Prefácio do tradutor


Responsabilidade e energia



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9. Responsabilidade e energia


Cá temos outra vez em campo os nossos amigos desconhecidos, que cavaqueiam com a sua habitual cordialidade. A conversação é bastante animada, mas sem cair na discussão violenta, como costuma suceder, quando os adversários estão de antemão resolvidos a não se deixarem vencer nem a convencer.

Eis, em síntese, o que eles disseram:

– Já viste alguma vez um torpedo?

–Vivo, não.

­– Como assim? Queres talvez dizer carregado.

– Torpedo só vi o do gabinete de história natural que havia no colégio. E, por sinal, que estava muito bem dissecado.

– Que diacho de trapalhada é essa? Um torpedo dissecado? Ora deixa-te de disparates, que não ficam bem a ninguém e muito menos a ti, digo-to sem ofensa.

– Mas eu estou a falar sério! Um torpedo dissecado, repito. Não sabes o que é um torpedo?

Então não sei, homem?! Já tive alguns na minha mão.

– Estou a ver que não nos entendemos. Aí tens o motivo por que às vezes duas criaturas estão discutindo três horas sobre uma palavra, que cada uma interpreta a seu modo, por não terem antecipadamente compreendido o sentido em que deve ser tomada. Eu referia-me ao peixe que é da família do tubarão e da raia e a que, por entorpecer as suas vítimas com descargas elétricas, os naturalistas chamaram torpedo. E tu falas da pequena mas terrível arma submarina a que, por analogia com o peixe do mesmo nome, os engenheiros navais também chamaram torpedo.

– Estamos então entendidos!

– Agora podes começar pelo que ias a dizer.

– Pois bem. Torno a perguntar-te: já viste algum torpedo dos que não são peixes?

– Felizmente, ainda não. Instrumentos de morte nem vê-los.

– Põe de parte a sua aplicação destruidora e repara que um torpedo de maximite tem oculta uma energia poderosíssima para afundar uma dessas fortalezas flutuantes que, resistindo muitas vezes aos temporais, baqueiam com um simples furo.

– Mas é que, assim como Deus deu ao cavalo uma cauda, não só para adorno, mas para afugentar as moscas e os tavões, assim também os engenheiros navais dotaram os navios de guerra duns aparelhos próprios para caçar torpedos.

– A isso não pretendo referir-me. Simplesmente me proponho estabelecer um simile entre a energia do torpedo e a da alma humana.

– Pois parecem-me duas coisas tão heterogêneas que não servem para termos de comparação.

– Enganas-te. Há entre elas bastante analogia.

– Então vou cerrar os olhos e os lábios e serei todo ouvidos.

– Muito bem. Antes de mais nada, dir-te-ei que os pequenos choques não determinam a detonação dum torpedo de maximite.

– Faz lembrar o diminutivo dum nome de mulher. Agora abro os olhos e descerro os lábios para te perguntar. Que significa isso de maximite?

– É um explosivo, cujo nome deriva do apelido do seu inventor - Hiram Maxim.

– O das metralhadoras?

– Esse mesmo.

– Que engenho tão lamentável!

– Não te desvies da questão e deixa-me continuar.

– Pronto.

– Uma criança pode brincar impunemente com um torpedo de maximite e até arremessá-lo como uma bola contra a parede. É preciso dispará-lo por meio dum tubo, com muita velocidade, para encontrar uma resistência capaz de provocar, por violentíssimo choque, a detonação do explosivo.

– E a que propósito vem isso?

– A propósito duma pessoa não saber propriamente do que é capaz, enquanto se não manifestar a prova duma grande responsabilidade, duma suprema crise da sua vida. Aí tens Grant, o herói da guerra da Secessão. Na sua mocidade, teve uma vida rústica, acarretou troncos de árvores, trabalhou numa fábrica de curtumes, entrou depois na academia militar de West Point, abandonou mais tarde a carreira das armas para se dedicar a intermitentes ocupações civis, e nenhuma destas circunstâncias despertou o gigante que dormitava no fundo da sua alma. O seu nome, com certeza, não teria ultrapassado os limites da cidade onde vivia obscuramente, se não fosse a tremenda convulsão da guerra civil.

“Palpitava em Grant uma enorme energia potencial, mas precisou do choque da guerra civil para detonar, isto é, para se revelar em façanhas extraordinárias.”

Verdadeiramente, tinha razão o nosso anônimo interlocutor. Os homens enérgicos e vigorosos que deram impulso a civilização foram produto daquilo que fizeram da sua parte. Conquistaram, palmo a palmo, o terreno que pisaram. Merecem o título de gigantes da vontade, porque venceram dificuldades que para outros pareciam insuperáveis, e dominaram situações de suprema gravidade. Apoderaram-se da fortaleza dos obstáculos e destruíram-na.

Quando as circunstâncias da vida nos proporcionam os meios de continuarmos combatendo ou de perecermos na luta, porque estejam cortados todos os caminhos de retirada, a própria grandeza do perigo converte o instinto de conservação em estímulo da vontade, e então o homem faz das fraquezas forças, sendo capaz de fazer aquilo de que nem sequer presumira em circunstâncias ordinárias. Enquanto recebemos auxílio alheio, não conhecemos os nossos próprios recursos. A adversidade é muitas vezes a base da prosperidade, e por isso o adágio popular diz muito acertadamente que há males que vêm por bens.

Para que o homem produza tudo quanto possa produzir, é preciso, ou, pelo menos, é conveniente que tenha a verdadeira responsabilidade dos seus atos; que do que ele faça dependa a sua própria vida e a de todos os que estão debaixo das suas ordens. Aqueles que não desempenham cargos de responsabilidade pessoal nunca desenvolvem toda a sua energia anímica. Por este motivo, os militares, sujeitos aos rigores da disciplina, praticam façanhas em tempo de guerra que também praticaria qualquer outro que ocupasse o seu posto e tivesse vivo e ardente o sentimento do brio militar.

Geralmente, as circunstâncias críticas sobrevêm sem que sejam diretamente provocadas por quem nelas se vê envolvido. Podem ser o resultado final da imprevisão, da imprudência ou do mau procedimento do indivíduo; mas também são às vezes das que o vulgo chama circunstâncias fortuitas, embora na realidade sejam fios necessários na trama da vida.

Mas, quando o homem tem a suficiente coragem para dominar todas as situações, não espera que a contingência crítica venha espontaneamente, é ele mesmo que a provoca.

É assim que vemos Fernão Cortez desarvorar as naus para remediar o perigo que ameaçava a sua grandiosa empresa, devido à inconstância dos seus soldados. Alguns destes haviam já pensado em fazê-la abortar, tornando a Cuba, em embarcações ligeiras, para avisar o governador desta ilha, Diogo Velazquez, das relações que Cortez mantinha diretamente com o rei Carlos I, a quem no melhor navio da armada enviava riquíssimos presentes das novas terras descobertas e conquistadas, na esperança de invadir o misterioso império de Montezuma.

Estava Cortez, como costuma dizer-se, entre o martelo e a bigorna, pois era acusado pela espionagem de Diogo Velazquez, cioso da sua valentia, e aguardado temivelmente pelas incertas vicissitudes duma empresa que, vista hoje a quatro séculos ele distância, parece mitológica.

Cortez compreendeu, quatrocentos anos antes de se descobrir a psicologia transcendental, que só podia confiar nos seus soldados, permitindo que se salvassem por todos os meios que não fossem os do seu próprio valor. Então, resolveu meter os navios a pique, imitando neste ato os capitães da Antigüidade Agatocles, Timarco e Quinto Fabio Máximo, que, para encorajarem os seus soldados, queimaram as naus da expedição.

Os que passam a vida, desempenhando lugares inferiores, sem a responsabilidade de direção, não têm ensejo de desenvolver as suas energias, porque pensam com o cérebro alheio e limitam-se a executar o programa traçado pelos seus superiores. Não aprendem a pensar por si próprios e a agir independentemente, deixando para sempre em estado embrionário os seus dons de originalidade, de inventiva, de independência, de confiança própria e de iniciativa. Precisam dalguns anos de experiência em cargos de verdadeira responsabilidade para desenvolverem energias que possam resolver situações difíceis, acomodar os meios aos fins e estar à altura das supremas crises da vida.

É costume dizer-se que, se um rapaz tiver algum valor, o há-de revelar com o tempo. Mas esta afirmação não é de todo verdadeira, pois, por muito grande que seja o valor do indivíduo, a manifestação desse valor depende em grande parte das circunstâncias de lugar e tempo e do caráter das pessoas com quem a lei da vida o põe em mais estreita relação.

Muitos empregados de comércio e de escritório, gerentes de fábrica, contra-mestres de oficina, praticantes de advogado, redatores de jornais, possuem qualidades intimamente superiores às dos seus chefes, mas não se lhes proporciona a ocasião de ocuparem um lugar onde o sentimento da responsabilidade dê às energias íntimas o ponto de aplicação de que precisam, para se manifestarem em toda a sua plenitude.

Verdade é que os mais arrojados lutam confiadamente; mas isto não prova que tenham mais capacidade do que os que não avançam, porque às vezes o maior talento anda aliado à modéstia e até à timidez.

O gerente dum dos mais importantes estabelecimentos comerciais da formosa cidade do Tibidabo era o cérebro e o coração da casa, reunindo todos os requisitos que a técnica dos negócios exige no comerciante moderno. Mas, como a felicidade completa é coisa que não existe neste mundo, quis a morte que o dono do estabelecimento ficasse sem o seu inteligente representante, perdendo assim a felicidade que nele gozava.

– Pobre homem!

– Agora é que a casa dá em pantana!

– Quem virá substituí-lo?

– Por muito que procurem em todo o Tibidabo, não encontrarão outro como ele.

– Costumam os pintores representar o amor e a fortuna com os olhos tapados, mas não põem uma venda nos olhos à morte, que ainda é mais cega do que eles. É ela que nos arrebata o mais poderoso talento da casa e deixa-nos, talvez para semente, uma dúzia de cabeças ocas.

Estas e outras frases eram proferidas pelo pessoal do estabelecimento no dia do enterro, e o dono que, diga-se a verdade, não sabia sequer como se abria uma carta, confiou interinamente a gerência ao empregado que, durante muitos anos, fora o ajudante do extinto, porque o julgou mais apto para continuar a obra do seu antecessor.

Os empregados e o próprio dono receavam que o novo gerente se não saísse bem do novo encargo; mas ele demonstrou, desde logo, tal clarividência no exame e na resolução das questões inerentes ao serviço, introduziu reformas tão acertadas no regime do estabelecimento, em benefício do pessoal e sem prejuízo do serviço e do proprietário, que imediatamente todos reconheceram o que a primeira impressão não lhes deixava ver a princípio: reconheceram que, com todo o seu talento, sagacidade e tino, o falecido gerente julgava ter feito chegar o estabelecimento ao máximo de prosperidade, sem se lembrar de que tudo, neste mundo, por muito bom que pareça, é susceptível de melhoramento, e que unicamente se preocupava em conservar o prestígio adquirido.

O novo gerente, porém, a quem todos apenas supunham capaz de imitar servilmente os processos do seu antecessor, e que, por ter assumido aquele cargo de responsabilidade, via toda a gente com os olhos postos nele, resolveu envidar os melhores esforços e tomar rigorosos planos para alçapremar o prestígio e a prosperidade do estabelecimento, que o falecido gerente se limitara a conservar, e conseguiu-o a contento de todos.

– Quem tal diria!

– E tem muito mais valor do que o pobre gerente que morreu!

– Agora é que ele vai mostrando o que vale e que nunca foi capaz de revelar!

– Bem se diz que todos servimos para alguma coisa neste mundo.

– Se ele se chegasse a estabelecer por sua conta, era capaz de o acompanhar fosse para onde fosse.

Assim diziam uns para os outros, os empregados da casa, cada vez mais admirados da maneira como o novo gerente dirigia os negócios e das extraordinárias qualidades que ninguém presumia que tivesse.

Se analisássemos devidamente as sentenças da filosofia popular, descobriríamos nelas todo o enredo das mirabolantes escolas psicológicas. Ninguém contestará que, assim como a história é a mestra da vida e a experiência a mãe da ciência, assim também a indústria é filha da necessidade.

Daniel de Foe descreveu no seu admirável Robinson Crusoé a epopéia do trabalho, o que pode a vontade humana, quando, desenvolvida em condições inverossímeis pelo instinto de conservação, põe ao seu serviço as outras potências da alma.

Quando naufragamos no revolto mar da vida, como Robinson no mar Caribe, e o golpe da desgraça nos arremessa à solitária ilha do abandono, levando nós por único recurso a nossa mente e as nossas mãos, então manifestam-se, desenvolvidas pela angustiosa necessidade, as energias internas que, sem a adversidade ocasional, teriam ficado ignoradas nas sombras do túmulo, juntamente com o nosso corpo, enquanto não chegasse a hora da ressurreição.

Robinson fez o balanço dos males e dos bens que o cercavam, para se convencer de que ainda havia na terra seres mais desgraçados do que ele. Em vez de se render à adversidade, dispôs-se a lutar denodadamente contra ela, e a sua primeira resolução foi colocar-se em otimista atitude mental, por meio do escrupuloso exame de dois aspectos, tenebroso e luminoso, que lhe oferecia a situação em que se encontrava. O balanço foi o seguinte:


MALES

BENS

Estou numa ilha deserta sem esperança de sair para fora dela.

Mas não me afoguei como todos os meus companheiros de viagem.

Estou separado dos homens, vivendo profundamente angustiado.

Mas o que salvou da morte, também tem poder para me livrar da presente situação.

Não tenho quem me ajude.

Mas não sinto fome. Pior seria se tivesse ido parar a uma ilha estéril.

Não tenho roupa para vestir.

Mas estou num clima quente, onde não preciso dela.

Estou desarmado e não poderia resistir aos ataques das feras.

Mas nesta ilha não há feras.

Perdi tudo o que tinha.

Mas a Providência conduziu o navio naufragado para muito próximo da margem.

Deste balanço concluiu Robinson que, por muito miserável que seja a situação em que nas encontremos, poderemos sempre descobrir nela um ponto luminoso, pois de nós depende encontrar, mesmo no acume da desgraça, um motivo de consolação que, no cômputo dos males e dos bens, faça pender as nossas energias para o lado do otimismo.



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