Prefácio do tradutor



Baixar 0,51 Mb.
Página11/23
Encontro05.12.2019
Tamanho0,51 Mb.
1   ...   7   8   9   10   11   12   13   14   ...   23
Sir Walter Scott, o notável romancista, também meteu a ridículo a idéia de iluminar Londres com fumo; mas viveu o tempo preciso para escrever os seus últimos romances à luz do gás, no seu castelo de Abbottsford.

O já quase vulgaríssimo automóvel não seria hoje um fator valiosíssimo da indústria, do desporto e das comunicações e transportes, sem os sonhos de Carlos Goodyear, empenhado em dar aplicação prática ao caucho vulcanizado, de que se fazem os pneumáticos. Toda a gente lhe chamava maluco, porque, durante onze dilatados anos, teimou no seu propósito, lutando com toda a espécie de dificuldades. Esteve na cadeia por contrair dívidas. Teve de empenhar as roupas, para que os filhos não morressem de fome. O mais novo teve uma doença mortal, não tendo ele com que custear as despesas do enterro. E, contudo, o seu invento faz hoje a fortuna de muitos industriais.

Os grandes gênios foram sempre visionários. O escultor vê a estátua no pedaço de mármore antes de o golpear com o cinzel. O pintor vê o quadro, com todas as suas linhas e cores, antes de tocar a tela com o pincel. O arquiteto traça o edifício mentalmente, antes de colocar a primeira pedra. Cristóvão Wren viu a catedral de S. Paulo em toda a sua magnífica formosura, antes de lhe abrir os alicerces. Os seus sonhos revolucionaram a arquitetura londrina.

Os sonhos do barão de Haunmann fizeram de Paris a mais linda cidade do mundo.

As nossas casas são os sonhos dos que se esforçaram por melhorar as condições da habitação humana. Dia virá em que se realize o sonho dos que hoje desejam a extinção do iníquo regime do inquilinato e que toda a família tenha casa modesta, mas sua.

A divina herança do homem é a sua tendência para sonhar com o ideal. Pouco importa o muito que atualmente possamos sofrer, se temos fé num futuro melhor, porque esse futuro, apesar dos erros que predominam sobre a finalidade da vida, pertencerá aos mesmos que se esforçaram em prepará-lo.

Não há medicina tão saudável como o otimismo, nem tônico da alma tão eficaz como a esperança num tempo melhor. É inestimável a faculdade de vencermos, de momento, todas as dúvidas e tribulações que nos envolvem, elevando-nos a uma atmosfera de harmonia, de beleza e de verdade. Quem seria capaz de resistir à luta pela vida, se lhe destruíssem as esperanças e os ideais noutra vida mais alta em conformidade com as suas aspirações?

A vontade firme, o ideal luminoso, a esperança otimista é que é preciso ter, para não desanimarmos nos infortúnios de todos os dias.

Digamos como o inspirado poeta espanhol Adelardo Lopez de Ayala:

Dai-me, Senhor, a firme vontade, companheira e sustentáculo da virtude; a que sabe procurar a paz num abismo de miséria e a luz no meio das sombras.

– Parece impossível,- dizia uma senhora a uma sua amiga, que mostre tamanha afabilidade e tanta presença de espírito, quando já tem sofrido tanto neste mundo.

– É que eu vejo sempre as coisas e as pessoas pelo seu aspecto luminoso. As sombras não me seduzem. Estou acostumada a ascender, das contingências mais difíceis e desencontradas, a uma esfera de harmoniosa calma, e a regressar ao meu trabalho com o espírito retemperado e o corpo robustecido.

Mas não vamos até ao extremo vicioso do idealismo estéril, porque, se andamos sempre a olhar para o alto, arriscamo-nos a tropeçar nos obstáculos que se nos deparam pelo caminho. Há pessoas que passam a vida a fazer castelos no ar sem empregarem o menor esforço para os construir solidamente no chão. Vivem numa atmosfera teórica e aparente, até deixarem atrofiar, por inanição, todas as suas faculdades. São os malogrados que dizem mal da sua negra sorte.

É admirável sonhar com o ideal, quando o sonhador tem a suficiente perseverança e energia para harmonizar os sonhos com as realidades; mas perverte o seu caráter quem sonha sem empregar esforço para realizar as suas aspirações. É necessário conciliar o ideal com a realidade, o propósito com a ação. Assim se identifica o idealista com o positivista. Assim conseguiu John Harvard fundar, com um punhado de dólares, a hoje celebre universidade que tem o seu nome. E assim realizou Yale o sonho da sua vida, vendo o princípio do seu triunfo em meia dúzia de livros.

Não deixeis de sonhar; mas sonhai acordados. Dai alento às vossas visões e tende fé nelas. Acariciai os vossos sonhos e esforçai-vos por efetivá-los. É um dom divino aquele que nos impele o olhar para o alto e para diante, o que estimula as nossas aspirações e favorece os nossos desejos de progresso e perfeição.

O desejo ardente é a mão que nos aponta o caminho do céu. Conforme for a vossa visão, assim será a vossa vida.

A obra grandiosa consiste em regular o nosso procedimento pelo modelo que se nos revelou no momento da nossa suprema inspiração; consiste, portanto, em tornar duradouro o nosso supremo instante.

Todos estamos convencidos de que a nossa melhor obra é uma vaga e mesquinha representação do que devemos e podemos fazer. A potência criadora do ideal derrubará, um dia, as barreiras de delimitação, levantadas pelas diferenças de raça, de nacionalidade e de crença, e realizará a visão do poeta:

A idade de ouro ainda está para vir. O caminho do passado conduziu-nos ao ponto onde nos encontramos. O caminho do futuro ainda nos há-de conduzir a um plano superior.



Compartilhe com seus amigos:
1   ...   7   8   9   10   11   12   13   14   ...   23


©psicod.org 2019
enviar mensagem

    Página principal