Prazeres estéticos 1



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Burke sobre a beleza
Em contraste com Hume, que se concentra quase que exclusivamente sobre a natureza humana, Burke passa muito tempo examinando os objetos de gosto, analisando a raiz que desencadeia o prazer da beleza. Grande parte de sua Investigação é dedicada a descobrir quais as características do mundo que afetam o corpo e a mente de maneiras regulares e previsíveis, excitando as paixões e os seus prazeres e dores decorrentes. Ele compartilha com outros escritores de sua época a presunção de que respostas afetivas são semelhantes entre as pessoas e as diferenças são relativamente desvios menores de uma norma. "Existe em todos os homens uma lembrança suficiente das causas naturais originais de prazer, para capacitá-los para trazer todas as coisas oferecidas para os seus sentidos para esse padrão, e para regular seus sentimentos e opiniões por ele"9. De acordo com Burke, respostas afetivas básicas são praticamente reações automáticas a estímulos externos.

Como muitos de seus contemporâneos, Burke divide a maior parte das respostas estéticas em dois tipos: o belo e o sublime. (Vamos aprofundar sobre o sublime no Capítulo 6; aqui ele é apresentado como um ponto de comparação com a beleza). Beleza é uma espécie de prazer; a resposta mais difícil do sublime é realmente fundada na dor, especialmente a profunda dor emocional de terror que, sob certas condições, pode ser convertida em "prazer". Estas respostas podem ser classificadas ainda de acordo com sua preocupação com a sociedade ou com a autopreservação. Sociedade é o reino da beleza e das preocupações com a vida e a saúde; a autopreservação (ou ameaças à autopreservação) fornece o reino do sublime. A taxonomia continua com a subdivisão da "sociedade" em sociedade entre os sexos e sociedade em geral. As conotações heteroeróticas implícitas desde o início emergem explicitamente na discussão das relações entre os sexos, onde Burke encontra a fonte fundamental de beleza.

Animais, Burke afirma, experimentam unicamente a paixão da luxúria. Mas o homem mistura isso com qualidades sociais, "que direcionam e aumentam o apetite que ele tem em comum com todos os outros animais." Qualidades sensíveis determinam o que ele acha bonito10. Esta resposta estética primitiva está abaixo da razão e do controle racional. Algumas coisas, e beleza pessoal é apenas uma em várias (incluindo mímesis), simplesmente agradam por causa da maneira que nós somos feitos

sem qualquer intervenção da faculdade de raciocínio, mas apenas a partir de nossa constituição natural, a qual a providência enquadrou de tal (42) modo a encontrar o prazer ou deleite de acordo com a natureza do objeto, em tudo o que diz respeito aos propósitos de nosso ser11.


E, como os teóricos desde Platão, Burke acredita que a beleza não desperta apenas prazer, mas amor.

Os tipos de objetos que achamos belo, diz Burke, são pequenos, limitados, curvos, suaves, gentis no contorno, e delicadamente coloridos. Isto é verdade para uma flor ou uma forma abstrata ou um corpo humano. Por outro lado, os objetos sublimes são ásperos, irregulares, sem limites, poderosos, temíveis e escuros; eles ameaçam a vida mais que sugerem a sua perpetuação. As características gerais, abstratas de qualquer objeto belo são extrapoladas a partir da beleza do corpo feminino. Burke é eloquente quanto a essa beleza, quando manifestada no pescoço de uma mulher e seios: "A suavidade; a leveza; o volume fácil e insensível, a variedade de superfície, que nunca é para o menor espaço a mesma; o labirinto enganoso, através do qual o olho instável desliza vertiginosamente..."12 Como se para esfriar seu ardor, bem como sua prosa, ele invoca a linha formal de graça de Hogarth como uma confirmação, mas isso pode ser lido igualmente bem como implicando gênero na própria linha serpentina matemática.

A conexão de prazer estético com o desejo erótico e a óbvia base do gênero da apresentação de Burke de beleza (para não mencionar o seu presumível viés racial e cultural, pois ele exclui pele escura como belo) é suficientemente óbvia que a crítica feminista está, talvez, quase fora de questão. Mas a sua teoria é tão central, um exemplar da estética moderna, que também podemos vê-lo como um paradigma de formas de pensar que aparecem por todo o campo em formas mais sutis, em que atitudes masculinistas e eurocêntricas estão mais encobertas. Tal tem sido o argumento daqueles que afirmam que mesmo a beleza pura, desinteressada de Kant deve ser entendida como um véu para a fonte heteroerótica operando no subsolo. A análise de Burke também indica por que a teoria feminista tem frequentemente uma relação conflituosa com o conceito de beleza, ou seja, por causa da tendência a concentrar-se na objetivação da aparência das mulheres13.

Se todas as teorias estéticas se assemelhavam à de Burke, então haveria pouca controvérsia sobre a valência do gênero do valor estético básico de beleza. Mas teorias diferem consideravelmente umas das outras, mesmo quando elas são produto da mesma época cultural e, em muitas das possibilidades eróticas para o prazer, foram efetivamente excluídas da categoria de genuínas respostas estéticas. São estes os progenitores mais influentes dos ideais de contemplação estética que foram amplamente defendidas no final do século XIX e (43) início do século XX. Indiscutivelmente, o teórico mais influente do Iluminismo do século XVIII foi Emmanuel Kant.





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