Prefácio do tradutor



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10. Vontade e decisão


Diz lá, Miguel, perguntava na escola o professor ao aluno mais adiantado. – Que é preciso para que a água passe ao estado de vapor?

– É preciso ferver.

– E a quantos graus de calor ferve a água?

– A cem graus.

– Sempre?

– Não, senhor. É conforme a pressão do ar. Se taparmos a caldeira, a água ferverá mais depressa do que deixando-a destapada.

– Bem. Suponhamos que ferve a cem graus. Não poderia ferver a trinta?

– Não senhor. Tem de ser a cem, porque se fosse a menos, não ferveria nem se converteria em vapor capaz de mover uma máquina ou arrastar um comboio. A água morna não produz vapor na caldeira nem é capaz de mover a máquina.

– Perfeitamente. Agora vamos tirar a moral desta lição, embora não seja uma fábula. Há muitas pessoas que querem mover com água morna o comboio da sua vida e ficam muito admiradas de ele não andar. Querem que a água da sua caldeira ferva só a trinta graus de calor e não compreendem o motivo por que ela não ferve. A mornidão das obras dum homem está, a respeito do êxito, na mesma relação que a água morna a respeito da caldeira do locomotiva. Atendei bem ao que eu digo e nunca vos esqueçais: Nunca podereis fazer nada de notável neste mundo, se não puserdes no vosso trabalho todas as potências da vossa alma e todos os sentidos do vosso corpo. De pouco vos servirá o querer, se não tiverdes decisão para o transformar em poder.

Assim falou o professor sobre o assunto, um pouco mais discretamente do que Zaratustra, e todos os que escutaram as suas palavras e as recordam ainda, confirmam-nas com os seus atos, porque tudo quanto fazem é com a firme decisão de o fazerem melhor ou, pelo menos, tão bem como outrem poderia fazê-lo. Não se consideram essencialmente inferiores aos seus competidores profissionais, e se, acaso algum os ultrapassa, redobram de esforços para lhe passarem adiante.

Não basta o desejo ardente de realizar algo de proveitoso. É preciso tomar a resolução de sair da massa anônima com toda a energia do nosso ser. Todos manifestam o seu querer, mas só as mentes vigorosas e as vontades enérgicas o transformam em poder. Para essas, não se limita o querer ao simples desejo ou à simples aspiração. Os que passam a vida a dizer eternamente: Deus queira que suceda isto! Deus queira que suceda aquilo! São como martelos a baterem sempre na bigorna e sem nunca acabarem de percutir o ferro.

Do desejo à ação vai uma distância tão grande como do dizer ao fazer, e essa distância só pode vencer-se por meio do esforço da vontade a que chamamos decisão. Sem ela, nunca ferverá a água da energia que deve pôr em andamento o comboio da vida.

O homem de ânimo vigoroso e de firme decisão utiliza a sua vontade como uma força positiva e criadora, e dedica-se especialmente ao seu trabalho, concentrando nele, qual espelho ustório, os caloríficos raios do seu entusiasmo. Não é possível dedicarmo-nos a uma obra que não tenha despertado o nosso interesse, nem provocado o nosso entusiasmo.

Todos devemos considerar a nossa profissão como o artista considera a sua obra-prima, isto é, como uma manifestação da sua individualidade em que ele se compraz com nobre orgulho e em que sente uma satisfação tão íntima que mais coisa alguma lhe poderia proporcionar.

Sobre este assunto, conversavam, há pouco tempo, dois estudantes ainda jovens, um deles de caráter volúvel, desses que nunca estão bem em parte nenhuma e que só acham prazer nas casas alheias, e outro muito mais refletido do que lhe permitia a sua pouca idade. Diziam assim:

– Parece-me que errei a vocação. A carreira de engenheiro é muito complicada e eu não supus que ela exigisse tantas matemáticas. Gostava mais da carreira médica.

– O que me parece é que começas vinte carreiras e não achas nenhuma. Tens medo das matemáticas? Pois também te hão-de assustar a anatomia e a terapêutica.

– Estás enganado. São matérias que, em se aprendendo de cor e em se encarreirando no exame, já não metem medo.

– És muito parvo! Vês as coisas muito por alto, sem as examinares profundamente com a sonda da intuição. Sem querer melindrar-te, dir-te-ei que, estejas onde estiveres, tens sempre a impressão de que não estás bem, porque desanimas ao primeiro obstáculo, vês enormes dificuldades nas coisas mais simples e estás melhor nas casas alheias do que na tua.

– Isso não é bem assim como dizes. Se pensares maduramente, hás-de reconhecer que uma pessoa, quando sente vontade de mudar de posição, é porque não se acha bem naquela em que está. Se alguém abraça a profissão para que nasceu, há-de identificar-se com ela de tal maneira que fique gravada em todos os átomos do seu ser. Não terá desejos de a abandonar. Tê-la-á em tanta consideração como os seus próprios olhos, e senti-la-á mais junto de si do que as pulsações do seu coração e o ar dos seus pulmões.

– Deste agora em psicólogo.

– É que me vi ao espelho da minha consciência.

– Como te achaste?

– Como se acharia a maior parte dos rapazes da minha época, isto é, da minha geração, se se vissem ao mesmo espelho: muito mal educados e pior dirigidos.

– Mas já não estás em idade de precisar de andadeiras.

– Nem tão pouco as quero. O que lamento é que, quando precisei delas, mas pusessem ao contrário para agora não saber dar um passo para a frente.

– Como amigo, vou dar-te um conselho. Começaste a carreira de engenheiro? Estás já no segundo ano? Pois aplica-te a ela com inquebrantável decisão. Distribui o tempo o melhor possível, de modo que dediques umas certas horas ao trabalho, ao recreio e ao descanso. Não deixes nunca para amanhã o que puderes fazer hoje, nem te envergonhes de perguntar o que ignorares e te convenha saber. Por outro lado, envergonha-te sempre de perguntar o que não te diga respeito. As matemáticas metem-te medo? São o papão dos indolentes e o espantalho das mentes estouvadas.

– Muito obrigado pelas honras que me fazes.

– Não te ofendas, que é impessoal a maneira como falo. Quero eu dizer que o estudo das matemáticas parece coisa invencível para quem vê as coisas mais pequenas com lentes de grande aumento. Tudo é questão de método didático, disciplina mental e decisão da vontade, Compreendendo tu bem os princípios, facilmente levantarás sobre esses alicerces o edifício de toda a matemática. Não andes a cada passo a mudar de rumo, porque, andando nessa roda viva, acabarás por ficar cego do entendimento.

– Isso mesmo que tu dizes, ou coisa semelhante, já eu li nalguns livros de estímulo para a juventude; mas que queres? Acho muito difícil o que chamam auto-educação. Enquanto a argila está mole, pode o oleiro dar à sua vasilha a forma que quiser. Se fizer bem, aproveita-se a vasilha; mas se errar, como lhe há-de dar outra forma se a argila já está dura? O único remédio que tem é parti-la e aproveitar os cacos para os refundir noutra vasilha da forma que a experiência aconselhou,

– Vamos lá, que não está de todo mau o símile que, por sinal, me lembro de ter lido em não sei que obra da literatura oriental. Mas isso é o menos, porque ninguém tem privilégio de invenção das idéias, por muito suas que lhe pareçam e por muito reservadas que estejam nos registros de propriedade intelectual. O que importa ao nosso caso é que te decidas duma vez para sempre e que não olhes para trás como a mulher de Lot. Lembra-te do que o preclaro engenho de Lope de Vega disse três séculos antes de nascer Emerson, o pai da moderna literatura renovadora, embora haja quem por sua conta, mas sem razão, atribua a outro escritor a paternidade desta frase: “No caminho da vida, quem não avança, recua; e o que começa um trabalho não há-de olhar para trás, deve continuar e seguir para a frente”. Que te parece?

– Que não há nada novo em roda do sol nem mesmo no próprio sol.

– De acordo.

Quem não seguir sempre na linha rata a caminho da suprema finalidade da sua vida, não fará dela a magnífica obra que poderia fazer, se concentrasse na realização do seu propósito toda a sua decidida vontade.

Mas não esqueçamos que o propósito há-de reunir determinadas condições, para que a sua realização conduza ao bom êxito. Em primeiro lugar, há-de ser o que vulgar e propriamente se chama um propósito honesto, isto é, não deve ir de encontro às naturais leis da vida nem lesar os direitos e interesses legítimos do próximo. Por errado caminho andaria quem pensasse em enriquecer a todo o custo e só se guiasse pelo procedimento dos homens que, indigentes em pequenos, se elevaram, por decisão do seu firme querer, à opulentíssima virilidade.

Se todos os jovens, sem distinção de raça, de nacionalidade, de sexo e de religião, todos os que dentro de vinte anos hão-de administrar cidades e governar nações, dirigir estabelecimentos comerciais e abrir novos mananciais de riqueza pública, pudessem ouvir a voz de quem sincera e desinteressadamente lhes fala, com o pensamento na humanidade, eu dir-lhes-ia:

“Não imaginem que estes conselhos, estas insinuações, advertências e estímulos são com o fim de despertar em vós a ambição de riquezas materiais. O dinheiro é um meio, um instrumento; mas não é com certeza o fim nem a atividade da vida. A lei divina é tão sábia e tão profunda que até dos males extrai os bens, como a abelha que converte em mel o néctar das plantas adstringentes. Se o dinheiro só se pudesse obter pelo honrado esforço do trabalho, a riqueza material seria sinônima de riqueza moral; mas, como as atuais condições econômicas e sociais dão largas ensanchas à astúcia, à fraude, à usura, ao roubo, à velhacaria e à má fé, com aparências de cavalheirismo, fidalguia e religiosidade, não haveis de ficar a olhar para os milhões que um ou outro prócere do negócio acumulou ao cabo dalguns anos. Ao que deveis atender, porque tal é o objeto destas lições e exemplos, é aos meios de que se valeram e aos recursos que esses homens empregaram para triunfar dos obstáculos e seguir pelo caminho da vida, sem nunca se deterem.”

Na verdade, o dinheiro é como a polpa ou mesocarpo em que está introduzido o sumo das frutas. Espremido o sumo, fica apenas a inútil celulose. Portanto, o que importa para o êxito da vida não é o dinheiro, mas as qualidades de caráter criadas e desenvolvidas pelo exercício constante, originado pelo esforço necessário para ganhar dinheiro à custa do trabalho.

Embora seja colossal a fortuna monetária, de nada absolutamente ela serve ao homem na outra vida, porque, quando a morte vem, espreme-lhe o sumo e deixa-lhe ficar a inútil celulose. Em compensação, as suas características individuais, as faculdades e qualidades do espírito, do seu verdadeiro ser, são o sumo do fruto da vida, e nunca podem perder o grau de magnitude e intensidade que alcançaram, mediante os esforços realizados durante a sua existência terrena.

Tudo isto se realiza deste modo, se foi nobre o seu intuito, honrada a sua decisão, e se não se acolheu ao imoral aforismo que diz que o fim justifica os meios. Mas se, obcecado pela cobiça, não teve outro fito senão acumular dinheiro, por meios ilícitos, para satisfazer ruins desejos, então, em vez de aperfeiçoar, corrompeu o seu caráter, despertou péssimas qualidades, e o seu êxito aparente, sob o ponto de vista mundano, redundou, em última análise, num tremendo fiasco. Se por um lado perdeu, com a vida física, a riqueza material, por outro, deixou de desenvolver as boas qualidades que teriam enriquecido perpetuamente o seu verdadeiro ser.

Carlos Miguel Schwab, o valiosíssimo colaborador de Carnegie, que confessa dever-lhe em grande parte a sua fortuna, começou a sua carreira trabalhando como jornaleiro nas fundições do então futuro rei do aço, e pouco a pouco chegou a ser diretor da Oficina Técnica, com o inverossímil ordenado de um milhão de dólares por ano, garantido por um contrato.

Quando se organizou o sindicato da maioria de fundições de aço dos Estados Unidos, com o título de United States Steel Corporation, a Companhia Carnegie, em que Schwab prestava os seus serviços, foi absorvida pela nova entidade industrial, cujo presidente, J. P. Morgan, contraía a obrigação de pagar ao diretor técnico o ordenado de um milhão de dólares.

A Morgan pareceu exorbitante a quantia estipulada no contrato, pois o ordenado maior de que tinha conhecimento na sua vida de negociante era de 100 mil dólares. Não sabia Morgan o que havia de fazer, pois, se tal ordenado lhe parecia semelhar-se a uma dotação de príncipe herdeiro, não queria em todo o caso prescindir dos valiosos serviços de Schwab no recém-nascido Sindicato. Chamou-o ao seu gabinete para tratar do assunto e disse-lhe:

– Olhe, meu amigo, o Sindicato ainda está em princípio e não sabemos se irá avante e se progredirá. Temos que caminhar muito devagar. O senhor, em virtude dum contrato, tem direito ao ordenado anual de um milhão de dólares. Embora este ordenado me pareça exorbitante, não teremos outro remédio senão dar-lho, se o senhor insistir em fazer valer o seu direito. O contrato original está aqui. Na sua opinião, que havemos de fazer?

– Simplesmente isto. Deixe-me ver o contrato. Vê-o aqui? Pois então... faz-se assim.

E rasgando-o em muitos pedaços, acrescentou

– Eu não me importo com o ordenado que os senhores me possam dar. Não é o dinheiro que me impele ao trabalho. Tenho fé no meu propósito e estou decidido a realizá-lo. Rasguei o contrato sem um momento de hesitação.

Morgan foi logo contar a Carnegie a ação magnânima de Schwab. E Carnegie exclamou:

– Dos homens que conheço é Carlos o único capaz dum ato tão heróico.

E imediatamente o premiou com um milhão de dólares em ações do Sindicato.

Nunca teve tão clara demonstração a verdade de que Deus, por cada esmola que recebe, dá cem. A ação nobilitante de Schwab valeu-lhe mil ações do Sindicato.

É claro que, se não se importasse com a situação da nova empresa, que podia periclitar no seu primeiro ano de existência, Schwab exigiria o cumprimento do que se achava estipulado no contrato e teria intensificado o abominável sentimento da cobiça, perdendo o ensejo de tornar mais vigoroso o sentimento oposto da generosidade. Além disso, quando expirasse o prazo marcado, também poderia perder o ordenado que até ali recebia.

Nada ambicionando, conseguiu tudo. Se tudo ambicionasse, tudo poderia perder.


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