Plant o Psicol gio: novos rumos


parte do outro com o propósito de curar a mente, o



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parte do outro com o propósito de curar a mente, o
corpo e a natureza, a essência da psicoterapia está, de
fato, sendo redefinida.
O mesmo observa Walter Cautella Junior,
descrevendo seu trabalho em um hospital
psiquiátrico: “A experiência do plantão psicológico
leva a instituição a reformar sua visão do indivíduo
institucionalizado”.
Há promessas de mais boas novas. A palavra
“plantão” vem do francês planton, quando era aplicado
em linguagem militar para designar a pessoa que ocupa
uma posição fixa, alerta dia e noite. Seu uso moderno
refere-se ao suporte, fora do horário normal,
oferecido por médicos em hospitais ou, como aqui,
por um psicólogo. Além disso, sua relevância está no


9
fato de que a origem da palavra planton vem do latin:
plantare, plantar.
Um significado dessa palavra refere-se a “planta
do pé”. Assim, o plantão psicológico pode ser visto
como tendo seus pés no chão. Sendo prático.
Respondendo às necessidades imediatas dos clientes
(que poderão ser psicológicas ou de qualquer outra
ordem).
O segundo sentido de “plantar,” é “meter um
organismo vegetal na terra para enraizar”. Essa é outra
característica do Plantão Psicológico descrito neste
livro: estar plantado na cultura brasileira com suas
deficiências e seus nutrientes. Principalmente, é um
organismo vivo e crescendo. Assim, como lembram
as palavras de Prof.a. Dr.a Vera E. Cury, “Uma ética
das relações interpessoais, sutil mas poderosa, feita de
pequenos gestos e acenos suaves, simples e ainda assim
determinada, parece conduzir os projetos do Plantão
Psicológico”.
Se for possível ficar imune e não se deixar
restringir por dogmas e modismos filosóficos poderá
continuar a se desenvolver efetivamente de acordo com
as necessidades da população desse tempo e lugar.
John Keith Wood
Jaguariúna, Agosto 1999
Prefácio



11
INTRODUÇÃO
1
 MAHFOUD,
Miguel. 
A vivência
de um desafio:
plantão psicológico.
In: ROSENBERG,
Rachel Lea (Org.).
Aconselhamento
p s i c o l ó g i c o
centrado na
pessoa. São Paulo:
EPU, 1987, p.75-83.
(Série Temas Bási-
cos de Psicologia,
Vol. 21)
Introdução
Frutos Maduros do Plantão
Psicológico
Miguel Mahfoud
D
esde a primeira sistematização – nos idos
de 1987
1
 – da inicial experiência de Plantão
Psicológico no Brasil, que se apresentava como
desafio a ser vivenciado, como semente que muda
de cor e se alastra no terreno de sempre com brotos
frágeis mas injetando a verde esperança que tudo
transforma, desde então a proposta de um
Aconselhamento Psicológico aberto às mudanças de
nosso tempo, de nossa cultura e de nossa realidade
social foi brotando e formando raízes.
Que solo seria o mais propício ao desenvolvimento
de algo que prometia vitalidade senão o nosso próprio,
nossa terra, nossos desafios sociais, institucionais?
Aprender da experiência a partir de um empenho com a
realidade assim como ela é para de dentro transformá-
la. Assim, em nosso solo brasileiro a experiência de Plantão
Psicológico tomou corpo de maneira original.
O presente livro quer comunicar a sistematização
de um exercício de aprendizagem a partir da experiência


12
Plantão Psicológico: novos horizontes
de empenho em diferentes contextos institucionais.
Diversas experiências de Plantão Psicológico que dão
vida a uma modalidade de Aconselhamento Psicológico
que aceitou romper os limites estabelecidos pelo
descompromisso teorizado de tantas psicologias, pelo
reducionismo sentimental de algumas propostas de
psicologia que se querem humanistas.
Veremos aqui os desafios serem enfrentados em
novos horizontes. Tantos desafios permanecem os
mesmos para a psicologia desde muito: desafios sociais
como as dificuldades econômicas e de trabalho,
desafios educacionais, desafios de uma psicologia
humanista atuante dentro das instituições... A novidade
vem da vitalidade da experiência mesma de um
atendimento que aceita outros parâmetros para orientar
seu desenvolvimento. Os novos horizontes são
indicados pela própria aprendizagem significativa
sistematizada com rigor para acolher a vitalidade que
com surpresa emerge.
Queremos que o leitor possa entrar em contato
com a vitalidade da experiência, e com a força
provocadora que algo acontecido de fato pode nos
comunicar: a força do possível. Mais do que modelos,
encontramos aqui provocações.
Uma das provocações significativas é a integração
de trabalhos de base humanista inserido em instituições.
Tantas vezes ouvimos o refrão quase automaticamente
repetido de que as instituições têm objetivos diversos
daqueles que movem a Psicologia Humanista já que
esta quer acentuar a centralidade da pessoa e seus
processos autênticos. As experiências aqui comunicadas
indicam uma possibilidade de trabalhos claramente de
base humanista que aceitam – com nossos próprios
sujeitos – o desafio de continuamente buscar, no
contexto assim como se apresenta, a afirmação dos
interesses propriamente humanos. Se realmente fosse
impossível para nós, de que maneira poderíamos esperar


13
Introduçâo
que fosse possível para nossos clientes? Se não fosse
possível para nós, só nos restaria propor o atendimento
psicológico como espaço alternativo, e por isso
inevitavelmente alienante. Encontramos aqui
experiências que podem abrir novos horizontes neste
sentido.
Em se tratando de uma novidade que estava
apenas brotando, por muitos anos a comunidade psi
acolheu a proposta de Plantão Psicológico como algo
“alternativo”. No sentido que seria algo outro em
relação ao estabelecido como campo seguro e próprio
do saber e da técnica psicológica. Desconfianças,
dúvidas, reticências... cultivadas em compasso de
espera, até que os frutos amadurecessem e se pudesse
conhecer de fato esse Plantão. O próprio Conselho
Federal de Psicologia chegou a se pronunciar em
documento oficial, classificando Plantão Psicológico
dentre as técnicas alternativas emergentes. Alternativa
de maneira distinta daquelas de origem confusa ou
exotérica, mas entendida como proposta inovadora, que
em certa medida rompe parâmetros estabelecidos por
técnicas tradicionais e que ainda estava aguardando uma
avaliação mais rigorosa de sua eficácia pelas instituições
de ensino superior e de pesquisa.
Pois bem, os frutos amadureceram e são aqui
oferecidos. Amadureceram no trabalho sistemático, na
observação atenta, na sistematização com rigor
metodológico com base em pesquisas de base
fenomenológica. São esses frutos que agora, aqui, são
oferecidos à comunidade para que possamos promover
a experiência de Plantão Psicológico com uma
concepção clara, de maneira tal a possibilitar sua
correspondente avaliação.
Neste sentido este livro dá um passo histórico.
Já não podemos falar em Plantão Psicológico técnica
alternativa. O atual e crescente interesse documentado
pela presença de mesas redondas e/ou de comunicação


14
Plantão Psicológico: novos horizontes
de pesquisa sobre Plantão Psicológico em
diversos congressos nacionais e regionais já era um
indício dessa mudança. A apresentação dessas
experiências sistematizadas e pesquisadas colocam um
ponto final.
É claro que trata-se de um ponto final só no
caráter de alternativo. Sabemos bem que estamos no
início. Plantão tem ainda muito em que crescer para
exprimir toda sua potencialidade. Os primeiros frutos
maduros apresentam o Plantão; e sabemos, agora mais
do que nunca, que vale a pena cultivá-lo, que há terreno
propício, que há horizonte amplo onde mirar.
Bom terreno, boas sementes, bons frutos... : bom
proveito!


15
O Plantão Psicológico no Instituto Sedes Sapientiae
O Plantão de Psicólogos no Instituto
Sedes Sapientiae: uma proposta de
atendimento aberto à comunidade
Raquel Wrona Rosenthal
N
o final da década de 70, parte do grupo de
profissionais que antes se reunia como “Grupo de
Psicologia Humanista”, decide constituir no Instituto
Sedes Sapientiae, o Centro de Desenvolvimento da
Pessoa, CDP.
Estimulado pelo entusiasmo de Rachel Lea
Rosenberg, o CDP desenvolvia programas de estudos
teóricos, grupos de supervisão e reflexão sobre a
prática clínica, promovia workshops abertos ao público,
ciclos de encontros de profissionais paulistas e também
encontros nacionais, constituindo-se em importante
referência para os interessados em discutir e aprofundar
o conhecimento da ACP, Abordagem Centrada na
Pessoa.
Sempre atenta ao potencial transformador da
ACP, considerando tanto a dimensão individual quanto
a social / comunitária, Dra. Rosenberg propõe a criação
de um serviço de Plantão de Psicólogos, inspirado
nas experiências das walk-in clinics, surgidas nos Estados


16
Plantão Psicológico: novos horizontes
1
 ROGERS, Carl
Ramson. As Condi-
ções necessárias e
suficientes para a
mudança terapêu-
tica da personali-
dade. In: WOOD,
John Keith et alii
(Org.s). Aborda-
gem centrada na
pessoa, Vitória:
Fundação Ceciliano
Abel de Almeida /
Universidade Fede-
ral do Espírito San-
to, 1995, p.157-179.
2
 ROGERS, Carl
R a m s o n .
Psicoterapia e
consulta psico-
lógica, 1ª
ª
 ed.,
São Paulo: Martins
Fontes, 1987 (Cole-
ção Psicologia e
Pedagogia), p.207-
208.
Unidos para prestar atendimento imediato à
comunidade. Até então o Serviço de Aconselhamento
Psicológico, no Instituto de Psicologia da USP, sob
sua coordenação, já vinha oferecendo o que chamava
“plantão”, e que consistia, naquele caso, em uma
disponibilidade mais atenciosa de recepção aos clientes
que procuravam inscrição para atendimento regular
em aconselhamento psicológico. Daí surgiram as
primeiras reflexões sobre as potencialidades de um
serviço de “Plantão Psicológico”: o poder
transformador da escuta atenciosa, não diretiva,
centrada no cliente, confiante na tendência ao
desenvolvimento das potencialidades inerentes à pessoa
(tendência atualizante), e na possibilidade dessa
tendência ser estimulada, mesmo através de um único
encontro com o profissional, desde que este último
possa oferecer sua presença inteira, através de sua
própria congruência, capacidade de empatia e aceitação
incondicional do outro, atitudes pilares da ACP.
1
É de Carl Rogers, o criador a Abordagem
Centrada na Pessoa, a ponderação:
“Se atendermos à complexidade da vida humana com
olhar justo, temos que reconhecer que é altamente
improvável que possamos reorganizar a estrutura da
vida de um indivíduo. Se pudermos reconhecer este limite
e nos abstivermos de desempenhar o papel de Deus,
poderemos oferecer um tipo muito precioso de ajuda, de
esclarecimento, mesmo num curto espaço de tempo. Podemos
permitir ao cliente que exprima seus problemas e
sentimentos de forma livre, e deixá-lo com o reconhecimento
das questões que enfrenta.”
 2
Muitas pessoas, em determinada circunstância
de suas vidas, poderiam se beneficiar ao encontrar essa
interlocução diferenciada, que lhes propiciasse uma
oportunidade também de escutar a si mesmos,


17
O Plantão de Psicólogos no Instituto Sedes Sapientiae
3
  INSTITUTO
S E D E S
SAPIENTIAE: 
Carta
de Princípios, s/d
(mineo.).
identificando e reconhecendo seus próprios
sentimentos e possibilidades de auto direção, no
momento em que enfrentam a dificuldade, sem que
necessariamente tenham que se submeter a atendimento
sistemático, prolongado, como tradicionalmente
oferecem as psicoterapias.
Coube a mim a coordenação e supervisão do
Plantão de Psicólogos do CDP, oferecido pela primeira
vez em agosto de 1980, como um dos chamados
“cursos de expansão”do Instituto Sedes Sapientiae. O
curso tinha duração semestral, e prestava, através de seus
alunos, atendimento psicológico aberto à população.
O Instituto Sedes Sapientiae ou Sedes, como hoje
o chamamos, fundado em São Paulo em 1975, é um
importante centro de prestação de serviços, ensino e
pesquisa ligados às áreas da Psicologia e da Educação,
tendo como compromisso
“assumir sua parcela de responsabilidade na
transformação qualitativa da realidade social, estimulando
todos os valores que acelerem o processo histórico no sentido
de justiça social, democracia, respeito aos direitos da pessoa
humana”
 3
Feliz associação de ideais, nosso Plantão tinha
lugar certo para acontecer!
As atividades iniciaram-se pela seleção dos
plantonistas. Os critérios adotados pediam que fossem
psicólogos, que conhecessem os fundamentos da ACP,
que tivessem experiência mínima de um ano em
atendimento clínico e estivessem especialmente
sensibilizados pela natureza do serviço proposto.
Contávamos com um grupo de doze
plantonistas e uma supervisora e estabelecemos o
horário das 20 às 22 horas, às segundas e quintas-feiras


18
Plantão Psicológico: novos horizontes
4
  BELLAK, Leopold
& SMALL, Leonard.
Psicoterapia de
Emergência e
P s i c o t e r a p i a
Breve, 
Porto Ale-
gre: Artes Médicas,
1980.
para os atendimentos e nossas reuniões. Dedicamos
aproximadamente um mês e meio ao planejamento e à
divulgação do novo serviço, período em que pudemos
compartilhar nossas expectativas e fantasias, aplacando
nossa ansiedade, acentuada pela ausência de bibliografia
específica sobre plantão psicológico. Não havia
qualquer menção, nas diversas bibliotecas
especializadas que consultamos, às walk-in clinics das
quais Rachel Rosenberg nos falara.
Sabíamos que a possibilidade de psicoterapias
de curta duração vinha sendo considerada por autores
que adotavam diferentes abordagens, como por
exemplo, os trabalhos de Bellak e Small, 
4
 de orientação
psicanalítica. As Psicoterapias Breves vinham tendo,
desde a década de 70, grande implemento e pesquisa,
mas nada de sistemático havia sobre outras experiências
de curta duração ou mesmo de sessões únicas de
atendimento.
Dra.Rosenberg, ao refletir sobre variações no
tempo de atendimento, apontava o caráter preventivo
de uma intervenção no momento oportuno:
“A duração prevista para um atendimento
possivelmente eficaz em terapia tem sofrido
modificações de várias espécies. Comprovações
empíricas de resultados satisfatórios justificam o uso
de atendimentos com um número pré-determinado
ou máximo de horas. Cria-se uma metodologia
específica para este tipo de atendimento em linhas
teóricas variadas [...], o atendimento de curta duração
se insere como aplicação natural, bem sucedida e cada
vez mais utilizada. Mesmo no caso de problemas graves
ou dificuldades antigas, conclui-se que o princípio de
tudo-ou-nada — ou seja ,terapia profunda e
prolongada ou nenhuma assistência psicoterápica —
não tem real validade. Especialmente em pontos


19
O Plantão de Psicólogos no Instituto Sedes Sapientiae
5
 ROSENBERG,
Rachel Lea. Terapia
para Agora. In
ROGERS, Carl
Ramson &
R O S E N B E R G ,
Rachel Lea. A
Pessoa como
Centro, São Paulo:
E.P.U., 1977, p.52.
6
 Madre Cristina,
nascida Célia Sodré
Dória, cônega de
Santo Agostinho,
educadora, psicó-
loga e fundadora do
Instituto  Sedes
S a p i e n t i a e ,
personalidade ines-
quecível para a
Psicologia e para a
História brasileiras.
críticos do desenvolvimento ou da vivência, uma
intervenção adequada tem, além de efeitos terapêuticos,
caráter preventivo de conflitos maiores posteriores”.
5
Alguns alunos supunham que, devido ao caráter
imediato do atendimento, certamente receberíamos
muitos clientes em crise emocional aguda e insistiam
na necessidade de contarmos com um psiquiatra
plantonista. Precisamos esclarecer que nossa proposta
não era criar um serviço para emergências psiquiátricas
e sim oferecer escuta imediata, recebendo a pessoa no
momento da dificuldade, sem que necessariamente a
intensidade dessa dificuldade tivesse atingido um ponto
crítico que representasse ameaça iminente à sua
integridade ou à de outros; não era destinado ao suicida
em potencial, como sugeria a divulgação recente do
CVV, Centro de Valorização da Vida, cuja equipe de
plantonistas era constituída por leigos em psicologia e
prestava atendimento inicial por telefone. Por
precaução, tratamos de pesquisar e organizar uma
relação de instituições e serviços particulares de
psiquiatria, caso viéssemos a necessitar.
A preocupação de Madre Cristina 
6
 era de que
o novo serviço não viesse aumentar as já enormes
filas de espera para psicoterapia naquela clínica, tão
solicitada devido à tradicional qualidade dos serviços
prestados. Insistíamos em esclarecer que a intenção não
era fazer triagem, embora pudéssemos, eventualmente,
realizar encaminhamentos. O Plantão Psicológico não
foi concebido como uma alternativa “tampão” para
acabar com filas de espera em serviços de assistência
psicoterapêutica, já que não pretende substituir a
psicoterapia. Não acreditamos que uma única sessão
seja capaz de resolver sérios problemas emocionais
ou promover resultados reconstrutivos da
personalidade. Somente mais tarde é que viemos a
descobrir as possibilidades terapêuticas do plantão.


20
Plantão Psicológico: novos horizontes
7
 um destes cartazes
e n c o n t r a - s e
digitalizado no CD-
ROM anexo ao livro.
Fizemos várias reuniões em torno de aspectos
éticos das formas de divulgação: tratava-se de uma
nova proposta e aberta à comunidade em geral. Como
divulgá-la, transmitindo sua originalidade e
acessibilidade, sem banalizá-la? Optamos pela
impressão de cartazes
7
, que foram afixados em diversas
escolas, igrejas, hospitais, bibliotecas públicas e
faculdades com o destaque: “Psicólogos de Plantão ”
e o texto:
“Somos um grupo de psicólogos prontos para ouvir, trocar
idéias, esclarecer dúvidas. Enfim, estar com você no
momento em que sentir que um psicólogo pode ajudar.”
Seguia-se o nome da psicóloga responsável e
seu número de inscrição no CRP, o endereço e horários
do atendimento.
Os plantonistas visitaram as salas de aula do Sedes
onde se desenvolviam outros cursos, para anunciar o
atendimento e esclarecer dúvidas a respeito. Os
primeiros a nos procurar foram justamente alguns
alunos desses cursos, uns motivados por questões
pessoais, outros, pelo interesse profissional em
conhecer melhor o Plantão.
Houve uma divulgação num programa da TV
Cultura, uma reportagem extensa que entrevistou
plantonistas e supervisora, e que, infelizmente, só foi
ao ar às vésperas da interrupção do serviço devido às
férias. Este fator diminuiu o impacto de sua
repercussão, pois os clientes que nos procuraram em
seguida à edição do programa da TV não puderam
ser atendidos.
O jornal Folha de São Paulo publicou reportagem
do jornalista Paulo Sérgio Scarpa sobre o Plantão
Psicológico, destacando sua utilidade pública.
Interessante assinalar que a seção onde se inseriu a matéria


21
O Plantão de Psicólogos no Instituto Sedes Sapientiae
8
 Estas matérias se
encontram digita-
lizadas no CD-ROM
anexo ao livro.
intitulava-se “A Folha e as respostas da sociedade à
crise”(07/11/81). Outras menções ao serviço já haviam
sido feitas por esse mesmo jornal, em edição de 16/01/
81 e em seu caderno “Folhetim”, cuja edição ,em 20/
09/81, era dedicada ao tema “Desemprego e
Insegurança”
8
. Hoje, passados 19 anos, podemos
reconhecer, com tristeza, a atualidade desses temas.
O primeiro grupo de doze plantonistas
trabalhou de agosto a dezembro de 1980, dividido
em sub-grupos de seis que se alternavam entre
atendimento e supervisão: enquanto metade prestava
plantão às segundas- feiras, a outra parte reunia-se para
supervisão; às quintas-feiras, invertiam-se as funções.
A supervisão também era acessível ao plantonista
durante o transcorrer de um atendimento, caso
precisasse dela. A duração de uma sessão de
atendimento poderia variar de uma a duas horas,
dependendo de haver ou não outros clientes à espera.
Dispúnhamos de sete salas, sendo seis destinadas
ao atendimento e uma para as reuniões de supervisão.
Madre Cristina, confiante na importância da
iniciativa, ofereceu-se para recepcionar os clientes. Assim,
quem procurava o Plantão Psicológico, mesmo nas
noites mais frias do inverno, encontrava-a logo à
entrada do Sedes, sentada atrás de uma pequena mesa,
apoiada num travesseiro para respaldar suas costas,
que tão vigorosamente suportaram, com coragem e
dignidade, as pressões da luta por justiça social em
nosso país. Cabia a ela indicar ao cliente o andar e a
sala de atendimento, o que fazia com calor e firmeza,
já despertando nele uma disposição receptiva ao
encontro com o profissional.
No primeiro semestre de 1981 foi feita nova
seleção de plantonistas e alguns dos ex-alunos,
entusiasmados que estavam, se re-inscreveram.


22
Plantão Psicológico: novos horizontes
Novamente, para o terceiro curso, no segundo
semestre de 1981, tivemos re-inscrições.
Em 1982 não foi renovada a proposta. A
supervisora, preparando-se para sua terceira gravidez,
embevecida que estava pelo novo, decidiu-se pela
dedicação mais intensa às suas filhas, enquanto se
afastava do Sedes, levando muito para refletir a respeito
de seus plantões e suas “ plantinhas”. Mais tarde, é
convidada a oferecer Plantão Psicológico aos
funcionários do mesmo instituto, atividade que
desenvolveu até dezembro de 97. Esse convite atesta
o reconhecimento da importância da proposta e a
repercussão que o Plantão Psicológico alcançou dentro
daquela instituição .
Trataremos aqui de apresentar como foi
desenvolvido o Plantão Psicológico aberto à
comunidade.
OS CLIENTES
Nos três semestres do Plantão de Psicólogos,
realizamos 145 atendimentos, sendo 28 retornos.
Tínhamos estabelecido três retornos como possibilidade
máxima para cada cliente no mesmo semestre.
Entendíamos que, caso nos procurasse com maior
freqüência, isto indicaria a conveniência de encaminhá-
lo à psicoterapia. Tínhamos uma relação de instituições
que prestavam atendimento gratuito, como era nosso
caso, e também uma relação de psicoterapeutas
dispostos a trabalhar por honorários simbólicos.
Das 117 pessoas que nos procuraram, 52% eram
mulheres e 48% homens. Predominaram os solteiros;
o nível de escolaridade dos clientes variou de semi-
alfabetizados a curso superior completo; 17% eram
profissionais liberais (advogado, economista, psicólogo,
fisioterapeuta), e o restante composto por outras
ocupações (escriturário, comerciário, comerciante,
motorista, vendedor, feirante, office-boy, técnicos em


23
O Plantão de Psicólogos no Instituto Sedes Sapientiae
serviços diversos). Procurou-nos também uma pessoa
que declarou como ocupação, ser “pedinte”. Meses
depois, a plantonista que o atendeu o encontraria num
dos ônibus urbanos, recolhendo esmolas entre os
passageiros.
Após cada atendimento, era solicitado ao cliente
que depositasse numa urna um comentário escrito, sem
necessidade de se identificar. Dos 68 depoimentos
recolhidos, destacamos alguns, para ilustrar a
repercussão imediata ao encontro:
“Eu nunca havia participado de uma entrevista com
psicólogos. Fiquei até com receio pois não sabia como
iria iniciar a conversa. Entretanto, foi mais fácil do que
imaginava. O ‘à vontade’ com que a psicóloga conduziu
o bate-papo propiciou-me externar praticamente tudo o
que vinha me inquietando, chegando mesmo a tirar
conclusões ou elucidar dúvidas com o simples desabafo de
minhas preocupações. Senti-me pois tão satisfeita como
se tivesse recebido um presente de Natal ”.
“Não acho que o atendimento recebido tenha resolvido o
meu problema, mas tenho plena convicção de que abriu-
me algumas portas, deu-me algumas luzes e fez-me refletir.
Creio que agora estou mais apto a resolvê-lo e muito
otimista por saber que posso”.
“Acho que existem muitas pessoas que deveriam fazer
esta ‘pré-análise’ antes de se definir pelo terapeuta”.
“Não fez minha cabeça”.
“Como é bom ter e sentir que podemos sentar e conversar
com uma pessoa. Falar de nossos problemas sem pensar
que vamos ser censurados”.


24
Plantão Psicológico: novos horizontes
“Achei ótima a idéia desse Plantão. Psicólogos ouvindo
pessoas em casos de emergência ‘emocional’. Deve continuar
e se expandir em vários locais e ser divulgado e ‘ensinado’,
dado como curso nas escolas de Psicologia”.
“Acho essa iniciativa muito válida e isso, acredito eu,
vem a ressaltar ainda mais o papel, ainda que às vezes
reprimido do psicólogo na sociedade. Acredito que mesmo
sendo um só encontro, estes 50 ou 60 minutos que sejam,
nossas 23 horas restantes e dias posteriores serão
melhores”.
De maneira geral, os comentários aludiam à
importância de ser ouvido, faziam referências ao alívio
pelo desabafo, sugeriam que o atendimento deveria
ser pago, apontavam a necessidade de maior divulgação
do serviço e a ampliação dos horários de atendimento
e alguns revelaram frustração da expectativa de que
pudessem receber atendimento prolongado.
OS PLANTONISTAS
Os plantonistas se referiam com freqüência à
sua experiência como estagiários durante o tempo da
faculdade, declarando o quanto “sofreram” ao se
desligar do cliente por ocasião da conclusão do curso
de graduação. Agora, a questão do vínculo, a separação
do cliente, a ansiedade em função desse único encontro,
a imprevisibilidade quanto a outra oportunidade
(sessão seguinte) para eventual “reparação” de sua
atuação, tudo era discutido sistematicamente nas
supervisões. Suponho que uma das conseqüências
dessas dificuldades dos alunos foi o número de
encaminhamentos realizados e a quantidade de
intervenções de natureza diretiva, com tendência a
oferecer respostas e sugestões.
Outra questão diz respeito à superação do
estereótipo de que uma relação de ajuda psicológica


25
O Plantão de Psicólogos no Instituto Sedes Sapientiae
deva se estender no tempo, de que profundidade e
intensidade sejam diretamente proporcionais à duração
do atendimento. A possibilidade de que uma
intervenção de natureza breve pudesse ser suficiente
para o cliente não era claramente percebida pelos
alunos, limitação que podemos atribuir à formação que
receberam nos cursos de Psicologia, onde a habilitação
do psicólogo estava mais voltada para a atividade clínica
da psicoterapia ou do psicodiagnóstico através de testes.
Também em relação às intervenções diretivas
observamos, muitas vezes, que o sentimento de
impotência do plantonista diante de clientes de menor
poder aquisitivo, levou-os a adotar atitudes paternalistas
e, de certa forma, desvalorizantes para o cliente; houve
casos em que o aluno procurava encontrar soluções
imediatas, dar conselhos e sugestões ou mesmo insistir
em encaminhamentos muitas vezes não percebidos
como necessários pelo próprio cliente.
Liesel Lioret, psicóloga que pouco tempo
depois iniciaria também como supervisora o
atendimento psicológico do tipo plantão em postos
de saúde através da Clínica das Faculdades São
Marcos, fez a seguinte reflexão sobre sua experiência:
“A questão dos valores do psicólogo é
importante em qualquer processo psicoterapêutico, mas
quando se trata de sua ‘vontade de ajudar’ pessoas
com problemas de subsistência, a visão que ele tem
da ‘pobreza’ e de seu próprio lugar na sociedade modela
seus objetivos explícitos e implícitos e suas atitudes.
O psicólogo tem a tendência a se preocupar mais com
o ‘como’ de sua atuação do que com o ‘porquê”, ou
seja, com as implicações pessoais e ideológicas de suas
intervenções. Por exemplo, não terá a mesma postura
se acredita que uma tomada de consciência individual
possa ser um fator de mudança, ou se acredita que
somente uma mudança social e política possa trazer


26
Plantão Psicológico: novos horizontes
9
 Extraído de rela-
tório pessoal não
publicado (1982).
Parágrafo aqui
reproduzido sob
permissão da
autora.
soluções para as situações individuais.[...] Ele deve, mais
do que nunca, estar atento às incongruências de seus
sentimentos com os pressupostos intelectuais: até que
ponto ele realmente confia nos recursos da pessoa para
enfrentar suas dificuldades e modificar seu mundo?”
9
O SERVIÇO E O CURSO
Quanto à estruturação do serviço, que
acompanhava o calendário dos cursos do Instituto
Sedes Sapientiae, percebemos que a proposta
semestral, com constantes interrupções devido às férias,
além de truncar o afluxo de clientes, tornava muito
curto o período de preparação do plantonista,
preparação que nos parece requerer bastante empenho,
especialmente no que diz respeito às bases conceituais
da Abordagem Centrada na Pessoa e aos valores
pessoais do profissional. Isto pôde ser confirmado
pelo número de re-inscrições dos alunos para os
semestres seguintes, evidenciando que não só
reconheciam a relevância e efetividade do Plantão
Psicológico, como também a consciência que tinham
da necessidade de aperfeiçoamento. O tempo breve
da relação com o cliente talvez torne mais perceptível,
tanto para o supervisor como para o próprio aluno,
o grau de consistência na adoção da ACP como
referencial para sua atuação. A ausência de solidez na
“atitude centrada na pessoa” prejudicará a qualidade
da relação de ajuda, gerando no plantonista
comportamentos incongruentes e condutas diretivas
ALGUMAS CONSIDERAÇÕES SOBRE O PLANTÃO
Nossas próprias “descobertas” antecipam o que
diria mais tarde o rabino e escritor Nilton Bonder:
“A grande descoberta deste século para as Ciências
Humanas é a descoberta terapêutica da escuta. Não há
melhor entendimento que alguém possa nos prestar do


27
O Plantão de Psicólogos no Instituto Sedes Sapientiae
10
 BONDER, Nilton –
Elul, O mês da
escuta, Kol – Boletim
Informativo da
Comunidade 
Judaica
do Brasil, Rio de
Janeiro, Ano III, n.7,
agosto 1998, p.1.
que servir-nos de ouvido para as falas baixas e quase
imperceptíveis de nossa existência”
 10
.
Ouvir pode sugerir uma atitude passiva, mas não
é. Ouvir implica acompanhar, estar atento, estar presente.
Presença inteira. Que quer dizer “presença inteira”?
Todos sabemos o que significa presença “parcial”.
Quantas vezes duvidamos que nosso interlocutor esteja
realmente nos ouvindo? Mesmo que alguém, ao ser
questionado “Você est᠑mesmo’ me ouvindo?” seja
capaz de repetir literalmente aquilo que acaba de ouvir,
a repetição soará vazia, oca de sentido, se sua presença
estiver cindida. Ser capaz de repetir neste caso não
significa ser bom ouvinte. É sutil, mas às vezes podemos
até perceber, sem mesmo ter consciência de que
percebemos - pela própria “densidade” de olhar do
outro, pelo tipo de brilho desse olhar - a denúncia da
“parcialidade” da presença. Um olhar nosso ao olhar
do interlocutor poderá revelá-la. A repetição, mesmo
quando se torne uma reprodução, isto é, quando procure
“re-produzir”, sintetizando o conteúdo daquilo que foi
ouvido, eventualmente em outras palavras, torna-se oca,
é apenas e simplesmente um eco.
Eco, a ninfa da mitologia grega, evitava a
companhia dos homens e dos deuses e não se importava
com o Amor. Pã, apaixonado por ela e irritado com sua
indiferença, fez que os pastores da região a
despedaçassem, espalhando os despojos pelas
campinas. Eco, dispersada por muitos lugares, limita-
se a repetir os sons que se produzem por perto.
Ouvir realmente, e não apenas “ecoar”, requer
concentração do plantonista (terapeuta, ouvinte etc.).
Não é possível ouvir estando disperso como Eco. E
não estou me referindo a concentração apenas como
capacidade de focalizar a atenção (no cliente ou na
fala do cliente), mas quero ressaltar a concentração
do terapeuta em si mesmo.


28
Plantão Psicológico: novos horizontes
Proponho refletirmos sobre “concentração”
como “congruência”. Parece estranho? Congruência
pode ser entendida como o alinhamento de várias
esferas sobre um mesmo eixo. Psicologicamente
falando, significaria ter as dimensões do pensar, sentir
e agir, alinhadas em torno do mesmo eixo, ter “todos
os centros num mesmo centro”. Congruência é
portanto con-centração, tomar dentro de si como único
centro, o mesmo eixo de alinhamento. É alinhamento
interno, concentração, presença inteira.
A Abordagem Centrada na Pessoa, enfatizando as
qualidades da relação (aceitação incondicional, empatia e
congruência) como fator mobilizador do crescimento
(tendência atualizante) se confirma como perfeito
referencial para o “Plantão Psicológico”, modalidade de
atendimento que vem abrir também novas perspectivas
de contribuição social para o psicólogo.
Relembrando a expressão tão rica de sentidos
do Prof. Miguel Mahfoud, podemos confirmar o Plantão
Psicológico como presença que mobiliza.


29
Plantão Psicológico na escola: uma experiência
1
 O presente texto
foi originalmente
apresentado no VIII
Encuentro Latino-
americano del Enfo-
que Centrado en la
Persona, promovido
pela Universidade
Iberoamericana da
Cidade do México e
pela Universidade
Autônoma de
Aguascalientes, em
Aguascalientes,
México, em 1996,
com apoio da
FAPEMIG.
Plantão Psicológico na escola: uma
experiência
Miguel Mahfoud
O
 desempenho profissional é fruto possível
de raízes filosóficas, e é verdade que se conhece a
árvore pelos frutos. Mas se o fruto-desempenho
profissional não morrer, ficará só; se morrer um pouco,
para uma reflexão mais profunda e para se misturar
com o que dá vida, produzirá cem por um.
Por isso quero agradecer a possibilidade de
compartilhar experiências 
1
, a oportunidade de pensar
um pouco mais no que faço; oportunidade de me
enriquecer pela consciência de que também eu fui
plantado e que também eu sou árvore com raiz e fruto,
e oportunidade de comunicar. O sentido mais
profundo do fruto não é semear de novo?
A Educação tem pedido técnicas à Psicologia.
Mas o risco é o de não se clarear a finalidade geral da
educação, respondendo segundo objetivos precisos
mas inadequados a essa finalidade. Ou seja, o risco é o
de não explicitarmos (nem a nós mesmos) que a


30
Plantão Psicológico: novos horizontes
finalidade da educação é a formação da pessoa, e
querermos responder a tantas demandas com diversos
objetivos definidos (aumento do rendimento escolar,
auxílio na expressão verbal e escrita, aplacamento de
comportamentos anti-sociais...) que podem nos ocupar
muito, podemos até obter resultados, mas poderíamos
ainda assim não estar respondendo à verdadeira
finalidade da educação. Se a explicitarmos, daremo-
nos a oportunidade de que ela ilumine objetivos,
métodos e técnicas. E, ainda mais importante, daremos
a nós mesmos a oportunidade de sermos educadores,
isto é, testemunhas de uma consciência ampla possível,
que já começa a ser uma rota de orientação dentro da
desorientação cultural em que vivemos, e que as nossas
crianças e adolescentes não têm como evitar.
É nesse sentido que um pouco ousadamente
evitei assumir uma função psico-pedagógica na escola
em que trabalhei. É preciso salientar que ali tínhamos
uma condição de trabalho incomum, não sendo
chamados a desempenhar as funções de orientação
educacional, ou coordenação pedagógica ou disciplinar
- funções estas exercidas por outros profissionais. Pude
então me preocupar com uma contribuição
propriamente psicológica no âmbito escolar.
Devido à minha formação marcada pela
Abordagem Centrada na Pessoa logo quis que também
na escola a psicologia pudesse contribuir primeiramente
constituindo um espaço para o aluno como pessoa. Um
espaço onde se retomasse a finalidade da educação através
da formação da pessoa naquele contexto, assim como é,
com todos os seus recursos e limites, já. Em um contexto
institucional cristalizado e tantas vezes inevitavelmente
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