Para a minha família, com amor Sumário



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SÉTIMA VELA

1


No dia anterior o velho pai lhe dizia: Fique sabendo que eu não preciso de você para nada amanhã. Francisco e eu já organizamos uma equipe completa para lidar com o pequeno elevador em Jerusalém. Você pode ficar tranquilo e se ocupar dos seus assuntos no escritório, e preparar a casa para a volta da Daniela. Mas, se teimar em vir conosco, faça o favor de chegar cedo, logo de manhã. Você sabe que antes do almoço o meu tremor é bem mais fraco.

“Mas de manhã, papai, não de madrugada.”

“Chegaremos a um acordo sobre o horário, nem tão cedo nem tão tarde.”

Quando chega à casa do pai, às sete e meia, ele já o encontra tremendo na cadeira de rodas, pronto para viajar. A higiene matinal foi antecipada para o raiar do sol, o café da manhã também já foi servido, e sobre a mesa limpa de migalhas o bebê filipino chupa o pé com um grande empenho, tendo à sua volta cinco recipientes plásticos com sanduíches, bolinhos e legumes descascados.

“Você não confia que sua amiga de Jerusalém nos receberá bem?”

“Vamos ser muito bem recebidos, eu conheço muito bem essa senhora. Mas por causa da sua formalidade, a minha equipe não vai ter coragem de se aproximar da mesa dela. Por isso nos prevenimos, para que não dependam da recepção dela.”

“A equipe, a equipe”, caçoa Yaári, “de que equipe se trata, afinal?”

E ele descobre, espantado, que se trata de uma verdadeira expedição; os que acompanham o velho são seis, além dele mesmo: um motorista de ambulância particular, que prestava serviços à mãe durante a doença dela, dois amigos filipinos de Francisco, Hilario no papel de intérprete, e mais uma pequena surpresa...

“Que surpresa?”

“Surpresa”, sorri o pai, “quando você a vir saberá imediatamente que é mesmo uma surpresa.”

“Mas que tipo de surpresa?”

“Calma, tenha paciência. Você se lembra de eu tê-lo decepcionado alguma vez?”

Yaári olha afetuosamente para o pai, vestido como quem vai a uma festa. Uma camisa alvíssima e um paletó preto, e no seu peito uma gravata vermelha. Em seu tremor não se percebe esta manhã qualquer mudança para melhor.

“E os remédios?”

“Tomei uma dose um pouco maior que o normal. E tenho no bolso uma dose a mais, para o caso de a menininha ir além dos limites permitidos.”

“Há quantos anos você não a vê?”

“Desde o início do milênio. Quando a doença piorou, percebi que gente velha como nós não deveria se entregar a ilusões.”

“Ilusões sobre o quê?”

O pai tira os óculos e aproxima o relógio dos olhos, para ter certeza de que o ponteiro está andando. Depois eleva o olhar para o filho e resmunga: “Ilusões... ilusões... Você sabe exatamente do que estou falando, então não brinque comigo logo de manhã bancando alguém que você não é”.

“E isto significa...?”

“Isto significa um engenheiro quadrado, ingênuo e limitado.”

O velho Yaári, que nunca fez nenhum curso universitário, até hoje provoca o filho de vez em quando por causa do seu diploma. Mas o filho não o deixa em paz.

“Ilusões de que o amor pode ser um consolo para a morte?”

O pai sacode a mão, furioso.

“Se isso faz você ficar mais calmo, então estamos de acordo. Mas me faça um favor e deixe para mais tarde essa filosofia toda, e agora me diga se devo pôr também a gravata vermelha ou se aí eu estarei exagerando.”

“Se você não pretende se maquiar para ir a esse encontro, a gravata vermelha vai até acrescentar uma luz a esse rosto tão pálido.”

“Mas uma gravata de festa pode causar a impressão de que não estou indo lá apenas como um técnico para cumprir uma obrigação.”

“Um técnico amante — não há nada mais sexy do que isso.”

Uma leve batida na porta. Hilario, sentado ao lado da mesa grande para impedir o bebê de estender os braços e as pernas e voar para o chão, corre para abrir. Dois rapazes filipinos, com rostos tristes de adultos precoces, entram constrangidos e são logo atraídos para o bebê de sua raça, que os premia com um sorriso amistoso. Kinzi vem correndo da cozinha para apresentá-los, Marco e Pedro, dois bons amigos que foram liberados por seus clientes para ajudar seu amigo a transportar o patrão dele até o quarto andar, onde mora sua amante de Jerusalém.

2

Na quinta noite ela novamente acorda numa grande escuridão, desta vez devido a um súbito pânico em relação a Nófer, cuja dedicação ao trabalho no hospital poderia fazê-la contrair alguma doença rara. Depois de amanhã, assim que voltar a Israel, ela exigirá que a filha verifique que tipos de vacina são dados a uma auxiliar de enfermagem, e quais são as normas a serem seguidas no tratamento de pacientes com doenças não identificadas. É verdade que já há alguns anos ela e Yaári cuidam para não se meter nos assuntos privados da filha, mas doença não é um assunto privado.



Ela hesita entre acender a luz ou tentar segurar pelo rabo a sonolência que vai se afastando de mansinho. Passados quinze minutos em decúbito imóvel e de olhos fechados, ela percebe que a sonolência a abandonou para não mais voltar, e acende a luz para tentar espantar seus males através da perdição moral e material da heroína do romance. Mas duas páginas depois o arbítrio da narrativa novamente põe um fim à leitura. Angústias literárias fictícias não revogam preocupações verdadeiras, e por falta de alternativa ela substitui o romance israelense pela tradução do rei James para o Livro dos Livros. De início ela abre o livro do profeta Jeremias, para verificar com a cabeça mais tranquila até que ponto é legítimo o veemente protesto do homem que herdou seu nome. E, de fato, o nível de agressividade do profeta contra seu próprio povo, acompanhado por tamanho virtuosismo linguístico, confirma a suspeita do cunhado de que essas profecias iradas, mais do que proferidas com tristeza e dor, foram proclamadas com prazer e satisfação.

Ela procura, então, o livro de Jó. Ali o sofrimento humano ao menos é destituído de nacionalismos. E há também a possibilidade de encontrar uma cornucópia de palavras raras, que enriquecerão seu manancial verbal em inglês.

Na tradução à sua frente, o livro de Jó se oculta por alguma razão bem antes do livro de Jeremias, mas, depois que o encontra, ela tem a sorte de amealhar sem nenhum problema várias palavras cujo sentido ela ignora, tais como:
Froward

Collops

Asswaged

Reins

Gin

Cockle

Neesing.
É espantoso mas também agradável esse encontro com a Bíblia através de palavras que para ela não têm sentido algum na língua que ela ama e leciona, e Daniela as anota na última página do romance para, talvez, pôr à prova o inspetor regional de ensino do inglês, um solteirão irônico vindo da África do Sul, que gosta dela e busca sempre sua companhia. Mas seria boa ideia constranger um amigo num teste em que talvez ele não seja tão bem-sucedido?

Ela deixa de lado o livro de Jó, que lhe parece realmente um texto sério, mas sobrecarregado por cansativas repetições. Enfim, seria possível encolher um pouco a Bíblia, e nada de significativo teria sido perdido. Com o livro na mão ela se levanta para fechar a persiana a fim de excluir a luz da alvorada que se aproxima, mas antes de largar a Bíblia e apagar a luz ela decide dar uma olhada no Cântico dos Cânticos.

E já na abertura sensual — Let him kiss me with the kisses of his mouth — o inglês flui melodiosamente. Aqui não há termos ininteligíveis, cada palavra se mostra adequada e confiável, e por sobre as frases paira o espírito do original hebraico. O inglês antigo canta com graça e grandeza, e há nele até um toque de humor. Aí está o amor, generoso e desabrido, por vezes implorando por sua vida, outras vezes audacioso e rompedor, bronzeando-se ao sol do meio-dia e escaldante ao cair da noite. Sim, agora ela entende por que justo aqui se desatou o pranto do pai enlutado.
I am black, but comely,

O ye daughters of Jerusalem,

As the tents of Kedar,

As the curtains of Solomon.

Look not upon me because I am black,

Because the sun hath looked upon me.
Na imaginação da mulher branca, deitada em sua cama no continente negro, vem surgindo agora do deserto a sudanesa Sijin Kuang, negra e bela, alta como a tamareira, errando na cidade noite adentro, desfalecida de amor, perambulando nos mercados e nos becos em busca do amado de seu coração, mas não o encontra, e os guardas das muralhas a encontram e a açoitam, ferem-na e lhe roubam a echarpe, e é ela uma rosa entre espinheiros...

A turista israelense, fascinada, corre atrás dela, desliza pelos oito capítulos não aos prantos, mas embevecida.


O that thou wert as my brother,

That sucked the breasts of my mother,

When I should find thee without,

I would kiss thee,

Yes, I should not be despised.
Ela fecha o livro e o põe de lado. Apaga a luz, cobre-se com a coberta e mergulha num sono consolador. E não uma hora apenas se passa, mas três, com a luz matinal violenta tentando, em vão, penetrar pelas frestas. Até que uma leve batida na porta a acorda, e ela acredita que é o cunhado que veio chamá-la para o café da manhã, ou então é Sijin Kuang que já voltou. Sem pensar duas vezes, convida quem está atrás da porta a entrar, mas a porta não se abre pois quem está ali, no vão da escada, é o arqueólogo ugandense dr. Roberto Kukiriza, que pede com muito respeito licença para entrar. Deseja conversar privadamente com a hóspede.

Muito contente com o fato de que o ilustre intelectual da expedição houve por bem vir pessoalmente ao seu quarto, ela lhe pede que espere um momento até que lhe seja possível abrir, despe a roupa que usou para a noite, corre descalça e lava o rosto, põe o vestido africano e ajeita agilmente a cama, fecha o romance e o bota ao lado da Bíblia, e antes de abrir a porta ela aparta as duas folhas da persiana para que entre um ar novo e fresco, e então põe a mão na maçaneta, ainda descalça.

3

Agora entra Francisco, acompanhado por Maurice, o dono da ambulância particular que alguns anos antes levava a dona da casa a exames e tratamentos em clínicas e hospitais. Maurice veio do Egito, e trouxe com ele a Israel o espírito afável e paciente dos habitantes da Terra do Nilo. Por vezes, com uma única frase ele infunde esperança nos doentes que transporta de lá para cá. Em seus últimos anos, a alma da mãe de Yaári ligou-se à dele, e mesmo às compras ou para ver as amigas preferia a ambulância a um táxi comum.



“Eis aí o nosso Maurice”, exclama o velho homem com carinho, abrindo os braços para receber o visitante baixinho e troncudo, “quando vemos você nos lembramos daquela que tanto o amava.”

Maurice inclina-se sobre a cadeira de rodas e cinge o velho ao peito, com todo o cuidado, como se ele fosse de vidro. Depois aperta calorosamente a mão de Yaári. Ele está muito contente de ser chamado de novo para servir à família Yaári, principalmente em se tratando não de uma viagem ao hospital, mas para visitar uma antiga namorada.

O velho enrubesce intensamente, e balança o indicador na direção de Francisco, que andou falando demais. Mas Yaári ri, eis aí a prova de que o coração vai é ficando mais moço com o tempo.

Faz um tempo horrível em Tel Aviv, e na certa em Jerusalém estará ainda pior. Yaári insiste para que Francisco envolva seu pai num casacão de inverno, e ponha por cima a capa de plástico da qual sai um capuz parecido com o dos casaquinhos de seus netos. E depois que Marco e Pedro levam até a ambulância a caixa de ferramentas preparada de antemão, e também o isopor com os recipientes plásticos, eles conduzem ao elevador o pretendente, e rolam a cadeira de rodas para dentro da ambulância azulada, que envelheceu um pouco junto com o dono. Por um momento Yaári reflete se vai com o pai na ambulância ou se preserva a liberdade dele viajando no seu carro. Por fim ele opta por cuidar mais de perto do pai, mesmo que seja preciso apertar-se entre os filipinos caladões.

“E onde está a surpresa?”

“A surpresa nos espera no número 9 da praça Rabin, ao lado da livraria.”

E essa também é a instrução dada ao motorista.

Perto da livraria, ainda fechada, atrás da cortina de chuva fina, os espera um vulto que não deixa adivinhar nem seu gênero nem sua idade. Mesmo depois de espremer-se com agilidade para dentro da ambulância, sacudindo as gotas de chuva do chapéu e deixando à mostra os cabelos curtos e o rosto um pouco enrugado, é difícil saber seu sexo e idade.

Mas o velho revela o segredo. Conheçam por favor a especialista do Gottlieb, que hoje irá nos ajudar a decifrar o enigma das trepidações e dos uivos em Jerusalém. Róhaleh? Rôlaleh? É este o seu nome, não é? Este é o meu filho Amótz, o herdeiro.

“Já conheço o herdeiro do herdeiro”, sorri a pequena mulher, tirando a capa de chuva molhada e revelando um macacão de trabalho azul, “eu até esperava que ele também estivesse aqui.”

“Ele está detido no Exército, por ter ignorado a convocação para o serviço da reserva.”

“Que coisa inadequada.”

“Alguns fatos não se adéquam à realidade”, suspira Yaári.

Com um ar amistoso Marco e Pedro examinam a especialista baixinha. A junção de um rosto adulto a um corpo juvenil, apesar do cabelo alourado e dos olhos azuis, a faria passar por filipina.

“O Morán contou que vocês ficaram ouvindo os ventos lá na Pinsker, e que para você o problema não está nos nossos elevadores, e sim nos defeitos do poço.”

“Disso eu tenho certeza”, sorri a especialista, com paciência. “Precisamos botar o empreiteiro sentado sobre um dos elevadores, pôr na mão dele uma luz bem forte e fazer com que viaje até achar as suas falhas. Que veja e assuma a responsabilidade.”

“Foi exatamente o que eu sugeri ao Gottlieb”, confirma Yaári, a quem a autoconfiança profissional da mulherzinha impressionou muito bem. “Iluminar o poço. Mas o nosso escritório não tem autoridade para tocar nos elevadores, pois é a sua empresa a responsável por eles. E o problema é que o Gottlieb pretende evitar qualquer coisa, mesmo que sirva para provar que o empreiteiro...”

“Claro”, intervém a técnica, enérgica, “e por que não? Se ele economiza até as voltas da chave de fenda que não lhe trazem lucro. Eu o conheço desde a infância, ele pode ser considerado o meu padrasto.”

“O Gottlieb, seu padrasto?”, treme o velho Yaári, muito admirado, e tenta sem êxito aproximar dela sua cadeira. A chuva, agora, desaba com força sobre o teto da ambulância, e as janelas embaçam.

“Vocês não sabiam? Ele não deu nenhum indício?”

“Nada.”

“Faz muito o gênero dele esconder a nossa ligação familiar. Meu pai trabalhava na empresa dele, e quando ele faleceu o Gottlieb aconselhou a minha mãe que me internasse num kibutz como externa, para reduzir os gastos e também para ter mais facilidade de se aproximar dela. Quando eu vinha de férias do kibutz ele arranjava um pretexto e sumia da nossa casa, para evitar qualquer responsabilidade. Eu sempre fui meio esquisita para ele, até porque continuei muito magra e baixa. No início ele não gostou nem um pouco de saber que eu trabalhava na oficina mecânica regional. Não combinava com a ideia que fazia das mulheres. Ele achava que seria melhor para mim trabalhar na cozinha comunitária, ou na lavanderia. Mas, quando descobriram o meu talento auditivo para perceber defeitos técnicos nas máquinas, e eu provei isso com os elevadores que ele fabricava, ele começou a se entusiasmar e me ofereceu um emprego. Mesmo assim, até hoje ele não consegue admitir que eu sou meio parenta dele. A meu ver, ele tem certo medo de mim.”



“Medo por quê?”, pergunta Yaári, intrigado.

“Sei lá. A mim parece que ele tem certo receio de coisas que acha irracionais, místicas, sabe? Ele deve imaginar que eu ouço vozes, e pessoas assim têm medo de que, mesmo que isso lhes seja útil, a longo prazo pode ser algo que se volte contra elas e as arruine.”

O velho Yaári cai na gargalhada e segura com afeição a mão dela.

“Mas como foi mesmo que você se tornou especialista nisso? Até o Morán ficou admirado com você.”

“Vocês talvez não acreditem, mas a minha audição foi descoberta graças à música.”

“Que música, minha cara?”, pergunta o velho, que parece encantado com essa mulher tão infantil.

“Vocês já ouviram falar nos festivais de música em Kfar Blum, um festival de música de câmara que o rádio realiza uma vez por ano no kibutz? Aparecem lá pessoas cultas do país inteiro para ouvir as execuções de música clássica, na esperança de se tornarem classudas elas também. O kibutz é responsável por toda a administração e o funcionamento e a hospedagem, e acaba sendo um bom negócio. E não falta trabalho nesses festivais. Há as entradas e as bilheterias, e a organização das salas para ensaios, a arrumação das cadeiras, dos pianos, dos suportes para as pautas, até a iluminação. O público tem liberdade de assistir inclusive aos ensaios, e para os entendidos essa é a experiência máxima. Há até mesmo os mais sofisticados, que nem vão aos concertos, só assistem aos ensaios. Depois do Exército eu comecei a fazer parte da equipe de apoio e passei a estar presente em muitos ensaios, nos quais ouvi muitas observações sobre ritmo, e sobre o colorido do tom, e sutilezas sobre vibrato e crescendo semiabafado, e glissando endiabrado, e também sobre a eliminação de ruídos e chiados. Realmente, se depois de séculos continuam a tocar as fugas de Bach e as sonatas de Mozart, que novidades poderiam surgir no Auditório Popular de Kfar Blum, fora algumas minúcias de interpretação? E eu ficava sentada, fascinada, e abria bem os ouvidos, e quando me ensinaram como se escrevem as notas, eu descobri que minha audição não era apenas boa, era absoluta. Quer dizer, eu consigo ouvir não só a relação entre os sons, mas também identificar cada som pelo nome, e posso até cantá-lo na afinação correta.”

“Você tem ouvido absoluto sem nunca ter estudado música?”

“Isso mesmo, parece que se trata de um talento inato. E quando eu soube que tinha esse tipo de audição, absoluta, comecei a prestar atenção aos sons também na oficina, para treinar a minha sensibilidade a descobrir relações entre ruídos e todo tipo de desafinações em caminhões e tratores, e defeitos nos motores, e ficou claro que eu escuto até os ruídos mais fracos, que quando são levados em conta a tempo poupam um bocado de dor de cabeça. Aqui, neste nosso país, enquanto alguma coisa não quebra ou enguiça de vez, ninguém se preocupa e ninguém antecipa um tratamento preventivo. Agora mesmo, por exemplo, estou ouvindo os rangidos do câmbio automático da ambulância quando ele muda a marcha, e seria bom o nosso motorista, quando chegarmos a Jerusalém, pelo menos verificar o nível do óleo, senão a gente pode ficar entalado no meio da chuva na viagem de volta.”

4

Daniela não consegue recordar a idade dos fragmentos de osso depositados junto a seu prato quatro dias atrás naquele inesquecível jantar no sítio de escavações, mas ela gravou o que disse o arqueólogo sobre o sistema de “transmissão” nos processos evolutivos, e ela acredita ser capaz de reproduzir sua essência também a Amótz no momento adequado. O visitante ugandense é o único entre os membros da expedição a ostentar o título de doutor, e ainda por cima do departamento de arqueologia de Londres, e esse fato aparentemente reforça sua autoconfiança e também sua espontaneidade, pois ele não se furtou a convidar-se a ir pessoalmente ao quarto da hóspede estrangeira a fim de expor diante dela um pedido muito incomum, falando inclusive na primeira pessoa do plural.



“Sinto muito pelo incômodo e pela invasão de sua privacidade”, desculpa-se esse homem de esbelta figura, e senta-se no banquinho aos pés da cama, “mas por sabermos que a senhora volta amanhã para a sua terra, e nós voltamos hoje à noite para as nossas escavações, decidimos falar-lhe privadamente antes mesmo de recebermos a concordância de Jeremy. É muito importante que a senhora seja a primeira a ouvir o pedido, para que possa julgar por si mesma antes de aconselhar-se com seu cunhado. A senhora percebe que não falo apenas em meu próprio nome, mas também no de meus colegas, aos quais agradou muito a sua rápida visita e a sua atenção tão generosa. Antes de mais nada, porém, gostaria de perguntar-lhe se existe alguma possibilidade de a senhora voltar à Tanzânia ou à África no próximo ano.”

“Voltar à África no próximo ano?”, sorri ela, “não, não creio. É mais plausível que eu jamais volte, pois esta é uma visita de caráter privado, algo como uma visita de condolências para mim e meu cunhado, e ela se revelou totalmente satisfatória. Não acredito, por outro lado, que meu marido concorde com mais uma ausência minha. Nós dois estivemos aqui há três anos, quando a minha irmã ainda vivia, e junto com ela e o meu cunhado fomos até as reservas naturais. No caso de o Jeremy decidir permanecer com vocês, ele é que terá de ir nos visitar, e não nós a ele.”

Apesar da afeição com que o arqueólogo se refere à sua presença, Daniela percebe nele certa satisfação ao saber que ela não tem intenções de voltar ao país mais uma vez. Como se seu pedido dependesse do fato de ela não mais regressar.

“Aliás, tampouco o Jeremy permanecerá aqui por muito tempo.”

“Por quê?”, pergunta ela, ligeiramente preocupada.

“Porque a expedição possui um orçamento apenas para mais um ano, e então depois nos dispersaremos cada qual para o seu país. Mas para mim parece que o Jeremy anda sondando outras possibilidades.”

“Onde?”, pergunta ela, subitamente enfurecida. “Seria melhor que ele voltasse a Israel.”

“Mas ele não dá ao seu país a menor chance.”

“Bobagem... Não deem ouvidos ao que ele diz.”

O dr. Kukiriza se surpreende com a tempestade que se abateu de repente sobre a israelense, que se refugia agora num longo silêncio. Ele supera muito lentamente o constrangimento, e com voz macia se põe a explicitar, de modo muitíssimo tateante, seu pedido. Começa descrevendo os destinos do pesquisador africano, o qual — por mais ousado e independente que seja — depende inteiramente das decisões do pesquisador branco, dono dos arquivos de registros e dos laboratórios sofisticados. De fato, alguns dos membros da expedição trocam e-mails com vários pesquisadores nas Américas e na Europa interessados nos grandes símios africanos, e relatam aos seus colegas o que foi descoberto aqui e quais as perspectivas para o futuro, mas, mesmo que os brancos estimulem os africanos, não lhes é possível fornecer confirmações científicas enquanto não veem e manuseiam concretamente os achados propriamente ditos, e essa confirmação é relevante não apenas para proporcionar confiança e reconhecer a importância dos resultados, mas também para obter novos financiamentos.

“Então por que vocês não lhes enviam o que encontraram? Parece tão simples...”

“Poderia ser simples”, diz o ugandense, “mas não é. Há uma proibição absoluta quanto a levar os achados para fora do país sem a permissão do governo.”

“Por quê?”

“Porque eles são considerados patrimônio nacional.”

“Ossos de macacos?”

“Certamente, minha senhora”, seu rosto se torna sombrio e sua voz adquire tensão. Mesmo ossos de macacos com milhões de anos de idade são um patrimônio nacional de primeira grandeza, e quando for construído na Tanzânia, ou num país africano vizinho, o grande Museu Antropológico, haverá nele um lugar de honra também para as descobertas desta expedição. A África não possui grandes obras de arte, nem registros históricos de batalhas e guerras antigas que mudaram os rumos do mundo, nem mesmo escritores ou pensadores que se tornaram clássicos, mas apesar de tudo a origem da humanidade encontra-se na África, e por que não deveriam orgulhar-se do que proporcionaram ao mundo? Isto se a humanidade ainda tem alguma importância.

Agora ela se sente culpada por suas palavras arrogantes, e meneia a cabeça em enfática concordância.

Ele prossegue, então, a explicar que quando as descobertas são enviadas para fora do continente africano é necessária não apenas uma permissão específica, mas também uma apólice de seguro e uma garantia de que tudo voltará inteiro, e desse modo o custo de uma remessa desse tipo acaba superando suas possibilidades, isso sem mencionar o longo e complexíssimo processo burocrático. O receio é de que no momento em que esses ossos começarem a viajar por aí não virão mais pesquisadores do mundo inteiro para investigar suas características. Na Etiópia, por exemplo, foi necessária há pouco tempo a assinatura pessoal do presidente da República para que uma mandíbula de chimpanzé fosse enviada para a França a fim de ser examinada.

“A assinatura do presidente?”

“A assinatura do presidente.” Ele se levanta do banquinho e passa a andar pelo quarto como que atacado por suas ponderações, pois chegou o momento de apresentar seu pedido.

“A senhora conhece por acaso um instituto em Israel chamado Abu Kabir?”

“Abu Kabir?”, espanta-se ela por ouvir esse nome tão popular pronunciado pelo homem negro. “Certamente, é o nosso principal instituto de medicina legal.”

“É uma instituição árabe?”

“Por quê?”, ela corrige o equívoco do interlocutor. “É uma instituição israelense, onde todos são iguais, judeus e árabes, e o nome árabe acabou ligado a ela talvez devido a uma aldeia árabe que deve ter existido ali e foi destruída durante a guerra. Mas fica em Tel Aviv.”

O ugandense fecha os olhos por um momento.

“Abu Kabir, quer dizer o Pai do Grande. Um nome bonito e forte para um instituto de patologia.”

“Nome bonito?”, surpreende-se Daniela. “Para nós esse nome tornou-se sinônimo de grande pavor. Porque é ali que são identificados os restos das vítimas dos atentados terroristas.”

“É assim que ele é apresentado no site da internet. Mas parece que, devido ao grande número de vítimas de atentados em seu país, o instituto tornou-se muitíssimo avançado e sofisticado, estimulando o exame científico também de objetos do passado em tudo que se refira a identificação.”

“Pode ser”, Daniela abraça a si mesma, segurando os ombros com as mãos. “Mas eu é que não chegaria perto dali, nem mesmo do site na internet.”

“E nós nos perguntamos”, ignora ele a resposta da mulher, “se poderíamos aproveitar a sua volta amanhã para enviar a Abu Kabir alguns achados para exame.”

“Que achados?”

“Ossos. Três pequenos ossos que pesam quase nada, com no máximo doze centímetros de comprimento.”

“E você espera que eu vá com eles até o Abu Kabir para propor-lhes uma charada, de quem seria o cadáver.”

“Acreditamos que se trata de ossos do nosso macaco pré-histórico, o Australopithecus afarensis. A senhora já teve a honra de tocá-los. Eles estão limpos e não têm cheiro. São ossos ressequidos mas não são quebradiços, não ocuparão um grande espaço na sua mala. Já entramos em contato eletrônico com uma pesquisadora do Abu Kabir, a professora Perelman, que concordou em recebê-los para exame.”

Quando, por fim, o pedido foi proferido, ele entra em estado de alerta máximo, e seus olhos incandescentes perfuram o rosto de Daniela, que ainda não compreendeu inteiramente.

“Mas, se você diz que esses ossos são patrimônio nacional, eu não precisaria de uma permissão oficial para levá-los comigo?”

“Sim”, confessa o africano com toda a honestidade. “É necessária uma permissão.” Mas, como ele havia lhe explicado pouco antes, o processo é lento e complicado, e por essa razão eles tinham a esperança, ele e seus colegas, de beneficiar-se da boa vontade da senhora para contornar os trâmites burocráticos. Pois quem iria suspeitar que uma senhora na meia-idade, uma simples turista, estaria contrabandeando ossos tão importantes? E quem, afinal, procura ossos num aeroporto? E mesmo que eles sejam descobertos, quem conseguiria perceber que se trata de ossos tão antigos? E quem daria importância? Pois se trata de ossos de animais, e não de seres humanos. E mesmo que alguém, suponhamos, na África ou em Israel, insista em receber uma resposta exata, para que você precisa desses ossos ressequidos, ela poderia alegar que os apanhou no campo, ingenuamente, como uma lembrança do continente africano, e pensou em utilizá-los na escrivaninha como pesos de papel, para que suas páginas não sejam levadas pelo vento.

Um sorriso desponta nos olhos da mulher, que já antevê sua resposta mas deliberadamente a mantém oculta.

“Nós, com certeza, pretendemos obter a aquiescência do seu cunhado, mas antes disso precisávamos saber se uma missão desse tipo seria possível do seu ponto de vista.”

“É possível”, responde ela em voz baixa, “se é tão importante para vocês.”

“Para nós é importantíssimo.”

“Nesse caso”, sua voz agora é mais audível, “não envolvam nisso o meu cunhado. Qual a vantagem de deixá-lo preocupado comigo?”

5

A tempestade de chuva e vento antecipou-se e pegou-os quando se dirigiam da planície costeira para a capital, e agora trata de aumentar a confusão no trânsito caótico do centro da cidade. Mas uma ambulância, ainda que particular e azulada, tem o direito de escolher a pista rápida dos coletivos, e também de estacionar onde bem entender, inclusive sobre a calçada em frente ao antigo Parlamento. O velho arranca imediatamente o capuz e se desfaz da capa de plástico preto, e com o terno preto meio amassado mas reforçado pela gravata vermelha, rola direto até o hall de entrada, e lá surpreende seus acompanhantes pedindo para sair da cadeira de rodas e chegar ao último andar apoiado apenas em sua bengala.



Não é esta a primeira vez que o pai de Yaári repudia a cadeira de rodas. Daniela com frequência o estimula a fazê-lo, mas Yaári não vê tal coisa com tranquilidade, porque é mais difícil conduzir um velho trêmulo apoiado apenas numa bengala. Mas desta vez a decisão é peremptória. Ele não aparecerá diante da amiga como um inválido. O tremor da doença sem dúvida se acrescentará ao tremor da emoção no momento do encontro, mas a cadeira de rodas o destitui de sua masculinidade. E foi justo para isso que pediu a Francisco para trazer seus dois amigos, baixinhos e fortes, que o amparam pelos dois lados e o sustentam pelas costas, a ponto de ele parecer flutuar escadaria acima, andar após andar, até a porta que ele tão bem conhece: dra. Dvórah Bennett — psicóloga.

E mais uma vez o velho surpreende a equipe exigindo de modo autoritário que todos desçam meio andar e esperem sem ser vistos na curva da escada, pois ele pretende encontrar a amiga na condição de um homem que se apoia apenas em sua bengala. Amótz e a especialista de Gottlieb juntam-se aos quatro filipinos, e todos se acotovelam no lance anterior das escadas, cuidando para que a psicóloga não os veja. O velho, um pouco curvado, apoiando-se na bengala, afrouxa um pouco o nó da gravata e toca três vezes a campainha, como costumava fazer no passado, para ficar claro que não se trata de um paciente. A porta é aberta pela dona da casa, que pôs em sua honra um vestido de lã e soltou os cabelos, e apesar de à luz da manhã ela se mostrar muito enrugada, seus movimentos são leves e sua voz soa fresca.

“Eis o moço”, exclama ela, “mas onde está a cadeira de rodas que nos separava? Você ainda se envergonha dela?”

O velho se cala, em estado de choque.

“O que você tem, meu querido?”, ela o segura pelo ombro. “Sou a mesma jovem que você deixou há tantos anos, não precisa se assustar. E vejo que você tem também uma bela bengala.”

Mas o tremor em dobro derrota o velho amante, a bengala lhe escapa da mão, e para não desabar na soleira da porta ele se inclina para diante e se agarra com toda a força à frágil velhinha, que tenta aguentar o peso inesperado, e imediatamente começa a soluçar no ombro dela.

Na escadaria, Yaári ouve o pranto do pai, talvez pela primeira vez na vida. O pequeno Hilario olha para ele num misto de espanto e preocupação, procurando saber por que Yaári não corre para ajudar. Mas ele se mantém imóvel no lugar. O choro do pai lhe soa como uma erupção vulcânica de imensa liberdade. Eu o magoarei muitíssimo, diz ele a si mesmo, se subir agora e o fizer passar vergonha. Ele olha para os filipinos sentados em silêncio nos degraus, ouvindo tudo, ou talvez não, talvez sentindo saudade de casa. Só nos olhos grandes e luminosos da especialista paira um ligeiro sorriso, como se em meio aos sons de choro ela surpreendesse uma canção clandestina.

Com suas últimas forças Dvórah Bennett puxa o ancião para dentro, deixando a porta aberta. E é por isso que Yaári e a equipe esperavam para entrar com todo o cuidado. O pai já foi levado para o consultório, e deve estar sentado sobre a poltrona que seria a dela, porque se ouve a voz feminina dizendo a ele a pleno volume, como se também a audição já lhe houvesse falhado: Você agora é o terapeuta, e eu sou a sua paciente.

Sobre a mesa de jantar, no salão, os espera um repasto raro e caro, e Yaári leva os filipinos a sentarem ao redor, trazendo a caixa de ferramentas. Como quem já é um veterano frequentador da casa, ele puxa a especialista para o quarto de dormir. No corredor ele lhe faz sinal com um dedo sobre os lábios, e eles passam em silêncio pelo consultório, mas vê-se que o pai já se recuperou, pois percebe a passagem dos dois. Por enquanto só vou mostrar a ela os ruídos, não vou desmontar nada, diz-lhe Yaári, e continua a conduzir a pequena mulher para apresentar-lhe a maravilha do pequeníssimo elevador.

“E então?”, ele diz, olhando para os olhos azuis escancarados, “não vá me dizer que alguma vez você já topou com uma peça como esta.”

Ela sorri, divertida. Há mesmo do que se admirar. Ele afasta a grade e a introduz na pequena cabine, que parece ter sido fabricada para uma figura minúscula como ela, com seus cabelos muito curtos e o peito quase chato, que exala um cheiro de campo muito verde. Vamos ver agora do que você é capaz, ele desafia e aperta o botão de subida. O elevador faz ouvir sua lamúria de animal ferido, trepida e parece lutar consigo mesmo, mas antes que a especialista solte um diagnóstico ele põe um dedo diante dos lábios dela e diz, espere, você vai ter uma outra surpresa. E então, ao longo da lenta decolagem, paira no pequeno espaço o uivo de gata no cio. Os lábios da especialista se apartam numa risada, e ela olha em volta à procura das ligações elétricas, mas as paredes são totalmente lisas. Ela então levanta a mão e retira o retrato de Jung, e atrás dele descobre-se uma caixa de conexões um tanto primitiva, e o uivo excitado se torna mais forte. A especialista já retirou do bolso do macacão um pequeno voltímetro, mas Yaári a impede de usá-lo. Não, ele não deixará que ela chegue perto das conexões antes de desligar a corrente que vem direto da companhia elétrica.

“E de onde você queria que viesse?”

“Você não entendeu, a corrente aqui não passa pelo quadro de fusíveis.”

“Por quê?”

“Porque não há aqui uma ligação trifásica, e seria preciso pedir à companhia que trocasse a conexão e fizesse uns furos duvidosos nas paredes, e naquela época a fila para um serviço desses demorava dois anos, além das despesas que a dona da casa não teria como arcar, apesar de o meu pai ter se oferecido para financiá-las. Por tudo isso, ele decidiu ligar o elevador direto no poste.”

“Mas com que direito?”

“O direito público. Aquela geração não fazia muita distinção entre o direito público e o privado.”

“Sei”, sorri a antiga menina do kibutz, “conheci algumas pessoas dessa geração.”

Eles saem para o terraço, e os ventos tentam empurrá-los de volta. Yaári recua. Num tempo desses não vai ser possível localizar o cabo pirata, e com certeza ele não trará o velho pai para cá a fim de identificar qual era o cabo. Mas a especialista não recua nem com o frio nem com os ventos, e como uma pequena corça ela saltita agora por entre os tonéis de água barrigudos, pula entre as antenas parabólicas, e aproxima o ouvido das cordas de varais vetustos e encarquilhados, que parecem fora de uso já há várias décadas.

Criatura incomum, pensa Yaári ao acompanhar seus movimentos, de que maneira Daniela a definiria? Não apenas sua idade é difícil de avaliar, mas aparentemente até seu sexo muda de acordo com o momento. Não admira que Gottlieb se assuste com ela. Agora, por exemplo, apesar da barulheira que os céus lançam sobre ela, não lhe foi impossível localizar o cabo.

“Não toque em nada”, grita Yaári, mas sua voz é engolida pelo rugir da ventania.

Ela aponta para um fio blindado que passeia ingenuamente entre os roletes dos varais, e de súbito se aboleta espertamente sobre o parapeito do terraço a fim de prosseguir no trajeto até o lugar de onde se rouba a eletricidade.

A moça pula e deita a barriga sobre o parapeito, inclinando-se para fora com os pés no ar a fim de averiguar a direção em que o fio continua, mas Yaári a alcança, apavorado, e a puxa com força para trás. Leve como uma pluma, ela escapa de seus braços e rola pelo terraço.

“Estou lhe avisando”, ele corre para dar-lhe a mão, “não toque em nada por aqui.”

“Mas se não desligarmos a corrente, como poderemos lidar com aquelas conexões?”

“Elas que continuem a uivar para sempre”, replica ele com raiva, “nada disso vale um choque de alta tensão.”

“Mas então”, ela abre seus grandes olhos, frustrada, “vocês vão me pagar o dia de trabalho à toa.”

“E se for, qual o problema?”, Yaári a conduz pelo braço para o elevador. “Mas não se preocupe”, uma nova ideia passa qual raio por sua mente. “O seu dia de trabalho ainda não terminou. Quando voltarmos a Tel Aviv vamos ao poço dos elevadores na rua Pinsker. Ventos fortes como esses não devem ser desperdiçados.”

6

Apesar de tudo, pensa Daniela depois que o arqueólogo se foi, talvez não seja correto esconder de Yírmi a pequena missão que lhe foi confiada. Ela calça os sapatos, maquia-se e desce para a cozinha.



Ali estão preparando a última refeição dos membros da expedição, e, apesar de terem chegado novos gêneros, Yirmiyáhu não está lá para anotar as compras e pagar os fornecedores.

“Onde está Jeremy?”, pergunta ela ao seu amigo, o velho porteiro, que se levantou para servi-la. Ela é informada de que ele esteve ali até há pouco, mas uma forte dor de cabeça o levou à enfermaria.

“Bem, já era mesmo tempo de ele se cuidar um pouco”, ela diz de passagem ao porteiro, a quem espanta o apetite matinal da hóspede branca, que pede para provar até mesmo as costeletas de carneiro que emergem do forno. Já os cozinheiros alegram-se com esse apetite infindável e se apressam em fazê-la provar de um cozido não identificado que já está pronto para o jantar de despedida. Eis aqui, senhora, dizem eles, agora que se acostumou ao gosto e ao cheiro da África a senhora vai deixá-la? Quando voltará para cá?

Seria possível contentar os africanos ao menos com uma esperança, mas ela lhes devolve uma resposta direta e cabal: Não voltarei, e recolhe com a colherzinha o açúcar que não se dissolveu no café para com ele adoçar a boca, e depois sai para a luz escaldante e vai até a enfermaria. Lembrando-se do confronto irado que presenciou dois dias antes no caminho da enfermaria, ela cuida de pisar somente em terra nua, onde não haverá surpresas.

Sobre um montinho de terra estão sentadas algumas jovens africanas, duas delas grávidas, e parecem esperar. A porta da enfermaria está inteiramente aberta.

Na enfermaria há dois quartos. No primeiro, totalmente claro, encontra-se a cadeira para os pacientes, onde sua pressão sanguínea foi constatada como normal. No cômodo de trás, mergulhado na penumbra, ela nota o crânio careca do cunhado, deitado de costas para a porta.

Ela bate de leve na porta aberta, e ele se volta e a olha de frente, mas não se levanta. Pela primeira vez desde que aqui chegou seis dias atrás ela sente uma chispa de hostilidade em seus olhos.

“Sijin Kuang ainda não voltou?”

“Não.”

“Será que Zohara não a deixou partir?”



“Talvez.”

“Mas por que aquele lugar é tão assustador?”

“Por que assustador?”

Suas respostas são curtas e secas, como se tivessem a intenção de empurrá-la para trás, e em vista disso ela se senta sobre a outra cama, como se anunciasse, daqui eu não saio.

“Na cozinha contaram que você ficou com uma terrível dor de cabeça. Encontrou algo por aqui para ajudá-lo?”

“Não.”


“Por quê?”

“Sijin Kuang sempre tranca o armário dos medicamentos com cadeado, para que as mulheres das redondezas não venham roubar remédios dos quais não precisam.”

“E você não tem a chave?”

“Para quê? Sijin Kuang está sempre perto de mim.”

“Então o que você vai fazer agora?”

“Esperar que a dor passe por si mesma. E, se você não se incomoda, feche a porta porque a luz torna a dor mais aguda.”

E ele protege os olhos com a mão.

Um frêmito de compaixão a perpassa.

“Se você decidiu ficar deitado, por que não vai para a sua cama?”

“De qualquer modo não seria a minha cama, e aqui na enfermaria estou a salvo da balbúrdia dos membros da expedição. À noite eles voltarão para o sítio, e amanhã, depois que você viajar, vou me estabelecer de volta no meu lugar natural.”

Ela se levanta e fecha a porta, mas ele não tira a mão de cima dos olhos, como a dizer que mesmo com a porta fechada ele não se dispõe a conversar.

“Quem sabe se você bebesse alguma coisa?”

Ele não responde.

“Sugeri que você bebesse algo.”

“Mais tarde.”

“Posso trazer?”

“Mais tarde.”

Ainda assim, ela sai para o quarto da frente. As mulheres africanas deixaram o montinho, e agora se postaram praticamente na soleira, talvez na esperança de que a mulher branca também possa lhes dar remédios. Seus murmúrios a acompanham enquanto ela passa com o copo d’água, e quando ela o oferece ao cunhado ele não o leva aos lábios, mas pede que ela o ponha no chão ao lado da cama. Mas ela insiste, e por fim ele se rende, levanta-se e bebe um pouco enquanto murmura, você sempre conseguiu impor sua vontade a todos nós da família. Sempre fomos ao restaurante que você queria, sempre pegamos a estrada que você queria. Daniela sorri, talvez porque no fundo do coração vocês sempre souberam que a minha vontade fazia bem às pessoas. Ela pega o copo vazio e diz, quer mais água?, mas ele não responde, e desta vez ela deixa passar.

Silêncio. Apesar do calor, um vento assobia lá fora. No segundo quarto a veneziana está fechada, mas por entre suas frestas brilham minúsculos pontos de luz branca. O murmúrio das mulheres africanas intensifica-se, talvez elas tenham entrado na enfermaria e agora inspecionam, ávidas, o cadeado no armário dos remédios. Por um momento ela hesita quanto a contar sobre a missão com a qual concordou, mas lhe parece que no estado de espírito de Yírmi neste momento ele talvez se oponha, enquanto ela deseja muito intensamente cumprir sua promessa. Ela acredita, estranhamente, que aqueles ossos ressequidos que pertenceram ao macaco pré-histórico do qual descende toda a humanidade sejam significativos também para os israelenses.

“Você tinha pensado em me mostrar mais alguma coisa no meu último dia aqui? Ou fazer alguma coisa?”, ela pergunta ao cunhado, escolhendo as palavras com cuidado.

Ele se levanta na cama, empurra o travesseiro para trás das costas e a perfura com o olhar.

“Você com certeza gostaria de ver mais algum animal estranho, como o elefante com o olho ciclópico que eu lhe mostrei no primeiro dia.”

“Sim, certamente... Seria um prazer.”

“Mas o que fazer, Daniela, não tenho nenhum outro animal como aquele.”

“Se não há, não há.”

Atrás da porta o falatório das mulheres soa como um córrego transparente.

E repentinamente, quase sem pensar, ela diz, “Veja só, ontem à noite li o Cântico dos Cânticos”.

“Em inglês?”

“Sim, e é tão bonito e emocionante quanto no original, cujos ecos eu ouvia através da tradução.”

Ele nada diz, seu olhar errando pelo quarto.

“Quando li todos os oito capítulos entendi o que você sentiu. Um poema desses joga sal sobre as feridas.”

Yirmiyáhu se levanta da cama e começa a andar pelo pequeno quarto, quase como se tentasse expulsá-la dali. E subitamente ele exclama, com raiva, mas o que está acontecendo aqui? Você veio à África por causa da Shúli, e ao final você me obriga a falar do Eyáli.

“Obrigo?”, pergunta ela, chocada, “não há ligação entre os dois?”

“Tudo tem ligação, e ao mesmo tempo não tem”, ele se irrita, “mas eu não podia ter contado a você sobre a última noite do Eyáli.”

“O que há com você?”

“Essa história o torna ridículo.”

“Esse é um absurdo que não tem tamanho”, ela protesta com toda a sua força, “a inocência dele era nobre, não houve nada ridículo em tudo isso.”

Mas ele insiste. Há uma profunda estrutura nesse episódio, para além da psicologia individual. Não há dúvida de que, se um soldado israelense toma o poder numa casa alheia e intimida e assusta os moradores, ele só os humilhará ainda mais quando se arrisca desse modo para devolver-lhes um balde limpo.

“Não consigo nem começar a entender em que direção você está indo.”

“É óbvio que você não entende, e talvez nunca venha a entender.” Ele fala em voz baixa, mas sente um enorme tumulto interior. “Toda a sabedoria dos judeus jamais perceberá de que modo os outros os enxergam. Estou falando dos verdadeiramente outros, aqueles que não são nós e jamais serão nós. Porque só dessa maneira é possível começar a entender, por exemplo, por que aquele palestino, que recebeu um dinheirão para me contar o que aconteceu naquela noite do fogo amigo, não se admirou de modo algum com o que fez Eyáli. Ele pegou o dinheiro e foi embora, não disse obrigado nem disse meus sentimentos. Muito menos fez algum elogio à consideração e aos bons modos do Eyáli que aparentemente foram praticados ali. E eu, na minha obsessão idiota, não consegui engolir tamanha indiferença. Procurei novamente aquele farmacêutico e implorei para que me arranjasse um novo encontro com o homem. À noite, em plena intifada, num risco de vida duplo, tanto das nossas forças quanto das forças oponentes. E esse foi o meu primeiro vislumbre do abismo para o qual estamos deslizando. Ou melhor, vocês estão.”

Aí está o defeito genético, pensa Daniela de súbito, ao ver os olhos injetados flamejando para ela na obscuridade do quarto, não é preciso ir à natureza para encontrá-lo.

7

Concluído o processo de aterrissagem do pequeno elevador, freando com um baque ao qual faz companhia um suspiro de agonia, e aberta a delicada grade, os dois ocupantes encontram seu criador esperando-os sobre uma poltrona ao lado da grande cama no quarto de dormir. Em sua mão há um copo com chá, um aquecedor com sua resistência vermelha jaz a seus pés, e no colo dele encontra-se a bengala para andar. E então, pequena senhora, dirige-se ele à especialista, ouviu as lamúrias do gato, ou lhe parece que se trata de uma alucinação da dona desta casa?



“Nem alucinação nem gato, vovô”, ela responde assertivamente, “o seu querido elevador faz todo tipo de ruído, todos resultantes dos contatos elétricos frouxos e de vários fenômenos muito comuns em mecanismos envelhecidos como este, cujo comutador juntou poeira e até pó metálico moído pelo pistão. Já localizei a caixa de conexões que você escondeu atrás do retrato de Carl Gustav Jung, e identifiquei o cabo de força disfarçado no meio das cordas do varal, mas seu filho tem pavor de choques elétricos. Com a torção de um parafuso eu poderia desligar a corrente, mas ele não deixou e até usou a força para impedir. Que loucura. Você lhe provocou algum trauma elétrico na infância para ele ficar covarde desse jeito?”

O velho ri, e depois a repreende um pouco.

“Em primeiro lugar, trate o meu filho com mais respeito, afinal ele próprio já é avô. Da sua infância comigo ele saiu sem qualquer trauma, mas quando era estudante na universidade eles o ensinaram a profetizar desastres. Mas o fato é que desta vez eu concordo com ele. Eu também prefiro que você não toque em nenhum contato elétrico por aqui, porque ainda não lhe fiz nenhum seguro.”

“Que bobagem, você próprio não teve medo de levar choque quando ligou o elevador ao poste lá na rua.”

“Não fui eu. Foi um funcionário aposentado e ressentido da companhia elétrica, que tinha umas luvas especiais de isolamento e até uma espécie de mangas, e com isso conseguia trabalhar com os cabos ligados e arrumar energia grátis para os amigos. Só depois que o pegaram em flagrante é que começaram por lá a cuidar para que os que se aposentavam não saíssem magoados com alguma coisa.”

“Sim, mesmo naquela época havia roubos e faziam coisas horríveis”, comenta a dona da casa, “mas os jornais só tinham seis páginas, e não havia espaço para publicar tudo que acontecia. Venham, engenheiros, o chá está esperando.”

“Seria melhor examinarmos antes as trepidações do pistão”, diz Amótz, e se ajoelha aos pés do pai para aquecer as mãos na espiral incandescente. Mas a dona da casa insiste em fazer um intervalo, e ela mesma conduz o velho até a sala de visitas. À mesa estão sentados os quatro filipinos e, como havia previsto o velho, ainda esperam um sinal explícito de que podem pegar algum bolinho ou um minissanduíche.

E o sinal é dado. A dona da casa roda várias vezes entre eles o grande prato giratório, e Francisco e Hilario e Pedro e Marco não recusam nenhuma rodada, até que o prato se esvazia. Por suas expressões é possível dizer que ainda não estão totalmente satisfeitos.

“É o seguinte”, diz o velho. “Vamos dar uma olhada no pistão. Que nos diga o que o incomoda.”

Desta vez ele convida os filipinos a vir com ele até o quarto de dormir da dona da casa, e num instante a intimidade do aposento se vê preenchida pela presença forte dos membros de uma raça diferente, que examinam com olhar naturalmente amistoso o pequeno elevador, bem apropriado para a estatura deles. Amótz se aproxima para verificar de que modo é possível desmontar o pistão de óleo montado na parede, mas seu pai o puxa pela roupa, dizendo, deixe que eu tome a dianteira agora.

Yaári sorri e observa como o pai, ajudado pelos ombros baixos e fortes de Marco e Pedro, entra no elevador concebido em sua imaginação, e lá dentro empurra o corpo contra as paredes a fim de se manter equilibrado, e pede aos filipinos para deixá-lo sozinho. Com a mão trêmula ele afasta a delicada grade, e a visão do crânio calvo, do rosto caído e dos ombros murchos o faz parecer agora, atrás da grade amarela pálida, um velho macaco em sua jaula. Ele aperta o botão para subir, mas falta ao seu dedo trêmulo a força necessária para acionar o elevador, e então ele recua um pouco e aperta o botão com a ponta da bengala. O elevador estremece, geme, bate-se contra as paredes e começa a subir, enquanto a lamúria perde forças e por fim morre.

Os filipinos abrem a boca como se vissem uma acrobacia no circo, mas o pequeno Hilario fica preocupado. Aproxima-se com cuidado e espia para cima por entre as portas do armário, tentando descobrir para onde sumiu o elevador. E Yaári, que não esconde seu prazer assistindo às peripécias do pai, sorri então para a dona da casa, que por sua vez afunda, impotente, na poltrona recém-desocupada.

“Louco”, ela sentencia, e parece à beira de arrepender-se por ter exposto sua serenidade a uma confusão tamanha.

“Bagunceiro”, resume a especialista.

Por um momento Yaári teme que o pai saia para o terraço e seja levado pelo vento. Mas dois minutos depois se ouve novamente a choradeira, e o elevador aterrissa com toda a sua riqueza musical.

Yaári apressa-se em retirar dali o velho pai e, como a velhinha não faz menção de desocupar a poltrona, senta-o sobre a cama, juntando à sua volta diversas almofadas de seda para apoiá-lo. E fica à espera da explicação técnica precisa que indique por onde começar a desmontar o pistão sem o perigo de um choque elétrico.

8

Yirmiyáhu vai até o quarto iluminado para encher o copo. As mulheres africanas, agora sentadas junto à soleira, aglomeram-se para dentro a fim de reivindicar a abertura do armário de medicamentos. Aos poucos, com dificuldade, ele pronuncia algumas palavras de recusa na língua delas, e elas riem e o provocam, até que ele perde a paciência e solta sobre elas um grito furioso, que as afugenta para fora do quarto. Uma das jovens cai ao chão e começa a chorar, mas suas amigas a levantam e a consolam, e levam-na até o montinho, para esperarem juntas a volta da enfermeira.



Yirmiyáhu inclina-se para a pia e lava o rosto. Enche o copo e bebe a água, enche-o de novo e o leva de volta para o cômodo interno. Parece surpreso ao ver a cunhada sentada sobre a outra cama, encastelada em sua serenidade. Por um momento lhe ocorre deixar a porta aberta, mas por fim ele a fecha.

Um longo silêncio.

“Não me diga”, ela exclama de repente, “que o parasita da malária pode sim passar de uma pessoa a outra. Porque, se assim for, eu sou a próxima na fila.”

Ele lhe lança um olhar.

“Você não está em fila nenhuma. Isso me acontece às vezes. Minha temperatura sobe quando estou cansado.”

“Talvez essa seja uma boa defesa contra os profetas de Israel, você cai doente antes que eles o castiguem. Mas tome cuidado com eles.”

O rosto dele se ilumina um pouco com uma careta triste.

“O que eles podem fazer comigo que já não fizeram?”

“Não tenha tanta certeza”, prossegue ela com uma audácia brincalhona, “acredite em mim, os desastres que nos esperam ainda não terminaram, nem mesmo na tradução inglesa.”

“Ahá, vejo que você começou a pegar o espírito da coisa. Profecias de catástrofe ditas com prazer e desejo.”

“Mas na verdade você próprio também profetiza do mesmo modo.”

“Eu? Por quê? Eu não atuo nem tomo partido. Consegui me soltar da cadeia das gerações. Fico olhando de longe, livre e indiferente, protegido num lugar onde não há, e jamais haverá, qualquer migalha de profecia, nem de consolo nem de destruição. E mesmo que revirem toda esta terra, jamais encontrarão nela sequer o vestígio de um osso judaico ressequido.”

Dentro de dois meses ele terá setenta anos, pensa ela, porém isso não o impede de se comportar às vezes como um adolescente revoltado. Mas nas poucas horas que ainda lhe restam ali é preciso ouvi-lo. Porque, apesar de toda a sua gabolice quanto a não pertencer, não é a arrogância de um antigo profeta que queima dentro dele, mas o fogo amigo. Ela muda, então, a direção da conversa para o seu início. Está curiosa por saber mais detalhes sobre o farmacêutico de Jerusalém, que no auge da intifada conseguiu contrabandeá-lo na ida e na volta são e salvo.

Emile, um árabe cristão de Jerusalém Oriental, com uns cinquenta anos, conseguiu com paciência e muita argúcia jurídica recuperar a farmácia que tinha sido de seus pais antes da proclamação do Estado. É um homem ágil, que domina muito bem o hebraico, e sua farmácia, no Bairro Alemão, é limpa e arrumada, e às vezes fica aberta inclusive à noite. Remédios que em outros lugares só podem ser comprados mediante receita médica são vendidos por ele com base apenas na confiança. É um farmacêutico bastante erudito, que dá bons conselhos em casos de insônia, perda de peso, enjoos e azias. E quando correu pelo bairro a notícia da morte de Eyáli por forças “que não eram as dele”, fez uma visita de condolências a Yírmi e Shúli, seus velhos fregueses, e trouxe espontaneamente alguns calmantes que ele próprio preparava. Dali em diante, toda vez que eles entravam na farmácia, juntos ou sozinhos, ele imediatamente ia recebê-los cheio de preocupação e solicitude, perguntava-lhes sobre sintomas físicos e dores da alma, e os atendia exalando compaixão.

Depois da primeira visita apressada a Tulkarem, quando o palestino dono da casa evitou encontrá-lo, Emile percebeu, com sua sensibilidade, que ao luto veio juntar-se a frustração, e com a ajuda de parentes e amigos conseguiu localizar o dono da laje e convencê-lo a encontrar-se com Yírmi em troca de um pagamento em dinheiro.

No início Yírmi não ficou muito abalado com a história. Não o perturbou o ridículo do episódio. Ao contrário, pareceu-lhe um gesto de nobreza. Mas surpreendeu-o a absoluta ausência de qualquer resquício de afeição por parte do palestino. Ele não o olhou nos olhos, fosse por raiva, fosse por ódio, e sem dizer mais nada pegou o dinheiro e desapareceu por entre as flores da estufa.

E então ele disse a si mesmo, tudo bem, esse homem é um operário braçal, trabalha duro, é um homem sob ocupação militar, o que se pode esperar dele? Mas também o intermediário, um farmacêutico cristão educado, um homem aparentemente moderado, que tem uma carteira de identidade israelense, não revela nenhum apreço e não diz uma única palavra amável sobre a ingenuidade e a inocência do soldado.

E na viagem de volta a Jerusalém brotou nele o desejo, na verdade não o desejo, mas a necessidade, a compulsão, de salvar a honra de Eyáli. De dar respaldo a um gesto aparentemente estúpido, mas que traz embutida a grandeza de alma de um jovem que se arrisca conscientemente quando decide devolver o balde limpo para os seus donos suicidas.

“Suicidas?”, pergunta Daniela, perplexa.

“Claro”, diz Yírmi, “e se não hoje, amanhã. E eu já tinha nesse momento decidido voltar a Tulkarem e subir novamente naquela laje, para provar ao palestino que nós não tínhamos educado o nosso filho só para a inocência e os bons modos absurdos, mas também para a coragem. Alguns dias depois fui falar com o Emile e disse-lhe que todos os seus tranquilizantes de nada me adiantariam se eu não pudesse voltar mais uma vez àquela laje para salvar a honra do meu filho, e que aquela indiferença em relação ao seu pequeno gesto humano me era insuportável. E se fosse preciso subornar intermediários para que me levassem até lá, minha carteira estava aberta, na condição de que cobrassem apenas dinheiro e não sangue. Para a Shúli eu disse que estavam me enviando por um dia à nossa embaixada em Chipre, e tenho a impressão de que ela, naquela noite, ficou com você em sua casa e não suspeitou de nada. E apesar de Tulkarem praticamente beijar a fronteira, a viagem não foi nada fácil. Na ida para lá não examinaram atentamente os documentos nos bloqueios, e por estar vestido de maneira adequada e viajar num veículo que transportava operários, não perceberam nenhuma diferença entre mim e eles. Mas na volta, ai ai, na volta foi necessário me infiltrar em meu país de modo totalmente clandestino, e me proteger tanto do fogo inimigo quanto do fogo amigo.”

“E tudo isso valeu a pena?”

“Muitíssimo. Porque eu recebi, naquela laje, além da xícara de café forte, também uma pequena aula de judaísmo.”

“De quem”, zomba ela, “do palestino ou do farmacêutico?”

Uma leve batida na porta do cômodo. Sijin Kuang voltou.

9

Mais uma vez diz o pai ao filho: Você não se meta. Aqui o líder sou eu. Você não montou esse elevador, você não vai desmontá-lo.



“Mas na condição de você continuar na cama”, responde o filho. “Se você decidiu deixar de lado a cadeira de rodas, saiba que não tenho forças se você cair.”

“Não se preocupe”, diz o pai, “darei as instruções a distância. Mas você fique sentado e não interfira. Dei a esse elevador uma garantia pessoal, e não em nome do escritório. Não é verdade, senhora Bennett?”

“Garantia pessoal para toda a vida.”

Mas por alguma razão ela não abre mão da confortável poltrona que conquistou para si mesma, como se gostasse de vê-lo fixado entre as almofadas na sua grande cama. Ela aproxima de si o aquecedor com sua espiral, abre um cobertor sobre os joelhos, acende um cigarro na longa piteira, e parece preparar-se para assentar-se ali por muito tempo. Nesse momento uma forte chuva de granizo sacode as janelas, e algumas pelotas brancas penetram pelo poço e rolam pelo chão do quarto, e repentinamente Jerusalém mergulha na penumbra.

Sem receber nenhuma ordem explícita, a especialista vai até o elevador e acende a luz, depois se apodera das lâmpadas de leitura dos dois lados da cama, liga as duas a uma extensão e dirige a luz para o lado de baixo do elevador. Sombras diferentes movem-se agora pelas paredes. O velho convoca Hilario a aproximar-se, segura a mão dele, afaga seus cabelos e sussurra-lhe ao ouvido por um longo tempo o que deverá dizer aos filipinos que aguardam instruções. As extensas instruções em hebraico encolhem consideravelmente na boca do intérprete, e então fica claro que o velho Yaári não pediu a presença dos amigos de Francisco apenas para fazê-lo flutuar pelas escadas, mas também para levantar manualmente o elevador a fim de permitir que o pistão seja separado da haste que realiza o movimento.

O corpo de criança, de gênero não identificável, espreme-se imediatamente entre a base do elevador e o pistão fixado à parede do poço. Com a experiência adquirida na Oficina Mecânica Regional do Norte da Galileia, a especialista localiza o retentor de óleo e o desmonta com a chave inglesa retirada do bolso de seu macacão. Um fino jato de um líquido pegajoso branco começa a manar das profundezas do pistão, e não o óleo totalmente preto que se esperava estar ali depois de um tempo tão longo.

“O que é isso?”, pergunta Amótz.

O pai dá de ombros. Nem ele sabe definir a natureza do líquido. Esse pistão foi encontrado em sua terra natal, a Tchecoslováquia, numa oficina de elevadores usados, e, pelo fato de o preço pedido revelar-se ridículo, não era ele que iria fuçar em suas entranhas.

O fluxo branco é delgado, mas persistente. Mesmo a especialista, que volta e meia o cheira e prova-lhe o gosto, não é capaz de chegar a uma conclusão sobre sua identidade e origem. Mas como ele está sendo depositado num recipiente previamente trazido da cozinha para dar conta de prováveis vazamentos, será possível mais tarde decifrar-lhe a procedência.

A dona da casa também deseja provar o gosto desse líquido e, numa colherzinha que dá a Hilario, ele traz para ela uma pequena amostra. Talvez óleo de máquinas, talvez óleo de girassol, pode ser extrato de tubérculos ou óleo de eucalipto, mas também poderia ser óleo de coco ou querosene ou gasolina. O gosto não é ruim, diz ela. Cuidado, caçoa o velho, a garantia que eu lhe dei não cobre danos ao estômago provocado por molho de elevadores. Todos riem, ele sobre a cama, fazendo tremer as almofadas, ela na poltrona, os dois contentes e curiosos, como se estivessem num teatro de marionetes no momento em que Hilario explica a Pedro e Marco que chegou a hora de suspender um pouco o elevador sobre seus ombros para que Francisco separe a haste de sustentação da base da cabine e liberte todo o mecanismo delicado e original como um conjunto integrado.

“E a eletricidade?”, a ira de Yaári transborda repentinamente contra o pai. “Antes de o Francisco começar a girar os parafusos precisamos ter certeza de que ele não será eletrocutado.”

Mas a ira é desnecessária. Não há corrente em nenhum parafuso. A especialista, sem ser vista, já havia desconectado por iniciativa própria a eletricidade roubada, e agora está feliz da vida.

Por que ele precisa se preocupar tanto com um problema que não é dele? Para que tentar controlar até um objeto histórico que não é de sua alçada e do qual ele nada entende? Se quis fazer parte da equipe a fim de cuidar do pai, pode ver com seus próprios olhos que o velho está muito bem instalado nessa grande cama, num quarto conhecido e aquecido, perto de sua amiga amada, na intimidade de uma escura manhã de inverno. E se esta é a situação, por que um homem ocupado como ele, preocupado e preocupante, não aproveita também esse momento de graça que por acaso lhe surgiu na festa de Hanukah e não se senta tranquilo num canto? E se Daniela, na África, conectou-se ao passado mas está livre do presente, a ele apareceu a oportunidade de tirar umas férias de ambos. Nenhuma secretária, projetista ou engenheiro o procuram pelo celular em busca de conselhos, ou seja, o mundo está funcionando muito bem apesar da ausência dele.

Um sorriso de alívio ilumina o rosto de Yaári. Muito bem, de agora em diante eu sou apenas um espectador silencioso. Ele vai até a cozinha e traz uma cadeira de vime, deposita-a ao lado da grande cama, senta-se com as pernas cruzadas e fecha os olhos.

Francisco havia contado a ele e a Daniela que o território filipino é composto de sete mil ilhas, apenas quinhentas das quais são habitadas. E vejam, ele e Kinzi vinham de duas ilhas afastadas uma da outra por várias centenas de quilômetros. Devido aos sotaques diferentes, é a língua inglesa que os unifica num único povo.

E também no dormitório da psicóloga analítica a língua inglesa comprova sua utilidade. Hilario, que está na primeira série, transmite por meio dela, esperto que é, as instruções técnicas que recebe em hebraico do bisavô, e explica a Pedro e Marco como erguer o levíssimo elevador.

Mas, apesar da facilidade com que a cabine é içada para os ombros dos dois baixinhos, Francisco prefere não confiar apenas nos amigos, e reforça a sustentação do elevador sobre uma cadeira-escada e uma mesinha de cabeceira, antes de rastejar por baixo dele a fim de desmontar a haste de sustentação.

Os filipinos conversam em voz baixa, por educação e reverência, e mesmo o velho Yaári adapta-se ao volume adequado, e instrui Francisco, com a tradução de Hilario, sobre a ordem correta de retirar os parafusos. O trabalho é lento e cuidadoso. Os parafusos estão enferrujados, e é necessário lubrificá-los e esperar até que eles resolvam deixar-se libertar inteiros e saudáveis dos lugares aos quais estão há tantos anos acostumados.

Parece que os filipinos se divertem com o trabalho diferente que lhes caiu em cima. Em vez de lavar e alimentar velhos paralíticos, e passear com velhas ranzinzas, eles estão desmontando uma vetusta aparelhagem única no gênero, e sustentando com os ombros um elevador inteiramente original. A dona da casa solta um suspiro de alívio e cochila em sua poltrona. Também as pálpebras de Yaári fecham-se sozinhas, e seu olhar se turva. Ele ouve as vozes sussurrantes, apoia a mão na cama ao seu lado e imagina o pai deitado ali anos atrás entre as almofadas. Volta-lhe à memória o susto lascivo da jovem na fita de vídeo enfiada entre o Baby Mozart e o Baby Bach no apartamento de Morán.

Contar a Daniela, ou é melhor poupá-la desse desgosto?

Pelo visto, dormitou por vários minutos, pois ele descobre que o elevador desapareceu por trás das portas fechadas do armário, e sobre o chão à frente da cama jaz uma criatura primitiva, uma perna comprida bifurcada do próprio demônio, um pistão cilíndrico esverdeado que lembra um réptil de longa cauda, e um mecanismo de controle que se assemelha à pequena cabeça de um gato, da qual brotam diversos tendões amputados profusamente coloridos.

A dona da casa remou e alcançou o fundo do sono, e o pai, que examina com afeição e orgulho o engenho original que cumpriu sua tarefa por tantos anos, sorri para o filho e lhe diz, vê o que acontece na velhice? No auge da emoção a gente não aguenta e adormece, e acorda depois com sentimentos de culpa e arrependimento. E ele instrui Francisco, que junto com os amigos acabou de lavar as mãos no lavabo, a levar o aparelho desmontado para a ambulância que os espera na rua, e trazer na volta a cadeira de rodas.

“Querida”, ele acorda a amiga, “desmontamos o seu aparelho. Acabaram-se os zunidos e as choradeiras. E se for possível ressuscitar o elevador para que você possa passear novamente no terraço, isto não dependerá só de mim, mas também de um velho amigo meu, apaixonado só por dinheiro.”

A psicóloga abre os olhos e sorri como quem entendeu. E eu pensava que você ficaria para o almoço.

“Almoço?”, surpreende-se o velho Yaári, “para quê? Para que você me ponha um babador e me dê de comer com uma colherzinha? Quando o amor cruza a fronteira da humilhação eu bato em retirada.”

10

A paciência das africanas viu-se compensada. Sijin Kuang abre agora o armário de remédios e distribui comprimidos, e dá duas aspirinas ao homem branco. Dê para mim também, por favor, diz Daniela. “Estou indo dormir depois de uma noite em claro”, anuncia Sijin Kuang, “e a senhora também”, permite-se falar de modo autoritário, do alto de sua elevada estatura, com a hóspede israelense. “Amanhã cedo eu a levarei a Morogoro. O avião é pequeno, e seria bom a senhora chegar cedo, para que não cedam o seu lugar a outra pessoa.”



“Isso acontece aqui?”, assusta-se a visitante.

“Acontece aqui também”, diz o cunhado.

“E você não me acompanhará até o aeroporto?”, ela lhe pergunta em hebraico.

“E você precisa de mim? Já ouviu mais do que eu pretendia lhe contar, mais até do que eu imaginei que sabia. Falei tanto que você não se lembrará de tudo ao contar para o Amótz.”

“Você tem certeza de que conto tudo a ele?”

“Alguma coisa mudou?”

Ela o olha com uma certa hostilidade, mas nada diz.

E agora Yirmiyáhu se volta para Sijin Kuang, e surpreendentemente, no seu inglês básico, resume para ela as últimas frases trocadas em hebraico, e a sudanesa examina os dois entre perplexa e constrangida. E antes de trancar o armário de medicamentos ela lhes pergunta se precisam de mais alguma coisa. Um comprimido para dormir, pede Daniela, você me deixou preocupada quanto à hora de acordar, e tenho medo de não conseguir dormir. Mas entre os africanos os soníferos não são muito populares e não fazem parte do estoque no armário. Num gesto como o dos mágicos, Sijin Kuang faz surgir por entre seus dedos negros e longos um outro comprimido de aspirina e o dá à mulher que teme por seu sono.

“Quem sabe agora você vai mesmo descansar um pouco em vez de ficar zanzando por aqui”, diz Yírmi à cunhada, no tom paternal de irmão mais velho. “Ao final do domingo, antes de voltarem para as escavações, a expedição costuma fazer um jantar festivo no estilo high table, e eles com certeza insistirão para que você também esteja presente.”

High table?”, brinca ela. “O que é isso? Oxford e Cambridge?”

“Se eles têm vontade de ser servidos assim, qual é o problema? Então vamos, vá descansar, não vá você depois bocejar na cara deles.”

Ela sente mais uma vez o desejo de Yírmi de mantê-la a distância, talvez porque do ponto de vista dele eles já foram longe demais, e não lhe agradaria ser arrastado para mais longe ainda. Mas ela diz a si mesma que, se se conformar e deixar de ouvir o final da história, estará traindo sua obrigação para com a irmã, já que as aventuras desesperadas do marido não chegaram ao seu conhecimento. Em consequência, ela descalça os sapatos e se planta sobre a cama, voltando um olhar perscrutador ao cunhado, ainda parado na soleira do quarto traseiro, metade iluminado, metade na penumbra: Yírmi, que aula de judaísmo foi essa?

“Foi sobre os judeus, não sobre o judaísmo.”

“E quem foi o professor? O palestino dono da casa ou o farmacêutico?”

Ele a examina com os olhos mas ainda não sai de onde está.

“Nem um nem outro. O farmacêutico acabou com medo de vir ao encontro que ele próprio tinha organizado. Alguém o avisou no último instante que, apesar de sua carteira de identidade israelense, poderiam impedi-lo de voltar da Margem Ocidental a Jerusalém, se o pegassem. No início a ausência dele me assustou, até me apavorou, porque eu tinha depositado em suas mãos a minha segurança. Apesar de ele ser cristão e não muçulmano, tive provas de que ele era muito respeitado, pois o viam como quase médico. Mas compreendi que ele não viria somente quando já estava sentado na laje à sua espera, e não tinha mais como recuar. Era uma noite muito fria, ainda que seca, e desta vez lá não havia roupas secando, apenas algumas poltronas velhas. O intermediário, um árabe israelense bígamo, com uma mulher em Israel e outra nos territórios ocupados, me fez sentar e disse que logo trariam o café, e que por enquanto eu podia aproveitar o ar, que lá era mais puro que em Israel. E desapareceu. Fiquei sentado sozinho e esperei, mas não chegava ninguém, e eu tive certeza de que iriam me matar, ou me sequestrar, e que eu bem merecia algo assim, porque estava desafiando a sorte e provocando um inimigo humilhado.”

“Ao menos você estava consciente.”

“Pelo visto eu me deixei contaminar pelo impulso suicida deles...”

“E como terminou a história?”

Ele já havia compreendido que a cunhada, como um cão de caça, não o deixaria em paz. Trouxe então uma cadeira do outro quarto e depositou-a ao lado da cama.

“Bem, quando o dono da casa viu que o farmacêutico não chegava, ficou sem saber o que fazer comigo, e enviou a filha — aquela jovem grávida que conheci quando vim com o oficial.”

“A estudante de história com seu hebraico doce.”

“Você realmente não esquece de nenhuma palavra.”

“De nenhuma palavra sua. Portanto não fique preocupado com o Amótz, ele ouvirá de mim a história toda.”

O cunhado se cala por um momento, como se lamentasse que suas palavras não ficariam restritas à intimidade dos dois na África e acabariam num relatório em Israel, mas por fim superou e foi em frente.

“Essa jovem mulher, a estudante, apareceu na laje, e atrás dela, como que para vigiá-la, veio também a mãe, gorda e sorridente como sempre. A estudante já estava toda inchada, madura para o parto, mas seu rosto continuava fresco pelo descanso forçado do toque de recolher, brilhava com a maternidade já bem próxima, e seus cabelos pretos, soltos, espalhavam-se sobre os ombros. E a mãe trazia uma bandeja com o café.”

“Para que eles não ficassem tentados a assassiná-lo caso adormecesse”, ri Daniela.

“A mim, velho, desarmado, eles poderiam degolar mesmo acordado, até mesmo uma mulher. Não, elas trouxeram o café para que eu me sentasse e explicasse com toda a lucidez o que eu realmente queria deles. Por que eu voltava lá tantas vezes. E quando vi a estudante grávida — cujos estudos na Academia Rupin certamente foram interrompidos devido à intifada, e muito provavelmente não seriam retomados, e cujo marido, assim entendi do que ela disse, fugiu para um dos emirados do Golfo Pérsico em busca de trabalho e não voltaria tão cedo, e quem sabe não era ele o verdadeiro “procurado” para quem armaram aquela emboscada — quando a vi sentando-se calmamente perto de mim, tive um insight, de que na verdade era ela a razão pela qual eu me arrisquei em voltar. Sim, era a simpatia dela que eu tinha vindo buscar. Eu queria ouvir dessa jovem culta, no hebraico doce dela, que, apesar de nos ver como inimigos tanto quanto os outros, ainda assim ela sentiu simpatia pelo soldado ingênuo e bobalhão que arriscou a vida para não deixar sujeira na casa de seus inimigos.”

“Ela sabia o que tinha acontecido?”

“Com certeza.”

“E você conseguiu receber a simpatia dela?”

“Não. Ao contrário. Justo essa estudante foi a mais dura de todos. Começou com acusações baseadas na história que tinha aprendido na faculdade. Por que vocês judeus são capazes de se enfiar em qualquer lugar estranho e sentar em cima da alma dos outros? Por que vocês têm essa facilidade de migrar de um lugar a outro sem se ligar a nenhum outro povo, mesmo que morem entre eles por mil anos? Porque vocês têm um Deus próprio, só de vocês, e mesmo que não acreditem nele vocês têm certeza de que graças a ele vocês têm o direito de estar em todos os lugares? Mas quem consegue gostar de vocês dessa maneira? Quem vai querer vocês, sendo desse jeito? Como é que vocês vão aguentar?”

“Os velhos chavões de sempre.”

“É verdade. Mas ali, em Tulkarem, na laje, com a infinita amargura dessa jovem grávida, eles soaram de um modo diferente. Talvez pelo fato de que o parto estivesse próximo, ou porque o marido não veria o nascimento, ou por causa dos estudos interrompidos — ela dava a impressão de não ter nada a perder comigo, que eu estava entregue nas mãos dela, um judeu velho e teimoso. O que você veio fazer aqui mais uma vez?, perguntou ela, o que um ser humano procura no meio da noite na casa daqueles que o odeiam? Por que você perturba e assusta o meu pai? E o que você quer comigo? Que eu sinta pena do seu soldado? Por que eu deveria sentir pena de um soldado que invade um lugar que não lhe pertence, e não tem nenhum interesse em nós, em quem somos e o que somos? Que se apropria do telhado de uma família para matar um dos nossos, e acha que se nos fizer o favor de nos deixar um balde limpo — e desse modo também apagar os rastos do medo que sentia — nós lhe perdoaremos a ofensa e a humilhação? Mas como podemos perdoar? É possível nos comprar com um balde limpo?”

“Foi assim que ela interpretou o gesto? Como uma humilhação a mais? Loucura.”

“Não, Daniela, não tente tornar a vida mais fácil para você. Ela não é louca. É estranha, mas não louca. Original, mas não louca. Ela falava com clareza e muita lógica. Nós já desistimos de vocês, disse ela. Tomaram terras, tomaram a água, controlam cada movimento nosso, então pelo menos nos deem a possibilidade de nos juntar a vocês. Ou então nos suicidaremos junto com vocês. Mas vocês, de tanto que sabem se esgueirar para dentro do que é dos outros, ficam fechados dentro de si mesmos, não se misturam e não deixam ninguém se misturar com vocês. O que sobra para nós, então? Resta só odiá-los e rezar pelo momento em que vocês saiam daqui, porque isto aqui nunca será uma pátria para vocês enquanto não souberem se adaptar a tudo que existe aqui. Vamos lá, disse ela, peguem de novo o cajado e caiam fora daqui. Até o bebê na minha barriga espera por isso.”

“Como era o nome dela?”

“Ela não quis dizer.”

“Você a cita como se ela o tivesse convencido totalmente.”

“Não convenceu, mas impressionou. Com aquela autoconfiança feminina dela. E também a gravidez me tocou. Porque se o Eyáli continuasse vivo, eu também poderia ter uma nora como aquela, que daria à luz um bebê com um hebraico tão doce.”

“Novamente o hebraico doce? Doce em que sentido?”

“Quando os árabes falam um hebraico correto, sem erros, até mais sofisticado que o normal, há alguma coisa doce na sua fala. O sotaque fica mais macio, e porque eles temem errar na pronúncia do p, para não soar como b, eles põem mais ênfase nele, produzindo um som como que preocupado. O verbo nas frases deles aparece no início, e essa ordenação diferente da frase causa um efeito dramático. E há também a melodia interrogativa, pela qual, em vez de dizer “estou sentindo dor”, eles dizem “como não sentir a dor?”, e em vez de dizer “eu odeio vocês”, ela diz “como não odiar vocês?”. Algo desse tipo.”

“E isso é doçura?”

“Do meu ponto de vista.”

11

Por volta do meio-dia, na ambulância que desce da montanha à planície, descansa o mecanismo completo do elevador, único em sua geração, e os quatro filipinos mantêm-se distantes dele. O velho Yaári está sentado em sua cadeira de rodas, satisfeito porque o trabalho de desmontagem transcorreu sem incidentes nem acidentes, e medita sobre a próxima etapa: como convencer Gottlieb a tornear um novo pistão, que possa ser adaptado ao braço de sustentação.



Ele ainda amarga o vexame de abrir o berreiro na porta da amiga, mas sente também uma intensa gratidão por ela ter transformado sua fraqueza numa vantagem. Ainda assim, é bom que eu não tenha caído na tentação de comer lá, podia acabar chorando em cima do bolo.

Na cabine do motorista acotovelam-se Yaári filho e a especialista, ouvindo as recordações de Maurice das últimas viagens que fez com a mãe de Yaári. Vendo seu pai vivo e ativo na cadeira de rodas, sinto saudade da sua mãe, que era uma verdadeira lady, e que faleceu quando tinha a sua idade, Amótz, sem nenhuma queixa ou ressentimento.

Yaári confirma o diagnóstico e formula numa breve sentença o sentido da vida: fazer todo o possível para despedir-se deste mundo sem queixas nem ressentimentos. Mas sua hora de provar o que disse ainda não chegou, e por enquanto ele se sente intrigado pelo fato de até esta hora do dia ninguém ter manifestado qualquer necessidade dele no escritório — nenhuma pergunta foi feita, nenhuma opinião solicitada, nenhuma queixa relatada, como se o trabalho no escritório realmente pudesse se realizar sem ele. Haveria hoje algum outro show para as crianças? Ele fica na dúvida e liga para a secretária, mas esta confirma que os funcionários estão todos lá, empenhados em suas tarefas, e não há problema algum que requeira o discernimento ou a experiência do dono, salvo a presença de um estranho, um homem sentado há algumas horas em sua sala, teimando em esperar por ele.

“Um estranho?”, espanta-se Yaári, “e na minha sala?”

Descobre-se por fim que o estranho é o síndico da torre dos ventos, que veio entregar pessoalmente uma notificação judicial.

“Mas por que você o pôs na minha sala? Por que ele não me espera fora do escritório?”

“Amótz”, protesta a secretária, “ele é um pai enlutado, o filho dele foi morto há poucos meses, ele me contou a história toda. No escritório não há espaço livre entre os computadores e as mesas de desenho, e lá fora o tempo está muito feio, chove e venta muito. Mas não se preocupe, ele está sentado num canto e não vai mexer em nada.”

O velho Yaári dispensa o almoço de Kinzi e decide ir em frente com o mecanismo até a fábrica de elevadores de Gottlieb. Ele almoçará com os operários, relembrando os bons tempos de antigamente. Mas o filho já não aguenta mais essa festa do elevador privativo, e anuncia: Você não queria liderar esse processo? Pois então, vá até o fim, vamos ver se você consegue fazer uma conexão racional entre a psicóloga e o industrial. Ele se despede do pai ao chegarem à casa de sua infância, entra no carro e deixa que o pai siga viagem com o resto da turma até a fábrica, entre os bosques da região do Sharon. Vocês dois são responsáveis para que nada lhe aconteça, ele adverte Francisco e Hilario.

Pela porta aberta de sua sala ele vê o sr. Kidrón sentado, ereto e rígido, vestindo um pesado casacão, uma touca de lã no colo, olhando fixamente pela janela para a árvore que balança os galhos ao vento. O chá e os bolinhos servidos pela secretária ficaram órfãos, intocados. Yaári supera seu mau humor e entra na sala irradiando simpatia. O homem se levanta, mas não cumprimenta o dono do escritório, apenas lhe estende a notificação. Yaári pega o documento, dá uma lida rápida e pergunta sorrindo:

“E então, eu sou o único culpado em tudo isso?”

“Mesmo que haja outros culpados, eles não minimizam a sua parte”, responde o síndico em tom sombrio, “vocês formam uma sociedade corrupta, que não se importa com os estragos que deixa para trás. Aqui você tem uma árvore que faz barulhos agradáveis atrás da janela fechada, mas nós, quando voltamos para casa e chegamos perto dos elevadores, ouvimos não ruídos de vento mas gritos de dor, e não é justo pagarmos com um pesadelo sem fim os cálculos negligentes que você fez.”

“Acredite em mim, senhor Kidrón, os cálculos estão corretos. Há rachaduras no poço.”

“Então abra os elevadores e prove para a construtora que ela é a culpada.”

“Só o fabricante pode abrir os elevadores, eu sou apenas o projetista.”

“Foi o que eu disse, vocês são um bando de corruptos que ficam rolando a culpa de um para o outro, para que não possamos pegar nenhum. Mas o condomínio já está cheio dessa história, agora a acusação está em suas mãos, senhor Yaári, e para se ver livre dela vá até o tribunal.”

Yaári examina o homem. Não muito alto, com olhos azuis ingênuos, de compleição que parece delicada dentro do casacão desajeitado. Os sapatos de cano alto estão lambuzados de lama. Antes da morte do filho devia ser um sujeito simpático e agradável.

“Vou ao tribunal sim, já que é isto que o senhor quer. Mas por favor me explique, por que a acusação é feita só a mim?”

“Porque o senhor é uma pessoa acessível. Até a sua secretária é boa gente.”

Yaári passa os olhos pela árvore que luta contra o vento e põe a mão de leve no ombro do morador enlutado.

“Sim, eu sou um sujeito acessível, esse é o meu defeito, mas também é minha qualidade. Temos hoje um dia ideal para localizar a falha que o tortura, então por que esperar até que o tribunal me declare inocente, e nesse meio-tempo o senhor terá que alimentar algum advogado faminto — vamos aproveitar a tempestade esta noite para examinar o poço de uma vez por todas. Amanhã minha mulher volta da África, e não vai deixar que eu a abandone logo na primeira noite. Temos então só a noite de hoje, e como vai ser necessário manter parados todos os elevadores, o momento mais indicado seria no meio da madrugada, digamos entre as duas e três horas, na esperança de que todos os moradores já estejam em casa. Porque vai ser difícil conseguir carregadores para transportar escada acima os boêmios que moram nos andares mais altos.”

“Está ótimo”, ilumina-se o rosto de Kidrón, “vou espalhar avisos no prédio para que os moradores não cheguem tarde esta noite. Quanto tempo vai levar?”

“Apesar da minha idade, não se espante por saber que esta é a primeira vez que saio à noite procurando ventos. Assim como numa cirurgia ou numa guerra, sabemos quando começam, mas não quando terminam.”

O síndico assume a tarefa de convocar esta noite um representante da construtora.

“Fale com ele com a mesma agressividade com que falou comigo”, aconselha Yaári, “faça com que se sinta ameaçado”, e o encaminha para a porta de saída.

E justo agora, quando ele tem pressa em chegar à fábrica de Gottlieb para amarrar sua promessa à realidade, os funcionários o solicitam com perguntas e tentam mostrar-lhe projetos e esboços. E quando ele consegue livrar-se de suas responsabilidades e chegar à fábrica antes do anoitecer, surpreende-se por ver que a ambulância ainda está lá.

“Eu não apenas dei pessoalmente o almoço do seu pai na boca, como ainda o limpei de todas as migalhas”, anuncia Gottlieb. “E estamos torneando para ele um novo pistão. Aprenda, meu jovem, a força de uma velha amizade. E é bom que um homem tenha apenas um único amigo querido, porque dois o levariam à falência.”

“É verdade”, ri Yaári, “mas e quanto ao filho querido do amigo querido?”

E ele conta ao fabricante sua promessa em relação à noite de ventania. Será necessário um técnico muito competente, capaz de desmontar o teto do elevador e montá-lo de volta no lugar.

“No meio da noite? Você faz ideia de quanto isso vai custar?”

“Você não vai falir. Inclusive porque já pagamos de antemão para aquela sua parenta.”

Gottlieb lhe lança um olhar furioso.

Nos últimos anos Yaári não tem vindo muitas vezes a essa fábrica de elevadores. As encomendas têm sido feitas por e-mail, e os jovens engenheiros de seu escritório não têm muita simpatia pelos elevadores de Gottlieb, e brigam em favor de modelos mais modernos, que não precisam de casa de máquinas. Ele fica então bastante surpreso com o crescimento da empresa. Grandes e impressionantes máquinas de corte serram com sofisticada precisão as chapas de aço. Furadeiras confeccionam os quadros dos controles. Robôs montam sem contato manual os motores elétricos, e prensas embutem os pistões que pressionam o óleo. Os enormes salões estão limpos e arrumados, e um tanto escuros, e entre as máquinas circulam operários especializados, que parecem um pouco tensos ao ver o dono da fábrica aproximar-se.

Gottlieb não tem medo dos elevadores chineses que os engenheiros de Yaári recomendam às construtoras. Ele criou mercados próprios, e exporta elevadores para a Turquia e para a Grécia, e até da industrializada Inglaterra lhe chegam pedidos. Além de tudo, Yaári vislumbra com o canto do olho um novo departamento de projetos, em que estão sentados engenheiros, técnicos e desenhistas, que certamente acabarão competindo com seu próprio escritório. E nas entranhas do grande e bem-sucedido empreendimento Yaári é conduzido por caminhos intrincados até uma pequena sala onde zumbe alegremente um velho torno mecânico, e ele vê ali o pai em sua cadeira de rodas, fascinado pela operação e tremendo no mesmo ritmo da máquina. Num canto estão sentados Francisco e Hilario, calmos mas esgotados.

“Pai”, ele se inclina e abraça o velho, “você tem certeza de que o torno não vai funcionar se você não estiver olhando?”

“É o que eu também disse a ele”, concorda Gottlieb, “mas o seu pai, pelo visto, se diverte com o barulho e com os zumbidos. Os filipinos são calmos demais para ele. Venha, Amótz, vamos levar seu pai para acender as velas. Vocês vão ver daqui a pouco um castiçal de Hanukah não menos original que o elevador que ele construiu em Jerusalém.”

O velho nada diz, apenas olha sem entender para ambos. Yaári empurra a cadeira do pai atrás de Gottlieb, que os acompanha até o refeitório. Os operários do turno da noite reúnem-se aqui para acender as velas. No meio do salão há um castiçal construído à imagem da fábrica, cujos nove braços têm a forma de miniaturas de elevadores, e dentro de cada uma foi instalado um pequeno lampião.

Na entrada há um cesto com solidéus, e sobre as mesas foram depositadas bandejas com os doces típicos da festa, pequenos mas ainda quentes. Os operários puseram os solidéus, e estão reunidos em grupinhos silenciosos. Já conhecem bem esse castiçal, e não se impressionam mais com ele. Qual é a vela de hoje?, pergunta Gottlieb ao operário religioso que aguarda o momento de cantar as bênçãos. É a número sete, responde este, e espera o sinal do dono da fábrica.

Gottlieb vai até um quadro de botões numerados e aperta o botão vermelho do alarme, que acende a luz na vela assistente — uma miniatura do modelo mais moderno construído ali. Quando a luz se acende, o operário começa a cantar as bênçãos numa voz oriental límpida e agradável. Ao final das bênçãos, Gottlieb aperta o botão do sétimo andar, e lentamente, pela ordem, acendem-se os pequenos lampiões em sete das miniaturas.

“E então? O que acham?”, pergunta ele, orgulhoso, ao pai e ao filho. “Um milagre desses deixaria de boca aberta até os macabeus.”

Yaári acha graça e murmura, bem-humorado, não faz mal, até um Gottlieb desses dá para suportar. Mas amanhã à noite vamos finalmente acender velas de verdade com Daniela.

12

Depois que a dor de cabeça diluiu-se e sumiu graças a um longo e tranquilo sono, a turista israelense toma um banho e desce, refrescada, para o andar de baixo, e vê que a arrumação das mesas mudou em função do jantar de despedida. A mesa maior foi transferida para a extremidade do salão, sendo posta em cima de um pequeno palco de madeira, e sobre ela foi estendida uma toalha que trazia bordado o mapa da África. As outras mesas ficaram arrumadas em três linhas à frente do palco, com os bancos apenas num de seus lados, como numa sala de teatro. No grande pátio fora do prédio os cientistas carregam as caminhonetes com recipientes de isopor, mochilas e novas ferramentas de escavação, e Daniela percebe a presença de um grupo de africanos usando roupas e fitas coloridas, e alguns deles se apoiam em bastões longos e pontiagudos. Yirmiyáhu chega da enfermaria em passos lentos, e no caminho para o seu quarto, a fim de tomar um banho e mudar de roupa, ele adverte a cunhada para não zombar do jantar festivo. Por alguma razão eles têm por Daniela um respeito maior do que ela merece.



“Você sabe que é impossível me respeitar mais do que mereço”, provoca ela. “E você? Como se sente? A dor de cabeça passou?”

Ele olha sério para ela. Amanhã, quando você não estiver mais aqui, minha última dor vai passar. E sem esperar por uma resposta ou um protesto, ele toca levemente seu ombro, em sinal de reconciliação, e vai rapidamente para o quarto.

Como que vindo de dentro da terra, surge o velho e enrugado porteiro, ele também envergando uma fita, tendo na mão um enorme galho. Conduz para dentro, reverentemente, o grupo de africanos, e os orienta para se sentarem às mesas postas no salão. Quem são?, pergunta Daniela a Sijin Kuang, que com a autoridade que lhe confere sua estatura ajuda o velho a acomodar cada um dos convidados no lugar certo.

Ao anoitecer do domingo, antes de partirem para mais uma semana de escavações, os membros da expedição científica convidam os chefes de clãs e os líderes das tribos dos arredores para o jantar de despedida, fazendo-os sentirem que eles também têm sua parte nessa atividade científica.

Sijin Kuang põe Daniela sentada numa mesa da primeira fila, deixando lugares vazios à direita e à esquerda, para Yirmiyáhu e ela própria. Os cozinheiros, com seus brancos chapéus, arrumam sobre as mesas tigelas de barro e distribuem canecas com uma bebida amarelada. Entra Yirmiyáhu, com sua careca lustrada e sua roupa fresca, senta-se ao lado dela e diz, a Europa lhes parece importante justo quando mais sentem que ela os aliena.

O velho negro abana o galho, e os presentes ficam de pé. Os cientistas entram em fila indiana, envergando suas batas pretas da universidade, às quais se prendem fitas com as cores de suas respectivas bandeiras. Na ausência da paleontóloga norte-africana eles são agora apenas nove, e à sua frente marcha Seloheh Abu, o tanzaniano, que indica para cada um seu lugar na mesa elevada. E como os convidados estão com muita fome, e os alimentos fumegando, adiam-se os discursos para o fim do banquete e dá-se início ao jantar. Conforme a tradição britânica trazida de Londres pelo dr. Kukiriza, a refeição é antecipada apenas por uma “pequena fala”.

“Diga-me”, pergunta de repente Daniela ao cunhado, em hebraico, “você tem certeza de que não vai voltar a Israel um pouco entontecido por tudo que acontece aqui?”

Ele deixa o garfo sobre a mesa, e fica segurando somente a faca.

“E quem foi que lhe disse que pretendo voltar? Há seis dias você está aqui, e teima em não entender onde eu estou. Não há nada que me leve a querer voltar para um país que se transformou numa fábrica de reciclagem.”

“Esta já é uma nova definição.”

“Aqui não existe nenhum túmulo antigo nem pisos de sinagogas em ruínas; não há museus com restos de cortinas queimadas, nem testemunhos sobre pogroms e holocaustos, e não há exílios nem diásporas. Aqui não houve uma Era de Ouro, e não havia uma comunidade que contribuiu para a cultura universal. Ninguém aqui se preocupa com assimilados nem com renegados, com auto-ódio ou com orgulho, e não querem ser especiais nem eleitos. E não surgiu nenhuma avó que de repente se lembrou de sua identidade. Não há aqui ortodoxia nem laicismo, nem religiosidade autoindulgente, e principalmente ninguém sente nostalgia por coisa nenhuma. E não há atritos entre tradição e revolução. Não há rebeldia contra pais nem existem novas exegeses. Ninguém tem pressa em definir-se como judeu ou como israelense ou como cananeu, ou em saber se este país é mais democrático ou mais judaico, se ele tem futuro ou se já está acabado. As pessoas ao meu redor estão vazias e libertas de todo esse cipoal extenuante e criador de confusão. Mas estão vivas. Eu estou com setenta anos, Daniela, já tenho o direito de ir embora.”

Ele pega o garfo e o enfia na carne.

Daniela fica transtornada. Tem vontade de lançar-lhe algo contundente, mas se controla. O jorro das palavras deixa claro que, mesmo que ele não tenha nunca despejado esse monólogo em ouvidos alheios, ele certamente o murmurou para si mesmo muitíssimas vezes.

O velho africano acende o grande galho em sua mão e o balança. O chefe da expedição tanzaniano levanta-se para proferir o tradicional discurso. Yirmiyáhu sussurra para a cunhada que, embora ele esteja discursando na língua e no dialeto locais, todos os membros da equipe conhecem o discurso e conseguem compreender de memória todas as suas frases. Ele está falando sobre um assunto que lhe é muito caro: a conquista do fogo pelo homem e sua capacidade de entendê-lo. E ele próprio, Yirmiyáhu, já é capaz de compreender uma parte do discurso e completar por si mesmo aquilo que não entende.

O fogo é visto como um organismo vivo. Ele se move incessantemente, muda de forma e de cor, come, faz barulho e aquece. Um ser humano é capaz de criá-lo ou estrangulá-lo, soprar nele e reavivá-lo, ou soprar sobre ele e apagá-lo. O fogo é a única coisa no mundo que um homem pode matar e trazer de volta à vida. A maior parte das coisas que o homem cria ou constrói depende do fogo, e da mesma forma dependem a destruição e o extermínio. O fogo é um amigo que permite a vida, limpa e purifica, mas é também um inimigo assustador. Talvez esteja, no conhecimento do fogo, também a compreensão do que seja a morte.

De todas as criaturas do universo, só o homem tem consciência do fenômeno da morte. E isso é estranho, pois todas as criaturas veem a morte ao seu redor, ou a provocam todos os dias. Apesar disso, a consciência da morte é exclusiva ao homem; e ela se expressa, por exemplo, no ritual do sepultamento, surgido pela primeira vez há cem mil anos.

Por dois fatores principais a consciência do homem difere da dos animais: pelo conhecimento do fogo e pelo conhecimento da morte. E há ligação entre os dois saberes, um deles levando ao nascimento do outro: o fogo tornou o homem a criatura dominante sobre a face da Terra, mas também o transformou na mais infeliz, pois sabe que sua morte é inevitável.

O velho africano balançava o galho em chamas ao longo de todo o discurso.




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