Prefácio do tradutor



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12. Satisfação interior


Não confundamos a satisfação interior com o prazer egoísta do indivíduo que materialmente resolveu o problema da vida sem se preocupar com o bem-estar alheio. Estes são os epicuristas e os devassos, sem a mais leve sombra do sentimento de confraternização humana, descaridosos, individualistas que, por terem agenciado riquezas, talvez por meios condenáveis, julgam intangível a organização social, supondo que estamos no melhor dos mundos possíveis. O seu panglóssico otimismo é incapaz de fazer o menor esforço pelo melhoramento dumas condições sociais em que egoistamente se comprazem.

A satisfação interior de que tratamos é semelhante à tranqüilidade de consciência, que não conhece o remorso, porque de nada tem que se acusar na sua vida passada, e chegou a suficiente elevação de nível moral para reconhecer que nada tem de que se arrepender no futuro.

Mas quem pode orgulhar-se de ser impecável? Quem está isento de culpa, de erro, ou de remorso? Se para responder a estas perguntas consultarmos a divina lei que regula as ações humanas, ela nos dirá que o justo peca sete vezes ao dia e que ninguém pode permanecer de fronte erguida na presença de Deus.

Todavia, não podemos andar a farejar nas consciências individuais nem insinuar-nos no pensamento alheio para investigar das intimidades de cada um, pois só devemos tratar aqui de equívocos, erros ou extravios de procedimento em que costumamos incorrer com mais freqüência do que convém à nossa prosperidade. Se umas vezes são transgressões da lei moral, outras vezes não vão além de passos em falso ou quedas que nada têm que ver com a lei divina, embora sejam graves obstáculos para o êxito material da vida.

Quando, por exemplo, um comerciante faz o que em linguagem profissional se chama uma má compra, ou quando, por imprevisão, tem de vender em ruinosas condições os gêneros existentes, não transgride nenhum mandamento da lei de Deus, mas, em compensação, a operação infeliz, o inêxito sofrido, deixa-lhe na consciência um remorso tão torturante como se tivesse cometido uma má ação. Não está interiormente satisfeito. O desastre havido no negócio deixa-o um tanto ou quanto irritado. Invade-o o receio de tornar a enganar-se; e, se não faz das fraquezas forças, mobilizando as que sempre há em reserva no íntimo da alma, por mais solitária e desmantelada que nos pareça, arrisca-se a cair no desânimo, que é o mesmo que cair em definitivo inêxito.

A falta de satisfação interior de tranqüilidade como a que nos dá a consciência cívica e profissional, subordinada à consciência moral, é um grave obstáculo da vontade que, diminuindo a energia do nosso querer, diminui também as probabilidades do nosso poder. Todavia, não é obstáculo invencível, porque não há nada no mundo que, com tempo e trabalho, se não renda aos homens de boa e enérgica vontade, em harmonia com a vontade de Deus.

Às vezes, o inêxito é o indispensável preliminar do êxito. Para quem não possua em grau suficiente as virtudes cardeais de prudência e fortaleza, o inêxito será um rude golpe para lhe aturdir os sentidos, para lhe fazer perder a cabeça e o levar a cometer mil disparates, que darão em resultado agravar ainda mais a sua situação.

Mas o indivíduo que é prudente, vê no inêxito um aviso providencial, uma lição onde há muito que aprender e, em vez de se desesperar e, como vulgarmente se diz, ficar levado de todos os demônios, imobiliza-se numa serena reflexão sobre as causas do inêxito, medita sobre o remédio que lhe pode dar e, depois de refletir e meditar pacientemente, toma uma resolução, fazendo desaparecer da sua mente todo o pensamento de tédio e pessimismo. Apesar do desgosto que naturalmente lhe produz o inêxito, tem a satisfação interior de haver empregado todos os meios e realizado todos os esforços que lhe foram possíveis para conquistar o êxito.

Conhecidas pela reflexão as causas do inêxito, trata imediatamente de as eliminar, antes de voltar à atividade, e depois se atira ardentemente ao trabalho, confiando então no êxito.

Uma prova infalível de que o homem não está satisfeito consigo mesmo é a timidez, assim como a arrogância o convence a ter-se na conta de valer muito mais do que realmente vale. A timidez é um obstáculo muito maior do que a arrogância, porque, para abrir caminho na sociedade, vale mais o excesso do que o defeito de confiança própria, em que respectivamente consistem a arrogância e a timidez, que não deve confundir-se com a modéstia.

Do tímido ninguém faz caso, nem é possível entregar-lhe cargos de confiança, porque mal pode confiar-se em quem começa por não confiar em si próprio nem ter aquela satisfação interior que deriva do caráter íntegro, próprio de quem se conhece a si mesmo.

Não há maior elogio para um homem do que dizer-se dele com justiça que é imaculado na sua vida profissional, que não prostituiu o seu talento nem vendeu a sua pena, que não colocou mercenariamente a sua palavra e o seu braço ao serviço doutrem, nem abjurou das suas crenças políticas ou religiosas para medrar rapidamente no campo oposto.

A satisfação interior é um vivo engodo, um poderoso estímulo para o trabalho diário, podendo torná-la ainda maior, se adquirirmos o hábito de examinar a nossa consciência todas as noites antes de adormecermos, rememorando tudo quanto pensamos, dissemos e fizemos durante o dia, para vermos em que é que a nossa consciência se sente satisfeita ou descontente, e para tomarmos a firme deliberação de não dar curso aos motivos que nos desviaram do verdadeiro caminho. Então, ficará a consciência tranqüila, e a satisfação interior resultante desta tranqüilidade restabelecerá no dia seguinte as nossas forças mentais e anímicas para continuarmos, sem desfalecimento, a marcha pelo caminho do êxito.

Todavia, não caiamos no erro de acreditar que a satisfação interior significa, da parte do homem, uma desnecessidade de se esforçar pelo aperfeiçoamento cada vez maior do seu caráter e de desejar a conquista de novos e superiores ideais, só pelo fato de se sentir imensamente satisfeito consigo mesmo. Isto equivaleria a uma paralização de energias e a um quietismo, incompatíveis com a lei universal de evolução. Há-de estar satisfeito pelo que realizou até então; não pelas obras em si, que nunca deve considerar perfeitas, mas porque nunca fez derramar lágrimas a ninguém por culpa sua, nem deixou o rastro duma ação desonesta, coisa alguma capaz de manchar a reputação do verdadeiro homem de bem.

Não é difícil encontrar quem se distinga na desempenho da sua profissão; mas já não se encontra facilmente quem, sobretudo, seja homem no significado amplo desta palavra, e cuja nome seja sinônimo de integridade de caráter, preferindo a perda da fortuna à apostasia e à traição.

Mui para temer é a incompatibilidade entre o conceito que dum homem forma o íntimo critério da consciência e o que dele fazem as pessoas que, julgando pelas aparências, não o conhecem intimamente.

Quando não há a satisfação interior, é bem triste viver à duvidosa luz da popularidade, ver-se invejado pelas suas riquezas ou pelo seu prestígio, ser considerado publicamente um homem justo e honrado; e, contudo, ter a convicção íntima de não ser realmente como os outros o apreciam, e viver em permanente receio de ser desmascarado por algum incidente imprevisto, que o apresente aos olhos de toda a gente na sua mais completa e repugnante miséria moral.

Mas a quem vive sem necessidade de encobrir os seus atos e sem receio de que lhe descubram na sua conduta alguma coisa que o envergonhe, nada pode suceder que sobremaneira o prejudique. A sua vida é clara, pura e transparente. Tudo quanto faz em segredo é tão digno e honrado como se publicamente o tivesse feito. Está interiormente satisfeito, porque sabe que, embora perdesse a última relíquia da sua fortuna material, o seu verdadeiro ser, o seu Eu superior, em nada se sente prejudicado. Se dedicou os seus esforços à vida pública, há-de ter um monumento no coração das pessoas honradas, na simpatia e na admiração da posteridade.

Talvez por atavismo do seu sangue puritano, os presidentes dos Estados Unidos – desde Washington, seguido de Lincoln, Garfield, Roosevelt e Wilson, até chegar a Harding – foram, para glória da república, modelos de honradez política e probidade administrativa, deixando de parte os erros em que alguns deles puderam incorrer como estadistas.

A memória de Lincoln mantém-se, de geração para geração, mais viva entre os seus concidadãos, apesar da corrupção dos tempos, porque nunca traficou com a sua reputação nem prostituiu o seu talento.

Atraídos os litigantes pela fama que Lincoln adquirira no exercício da advocacia, quando nem sequer sonhava na presidência da república, acudiam ao seu escritório, suplicando-lhe que tomasse conta da defesa dos seus pleitos.

Mas a primeira coisa que Lincoln fazia era examinar a questão no seu aspecto jurídico, e, se via que o cliente tinha razão, não tinha dúvida em aceitar o encargo sem receber um único centavo a título de honorários, até ganhar a questão do seu constituinte. Por muito tentadoras que fossem as ofertas, nunca Lincoln tomou a defesa duma causa injusta que lhe teria agenciado, só num dia, emolumentos muito mais avultados do que os que lhe rendia a sua profissão em todo o ano.

Significa isto que só Lincoln tinha sido capaz de desempenhar tão austeramente o exercício da advocacia? De modo nenhum. Em todos os países civilizados, há certamente jurisconsultos de absoluta probidade, incapazes de descerem ao nível degradante de mendigarem pleitos e de defenderem causas iníquas em matéria civil, porque em matéria criminal não há delinqüente que, oficiosamente, e por compaixão ao menos, não mereça defesa para apresentar ante o tribunal as circunstâncias atenuantes ou suavizar os agravantes do delito.

Por outro lado, a satisfação interior nem sempre é legítima, porque depende do grau de evolução da consciência, e, quando não é legítima, também não pode ser duradoura, pois, quando a consciência sobe de nível um grau, manifesta-se subitamente o remorso que transforma a satisfação em desgosto.

Enquanto a consciência se mantém adormecida e estacionária, pode o homem sentir satisfação interior por atos, cuja intrínseca imoralidade descobriria, se elevasse a sua consciência um só grau que fosse. Apresentemos um exemplo.

Infelizmente para a cavalheirosa Espanha, predominam entre os seus políticos, com rótulo de estadistas, os advogados de profissão, cujo rendimento excede em muito o ordenado dum ministro. Mas, como a administração da Justiça é, na Espanha. escrava submissa do Governo ou poder executivo, apesar dos hipócritas pruridos de independência, sucede que, quando um político com banca de advogado faz parte dos conselhos da Coroa, fecha o escritório que funciona em seu nome para quase sempre o abrir ocultamente, sob a direção dum outro colega que se vai encarregando das questões da advocacia. Todavia, ambos se sentem satisfeitos, parecendo-lhes que o fato de iludirem as aparências nada tem de pecaminoso. A sua consciência não chegou ainda ao necessário grau de elevação, para que lhes repugnem as combinações secretas que, adentro duma aparente honestidade, asseguram a marcha dos negócios forenses, que vão correndo num escritório supostamente fechado, como corre o rio Guadiana, oculto à vista do viandante, pelo subsolo do seu leito.

Também se sentem muito satisfeitos os políticos, que, por atraso na evolução da sua consciência, acham perfeitamente compatíveis as funções ministeriais do poder executivo com os encargos de gerente de companhias monopolizadoras, e o cargo de conselheiro do Estado com o de conselheiro das companhias ferroviárias. Procuram coonestar a compatibilidade, dizendo que nada há nem pode haver de imoral nesse fato, desde que exerçam honradamente os seus cargos.

Mas os que assim argumentam não reparam que caem numa flagrante contradição, fechando os seus escritórios de advogado, enquanto desempenham o cargo de ministro, porque, segundo o seu critério, também deveria ser perfeitamente compatível o exercício da advocacia com o das funções ministeriais, enquanto desempenhassem um e outras honradamente.

E, contudo, isto é que é o mais difícil, não porque os políticos sejam capazes de perturbar a satisfação interior da sua consciência, prevaricando, mas porque a incompatibilidade está na índole oposta dos interesses gerais do país, representados pelo ministro, e dos interesses particulares da empresa ou companhia, representados pelo mesmo ministro. Como pode haver, em tão antagônicas condições, legítima e duradoura satisfação interior?

Vejamos o exemplo de Teodoro Roosevelt. Desde muito moço, prometeu a si próprio não manchar nunca o seu nome com atos aviltantes nem abandonar os seus ideais, por muito que esse abandono lhe assegurasse uma grande fortuna. Queria manter puro o título de nobreza dos seus antecedentes, custasse o que custasse, quer fosse avante a sua empresa, quer pudesse abortar. A sua primeira aspiração foi ser homem, antes de mais nada. Nos princípios da sua carreira política, teve muitíssimas ocasiões de adquirir rapidamente uma avultada fortuna, conchavando-se com os usurários sem escrúpulos, que se servem da política para capa das suas falcatruas. Nunca, porém, quis seguir estes condenáveis processos. Preferiu recusar um emprego a ter de manchar a sua reputação para o obter. Sabia muito bem que o seu procedimento austero lhe havia de acarretar muitas inimizades, mas deliberou conseguir que os seus próprios inimigos o respeitassem pela sua integridade de caráter ou, pelo menos, que não tivessem motivo nem pretexto para o difamar.

Nos nossos dias, precisa o mundo de homens que anteponham a satisfação interior da sua elevada consciência às adulações da inconstante popularidade; que façam consistir como alvo das suas aspirações o cumprimento do dever e o amor pela verdade, e para este ideal caminhem sempre em linha reta, embora, como sucedeu a Cristo na solidão do deserto, possa haver quem os tente a imperar no mundo.

Mas ninguém se sente tão intimamente satisfeito no seu interior como quem consegue vencer-se a si mesmo, e nas críticas circunstâncias em que periga a sua existência se sobrepõe às excitações da sua natureza animal.

Quando a formidável greve revolucionária, que nos Estados Unidos estabeleceu o reinado do terror, estava no seu maior incremento, sucedendo-se sangrentas colisões entre grevistas e trabalhistas, um anarquista russo entrou violentamente no gabinete do opulento industrial Henrique Clay Frick disparando quatro tiros que o feriram gravemente. Ao ruído das detonações, acudiram os empregados da oficina que quiseram imediatamente linchar o agressor. Mas Frick disse-lhes imperativamente: “Não o matem”.

Por felicidade, os ferimentos não eram mortais; e, logo depois de restabelecido, perguntou a Frick um dos seus íntimos amigos:

– Que pensamentos se cruzaram no teu cérebro quando viste o anarquista a agredir-te?

– Estava tão sereno como estou neste momento. Quando o anarquista me apontou à cabeça e disparou a arma, vi a minha querida filha, que morreu o ano passado, tão clara e distintamente junto de mim, como se estivesse viva. A sua presença era tão real e corpórea que não pensei em defender-me da agressão e estendi os braços para a imagem querida. Quando entrou o pessoal da casa, desapareceu a visão e senti um desejo ardente de que não fizessem o menor mal ao assassino. Gozava eu interiormente, apesar dos meus ferimentos, uma satisfação tão íntima que todas as riquezas deste mundo pareciam não ter para mim o valor mais insignificante.



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