Prefácio do tradutor


O possível e o impossível



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11. O possível e o impossível


Se conhecêssemos todas as leis da natureza e no universo não houvesse segredos para nós, poderíamos, com absoluta certeza, estabelecer distinção entre o possível e o impossível; mas, como ainda ignoramos muito mais do que sabemos, a possibilidade e a impossibilidade são termos relacionados subjetivamente com o grau de evolução de cada indivíduo e segundo a mentalidade da época e do país que se considere. O que para uns é possível, para outros é impossível.

Ainda hoje mesmo se perguntássemos a um selvagem dos que ignoram as maravilhas da civilização moderna, se seria possível atrair o raio, de maneira que não atingisse as árvores da sua propriedade, as choças da sua povoação e as reses do seu rebanho, com certeza nos fitaria assombrado, perguntando-nos com o olhar se teríamos enlouquecido. A mesma incredulidade se lhe refletiria no semblante, se nós lhe garantíssemos que lhe seria possível falar com quem estivesse a mil quilômetros de distância, ou voar pelos ares como as águias e os condores, ou ainda ir num carro sem que fosse preciso qualquer animal a puxar. Para o selvagem são impossíveis as coisas de cuja possibilidade a experiência convenceu há anos o habitante dos países civilizados.

Os obcecados juizes de Galileu e os rotineiros detratores de Colombo estavam convencidos da impossibilidade de que a terra fosse redonda. Ainda não há dez anos houve ilustres homens de ciência que colocavam a direção dos globos aerostáticos no mesmo plano de impossibilidade que a quadratura do círculo e o moto-contínuo. Outros não menos notáveis cientistas afirmavam, sob palavra de honra, que o problema da aviação era insolúvel, se, para o resolver, não fosse adotado, sobretudo como princípio o fato de se escolher um corpo mais pesado do que o ar, contra a opinião dos que só julgavam possível resolvê-lo, admitindo como princípio a escolha dum corpo menos pesado do que o ar. A realidade, que com os seus fatos, está acima de todos os discursos que se lhe opõem, demonstrou a possibilidade de resolver o problema em ambos os sentidos.

Os inventores penetraram com o seu olhar perspicaz na alma das coisas, e viram na subtilíssima esfera da sua mente superior a possibilidade do fato impossível para as mentes vulgares.

Quando vemos nos circos e palcos os exercícios de força e destreza dos acrobatas, parecem-nos duma dificuldade insuperável, e com certeza os consideraríamos impossíveis, se os ouvíssemos, em lugar de os vermos trabalhar. Mas a impossibilidade está no espectador, e assim mesmo duma maneira relativa, não absoluta, porque, se há quem só acredite vendo, também se dedicasse tempo, vontade e paciência ao demorado exercício da mesma habilidade acrobática, acabaria por vencer as dificuldades em que a princípio esbarrara.

A uma criança de pouca idade será impossível levantar um peso de cem quilos apenas com a alavanca do seu braço; mas, se essa mesma criança se for acostumando a levantar pesos em série progressiva, cujos limites correspondam ao gradual robustecimento muscular, chegará a tempo de, em plena virilidade, levantar o peso de cem quilos que em criança lhe foi impossível levantar.

A operação aritmética chamada divisão será impossível para uma criança de tenra idade, a não ser que se trate dum desses prodígios comparáveis aos fogos fátuos. Mas essa mesma criança será amanhã o Descartes ou o Newton que dê novas possibilidades de progresso nas ciências exatas.

Pois, o que acontece sob o ponto de vista físico e intelectual, sucede também sob o ponto de vista puramente psíquico, demonstrando-nos novamente a interdependências das três faculdades superiores do homem: vontade, sabedoria e atividade.

Para a vontade que começa a manifestar-se, e que apenas desponta como cotilédone de semente recém nascida, são impossíveis os empreendimentos vulgares que as vontades já robustecidas realizam sem grande dificuldade da vida diária. Não obstante, estas vontades de robustez medíocre não ousarão lançar-se a empreendimentos que necessariamente lhes hão-de parecer impossíveis, por serem superiores às suas forças. Se estas forças irão fossem susceptíveis de desenvolvimento, então a impossibilidade seria neles absoluta; mas, como são forças psíquicas e espirituais, sem outra limitação além do organismo corporal, por meio do qual se manifestam, é naturalmente possível desenvolvê-las até ao limite de elasticidade marcado pelas condições do cérebro físico. Uma vez desenvolvidas essas forças, a vontade será capaz de realizar o que considerava impossível, quando ainda se não achava suficientemente fortalecida.

Para os técnicos militares era impossível atravessar os Alpes. A vontade de Napoleão demonstrou praticamente a possibilidade dessa travessia.

Vejamos o que diz um historiador que relata outro episódio dos feitos do grande capitão, cuja memória foi celebrada por uns e denegrida por outros, por ocasião do centenário da sua morte:

Revistava o imperador as suas tropas no planalto de Chamartin, próximo de Madri quando recebeu a notícia de que os ingleses se achavam na estrada de Burgos, com manifesto propósito de cortar as comunicações com a França. Napoleão ordena o desfile das tropas para os seus aboletamentos e marcha a galope para a sua residência de Chamartin, palácio do duque do Infantado. Consulta o mapa, dá instruções aos seus generais e a 20 de dezembro inicia a marcha à frente dum poderoso exército em demanda dos ingleses, em quem reconhece o seu mais formidável inimigo.

Na abrupta encosta de Guadarrama, são os soldados do exército imperial surpreendidos e furiosamente açoitados por uma tempestade de vento, neve e granizo, que os cega de todo, impedindo-lhes a marcha. Napoleão desmonta do cavalo, enterra na cabeça o chapéu característico, abotoa o capote cinzento, trava do braço do marechal Lannes e, como meio século depois fez Brim nos Castillejos, coloca-se à frente das tropas, sem se preocupar se é ou não seguido por elas, e grita com voz imperiosa: “Avançar! Avançar!” E dá o exemplo, enterrando as botas na neve regelante, sem retroceder na subida da alcantilada encosta.

Soldados e oficiais murmuram e proferem surdas maldições contra aquele pertinaz lutador que, não satisfeito com vencer os homens, desafia os elementos. Naquela noite bivaca o exército sobre a neve, e no dia seguinte, serenada a tempestade, quando, iluminado pelo sol de Espanha, Napoleão aparece a cavalo no acampamento, as tropas atacam-no freneticamente e com maior entusiasmo ainda os que, na tarde anterior, julgaram impossível a travessia de Guadarrama.

Corria o ano de 1830. Acabava de desabar em França o trono de Carlos X, e no de Inglaterra sentava-se pela primeira vez Guilherme IV, aconselhado por um governo conservador, presidido pelo duque de Wellington, a quem a história escrita pelos homens atribui a derrota de Napoleão em Waterloo, embora, segundo a verdadeira história tivesse sido obra exclusiva da Providência, que regula o destino das nações.

Aberto o Parlamento a 2 de novembro de 1830, aludiu Guilherme IV no discurso da Coroa às revoluções do exterior e às perturbações internas, dizendo que lamentava umas e saberia reprimir outras.

A causa das perturbações internas foi a aspiração do povo por uma reforma da lei eleitoral que, tal como estava, representava um sarcasmo do regime parlamentar, pois havia cidades importantes, como Manchester, Birmingham e Leeds, que não tinham direito a eleger deputados, enquanto cinqüenta e seis vilórios, de população inferior a duas mil almas, tinham o direito iníquo de eleger cada um deles dois deputados.

Lord Grey, chefe da oposição liberal, declarou ao discutir-se o discurso da Coroa:

Consta-nos que temos o perigo à porta, que a tempestade ruge no horizonte e que o furacão se aproxima. Aconselham-nos a que fortifiquemos as nossas casas e que tranquemos as portas; mas, senhores, a melhor maneira de o conseguir consiste em conquistardes a simpatia dos vossos concidadãos e reparardes os seus agravos, reformando o parlamento.

Respondeu Wellington a lord Grey, qualificando de insensata, inútil e impossível a reforma ambicionada pela oposição liberal; e, contudo, o tempo havia de demonstrar a sir Artur Wellesley que aqueles epítetos, ditados por um espírito doutrinário, não eram tão oportunos como a chegada de Blücher ao campo de Waterloo.

A opinião pública manifestou-se na Inglaterra com tão formidável impulso de vontade nacional que, quando após várias crises, Wellington tornou a formar governo com o plano exclusivo de enfrentar os perigos duma revolução, por não querer consentir na reforma eleitoral, convenceu-se de que, se triunfara do grande conquistador, lutando com armas iguais às dele e auxiliado pela Providência, era impotente para resistir a uma nação inteira, invulneravelmente armada de razão, justiça e vontade.

Então o monarca entendeu que os deveres de magistrado supremo da nação lhe exigiam o respeito pela vontade nacional de que dimanava a sua soberania, e, confiando de novo a lord Grey a presidência do governo, consentiu em nomear um número suficiente de pares e, com o seu apoio e o abstencionismo dos intransigentes, aprovou-se definitivamente a lei eleitoral de 4 de junho de 1832.

A insensata, inútil e impossível reforma transformara-se, devido à vontade, ao querer coletivo, em lei sensata, útil e possível, cujos efeitos contribuíram enormemente para o esplendor da era vitoriana. A Inglaterra pôs em ação, naquela epopéia da vontade nacional, todas as suas forças interiores, e venceu na luta, porque a vontade dum povo é sempre a vontade de Deus.

Os técnicos militares europeus julgavam impossível que os Estados Unidos pusessem no teatro ocidental da guerra os milhões de homens que a comprometida situação dos aliados reclamava para a derrota da Alemanha. E o auxílio norte-americano foi tão possível como decisivo para o triunfo,

Quando Carlos Schwab se encarregou da direção das fundições Carnegie, notou que um dos fornos não dava o rendimento correspondente â sua capacidade produtiva. Chamou o mestre fundidor e disse-lhe:

– Parece-me que esse forno poderia produzir mais lingotes diariamente entre o turno do dia e o da noite.

– É impossível, senhor Schwab. Experimentei todos os meios possíveis para conseguir maior produção, mas os operários garantem que não podem fazer mais do que fazem.

– Quantas fornadas produz o turno do dia?

– Seis.


– Está bem.

No dia seguinte, enquanto os fundidores trabalhavam no forno, passou por ali Schwab com ar indiferente e, como quem já se não lembra, fez-lhes a mesma pergunta que fizera ao mestre fundidor:

– Quantas fornadas tiram por dia?

– Seis. Não é possível tirar mais.

Schwab pegou num bocado de gesso e traçou no chão um enorme “6”, afastando-se em seguida sem dizer uma palavra.

Quando chegou o turno da noite, perguntaram os operários o que significava aquele “6” tão grande escrito no chão. O capataz do forno respondeu;

– É que o burguês esteve aqui esta manhã e perguntou-nos quantas fornadas fazíamos; dissemos-lhe que eram seis e ele escreveu este algarismo com gesso.

Na manhã seguinte apareceu escrito um “7” em vez dum “6”.

O turno do dia, ferido no seu amor-próprio, não quis que o da noite lhe passasse a dianteira, e ao anoitecer viu Schwab escrito no solo um enorme “10” . Ao quarto dia o forno havia duplicado a produção. O que era impossível foi possível sem necessidade de estímulos, ameaças ou repreensões. A emulação acudiu secretamente em auxílio da vontade.

De todos estes exemplos se infere que a impossibilidade não está nas coisas a cuja realização se não oponham as leis naturais, mas na nossa inferioridade física, intelectual e moral em relação a essas coisas. À medida que formos intensificando e robustecendo, pela educação e pela experiência, as forças interiores e eliminando do nosso caráter os vícios que atrasem ou estorvem o seu desenvolvimento, assim se alargará o campo dos nossos meios de ação e será muito menor o número de coisas que consideremos impossíveis.

As leis da dinâmica atuam no mundo moral como no mundo material. Uma força maior vence outra menor. A máquina não é mais do que o meio pelo qual facilitamos a ação das forças. Assim, quando as nossas potências anímicas são menores que a resistência oposta, expressa em dificuldades, obstáculos e inconvenientes da obra em projeto, ou quando esta obra está em oposição às leis da natureza, seria temeridade empreendê-la. Os gigantes inventados pela fantasia converter-se-iam, ao choque da lança da realidade, em moinhos de vento, e os exércitos em rebanhos de carneiros.

Daqui a importância capital das funções mentais no discernimento da possibilidade ou impossibilidade duma empresa, não em si mesma, mas com relação às nossas forças individuais. A mente é a máquina que facilita a aplicação das faculdades do espírito aos objetos que têm de ser conhecidos. Mas o primeiro objeto que a mente tem de conhecer deve ser o da sua própria essência.



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