Prefácio do tradutor


Idealistas e positivistas



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7. Idealistas e positivistas


“Sejamos práticos”.

Esta frase tem-se repetido vezes sem conta como uma espécie de conjuro contra as quimeras e utopias dos idealistas. É a eterna antítese entre Sancho Pança e D. Quixote.

Quem tem razão?

Os idealistas?

Os positivistas?

Os homens de pensamento?

Os homens de ação?

Verdade é que, segundo nos ensina Franklin, as boas ações são melhores do que as boas palavras; mas também é verdade que não é possível fazer uma coisa bem feita se primeiro não se pensar bem como ela se faz.

A idéia deve necessariamente anteceder o fato, como o pensamento deve preceder a ação.

Os positivistas são o braço que executa; os idealistas o cérebro que raciocina.

Entre uns e outros não deve haver hostilidades, mas harmonia de pensamentos e ações.

Os temperamentos práticos estão realizando atualmente o que os antepassados qualificaram de utópico, e os idealistas de hoje estão semeando as idéias cujo fruto uma geração ainda embrionária há-de colher em resultados de positiva utilidade para o gênero humano.

Uma escritora inglesa chamada Cecília Hamilton, estimulada pelo seu temperamento e julgando que todos os seres humanos afinam pelo mesmo diapasão, ataca os idealistas em termos, cuja sem-razão, por demais evidente, é inútil demonstrar. Diz assim:

A miséria atual da Europa provém do excesso de ideais que caracteriza o sexo masculino. Espero que as mulheres que se dediquem à política falem menos de princípios e ideais, por serem eles a origem da miséria e das catástrofes que assolam o mundo. Quando um homem está convencido do valor dum ideal, pensa logo em realizá-lo, ainda que tenha de degolar o seu adversário. Ora eu espero que as mulheres sejam menos idealistas e mais práticas. Verdade é que as sufragistas chegaram ao extremo de morder os agentes de polícia; mas, se a guerra não passasse de mordeduras, seria um grande bem para a humanidade. Os ideais são preciosidades muito valiosas que se guardam como relíquias. Desçamos ao campo das realizações e sejamos práticos.



Miss Hamilton tem razão, por um lado, porque se não houvesse homens e mulheres de espírito prático, isto é, capazes de darem efetividade às concepções dos idealistas, a idéia dissipar-se-ia com toda a sua energia inerente, como o vapor de água, na atmosfera, se dissipa com toda a sua força elástica.

No que miss Hamilton não tem razão é em aconselhar a serem práticas todas as mulheres que se dediquem à política. Poderão sê-lo todas as que tenham espírito prático; mas, em compensação, precisam das que tenham temperamento idealista e aspirem a melhorar as condições da vida humana, demolindo a superstição, combatendo a ignorância, socorrendo a miséria, destruindo os preconceitos e purificando as crenças, coisas com que as pessoas práticas se conformam, sem trabalho de raciocínio, mas preferindo seguir na esteira da rotina.

É como se miss Hamilton fosse muito loira e, encantada com o seu pigmento, se empenhasse por que todas as mulheres da sua raça fossem loiras também. Se todos fôssemos práticos, depressa ficaríamos sem matéria-prima para obrar, porque essa matéria fornecem-na os idealistas, os sonhadores, os que, por assim dizer, nos dão o carvão para aquecer a máquina do progresso.

Uma ocasião, estava Emerson em animada tertúlia com vários negociantes que falavam de estradas de ferro, de ações, de minas, de carregamentos e doutros assuntos de negócio, quando, de repente, exclamou:

– Meus senhores, falemos agora um bocadinho a respeito de coisas que valham a pena.

E pôs-se a explicar as condições necessárias e suficientes para gozar a vida sem tédio.

Os seus contemporâneos classificaram Emerson de sonhador e visionário, porque teve a profética visão do que seria o mundo no século XX. Hoje, porém, milhares de pessoas estão ao lado de Emerson, seguindo as mesmas idéias que ele a princípio perfilhava sozinho.

Edison é hoje alcunhado de sonhador, feiticeiro e mágico, isto é, idealista divorciado da realidade da sua época, porque vaticina, para daqui a meio século, descobrimentos e invenções que deixam a perder de vista os mais modernos instrumentos da civilização material. Os olhos mentais de Edison verão, daqui a cinqüenta anos, expostos nos museus de antiguidade, os mecanismos e aparelhos que tanto hoje nos maravilham. Os idealistas são, por este lado, verdadeiros profetas, porque vêem a civilização futura muito antes de ela ser uma realidade.

Dizer-se que o homem, apenas se convença do valor dum ideal, pensa logo em realizá-lo, ainda mesmo que tenha de degolar um seu adversário, é tudo quanto há de mais obcecante, porque os idealistas não matam ninguém pelo seu ideal, morrem precisamente por ele. Os idealistas têm o seu reverso nos fanáticos, como o verdadeiro recato o tem na impudicícia, e o verdadeiro sentimento religioso na hipocrisia.

Foi o fanatismo, e não o idealismo, que armou o braço de Bruto, de Jacob Clemente e de Ravaillac, e pôs, nas mãos dos niilistas, as bombas que deram a morte a Alexandre III. Foi aos cegos golpes do fanatismo político que baquearam Lincoln, Garfield e outros, todos eles mártires dum ideal de regeneração patriótica. Não são idealistas os que pensam em destruir e demolir instituições, mas sim os que facultam aos positivistas, aos homens práticos, os abundantes e sólidos materiais de construção.

No ano de 1849, travou-se no Parlamento dos Estados Unidos uma viva discussão acerca do problema que consistia em saber se era ou não prática a idéia de construir uma linha férrea que ligasse o Atlântico com o Pacífico, através do território da União.

Os defensores do projeto, os idealistas, viam, com os olhos penetrantes da intuição, numerosas cidades e vastas empresas industriais, comerciais e agrícolas, onde a maioria de senadores, que blasonavam de práticos, só descortinavam o interminável deserto de Oeste. Um dos mais eloqüentes parlamentares, Daniel Webster, qualificou o projeto de extravagante, porque lhe parecia uma loucura querer assentar carris de ferro por aquelas áridas planuras, interceptadas por montanhas intransponíveis.

Para que havia de servir uma linha férrea, de tão dispendiosa construção, num ermo de que não havia a esperar proveito algum? Os idealistas, porém, animados pela intuição, que é a mais divina faculdade humana, viam, desde todo o princípio, o fim a que visavam com o seu projeto. Discorrendo com mais acerto do que os positivistas, diziam que, se se tivesse de esperar pela fundação de cidades para construir a via férrea, nem daí a cinco ou seis séculos esse fato se daria, ao passo que a construção antecipada da estrada de ferro estimularia os colonos a fixarem residência nas proximidades.

O sonho de Collis P. Huntington e de Leland Stanford ligou com fitas de aço o Este com o Oeste, aproximou os dois oceanos, fez um oásis de todo aquele deserto e levantou cidades que hoje são empórios comerciais e centros de indústria, onde tudo era dantes silenciosamente triste.

Como o sonhador de Patmos, que viu a mística cidade de Jerusalém a descer do céu, assim os sonhadores da colonização norte-americana viram erguer-se do solo as atuais cidades populosas de Chicago, S. Francisco, Kansas, Denver, Salt Lake e Los Angeles, em sítios onde, um século antes, havia míseras povoações indígenas de duas centenas de almas.

Marshall Field, José Leiter e Potter Palmer foram sonhadores que viram nas cinzas fumegantes da incendiada Chicago uma nova e mais esplendorosa cidade do que a que o fogo consumiu; e os idealistas de S. Francisco deram aos positivistas os planos da imediata reconstrução da cidade, destruída pelo terremoto.

Quem seria capaz de enumerar os sonhos que, desprezados um ano antes, por serem quiméricos, se converteram, no século seguinte, em realidade, com admirativo aplauso da nova geração? Os idealistas! Os sonhadores! São eles a vanguarda da humanidade, os que se antecipam à época em que vivem, aqueles a quem se pode aplicar as evangélicas sentenças:

E a luz resplandecia nas trevas: mas as trevas não a compreenderam.

Estava no mundo e o mundo não o conheceu.

Dirigiu-se aos seus e os seus não o receberam.

Ninguém é profeta na sua terra.

Demos agora a palavra aos dois amigos que já atrás dialogaram sobre outro assunto e que, neste momento, continuam a falar sobre o tema que serve de epígrafe a este capítulo. Ouçamos o que eles dizem.

– Concordas com aquelas duas frases que há alguns anos apareciam impressas nos livros, nos jornais e nas revistas?

– Disseram-se tantas tolices por aí, desde que o primeiro charlatão começou a dar à língua...

– Não te recordas de que se aconselhava menos política e mais administração, e menos doutores e mais industriais?

– Já sei! É a eterna questão entre clássicos e românticos, entre praxistas e modernistas, entre acadêmicos e cubistas, e entre idealistas e positivistas.

– Quer-me parecer que não foste feliz na comparação, porque quem te ouvisse, havia de imaginar que os modernistas em literatura e os cubistas em pintura são idealistas, os incompreendidos que se antecipam à época em que vivem, quando na minha opinião são uns pobres desequilibrados, que hão-de desaparecer tão depressa como vieram à supuração.

– Isso é uma ninharia que não tem grande importância para o nosso caso. Limitemo-nos ao que primeiro disseste sobre o fato de se aconselhar menos doutores e mais industriais, ou seja menos teóricos e mais práticos, menos idealistas e mais positivistas.

– Está bem assim; mas é preciso distinguir entre teóricos e teorizantes, práticos e empíricos, industriais e fabricantes, comerciantes e lojistas, doutores e diplomados, idealistas e utopistas.

– Basta! Estou a ver que não nos entendemos, porque a todos os idealistas chamaram os seus contemporâneos fantasistas, sonhadores, loucos iluminados ou coisa pior. Como se há-de distinguir a cicuta do perrexil?

– Para isso, temos o discernimento que, bem exercitado, distingue o ideal da quimera, o sonho do pesadelo, o que é racional do que é absurdo.

– Acho isso muito difícil. Não há muitos anos, os sábios positivistas, os que só crêem no que vêem e conhecem os galos pela crista, consideraram a aviação uma coisa tão impossível de resolver como a quadratura do círculo e o moto-contínuo. E, contudo, aí tens a aviação montada em circunstâncias de se converter num vulgaríssimo meio de transporte.

– É verdade. Mas não nos desviemos do nosso tema. Na minha opinião, o que temos de mais e nos causa embaraço é essa multidão de farmacêuticos sem terem receitas para aviar, advogados sem questões para defender, engenheiros sem terem onde aplicar o seu engenho e doutores sem poderem ensinar as suas doutrinas. Do que nós precisamos é de máquinas, adubos, fábricas, canais, ciência útil e positiva e uma agricultura mais desenvolvida. Em suma: mais obras e menos palavras, menos doutores e mais industriais.

Mas nota que essa teoria, essa idealidade tão desprezada pelos práticos, é uma série de verdades preconcebidas que a experiência há-de confirmar com o tempo. As descobertas dos sábios, que ao princípio parecem jogo de laboratório e recreio de amadores, convertem-se depois em fontes de prosperidade e riqueza. As infrutuosas tentativas de Porta, Wedgwood e Davy levaram Daguerre ao invento da fotografia, que tanto contribuiu para o progresso de todas as artes. Franklin, Galvani, Volta e Faraday foram para os positivistas do seu tempo frívolos idealistas, que se entretinham a deitar papagaios, esfolar rãs, empilhar rodelas de metal e fabricar barretes de escumilha. Mas estes passatempos, aparentemente pueris, foram a causa eficiente desses veículos que nos deixam, como por encanto, à porta de casa; dessa luz, roubada ao sol, que, sem viciar o ar, ilumina as nossas habitações; da corrente benéfica que alivia as nossas dores; da ponta metálica que arrebata o raio das mãos onipotentes de Júpiter.

– É inegável. Mas nota também que de nada serviriam as idéias mais luminosas, se não houvesse quem praticamente lhes desse realização.

– Por isso mesmo é que eu entendo e torno a dizer que são tão necessários ao progresso da humanidade os idealistas como os positivistas. O que hoje constitui monopólio da civilização não é mais do que a soma total dos sonhos de épocas anteriores. Os sonhos do passado, convertidos em realidade. Os transatlânticos, os túneis, as pontes, as bibliotecas, as universidades, os hospitais, as cidades cosmopolitas, com todas as suas comodidades e tesouros artísticos, são conseqüência dos sonhos dos nossos antepassados.

Na verdade, que seria da nossa civilização sem os idealistas? Ainda hoje viajaríamos na carreta de Édipo e navegaríamos nas pré-históricas pirogas.

– Isso é impossível, exclama o homem sem ideais.

– É possível, replica o sonhador.

E persiste no seu sonho, sofrendo toda a sorte de contrariedades, até realizar as suas visões, os seus inventos e as suas idéias, em prol do aperfeiçoamento da humanidade.

Vide Colombo, o sonhador, o idealista, alcunhado de aventureiro, metido a ridículo pelos pretensos sábios salamantinos, expulso donde quer que expusesse os seus planos, que, para a mentalidade dominante nessa época, eram considerados como disparates dum louco. Sonhava com um mundo transatlântico e, apesar de todos os obstáculos, acabou por converter o seu sonho em gloriosa realidade.

Dizem os práticos que o idealismo e a imaginação ficam muito bem aos artistas, aos músicos e aos poetas, mas que nada adiantam no mundo de negócios. E, contudo, todos os precursores da humanidade foram sonhadores. Os grandes industriais e os comerciantes notáveis distinguiram-se pela sua poderosa e profética imaginação. Tiveram fé nas inesgotáveis fontes de riqueza do seu país.

Sonhadores e idealistas são os que hoje mesmo projetam incrementar as obras públicas, susceptíveis de desenvolvimento em nações riquíssimas.

Sonhadores e idealistas são os que ardentemente desejam o reinado da paz e a harmonia entre todos os povos, a realização prática da confraternização universal entre todos os homens, embora a fria estátua da Liberdade dê a impressão de iluminar o mundo com o facho da discórdia.

Idealistas e sonhadores são os que vislumbram uma nova era sem exércitos permanentes, nem marinhas de guerra, nem metralhadoras, nem couraçados, quando os milhões, hoje deploravelmente gastos em instrumentos de destruição e de morte, a pretexto de defesa nacional, forem aplicados na cultura de baldios que centupliquem o valor produtivo do solo e que contribuam para o embaratecimento da vida; na instalação de vias férreas, na construção de pontes e na abertura de estradas que facilitem os transportes; no aumento da marinha mercante com novas linhas de navegação, que aproximem os continentes; na proteção das indústrias siderúrgicas e fabris, não com a artificiosa e instável muralha dos direitos, mas com o invulnerável escudo da educação técnica e da abundância de matérias-primas.

Todos estes sonhos, todos estes ideais parecem hoje quimeras de cérebros doentios, desconhecedores da realidade, e, contudo, estão preparando nas bigornas da imaginação e na forja do otimismo a futura sociedade que há-de amaldiçoar os armamentos e as esquadras de guerra – realidades do tempo atual – tão profundamente como hoje amaldiçoamos o regime feudal, as perseguições religiosas e a escravização das consciências.

Embora possa ser um paradoxo, os idealistas são os homens mais práticos do mundo, porque se antecipam à prática das coisas que idealizam e vislumbram o que há-de ser a civilização no porvir. Vêem o homem do futuro livre de fronteiras, de preconceitos e de rotinas que lhe tiranizam a mente. São os que eliminam racionalmente do seu vocabulário a palavra impossível.

O cárcere, o desterro, os tormentos e até a própria morte, não tiveram o poder de torcer a vontade que, fortalecida pela sabedoria, os instigava a serem constantes no seu ideal, naquelas aparentes quimeras destinadas a arrancar o mundo do selvagismo.

Haviam de nascer e morrer várias gerações antes de a ciência reconhecer as verdades afirmadas por Galileu, quando deu à humanidade um novo céu e uma nova terra, que o cego fanatismo condenou por as considerar uma heresia. Os sonhos de Confúcio, de Gautama e de Sócrates chegaram a ser uma realidade em milhões de vidas humanas. O próprio Cristo foi acusado de impostor, de visionário, de inimigo das leis vigentes, e, não obstante, toda a sua vida foi uma profecia, um sonho ideal do homem do futuro. Para além da humilde e imperfeita imagem de Deus, via o homem ideal, o homem perfeito, a restaurada imagem da Divindade.

As nossas visões não nos atraiçoam. São preliminares do que há-de ser, vislumbres de possíveis realidades. Os castelos no ar precedem sempre os que se edificam no chão.

George Stephenson, que era um pobre mineiro, sonhava com uma locomotiva que poderia revolucionar o tráfico do mundo. Trabalhava nos poços das minas por seis vinténs diários, e consertava as roupas e o calçado dos companheiros, para ganhar algum dinheiro com que pagasse a mensalidade da escola noturna que freqüentava, e para sustentar o pai, um infeliz cego, que vivia na companhia dele. Mas continuava sempre sonhando. Quando expôs em público o seu projeto, todos o consideraram louco. Os mais hábeis engenheiros escarneceram dele, dizendo:

– Haverá maior disparate do que este? As fagulhas da máquina pegariam fogo às casas.

– E por onde haviam de passar os gados?

– O fumo infectaria o ar.

– E, se a caldeira rebenta, mata todos os passageiros.

– Os segeiros e cocheiros morriam de fome por não terem que fazer.

– E ainda não é só isso. Quem é que se convence de que um comboio com muitos vagões possa andar sobre carris por uma superfície convexa como a da terra? Descarrilaria, logo que se pusesse em marcha.

– Antes ir preso ao rabo dum cavalo do que viajar em estrada de ferro.

– Não falemos mais nesse disparate, porque felizmente são poucos os que pensam em tal loucura.

Estas e outras amabilidades de igual jaez proferiram os sábios engenheiros da Academia londrina, quando examinaram o projeto.

Stephenson, porém, continuou a sonhar. A sua vontade não enfraquecia. Previa o futuro. Por último, conseguiu que o projeto de concessão da primeira estrada de ferro se discutisse na Câmara dos Comuns. Um deputado atacou o projeto, dizendo:

– Haverá maior absurdo e idéia mais ridícula? Como é possível uma locomotiva adquirir o dobro da velocidade dum cavalo? Se o parlamento aprovar a concessão da estrada de ferro, tem que limitar a velocidade a oito milhas à hora, que é o máximo a que se pode arriscar.

Pois apesar das calúnias, do ridículo dos obstáculos, da oposição da petulante engenharia oficial, e da hostilidade dum povo tão prático como o povo britânico, o sonhador Stephenson viu realizado o seu sonho. Mal imaginariam os engenheiros de então que os expressos do século XX haviam de andar cem quilômetros à hora! Nem por sombras previam a eletrificação das estradas de ferro! O próprio Stephenson estava longe de idealizar estas maravilhas nos seus sonhos, que tão quiméricos pareciam aos seus contemporâneos.

A 4 de agosto de 1907, celebrou Nova Iorque o centenário do sonho de Roberto Fulton.

Na sexta-feira, 4 de agosto de 1807, uma multidão que proferia toda a espécie de chufas, troas e zombarias, estava apinhada nos molhes do Hudson, para se rir do fiasco em que havia de resultar a idéia mais ridícula que jamais se abrigara em cérebro humano.

– Em que cabeça é que se mete querer navegar contra a corrente do Hudson num barco sem velas? bradava a arraia miúda, sorrindo por entre os dentes.

– Caiu numa boa esparrela! diziam outros,

– Quando a corrente pregar com o barco de encontro à margem, meteremos esse idiota num manicômio.

– Mal empregado tempo, trabalho e dinheiro, perdidos em semelhante estupidez!

O Clermont, porém, triunfou plenamente da experiência, e as troças deram lugar a gritos de admiração, os motejos foram substituídos por elogios, e Fulton foi aclamado benfeitor da humanidade.

O que não deve o mundo a Morse, que lhe deu o seu primeiro telégrafo? Quando o inventor solicitou um subsídio de cinco mil dólares para efetuar a experiência na linha de Washington a Baltimore, os parlamentares desataram a rir escarninhamente.

Depois de muitas decepções que desalentariam outros ânimos menos enérgicos, conseguiu que o governo norte-americano subsidiasse a experiência do invento. No dia da experiência, enquanto os convidados esperavam pelo telegrama, sem acreditarem no êxito da prova, um deles perguntou velhacamente a Morse:

– Diga-me o meu amigo uma coisa: quantas encomendas poderá mandar pelo fio?

Mas, daí a instantes, recebia-se o primeiro despacho telegráfico, e o velhaco ficou tão vexado como orgulhoso se sentiu o inventor.

Quando Guilherme Murdock, nos fins do século XVIII, sonhava em iluminar Londres com gás de hulha, canalizado para o interior das habitações, os homens de ciência desse tempo chasquearam da intenção, e até o próprio sir Humphry Davy, o celebre inventor da lâmpada mineira, troçava de Murdock, dizendo-lhe:

– Querem ver que pensa em utilizar para gasômetro o zimbório de S. Paulo? Então o senhor não vê que é impossível obter uma chama sem pavio?




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