Prazeres estéticos 1


Teorias da atitude estética



Baixar 231,12 Kb.
Página7/8
Encontro11.10.2018
Tamanho231,12 Kb.
1   2   3   4   5   6   7   8
Teorias da atitude estética
Enquanto o estabelecimento de um fundamento para o gosto universal deve enfrentar as críticas que tais missões impõem ao invés de descobrir padrões, outros aspectos dessas tentativas expandiram a gama de objetos que podem ser considerados de mérito estético. Abordagens pós-kantianas, também chamadas de teorias da “atitude estética”, estenderam a prescrição de Kant pelo prazer desinteressado além das regiões puras para as quais ele divisou, e prescreveram uma atitude a partir da qual somente qualidades estéticas, seja de arte ou natureza, possam ser apreendidas. Teorias da atitude estética recomendam que a melhor maneira para alcançar prazer estético é assumir uma desinteressada e contemplativa instância que serve para limpar a mente de preconceitos e preocupações pessoais, abrindo nossas sensibilidades às qualidades estéticas – formal, expressiva, imaginativa – disponíveis para o espectador, leitor ou ouvinte atentos. Enquanto uma familiaridade educada com as artes fornece um fundo de conhecimento que faz a apreciação sofisticada possível, o imediato pré-requisito para apreciação é a de repouso, a postura distanciada, reflexiva.

O filósofo do século XIX, Arthur Schopenhauer, cuja teoria foi precursora das abordagens da atitude estética, foi mais longe a ponto de considerar a contemplação estética como uma fonte rara de alívio das pressões da (48) vontade individual; considerou experiências de beleza capazes de clarear a consciência de existência com todos os seus problemas. Contemplação estética pura remove seu objeto da história e de todas as relações que tem com qualquer coisa fora dela. A experiência estética ideal, de acordo com Schopenhauer, é aquela na qual a consciência mesmo de sua identidade pessoal recua no ato de absorção estética. (Sua afinidade com filosofias indianas e budistas clássicas é evidente nesta idéia.) O desaparecimento da consciência do indivíduo representa uma versão extrema do observador mais genérico e desinteressado que se pode imaginar. Schopenhauer descreve este estado:


Assim, se, por exemplo, eu contemplo uma árvore esteticamente, ou seja, com olhos artísticos, e, então, não a reconheço, mas sim sua Ideia, é imediatamente sem importância se é esta árvore ou seu antepassado que floresceu mil anos atrás, e se o contemplador é um individual, ou qualquer outro em qualquer lugar e em qualquer tempo.25
Schopenhauer é explícito quanto ao interesse sexual ser uma das atitudes que interrompem a contemplação e invadem a vontade inquieta em uma experiência, por isso para ele, pelo menos, há uma clara diferença entre o prazer estético e os prazeres onde o desejo opera. (A misoginia de Schopenhauer também está em jogo em alguns dos seus comentários. Ele se refere às mulheres como o sexo "antiestético")26.

Em termos menos radicais (e menos onerados metafisicamente), esta abordagem do valor estético foi propagada por mais de um século. Para alguns filósofos, a "atitude estética" foi o fator crucial para capacitar a discernir as propriedades únicas e intrínsecas da arte e para separá-las da confusa influência de outros interesses e valores. Em um texto influente de meados do século XX, Jerome Stolnitz afirma que só nos livrando de interesses práticos, sociológicos ou históricos podemos apreciar as coisas - incluindo a arte - por seu valor intrínseco. Ele define a atitude estética como "atenção desinteressada e simpática na contemplação de qualquer objeto de consciência que seja, em seu benefício próprio"27.

A atitude recomendada permite a percepção da dificuldade da arte, induzindo a ignorar o desconforto ou a desaprovação moral, a fim de apreciar o que o artista realizou. Deste modo, também reconhece a expectativa de que um artista poderia ter expressado algo único que exige mente e coração abertos para descobrir e apreciar. Esta abordagem pode defender uma zona de experiência, elevando o valor estético a um grau igual ou mesmo mais alto do que os costumes sociais. Em meados do século XIX, por exemplo, (49) Charles Baudelaire começou a escrever poesia (Les Fleurs du Mal), que era bonita mas violava expectativas morais familiares, pressionando a distinção entre normas morais e estéticas. E, como veremos no Capítulo 5, a noção de puro valor estético independente do conteúdo da arte também contribuiu para defesas formalistas de estilos não representacionais quando eles estavam entre as principais inovações polêmicas em pintura e escultura. Em tempos mais recentes vimos transgressões extremas de códigos morais em obras de arte defendidas por causa de sua beleza, beleza que só pode ser apreciada se adotarmos uma atitude estética desinteressada. (Esta foi uma defesa corrente – e bem sucedida –das fotografias homoeróticas polêmicas de Robert Mapplethorpe durante as controvérsias jurídicas em torno de exposições de seu trabalho em 1990.)28. Em outras palavras, a destreza formal e beleza da arte podem fornecer um valor estético que substitui o demérito moral de seu conteúdo, e apelar para essa distinção às vezes tem sido fundamental para o desenvolvimento social e até mesmo justificação legal de obras de arte fora da lei. Mas essa virtude estratégica também tem um lado problemático, aquele que é pertinente para as críticas feministas da ideia de contemplação desinteressada.

Quando Stolnitz define uma atitude estética, ele determina que "a percepção é direcionada para o objeto em si mesmo e que o espectador não está preocupado em analisá-lo ou fazer perguntas sobre o assunto."29 No entanto, é precisamente a proibição de fazer perguntas que fez com que muitas críticas feministas rejeitassem esta tradição na estética. Não se limita a tornar o observador peculiarmente aquiescente, ele situa como uma categoria de propriedades não estéticas muitos dos aspectos da arte que fornecem o seu significado. Quando a obra de arte em questão tem uma carga sexual, como é o caso com a representação de nus, a divisão entre as propriedades estéticas e anestéticas sufoca perguntas sobre papéis sociais, poder e controle sexual, como veremos em breve. Além disso, abordagens críticas que enfatizam o valor da forma (linha, composição, combinação de elementos) sobre o conteúdo (o objeto da arte) têm permeado várias disciplinas artísticas, especialmente no século XX. Como musicóloga Susan McClary observa em sua disciplina que "a musicologia declara fastidiosamente questões de significação musical como fora dos limites para os envolvidos em legitimar bolsas de estudos. Ela assumiu o controle disciplinar sobre o estudo da música e proibiu até mesmo perguntar acerca das questões mais fundamentais relativas ao significado."30 Construindo a estética nesses termos isoladores leva a ignorar seu significado social e seu poder, incluindo o seu poder para manter a representação da mulher no encalço do que Cornelia Klinger chama de ”ideologia estética" em consonância com a subordinação social e a exploração de (50) mulheres.31 Ambas, obras de arte e as pessoas que as apreciam, devem ser consideradas em todas as suas relações especificamente históricas, a fim de melhor entender como obras de arte alcançam significado. Enquanto restabelecer essa base mais ampla para compreender os riscos da arte diminui tanto o desinteresse como a universalidade da apreciação estética, isso também restabelece um aspecto da arte que, por vezes, torna-se silenciado na tradição estética, mas que certos teóricos desde Platão têm abordado: o seu poder.





Compartilhe com seus amigos:
1   2   3   4   5   6   7   8


©psicod.org 2017
enviar mensagem

    Página principal