosa panacéia sem valor real.

– Tu antecipas-te aos meus raciocínios. Eu não queria ir tão longe. Só queria fazer-te notar que essa psicologia utilitária, ou como lhe queiras chamar, que excita nos jovens a ambição do dinheiro, parece-me ser uma coisa funesta,

– Vamos a entender-nos. Desde o momento em que vós, os que censurais esses estímulos, classificando-os de loucura, não perdeis ocasião de amealhar um escudo que seja, parece-me lícito excitar os moços ao trabalho honrado, como único meio de alcançar o verdadeiro êxito da vida. Ora este não consiste em amontoar milhões, isto é, em acumular tesouros para vós, mas em saber distribuir as riquezas materiais, de modo que, sem prejuízo da satisfação das necessidades pessoais, dêem impulso ao progresso da humanidade.

– Ah! meu amigo, como é difícil o que dizes! Para página de literatura estimulante está mesmo a calhar. Mas quem é capaz de tanta abnegação na prática da vida?

– Pois, sem ir mais longe, aí tens o exemplo dos homens que das minas do trabalho extraíram, com o seu esforço pessoal, o dinheiro que generosamente espalharam, como semente fecunda, a partir das culminâncias do êxito, onde se elevaram.

– E quem são esses melros brancos?

– Os que fizeram o que nunca serão capazes de fazer os corvos negros.

– A quem queres atingir com essa insídia?

– A quem se interponha na trajetória. Santa Tereza, com todo o seu misticismo, chamava corvos aos carmelitas calçados, e hoje é nada menos que doutora.

– E a que propósito vem isso?

– A propósito do que quiseres. Mas vamos ao nosso caso. Aí tens Carnegie que, espontaneamente, faz entrega de duzentos milhões de dólares para fundar bibliotecas, colégios, escolas, institutos, pensões e outras obras de verdadeira e indiscutível beneficência. Temos Rockefeller, o fundador do Instituto Médico, com o fim humanitário de que as investigações a que nele se procedessem conseguissem, com o tempo, descobrir novos processos terapêuticos em benefício de todo o gênero humano.

– Mas, na minha opinião, quando tu e os teus partidários aconselham os jovens a manterem firmemente o seu ideal, esse ideal não é o da virtude nem da santidade, mas sim o da riqueza ou bem-estar temporal.

– Estás redondamente enganado. As riquezas materiais devem ser consideradas um estímulo prudentemente alentador, só como meio e nunca como fim da nossa existência. Nós diremos aos moços: O êxito não tem segredos para o homem laborioso, para o que sabe alternar o trabalho com o descanso e com o recreio; que dá ao corpo tudo quanto ele necessita, mas não tudo quanto ele pede. Nas mãos do ocioso egoísta, o dinheiro, sem trabalho, é uma maldição. O dinheiro, em poder do homem trabalhador e prudente, é a suprema bênção da fortuna. O êxito só exige trabalho assíduo, entusiasmo pelo nosso labor, domínio das paixões e conhecimento daquilo com que lidamos. Muitos ricos de hoje nasceram na pobreza e não improvisaram fortunas ao sinistro ardor duma guerra fratricida; pelo contrário, apesar da sua limitada educação, trabalharam heroicamente e aproveitaram todas as ocasiões que lhes proporcionaram as contingências do seu modo de vida, para progredirem no seu trabalho consciente e honesto. O homem, além da natural aptidão para o trabalho que empreender, precisa de ter energia, perseverança e discernimento para vencer nas lutas da vida. Não deve perder nunca a equanimidade. Nem os elogios o devem ensoberbecer, nem os vitupérios o hão-de humilhar. Deve manter-se sempre austero de princípios e confiado em que nada sucede ao acaso, que tudo está sujeito a leis, embora ainda não tenhamos investigado inteiramente a antiqüíssima e, contudo, sempre novíssima compilação do eterno Legislador.

– Não desgosto de ouvir o que dizes, embora me pareça ter mais brilho que solidez. E qualquer coisa assim como uma enfiada de pérolas lapidadas.

– Não te digo isto só a ti. Quisera que me ouvissem os milhões de criaturas moças que entendem a minha língua, pois lhes diria mais isto: Não vos aflijais nunca por falta de dinheiro, enquanto tiverdes na vossa mente os tesouros do talento e no vosso coração o tesouro inestimável da bondade. Muitos benfeitores do gênero humano lutaram desesperadamente durante largos anos com a pobreza e a miséria, até que, como prêmio da sua constância, encontraram um protetor, um Mecenas, que lhes proporcionou os meios materiais de produzirem um invento que os livrasse dalguma obra fatigante e lhes aliviasse as duras condições do trabalho.

– Mas não é o trabalho um suplício, um castigo, uma maldição de Deus?

– O suplício, o castigo e a maldição é a ociosidade. Infeliz do que não sabe em que empregar o tempo! O aborrecimento, o tédio e o desespero são o fruto amargo da sua indolência.

– Não o contesto. Mas também não me contestarás que há trabalhos duros e ingratos que, se o não são, parecem castigo de Deus.

– Parece-te isso, porque tens uma idéia antiquada do que é o trabalho. Repara e verás como a resistência que se opõe ao nosso esforço robustece a vontade, aviva o entendimento e estimula a nossa atividade até a vencer.

– De tudo quanto dizes, tiro a conclusão de que as riquezas bem adquiridas só podem ser fruto do trabalho. O doutor Pero Grullo não diria mais a tal respeito.

– Zomba à vontade, que muitas verdades perogrullescas não penetraram ainda no bestunto dos eruditos que presumem de sábios nem no cérebro dos estadistas. Nota que é muitíssimo mais difícil saber aplicar o dinheiro do que ganhá-lo. Para o ganhar, basta trabalhar com firmeza e entusiasmo em obras que estejam de harmonia com as nossas aptidões. Basta querer e saber, para poder trabalhar. Por outro lado, a conveniente aplicação do dinheiro exige que nos desviemos dos escolhos da avareza e da prodigalidade.


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