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Prefácio da segunda edição



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Prefácio da segunda edição
As aventuras de Robinson Crusoé constituem talvez o mais popular livro do mundo. Da mesma categoria são estas de Hans Staden. Se as de Robinson tiveram a divulgação conhecida, proveio de passarem às mãos das crianças em adaptações conforme a idade, e sempre remoçadas no estilo, de acordo com os tempos. Com as de Staden tal não sucedeu ― e em conseqüência foram esquecidas. Quem lê hoje, ou pode ler, o livro de Defoe na forma primitiva em que apareceu? Os eruditos. Também só os eruditos arrostam hoje a leitura do original das aventuras de Staden. Traduzidas ambas, porém, em harmonia moderna, toante com o gosto do momento, emparelham-se em pitoresco, interesse humano e lição moral. Equivalem-se.

Anos atrás tivemos a idéia de extrair do quase incompreensível e indigesto original de Staden esta versão para as crianças ― e a acolhida que teve a primeira edição, bastante larga, leva-nos a dar a segunda. Trazia à guisa de prefácio estas palavras que ainda não são descabidas:

É inestimável o valor das memórias de Hans Staden, o aventureiro alemão que esteve prisioneiro dos tupinambás oito meses durante o ano de 1554. Representam o melhor documento daquela época quanto aos costumes e mentalidade dos índios. Em vista disso Dona Benta não poderia deixar de contar a história de Hans Staden aos seus queridos netos ― como não poderão as outras avós e mães deixar de repeti-la aos seus netos e filhos. Para facilitar-lhes a tarefa, damos a público este apanhado, em linguagem bem simples, no qual seguimos fielmente a obra original.

O grande valor do livro de Hans Staden para nós do Brasil é que é o primeiro aparecido no mundo, sobre a nossa terra. A primeira edição foi dada em Marpurgo, na Alemanha, em 1557 ― isto é, 57 anos apenas, depois do descobrimento de Pedro Álvares Cabral. 41


Peço ao leitor que tente guardar na memória estas palavras de Lobato; ou que faça uma marca dobrando o canto superior desta página. Precisarei voltar à defesa que o nosso primeiro grande escritor-adaptador faz de seu ofício a fim de compará-la com outros argumentos mais recentes. Por ora, para encerrar este capítulo, creio ser necessário registrar mais algumas informações históricas sobre a fase de nacionalização do livro escolar.

A Cia. Editora Nacional sempre se destacou em livros escolares e para jovens leitores, mesmo depois de Monteiro Lobato ter deixado a empresa.

Empreendedor por natureza, e com óbvio gosto pelo risco, Lobato não resistiu ao canto de sereia da Bolsa de Valores de Nova York (onde foi viver a partir de 1927, como adido comercial brasileiro) e acabou perdendo todas suas aplicações no crack de 1929. De volta ao Brasil, para fazer capital novamente, e se arriscar em outras aventuras, como ferro e petróleo, Lobato vendeu suas ações da Nacional para o sócio Octalles Marcondes. Pela legislação da época e pelos contratos assinados, isso significou, na prática, que Lobato se desfez de seus direitos de autor sobre sua obra já publicada. O Sr. Octalles Marcondes, entretanto, agiu de maneira rara e exemplar. Como homem de negócios, tomou posse dos livros escritos pelo criador do Sítio. Como amigo, continuou pagando por fora, e em dia, os direitos autorais a que Lobato, por lei, não teria mais direito. Nos anos seguintes, nunca deixou de encomendar regularmente serviços ao velho amigo ― como consultorias editoriais, traduções e adaptações ― e de publicar seus novos livros. Era uma amizade sólida. Em 1944, quando Lobato embarcava na editora Brasiliense, Octalles Marcondes fez questão de devolver plenamente os direitos sobre a obra lobatiana ao seu autor, para que pudesse publicá-la por sua nova editora. Dizem que Lobato chorou nesse dia. 42

A velha Cia. Editora Nacional era moderníssima, estruturou suas publicações na forma de coleções, que funcionavam, naquele tempo, como os selos editoriais usados atualmente. Cada coleção (ou selo) correspondia a uma linha específica de produtos editoriais (títulos) destinados a divulgação e consumo junto a um tipo pré-definido de consumidor (leitores). O investimento em propaganda era constante e adequado. Livros para jovens do sexo feminino, por exemplo, eram publicados na coleção “Biblioteca das Moças” e divulgados em revistas femininas.

Traduzir e adaptar era uma constante em várias coleções da editora. Para seus fundadores, Monteiro Lobato e Octalles Marcondes, “traduzir e adaptar” era uma atividade legítima, normal e útil. A coleção favorita de Octalles, por exemplo, chamava-se “Biblioteca do Espírito Moderno”; nela o dono da Nacional procurava publicar obras com o objetivo mais do que explícito de “condensar, esclarecer e popularizar a herança cultural da espécie”. E a propaganda da coleção, na década de 1930, dizia: “Divulgar sem vulgarizar (...) trata-se, pois, de coleção eminentemente democrática, permitindo a um público cada vez maior o contacto com as cousas do espírito que é moderno pelo que terá de amplo, de vivo, de atualizado.” 43

Na estratégia de marketing editorial da Nacional, os livros bons eram os “atualizados”.

A velha Cia. Editora Nacional foi líder por décadas. Em 1973, o editor Octalles Marcondes morreu e sua família resolveu vender a empresa. Quem acabou ficando com ela foi o governo federal, por meio do antigo Bnde ― Banco Nacional do Desenvolvimento Econômico. Dirigida por pessoal inexperiente, perdeu mercado e importância, tornou-se uma sombra (história parecida aconteceria com a antiga José Olympio). Em 1980, foi privatizada e comprada pelo Ibep ― Instituto Brasileiro de Edições Pedagógicas. Não voltaria mais a ser aquela editora que Monteiro Lobato e Octalles Marcondes haviam construído. Por isso é muito comum se falar ou escrever acerca da “velha” Cia. Editora Nacional; assim evita-se confusões com a empresa que existe atualmente. 44

A partir da década de 1930, com o governo Getúlio Vargas, a velha Nacional cresceria rapidamente, acompanhando o ritmo acelerado da expansão do público escolar e, portanto, do mercado de livros didáticos e paradidáticos. O programa de educação básica do governo Vargas, para a época, foi uma revolução. Por meio do recém-criado Ministério da Educação e Saúde, o programa de educação básica promoveu uma ampla reforma do ensino, que acabou beneficiando a indústria do livro, pois, de imediato, consolidou o mercado didático e, a médio prazo, ampliou o público leitor. Talvez por mera coincidência, talvez por interesse político, a Nacional convidou um dos mentores desse projeto, o educador Fernando de Azevedo, para assessorar a editora na formação da “Biblioteca Pedagógica Brasileira”. 45

A vertiginosa expansão da base escolar na década de 1930, de certa maneira, foi resultado da industrialização e urbanização crescentes na sociedade brasileira. Um processo que o regime de Getúlio Vargas soube reconhecer e, depois, incrementar. Os filhos das camadas médias da população urbana aumentaram sua presença nos bancos escolares ou passaram a permanecer neles por mais tempo do que antes. As taxas de analfabetismo e exclusão continuariam altíssimas, mas o avanço em relação às décadas anteriores era significativo. As vendas de livros escolares não deixavam dúvida a respeito; de livros escolares brasileiros, vale registrar.

As políticas implantadas pelo recém-criado Ministério da Educação e Saúde combinadas com a taxa de câmbio desfavorável às importações, inclusive as de livros, criaram condições de extrema competitividade para o livro escolar nacional. Pela primeira vez na história, o livro produzido no Brasil podia custar bem mais barato do que o trazido do exterior. Os didáticos e paradidáticos portugueses desapareceram das escolas brasileiras, por fatores de mercado e decisão do Estado. Acabava o tempo dos pioneiros; a nacionalização de conteúdo e linguagem dos livros para adoção escolar era uma questão vital para o regime. Mas a contrapartida exigida pelo incentivo ao livro didático nacional era uma postura extremamente nacionalista afinada com as orientações do governo Vargas, um ditadura com tendências fascistizantes. 46

Se me permitem uma pequena arbitrariedade, não desprovida de certa lógica, gostaria de sugerir como data simbólica para a conclusão deste processo histórico de nacionalização do livro escolar a exposição comemorativa do centenário de nascimento de Machado de Assis, organizada pelo Instituto Nacional do Livro em julho de 1939. A própria criação do Inl, em 1937, constitui um marco de grande importância; era por meio do instituto que o governo pretendia incentivar mas também censurar a produção de livros. A exposição do centenário, ao mesmo tempo que confirmava Machado de Assis como paradigma para os escritores brasileiros e estabelecia sua obra como canônica, destronava Camões do topo da nobre literatura a ser ensinada nas nossas escolas, ou seja: nacionalizava oficialmente o valor estético das belas letras em língua portuguesa.47

E Monteiro Lobato? Para onde foi nosso herói? O autor que nunca tirava o olho do mercado-escola, deveria ter sido o maior beneficiado pelo ambiente favorável criado para o livro escolar nacional. Certo? Em política, porém, a lógica nem sempre funciona. Desde 1931, Lobato e Getúlio vinham se desentendendo publicamente por causa do petróleo e das políticas estatais para os minérios do nosso subsolo. Em 1940, o presidente fez uma última tentativa de cooptar Lobato para o regime, oferecendo-lhe a direção de um Ministério da Propaganda a ser criado. Lobato recusou e, menos de um ano depois, estava preso por enviar carta a Vargas culpando o próprio ditador pela má condução da política brasileira de minérios. São fatos que, se não nos interessam diretamente, pelo menos nos lembram que Lobato não recebeu benefícios nem recompensas do Estado por seu extraordinário empenho pessoal na nacionalização do livro escolar. 48

Aliás, o empenho de Lobato foi desinteressado? Não, vimos que não. Como também não era de todo desinteressado o movimento contra os livros portugueses iniciado no século XIX. A conquista do mercado-escola era uma promessa de lucro. Livro é um produto industrial, precisa ser rentável para existir. E, se escrever para publicar é uma profissão, tem de haver condições para que o trabalho de um autor possa ser remunerado. Em O preço da leitura ― Leis e números por detrás das letras, Marisa Lajolo e Regina Zilberman demonstram que a história da literatura moderna é também uma história econômica, que os escritores, editores, distribuidores e livreiros estão todos inseridos no mundo burguês, pois a indústria editorial é um negócio capitalista.

Monteiro Lobato ― como escritor, editor ou empresário ― desejava, entre outras coisas, ganhar dinheiro; considerava que escrever era uma profissão. E várias vezes, para sobreviver, teve de depender do que escrevia, traduzia ou adaptava.49 Ele traduzia e adaptava ― ou parafraseava ― autores estrangeiros para ganhar dinheiro no mercado-escola e era, como ainda é, aplaudido por isso. Criou um estilo, tornou-se paradigma de brasilidade. Suas paráfrases sobre Peter Pan, D. Quixote e Hans Staden são elogiadas por professores e pela crítica especializada. Que tenham sido concebidas como produtos editoriais para consumo no mercado escolar não as desmerece em nada, tanto que se tornaram textos canônicos.





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