Plant o Psicol gio: novos rumos


parte da Psicologia. Demo-nos conta de que não era



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parte da Psicologia. Demo-nos conta de que não era
preciso que a escola entendesse, imediatamente, tudo
o que iríamos fazer ali: o fundamental naquele momento
é que aceitasse o desafio e possibilitasse nossa atuação.
Afinal, quem de nós sabia o que estava por vir? Era o
início de nossa presença ali; e sabíamos que clarificar,
continuamente, nossa proposta era mesmo parte de
nosso trabalho. No vivo da interação com a instituição
íamos repropondo e reafirmando os princípios e os
fundamentos. Era imprescindível que fôssemos firmes
em nossa proposta assim como nas exigências
necessárias para colocá-la em prática. E então, melhor
do que argumentar seria mostrar a que viemos.
APRESENTANDO A PROPOSTA
Organizamos uma apresentação da equipe de
plantonistas e de nossa proposta para os alunos – que
sabíamos ser útil a todo o quadro da escola. Evitamos
passar de sala em sala, ou reunir a todos para explicar o
que é Plantão Psicológico. A apresentação da proposta
ao público interessado precisava ter impacto para marcar
nossa presença e nosso trabalho entre eles, sem deixar


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Plantão Psicológico: novos horizontes
também de explicitar com clareza nosso objetivo. Além
do quê, era preciso desmistificar a Psicologia, aproximá-
la da realidade daqueles adolescentes, mostrando a eles
que psicólogo não é “pra doido”, como muitas pessoas
costumam pensar, mas para todos que tenham interesse
em se conhecer melhor, olhar para si e se reconhecer em
suas vivências, cuidar para vivê-las de um modo mais
saudável e consciente; era preciso afirmar que estaríamos
ali disponíveis para acompanhá-los em sua experiência.
Para alcançar tal objetivo elaboramos uma
apresentação que fosse clara e próxima dos alunos,
procurando utilizar uma linguagem própria da idade
deles e que pudesse abarcar ao máximo a realidade em
que vivem. Utilizamos recursos musicais e teatrais pois,
além de provocar certo impacto, era uma maneira em
que nos sentíamos muito à vontade. Estávamos
lançando mão de nossos próprios recursos, oferecendo
nossa disponibilidade, cada um podendo se colocar
com o que tem para oferecer tornando o grupo uma
equipe coesa e disponível, cada um com suas diferenças,
facilitando assim que as diversidades se aproximassem.
Essa forma de se apresentar aconteceu nos três
turnos, aproveitando o horário do recreio, por
considerarmos ser o momento em que poderíamos estar
mais próximos dos alunos e para passar a mensagem que
estávamos propondo um espaço realmente voltado a eles
na escola. Preparamo-nos sem que os alunos soubessem;
apenas a diretoria estava ciente do que iríamos fazer.
Quando tocou o sinal para o recreio e os alunos
começaram a sair das salas e se dirigirem para o pátio nós
começamos a tocar uma música e iniciamos a apresentação,
distribuímos panfletos com a letra de uma música
composta por nós e no verso uma explicação do que
seria o Plantão Psicológico. Utilizamos algumas músicas
já conhecidas, com temática bem jovem e atual, que traziam
questões propícias a se mobilizar em direção a se cuidar,
como por exemplo as de Legião Urbana, Kid Abelha,


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Plantão Psicológico na escola: presença que mobiliza
Lulu Santos, Ultraje a Rigor. Criamos também algumas
músicas-paródia e até compusemos “O Rap do Plantão”.
Seguem alguns exemplos:
Rap do Plantão
Cheguei em casa da escola tô cansado de estudar
Meu pai não me entende não adianta conversar
Minha mãe me repreende não tenho com quem falar
Liguei pra namorada e ela não estava lá
Procurei por meus amigos
Me disseram: Sai pra lá!
Ninguém
Quer me entender
Ninguém
Quer me responder
Em minha cabeça tudo roda e eu não sei o que fazer
Quem sou?
De onde vim?
Pra onde vou?
O que fazer, o que fazer?
Não consigo esclarecer tá difícil de entender
Não consigo me acalmar tá difícil de aguentar
Mil problemas me esquentam
Mil questões me atormentam
E os outros no meu pé
Cada um com seu palpite
Minha cabeça dá um nó
E não há quem acredite
E eu?
O que que eu faço desta vida?
E eu?
Qual vai ser a minha história?
E eu?


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Plantão Psicológico: novos horizontes
Reggae do Plantão
(Paródia de “Pensamento”, do grupo Cidade Negra)
Eu preciso falar do que se passa aqui dentro
Vou procurar o plantão
Preciso de alguém que me escute e me entenda
Prá eu também me entender
É este mundo
É minha vida
Quero mudar
Quero aproveitar
Quem não se cuida
Não curte a vida
Fica parado sem sair do lugar
Exibem poesia as palavras de um rei
Faça sua parte
Que eu te ajudarei
Twist do Plantão
(Paródia de “Twist and Shout”)
     Vou conversar no Plantão (no Plantão)
     Não sei se tem solução (solução)
     É um espaço pra mim (para mim)
     É disto que eu tô afim.
     Ah... Ah... Ah... Ah... Ah...
Melô do Plantão
No plantão falar é “bão”
Muito “bão”
(Repete 3x)
Muito “bão”.
No plantão falar é “bão”.


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Plantão Psicológico na escola: presença que mobiliza
4
 Uma breve edição
em vídeo de filma-
gens feitas durante
estas apresenta-
ções está incluída
no CD-ROM anexo
ao livro. As músicas
também podem ser
ouvidas já integra-
das ao vídeo ou
através de um CD-
player convencio-
nal (faixas 2, 3, 4, e
5)
Pretendíamos criar um momento de
apresentação em que eles se reconhecessem e
pudessem estar mais atentos à explicação que iríamos
dar posteriormente sobre o Serviço.
Elaboramos uma dramatização que pudesse
representar bem a vivência de um adolescente
incompreendido em sua própria casa e que por fim
resolve buscar ajuda no Plantão Psicológico como meio
de pensar e refletir sobre suas questões.
De início os alunos pareciam espantados e aos
poucos foram se ambientando, começaram a interagir
conosco cantando as músicas e batendo palmas, e até
mesmo dançando. Nos entremeios de uma música e
outra e o teatro íamos falando de forma espontânea
quem éramos nós e o que estávamos fazendo ali.
Procuramos tocá-los no que diz respeito à vivência
de ser adolescente cheio de questões, dúvidas, inquietações
e à dificuldade de contar com alguém que possa estar
junto com ele acompanhando-o nessa experiência.
Estávamos propondo a eles que uma maneira “legal” de
se cuidar, de manter-se bem em meio aos problemas e
dificuldades, é dar-se a oportunidade de falar dessas coisas,
pensando sobre elas e sobre como eles podem estar
vivendo de forma consciente cada situação, podendo até
passar a vê-la de modo diferente. Divulgamos assim o
Serviço de forma descontraída sem perder a seriedade
do nosso compromisso com a proposta.
4
OS ATENDIMENTOS E AS DEMANDAS
No dia seguinte à apresentação da proposta aos
alunos, os estagiários começaram a ficar de plantão, na
sala disponibilizada pela escola, e imediatamente os
atendimentos começaram. Os estagiários se dividiam
pelos três turnos de aulas, de segunda a sexta-feira, e
também no sábado de manhã, o que fazia com que sempre
houvesse um ou dois estagiários na sala do Plantão,
disponíveis para os alunos.


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Plantão Psicológico: novos horizontes
Nos atendimentos procurávamos acompanhar a
organização própria dos alunos, pois era centrando na
experiência destes que descobríamos como proceder.
Esta atenção ao movimento que os alunos faziam ao
buscar o Plantão Psicológico nos indicava como
responder à este movimento. Sendo assim, o número
de alunos que participava de uma sessão, a duração desta,
a marcação de uma nova, e o próprio andamento de
cada sessão acompanhavam a necessidade do momento
e não uma regra pré-estabelecida. O que mantínhamos
firme sempre era nossa disponibilidade para ouvi-los,
ajudá-los a examinar sua experiência, e a proposta de
que o Plantão Psicológico era para qualquer aluno que
quisesse ‘se cuidar’. Atendemos então indivíduos e
grupos, em uma ou mais de uma sessão, que duraram
de quinze minutos a uma hora e meia.
Nos casos em que os alunos voltavam, sendo
atendidos diversas vezes, e se percebia uma necessidade
de ajuda que ia além da proposta de atendimento em
Plantão Psicológico (ver abaixo a categoria “Incômodo
com a maneira de ser e de reagir à situações”), nós os
encaminhávamos para Serviços ou clínicas sociais que
oferecessem psicoterapia a um baixo custo ou
gratuitamente. Foram poucos os casos encaminhados,
já que na maioria não houve esta necessidade.
Ao final do primeiro semestre, realizados
atendimentos no período de abril a junho, havíamos
atendido 11,9% do total de alunos da escola (124 de
um total de 1035), em 134 sessões (ver tabela I na
próxima página). Note que o número de alunos
atendidos e de sessões é diferente, já que um aluno
pode ter sido atendido em mais de uma sessão e vários
alunos, em grupo, podem ter sido atendidos em uma
única sessão. Para chegarmos a este total de alunos
atendidos contabilizamos as sessões efetivas, (ou seja,
aquelas em que os alunos haviam se movimentado
frente à alguma questão) deixando de lado, para efeito


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Plantão Psicológico na escola: presença que mobiliza
TABEL
A I
Dados quantitativos sobre cada turno
ALUNOS MATRICULADOS
Número de
alunos
matriculados
em cada
turno
% de alunos
matriculados
em relação
ao número
total de
alunos da
escola
Número de
pessoas
atendidas no
turno
Manhã
ALUNOS ATENDIDOS
ATENDIMENTOS (SESSÕES)
% de pessoas
atendidas no
turno em
rela-ção ao
total de
alunos ma-
triculados no
mesmo turno
% de pessoas
atendidas no
turno em re-
lação ao
total de
pessoas
atendidos na
escola
Número de
atendimentos
no turno
% de
atendimentos
no turno em
relação ao
total de
atendimentos
na escola
423
40,9%
31
7,3%
25
36
26,9
Tarde
126
12,2%
46
36,5%
37,1
14
10,4
Noite
486
46,9%
47
9,7%
37,9
84
62,7
Total
1035
100%
134
100%
100%
124
100%


62
Plantão Psicológico: novos horizontes
de contagem, as situações em que os alunos passavam
rapidamente pela sala do Plantão Psicológico para dizer
olá, espiar, ou fazer um comentário, e aquelas em que
os alunos permaneciam conosco por algum tempo
conversando “fiado” ou querendo saber mais sobre
nossa proposta, fazendo perguntas do tipo “O que é
mesmo o Plantão?”. Vale dizer que algumas situações
como estas serviram como via de acesso à ajuda, ou
seja, o aluno chegava como quem não quer nada para
logo em seguida, já ambientado, conseguir falar de si,
transformando a “visita” em um atendimento, que era
então contabilizado.
Durante todo o semestre os atendimentos eram
discutidos nos encontros semanais de supervisão. Para
cada sessão ou atendimento era feito um relatório
escrito. Nestes encontros, além dos atendimentos,
conversávamos também sobre a instituição em seus
diferentes âmbitos, ou seja, falávamos dos professores,
da diretoria, dos turnos, do que observávamos
enquanto estávamos na escola.
Queríamos estar atentos para as repercussões
que nossa presença estava tendo na escola. Isto também
era parte de nossa proposta de Plantão Psicológico.
Ao escutar os alunos, estávamos intervindo também
na instituição, ajudando estes a se dar conta de suas
necessidades frente à escola, o que poderia mobilizá-
los a atuar nesta para transformá-la. Ao escutar a
instituição em cada um de seus âmbitos estávamos
também intervindo, pois surgiam então respostas que
poderiam ser dadas ao grupo.
Um exemplo disto foi nossa atuação
diferenciada em relação à características singulares que
o turno da tarde tinha em relação aos outros turnos:
No turno da tarde funcionavam três turmas,
todas do primeiro ano do segundo grau, totalizando
cento e vinte e seis alunos. No início do trabalho, os
alunos deste turno não procuraram o Plantão


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Plantão Psicológico na escola: presença que mobiliza
Psicológico, diferenciando-se dos outros turnos onde
a procura foi imediata, acontecendo já no primeiro dia
de funcionamento do Serviço. Através de observações
que os estagiários haviam feito enquanto aguardavam
atendimento e de conversas informais com os alunos,
principalmente no horário do recreio, levantamos
algumas características específicas deste turno que
poderiam explicar a não-procura pelos atendimentos
naquele turno. Concluímos que a procura poderia estar
sendo dificultada por:
- um maior controle sobre os alunos, por parte
de quem ocupava a direção da escola naquele
período, no sentido de evitar que os alunos
ficassem fora de sala de aula no horário letivo;
- um maior controle dos alunos sobre os
próprios alunos. Neste turno haviam poucas
turmas, o que fazia cada aluno estar mais
exposto. Todos eles eram novatos na escola –
já que eram turmas de 1
a
 série do científico – e
estavam provavelmente tentando se ‘enturmar’,
fazer amigos, e a busca por um Serviço de
atendimento psicológico poderia atuar
negativamente neste sentido, pela imagem
tradicional do psicólogo como alguém que
atende ‘loucos’. De fato os alunos que falavam
em procurar o Plantão Psicológico eram
caçoados pelos colegas.
Entendemos que precisávamos intervir
diferenciadamente neste turno para facilitar o acesso à
ajuda. Criamos para isto uma estória em quadrinhos
que foi colocada em um cartaz bem visível aos alunos
deste turno. Essa estória retratava a situação de um
aluno que queria ir ao Plantão Psicológico mas se
intimidava pois os colegas caçoavam quando
expressava esta vontade. Ele conversa então com um
outro colega que havia ido mas que se recusa a explicar
o que havia acontecido lá, dizendo que ‘No plantão falar


64
Plantão Psicológico: novos horizontes
é bão’, com uma expressão muito satisfeita, indicando
que este deveria descobrir por si mesmo. O aluno
decide então ir ao Plantão Psicológico. Com este cartaz
estávamos espelhando a situação dos alunos para eles
mesmos. Era já uma escuta.
Uma outra intervenção desse gênero foi a de
uma estagiária, que envolveu um grupinho de alunos,
convidando-os para a ajudarem a confeccionar um
cartaz onde foi escrito ‘Plantão Psicológico’ para ser
colocado na porta de nossa sala. Buscava com isso
aproximar mais os alunos do nosso espaço de
atendimento, desmistificando também o psicólogo
como distante e como ‘coisa para doido’.
A resposta a estas intervenções foi imediata. No
dia seguinte à fixação da estória em quadrinhos num
corredor da escola, um grupo de alunos apareceu para
conversar. Os atendimentos começaram então a
acontecer também no turno da tarde, no qual foram
atendidos 46 alunos, ou seja, 37,1% do total de alunos
atendidos na escola. O número de atendimentos neste
turno foi de 14, que corresponde a 10,4% dos
atendimentos realizados na escola. A diferença entre o
número de atendimentos e o de alunos atendidos é
grande pois houveram vários atendimentos em grupo
neste turno. Esta ‘preferência’ dos alunos pelos grupos,
e o fato dos atendimentos terem acontecido geralmente
no horário do recreio ou quando algum professor não
comparecia para dar aula, pode ser entendida: se é o
grupo que comparece, diminui o controle individual
que as características de contexto descritas mais acima
exerciam sobre os alunos.
Os turnos da manhã e da noite tinham um
número bem próximo de alunos matriculados, sendo
423 no da manhã e 486 no da noite. Nestes dois turnos
os alunos procuravam o Plantão Psicológico em
qualquer horário, ou seja, no recreio ou durante as aulas,
quando queriam ser atendidos. No turno da manhã,


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Plantão Psicológico na escola: presença que mobiliza
foram atendidos 31 alunos (7,3% do total de alunos
atendidos na escola), em 36 atendimentos (26,9% do
total de atendimentos realizados na escola). Houveram
atendimentos em grupo, embora não tantos quanto no
turno da tarde. O turno da noite se diferencia neste
aspecto pois quase não houveram atendimentos em
grupo. Neste turno ocorreram a maior parte dos
atendimentos realizados na escola (62,7% do total),
sendo atendidos 47 alunos (37,9% do total). Quanto à
porcentagem de pessoas atendidas em cada turno em
relação ao total de alunos naquele mesmo turno, os
turnos da manhã e da tarde se assemelham, com
respectivamente 7,3% e 9,7% de seus alunos atendidos.
Já o turno da tarde se destaca pois teve 36,5% dos
seus alunos atendidos, geralmente em grupos, como já
foi dito.
Após passarmos pela experiência de um
primeiro semestre atendendo em Plantão Psicológico,
surgiu a necessidade de organizar essa experiência,
buscando entender com clareza as necessidades
daqueles sujeitos que nos procuravam. Essa
organização nos daria, através de uma leitura mais
sistematizada das demandas dos alunos, um maior
conhecimento sobre os sujeitos que atendíamos e,
conseqüentemente, uma ajuda para o entendimento da
dinâmica da instituição escolar e até para nossas
intervenções ali. Além disso, seria importante para o
retorno que daríamos à escola sobre nosso trabalho e,
de forma mais geral, sobre as questões mais discutidas
pelos alunos. Esse retorno, por sua vez, poderia levar
a escola a rever sua visão e sua posição frente aos alunos.
Deste modo, passamos um semestre atendendo
em Plantão Psicológico, ouvindo cada pessoa enquanto
pessoas únicas, com demandas próprias, que iam, à
medida em que eram escutadas e se escutavam, fazendo
seu movimento em direção à mudança (cf. Mahfoud,
1989). Mas a singularidade do movimento de cada


66
Plantão Psicológico: novos horizontes
um não ocultava que muitos alunos ali atendidos vinham
falar de coisas que às vezes eram comuns a outros. E
foi em busca do que fosse comum que fizemos uma
categorização das demandas que os alunos da escola
traziam, a partir dos relatórios dos atendimentos que
eram escritos pelos plantonistas.
É importante frisar que as categorias de
demandas não foram criadas antes de examinarmos
atentamente os relatórios, para que tentássemos
encaixar nelas os “problemas já-categorizados” dos
alunos, pois se fizéssemos assim, correríamos o risco
certeiro de distorcer a experiência do aluno
enquadrando-o em “pré-suposições” nossas. Ao
contrário, optando por uma metodologia
fenomenológica, deixamos que as categorias
“emergissem”, fossem “des-cobertas”, após discussões
concentradas sobre os diversos casos.
Assim, discutimos qual o tema central de cada
atendimento, qual a principal demanda que ali se
sobressaía como uma questão importante para o aluno,
na perspectiva dele. Não tentamos ver o que estava
“por trás” do que ele dizia e nem nos guiar em direção
daquilo que mais se chocava aos nossos olhos – mais
que aos deles – como a violência, que por vezes
permeava suas realidades.
Algumas vezes, a questão principal de um sujeito
só aparecia ao final de um atendimento, após serem
discutidos outros assuntos ou mesmo problemas. Mas
o momento em que o tema central aparecia era aquele
em que a demanda tornava-se nítida, através de indícios
como uma maior emoção, atenção, entusiasmo,
constrangimento, “brilhos no olhar” ou até a revelação
da própria pessoa dizendo que aquela era sua demanda
principal, era o principal motivo pelo qual estava ali.
As diversas questões principais “descobertas”
eram comparadas entre si a fim de se descobrir
semelhanças entre elas. Questões que envolviam um


67
Plantão Psicológico na escola: presença que mobiliza
mesmo tipo de dificuldade, incômodo ou mesmo busca
foram, então, agrupadas sob uma mesma expressão que
as abarcasse todas.
Desta forma, elaboramos 15 categorias, além de
uma chamada “demanda indeterminada”. Quando uma
pessoa vinha ao Plantão Psicológico e durante o
atendimento várias questões apareciam como igualmente
importantes para ela, o atendimento era considerado
“demanda indeterminada”. Também dentro desta
categoria foram incluídos os casos em que não foi
identificada nenhuma demanda claramente ou aqueles
em grupo em que cada pessoa trazia uma diferente
questão, aparecendo então uma multiplicidade de
demandas principais na mesma sessão. Essa
impossibilidade de se identificar a demanda se deveu
em alguns casos a relatórios mais interpretativos do que
descritivos que, dando mais ênfase na visão do plantonista
do que na fala do aluno atendido, nos impossibilitou de
identificar sua demanda principal. Perceber essa falha
nos relatórios foi uma indicação valiosa para futuros
relatos de atendimentos e até para atendimentos em si,
nos quais se corre o risco de abandonar a atenção
centrada na pessoa que busca o Plantão Psicológico para
voltá-la para elocubrações que a ultrapassam.
A escola tinha expectativas quanto às questões
que mais seriam abordadas pelos seus alunos.
Esperavam, por exemplo, que os alunos falassem de
gravidez na adolescência, de seus professores e
diretoras e ainda de abuso de álcool. Nós mesmos
esperávamos que o tema “violência” aparecesse
enquanto uma categoria isolada, já que essa questão
foi muito abordada nos atendimentos. Notamos, no
entanto, que esses temas eram na maior parte das vezes,
“apenas” subjacentes àquilo que mais os incomodava.
Como se fosse um cenário às particulares histórias dos
vários sujeitos que procuravam atendimento ou mesmo
mais uma contingência difícil de suas vidas.


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Plantão Psicológico: novos horizontes
Foi muito importante entender que, muitas
vezes, o que era atordoante para os plantonistas – como
a violência sexual, familiar e de rua – e que talvez por
isso esperávamos que fosse o mais importante e
atordoante também para a pessoa que nos procurava,
às vezes, podia não se apresentar assim. Desse modo,
percebemos que, atendendo pessoas que vivem uma
realidade diferente da nossa e categorizando esses
atendimentos segundo suas demandas, devíamos
cuidar para que nossa atenção centrada na pessoa e
em sua perspectiva não fosse abandonada em função
de nossos próprios valores.
Entre as categorias de cujo aparecimento havia
alguma expectativa de nossa parte, apenas a demanda
“dificuldade com drogas”(4) foi realmente
categorizada. No entanto, surgiu apenas um caso em
que essa demanda, enquanto principal, foi apresentada.
De um modo geral, em nossa categorização, a
questão da “violência” apareceu associada a outras,
incluídas na categoria “insatisfação com as atribuições
e contingências” (11). As pessoas cujos atendimentos
foram aí categorizados queixavam-se de insatisfação
com as condições externas a elas, o que as
incomodavam, mas que independiam de suas ações. O
que se poderia fazer, então, era quase que suportar tal
realidade e se colocar em relação a ela de maneira
diferente. Um exemplo de um caso incluído nesta
categoria seria aquele em que o aluno queixa-se de sua
mãe que é alcoólatra, de seu pai violento e foi
“atribuído” a ele, cuidar dos irmãos mais novos. Tudo
isso, são contingências de sua vida que o incomodam
com as quais tem que lidar e que lhe foram impostas
por outros, no caso, o pai e a mãe.
Na categoria “preocupação com conseqüências
de ações ou decisões passadas” (14), foram agrupados
os casos em que havia uma ansiedade acerca de
decisões ou atos já realizados, como o da aluna com


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Plantão Psicológico na escola: presença que mobiliza
medo de estar grávida ou do rapaz preocupado com as
implicações de ter montado um trailler e como conciliaria
isto com seus estudos. Uma outra categoria, “dificuldade
em fazer escolhas”(6), foi criada para aqueles casos
em que uma pessoa tinha diante de si opções entre as
quais deveria escolher uma, a qual poderia mudar o
rumo de sua vida. Incluímos, nessa categoria, as
demandas de orientação profissional e também
demandas relacionadas a outras decisões a serem
tomadas na vida pessoal.
Os casos em que sujeitos tinham que aprender
a lidar com alguma perda que haviam sofrido
configuraram a categoria “elaboração de perdas”(7)
que incluiu perdas por morte ou por separação, como
término de relacionamento amoroso.
Já a categoria “arrependimento e culpa” (1)
abarcou os casos em que as repercussões de atos e
decisões já efetuados levavam a estes sofrimentos
especificados. Havia um questionamento relacionado
à  adequação de tais ações e decisões já tomadas,
fazendo com que sentimentos de culpa ligados a
valores pessoais e sociais emergissem. Um exemplo
dessa categoria seria o da aluna que se sentia
arrenpendida e culpada por ter feito um aborto. Esta
categoria se diferencia da categoria “preocupação com
as conseqüências de ações passadas” pelo fato de que
nesta, havia uma ansiedade (uma pré-ocupação) em
torno das ações já realizadas, como que um medo de
sofrer pelas conseqüências, e na categoria
“arrependimento e culpa”, a conseqüência de um ato
já está causando sofrimento.
As demandas ligadas à categoria “sexualidade”
eram, em sua maioria, associadas a uma necessidade
de discussão, por parte de alunas, a respeito de
virgindade, valores da sociedade sobre a sexualidade,
a posição e idéias de cada aluna frente ao assunto.
Todos os atendimentos dessa categoria foram feitos


70
Plantão Psicológico: novos horizontes
em grupo e no turno da tarde, no qual, talvez pela
idade dos alunos (eram mais novos que os dos outros
turnos), tais assuntos despertassem maior interesse.
Uma outra categoria: “dificuldades com a
escola”(5) englobou os assuntos relacionados à vida
escolar dos alunos, desde dificuldades com um
determinado professor até problemas de atenção, notas
e aprendizagem.
Na categoria “busca de reconhecimento”,
agrupamos os casos em que os alunos nos procuravam
para nos contar como estavam lidando bem com os
desafios que lhes eram colocados pela vida. Eles já
haviam tomado uma decisão, gostavam da própria
maneira de ser e precisavam apenas de alguém que, de
certa forma, poderia os deixar mais seguros sobre o
que estavam fazendo ou sobre seu próprio jeito de ser.
Ao nosso ver, o aparecimento da demanda
“busca de reconhecimento” em nossa categorização é
um sinal do diferencial que uma proposta como o
Plantão Psicológico em Escola representa, em relação
a outras propostas de atendimentos psicológicos em
instituições de ensino. Isso porque, ao situar o psicólogo
em um espaço também para o que é saudável, para o
“se cuidar” e não apenas para o “se tratar”, o Plantão
Psicológico abre um caminho para o sujeito que está
bem se expressar de maneira total, obtendo uma escuta
aberta ao seu modo de viver sua própria vida.
Uma outra categoria – “incômodo com a maneira
de ser e de reagir às situações”(10) – abarcou justamente
os casos opostos à última categoria explicada. As
pessoas que entraram nessa categoria queixavam-se de
não estarem felizes com algo no seu jeito de ser, como
nervosismo, timidez, solidão, ou com a forma como
sempre reagiam a situações específicas. Um exemplo
deste caso, seria o da mulher que sempre chorava
quando o marido se atrasava. Ela não gostava desta
sua própria reação ao marido, já que não a ajudava em


71
Plantão Psicológico na escola: presença que mobiliza
nada. Este tipo de sofrimento, um sofrimento que só
dependia do próprio sujeito para que pudesse ser
alterado, foi o que mais demandou atendimentos
(totalizaram 24 sessões) e sobre o qual mais pessoas se
queixaram (14 pessoas com essa demanda). Através da
relação entre o número de pessoas nessa categoria e o
número de sessões, podemos ver que, para este tipo
de demanda é necessário, na maior parte das vezes,
que uma mesma pessoa seja atendida mais de uma vez.
Por causa das características desta demanda,
cujos atendimentos visam uma mudança estrutural na
maneira de ser de uma pessoa, e do tempo maior
necessário para que isso aconteça, começamos a pensar
na possibilidade de encaminhar os sujeitos com essa
demanda para uma psicoterapia, o que fizemos em
alguns casos. Isso não quer dizer que o espaço do
Plantão Psicológico não seja suficiente para que uma
mudança estrutural aconteça, pois vimos que ela
ocorreu em alguns atendimentos. Porém, é uma
proposta de atendimento por Aconselhamento
Psicológico, especialmente adequado a mobilizar
mudanças situacionais, ligadas a questões que os
sujeitos trazem em um determinado momento, causadas
por algo que os aflige ou acontece agora. Essas
questões situacionais se adaptam muito bem ao espaço
dinâmico do Plantão Psicológico. As mudanças
estruturais podem ser trabalhadas mais calmamente
através da psicoterapia com atendimentos mais
regulares, mais “garantidos” (porque haverá menos
chance de outra pessoa estar com o psicólogo no
momento da procura) e dentro de um processo que
pode ser mais longo e contínuo (bem maior que o
período letivo ao qual o Plantão Psicológico na escola
está atrelado). O encaminhamento de pessoas com
essas demandas para uma psicoterapia ainda possibilita
que mais pessoas com as outras demandas sejam
atendidas no Plantão Psicológico.


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Plantão Psicológico: novos horizontes
Quatro categorias de demandas dizem respeito
a relacionamentos:
A primeira delas – “desconfiança nos
relacionamentos”(3) – relacionada a relacionamentos
em geral: amorosos, de amizade, familiares etc.
Compreende os casos em que o aluno tem uma pessoa
de quem gosta e por quem se empenha, essa pessoa
parece também agir dessa forma, mas o aluno desconfia
da legitimidade dos sentimentos dos outro para com
ele. Essa desconfiança vem muitas vezes acompanhada
de insegurança.
Já a categoria “insatisfação nos relacionamentos
com a família”(12) envolve as dificuldades que o aluno
pode ter com qualquer membro de sua família, exceto o
cônjuge, que podem se modificar dependendo de como
se coloca frente a elas. Isso é, basicamente, o que difere
essa categoria da “insatisfação com atribuições e
contingências”, na qual as dificuldades existem
independentemente do aluno, como algo realmente
externo a ele. Um exemplo para essa categoria 12, seria o
do filho que não consegue conversar e ser mais próximo
do pai, embora este se mostre bastante disponível.
As outras categorias que envolvem
relacionamentos – “falta de correspondência nos rela-
cionamentos amorosos”(8) e “falta de reciprocidade nos
relacionamentos já estabelecidos”(9) – têm uma diferença
básica que é justamente o já-estabelecimento ou não do
relacionamento amoroso. A primeira categoria citada é
aquela na qual os relacionamentos ainda não estão
estabelecidos e uma frase que a explicaria seria: “eu
gosto de alguém que não gosta de mim”. Já no segundo
caso, já há um compromisso “firmado”, de namoro,
casamento, noivado etc, pressupondo-se que duas
pessoas pelo menos se gostam. No entanto, ocorre que
o empenho das duas neste relacionamento não é
recíproco. Um se empenha mais que o outro e essa
falta do outro é que traz o sofrimento. É interessante


73
Plantão Psicológico na escola: presença que mobiliza
colocar aqui que todas as pessoas aí categorizadas foram
mulheres que se queixam dos relacionamentos com os
companheiros.
Por fim, resta falar da categoria “obter opinião
profissional”(13) que abarca os casos em que a pessoa
procura o Plantão Psicológico realmente para obter
opinião profissional sobre assuntos diversos, como
educação de filhos, escolha de nomes para eles,
psicopatologias de membros da família etc. O assunto
de tais atendimentos não vai se tornando mais pessoal
ou profundo, embora os atendimentos possam durar
mais de 40 minutos. Nestes atendimentos, às vezes,
temos a impressão, que estas pessoas têm uma outra
questão ou incômodo embutidos no que expressam.
A sessão poderia ter um desenvolvimento baseado
nisso, porém, em todos aqueles casos isso não
aconteceu, talvez porque a demanda principal dos
sujeitos fosse realmente obter informação.
Era claro que as pessoas que nos procuravam
com esta demanda queriam de nós uma resposta às
suas indagações. Nesses momentos, nos firmávamos
em nossa posição de escuta aberta, empática e centrada
na pessoa, mas sem nos esquecer de que seria ela
própria quem deveria encontrar seus próprios recursos
para lidar com suas dúvidas e angústias. Tentávamos
sempre remetê-las a si mesmas, aos seus sentimentos
em relação ao seu “dilema” e à sua capacidade de
resolvê-lo, o que às vezes era bem difícil de se fazer e
caíamos na tentação de dar respostas. A maior parte
das pessoas que procurou o Plantão Psicológico com
essa demanda obteve a informação que buscava.
Algumas voltaram para outros atendimentos já com
outras demandas.
ACEITAÇÃO DA PROPOSTA E MOBILIZAÇÕES
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