Para a minha família, com amor Sumário



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Encontro05.12.2019
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OITAVA VELA

1


Ele estava certo de que acordaria sozinho, mas um sonho que se recusou a terminar frustrou sua expectativa, e foi boa ideia programar o telefone para despertá-lo. Morán, ele imagina enquanto busca uma camiseta grossa, iria gostar de perseguir ventos no meio da noite, mas, para um avô que teve um bisavô atrás dele o dia inteiro, uma aventura noturna dessas era um pouco demais. Apesar disso, tendo reconhecido sua responsabilidade à luz do dia, não iria renegá-la à noite. Seu pai deu garantia vitalícia para um elevador feito em casa, e cumpre-a mesmo quando já está tremendo em cima de uma cadeira de rodas. Ele, então, não vai se evadir da responsabilidade por defeitos surgidos num prédio de apartamentos logo no primeiro ano. É verdade, um advogado esperto daria um jeito de rolar as queixas dos ventos de mão em mão até que o espírito do reclamante arrebentasse, mas neste caso se trata de um pai enlutado, e há uma estranha camaradagem entre o pai enlutado e o tio enlutado, e por isso numa noite de tempestade ele vai se dar ao trabalho de instilar um espírito de equipe em todos os responsáveis para poder chegar à conclusão sobre qual deles é o verdadeiro culpado.

O slogan de Tel Aviv, “a cidade que nunca dorme”, revela-se adequado, concorda Yaári, ao ver a profusão de luzes e de movimento nessa hora tardia de uma noite de inverno. Ele próprio não se sentia atraído pelas madrugadas nem mesmo na juventude, e nos últimos anos vem tentando convencer Daniela a antecipar a hora de ir dormir. Mas amanhã à noite, disso ele sabe, eles não se apressarão a ir para a cama. Nenhum dos dois conseguirá dormir. Haverá muitas coisas para contar, e muitas outras para ouvir. E mesmo que faça alguma insinuação, mesmo que muito ligeira, relativa àquele desejo verdadeiro prometido no aeroporto, ele sabe que terá de ser muito paciente. Porque, apesar de ter sido ela a que viajou, e ele o abandonado, ela ainda estará zangada devido à separação, e a raiva sempre prejudicou seu desejo.

A chuva parou, mas as poças d’água nas ruas tremem à luz dos automóveis. Ele novamente contorna a antiga praça Reis de Israel a fim de encontrar, perto da vitrine agora apagada da Traça de Livros, a figura indefinível, que acrescentou ao que vestia de manhã apenas uma echarpe vermelha.

“E então”, ele a espicaça carinhosamente, “agora você não tem mais como reclamar por ter sido paga à toa. Esta noite todos nós vamos precisar do seu conhecimento. Eu só espero que o vento seja suficiente para você, porque me parece que ele está começando a fraquejar.”

“Não se preocupe, Yaári”, ela lhe sorri com seus olhos enormes e iluminados, “mesmo um vento fraco vai bastar. Quando ele fica preso num poço é fácil fazer com que fale.”

“Fazer com que fale.” Ele se surpreende com a expressão, e pergunta se ela lhe diria sua idade.

“Não”, assusta-se a moça, “ainda não.”

E ele se deixa de novo engolir pelo estacionamento subterrâneo da torre, mas desta vez não consegue encontrar vaga disponível. Seria possível que, devido à intensificação das ventanias, todos os apartamentos vagos tenham sido adquiridos em uma semana? E enquanto ele se arrasta pelos dois andares do estacionamento, irrompe pelo alto-falante a voz soturna do síndico do prédio: “Pegue a minha vaga, senhor Yaári, deixei-a livre para o senhor”.

No hall dos elevadores do andar inferior as lamúrias estão no volume máximo, e o rosto infantil da especialista brilha de satisfação. Eles sobem para o andar da portaria, e lá o porteiro da noite os orienta para irem ao vigésimo quarto andar, onde mora o sr. Kidrón. Nas paredes do hall de entrada e sobre as portas dos elevadores estão fixados os avisos escritos com caneta piloto preta com uma grossa moldura em volta. À primeira vista, parecem anúncios fúnebres, mas uma segunda olhada mostra que são simples avisos: Entre as duas e as quatro da madrugada os elevadores ficarão parados a fim de localizarmos a origem dos ventos.

A porta do apartamento da família Kidrón está totalmente aberta, e a casa está inteiramente iluminada. No salão de visitas, sobre a mesa de jantar, está servido um lanche noturno, e há várias canecas de café preto. Gottlieb chegou mais cedo com um técnico, e está meio esparramado sobre um dos sofás, mastigando com muito apetite e investigando a genealogia familiar da dona da casa, mulher gorducha e aflita, vestida de preto, tendo ao pescoço um grosso cordão de ouro entalhado. Seu marido também vestiu-se para a guerra — enverga um terno escuro festivo e formal, e gravata adequada, tendo em vista o possível confronto com os representantes da empresa construtora, que ainda se fazem esperar.

“Representantes?”, admira-se Yaári, “eles estão mandando numa noite dessas mais de uma pessoa?”

Ao que se sabe, devem chegar um engenheiro e um advogado. Hoje em dia as empresas sérias não vão a lugar algum sem a presença de um advogado, e pelo fato de o país estar cheio de advogados, o preço da assessoria jurídica noturna sofreu uma queda vertiginosa.

Yaári aproxima-se para saber algo sobre o técnico de Gottlieb, um homem robusto e ensimesmado, sentado no canto perto da varanda com uma caneca de café entre as mãos.

“Ráfi”, sussurra o homem e baixa a cabeça.

Entre Gottlieb e a especialista não há qualquer sinal da típica afeição de quase-parentes. A mulher miúda parece evitar o padrasto, põe um bolinho num prato e se senta perto do técnico. Amanhã de manhã, anuncia Gottlieb a Yaári, o torneamento que estou fazendo para o seu pai ficará pronto, mas ele ainda vai precisar da misericórdia divina para que o pistão funcione de novo em Jerusalém.

“Mesmo que ele não funcione”, retruca Yaári friamente, “não vai ser o fim do mundo. Fique sabendo que eu já estou cansado do autoritarismo do meu pai.”

Gottlieb se surpreende.

“O autoritarismo do seu pai? E você ainda se queixa? Pois foi um autoritarismo bem parecido que me fez acordar hoje no meio da noite para vir participar desse teatro de absurdos.”

“E você acha que não vale a pena acordar no meio da noite para se ver livre de uma culpa e de uma responsabilidade?”

“Não se eu tenho que trazer um técnico e uma especialista, pagando a eles por trabalho noturno.”

“A jovem senhora aqui está por nossa conta.”

Mas a jovem senhora, cujos olhos brilhantes como estrelas acompanhavam a conversa, diz a Gottlieb para deixar Yaári em paz, eu não vou precisar de nenhum pagamento. Fico satisfeita em ouvir para eles, para o pai e para o filho.

“Claro”, o fabricante balança a mão, mal-humorado, “eu sei que vocês me consideram pão-duro, mas não levam em conta que, se não há pagamento e não se desconta a taxa da Previdência, não há também seguro contra acidentes. E na minha fábrica há máquinas capazes de partir um homem ao meio em dois segundos. E quem vai pagar para costurar tudo de novo? Eu? Do meu bolso?”

“Gottlieb meu caro, aqui não há máquina nenhuma.”

“Mas o que nos espera é um passeio num poço escuro de trinta andares.”

Yaári se cansa de tanta mesquinhez e trata de interromper a conversa. Enquanto o dono da casa liga para alguém da construtora a fim de saber o motivo do atraso, Yaári pede à dona da casa licença para andar pelo apartamento, pois deseja saber se há correntes de ar também entre as paredes dos quartos. Venha comigo, diz a mulher ansiosa, e o leva primeiro ao quarto do casal, cuja arrumação denota que eles ainda não haviam deitado na cama. Ao quarto liga-se uma pequena varanda, voltada na direção sudeste, e Yaári se convida a visitá-la, e de novo ele está nas alturas, vendo a mesma paisagem urbana que se estendia à sua frente da minúscula varandinha da casa de máquinas seis dias atrás. Mas naquela longínqua manhã a visão estava embaçada, e agora a noite brilha com milhares de luzes precisas e claras. Entre os arranha-céus do centro, os gigantes do conjunto Azriêli com seu topo nas nuvens e a torre fincada perto da Bolsa de Diamantes, luzem as telas com anúncios coloridos que cedem lugar às notícias mais recentes, e as pernas maravilhosamente torneadas de jovens de cabelos curtos que emergem de dentro de lavadoras de roupa ou de louça se transformam em notícias sobre as ameaças nucleares do Irã.

A sra. Kidrón está de pé ao lado dele, gorducha e calada, acariciando devagar o cordão de ouro no pescoço e alçando a vista para um avião comercial que flutua ao descer sobre a grande cidade, e agora expõe suas rodas. Yaári olha o relógio. Faltam dezesseis horas para a chegada de Daniela, desde que nenhum animal feroz tenha comido seu passaporte e a passagem, e que nenhum funcionário tenha achado melhor modificar o horário dos voos.

“O filho de vocês... O soldado...”, ele gagueja de maneira casual, com os olhos grudados no avião, “ele chegou a conhecer esta casa nova?”

“Não. Ele foi morto dois meses antes de nos mudarmos. Pensamos em cancelar a compra, mas já era tarde.”

“Por que cancelar? A mudança de lugar não dá um pouco de alívio?”

“Assim esperávamos, mas no outono começaram esses ventos, que aumentaram ainda mais a nossa depressão.”

“Depressão por causa dos ventos? Mas esse é um problema meramente técnico.”

Ela o espia com um olhar apavorado.

“Você acredita nisso?”

“Eu não acredito. Eu tenho certeza.”

Uma outra aeronave, gigantesca, irrompe dos lados do mar e prepara a aterrissagem. Yaári pede à dona da casa para dar uma olhada nos outros quartos. Ela o conduz por uma passagem repleta de livros até um quarto de crianças cheio de brinquedos, que lembra o cômodo que Daniela instalou na casa deles para os netos. Yaári presta atenção. Sim, os lamentos do vento só se ouviam no poço e no hall das escadas. O apartamento em si era silencioso. De repente lhe surge a vontade de ver as feições do rapaz, e ele toca levemente no braço da dona da casa e lhe pede para ver uma foto. Mas a mãe rejeita seu pedido. As fotos do filho estão guardadas de propósito no fundo de um armário, pois os pais decidiram mantê-lo vivo usando apenas a memória e principalmente a imaginação, sem a ajuda de fotos. Nós dois, diz a mãe, decidimos não nos fixar numa imagem imóvel. Não há nenhuma foto dele na casa. Tentamos nos comunicar com ele o tempo todo através de gestos vivos, levá-lo a lugares onde ele nunca esteve e imaginar como se comportaria. Nós o mantemos sempre em movimento, permitimos que ele cresça e até que envelheça, para não ficar congelado para sempre em fotos da infância ou nas últimas, do tempo em que servia o Exército.

O coração de Yaári dá uma rateada. Ele concorda em silêncio com um movimento da cabeça. Depois pede licença para ir ao lavabo. Fecha rapidamente a porta, e quando descobre que o interruptor fica do lado de fora decide ficar no escuro. Ele baixa as calças e se senta na escuridão, tenso, zangado, talvez sofrendo, mergulhado em pensamentos.

Atrás dele fica, aparentemente, uma parede externa, e apesar da hora ele capta o ruído de água correndo e o uivo do vento. Cresce dentro dele a preocupação pela volta de Daniela. Ele teme problemas e atrasos nos voos vindos da África. Mas ainda assim confia na inteligência prática do cunhado, que saberia devolver sua esposa à terra natal.

De dentro do apartamento chegam-lhe vozes novas, jovens e risonhas. Os representantes da empresa construtora chegaram para lutar contra suas culpas.

2

E não é que se esqueceram de me entregar os ossos?, pensa Daniela, frustrada ao ver pela janela do quarto que as duas caminhonetes estão prestes a partir. Mas não vou correr para lembrá-los. Talvez não sejam mesmo importantes, ou talvez não confiem tanto em mim, e pode ser também mais uma falha típica do Terceiro Mundo, incapaz de persistir em seus objetivos. Não apenas não tive medo de levá-los comigo, como na verdade me senti contente em ajudá-los.



É sua última noite na África, e talvez seja também uma despedida definitiva do cunhado. Não haverá quem leve o vaso com suas cinzas para ser enterrado em Israel. Teria ela alcançado o objetivo de sua visita, de reforçar o contato com velhas recordações, a fim de alimentar com elas o amor que a irmã merecia? Ao final das contas, Yírmi fugiu da memória da esposa para dedicar-se a lançar gravetos à chama do fogo amigo, que pelo visto jamais se apagará. E ele ainda se queixa dos êxtases de fúria dos profetas. Mesmo tendo poupado Shúli e ocultado dela o que ousou revelar à irmã, é impossível que ela não tenha sido mordida pelo fogo feroz que ele insuflava dentro de si contra um mundo que ela amava apesar da perda do filho.

A visitante israelense, que em geral prima por um sono tranquilo, agora teme uma insônia extenuante, que só de madrugada lhe concederá o sono, e isso prejudicará sua despedida do lugar e das pessoas. É verdade, ela pode combater a insônia com a ajuda das páginas ainda não lidas do romance que trouxe, esperando que os artifícios narrativos permitam que seus olhos teçam os primeiros fios de sono. Mesmo assim, ela se mantém fiel à decisão de guardar o final da leitura para as duas horas de espera que terá entre um voo e outro, e já enfiou o romance na bolsa externa de sua mala, para sacá-lo mais facilmente na lanchonete em Nairóbi.

Yírmi desapareceu bem depressa depois do jantar festivo, e é óbvio seu esforço por manter-se longe dela. Inundado pela ideia de se apartar, ele talvez tema que na despedida ela o faça jurar, por amor à esposa, que manterá contato com a família. Mas ele talvez entenda que ela bem poderia aproveitar o momento para finalmente romper o silêncio e refutar seus argumentos. Até aqui ela se limitou a ouvi-lo, e com suas perguntas dirigir a conversa para estimulá-lo a continuar. E tomou cuidado para não deixar escapar algum tom de desprezo, porque temia que ele se calasse. Como professora do ensino médio, ela precisava ser capaz de ouvir vez por outra as arengas adolescentes dos alunos. Talvez por isso mesmo não tivesse paciência alguma para com rebeldias adolescentes de idosos.

Na verdade, ela poderia não apenas fazer pouco de suas alegações, mas até se zangar por seu sumiço de agora. Era óbvio para ela que Shúli teria se decepcionado se soubesse da despedida medíocre de quem sempre foi amado pela família, e era tido como homem confiável com quem era possível contar, e agora se desperdiça num lugar esquecido de Deus e trata de separar-se de tudo que era caro à irmã. Mas surpreendentemente sua raiva se desloca para o marido, cuja falta nessa noite lhe pesa em especial. Mesmo sabendo que ao final da tarde seguinte ele estaria ao lado dela, Daniela tem a sensação de que, se o amor de Amótz por ela fosse mais sábio, ele não a teria deixado fazer esta viagem sozinha. Ele tinha o dever de, apesar da insistência dela, desincumbir-se de seus compromissos e juntar-se a ela, para ajudá-la a lutar contra a desesperança provocada por ideias que dão esperança apenas a uma jovem suicida grávida.

Amótz teria, possivelmente, conseguido fazer frente a Yirmiyáhu. Não tanto em benefício próprio, mas em favor de Shúli, e também para o bem de Elinór e Yoáv, para poderem voltar a Israel ao final de seus estudos. Somente Amótz, com sua inteligência pragmática, conseguiria obrigar Yirmiyáhu a manter pelo menos um vínculo com a família até que amainasse sua tempestade interior.

Mas Amótz, imagina ela com um ligeiro desprezo, na certa aproveita sua ausência para antecipar ainda mais a hora de meter-se na cama. Ela consegue até mesmo vê-lo mentalmente vestindo seu pijama vermelho de flanela, deitando neste exato momento na larga cama do casal, cercado de retratos dos filhos e dos netos, pendurados nas paredes do quarto. Ele pega do chão o caderno de economia e negócios e se cobre com o grande edredom de penas, sem perceber que seu lugar não é em Tel Aviv, mas aqui, nesta remota fazenda africana, alerta e pronto para devolver os golpes do homem que decidiu destruir tudo.

É verdade, a negação de tudo pode ser indício de uma grave crise pessoal. Mas ela sabe que o ódio a si mesmo nunca leva a algum lugar em que a reparação possa ser realizada. Ela própria, porém, é impotente para enfrentar Yírmi e desmenti-lo com uma argumentação significativa. Ela é professora de inglês, ocupa-se com o significado de palavras, com a gramática, às vezes esboça o perfil de personagens em contos e peças de teatro, enquanto a cabeça de Amótz estoca números e fatos, e guarda na memória as cifras dos mortos e feridos dos dois lados, não só das nossas guerras, mas das guerras de outros povos. Quando ele pega algo para ler, não se trata de romances mas de biografias e ensaios, razão pela qual ele é capaz de descobrir exemplos de épocas e lugares de cuja existência ela sequer sabia, e pode fazer comparações entre nós e outros povos, e distinguir culpas fictícias de culpas reais. Ele tinha que estar aqui ao seu lado para domar o cunhado, não apenas pelo bem da verdade, mas também para que houvesse esperança para os nossos filhos e para os dele, para que Elinór e Yoáv voltassem a Israel, com um doutorado ou sem ele, e lhe dessem pelo menos um neto que pudesse conferir um certo sabor à sua vida e tirasse do caminho aquela estranha doçura que ele encontrou no sotaque de uma jovem palestina cheia de ódio e repulsa.

No fragor de seu anseio pelo marido, ao qual se mistura um tanto de ressentimento, fogem de sua atenção as leves batidas na porta, que por fim é aberta com muito cuidado. Para sua alegria, vê o dr. Kukiriza, vestindo roupas de viagem, trazendo-lhe os ossos do macaco pré-histórico que não conseguiu se integrar ao processo da evolução.

Ela enrubesce e diz: E eu já pensava que vocês tinham desistido de mim, ou que se esqueceram dos ossos.

“Não desistimos da senhora”, responde ele de maneira amistosa, “e como poderíamos nos esquecer de nossos achados? Mas alguns dos colegas recearam que estivéssemos lhe criando complicações com uma missão que lhe é estranha. O próprio fato de que a senhora a ocultou do Jeremy provocou-nos um certo constrangimento.”

“Não tem problema”, ela se apressa em prometer, “estou disposta a contar a ele.”

“Ótimo. Isto convencerá os indecisos. Gostaríamos de ter certeza de que Jeremy concorda plenamente com o que estamos lhe solicitando. E lá no Instituto Abu Kabir já estão à sua espera.”

Ela estende a mão, sôfrega, e ele tira do bolso uma pequena bolsinha de pano, abre-a e lhe mostra três ossos, cada um diferente dos outros em tamanho, forma e cor, e a aconselha a botá-los na mala.

“Claro, eu já estava começando a guardar tudo.”

Mas ele ainda teme entregá-los a ela, e examina a pequena mala depositada sobre a mesa em busca de um lugar adequado.

“Quem sabe não os acomodamos justo no lugar menos provável?”, sugere ele, “digamos, na bolsinha de apetrechos de higiene pessoal, entre os seus cosméticos. Num lugar feminino como esse dificilmente alguém iria mexer.”

“É uma boa ideia”, diz ela, e arranca a nécessaire da mão dele.

3

E então as coisas finalmente acontecem, orgulha-se Yaári. E tudo graças à minha tranquila autoridade. Entre as duas e as três da madrugada, a equipe dos seis “homens do vento” encontra-se no hall todo iluminado da torre, e a seu lado, com o rosto resplandecente, está o sétimo homem — o síndico, sr. Kidrón, segurando duas lâmpadas de emergência ligadas a grandes baterias e agradecendo intimamente aos ventos por não o terem traído, deixando de comparecer na hora da verdade. O gordo porteiro da noite foi despachado até o portão de ferro do estacionamento a fim de assegurar que nenhum morador chegaria no último instante e acabaria por ficar aprisionado entre os andares. Os quatro elevadores estão parados em andares diversos, e é preciso chamá-los e detê-los um a um. Só então será possível subir ao teto de um deles e mover-se devagar pela escuridão do poço, iluminando suas paredes. Apesar de no bolso de Yaári encontrarem-se uma chave mestra e uma chave tríplice, ele prefere não utilizá-las na presença do fabricante, para não dar margem a mal-entendidos. O técnico trazido por Gottlieb chama os elevadores, desativa primeiro seu controle central, depois desliga com a chave tríplice a ligação elétrica entre a porta externa e a porta da cabine, e por fim posicionam-se os quatro um ao lado do outro no andar térreo com suas bocas escancaradas, à espera da investigação. Toca o celular do síndico do prédio. O porteiro pergunta o que fazer com um casal que chegou com cinco malas pesadas. Acabam de vir do aeroporto, e ninguém os avisou da paralisação dos elevadores. Em que andar eles moram?, pergunta Yaári, e ao saber que é apenas no oitavo andar, ele decreta, decidido, que deixem as malas na portaria e subam a pé. Mas a mulher está grávida, e Yaári decide descer até eles no estacionamento com o grande elevador central, instruindo o técnico a preparar enquanto isso um dos elevadores laterais.



“Da esquerda ou da direita?”, pergunta o técnico.

Yaári e Gottlieb olham para a especialista, cujo rosto atento está voltado para as alturas.

“Da esquerda”, diz ela com total certeza, “as rachaduras estão do lado esquerdo.”

Desta vez Yaári utiliza suas próprias chaves, a despeito da presença de Gottlieb. Ele reativa o elevador mais espaçoso e desce para buscar o casal que acabou de voltar para casa. E ele encontra uma mulher realmente grávida e cinco malas bem pesadas. E então?, ele provoca o casal, ficaram com saudade da terrinha e voltaram para casa? Mas ele acertou o alvo só parcialmente. Os dois moram e trabalham nos Estados Unidos, já estão até naturalizados, mas queriam que o bebê nascesse em Israel, no apartamento que compraram para usar nas férias, e assim terão a ajuda dos pais de ambos. Sionismo pragmático, ri Yaári, e os ajuda a empurrar as malas para fora do elevador.

Ao voltar para o hall de entrada, ele descobre que o trabalho de preparação do elevador da esquerda está indo bem rápido. Gottlieb é um profissional competente, que conhece cada parafuso dos elevadores que Yaári projetou para ele. E conforme ele aponta, ao técnico ágil e disciplinado que o acompanha, o que soltar na cabine de aço escovado, num instante o elevador passa a exibir seus sistemas eletromecânicos ocultos para os olhos impressionados dos representantes da construtora.

O técnico entra no elevador e faz com que desça um pouco sem fechar a porta da cabine, e alguns segundos depois aparece diante do grupo montado sobre o teto. Ele aciona o elevador por meio do comando de serviço, em que há três botões dos quais é preciso pressionar dois para cada tipo de movimento, para cima ou para baixo. E agora, com o elevador afundado entre o hall e o estacionamento, até o advogado da construtora pode ter uma noção sobre o poço escuro que se eleva às alturas e é dividido por três malhas de ferro cuja função é estabilizar o movimento dos elevadores e de seu contrapeso dentro dos trilhos. Como o elevador utilizado é um dos normais, e não o maior de todos, o teto é exíguo, e Yaári fica em dúvida sobre enviar primeiro o técnico e a especialista para fazerem um reconhecimento do poço agora exposto, ou fazer a viagem junto com eles. Por fim decide ir junto. Pega com o sr. Kidrón as duas lanternas e diz, estou indo iluminar os ventos uivantes. Entrega uma das lanternas à especialista, já a postos sobre o teto do elevador, e leva a outra com ele. “Vamos lá, companheiro, vamos decolar.”

O elevador flutua para cima. O técnico o comanda apertando com os polegares os dois botões na barra de controles, e por isso o movimento é lento, quase imperceptível. A ouvidora de Kfar Blum está na verdade convencida de que os uivos irrompem no décimo quarto andar, mas Yaári insiste em examinar metodicamente cada um dos andares. Os intensos feixes de luz das lanternas passeiam pelas paredes do poço, que se deixam ver em sua nudez áspera e enrugada. Aqui e ali espicham-se de dentro delas uns tocos de arame, e até um jornal velho mostra sua cara. De vez em quando lhes parece que há ali o esboço de um rosto humano ou de um animal, outras vezes surge algo que se assemelha a uma frase entalhada na parede em caracteres desconhecidos. Não fizeram um trabalho limpo, diz Yaári para o técnico, cujos olhos estão fixados no espaço acima deles, como se receasse trombar com um objeto não esperado. Uma depois da outra, passam por eles as portas de ferro que trazem escritos, de maneira negligente, os números de cada andar. E, apesar do esquadrinhamento meticuloso dos feixes de luz, Yaári em nenhum momento pede ao técnico que interrompa o movimento constante de subida. Só quando chegam ao décimo terceiro andar diz Rachel ao operário: É isso, Nímer, pode parar.

E de fato, quando o elevador silencia, não resta mais dúvida de que é deste ponto que emerge o vento que tanto aterroriza com seus uivos, pois a pequena mulher, que com a luz de sua lanterna escrutina sistematicamente a parede, aponta para Yaári uma forma semelhante a lábios abertos na parede do poço, ou a narinas, resultado de um trabalho de concretagem nada caprichado, ou talvez até de uma sabotagem deliberada. Assim como os tubos de um órgão de igreja, essas narinas produzem sons variados e dissonantes, sem, porém, a mão de um artista a organizá-los.

“Este é o lugar a que você se referia?”, pergunta Yaári à especialista, agora ereta sobre o teto a sorrir com uma doce tristeza. “Era. Quando estive aqui há alguns dias para ouvir os ventos com o Morán, imaginei que o problema estivesse no décimo quarto andar, mas afinal de contas o erro não foi tão grande.”

“Pode acreditar”, Yaári a toca afetuosamente, “Deus comete erros maiores. Se o Gottlieb e eu estivéssemos passeando aqui para cima e para baixo, durante uma noite inteira, não nos passaria pela cabeça esse órgão. Vamos então trazer aqui o engenheiro e talvez também o advogado, para que vejam o lugar onde nasce a choradeira, e tornem a descer imbuídos da culpa e da responsabilidade, e nos deixem a nós todos dormir tranquilos.”

Ele instrui o técnico a descer até o hall. Ao sair do elevador ele elogia antes de mais nada o fabricante de elevadores, que está sentado cochilando, embrulhado em seu casaco, na poltrona de espera ao lado da mesa do porteiro.

“Você fez muito bem em trazer esse ouvido absoluto lá da Galileia, caso contrário ficaríamos nós dois andando para cima e para baixo a noite toda dentro do poço.” E ao engenheiro ele diz: “Por que gastar palavras à toa? Você não vai acreditar até que veja com seus próprios olhos. Então vamos lá, não tenha medo, pegue a lanterna e sente-se no teto do elevador, e esta jovem senhora o levará com calma e segurança até as falhas de sua construtora”.

O engenheiro hesita um pouco, mas pega a lanterna da mão de Yaári e parte para o alto do poço junto com a pequena mulher e o técnico, tendo a lanterna na mão.

Yaári senta-se na cadeira do porteiro e interroga Gottlieb sobre o técnico que veio com ele. Quem é ele afinal? Ráfi? Nímer? Judeu? Árabe? Misto, murmura Gottlieb do fundo de sua serenidade adormecida. Em que sentido?, graceja Yaári. Um misto de tudo que ainda há de bom nesta terra, atira Gottlieb e fecha os olhos.

O advogado anda inquieto para lá e para cá, e volta e meia aproxima-se do poço e olha para cima, como se procurasse saber para onde sumiu seu engenheiro. “Cuidado”, diz Yaári, “mesmo uma queda de dois andares até o estacionamento não vai valer a pena. Mas, se você quiser ir até a falha, para ver pessoalmente por que motivo não vai conseguir defendê-la, não haverá problema algum.”

O advogado mergulha em seus pensamentos. O síndico está ali ao lado, satisfeito com a investigação por que tanto esperou, mas um pouco temeroso quanto aos seus resultados. Para ele seria melhor que fosse descoberto algum defeito nos elevadores. Um defeito na construção exigiria providências capazes de prejudicar o andamento das coisas no edifício.

“O senhor também quer subir para entender como é produzida a música dos ventos?”

“Não”, assusta-se o homem, “para mim basta ouvir, não preciso ver nada.” O engenheiro volta ao hall. Pela expressão de seu rosto vê-se que acabou de ter uma visão muito estranha. Ele fala baixinho com o advogado, para o qual sugere a ideia de que terá que ver o defeito ele mesmo, a fim de justificar os honorários que pretende receber, e talvez consiga descobrir uma saída para transferir o prejuízo para a empresa seguradora. O mestiço continua sentado no teto da cabine, curvado para a barra de controle, mas os olhos enormes da especialista brilham e convidam Yaári a subir novamente a fim de assistir mais uma vez à maravilha do órgão natural. Por que não? E desta vez ele não irá parar no décimo terceiro andar, irá até o trigésimo porque talvez dali a acústica seja diferente. “Venha você também para ver o órgão”, Yaári convida o advogado, “eu mesmo vou levá-lo até lá.”

E o advogado, um homem jovem e de bela estampa, aceita o desafio de Yaári, que pede ao técnico para ceder seu lugar. Com três botões eu também sei lidar, brinca ele, e com toda a delicadeza faz o elevador decolar levando junto o advogado e a especialista. Inicialmente ele vai até o fim do poço, no trigésimo andar, para ouvir dali a potência integral dos pulmões do abismo, em cujo final brilha a luz branca do hall de entrada. Depois faz o elevador descer com cuidado até o décimo terceiro, e a especialista lança um feixe de luz sobre os lábios e as narinas do órgão de vento, obra de trabalhadores romenos, ou tailandeses, ou árabes israelenses, talvez para proporcionar ao interior do prédio uma atmosfera viva e vibrante. Mas o terror do advogado, que pela primeira vez na vida passeia no teto de um elevador num poço escuro, aparentemente lhe torna difícil o entendimento. Onde? Onde?, ele repete a pergunta teimosamente, não estou vendo nada. Diante de tanta obstinação jurídica, a especialista não se satisfaz com o feixe de luz, e inclina todo o corpo em direção à parede do poço, para apontar com a mão os estranhos defeitos que parecem embebidos em manchas de umidade ou bolor. Mas a ponta da echarpe vermelha que envolvia seu pescoço agarra-se aos cabos do contrapeso. Ela perde o equilíbrio e a lanterna escapa de sua mão e mergulha no buraco aberto abaixo, lançando um raio de luz entontecido. Ela própria, porém, segura-se imediatamente na malha de ferro que separa os elevadores, e solta um curto grito de dor que deixa Yaári abalado.

4

Poucos momentos depois da saída do belo arqueólogo, ouve-se o matraquear dos veículos, que pelo visto apenas o esperavam, e a visitante que rapidamente se aproxima da janela chega a ver somente o feixe de luz, tornado áspero pela chuva fina, ferindo o caminho de terra como um açoite de ouro.



Os ossos jazem na sua nécessaire, embrulhados na bolsinha de pano, e por momentos ela pensa em envolvê-los em algo mais a fim de isolá-los dos odores exalados pelos cosméticos e perfumes, mas desiste. Se tudo aquilo que impregnou esses ossos e grudou-se a eles nas profundezas da terra durante milhões de anos não os danificou, não serão os cheiros em sua bolsa de banho e maquiagem que se constituirão numa ameaça.

Apesar de ainda há pouco haver prometido contar ao cunhado sobre a pequena missão que aceitou levar a cabo, ela não se apressaria a encontrá-lo não fosse sua premência por dizer-lhe algumas palavras contundentes, que não lhe agradaria ver dissolvidas na confusão da despedida pela manhã. Ela calça os tênis e, apesar do calor da noite, agasalha-se com o velho casacão da irmã, e desce então até o quarto provisório que o porteiro havia lhe mostrado três dias atrás. Mas a porta que se abre ao toque de sua mão revela um quarto vazio e uma cama deserta. Frustrada, ela prossegue até o refeitório. A mesa continua na posição da véspera junto à janela ocidental e, para o seu espanto, ainda se encontram sobre ela, e sobre as outras mesas também, os restos do banquete festivo; mesmo as pias estão atulhadas de panelas e frigideiras. Apesar da confusão e da sujeira, ela já se sente um pouco em casa aqui, e não receia permanecer em meio ao tumulto e à penumbra. E por acreditar que Yirmiyáhu irá passar por ali a caminho de seu quarto, ela abre um espaço para si numa das mesas e põe-se a aguardá-lo.

Silêncio total. Ela pensa nos ossos pré-históricos que agora fazem companhia a seus apetrechos de maquiagem, e novamente se entristece pela fiel empregada que não receberá o batom que encomendou. Mas seria o caso de aumentar sua frustração contando-lhe o motivo e o lugar onde foi jogado aquele batom tão caro e tão especial?

Com a palma da mão ela afasta as migalhas de uma mesa e recosta a cabeça, fechando os olhos. Ela o esperará um pouco mais. Mas se, devido à dor de cabeça que sentia, ele decidiu valer-se do direito de se recolher à enfermaria — talvez, quem sabe, pela certeza de que a cunhada não ousaria ir até lá na escuridão —, ela teria de desistir e deixar para a hora da despedida a fala que havia preparado.

Enquanto recosta a cabeça desse modo sobre a grande mesa, com os olhos fechados, esvoaça subitamente entre suas pálpebras — como um pássaro bem pequeno — uma sonolência que secciona sua consciência por alguns minutos. Ao levantar a cabeça, sentindo-a pesada, e entreabrir os olhos no escuro, ela não percebe de imediato onde está, e na luminosidade baça da vidraça da janela surge-lhe a sombra de um elefantinho cuja tromba ergue-se para o alto silenciosamente e cujo olho maravilhoso flutua a seu lado — uma entidade independente em que rebrilha sua cor azulada.

Mas logo a miragem retrocede e volta a ser apenas o perfil da mesa elevada somada ao esqueleto enegrecido do enorme galho que havia ardido durante o discurso solene, e agora descansa apoiado na mesa, além de uma brasa que ainda arde no ventre do forno, cuja portinhola encontra-se entreaberta.

E agora, finalmente, seu ser arrebenta-se na dor da saudade que ela veio procurar na África, e a perda definitiva da irmã a golpeia justo aqui, na grande cozinha, com uma intensidade que ela desconhecia. Ela se levanta e chuta de leve a portinhola do forno, para ocultar o fogo que ainda crepita, e deixa que as lágrimas encontrem vazão num longo pranto que faz seu corpo sacudir com força.

É verdade, a dedicação exagerada aos netos no último ano talvez tenha vindo para atenuar e esquecer um pouco a saudade da irmã, razão pela qual teve que vir até aqui a fim de participar do luto do cunhado. Mas Yírmi, algemado à tentativa de conferir sentido ao fogo que matou o filho, atira um fogo amigo contra a mulher e sua família. Ai, Amótz, você deve ter tido uma boa intenção, mas não podia imaginar quanta falsidade havia na expressão que lhe escapou ao comunicar a notícia.

Esta noite, depois do monólogo sobre desligamento e separação que despejou em seus ouvidos, é natural e compreensível que Yírmi trate de evitá-la. Ele a conhece muito bem, e sabe que ela julga e reage com severidade mesmo quando aparenta ouvir sorridente e simpática. E por isso, amanhã de manhã ele fará o que puder para mandá-la embora daqui o mais rápido possível. Você está atrasada, ele a apressará, a chuva que caiu à noite tornou o caminho de terra muito mais difícil, e Sijin Kuang faz sempre questão de chegar a tempo e não aceita atrasar-se onde quer que vá.

Mas ela hesita em sair do espaço seguro na casa da fazenda e atravessar no breu total a trilha até a enfermaria. Em sua memória ainda vive aquela hora da tarde em que uma serpente se ergueu por entre o capim perto da enfermaria e armou-se toda de medo diante das presas do grande felino.

Onde está agora o africano enrugado que a servia pela manhã? Ela o seguiria pelo capinzal molhado de olhos fechados, deixando as gotas de chuva tamborilarem nos ombros. Mas, depois de apagar o galho ardente e depositá-lo ao lado da mesa elevada, ele desapareceu de vista. E onde será que mora, na fazenda ou num dos casebres de uma aldeia próxima? Ela se esqueceu de perguntar qual era realmente sua função, do mesmo modo como, ao longo desses seis dias, não conseguiu aprender onde fica o quarto de Sijin Kuang, atrás da qual ela também iria a qualquer lugar com tranquilidade e segurança. Mas, apesar de ainda não ser meia-noite, não será nesta última noite que ela manchará seu bom nome batendo em portas de desconhecidos.

Uma simples lanterna lhe daria mais confiança. Até mesmo uma vela que não fosse muito pequena. Se Yírmi não tivesse incinerado na primeira noite as velas de Hanukah, teria sido possível juntar várias velas pequenas e formar uma grande com uma chama robusta e boa luz, capaz de espantar os temores. Abrindo a porta, ela observa o universo sombrio. Por entre as nuvens irrompe uma delgada foice, muçulmana, que talvez consiga iluminar um pouco o caminho. Ela fecha o zíper do velho casacão da irmã, cobre a cabeça com o capuz forrado de pele, e assim, sem pensar demais, sai do portão da fazenda para a trilha conhecida, e começa a correr como que fugindo dos pingos mornos que caem sobre ela, confiando em que seu movimento acelerado confundirá qualquer animal mesmo que ela pise em cima dele.

Se os netos a vissem correndo dessa maneira no meio da noite africana, fariam uma grande algazarra, mas não duraria muito, porque a distância até a enfermaria é curta. A porta da frente está fechada, mas não trancada, e ela entra pé ante pé na sala de tratamento iluminada pela parca luz de uma lâmpada de mesa. Perto do estetoscópio alguém deixou uma publicação turística sobre a Tanzânia, em cuja capa há uma fotografia da reserva natural de Negorongoro — um cânion gigantesco rodeado por paredes com a altura de um prédio de duzentos andares, em que os animais ali aprisionados, incapazes de escalar suas encostas, conservaram sua originalidade pré-histórica. Na visita anterior, três anos antes, Yírmi os levou até lá, e os dois casais desceram até as profundezas do cânion para uma longa excursão. Por um momento ela hesita, e depois apaga a luz da lâmpada, e na escuridão ainda mais intensa vai até a porta do cômodo interno, batuca levemente sobre ela com o coração aos pulos, e a abre antes mesmo de receber resposta. Yirmiyáhu, acordando num salto com ela ainda no portal, pergunta: Você enlouqueceu?

Mas não foi a loucura que a trouxe ali, e sim um impulso de compaixão pelo jovem soldado, pedindo a ela que o liberte do abraço agressivo do pai para poder finalmente descansar. Ela entra, então, no quarto e se senta não na cama vazia, mas sobre a cama do homem que ela conhece desde a infância, e que agora recua um pouco, como que se defendendo.

“O que aconteceu com você?”

“Não consigo dormir, e tenho medo de que não conseguirei estar pronta de manhã cedo quando a Sijin Kuang vier me buscar para ir ao aeroporto.”

“Por que o medo? Se você não acordar sozinha, ela irá acordá-la.”

“Por que ela? Você não vai acordar cedo?”

“Vou acordar sim, e, se não, ela me acordará também, para que eu possa me despedir de você.”

“Mesmo assim, talvez seja melhor eu dormir aqui. Vou ficar mais tranquila e segura, e assim ela poderá nos acordar ao mesmo tempo em vez de correr de um para o outro. Não, não se assuste. Você se lembra que quando os meus pais saiam à noite eu às vezes entrava na cama da Shúli? Ela sempre me recebeu com muita alegria.”

“Nem sempre”, brinca ele, “certa vez você chegou no meio da noite e eu também já estava na cama, e tivemos que expulsá-la.”

“Mas agora que a Shúli não está, não é mais necessário me expulsar.”

Ela não acredita que disse uma frase dessas, com naturalidade absoluta. E parece-lhe perceber a expressão desnorteada dele apesar do escuro. Talvez para se defender dela, ele puxa suas calças jogadas sobre uma cadeira, tira uma caixa de fósforos e um maço de cigarros, acende um deles, e o quarto se enche com seu estranho aroma.

“Você voltou a fumar?”

“Não. Mas às vezes é bom ver à noite uma pequena brasa entre os olhos.”

“Então dê um para mim também.”

“Será melhor que você fume um dos seus. Este é um cigarro africano, simples e forte, que deve conter mais capim que tabaco.”

“É justamente do que eu preciso agora.”

E ela puxa de sua mão o maço e acende um cigarro, aspirando com força a fumaça, cujo aroma é estranho, e conta para Yírmi a respeito de sua promessa de receber seu assentimento quanto à missão dos ossos já guardados na nécessaire, acrescentando que, mesmo que ele discorde, ela está decidida a levá-los, porque sente o dever de retribuir a esses cientistas o carinho que tiveram para com ela.

“E por que eu discordaria?”, admira-se ele.

“Porque eles me insinuaram que se trata de algo não muito legal.”

“E se não for legal, qual o problema?”, sua voz exibe agora uma certa hostilidade, “mesmo se você for pega eles logo a perdoarão, como sempre.”

Como sempre como?”

“Porque você é especialista em proteger-se da dor e da culpa, e por isso escolheu, você bem sabe, um marido disposto a acolchoar o mundo inteiro à sua volta.”

As palavras duras e implacáveis, ditas num tom de reprovação explícita, acrescentam um veneno a mais na fumaça acre que se infiltra dentro dela. Ela joga o cigarro ao chão e gira sobre ele a sola do sapato, e em seguida crava os olhos nesse parente que a acompanha desde a infância. Yírmi permanece sentado com olhar neutro, curvado sobre si mesmo, e puxa o cobertor de lã para cima dos pés nus, continuando a sugar com apetite a fumaça de seu cigarro.

Nos olhos de Daniela surge uma primeira lágrima de humilhação.

Como ele diz que ela se protege da dor se fez todo esse trajeto até aqui, na África? E se ele acha que ela tem tido prazer com essa visita, não há nisso contradição alguma. Ela é uma mulher curiosa, a quem as pessoas sempre fascinam. Mas o objetivo real era, certamente, estar com ele e ouvir com afeição e paciência toda palavra que dele viesse. Mesmo quando ele a fez sentir fúria e desgosto, por sua cegueira no passado e sua teimosia no presente, ela não se esqueceu nem por um momento da sua grande infelicidade.

A cabeça inclinada de Yirmiyáhu move-se um pouco.

“Fúria?”, murmura ele, mas continua evitando olhá-la de frente.

Sim, fúria e desgosto, ela confirma, e sua voz se embarga e cresce até se tornar uma espécie de urro. Ao invés de ocultar da irmã sua obsessão com aquela laje infeliz, e em vez de humilhar-se, e indiretamente também à sua mulher, na tentativa inútil de receber alguma consideração de uma jovem suicida grávida apenas para dar sentido ao fogo amigo, que para ela não passou de um acidente casual e estúpido — ele deveria ter aceitado a falta de sentido e sua obrigação devia ter sido completamente outra.

“Outra?”, contorce ele a face numa expressão de desprezo.

Sim. Porque mesmo se a Shúli reprimiu a sua feminilidade depois da morte do filho, sua obrigação era lutar por ela, e não utilizar o seu recuo como desculpa para zerar toda a sua própria biografia e identidade, assim como o mundo no qual cresceu, e a história do que houve e do que haverá. Sua obrigação era lutar por Shúli, por sua sexualidade e seu desejo. Consolá-la em vez de ajudá-la a se apagar. Para que vivesse, em vez de morrer.

Yirmiyáhu levanta os olhos, abismado, para a lamúria banhada em lágrimas da mulher que continua a despejar argumentos como se sua mente não cuidasse do que lhe sai da boca. Ele certamente não esperava que sua hóspede atenta e tolerante se levantasse no momento da despedida e insinuasse que ele é o culpado da morte da irmã.

E agora ela treme e se desfaz de tanto chorar ao perceber o horror do que acabou de dizer. Ele se levanta, amassa a ponta do cigarro, macerando-a entre os dedos, e toma cuidado de não se aproximar dela.

“Venha”, diz ele pesadamente, “já é tarde, e você está muito cansada. Eu a levo de volta.”

Mas Daniela se recusa a sair do lugar. Ao contrário, num desafio ela despe o casaco e tira os sapatos. Pois, da mesma forma que a laje palestina funcionou para ele como um polo de atração, assim a enfermaria é para ela: um lugar estranho, mas livre de perigos. Apesar da sua ilusão de suicídio, ele devia saber que uma mulher palestina que lhe deu de beber não permitiria que o agredissem. A hospitalidade ainda é mais sagrada que a vingança. E ela confia na hospitalidade dele e sabe que não a tocará mesmo que ela continue a despir no escuro toda a roupa, como faz agora, peça após peça, até se deitar na cama nua e se cobrir com o cobertor. Porque é exatamente deste modo que ela deseja chorar a feminilidade perdida da irmã.

Ele retrocede, atormentado. Pela primeira vez desde que ela chegou, ele tem a impressão de que seu autocontrole está desmoronando. Mas ela ainda confia nele, mesmo quando ele se aproxima dela no escuro, e parece subitamente um grande macaco a tremer, e mesmo quando ele suspende o cobertor e observa a branca nudez da mulher de meia-idade que ainda chora, e talvez se recorde do que desperdiçou e de sua culpa em relação à irmã. E então ele fecha os olhos e, como que em estado de adoração, fazendo uma mesura, toca com os lábios os seios agora descobertos, em seguida grunhe e a morde no ombro, e imediatamente a cobre com doçura. Um minuto depois ele sai do quarto.

5

No mesmo momento Yaári solta a barra de controle do elevador para evitar todo movimento, mesmo casual. Não se mexa, ele grita para a especialista aprisionada, já vamos tirá-la daí; e você também, tome cuidado, grita com raiva para o jovem advogado, que olha apavorado na direção da pequena mulher cujo pé ficou preso em algum lugar entre o contrapeso e a grade de separação, você também, não se mexa e não toque em nada.



Gottlieb pelo visto percebeu a lanterna que caiu volteando pelo poço, e entendeu que algo havia acontecido, pois enquanto Yaári procura o celular para chamá-lo, já se ouve seu grito do fundo do poço, o que aconteceu, Yaári, o advogado caiu? Mas Yaári, que entrementes encontrou o celular, não responde com um grito a fim de não amedrontar os moradores. Com dedos trêmulos ele tecla o número de Gottlieb e o informa que sua enteada está presa dentro do poço. E como ele não sabe exatamente em que lugar ela está entre os andares, insiste para não moverem nenhum elevador, e que peçam socorro ao corpo de bombeiros. Não, não chame os bombeiros, Gottlieb rejeita de pronto a ideia, eles irão apenas acordar a rua inteira com suas sirenes e criarão um caos na torre e não resolverão nada. Não, meu querido, vamos tirar a pequena daí nós mesmos. Nímer e eu, e você também, temos conhecimentos e experiência para saber o que é possível e o que não é. Além do mais, quarenta anos atrás o próprio Gottlieb escorregou para dentro de um poço desse tipo, e Yaári pode ver com seus próprios olhos que ele saiu dali inteiro. Por isso ele exige agora de Yaári que seja objetivo e racional como sempre, e que dê sua localização exata, para que o técnico não tenha que subir a pé andares desnecessários.

Com o feixe de luz na mão, Yaári tateia por entre os ferros da grade de separação, até avistar as linhas do corpo e a echarpe de lã vermelha. A lamentação silenciosa da mulher que se mescla aos queixumes do vento atordoam sua alma. O que você está sentindo, Rachel? Diga-me, ele tenta fazê-la falar, mas ela nada diz e apenas murmura sem parar: Papai, papai...

Finalmente se abre a porta externa no décimo terceiro andar, e Nímer, que subiu até lá a pé, surge resfolegando e decide em primeiro lugar sumir dali com o advogado. Com o talento de um ágil macaco, nada compatível com sua idade, ele se agarra ao trilho do elevador, ordena ao advogado que segure sua mão estendida, e num único puxão ele o traz até a parede do poço e o empurra até o assoalho do andar. Gottlieb me instruiu para tirar você também, diz ele a Yaári. De jeito nenhum, decreta este, não saio daqui até a resgatarmos. Eu faço parte desta história.

E Gottlieb, que nesse meio-tempo revogou a paralisação do elevador central e pôs dentro dele a caixa de ferramentas do técnico, decola agora sobre seu amplo teto qual timoneiro de um grande navio, e para perto do décimo segundo andar, num lugar que o deixa muito próximo à aprisionada.

Só agora, ao ver tão próximo o padrasto e patrão, ela para de uivar de dor e responde às suas perguntas.

“O que houve, Rôlaleh?”, ele tenta brincar, “resolveu passear nas paredes do poço?”

“Eu caí, Gottlieb, e meu pé ficou preso.”

“Você deu muita trela para esses ventos da família Yaári.”

“Minha perna dói demais.”

“Já vamos tirar você daí, só tente não se mexer.”

“Tenho medo de perder o pé.”

“E para onde ele pode ir sem você?”, continua ele no seu tom brincalhão. “Sozinho ele não vai a lugar algum. Ele não vai deixar você. E você pode se acalmar, porque eu lhe fiz dois seguros, não só um, e já já o Nímer vai entrar aqui no elevador e desmontar a placa lateral e despreender o seu pé. E você vai poder dançar com ele no casamento.”

“Que casamento, Gottlieb? Do que você está falando?”

“O seu, claro.”

“Eu não vou a nenhum casamento.”

“Vai sim, e até eu vou dançar nele.”

“Você consegue dançar?”

“Só se for no seu casamento.”

Nesse meio-tempo Nímer desceu dois andares pela escada, abriu a porta da cabine e esgueirou-se para o elevador central em que estava Gottlieb, e conforme a orientação gritada pelo fabricante ele desmonta rapidamente o painel lateral para chegar até a especialista aprisionada. De cima, à luz da lanterna de Yaári, surgindo de dentro do elevador o técnico se parece com um homem pré-histórico saindo de sua caverna, e ele sinaliza a Yaári para que mova um pouco o elevador para liberar o contrapeso, e puxa para dentro a criatura delicada que ainda traz a echarpe de lã vermelha ao pescoço. O fabricante então aciona o elevador e o leva são e salvo até o térreo.

No andar térreo esperam, apavorados e agitados, além do engenheiro da construtora e seu advogado, o síndico e o porteiro da noite, alguns moradores curiosos, que acordaram com o vozerio e vieram assistir à cena. A especialista é deitada com cuidado sobre um cobertor trazido pelo porteiro, e nesse meio-tempo Yaári desce com o elevador da esquerda e conecta-o de volta ao comando central, e poucos minutos depois voltam a funcionar três dos quatro elevadores, e os lamentos do vento voltam a ser o que eram.

Visto que Gottlieb não bota qualquer fé nos serviços de resgate da nação, ele se recusa a chamar uma ambulância, e carrega nos braços a menina-moça ferida, com o pé sangrando, até seu grande automóvel, para levá-la ao pronto-socorro mais próximo.

“Só não vá me dizer que eu sou o culpado por essa queda”, clama o advogado em defesa própria aos ouvidos de Yaári.

“Você não é culpado pela queda”, responde Yaári com desprezo, “mas é culpado por não acreditar em nada do que lhe mostram.”

“E agora, o que vai acontecer?”, pergunta o sr. Kidrón a Yaári, e seu rosto está terrivelmente pálido.

“Vai acontecer o que eu lhe disse. O projeto e a fabricação estão corretos, e a culpa é da construtora, e você pode agora me deixar finalmente em paz.”

6

Passam-se apenas alguns segundos até que Daniela consiga resgatar a si mesma das malhas do sono e se dê conta de que é real a voz de dois africanos, um menino e uma mulher, que entraram no quarto ao lado. A roupa que despiu à noite ela já tinha vestido assim que o cunhado saiu apavorado. Só o grande casaco ficou largado no chão, e ela o sacode e se cobre com ele antes de abrir devagar a porta que separa os dois ambientes. Um menino africano deitou-se na cama e ao lado dele está uma senhora, certamente sua mãe.



Ela sorri para os dois em muda gratidão por a terem acordado. Agora ela poderá esgueirar-se de volta ao seu quarto, para que Sijin Kuang a encontre ali para acordá-la.

Mas ao sair da enfermaria para a cintilante manhã e caminhar sobre o capim molhado e luzidio, ela percebe ao longe a alta figura da sudanesa, que veio procurá-la por não tê-la encontrado em seu quarto.

“Já a esperam lá”, diz Daniela com o rosto vermelho à mulher que, muito digna, não a interroga sobre como e por que passou a noite na enfermaria, mas lhe relembra o tempo que urge.

Com a consciência dolorida, ela entra na grande cozinha. As atividades matinais estão em rotação máxima, já tendo sido removidos todos os indícios do banquete da véspera. Yírmi, vestindo seu costume cor de terra desbotado, está sentado a uma das mesas menores, barganhando por meio de gestos com um guerreiro massai muito alto, envergando seu manto vermelho, que tinha trazido uma ovelha e um cordeiro. Ele abana a mão amistosamente para a cunhada, você precisa se apressar, Daniela, ele exclama de longe para ela, a chuva da noite passada deve ter arruinado a estrada de terra.

Ela sobe rapidamente as escadas até o quarto que havia abandonado à noite, e pelo estado dos lençóis lhe parece que alguém esteve em seu quarto e até deitou em sua cama, mas agora não há tempo para fantasias e elucubrações, e ela precisa se despedir de modo condigno do quarto que afinal de contas lhe agradou, e devolvê-lo arrumado a seu dono. Depois de lavar o rosto e fechar definitivamente a pequena mala, ela alisa as roupas de cama e capricha numa dobradura perfeita. Depois esfrega um pouco a pia e o vaso sanitário, esforçando-se para não deixar neles qualquer sinal indevido. Por um momento ela hesita quanto a pedir ajuda para descer a mala, mas sabe que suas forças são suficientes para arrastá-la escada abaixo.

Não há tempo, Yirmiyáhu repete e a apressa, fazendo-a sentir-se uma alunazinha que não deve se atrasar para a primeira aula. Em seu olhar e voz não há sinal de qualquer ressentimento ou hostilidade. Há apenas uma afeição renovada, mesclada à compaixão pela hóspede que está para voltar a um lugar perigoso. Mas ela se espanta ao ver que a pressa nervosa que lhe impõe Yirmiyáhu não lhe permite sequer um tranquilo café da manhã no lugar ao qual já estava acostumada, nem se despedir de modo adequado do velho africano. O cunhado já havia preparado, como na noite em que ela chegou, um farnel com sanduíches e uma garrafa térmica com café. Isto é para você, ele os entrega em suas mãos com um sorriso, só não vá se atrasar, prometi ao Amótz que eu a devolveria a tempo, então não se meta em problemas na viagem de volta. E ele a ajuda com a mala até o Land Rover.

Sijin Kuang já está ao volante, e no assento a seu lado encontra-se o jovem africano que precisa de espaço, pois sua perna enfaixada deve ficar estendida. Yírmi deixa a malinha no banco traseiro e lhe aponta o lugar que já considerava dela. Por um breve momento a ofendem a rapidez com que a descartam e o assento traseiro em que a fazem sentar.

Mas de súbito o cunhado a abraça calorosamente. Apesar de tudo, muito obrigado, você não apenas me atormentou, também me deu muita alegria. E se pelo menos eu pude provar que não há por que se preocupar comigo, então sua visita alcançou um resultado positivo.

“Não se preocupar?”, sussurra ela, decepcionada.

“Não”, ele responde, resoluto. “Preocupem-se um com o outro em Israel, que é o lugar natural para as preocupações eternas. E se apesar de tudo ficarem preocupados comigo também, envie para cá o Amótz. Para ele eu não vou precisar preparar um discurso, porque você com certeza lhe dará um relatório completo. Mas que venha sem jornais e sem velas, e eu irei passear com ele por aqui.”

Ele acaricia levemente sua cabeça e a ajuda a entrar e sentar-se.

Num movimento rápido e certeiro a motorista sudanesa faz o carro sair da fazenda, e como o jovem africano tomou de Daniela o lugar que lhe seria devido dada sua idade e seu status, ela se vê novamente entre caixas de papelão. Mas a frustração por sentar-se no banco traseiro não é só técnica. A visitante de Israel havia planejado conversar com Sijin Kuang, em sua última viagem juntas, sobre o futuro do administrador israelense, que três dias atrás ela havia descrito de modo surpreendente e direto como um “homem mimado”.

Mas como é possível falar do assento traseiro com alguém no dianteiro se o barulho do motor cala e devora qualquer voz humana? Assim, ela terá que se satisfazer com as costas do rapaz africano, em cuja perna, ela ficou sabendo, espalha-se uma infecção. Com sorte, talvez encontrem uma clínica onde possam salvá-la.

O caminho serpenteia em meio à floresta que as duas atravessaram na primeira noite. As árvores, que então pareciam sombrias e arrepiadas, à luz do dia alegram-lhe o coração com seu verdor sereno e límpido, e ela é tomada de tristeza pela viagem de despedida emudecida e desperdiçada. Ela estende o braço, toca o ombro delicado da motorista e inclina-se em sua direção: Por favor, podemos parar aqui por um breve momento?

Sijin Kuang concorda de má vontade e freia ao lado de uma clareira e silencia o motor, para que Daniela possa descer e estirar os ossos depois do sono nada tranquilo.

O menino também gostou, e vai saltando com sua perna boa até as árvores, e corta para si um galho. Só Sijin Kuang não se afasta do veículo. Abre a tampa do motor, examina o nível do óleo e depois põe um pouco de água no radiador. O coração de Daniela vê-se inundado subitamente de afeição pela seriedade dessa jovem negra, e ela volta ao automóvel e diz, sem aviso prévio, Ouça, Sijin Kuang, eu tive um sonho com você.

A enfermeira sudanesa se assusta. Talvez, segundo suas crenças, o sonho de um ser humano branco sobre um ser humano negro tenha uma força maléfica... Mas Daniela, que percebe sua reação, logo a tranquiliza. É um sonho bom. Eu vi você conosco em Jerusalém procurando um amor, e você o encontra.

Sijin Kuang fica em estado de choque. Fecha a tampa do motor com uma forte pancada e limpa as mãos com um pano. Um sorriso de sábia ironia surge em seu rosto, e ela pergunta à sonhadora:

“Até Jerusalém a senhora me envia para que encontre amor?”

“Se é amor”, responde Daniela, “por que não?”

“E Jeremy — o seu cunhado, a ele a senhora convenceu a voltar a Jerusalém?”

“Não tenho certeza. O que você acha?”

“O que eu acho é que para ele seria melhor permanecer aqui.”

O menino africano saltita de volta ao veículo tendo na mão o grande galho. Mas Sijin Kuang o proíbe de entrar no carro com ele, e então o menino o joga fora e fica triste.

7

Visto que o técnico foi competente na desmontagem e no resgate, Yaári faz-lhe companhia até que termine de montar o painel lateral retirado do elevador central. Mas a montagem é mais complexa que a desmontagem, e a ausência de Gottlieb torna o trabalho ainda mais demorado. O próprio Yaári desconhece os detalhes do elevador que seu escritório havia desenhado, e não pode ajudar com informações. E o porteiro da noite não se revela um grande conversador. Resta-lhe, portanto, apenas cochilar na poltrona de Gottlieb, ao lado da mesa do porteiro, e dali irradiar silenciosamente sua solidariedade ao técnico de meia-idade.



Uma primeira luz matinal ilumina as enormes portas de vidro do saguão e abre os olhos de Yaári, que vê o técnico guardar em sua maleta a última ferramenta. O projetista de elevadores levanta-se pesadamente para devolver o elevador ao comando central, mas o técnico já o havia antecipado. Imediatamente o elevador levanta voo, até o madrugador do trigésimo andar. Venha, Ráfi, diz Yaári amistosamente, vou levá-lo para casa. Não é necessário, responde o homem, vou esperar o primeiro ônibus. Mas Yaári faz questão, e o leva ao longo da avenida à beira-mar até um bairro na zona sul da cidade, não muito longe de Abu Kabir, onde o mundo acorda cedo. O técnico, que veio calado até aqui, por gratidão convida Yaári a subir ao seu apartamento e tomar ali o café da manhã, e Yaári, que hesita entre ir para casa e completar o sono que faltava, ou ir direto até o escritório, aceita o convite, inclusive para descobrir se a definição “misto” se aplicava realmente, ou se foi dita em tom de troça.

O apartamento de dois quartos era limpo e organizado com bom gosto. No quarto de frente há uma estante com livros, principalmente em russo. Não há qualquer indício oriental nem na colcha que cobre o sofá nem nas reproduções penduradas nas paredes. Mas o café que o dono da casa prepara é cem por cento árabe, no cheiro e no gosto. A jovem grávida, que acordou no outro quarto e veio acrescentar pãezinhos ao café preparado pelo companheiro, tampouco contribui com algo que sirva para identificá-lo.

Yaári interroga o homem sobre Gottlieb como patrão, e para a sua surpresa o técnico o aprecia bastante. É verdade que o salário é medíocre em comparação com o que pagam os outros, mas por estar sempre presente nas salas onde se processa a fabricação e misturar-se aos operários, ele proporciona certa dramaticidade e tensão ao trabalho, e o tempo passa mais depressa.

“E qual é o seu nome, afinal?”, Yaári pergunta antes de se despedir. “Nímer ou Ráfi?”

“Isso depende de quem pergunta”, sorri o técnico.

“Quando eu perguntei você disse Ráfi, então o que isso diz a meu respeito?”

“É verdade”, ele reconhece, “eu disse Ráfi, mas depois de trabalharmos a noite inteira juntos pode ser Nímer também.”

Seu celular toca. É Morán, que foi liberado há meia hora e está a caminho de Tel Aviv. E a primeira pergunta é se a mãe já voltou. Ela aterrissa só no fim da tarde, responde o pai secamente, e depois que você trocar de roupa e beijar a sua mulher e os filhos vá imediatamente, por favor, até o escritório e assuma o comando. Eu estou voltando para casa para dormir, e você já não faz nada há muito tempo. E conta ao filho, dando apenas os títulos de cada capítulo, como foram as coisas na noite dos ventos.

Chegando em casa no bairro residencial, com os olhos quase fechando ao olhar para a árvore plantada no centro do gramado na frente da casa, o celular toca mais uma vez, e é Francisco que informa sobre a febre do pai.

“Quanto?”

“Trinta e oito e meio.”

“Você pode medir de novo?”

“Já medi duas vezes, e deu a mesma coisa.”

“Está bem, estou indo.”

“Chamo o doutor Zaslansky?”

“Tenha pena dele e espere um pouco, o coitado tem oitenta anos, deixe que ele acorde naturalmente.”

Conforme as instruções, uma temperatura de até trinta e oito graus os filipinos devem tentar resolver por si mesmos. Se passar dos trinta e oito devem chamar tanto Yaári quanto o médico pessoal do velho, seu amigo de infância, o dr. Zaslansky.

Yaári lava as mãos e olha com cobiça para a cama que abandonou no meio da noite. Um desejo intenso e verdadeiro o atrai para o edredom de penas de uma brancura reluzente.

Mas o médico o havia advertido. O mal de Parkinson pode piorar com uma febre alta, e a última coisa de que Yaári gostaria hoje é que a doença se complique com o amor recém-ressurgido. Assim, sem se barbear nem trocar as roupas de trabalho, ele vai até a casa do pai para investigar a fronteira entre o físico e o emocional.

Os olhos do velho estão brilhando. A febre fornece às suas faces um bonito tom avermelhado. Ele está sentado na cama, apoiado nos travesseiros, e pergunta em primeiro lugar sobre os ventos no edifício. Yaári conta-lhe sobre os tubos do órgão deixados na parede do poço, por acaso ou de propósito.

“É o fim”, diz o velho com desesperança, “quem dá condições de trabalho humilhantes a operários estrangeiros, recebe de volta um truque desse tipo no prédio antes de voltarem ao seu país, e então vá procurar onde estão, na Romênia ou na China, para cobrar alguma coisa deles.”

“Por que você tem certeza de que isso foi feito de propósito? Quem sabe foi só um acaso?”

“Acaso?”, o velho descarta a hipótese com desprezo, “o acaso é a solução mais fácil para quem tem preguiça de pensar.”

O filho está esgotado demais para discutir com o pai. O dr. Zaslansky deve chegar somente daqui a uma hora e, como Hilario já acordou, Yaári pede a Kinzi que troque a roupa da cama do garoto e prepare-a para ele mesmo, no velho quarto de sua infância. Um cochilo de uma hora não vai lhe fazer mal. Os filipinos obedecem à instrução com alegria. O senhor se cansou, senhor Amótz, eles ralham; em vez de a viagem de sua esposa deixá-lo descansar, cansou-o ainda mais. A que horas é a chegada?

“Às cinco da tarde.”

“O senhor quer um pijama limpo do seu pai?”

“Não.”

A cama de sua infância exala um odor penetrante que deve ter vindo do Sudeste Asiático. O quarto é conhecido e estranho ao mesmo tempo. A estante que ele ganhou ao terminar a escola fundamental ainda está lá, assim como a velha cadeira, ao lado da escrivaninha. Mas há uma confusão feita por móveis vindos de outros quartos, tais como um criado-mudo que ficava ao lado da cama de sua mãe, e um cesto de palha que veio do banheiro, e há também alguns objetos filipinos originais, cartazes e lâmpadas coloridas, e também um telefone, real ou apenas um enfeite, com o formato de um dragão. Ele se despe e deita na cama apenas com a cueca e a camiseta de manga comprida que vestiu ao sair à noite, ansiando por um sono correto e apaziguador, que o deixe em forma para a chegada iminente da mulher.



Adormece imediatamente, e seu sono é pesado ainda que perambulem dentro dele algumas vozes reais. Das profundezas do sono a querida voz de baixo do dr. Zaslansky, conhecida desde a infância, explica o que e como dar ao velho, e acrescenta, não faz mal, deixem o Amótz dormir, não o acordem, e Yaári agarra-se à coberta e agradece em seu coração ao médico da infância, e entrincheira-se ainda mais no sono maravilhoso a cujo seio ele se recolheu.

E ele tem sonhos. Operários carregam um objeto metálico e o jogam ao chão, o que provoca um som agudo, e falam entre si em romeno ou chinês. E agora ele está de volta ao poço dos ventos, mas o poço não é vertical, e sim horizontal como uma caverna, e os elevadores parecem vagonetes de uma mina de carvão, e é possível caminhar junto a eles. Em vez de carvão eles transportam moradores vestidos de preto, tendo ao pescoço brilhantes colares de ouro. Yaári os acompanha com uma lanterna na mão. Ele anda entre a grade e os trilhos, e subitamente sente uma forte vontade de fazer xixi. Mas onde? Os vagonetes vão e vêm, vêm de um lugar iluminado e vão na direção das trevas, e, por não serem cobertos, e os moradores todos olharem para ele, não lhe é fácil encontrar um canto onde se esconder. Na parede do poço ele percebe um ajuntamento de teias de aranha e abre caminho até elas, decidido a estraçalhá-las com o jato intenso de sua bexiga inchada.

Ele acorda a tempo e vai depressa ao banheiro ainda de cueca e camiseta.

Pela janela da sala de visitas ele percebe uma luminosidade diferente, a luz da tarde. No fim do corredor, perto da entrada, jaz o pistão que Gottlieb torneou.

“O que é isso?”, pergunta ele, alvoroçado, “mandaram para cá o pistão do papai?”

“Sim, dois operários o trouxeram na hora do almoço, porque o Gottlieb disse que não tem onde deixá-lo na fábrica.”

“Canalha”, revolta-se Yaári. “De repente ele não tem onde pôr um pistão. Por que vocês não me acordaram? Eu os teria obrigado a levá-lo de volta.”

“Não ia adiantar”, responde Francisco, sem se alterar. “Porque o seu pai concordou. O pistão o deixou muito contente.”

Yaári suspira e se apoia na parede, impotente.

“Como está ele?”

“Ele melhorou. A febre baixou.”

Ele olha o relógio. Inacreditável, são três e meia da tarde.

“Como vocês me deixaram dormir até esta hora?”, ele reclama com Francisco.

“O seu pai disse para deixá-lo dormir”, Francisco sorri com seus dentes brancos, “mas só até as quatro. Para que o senhor não fosse perder a sua esposa.”

8

Desta vez a pequena aeronave aterrissou num local bem distante do terminal de Nairóbi, e enviaram um ônibus caindo aos pedaços para transportar os passageiros. Mas, ao contrário do que esperava Daniela, não seguiu direto ao setor dos passageiros em trânsito — fizeram-na passar pelo controle de passaportes e pela alfândega queniana. Por quanto tempo a senhora pretende ficar conosco?, pergunta-lhe o guarda que era também o fiscal da alfândega. Não tenho intenção de ficar, diz ela com um sorriso triste, estou apenas de passagem, ficarei aqui somente duas horas. Ainda assim, abriram sua mala e a reviraram, e examinaram até o conteúdo da nécessaire, mas os ossos ressequidos não despertaram o interesse de ninguém.



Ela passou mais uma vez pelo controle eletrônico, e por um longo tempo puxou sua maletinha, até que lhe surgiu a mesma lanchonete apinhada onde poderia aguardar o voo para casa. Desta vez, porém, não precisará esperar horas, como no voo para Morogoro, mas agora ela já não é a mesma mulher autoconfiante, capaz de conquistar um território para si. Ela não se atreve a puxar duas outras cadeiras, para pôr os pés sobre uma e a mala e a bolsa sobre a outra. Basta-lhe um lugar vazio no meio da multidão, apertado entre mesas ocupadas por outras pessoas. E quando diz ao garçom que deseja apenas uma xícara de café, ela baixa a cabeça.

Medo e tremor a assaltam na iminência de voltar a Israel. A possibilidade, mesmo imaginária, de que Amótz descubra o que aconteceu a deixa em pânico. O estranho olhar de Yirmiyáhu na despedida — que sentido teria? Raiva? Esperança? Pavor? Ele não disse uma palavra sobre o que ocorrera à noite, talvez por pena. E apesar de detestar a ideia de que alguém sinta pena dela, agora ela anseia por isso. Porque, mesmo sem a mordida em seu ombro, apenas pelo fato de que seus seios tocaram os lábios dele — ela havia dado a ele, por pena, um título de propriedade. Ela estava em suas mãos. Volte ele a Israel ou não. E talvez justamente em razão de sua delicadeza interior, e pelo profundo vínculo que o une a ela e a Amótz, ele evitará regressar. E, quem sabe, passa por sua mente essa ideia bizarra — teria sido esta a intenção oculta dela: fazer com que ele não pudesse voltar, para não envenenar com seu fogo amigo a família dela, seus filhos e netos.

O garçom põe à sua frente a xícara de café e pede-lhe que quite a conta, pois ele está encerrando seu turno de trabalho. Ela paga generosamente, mas não consegue levar o café aos lábios, como se houvesse nele algum remédio amargo. Apertada e encolhida entre africanos e europeus, ela ouve de repente uma palavra em hebraico. Mas não levanta a cabeça. Nessa lanchonete imunda ela pretende manter-se totalmente anônima. Deus permita que o tempo atenue sua vergonha.

Na tela do monitor surge agora a informação de que o voo para Tel Aviv está atrasado em meia hora. Isto lhe agrada. Dois jovens religiosos vestidos de preto — certamente representantes locais do Habad que conseguiram de algum modo entrar no terminal — perambulam por entre as mesas examinando as pessoas com olhar penetrante, na tentativa de caçar algum passageiro judeu que lhes dê a oportunidade de praticar mais uma boa ação. Eles olham também para ela, o que a faz baixar os olhos imediatamente. E, para não lhes dar qualquer pretexto para a abordarem, retira da mala o romance que havia comprado para a viagem, e sem muito apetite apronta-se para ler o último capítulo.

Ela conta as páginas que ainda faltam. Apenas vinte e cinco. Depois as folheia para verificar a quantidade de diálogos e o tamanho dos parágrafos. Por fim ela começa a ler a partir das duas últimas páginas do capítulo anterior, a fim de retomar contato com o contexto. Há uma nova tensão no tom da autora, que escreve na primeira pessoa do singular e identifica-se completamente com sua personagem. Mas ainda é difícil decifrar a natureza dessa tensão. De qualquer modo, o cinismo e a ironia são menos contundentes agora, e as cansativas descrições da paisagem desaparecem, levando a crer que foram escritas mais por obrigação literária que por motivos psicológicos ou por serem necessárias à narrativa. Aparentemente, algo drástico está para acontecer. A autora talvez esteja preparando o suicídio da heroína. E de fato, por que não? Uma jovem vazia e inconsequente bem que seria capaz de tentar dar um fim à própria vida. Repentinamente surge uma espécie de dor por entre as linhas, exatamente nos lugares onde o texto parece hermético e minimalista. As páginas voam rapidamente, e então, sem razão aparente, estacam. Ela folheia um pouco para trás, mais perto do início do livro, por lembrar-se de que havia ali uma insinuação que poderia dar uma ideia do que iria acontecer no último capítulo. Ela sente que a autora, jovem e arrogante, prepara uma reviravolta absurda, que leitores da sua idade e com mentalidade semelhante à dela talvez acolham alegremente, mas não uma leitora sólida como Daniela, que desde já se sente revoltada. Mas ela toma um gole do café que já esfriou e, como que hipnotizada, não tira os olhos do livro. Suas teias de aranha a envolvem, indefesa, até as últimas linhas, que ela acaba lendo com a vista embaçada pelas lágrimas inesperadas que lhe inundam os olhos.

Ela fecha o livro e o faz desaparecer na bolsa externa de sua mala. Depois de tanto esforço e tantas emoções, ela se sente faminta. Na tela que informa as decolagens o atraso permanece estável. A lanchonete está cada vez mais cheia, e não há a menor esperança de que o garçom que se esfalfa entre as mesas vá prestar alguma atenção a ela, que já havia pago. Ela se lembra do quiosque de guloseimas que não fica muito longe, mas neste momento não sente vontade alguma de comer doces. Ao contrário, eles só iriam aumentar sua náusea. E se lembra então dos sanduíches que o cunhado havia lhe dado por tê-la obrigado, por receios reais ou fictícios, a desistir do café da manhã. A garrafa térmica ela havia devolvido à Sijin Kuang, mas o farnel com os sanduíches foi enfiado em sua mala. Agora ela o apanha e dá uma mordida no sanduíche de carne, enquanto seu olhar dá um passeio ao redor.

Um dos jovens religiosos assentou-se numa mesa muito próxima, estendeu sobre ela uma pequena toalha de pano, depositou ali uma garrafa de água mineral, e come um sanduíche trazido de casa. Ao perceber o sanduíche dela, dá um sorriso de cumplicidade, como se os dois compartilhassem um segredo, o que lhe permitiria chegar a ela daqui a pouco. Ele mastiga com muita delicadeza. Se soubesse de que animal era a carne que ela comia nesse momento talvez ele não teria tanta pressa em sair de sua cadeira devido ao ligeiro sinal que ela lhe fez com o dedo.

Ele não é israelense, e sim americano, e o hebraico nada perfeito em sua boca soa com uma pesada carga anglo-saxônica. Ela se dirige a ele de modo autoritário, no tom de uma professora impaciente falando com um aluno do qual ela não espera muita coisa.

“Por acaso você teria uma Bíblia por um minuto?”

“Uma Bíblia por um minuto?”, espanta-se ele, “o que a senhora quer dizer com isso?”

“O que quer dizer o que eu quero dizer?”, caçoa ela, “Se você tem uma Bíblia em sua pasta, gostaria de ler um trecho curto e devolvê-la imediatamente”.

“A Bíblia completa?”

“Sim, mas em hebraico.”

“A Bíblia completa eu não tenho. Mas talvez a senhora queira o livro dos Salmos? Os Salmos eu tenho.”

“Não os Salmos”, ela imita o sotaque do rapaz. “A Bíblia completa.”

“O que a senhora procura exatamente?”

“Qual a diferença? Você tem ou não?”

“Não tenho a Bíblia completa”, ele reconhece, desanimado.

“Então não faz mal.”

“Mas eu posso lhe dar um livro de orações, há muitos capítulos da Bíblia nele.”

“Não quero orações nem capítulos”, retruca ela, impaciente, por já ter compreendido que não será muito fácil livrar-se desse jovem, que uma sombra de barba loura já marca o rosto fino, muito espiritual, e que pretende lutar com todas as suas forças pela boa ação que lhe caiu nas mãos neste meio-dia de um aeroporto africano.

“Está bem”, reflete ele, “espere um momento e eu lhe conseguirei uma Bíblia. Ainda há tempo até o voo para Tel Aviv.”

Ele desaparece rapidamente no meio da multidão, talvez buscando a ajuda de seu colega, e dez minutos depois volta e lhe estende uma Bíblia nova, grande, que parecia ter sido comprada especialmente para ela — uma Bíblia bilíngue, em inglês e hebraico.

A versão inglesa não é a do rei James, mas o hebraico é o mesmo antiquíssimo hebraico que ela agora procura. Lembrou-se de Jeremias 42, mas encontra o que buscava no capítulo 44. Ela lê em silêncio, intensamente mobilizada, enquanto o rapaz americano, cujo rosto é quase transparente de tanta espiritualidade, fica parado ao lado dela, fascinado e tenso.

Por isso, assim disse Iahweh dos Exércitos, Deus de Israel: Eis que volto minha face contra vós para vossa desgraça, para exterminar todo Judá. Tomarei o resto de Judá que decidiu entrar na terra do Egito para ali morar: eles perecerão todos, na terra do Egito eles cairão, eles perecerão pela espada e pela fome, do menor ao maior eles morrerão pela espada e pela fome, e serão objeto de escárnio, estupefação, desprezo e opróbrio. Castigarei aqueles que se instalaram na terra do Egito, como castiguei Jerusalém: pela espada, pela fome e pela peste. Não haverá quem escape ou fuja, do resto de Judá, daqueles que entraram na terra do Egito para lá morarem. Quanto a voltar para a terra de Judá, para onde eles desejam voltar, a fim de lá habitarem, certamente não voltarão, a não ser alguns fugitivos.

Todos os homens que sabiam que suas mulheres incensavam deuses estrangeiros e todas as mulheres presentes — uma grande assembleia — (e todo o povo que habitava na terra do Egito e em Patros) responderam a Jeremias, dizendo: “A palavra que nos falaste em nome de Iahweh, nós não a queremos escutar. Porque continuaremos a fazer tudo que prometemos: oferecer incenso à rainha do Céu e fazer-lhe libações, como fazíamos, nós e nossos pais, nossos reis e nossos príncipes, nas cidades de Judá e nas ruas de Jerusalém; tínhamos, então, fartura de pão, éramos felizes e não víamos a desgraça. Mas desde que cessamos de oferecer incenso à rainha do Céu e de fazer-lhe libações, tudo nos faltou e nós perecemos pela espada e pela fome”. [Jeremias, 44, 16-18 — A Bíblia de Jerusalém]

9

Amótz já vê de longe a esposa. Mas Daniela ainda não consegue perceber o homem apertado entre os que vieram dar boas-vindas. A rotina na saída do aeroporto a faz dirigir-se ao portão da direita com os passos lentos e retos que tanto agradam ao marido, puxando atrás de si a pequena mala. Ele recua e contorna a multidão, e alguma coisa confere um novo peso a seus passos. São tão raras as ocasiões em que ela se distanciou e ele ficou, que lhe surge a ideia de postergar o reencontro, talvez para que ela se dê conta de que nem sempre ele está a seu dispor.



O interessante é que ela tampouco retarda o passo para esperá-lo, mas continua a avançar, talvez distraída, e quando ele a alcança por trás e a faz parar, como fez Morán na base militar, com suas mãos experientes, que a seguram pela cintura, uma tristeza e um cansaço penetram-lhe no corpo e na alma. Assim, ao aproximar de si a cabeça da esposa, seus lábios roçam não os lábios dela mas sua testa, como ela o havia beijado há uma semana, quando se despediram.

“É isso, então?”, ele meio pergunta, meio resume.

“É sim,” confirma ela, e seus olhos, que principiam a brilhar ao vê-lo, já se espantam, “O que houve? Foi em minha homenagem que você não fez a barba hoje?”

“Não em sua homenagem, eu simplesmente não consegui. À noite fomos brigar com os ventos na torre, e de manhã o Francisco me convocou para ver meu pai, porque ele estava com febre alta. Até o doutor Zaslansky chegar acabei adormecendo no quarto do Hilario, e depois já era hora de correr para o aeroporto.”

“E você nem tomou banho?”

“Não consigo tomar banho naquele banheiro, com tantos objetos do papai.”

“Só dormir lá você consegue.”

“Dormir e sonhar.”

“E você nem foi ao escritório hoje?”

“Hoje de manhã liberaram o Morán do confinamento, e eu o mandei ao escritório.”

“Resumindo”, ela toca com uma mão suave os fios que emergem do seu rosto, “você se divertiu bastante.”

“Se você considera isto diversão.”

“Mas justo com roupas de trabalho e com a barba por fazer você parece mais jovem e atraente.”

“Então vou ficar assim para sempre.”

“E os ventos?”

“Como eu pensava, a culpa é do poço. Deixaram nele, por acaso ou de propósito, lábios e flautas que têm o mesmo efeito de um órgão de igreja.”

“Igreja?”, ri ela, “e o que farão os moradores? Vão rezar e fazer o sinal da cruz?”

“Quem vai ter de rezar é a empresa que construiu o prédio, para que a companhia de seguros tenha piedade dela. Gottlieb e eu estamos livres, mas um momento, Daniela, preciso ligar para o Morán e avisá-lo que você já chegou. Desta vez, talvez porque tenha ficado lá no Exército sem fazer nada, ele se preocupou mais com você do que eu mesmo.”

“Mais do que você?”, pergunta ela, ligeiramente ofendida.

“Eu, depois de ouvir a sua voz e a do Yírmi em Dar es Salaam, me tranquilizei inteiramente.”

“E a saudade?”

“Não tive tempo para sentir saudade.” Ele sorri, sabe que a está ferindo, mas precisa abalar a fina camada de estranhamento pela qual ele não esperava. Apertando o botão do controle remoto, ele abre as portas do carro mas, em vez de pôr a maleta no porta-malas, ele a faz sentar-se como uma passageira a mais no assento traseiro.

“Já eu tive bastante tempo para sentir saudade”, diz ela com o rosto sério, enquanto aperta o cinto. “Saudade e raiva.”

“Raiva? Por quê?”

“Por você não ter vindo comigo.”

Ele se surpreende e não se surpreende.

“E eu pensando que era isto que você realmente queria. Um tempo sossegado só para você. Lembrar-se de coisas da infância sem interferências. Sem alguém que não fez parte.”

“Depois de trinta e sete anos de casamento”, ela resolve repentinamente encrespar-se, “já era tempo de você entender que minha irmã não é somente minha mas sua também, e que o Yírmi, que ficou entalado lá, também diz respeito a você. Você devia ter insistido em vez de deixar que eu viajasse sozinha.”

“Mas como?”, as palavras se escondem de sua língua, “se você... você que...”

“Você... Você...”, ela o imita, “sim, eu, mas eu também tenho o direito de errar às vezes, você podia ter entendido e evitado o erro.”

“Mas como eu poderia ter entendido que você estava errada”, caçoa ele, “se por trinta e sete anos você tratou de me convencer que você sempre sabe o que convém ou não nos relacionamentos com a família?”

Ela se cala. Olha-o com um olhar dolorido.

“Mas o que aconteceu? Por que você errou em viajar sozinha?”

“Depois.”

“Pelo menos os títulos dos capítulos.”

“Daqui a pouco. Primeiro você. Conte sobre os filhos, e o que aconteceu com o Morán e o Exército.”

“Ele novamente ignorou a convocação para a reserva, mas desta vez eles é que não o ignoraram. Justo o ordenança do seu batalhão, um amigo que fez com ele o curso de oficiais, cuidou para que o confinassem, e ele ainda vai ser julgado pelas ausências anteriores. No final é possível que lhe tirem a patente de oficial. É isso, Daniela, não vamos mais ter um oficial na família.”

“E você acha que é um problema?”

“Um problema, não. Apenas um pequeno vexame.”

“Eu não acho. A mim já não interessa nenhuma glória militar. Saiba que não é só a Shúli que o Yírmi chora lá, e não foi sobre ela que falamos a maior parte do tempo. Ele está cheio de dor e de fúria pela história do Eyáli, com desdobramentos e investigações sobre as quais nada sabíamos. O fogo amigo que você lhe enfiou na cabeça não o largou até hoje.”

“Eu lhe enfiei na cabeça? Eu? Mas o que é isso, você voltou em pé de guerra? Por favor, eu não lhe enfiei fogo nenhum, e nem poderia fazê-lo. Ele é que o enfiou nele mesmo. Eu simplesmente tentei apenas tornar menos duro o fogo de nossas forças com algo que, se tinha uma certa ironia...”

“Está bem, não fique nervoso. Eu talvez tenha me enganado.”

“Os seus enganos estão vindo em rajadas, não é? Eu não estou acostumado a isso. O que houve com você?”

“Chega, vamos mudar de assunto. Não tive a intenção de acusá-lo, tentei só expressar tristeza por você não ter entendido sozinho que era necessário vir comigo e me ajudar a lidar com um homem difícil e infeliz. Mas não agora. Vou tratar de me explicar melhor mais tarde. Por enquanto, diga alguma coisa sobre os netos.”

“Doçuras.”

“E a Nófer?”

“Para variar, estava bem amistosa.”

“Você manteve um pouco o contato?”

“Contato?”, ele exclama, ofendido. “Só contato? Cuidei pessoalmente de cada um. Primeiro, da Efrát, que deixei ir a uma festa na sexta-feira e fiquei de babá das crianças que berraram e choraram. No sábado eu levei os três até a base do Morán, e perambulei no meio de um aguaceiro com as crianças para dar a elas — sobre isso eu vou contar mais tarde — uma experiência interessante e muito particular. E a Nófer, estive com ela em Jerusalém não só uma vez, mas duas. E a tudo isso juntou-se meu pai, que depois que você viajou virou um leão apaixonado e me convocou para cuidar de um elevador privativo de uma antiga amante dele, uma velha impressionante de Jerusalém. Meu pai me sacudiu para cá e para lá uma porção de vezes. Não fui apenas um pai e um avô dedicado para todos, fui também um bom filho.”

“Então você realmente se divertiu”, diz ela num sorriso.

“Sim, eu me diverti demais. A vida me inundou de todas as direções, sem um minuto de descanso. Mas e lá na África, o que está acontecendo? Quando ele pretende voltar?”

“Ele não vai voltar. Ele nem pensa em voltar. A África, diz ele, lhe permite desligar-se de tudo.”

“O que significa desligar-se? E o que é ‘tudo’?”, Yaári destaca essas últimas palavras. “Existe realmente esse ‘tudo’? E, mesmo que exista, como é possível desligar-se? Pare com isso, Daniela, eu conheço o Yírmi tanto quanto você. Ele não tem alternativa, vai acabar voltando.”

10

Mas por que a oprime tanto a intensa e ofuscante urbanidade pela qual ela vai sendo aos poucos engolida? As torres imensas que se erguem altas como elefantes na grande Tel Aviv, os enormes outdoors que tão rapidamente mudam, o trânsito agressivo à direita e à esquerda, que entra e sai nos cruzamentos. Até a luxuosa maciez do assento dianteiro do grande automóvel lhe desagrada, como se ela ansiasse ainda pelo banco traseiro do trepidante Land Rover dirigido pela triste sudanesa.



Seu marido fala e ela presta atenção, mas é uma atenção não muito alerta. Como ele está acostumado por sua avidez pelos pequenos detalhes, trata de comunicar-lhe até os estados de espírito e tons de voz, o tempo que fazia na hora, os cheiros e as cores. Para provar-lhe sua competência e dedicação, ele lhe repassa a fita de tudo que fez, cumulando-a de infindáveis minúcias, não a poupando sequer do vídeo erótico que descobriu entre o Baby Mozart e o Baby Bach.

“E o que você fez com ele?”

“Guardei de volta onde estava. O que mais eu poderia fazer com um vídeo desse tipo?”

“Mas você ficou assistindo?”

“Só o início.”

“E o que havia nesse início?”

“O que você acha? Só uma mocinha um bocado espavorida.”

“Viu? Você realmente curtiu a vida enquanto eu não estava”, apega-se ela à descrição que havia feito.

“E você fez o quê?”, diverte-se ele, “curtiu a morte?”

“Eu lutei contra a morte”, diz ela, muito séria.

“O que você quer dizer com isso?”

“Primeiro termine de contar a sua parte.”

“Já terminei o principal. Mas antes vamos arrumar as coisas.”

Sua casa está fria e escura, e ela pede que ele ligue o aquecimento. Esgotada e abatida, ela não se demora na cozinha, como ele, mas sobe direto para o quarto, tira os sapatos e mergulha na cama, ainda desfeita depois de ter sido abandonada à noite passada. A coberta, beijando o assoalho, e o pijama dele, amarrotado junto ao travesseiro, fazem com que, em vez de sentir o conforto que esse lugar, o mais íntimo do mundo, poderia proporcionar, ela se sinta assoberbada pelo excesso de coisas. O tempo passado naquele quarto monástico na África lhe dá a impressão de que aqui reina o exagero. Armários e prateleiras desnecessários, cestinhas cheias de frascos de perfume vazios e caixinhas de maquiagem ressequida. Até os retratos dos membros da família nas paredes — ela e o marido, filhos e netos, e entre eles também uma foto do sobrinho morto — lhe parecem excessivos em sua quantidade.

Amótz leva para cima a mala e a deposita num canto, senta-se à beira da cama e põe-se a acariciar e massagear seus pés.

Ela fecha os olhos.

“Você não está com fome?”

“Não. A água já está quente?”

“Daqui a pouco. Liguei o aquecedor elétrico, para completar o que o solar não conseguiu fazer.”

“E faça o favor de tomar banho você também.”

“Por quê?”, ele se faz de tonto, “você mesma disse que assim, sujo e em roupas de trabalho, eu fico mais jovem e atraente.”

“Jovem, atraente, mas tome um banho.”

Ele se inclina sobre ela e beija-lhe o rosto e o pescoço, aumentando a cadência dos beijos. Ela está macia, passiva, mas quando ele estende a mão para desabotoar sua blusa na esperança de esconder o rosto entre seus seios, ela segura sua mão masculina e obstrui-lhe o movimento.

“O que aconteceu com o desejo verdadeiro?”

“Ele existe, ele vai aparecer.”

“Por que não agora? Qual o problema de ser agora?”

“Agora eu ainda não estou totalmente aqui. Espere por mim.”

Frustrado, ele continua a beijar-lhe o rosto, o pescoço, arranhando com a aspereza de seu rosto não barbeado as partes visíveis da pele da mulher. Daniela fecha os olhos de dor e o empurra.

“Ou você faz a barba ou desiste dos beijos até amanhã.”

“Só para ganhar alguns beijos não vale a pena fazer a barba”, ele diz com amargura, levanta-se e começa a dar voltas pelo quarto, inquieto.

“Mas ao menos me explique — que expedição de escavações é essa? Estão cavando o quê?”

Ela conta resumidamente sobre a expedição e seus cientistas, sobre a visita noturna ao sítio que pesquisavam, sobre a máquina de comer que não conseguiu se encaixar no processo da evolução, e também sobre o dr. Roberto Kukiriza, que lhe pediu para contrabandear ossos pré-históricos a fim de serem examinados em Abu Kabir.

“Agindo contra a lei?”

“E quanta coisa poderia afinal acontecer?”

“Onde estão?”

“Na minha bolsinha de maquiagem. Mas não há muita coisa para ver. São três ossinhos secos de um macaco pré-histórico.”

Ele insiste, e rapidamente localiza a nécessaire na maleta, retira os ossos, examina-os com o tato, com o olfato, com a visão.

“Isso é tudo?”

“Isso é tudo.”

“E se a pegassem e a pusessem na cadeia? As prisões em ditaduras primitivas são piores que os cemitérios.”

“Você acabaria encontrando uma nova mulher, melhor que eu”, ela lhe sorri, culpada.

“Existe isso?”

“Com certeza. Sempre existe algo melhor.”

Na mala aberta ele agora percebe a Bíblia bilíngue.

“E isso? Você levou uma Bíblia na viagem?”

Ela lhe conta sobre o jovem religioso americano, e por que procurou uma Bíblia hebraica no aeroporto. Ele a ouve muito espantado.

“O livro de Jeremias? Eu não entendo. O que o Yírmi queria ali? Ele é contra ou a favor do profeta?”

“Contra, totalmente contra.”

“Quer dizer, um contra si mesmo também.”

Mas ela quer mudar de assunto. A água já está quente, diz ela, tome o seu banho lá em baixo, eu vou usar o banheiro daqui. Mas diminua um pouco as luzes.

Só quando ouve o murmúrio da água no andar de baixo ela entra no banheiro para examinar a mordida no ombro. As marcas dos dentes já estão praticamente borradas, restou apenas uma meia-lua avermelhada, que pode ser explicada por qualquer coisa que lhe venha à mente, mas ainda assim não lhe parece boa ideia deixar que o marido, que conhece muito bem seu corpo, passe a investigá-lo, e ela se ensaboa muito demoradamente, até que toda a sua pele fique vermelha.

Ela veste uma camisola e entra na cama. Apanha o jornal Haáretz mas, lembrando-se dos jornais queimados, deixa-o cair ao chão.

Seu marido volta ao quarto, mas não está de pijama, veste apenas um calção curto. Ainda não se barbeou.

Ao acordar no meio da noite ela não encontra o marido a seu lado na cama, e desce até a sala. Lá está ele, assistindo a um filme na televisão.

“Mas o que houve, você ainda não foi dormir?”

“Não, dormi o dia inteiro, agora estou acordado como um capeta.”

Ele é um capeta, pensa ela, e a luz vinda da tela, no escuro, confere ao seu rosto um aspecto misterioso. Esse capeta vai acabar descobrindo, pensa ela, desanimada, e vai até a mesa de jantar, sobre a qual o castiçal de Hanukah está parado, abandonado, sem nenhuma vela. Mas como pode? A festa já terminou?

“Não”, ele responde, “hoje é o dia da última vela. Mas você adormeceu tão depressa.”

“E quantas velas se acendem hoje?”

“Oito. Oito.”

“Vamos acendê-las. Não acendi nenhuma vela lá na África.”

“No fim ele queimou mesmo as velas que você levou?”

“No fim não, no começo.” Ela apanha a caixinha de velas e se espanta, “Como é possível que tenham sobrado tantas velas? Você não acendeu nenhuma em casa? Logo você, que gosta tanto de brincar com fogo.”

“Acendi só uma vez, as três primeiras, com a Nófer. As outras acendi em outras casas, com o meu pai, com a Efrát e as crianças, no refeitório da base quando fomos visitar o Morán, e até na fábrica do Gottlieb, ontem, acenderam velas, de modo que não precisei voltar para casa e acender de novo sozinho.”

“Então vamos agora”, ela se acende subitamente. “Ainda não é tarde demais”, e espeta oito velas de várias cores no castiçal, acrescentando uma vela assistente vermelha.

“Acenda você”, ele permanece em sua poltrona, “você não acendeu nenhuma lá, então eu deixo você acender todas as oito.”

“Está bem, mas abaixe o som da televisão, desse jeito não dá para fazer as bênçãos e cantar.”

“Você quer que a gente também faça as bênçãos?”

“E por que não? Como sempre fazemos.”

“Faça você as bênçãos. Estamos na era do feminismo, você não está isenta. Hoje em dia há mulheres rabinas que usam o xale com franjas e põem filactérios.”

“Mas onde estão as bênçãos?”

“Estão impressas na caixinha.”

“Ah, muito simples e muito útil.”

Ele diminui o volume da televisão, mas deixa a tela acesa. Ela acende com um fósforo a vela assistente, compartilha sua chama com todas as outras, e lê as bênçãos à sua luz. Venha, ela comanda, vamos cantar. Ele se levanta de má vontade da poltrona. Mas, por favor, não o “Maóz Tzur”. Essa até a Nófer detesta.

“O que pode haver de tão detestável nessa música?”, ela protesta, “Você está começando a falar como o Yírmi.”

“Como o Yírmi ou diferentemente dele, eu não gosto dessa música.”

“Mas não vai lhe acontecer nada se você cantá-la junto comigo. Em dueto.”

Haifa, 2004-7


Copyright © 2006 by Abraham B. Yehoshua


Título original

Esh Yedidutít


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