Pequeno ensaio sobre Augusto dos Anjos



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Pequeno ensaio sobre Augusto dos Anjos
Adalberto Tripicchio MD PhD

Para bem penetrar a poesia de Augus­to dos Anjos, é necessário adotar preliminarmente uma posição estrutura­lista, que permita compreender o homem e a obra, integrados em uma totalidade uni­tária. Os conceitos que se têm expendido a propósito são, as mais das vezes, super­ficiais ou incompletos, não chegando a abranger, senão aspectos parciais da ques­tão, por abstração dos fatores de ordem ge­ral e particular que intervieram na forma­ção de sua personalidade total.


Daí o consi­derar-se o aparente como real e o confun­dir-se o fundamental com o que é apenas acessório. Assim, a preocupação do ma­cabro, a idéia absorvente do apodreci­mento final, a predileção quase obsessiva pelos temas rebarbativos ou escabrosos, a riqueza do vocabulário técnico irrepreen­sível, são apenas características formais, que não traduzem a essência, a natureza íntima, a significação profunda de sua arte poética, cujas origens terão que ser perquiridas nos componentes de sua pró­pria estrutura psicológica, através da análise pluridimensional de sua persona­lidade.
Para a consecução desse objetivo, faz-se mister à guisa de ordenação metó­dica e sistemática, indispensável a qual­quer ensaio de interpretação crítica, dis­criminar desde logo, para ulterior expla­nação e desenvolvimento analítico, fato­res de ordem individual e fatores mesoló­gicos. Os primeiros se distribuem em duas categorias distintas: os predominan­temente endógenos ou constitucionais, representados pela unidade biopsíquica em seu tríplice aspecto fundamental ou básico - o somático, o temperamental, o intelectual; e os predominantemente exó­genos ou adventícios, que provêm aqui de duas fontes autônomas e definidas - uma espiritual, constituída dos elementos até certo ponto antagônicos de sua formação ética e humanística, a outra orgânica, de natureza patológica, representada pela terrível enfermidade pulmonar que o vi­timou. Finalmente, entre os fatores me­sológicos, cumpre salientar como princi­pais, e de certo modo interdependentes: o seu ambiente cósmico-social e o drama econômico de sua vida.
Facilmente se depreende que, para a rigorosa execução do plano elaborado, é necessário lançar mão de dados biográfi­cos, os quais, no caso vertente, foram co­lhidos, a maior parte, no comovido e subs­tancioso prefácio do Sr. Orris Soares, amigo dileto do grande e incompreendido poeta paraibano, e a quem se deve a cuidadosa recolta de suas poesias completas. Mas não menos importante é aqui, certa­mente, o elemento subjetivo da própria obra, que vale, a bem dizer, por uma auto­dissecação, por um fotograma interior de sugestionante eloqüência psicológica.
A arte é, efetivamente, uma forma superior de sublimação, mediante a qual, a tensão afetiva, obstaculizada ou inibida, satisfaz aquilo que em potência represen­ta, sob o aspecto de realizações imaginárias ou fantásticas, por mecanismos par­cialmente inconscientes de derivação e de canalização, que visam a adaptação fun­cional progressiva do indivíduo às reali­dades contingentes. "Criar, como já dis­sera Dostoiévski, é eliminar nossos fan­tasmas". Daí, o interesse capital que se confere, hoje em dia, ao estudo da obra de arte, como a mais segura das vias de aces­so à intimidade do artista, através dos meios de expressão simbólicos de que ele se utiliza para a exteriorização de suas emoções estéticas.
Numerosas são as criações artísticas que, modernamente, têm constituído ob­jeto de perquirições científicas, sobretudo por parte da escola psicanalítica, cum­prindo ressaltar, entre os trabalhos mais divulgados, o do próprio Freud sobre o sorriso da "Gioconda", o de Moeder sobre a "Divina Comedia", o de Jones sobre o "Hamlet", o de Otto Rank sobre o signi­ficado da música wagneriana. Entre nós, o Artur Ramos, que é um dos ele­mentos mais representativos daquela cor­rente psicológica, foi autor de um pequeno ensaio sobre a complexa personalidade do poeta do "Eu", publicado há vários anos nos "Anais médico-sociais" da Bahía, sob o título - "Augusto dos Anjos à luz da psi­canálise".
No estudo que se vai agora empreen­der sobre o que poderíamos denominar o seu "componente psicofísico", vamos nos socorrer inegavelmente em muitas das nossas interpretações dos subsídios for­necidos pela psicanálise, conquanto não nos atenhamos aqui estritamente aos pontos de vista doutrinários da concepção freudiana, preferindo antes uma posição eclética, que permita utilizar também a psicologia individual de Adler, a caracte­rologia de Kretschmer e, muito especial­mente, o método fenomenológico no sentido de K. Jaspers, quando se fizer mister encarar o fenômeno objetivamente, tal co­mo é experimentado, e no que ele possa ter de permanente e caraterístico.
1. Biotipologia
Começando pelo aspecto físico, de transcendência incontestável, vamos reproduzir pequeno trecho do prefácio da obra de Orris Soares, em que procura re­tratar a sin­gular figura do poeta: "Foi magro meu desventurado amigo, de magreza esquáli­da - faces reentrantes, olhos fundos, olheiras violáceas e testa descalvada". E mais adiante, prossegue: "Os cabelos pretos e lisos apertavam-lhe o sombrio da epiderme trigueira. A clavícula arquea­da. Na omoplata, o corpo estreito que­brava-se em uma curva para diante. Os braços pendentes, movimentados pela dança dos dedos, semelhavam duas rabe­cas tocando a alegoria dos seus versos. O andar tergiversante, nada aprumado, pa­recia reproduzir o esvoaçar das imagens que lhe agitavam o cérebro". E, por fim, concluindo em uma metáfora expressiva: "Feriu-me de chofre o seu tipo excêntrico de pássaro molhado, todo encolhido nas asas com medo da chuva".
Assim era, efetivamente, Augusto dos Anjos. E dir-se-ia que a sua maneira de versejar, em ângulos agudos, traía-lhe, não raro, o perfil arestoso e adunco, como outrora se disse que o verso cristalino de Leconte de Lisle era bem o reflexo vivo de sua plástica apolínea.
Mas a descrição fotográfica a que se acaba de aludir serve ainda para demons­trar, de um lado, as correlações estabele­cidas por Kretschmer entre a estrutura corporal astênica e a maneira de ser es­quizóide, evidenciada a cada passo na obra do poeta, e do outro, para explicar certas particularidades psicológicas, sem as quais não seria possível compreender a significação de muitas de suas atitudes espirituais, que se refletem imprecisa­mente no conjunto, e mais nitidamente em certas passagens de sua atividade criadora.
É sabido que a morfologia corporal condiciona o aspecto do indivíduo, isto é, o estilo dos seus gestos e movimentos, e que origina, por si só, um obscuro senti­mento de superioridade ou de inferiori­dade física, ante as situações, capaz de influir decisivamente em suas reações, frente a um estímulo, e de fazer variar completamente o seu tipo de conduta, não só no plano da ação explícita, como na esfera da vida subjetiva consciente. O complexo de inferioridade adleriano, ar­rière-fond de tantos heróis da humanida­de, é o responsável teleológico pelo desenvolvimento de muitas aptidões artísticas vigorosas e de um sem número de desco­bertas científicas. O viver pelo instinto conforme a natureza é apanágio dos que se conceituam fortes, dos que se bastam a si mesmos, dos que nunca experimenta­ram essa ânsia incontida de algo mais, como compensação às suas insuficiências íntimas, reais ou imaginárias.
Em Augusto dos Anjos, o sentimento de inferioridade física se denuncia sob a forma de renúncia búdica às materia­lidades terrenas e de desejo manifesto, irreprimível, de afirmação da personali­dade no domínio das coisas do espírito.
A demonstração vai às origens daquela sua paixão obsedante pelo estudo, que acabou por transformá-Io em um remanescente retardatário das gerações que o precede­ram. E estende-se até o título de sua obra poética - "Eu" - que, com o tra­duzir uma atitude de contemplação nar­císica do seu mundo interior, representa, ao mesmo tempo, um "grito de protesto", de imposição tirânica de sua noumenali­dade à vida e à natureza, em uma conscien­tização momentânea do sentimento exis­tencial.
A fome e o amor constituem a pola­rização da vida animal, na sua expressão mais rudimentar e primitiva. A necessi­dade de intelectualizar a existência é pro­duto do sentimento de incapacidade, mais do que talvez da incapacidade mesma, de enfrentar a vida, tal como é, na sua rea­lidade rotineira e brutal.
O poema de abertura - "Monólogo de uma sombra" - grandioso pelo tema e pela forma, é, em suma, a glorificação da arte como supremo refúgio do ser huma­no, esmagado pelas iniqüidades terrenas, após haver reconhecido a inutilidade da ciência diante da morte e a transitorieda­de do prazer material, sempre mesclado de sofrimento, conforme o princípio hegelia­no da contradição. Tudo se processa aqui por um mecanismo de racionalização compensadora, peculiar às mentalidades robustas, quando expostas a conflitos vitais.
Nos versos de "Agonia de um filóso­fo", do "Vencido", do "Idealismo", do '''Versos de amor", de "O meu nirvana", de "A fome e o amor", do "Canto de oni­potência" e em certas passagens do "Quei­xas noturnas" (3.ª ed., p. 144, estrofes 4.ª e 5.ª) obtém-se a ampla con­firmação desse pressuposto.
Dentre os citados, destacamos, como dos mais tí­picos:

"No alheamento da obscura forma humana,

De que, pensando, me desencarcero,

Foi que eu, num grito de emoção, sincero,

Encontrei, afinal, o meu Nirvana.
Nessa manumissão schopenhaureana,

Onde a Vida, de humano aspecto fero

Se desarraiga, eu, feito força, impero

Na imanência da Idéia Soberana.


Destruída a sensação que oriunda fora

Do tato - ínfima antena aferidora

Destas tegumentárias mãos plebéias ­-
Gozo o prazer, que os anos não carcomem,

De haver trocado a minha forma de homem

Pela imortalidade das Idéias".

(O meu nirvana)


Em Augusto dos Anjos, a ânsia de evasão da realidade é a expressão de sua inadaptabilidade à vida exterior, tradu­zindo o que Kretschmer descreveu sob a denominação de esquizoidia. O termo ro­tula um estado inicial de inadaptação pragmática, situado nas fronteiras da psicopatia franca, e caracterizado pela perda da sintonização afetiva com o meio. Essa ruptura do contato vital com a realidade dá, em resultado, a tendência à introversão, isto é, a um estado primitivo de satisfação autoerótica, a que Bleuler denominou autismo.
O temperamento esquizóide oferece antinomias e contrastes que lhe empres­tam caráter de estranheza. Robespièrre, Calvino, Feuerbach, Tasso, Michelange­lo são exemplos sempre citados de esqui­zóides célebres, que realizam, por sua complexidade psicológica, o que se desig­na com o qualificativo de personalidades emaranhadas.
Procurando definir a vida interior de um esquizóide de "autismo rico", algu­mas vezes em absurdo contraste com as suas reações de superfície, Kretschmer assinala, em uma imagem, que muitos dos indivíduos desse grupo "são como certas casas e vilas romanas, que se fecharam ao sol brilhante, enquanto na meia obscuri­dade do interior celebram festas". . .
Augusto dos Anjos realiza bem o tipo perfeito do esquizóide, permanentemente dissociado da realidade exterior, voltado para dentro de si mesmo, a se auto-analisar, em uma perquirição sem tréguas:

"Escafandrista de insondado oceano,

Sou eu que, aliando Buda ao sibarita

Penetro a essência plásmica infinita,

Mãe promíscua do amor e do ódio insano

.

No abstrato abismo equóreo em que me inundo,

Sou eu que, revolvendo o ego profundo

E a escuridão dos cérebros medonhos,


Restituo triunfalmente à esfera calma

Todos os cosmos que circulam na alma,

Sob a forma embriológica de sonhos!"



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