Prefácio do tradutor


Originalidade, imitação e extravagância



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13. Originalidade, imitação e extravagância


– Olha cá, dize-me com a máxima franqueza: qual é a cabeça que pode admitir que os milhões de criaturas novas, que estão à espera de entrar no campo da vida, ocupem todas o lugar de honra e até mesmo os primeiros lugares?

– E quem admite semelhante coisa?

– Tu e os propagandistas do modernismo pedagógico, tão prejudicial, a meu ver, como o religioso e o poético. Julgam vocês que, com meia dúzia de livros, brilhantes na forma, mas pobres nas idéias, vão converter todos os recém-nascidos em multimilionários e prendê-los à roda da Fortuna.

– Cala-te, meu amigo, não digas mais. Gato escondido com o rabo à mostra. Pelo que dizes, quer-me parecer que és pessimista, desses que vêem tudo negro, como se estivessem toda a vida num subterrâneo, e chamam louco otimismo às vozes de incitamento, aos hinos de ressurreição, que despertam a consciência de toda a gente do letargo em que, durante tantos séculos, a conservou o meimendro da superstição e a dormideira do fanatismo!

– Ih! O que aí vai! Já disparaste a artilharia pesada. Superstição e fanatismo! Às vezes que certos lábios, tão fanáticos como supersticiosos, têm repetido estas duas palavras!

– Não é agora a ocasião de mostrar-te que infelizmente não são palavras vãs. Mas, em compensação, os teus amigos e camaradas são mestres no manejo do sofisma e na terrível arte da calúnia. Qualificando de dogmas infalíveis os absurdos mais extravagantes, e de disparates os mais lógicos raciocínios, resolveram todos os problemas metafísicos e conhecem Deus e os seus desígnios tão belamente como se tivessem ajudado a construir o universo. O seu lema é este: Só nós é que somos bons, só nós e mais ninguém. Mesmo que um distinto escritor publique um livro com licença de quem tem autoridade apostólica para lha conceder, logo se revolta contra ele, e por conseguinte contra a autoridade da sua própria grei, qualquer inconsciente com fumos de pedagogo, para cujo bestunto velhaco é pernicioso e demolidor tudo quanto não saia da sua pena venenosa.

– O que vai aí! Isso é que é bolsar toda a bílis.

– Limito-me a exercer o direito da defesa própria.

– Pois demos por acabada a defesa do assunto e vamos ao que mais nos importa. Dizia eu que, na minha opinião, não é tão eficaz como parece essa literatura que estimula a juventude, porque quem tenha nascido com as qualidades e circunstâncias pessoais que o êxito requer, há-de prová-las, quando chegue a ocasião, sem necessidade de excitação alheia, assim como o rouxinol canta sem ter mestre que o ensine. Além disso, tens-me dito várias vezes que cada um de nós veio ao mundo com um fim determinado; e, sendo assim, de pouco há-de servir a um jovem saber o que fez tal prócere da indústria, da ciência ou do comércio, porque não lhe será possível fazer o mesmo que ele fez.

– À primeira vista parece que tens carradas de razão, mas nota que não dizemos aos moços: inventa outro telefone, como Graham Bell; outro fonógrafo, como Edison; descobre novos jazigos de cobre, como Guggenheim; faze o que outros fizeram. Nada disso. A pena do autor de obras de estímulo para a juventude deve ser espora da vontade e acicate da consciência, para que o jovem fique na perfeita e plena posse da sua verdadeira individualidade e ponha em ação as suas próprias forças e não as do seu semelhante.

Dessa maneira, é fácil acabar por nos entendermos.

– Como nos entenderíamos sempre com todos, se o preconceito e o nominalismo não obcecassem a mente. Às vezes, estamos discutindo horas e horas, não porque as idéias se não harmonizem, mas porque cada adversário dá um significado diferente à palavra que predomina no tema da discussão.

– Muito bem. Mias não te afastes a caminho da garganta do Colorado, que deve seduzir-te mais do que os cerros de Úbeda.

– Não te dê cuidado, que cá estou outra vez no teu campo.

– Pois eu, se não me engano, creio que a originalidade é condição indispensável para o êxito, entendendo-se por êxito não o interesse estreitamente material representado pelo dinheiro, mas o interesse material aliado ao bem moral.

– Está claro. O êxito não se pode imitar e muito menos arremedar-se. Há-de ser uma força original, uma criação individual. Quanto mais um indivíduo se esforçar por ser aquilo que não é, tanto mais se arrisca a fracassar no seu propósito.

– Por enquanto, estamos de acordo. Talvez mais adiante se parta algum anel da nossa cadeia de raciocínios.

– Não faltará ferreiro que o solde na forja do senso comum.

– Não te parece que o querer e o poder provém do nosso foro íntimo? Não te parece que ninguém é capaz de acrescentar um dine à nossa energia, nem um milímetro à nossa estatura?

– É preciso que nos entendamos. As nossas forças físicas, mentais e morais não podem crescer por justaposição ou de fora para dentro. O que podem é receber do exterior, por meio de conselhos, advertências e prevenções, o estímulo, a excitação que nos leve ao desenvolvimento das nossas forcas interiores.

– É preciso, porém, seguir o conselho com muito cuidado, para que o estímulo, por exagero, não venha a induzir um erro.

– Sem dúvida. Mas não me parece que haja conselheiro da juventude capaz de a alucinar com teorias opostas à realidade da vida.

– Pois há tal. Há os que, enfatuadamente, garantem que basta ter confiança própria para vencer todos os obstáculos que interceptam o caminho do êxito e que põem o indivíduo em comunicação com as imensas reservas do universo, que ninguém viu.

– Alto aí. Esse argumento não colhe. Se tu não viste as reservas do universo é motivo para afirmares que ninguém as tenha visto com os olhos da intuição, com os benditos olhos espirituais dos Santos Padres? És como um míope que se lembrasse de dizer que ninguém via mais ao longe do que ele.

– Ora adeus, meu amigo! Nem que tivesses no lugar dos olhos um par de telescópios.

– Não era preciso tanto, porque há coisas que, de tão axiomáticas, se vêem sem ser preciso olhar para elas. Epíteto diz, e muito bem, que, quando alguém nega verdades evidentes por si mesmo é impossível achar raciocínio suficientemente sólido para o convencer a mudar de opinião. Com que então ninguém viu ainda as reservas que o universo encerra? Mas também ainda ninguém viu Deus e intuitivamente cremos que Ele existe.

– Isso cheira-me a neoplatonismo, gnosticismo ou coisa deste gênero. Em resumo, é uma heresia como tantas que já se têm dito.

– Ah! Ah! Ah! Para vós outros é heresia o que vos não cabe no bestunto. Pois aí tens nada menos que o autor do Apocalipse, que, na sua primeira epístola, diz que “Deus nunca foi visto por ninguém”.

– Não sei que hei-de responder-te, sendo a citação exata como suponho. Mas vem cá, e dize-me se não é para fazer aquecer o topete a um rapaz, tão estúpido como vaidoso, dizer-lhe que, se tem confiança em si próprio, poderá, querendo, realizar milagres em todos os gêneros de atividade. O pobre rapaz atira-se a uma empresa superior às suas forças e acontece-lhe o mesmo que aconteceu àquele homem que, seguindo pelo meio dos carris duma via férrea, sentiu vir atrás de si o comboio. Como o maquinista não deixasse de apitar, avisando-o de que se afastasse da via, olhou para trás, exclamando com ar de confiança em si próprio: “Apita, apita, que és tu e não eu quem se há-de afastar!...”

– Estás a desviar o assunto para outro lado, já vejo. Com certeza tens lido esses folhetos caluniadores que mentem descaradamente, por não dizerem toda a verdade. Não há ninguém que, discorrendo prudentemente, seja capaz de dizer que a fé no próprio indivíduo seja suficiente para triunfar em qualquer empresa que se tente. O que digo e repito é que a confiança própria é uma de tantas condições necessárias, mas não suficientes, para conquistar o êxito. E, exaltando eu a importância da confiança própria, é óbvio, por já o ter dito, que deve ser acompanhada das outras condições também necessárias, mas não bastantes só por si para triunfar. O que revela má.fé é escolher parágrafos truncados de várias obras, para erguer sobre elas um castelo de sofismas, que se desfaz ao ler-se a obra em conjunto.

– Não contesto. Mas nota que, se atribuis, por exemplo, os êxitos de Napoleão à sua incansável laboriosidade, à sua firmeza de intenções, à sua previsão dos pormenores mais insignificantes e não ao seu privilegiado talento estratégico, abstraís da verdadeira razão dos seus triunfos, pois, sem o talento estratégico, nem a sua laboriosidade, nem a sua confiança própria o teria. feito senhor da Europa.

– Sem dares por isso, pensas a este respeito exatamente como eu. Já te disse que o êxito, seja em que empresa for, exige várias condições, todas elas necessárias, mas nenhuma suficiente só por si. O mesmo exemplo de Napoleão o confirma, pois, por muito grande e privilegiado que fosse o seu talento estratégico, de nada lhe teria servido, sem a laboriosidade, previsão, confiança e outras condições exigidas pelo êxito. Todos nós conhecemos homens de muitíssimo talento natural e cultivado, dum talento quase genial, que o deixam atrofiar por lhes faltar as outras características do homem perfeito, entre elas a vontade. Todos dizemos: "Que pena! Um homem com um talento como tem! Mas é tão indolente! É pena deixar-se embrutecer com o álcool!” De que serve o talento e o gênio a homens assim? Mas há os erros do parcialismo dos que vêem os defeitos dos outros e não reparam nos seus. Antes de tirarmos o argueiro do olho do vizinho, é necessário tirarmos a trave do nosso; mas há pessoas que, em vez duma, têm um jogo de traves sobre os olhos.

– Creio que uns e outros tendes razão, cada qual debaixo do seu ponto de vista e segundo a cor do vidro das suas lunetas, por prejudicar ou não o seu íris.

– Um íris de paz é que nos faz falta.

– Pois, pela minha parte, não há motivo para criarmos inimizades, embora, às vezes, possamos divergir de opinião.

– E eu digo-te que, na essência, estamos todos do mesmo parecer. E agora já tens o tema da originalidade, da imitação e da extravagância.

– A boas horas!

– Como a boas horas?

– Sim, homem, depois de tanto palavreado, só agora é que acordas.

– Nunca é tarde para quem tem sempre tempo de sobra. A originalidade consiste em ser o que realmente se é, em proceder de conformidade com a sua idiossincrasia mental e em harmonia com as leis da vida. Tu imaginas que o mundo chegou ao máximo da perfeição?

– Nem por sombras.

– Pois então deves concordar comigo em que toda a profissão, todo o ofício, toda a arte e negócio são susceptíveis de aperfeiçoamento. O mundo precisa de quem queira, saiba e possa fazer as coisas por novos e melhores processos.

– Neste mundo, não há nada novo.

– É isso verdade, se por novo entendes o que a mente humana nunca concebeu e o que não teve precursores nem pretendentes. Mas eu aqui quero significar por novo a renovação e melhoramento do que é velho. É a justa relação entre o ontem e o hoje que dão lugar ao amanhã. É a discreta harmonia entre a tradição e o progresso, entre o que foi e o que continuamente está sendo.

– E a imitação?

– A imitação não é mais nem menos do que a originalidade atenuada, isto é, a assimilação mais conveniente daquilo que outros, por sua vez, assimilaram e beberam noutras fontes. Não confundas a imitação com o arremedo nem com o plágio. Na imitação, há algo de personalidade própria e, portanto, louvável. No arremedo, há servilismo, e no plágio, há roubo. Por isso, eu não diria nunca às pessoas moças: “Sede como Napoleão, ou Carnegie, ou S. Francisco de Assis, ou Gladstone, ou Santa Tereza ... ”

– Oh! que salsada meu Deus, que estás a fazer! É uma baralhada de nomes que não se entende! Olha que um baralho onde todas as cartas são ases é um baralho que não serve para nada.

– Perfeitamente; mas nota que não estou a baralhar, estou a enumerar. E, apesar de não soar bem a ouvidos profanos o nome de Carnegie com o do Serafim de Assis, e o de Gladstone com o de Santa Tereza, quem sabe examinar através do invólucro corpóreo vê, na suprema unidade da sua origem divina, o espírito de todos os seres e a alma de todas as coisas.

– Deixa-te de mais sentenças, meu caro, senão acaba esta palestra num verdadeiro chinfrim.

– Põe de parte todo o pensamento hostil e harmoniza-te com as coisas finitas e com as infinitas.

– Também misturas a metafísica com as matemáticas?

– Deixa-te de ironias e terminemos por afirmar que não digo aos jovens que sejam diferentes do que são, mas que, em circunstâncias análogas, se conduzam como esses heróicos personagens a que me referi. Que tomem a sua vida, não como modelo para arremedar, mas como exemplo de conduta com o qual devem rivalizar, sem nunca perderem as características da própria personalidade. E, se estas características têm por si só sobrada energia, então talvez abram novos caminhos à atividade e desviem, num sentido mais fecundo, os canais por onde corre o pensamento humano.

“Quem não atingir os acumes da originalidade também poderá fazer uma digna obra pessoal, imitando, sem arremedo, os seus antepassados, pois as idéias são como os raios de luz que tomam a cor do meio que atravessam. Diz o famoso literato e crítico espanhol Valera que não há autor nenhum notável de quem, com um pouco de trabalho e paciência, se não possam tirar centenas de frases ou sentenças copiadas doutros autores; e que é dificílimo, ou quase impossível, tirar dum autor, por original que seja, por muito raro e peregrino que se mostre em pensamentos, estilo e linguagem cem frases de verdadeira e completa originalidade”. Virgílio copiou Homero e Teócrito; Gongora e Garcilaso copiaram Virgílio; Frei Luiz de Leão copiou Horácio e Petrarca; Espronceda copiou Lord Byron; André Chénier, o criador da moderna lírica francesa, imita Horácio, Homero, Eurípedes, Juvenal, Ésquilo e Racine.

– E que entendes por extravagância?

– O desejo ardente de querer parecer original sem condições para o ser. O vão receio de parecer imitador ou plagiário e que afasta os extravagantes dos caminhos trilhados, sem terem talento nem forças para abrir outros novos. Conheces o modernismo poético, o dadaísmo literário e o cubismo pictural? Pois aí tens a extravagância?

– Em resumo: segundo o teu critério, temos de seguir os passos das gerações passadas. O culto dos antepassados! Não é isso? À maneira dos chineses.

– Não é bem assim homem. Não interpretes mal o meu pensamento. O que em conclusão te digo é que quem produzir alguma coisa de novo e de valor – nota bem: que tenha valor – poderá esbarrar a princípio com a resistência dos misoneistas, com a hostilidade dos incompetentes e com o desdém dos intolerantes; mas, se teimar no empenho de beneficiar o mundo, o mundo acabará por escutá-lo e aplaudi-lo.



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