Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro


Adaptações de clássicos nacionais



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Adaptações de clássicos nacionais

como subprodutos do capitalismo
No Brasil, o comércio de clássicos da literatura no mercado-escola (denominação daquele segmento do mercado editorial que vive da venda por adoção) tinha até 1997 duas frentes: os clássicos nacionais e os estrangeiros — sempre explorando, nos dois casos, as obras de domínio público. E, desde os tempos de Monteiro Lobato, há certa tradição brasileira de publicar adaptações, o que sempre foi considerado uma espécie de estratégia para seduzir e conquistar novos leitores para antigos heróis. Atenção: heróis, não textos.

As adaptações, na tradição nacional, recontavam as aventuras de heróis como Robin Hood, Ivanhoé, Rei Arthur e os seus destemidos Cavaleiros da Távola Redonda, Carlos Magno e os Doze Pares de França, Simbad, Aladim, Ali Babá, o Conde de Monte Cristo, D’Artagnan e os Três Mosqueteiros, Hércules etc. Personagens que se tornaram mais memoráveis e importantes do que as narrativas onde surgiram. A adaptação brasileira, seja na narrativa escrita ou na nossa esplêndida tradição oral, nasceu recontando romances de cavalaria, histórias das mil e uma noites e até mitos gregos (obs: as histórias árabes, indianas, chinesas e persas das mil e uma noites só chegaram a nós depois de se tornarem populares e consagradas na Europa). O público adora, e nem precisa ser letrado. O folclorista Câmara Cascudo registrou dezenas de contos populares lá do sertão nordestino (narrativas orais) que são versões de histórias medievais européias e árabes.

Quando a editora Tecnoprint (depois chamada Edições de Ouro, e atualmente Ediouro) lançou, nos anos 60, sua coleção de clássicos estrangeiros adaptados não houve nem susto nem surpresa. E os autores convidados para escrever as adaptações formavam uma verdadeira seleção nacional: Carlos Heitor Cony, Clarice Lispector, Paulo Mendes Campos, Fernando Sabino, Maria Clara Machado, Orígenes Lessa... a lista é enorme. Como a iniciativa deu certo e se mostrou bastante rentável, outras editoras passaram a investir no mesmo segmento. Todo mundo achou normal: os professores adoraram trabalhar com textos leves e curtos — se comparados aos textos originais — e os pais dos alunos elogiaram os preços acessíveis (adaptações são produtos editoriais vendidos por preços baixos, pois consomem pouco papel e têm uma margem de risco bem calculada).

Os chamados clássicos adaptados são criações por encomenda, tendo como base somente títulos de domínio público. Possuem mercado consumidor garantido em nossas salas de aula porque, normalmente, baseiam-se em obras que integram os cânones da literatura ocidental. São livros que se propõem a ser fiéis à essência do original (que Michel Foucault, em A ordem do discurso, chamaria de texto primeiro ― aquele historicamente anterior, o que pode ser reconhecido como o primeiro da linhagem). E a confiança nesta fidelidade é vital para os professores que os adotam. Na prática, os professores são os consumidores e os alunos, usuários; afinal são os professores que determinam a compra.

Quebre-se a confiança que os professores têm nos clássicos adaptados e será o fim deste segmento editorial. A obra original e seu autor são fatores determinantes da adoção. São eles que detêm, atualmente, o valor de grife (estou me apropriando da expressão usada por Leila Perrone-Moisés, ver capítulo 4). Nos tempos de Lobato, quando o nosso mercado editorial ainda era um tanto quanto ingênuo e amador, este precioso valor de grife, que distingue e recomenda o livro ao seu leitor/consumidor em potencial, pertencia ao adaptador.

Foi em 1997, entretanto, que ocorreu a grande ruptura na tradição brasileira de adaptações: a editora paulista Scipione anunciou ao mercado-escola, por meio de catálogos, folhetos e cartazes, o lançamento de uma série de clássicos nacionais adaptados. Os dois primeiros títulos foram: O Ateneu, de Raul Pompéia, adaptado por Carlos Heitor Cony, e Memórias póstumas de Brás Cubas, de Machado de Assis, adaptado por José Louzeiro. O impacto do novo foi violento. Editoras, críticos, professores, escritores e alunos se dividiram a respeito da novidade. Muitos críticos continuam em estado de choque, não acreditam na audácia. Os escritores convidados para adaptar os clássicos nacionais defendem a legitimidade de se reescrever os textos canônicos de domínio público já incorporados ao patrimônio cultural brasileiro; os não-convidados contestam. Há professores e alunos bem satisfeitos de contar com a opção de livros que podem ser lidos em pouco tempo. Há professores que não percebem nenhuma utilidade pedagógica nas adaptações. Outros, preferem nem tocar no assunto.

As editoras estão fazendo cálculos e projetando a que velocidade o novíssimo segmento de clássicos nacionais adaptados pode crescer nos próximos anos. É o cânone transformado em subproduto no jogo do capitalismo. Atenção: o cânone como produto capitalista já existe há três décadas no Brasil (são os próprios clássicos em edições baratas para adoção escolar); o subproduto (a adaptação) é que constitui novidade sobre a qual ainda há pouca reflexão acadêmica. Repito: os estudos de literatura se importam mais com a formação dos cânones (o processo de seleção) do que com os aspectos econômicos de sua permanência (como as reedições, o comércio de livros e a adoção escolar, por exemplo).

E que tipo de permanência estamos considerando quando o texto de Raul Pompéia é substituído pelo de Carlos Heitor Cony?




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