Prazeres estéticos 1



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A Estética
"Estética" é um termo cunhado pelos filósofos para designar um tipo de experiência para a qual não havia termo vernacular adequado2. Quando o termo "estética" foi utilizado pela primeira vez na filosofia alemã, no século XVIII, ele se referia ao que era considerado como um nível de cognição que se recebe da experiência sensorial imediata antes da abstração intelectual que organiza o conhecimento geral. Mas logo foi revisto para referir de forma mais ampla à visão particular que uma forte experiência de beleza transmite. O imediatismo, singularidade e intimidade de ambos, experiência sensorial e beleza, indicam mais uma intuição particular do conhecimento geral. Como as teorias foram formuladas para explicar a ideia de um domínio especial de prazer estético, o termo eventualmente tornou-se (no século XIX), o rótulo de uma área específica do estudo filosófico: a estética. Esta coincidência de denominação e desenvolvimento da teoria levou alguns estudiosos a declarar que a estética é originária do século XVIII, o que seria um exagero. No entanto, este período testemunhou profundas discussões do prazer e dos objetos de prazer que fundamentaram muitas das abordagens modernas para a apreciação crítica e para a arte.

O papel central do prazer na teoria estética é facilmente compreensível se se examina o termo clássico da aprovação estética: beleza. O que é a beleza? Quando alguém chama um objeto de bonito, ao que se refere? Isto sempre coloca uma espécie de quebra-cabeça, porque os objetos de beleza são tão diversos que é difícil de localizar uma única qualidade que eles compartilhem. Um poema é bonito, um cisne é bonito, assim como uma música, um gesto, uma pessoa. Alguns filósofos, com destaque para Platão, têm defendido que "beleza" nomeia a qualidade possuída por todos esses objetos e em virtude da qual eles são belos3. De acordo com tal análise esta qualidade, embora misteriosa e difícil de identificar com precisão, é objetiva, o que significa que ele reside no próprio objeto e não é dependente da resposta de um observador para a sua existência. Outros filósofos têm sido mais céticos sobre a presença de uma qualidade objetiva em coisas bonitas, presumindo que o que compartilham não é uma propriedade específica, mas a capacidade de evocar uma resposta em um sujeito — a pessoa que os achar bonitos.

Por uma série de razões, esta última abordagem, mais "subjetiva" da beleza ganhou impulso no final do século XVII e persistiu como um tema de debate intenso durante todo o século XVIII. O catalisador geral disso foi a ascensão do empirismo, uma filosofia que defende que todas as nossas ideias são, em última análise, originadas na experiência sensorial. Como não há nenhuma qualidade sensível simples de beleza, reivindicações empiristas, este valor é mais bem entendido como uma ideia composta a partir da percepção de várias qualidades sensíveis dos objetos mais a sensação de prazer4. Por exemplo, encontrar um belo pôr-do-sol envolve perceber sua vermelhidão intensa, os feixes que irradiam do sol em um horizonte escuro, e assim por diante, juntamente com a sensação de prazer que eles despertam. Não há nenhuma razão empírica ou científica para pensar que "belo" é o nome de uma qualidade de tais objetos eles mesmos; é um efeito subjetivo que envolve o despertar do sentimento.

A ênfase no prazer levanta alguns problemas, porque o prazer parece ser fundamental para respostas individuais, mesmo idiossincráticas, mas a beleza parece ser (38) mais que uma questão de capricho puramente subjetivo. Além disso, era bastante aceito no início do período moderno que o prazer acontece quando algum desejo é satisfeito, e que os desejos tendem a ser egoístas e autointeressados. Genericamente falando, eles sustentam e promovem a própria situação pessoal, seja física ou social. O exemplo mais simples de prazer por este modelo seria o prazer corporal de comer; comer é agradável quando se está com fome e o desejo de comer é agudo. Ainda mais pertinente para apreciação de gênero é a aptidão do desejo sexual para este modelo: o prazer vem quando o desejo é despertado, e então satisfeito. Não só a beleza é pressuposta na ligação de prazer e desejo, mas também qualidades de valor tais como bondade e virtude morais, pois elas também envolvem algum tipo de resposta de prazer ao invés de referência a qualidades objetivas tais como bondade. Enquanto alguns filósofos (notadamente Thomas Hobbes) endossaram a ideia de que a atividade humana é alimentada por impulsos egocêntricos, e que os valores qualitativos indicam a satisfação direta ou indireta de desejos egoístas, muitos consideram isso como uma descrição perigosa e imprecisa da atividade e do caráter humanos. Eles se esforçaram para fornecer critérios comuns para respostas ao prazer que delimitam o egoísmo idiossincrático do desejo pessoal. Na estética, esta tarefa consiste em estabelecer um "padrão de gosto"5. Embora houvesse muitas teorias diferentes dirigidas a essa questão, a maioria compartilhou uma tendência a separar prazer de um tipo estético de outros tipos de avaliações, tanto as sensuais, as práticas e até mesmo as morais 6. (Como vimos no último capítulo, a associação de beleza com virtude manteve-se forte, e qualidades morais foram as últimas entre outros valores a se separarem da estética.)

O termo "gosto" é central nos debates sobre a resposta estética à arte e para a natureza. O sentido literal, gustativo de gosto nunca foi considerado um "senso estético", isto é, um sentimento que proporcione prazeres estéticos ou que tome como seu objeto uma obra de arte. (As razões para essa exclusão, as quais estão cheias de significado de gênero, são exploradas no Capítulo 4.) No entanto, a linguagem do gosto fornece sim metáfora chave para o entendimento da apreensão e apreciação estéticas. Várias características do sentido gustativo são deixadas de lado. A ideia de uma região distinta de experiência estética tem origem no reconhecimento de que há encontros imediatos, singulares, que produzem visão de si e prazer. O sentido do paladar também requer experiência íntima, imediata; e mais, gosto raramente ocorre sem um componente de prazer-desprazer para a sensação. Além disso, como na apreciação da poesia, música ou outras artes, pode-se desenvolver o (gosto do) paladar para que as preferências alimentares tornem-se mais refinadas e sofisticadas (39) e se tenha prazer na sutileza e complexidade do sabor. Estas estão entre as características do sentido gustativo que combinam com seu uso em contextos estéticos.

Gosto também é inegavelmente "subjetivo", tanto que é isso que se quer dizer com a expressão, “gosto não se discute." Esta máxima indica a tendência a confundir uma experiência subjetiva com aquela que também é relativa a indivíduos diferentes, isto é, aquele que não compartilha padrões de adequação ou precisão. O chamado problema de gosto que ocupou escritores no século XVIII foi a forma de reconhecer a subjetividade do gosto e ainda manter uma base para padrões de gosto quando se fala de arte. Porque não importa quão central o prazer seja questão na apreciação e julgamento estéticos, uma arte é melhor que a outra, e, portanto, algum gosto é melhor do que o outro gosto. Como isso funciona?





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