Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro



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INTRODUÇÃO

Livros escolares são fonte insubstituível para qualquer história da leitura: não só porque, por hipótese, tais livros são instrumento sistemático para a formação de leitores, mas porque eles são também documento privilegiado para uma história da educação e da escola com a qual necessariamente se cruza a história social da leitura. E também a da literatura.1

Marisa Lajolo e Regina Zilberman

O assunto em questão desperta polêmicas: teóricas, pedagógicas, artísticas, históricas e comerciais. Tentarei abordar cada uma delas no tempo certo, ao longo desta dissertação, que, de certa maneira, pretende lançar um novo olhar sobre um tipo de narrativa que, a meu ver, tem sido marginalizado pela comunidade acadêmica. As adaptações de clássicos literários para leitores jovens ou adolescentes são bem aceitas em países hegemônicos (e com excelente base de leitores) como Estados Unidos, Inglaterra, França, Itália, Alemanha e Espanha, mas vistas com muita desconfiança e certa má-vontade aqui no Brasil. Por quê? Creio que uma retrospectiva histórica nos ajudará a entender melhor as origens do problema e sua evolução até o presente. Então, talvez, cada um de nós possa repensar sua posição pessoal sobre a arte (e o ofício) de recontar histórias que já foram contadas antes.

Certas questões, geralmente consideradas pós-modernas, como inter-textualidade, paródias e pastiches, comunicação de massa etc., ganharão alguns comentários, mas não por ora. Haverá também alguns diálogos entre alta e baixa cultura. Mais tarde. Chegaremos lá, não é necessário ter pressa. Primeiro, precisamos retroceder quase um século, aos primórdios do livro e da escola pública no Brasil.

Peço, desde já, desculpas pelo excesso de repetição dessas duas palavras: livro e escola. Entretanto, como ficará fácil entender durante a leitura, é simplesmente inevitável.

Começando bem lá atrás, com iniciativas pioneiras como a do poeta Olavo Bilac, passando pela militância de empreendedores como o escritor-editor José Bento Monteiro Lobato (nosso Dom Quixote livresco) e chegando a adaptadores profissionais como Carlos Heitor Cony, Ana Maria Machado, Paulo Mendes Campos e tantos outros menos famosos e prestigiados, nossa jornada será longa. Espero, porém, que não seja cansativa.

Vamos relembrar como surgiram e se popularizaram as adaptações aqui em nosso país. A trajetória profissional de Monteiro Lobato ilustrará uma fase marcante, tanto para disseminação de narrativas adaptadas destinadas ao público infanto-juvenil como para a construção de uma verdadeira indústria editorial — até então inexistente no Brasil.

Veremos como, a partir dos anos 1970, a adoção de clássicos nacionais e de adaptações de clássicos estrangeiros nas escolas brasileiras tornou-se um grande negócio associado ao consumo de livros didáticos. Tentarei mostrar como a escola nacional, e não as livrarias ou bibliotecas, tornou-se, de fato, o espaço de distribuição e consumo dos clássicos literários.

Nossa escola (e seus professores) sobrevive sobrecarregada em suas funções pedagógicas, tendo, entre muitas outras, a missão de formar novos leitores e também perpetuar os cânones da literatura. As dificuldades para tanto são amplamente conhecidas, as limitações enfrentadas pelas instituições públicas, mesmo pelas melhores entre elas, são sempre relembradas. As insatisfações dos professores, a falta de condições de trabalho minimamente adequadas, os salários injustos... São tantos os problemas que é raro lembrarmos que nossas escolas, por uma questão de escala, constituem um mercado consumidor vasto e poderoso.

No capitalismo moderno, e na prática escolar brasileira, os cânones literários devem ser considerados como produtos culturais de alto valor de mercado. Os chamados “clássicos escolares”, mesmo em edições baratas, movimentam fortunas impressionantes e desempenham papel deveras importante na manutenção da “indústria do livro didático” em seus períodos de entressafra (o livro didático é sazonal).

O comércio massificado de livros e suas questões mercadológicas (pro-dução, distribuição, preço, lucro) constituem fatores fundamentais para que se possa compreender determinadas situações e polêmicas. Queiramos ou não, os clássicos literários são mercadorias que o capitalismo negocia livremente.

Quando estivermos chegando perto do tempo presente, a polêmica atingirá seu potencial máximo com o lançamento da coleção “Reencontro Nacional”, da editora Scipione, em que vários dos títulos clássicos da nossa literatura são publicados em versões adaptadas para o público escolar dos dias de hoje. O escritor, e membro da Academia Brasileira de Letras, Carlos Heitor Cony, que já havia se destacado como adaptador na “Clássicos para o jovem leitor” — coleção de clássicos estrangeiros publicada pela Ediouro (antiga Edições de Ouro e, em certa época, conhecida como editora Tecnoprint) —, é uma das estrelas desta nova coleção de clássicos nacionais adaptados e chegou a publicar um texto especial em sua coluna no jornal Folha de S. Paulo para defender, apaixonadamente, seu trabalho e a legitimidade das adaptações.

Adaptar é legítimo? Adaptar para quê? Por quê?

Muitas perguntas. Muitas dúvidas.

Uma pergunta de cada vez. Tentarei responder a cada uma na hora certa (e no capítulo certo). Muito embora meu objetivo atual não seja gerar respostas, mas formular adequadamente o problema. Acredito que esta será a minha contribuição.





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