Perfis e trajetórias dos professores universitários de História no Rio de Janeiro



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Perfis e trajetórias dos professores universitários de História no Rio de Janeiro

Marieta de Moraes Ferreira*
Este artigo tem como objetivo analisar a trajetória dos professores que atuaram na implantação dos primeiros cursos universitários de História no Rio de Janeiro. Isto significa investigar a criação do curso de História na Universidade do Distrito Federal (UDF) e na Faculdade Nacional de Filosofia (FNFi) da Universidade do Brasil. A proposta é pesquisar principalmente três momentos: os projetos iniciais elaborados na criação da UDF, em 1935; sua extinção, em 1939; e a estruturação e consolidação do novo curso da Faculdade Nacional de Filosofia (FNFi) da Universidade do Brasil, atual Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). A idéia básica é a de estudar as trajetórias das primeiras gerações de profissionais de história e geografia num momento de institucionalização deste campo profissional. Através do perfil de seus membros é possível acompanhar a formação, as maneiras de recrutamento, suas relações com outros segmentos da sociedade e instituições, as mudanças, os conflitos e as disputas no campo da constituição da história como ensino universitário. A estratégia de trabalho adotada é o estudo das biografias coletivas dos professores de história da UDF e de história e geografia da FNFI, já que a partir de 1939 as duas formações passaram a estar juntas no novo curso.
O estudo da criação das universidades no Brasil por si só, reveste-se de grande importância para a compreensão dos desafios que se colocam para nosso país na atualidade. A UDF, e posteriormente, a FNFi se constituíram em um padrão para as demais Faculdades de Filosofia nas décadas de 1930 e 1940 o que faz da análise de suas trajetórias uma contribuição importante para a história da educação no Brasil.

Este trabalho pretende contribuir para uma melhor compreensão das relações entre ensino e pesquisa, bem como da constituição e especificidade dos cursos na universidade. No terreno particular da História, nosso enfoque insere-se também numa perspectiva de discussão historiográfica preocupado com concepções de história e embates políticos entre universos ideológicos antagônicos.

Em 4 de abril de 1935 foi criada a Universidade do Distrito Federal. Pelo exame dos seus estatutos, percebe-se que a UDF era uma universidade bastante original, tanto pelos cursos que oferecia, quanto pela maneira como propunha o desenvolvimento da sociedade através da educação.

Construída segundo esse modelo, a UDF ia de encontro aos estatutos das universidades brasileiras de 1931, que subordinavam as universidades ao Ministério da Educação e ao governo federal. Seu decreto de criação contrariava a orientação oficial, pois definia estatutariamente a UDF como vinculada ao poder municipal da cidade do Rio de Janeiro.

O objetivo principal da nova universidade era encorajar a pesquisa científica, literária e artística “propagar as aquisições da ciência e das artes através do ensino regular de suas escolas e dos cursos populares”. A UDF não pretendia somente produzir profissionais, mas sim formar “quadros intelectuais” para o Brasil.

A análise da proposta da UDF nos indica de imediato a existência de um curso de História separado do de Geografia e um peso praticamente inexpressivo para o estudo desta disciplina. Pode-se perceber também uma grande importância dos cursos voltados para a área pedagógica o que demonstra a orientação de privilegiar a formação de professores, essa abordagem, no entanto não eliminava a preocupação com a pesquisa como um elemento importante para a formação dos futuros mestres.

O projeto da UDF encontrou fortes resistências, não obstante seus dirigentes procurassem superar os obstáculos e garantir a consolidação da instituição. Mas, conforme já dito, a existência da Universidade contrariava o projeto defendido pelo governo federal, que em 5 de julho de 1937, sancionou a lei n 452, estabelecendo a Universidade do Brasil, projeto defendido pelo ministro Gustavo Capanema. Esta instituição dava continuidade à antiga Universidade do Rio de Janeiro, criada na década de 1920 como uma reunião das escolas superiores existentes na cidade. O projeto do novo organismo visava a consolidação de uma universidade padrão para as outras que viessem a se constituir. Assim, a instalação do Estado Novo em 1937 criou as condições para a eliminação da UDF e a integração de seus quadros à Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da Universidade do Brasil em 1939.

Outro momento se iniciava no processo de institucionalização do ensino superior de história. Um novo modelo de graduação estava se conformando naqueles anos e passaria a ter uma forte influência em todo o país. Diferentemente da proposta anterior, reuniam-se as formações de história e geografia num único curso que enfatizava a preparação dos professores secundários voltada essencialmente para o ensino sem um comprometimento maior com o desenvolvimento da pesquisa.

Apesar de se configurar como uma experiência inovadora, a UDF durou apenas quatro anos. Os seus quadros foram incorporados formalmente à Universidade do Brasil pelo Decreto-lei n. 1063, de 20 de janeiro de 1939. Em 4 de abril de 1939, o Decreto-lei 1190, instituiu a Faculdade Nacional de Filosofia (FNFi), tendo por finalidades:

“a) preparar trabalhadores intelectuais para o exercício das altas atividades culturais de ordem desinteressada ou técnica;

b) preparar candidatos ao magistério do ensino secundário e normal;

c) realizar pesquisas nos vários domínios da cultura, que constituíam objeto de seu ensino”. 1

O mesmo decreto de criação estabelecia ainda a organização da Faculdade Nacional de Filosofia em quatro seções fundamentais: Seção de Filosofia, Seção de Ciências, Seção de Letras e Seção de Pedagogia. Haveria, ainda, uma seção especial de didática.2 A Seção de Ciências compreendia, além de outros cursos, o de História e Geografia. O curso reunindo as duas formações só seria novamente desmembrado a partir de 1955.

Transformações importantes estavam ocorrendo e os professores precisavam buscar formas de inserção nesta nova conjuntura. Tendo por função legal a formação de professores e constituída como um padrão para as demais Faculdades de Filosofia nas décadas de 1930 e 1940, a FNFi formou gerações em diversos campos de conhecimento e constituiu marco relevante da evolução cultural, científica e tecnológica do país.

Passaram pela instituição desde a sua fundação em 1939 até sua extinção, professores brasileiros e estrangeiros, que contribuíram para a institucionalização de seus respectivos campos de conhecimento no Brasil. Em fins da década de 1960, a Faculdade foi desmembrada em diversas escolas e institutos, que hoje fazem parte dos quadros da Universidade Federal do Rio de Janeiro.




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