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JORNAL – FOLHA DE SÃO PAULO – 29.06.2012 – PÁG.A02



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JORNAL – FOLHA DE SÃO PAULO – 29.06.2012 – PÁG.A02
Nome de rua

Ruy Castro


Quando morre um ilustre, não faltam admiradores propondo o seu nome para uma rua. Não importa que a rua já tenha o nome de outro ilustre que, em seu tempo, também mereceu ser homenageado -mas cujas glórias esmaeceram tanto que, com os anos, não se sabe mais o que ele está fazendo naquela placa. Alguém então sugere trocá-lo pelo ilustre recém-morto.
Ótimo, mas quem paga a conta são os moradores e comerciantes da dita rua, obrigados a alterar seus documentos para o novo nome. A grita às vezes é tão grande que a homenagem se frustra. E o ilustre original também tem seus direitos, não? Em 1994, a família do engenheiro carioca Vieira Souto (1849-1922), responsável pela construção do porto do Rio, compreensivelmente barrou a ideia de se alterar o nome da sua avenida para Antonio Carlos Jobim.
Nova York descobriu como prestar essas homenagens sem mexer com a tradição. Em algumas esquinas, logo abaixo da placa oficial, afixa-se outra com os dizeres: "Duke Ellington corner", "Jelly Roll Morton place" etc. Ninguém é prejudicado e faz-se a homenagem do mesmo jeito.
Millôr Fernandes, que morreu em março último, sabia que, um dia, seria nome de rua em Ipanema. Mas não queria desalojar ninguém. Contentava-se com que dessem seu nome a um banco na calçada do Arpoador, onde as pessoas pudessem sentar-se e contemplar o maior pôr de sol urbano do mundo.
Nesta tarde, Fernanda Montenegro, Jaime Lerner, Ferreira Gullar, Fernando Pedreira e outros cidadãos de Ipanema vão levar essa reivindicação ao prefeito Eduardo Paes. Mas é pouco. Donde aproveitarão para pedir que o larguinho sem nome, no mesmo Arpoador, junto à praia do Diabo e reduto do frescobol, passe a chamar-se -a exemplo do largo do Machado, do largo da Carioca e de outros históricos largos cariocas- largo do Millôr.
Falar de flor

Marina Silva


"Uma flor nasceu na rua!/Passem de longe, bondes, ônibus, rio de aço do tráfego./Uma flor ainda desbotada ilude a polícia, rompe o asfalto./Façam completo silêncio, paralisem os negócios, garanto que uma flor nasceu."
Após o paralisante "nada a declarar" de líderes mundiais na Rio+20, é preciso muita poesia para manter a persistência que -como diz o apóstolo- produz a esperança. E então a acidez singela da poesia de Drummond veio em socorro de minha fome poética. O genial poeta itabirano celebra o nascimento de uma flor na fresta do asfalto, superando a indiferença humana e o pesado invólucro da civilização.
Assim me sinto ao lembrar os intensos dias em que organizações civis e milhares de pessoas manifestaram, no Rio, sua indignada exigência de atenção perante os dirigentes de Estado reunidos na conferência da ONU. Gente de todos os continentes, de jovens ativistas de grandes cidades a líderes de pequenas comunidades indígenas, dando demonstrações criativas, como a "Marcha a Ré" que parou o Rio, de que o mundo quer viver.
Infelizmente, a conferência oficial não ouviu isso. E o poema de Drummond me revela sua dimensão profética, que, feitas as contas, pode ser válida até a Rio+40 se predominar a desdita ambiental das necessidades presentes: "Depois de quarenta anos,/e nenhum problema resolvido, sequer colocado./Nenhuma carta escrita nem recebida./Todos os homens voltam pra casa".
Mas o desafio dos que voltam para casa, décadas após décadas de "Rio+" que se somam sem subtrair os problemas, é extrair a "esperança mínima" de que fala o poeta, para não cair no vazio da queixa que paralisa até os jovens, cuja natureza é andar: Andar à frente,/andar ao lado,/de marcha a ré e atravessado,/enveredando pelo futuro,/no chão dos rastros deixados.
Desde a retomada da democracia vemos o florescimento de movimentos sociais antes abafados pelo autoritarismo, com um ideário amplo que antecipava o novo milênio. Essa é a flor que agora irrompe no asfalto. Sua delicadeza denuncia as rachaduras do sistema que já não consegue impedi-la de brotar.
Chegou a hora de a sociedade tomar iniciativas próprias, buscar autonomia e independência. Sem recusar nem desconhecer a política e o Estado, ir além deles e fazer mudanças na vida com a noção ampla de um novo contrato natural -pois inclui os demais seres vivos e ecossistemas-, não só um contrato social. Conseguiremos? Estamos maduros para o que o tempo nos exige?
Aqui se revela a necessidade da utopia, que ultrapassa as ilusões limitantes do pragmatismo e reafirma a força da esperança, sem a qual não há futuro. No fim das contas -Drummond sabia-, é a poesia que faz brotar a flor.




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