Prazeres estéticos 1


Kant sobre o juízo de gosto



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Kant sobre o juízo de gosto
Na realidade, Kant também especulou que a origem do prazer estético estava na atração erótica, mas que esta fonte original é descartada logo no início da história humana à medida que a civilização desenvolve uma estética mais sofisticada e distanciada dos prazeres. Como se antecipando a Freud, Kant observa que a folha de figueira era uma manifestação da razão em que começou o controle dos sentidos que tornou o puro prazer estético possível14. Esta observação caprichosa ocorre em um ensaio não considerado entre os mais significativos de Kant, e a análise de beleza em seu (ensaio) mais importante Crítica da Razão (1790) é consideravelmente mais neutra.

Kant teve especial influência sobre a adoção de um qualificador que veio para descrever o prazer estético, desinteressado. Ao contrário de Hume, que era principalmente preocupado com padrões de gosto na literatura e na arte, Kant entrou na discussão de prazer estético com objetos da natureza e formas abstratas como seus objetos paradigmáticos de beleza, especificamente do que chamou de beleza "absoluta", que é o objeto do julgamento "puro" de gosto. Sua abordagem para a localização de um padrão para o gosto era de desqualificar a partir da experiência puramente estética qualquer prazer que se referisse à satisfação do desejo ou a realização de um objetivo. Como consequência, a antiga ligação entre os valores da beleza e da bondade foi afrouxada consideravelmente, porque sua análise distingue prazeres estéticos de aprovação moral em termos mais fortes do que tinha até então sido pensado. Embora Kant de um modo um tanto opaco chame a beleza de o "símbolo da moralidade", em a Crítica do Juízo o prazer que constitui beleza é distinto e sui generis15 (Para o reino dos juízos morais Kant formulou uma lei moral universal rigorosa que anula qualquer impulso para o relativismo subjetivo na ética)16.

Além disso, ele explicitamente separou prazer estético dos prazeres dos sentidos, ampliando assim a clivagem (presente desde a antiguidade) entre os prazeres dos sentidos corporais e prazeres estéticos17. Prazeres estéticos de sentido incluem prazeres eróticos, que são claramente o produto da satisfação - real ou imaginária - de desejo sexual. Eles também incluem prazeres gustativos. Gosto propriamente dito por comida e bebida, observou ele, é meramente sensual; esses prazeres são o resultado da satisfação de alguma necessidade física. Mas prazeres estéticos têm nada a ver com o corpo, nem mesmo absolutamente com a (44) satisfação de qualquer interesse pessoal. Juízos estéticos são livres de interesse, ou, para usar o termo atual mais comum, eles são "desinteressados"18. "Desinteressado" não significa que nós não nos importamos nada com eles, mas significa que o nosso prazer não está enraizado na promoção pessoal ou gratificação - na satisfação de um dos nossos desejos. No relato de Kant do puro juízo de gosto, este termo também significa que nenhum conceito do objeto está em uso quando julgamos o belo, ou seja, não o estamos avaliando como um excelente exemplo de seu tipo, mas apreciando sua forma singular, uma vez que estimula a harmonia entre a imaginação e o entendimento19. (Uma razão pela qual a maioria das obras de arte tem beleza "dependente" ou "aderente" mais que beleza "livre" ou "absoluta", de acordo com Kant, é que se deve empregar determinados conceitos na avaliação da arte. Ou seja, devem-se empregar ideias sobre como um objeto, evento ou pessoa deve ser representado).

Kant não está meramente estipulando uma diferença entre prazeres "superiores" e "inferiores" quando ele distingue entre os prazeres estéticos e sensuais, embora seja um resultado adicional de sua análise. Em vez disso, seu raciocínio é impulsionado por seu esforço para resolver o problema de gosto. Kant procurou descobrir para a beleza e a sensação de prazer estético razões para uma espécie de universalidade e necessidade paralelas aos fundamentos que ele tinha anteriormente estabelecido para o conhecimento empírico e as diretrizes morais. São suas as mais fortes e mais rigorosas normas de gosto, muito mais fortes do que as de Hume, pois a este último bastava encontrar os princípios gerais que indicam em geral uma tendência a concordar em questões de gosto. Kant queria descobrir os fundamentos para uma verdadeira universalidade da resposta estética. Esta é uma razão pela qual ele exclui prazeres corporais, ele acredita que eles são muito idiossincráticos e pessoais para se chegar a um acordo.

Pelo menos até certo ponto a descrição de prazer de Kant como um meio para identificar a qualidade estética parece conformar-se com a experiência familiar. Pode-se reconhecer que o desempenho de alguém em uma peça para piano é mais bonito do que o seu, por exemplo, mesmo se a outra pessoa ganhou um cobiçado prêmio de recital. Se aquela beleza é reconhecida através do prazer, então esta instância de prazer claramente não tem nada a ver com a satisfação de seus desejos. Deixando de lado seu interesse em ganhar o prêmio possibilita o prazer estético da performance do outro concorrente. Eu estou revendo apenas uma pequena parte da teoria de Kant aqui, mas nós podemos ver, mesmo com o que até aqui expusemos que, descartando todos os desejos e interesses pessoais, o que permanece para dar conta dos prazeres estéticos são os elementos da mente que todos nós possuímos. Um prazer subjetivo é tornado universalmente disponível. (45)

Se seguirmos com Kant na purificação do prazer estético e dos juízos de gosto, estipulando que eles estão livres de desejo, então pode parecer que o gênero desapareceu deste debate, porque todos os traços das raízes eróticas para a beleza parecem ter sido expurgados. Podemos, portanto nos sentir confiantes que as alegações sobre universalidade da capacidade de juízos de gosto são verdadeiramente neutros quanto ao gênero pelo menos nos termos desta marca de filosofia. Mas, como se pode provavelmente antecipar, o gênero não é tão facilmente deixado para trás. Para resolver esse problema vamos considerar o conceito de gosto em contexto mais amplo.





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