Para a minha família, com amor Sumário



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SEXTA VELA

1


Ao voltar, ela toma cuidado para não acender luzes pela casa, a fim de não chamar a atenção para o avançado da hora. Mas, ao ver seu baby-sitter deitado todo encolhido sobre o sofá, vestido e calçado, ela o toca de leve. Yaári imagina por um momento que é sua mulher voltando da África, e o fim da viagem irradia alegria sobre a alma adormecida. Mas a voz da nora, que o encoroja a descalçar os sapatos e vestir a calça de moletom de Morán, devolve imediatamente a sobriedade à sua imaginação. A festa de Hanukah maximizou o brilho da nora, e ainda bem que a fina echarpe ainda paira sobre seus ombros, não sendo necessário confrontar-se no escuro com o decote da jovem mulher ainda perfumada, que se inclina sobre Yaári às duas e quinze da manhã, espantada por ele não ter se organizado melhor para dormir.

“Os seus filhos chorões me esgotaram de tal maneira que mesmo o sofá duro de vocês conseguiu me fazer dormir.”

Efrát não compreende por que um técnico experiente como ele não entendeu que era possível abrir o sofá. Ela tinha preparado um lençol e um cobertor, e também as calças limpas, então por que ele não arrumou a cama e deitou-se para dormir? Levante, levante, eu vou lhe ensinar como se abre esse sofá... É muito simples.

“Não, Efrát, deixe, eu vou voltar para casa.”

Mas o remorso pelo prazer da festa que se prolongou reforça sua recusa em aceitar que o avô se vá em plena noite, ainda mais sendo uma noite de fim de semana e de feriado, e numa hora em que tem início o vaivém dos bêbados. Morán não a perdoaria se algo acontecesse. Ela o puxa pela mão e o faz levantar-se, e com uma agilidade incomum abre ela mesma o sofá diante dele, provando que na sua casa é possível dormir com todo o conforto. Ela estica o lençol e estende o cobertor, e lhe entrega a camiseta e as calças dobradas. Não, diz seu olhar enérgico, você não é tão jovem e forte quanto pensa. Deite-se, vou fechar as persianas para que o sol não o acorde, e de manhã cuidarei para que as crianças não o incomodem.

“Por favor, Amótz”, diz ela, “faça isso por mim, espere a luz do dia.”

Ele não se lembrava dessa belezoca implorando algum dia desse modo, não a ele nem a outra pessoa. Talvez através dele esteja tentando livrar-se de alguma culpa oculta que lhe pesa na alma.

“O sol não importa”, ele murmura ao vê-la apertando o botão para baixar as persianas, “de qualquer modo eu sempre acordo antes dele.”

Mas, apesar de achar tão simples e natural voltar para casa, ele se rende à nora, que pelo visto só de madrugada se transforma numa dona de casa eficiente. Depois de se soltar da echarpe ela lhe traz um travesseiro a mais, e com os braços nus bate nele uma e outra vez, como se ele fosse a origem do pecado em sua casa, depois lhe entrega uma toalha limpa e se apressa em deixar o sogro sozinho, para lhe permitir trocar as roupas amarrotadas pelo traje de dormir de seu marido.

A despeito de as calças de moletom de seu rebento estarem recém-lavadas, ele não deseja enfiar-se nelas, até pelo receio de que lhe fiquem apertadas. Basta-lhe a camiseta. Ele suspende um pouco as persianas, para que o sol não se esqueça dele. Depois se deita de costas no largo sofá e se cobre com o cobertor.

Nunca aconteceu de ele passar uma noite inteira na casa do filho. Nos primeiros dias depois da cesariana de Nádi, quando Daniela ajudava Morán e ficava às vezes para dormir, ele voltava e dormia em casa. E agora, sem qualquer motivo, sabendo que sua cama está a uns poucos quilômetros de distância, ele aceita ficar junto dos netos, perto da nora que se organiza para dormir tomando um banho que nunca termina. Mesmo depois de a faixa iluminada sumir sob a porta fechada de seu quarto, ainda se ouve dali o som tênue mas irritante de uma melodia.

Se ele se levantasse agora e fosse embora ela não poderia impedi-lo. Mas o receio de que ela ferre num sono sem fim e de que pela manhã haverá duas crianças abandonadas dando voltas pela casa o põe novamente em pé. Ele bate à porta da nora e sussurra num tom amargo: Efrát querida, se você quer mesmo que eu fique aqui, pelo menos baixe um pouco essa música esquisita.

2

Mas o mesmo sol perdeu a chance de assistir ao despertar de sua esposa na África Oriental, pois em muito o antecipou o matraquear dos motores das duas caminhonetes, que trouxeram à base de retaguarda a expedição de cientistas para o descanso do fim de semana. Do alto de sua janela, sob um céu embriagado por tantas estrelas, ela identifica as silhuetas de alguns deles.



Eis que eles descem dos veículos, arrastando sacos e mochilas — o chefe da expedição, o tanzaniano Seloheh Abu, o arqueólogo ugandense, dr. Kukiriza, cansados, calados e pensativos, como soldados voltando de uma missão difícil ou de um treinamento especialmente puxado, e trazem inclusive uma baixa, a tunisiana Zohara al-Ukbi, doente de malária. Eles a fazem descer com cuidado usando uma maca, e logo se forma ao redor dela um círculo de respeito e de preocupação, ao qual se agregam o administrador branco e a enfermeira, que se inclinam na luz noturna sobre seu rosto atormentado, dão-lhe as boas-vindas e recebem seu consentimento em ser hospedada na enfermaria.

Um depois do outro os cientistas desaparecem na entrada do prédio rumo aos quartos no primeiro e no segundo andar, e no pátio permanecem as caixas de papelão com fósseis e pedaços de rochas aguardando datação. O velho porteiro, amigo fiel e acompanhante dedicado, leva tudo aquilo para a cozinha.

Talvez por causa do antigo poço do elevador, que nunca chegou a cumprir seu destino, infiltram-se no quarto de Daniela ecos das vozes dos cientistas, e o intenso fluxo nos canos do edifício atesta fielmente que não é sono o grande anseio dos que vieram do sítio de escavações, mas uma rápida conexão com a civilização viva.

E, apesar de ainda não serem quatro da madrugada, dando-lhe, portanto, o direito de voltar para a cama, ela sente que a presença dos membros da expedição já não lhe permitirá reparar a noite amputada. Quando os primeiros raios de luz irrompem pelos grandes vidros da cozinha, aparece a hóspede israelense de banho tomado, sorridente e maquiada à perfeição, e a recebem amavelmente os dois geólogos sul-africanos, que haviam decidido antecipar um lauto café da manhã ao banho e ao descanso. E como não se esqueceram do atento interesse da turista pelas explicações do colega Kukiriza, tampouco se lhes escapou o próprio silêncio naquela ocasião, e agora procuram fazer com que a mulher branca participe da refeição para que eles tenham a oportunidade de ampliar a compreensão dela quanto aos objetivos científicos das escavações, desta vez de uma perspectiva geológica.

“Gostaríamos de dizer-lhe”, adianta-se um deles, “que o Jeremy nos surpreendeu quando a trouxe com ele três dias atrás, e o interesse que a senhora revelou pelo trabalho da expedição nos proporcionou uma grande alegria. Está claro para nós que se tratou de um interesse motivado apenas por boa educação, mas, ainda assim, o modo como a senhora fez perguntas e prestou atenção deixou em todos nós um gosto bom, e quando soubemos que a senhora continuava por aqui, e que iríamos encontrá-la novamente, tivemos mais uma razão para nos alegrar com o nosso fim de semana. Estou exagerando?”, volta-se ele preocupado para o amigo, cujas veementes afirmativas com a cabeça acompanhavam os movimentos de sua mão que quebrava ovo após ovo e misturava neles verduras cortadas e fatias de salsicha.

“Porque nós”, continuou o primeiro, “trabalhamos em total isolamento. O sítio das nossas escavações não faz parte de nenhum roteiro turístico, e por isso não recebemos visitas, nem mesmo de africanos, a quem poderíamos explicar para onde rumamos. Os dois únicos brancos, que nos visitaram há um ano, eram emissários da unesco em Paris, técnicos em finanças que não vieram participar ou aprender, mas apenas verificar se não estávamos gastando em excesso. O nosso contato com as universidades e os institutos de pesquisa se realiza somente por escrito, e até merecermos uma resposta passa-se tanto tempo que mal nos lembramos de qual foi a pergunta. Assim, todo interesse, mesmo casual, é recebido por nós com gratidão. O seu cunhado é um homem honesto e competente, mas tem dificuldade em acompanhar as nossas intenções. Quanto mais tentamos explicar o que estamos buscando, mais se confundem para ele os tempos, e não em termos de milhares de anos, mas de milhões. O fato é que a datação é o âmago da questão, o ponto central do esforço da nossa expedição. É dele que deriva a importância das pedras e das rochas que envolvem ou aprisionam os fósseis, e é nesse ponto que se expressa a contribuição da geologia, sem a qual não seria possível nenhuma definição evolutiva que explique quem sobreviveu e por que sobreviveu, quem foi extinto e por que foi extinto, que preço pagou o sobrevivente e quem se beneficiou com a extinção.”

Daniela envia um sorriso simpático ao jovem entusiasta, para quem o inglês é quase uma língua materna. E, antes mesmo que a gigantesca omelete, a crepitar na frigideira, envolva e aprisione as verduras e a salsinha, ele se apressa em pôr sobre a mesa, como um aperitivo, uma lasca de rocha, cujo intuito é o de dar uma demonstração concreta do que foi dito em sua conferência.

Agora, à luz intensificada do dia claro, constata-se que os dois jovens são mestrandos na Universidade de Durban — Absalom Wilkazi e Sifu Sumana —; e Daniela ouve suas explanações com gratidão e paciência, na serena maturidade de uma mulher que daqui a três anos terá sessenta, mas a quem a idade não perturba, pois confia plenamente na fidelidade do marido.

3

Mesmo numa cinzenta manhã de um sábado de inverno as crianças acordam cedo. Ele percebe os passos furtivos da neta, que se aproxima do sofá para verificar se o avô não se transformou durante a noite numa subempregada. E não basta ver a conhecida cabeça descansando sobre o travesseiro: levanta um pouco o cobertor, conferindo se o corpo também lhe pertence. Ela o faz com cuidado e autocontrole, apesar da risada interior que ameaça irromper a qualquer momento, e Yaári aperta as pálpebras e vira o rosto para a parede, curioso por saber de que modo a neta lidará com seu sono. Inicialmente ela tenta puxar de leve os cabelos do avô, e quando não há resposta faz cócegas na nuca dele, e ao que parece hesita entre a vontade de acordá-lo e o receio de entrar em contato real com o corpo não familiar de um idoso. Yaári persiste em sua imobilidade, não se mexe de modo algum. Ela sussurra docemente perto do ouvido, Eu sei que você não está dormindo, vovô, mas ele, virado para a parede, teima em não reagir. Depois de breve hesitação ela trepa no sofá, pula com os pés descalços sobre o corpo do avô, e se enfia entre ele e a parede. Com a mãozinha decidida ela tenta agora abrir-lhe os olhos. Mas eu sei que você não está dormindo, justifica-se ela.



Yaári abre os olhos. Viu?, proclama ela em tom de vitória, eu sabia que você não estava dormindo. E então, sem nada dizer, com um gesto largo da mão, ele suspende o cobertor de cima de si e aninha dentro dele a neta de cinco anos, que tanto lembra a mãe. E ele fala diretamente para dentro dos olhos azuis, em que saltita o risinho, exigindo uma explicação:

“Por que você chorou de noite depois que a mamãe saiu? Você sabe muito bem que eu posso cuidar de você tão bem quanto a vovó Daniela. Então me diga: por que você chorou daquele jeito? Só para me deixar maluco?”

A menina ouve com profunda atenção, mas não parece disposta a responder. O risinho amaina um tanto, e ainda contida no abraço ela tenta evadir o olhar que busca infiltrar-se em seus pensamentos. Por ser sua primeira neta, ela sempre mereceu um tratamento de rainha. Desde os primeiros anos ela costumava entrar na cama deles, deitar-se entre ele e Daniela, e papear sobre o mundo. Mas agora, em vez de uma avó tolerante e benfazeja, há do seu outro lado apenas uma parede fria e silente, e ela parece sentir um início de medo por estar ao lado de um avô que insiste e teima em receber explicações para a grande choradeira.

“Você se lembra como você ficou segurando a cabeça, como se ela fosse cair?”

Suas pupilas encolhem um pouco no esforço por lembrar-se, e em seguida ela faz que sim muito de leve.

“E você se lembra”, persiste ele, “como você berrou metade da noite Mamãe, mamãe, onde você está? Por que você foi embora? Você se lembra?”

A menina faz que sim devagar, espantada ou assustada com esse avô que imita tanto sua voz quanto as palavras de lamentação.

“Por que você não se acalmou? O que chateava você? Por que eu não servia? Explique para mim, Neta querida, porque você sabe o quanto eu gosto de você.”

Ela o ouve com a máxima atenção, depois levanta o corpo, e com a agilidade de um animalzinho se livra do cobertor e se arremessa do sofá.

Mas ele agarra seu bracinho fino.

“E, se você gosta tanto assim da mamãe, por que você veio acordar de manhã logo a mim e não a ela?”

Agora os olhos dela se escancaram de assombro e humilhação, e Yaári percebe que suas reprimendas jocosas foram longe demais, e que a menina está prestes a prorromper num novo pranto. Por isso, antes que ela se refugie por trás da porta fechada do quarto dos pais, ele sorri para ela com indulgência e aponta para o irmãozinho que justo agora desponta do quarto das crianças, com a grande cabeça despenteada e os olhos vermelhos. Ele pisca mal-humorado para a luz e escala com naturalidade sua alta cadeira ao lado da mesa de jantar.

“Veja o seu irmãozinho querido”, ele tenta apaziguar rapidamente a menina humilhada, “assim que você acabou de chorar e adormeceu ele começou a chorar e a fazer misérias. Você se lembra, Nádi, como você fez bagunça ontem de noite?”

O menino faz que sim com a cabeça.

“Você se lembra de como chutou a porta?”

O pequeno lança um olhar para a porta.

“O que foi que a porta lhe fez para você chutá-la assim?”

Nádi tenta pensar no que a porta teria feito a ele, mas sua irmã o livra da obrigação de responder.

“Ele sempre chuta a porta assim quando a mamãe sai.”

Yaári sente uma ponta de alívio.

“Seu pé não dói quando você chuta a porta?”

Nádi examina com profunda seriedade a planta descalça do pé.

“Sim”, sussurra.

“Então, vale a pena chutar?”

O menino não tem resposta para isso, mas sobre seu rosto novamente perpassa a semelhança com aquele outro menino, agora distante.

“Então me digam, crianças”, Yaári experimenta chegar ao cerne do mistério, “é verdade que vocês choraram e fizeram tanta confusão porque vocês estão com saudade do papai que sumiu no Exército?”

Sua sugestão é aceita imediatamente por Neta, que apesar de tudo ainda tem vontade de fazer as pazes com o avô, mas Nádi franze a testa como que tentando decidir se esta era a resposta certa ou se outra, mais profunda, escondia-se atrás dela.

“Por isso, hoje, se vocês forem bonzinhos, vamos levá-los para visitar o papai no Exército, e enquanto isso vamos comer sucrilhos.”

E ele despeja os farelos dourados em duas tigelas de plástico com figuras, e derrama sobre eles o leite na quantidade que cada um indica.

4

Daniela pega o garfo e a faca e começa a comer a omelete, que as verduras e a carne tornaram muito avermelhada, examinando ao mesmo tempo a pedra basáltica preta e côncava, para a qual foi encontrado um lugar entre seu prato e a xícara de café. Esta é uma pedra significativa, pesada de tanta história, que servirá de utensílio útil para esclarecer à gentil ouvinte como é possível saber não apenas quando o Australopithecus boisiei, conhecido como “máquina de comer”, apartou-se da estrada real que leva do chimpanzé ao Homo sapiens, mas também se é verdadeira a suposição corrente de que, do ponto de vista da evolução, esse macaco se viu num beco sem saída.



Isso porque, ao encontrarmos fósseis de animais ou de seres com características humanas, um dente de siso, um osso do punho, um dedo solitário — fósseis estes que se fundiram a rochas muito antigas —, é preciso que os escavadores preservem com veneração religiosa também as características de sua ambiência, especialmente da rocha que os encapsula, pois ali serão encontrados os preciosos indícios, que só o geólogo saberá decifrar, não apenas quanto à data, elucidada através da análise da radioatividade, mas também em relação à natureza da pedra: trata-se apenas de um meio ao acaso que capturou o fragmento da criatura pré-histórica, ou seria essa uma ferramenta que escapou de sua mão? Pois, se o antiquíssimo “quebra-nozes” sabia que é possível quebrar com tal pedra as nozes que recolheu, será preciso situá-lo num degrau mais alto na escala humana. E nesse ponto os paleantropólogos dependem do olho clínico dos geólogos, e duas cabeças pensam melhor que uma. Somente os geólogos foram treinados para descobrir se uma simples pedra como esta que repousa aqui sobre a mesa, que no seu entender tem um milhão e seiscentos mil anos de idade, carrega um feto em seu interior.

“Feto?”, espanta-se Daniela a ponto de deixar cair o garfo.

“Um feto metafórico”, tranquiliza-a o outro geólogo, Sifu Sumana, que até agora manteve-se calado, dedicado que estava a comer as sobras da gigantesca omelete diretamente da frigideira.

“Quer dizer”, continua Absalom Wilkazi, “uma pedra que engoliu outra pedra, mais antiga, desgastada mais num ponto que em outros, indicando que não se trata de uma simples pedra, mas que serviu de ferramenta, era um utensílio nas mãos de algum Australopithecus boisiei, que, mesmo tendo sido excluído da cadeia evolucionária, a qual rumava para o seu destino maior, a criação do homem, teve o seu espírito preservado e continua, portanto, a existir.”

“Seu espírito?”, sussurra Daniela.

“Talvez a senhora tenha esquecido”, afirma, proclamando vitória, o geólogo sul-africano, “que há dois milhões e meio de anos a nossa África estava unida naturalmente à Ásia e à Europa. Nenhum mar ou oceano as separava. E o nosso Australopithecus boisiei, cujas pegadas procuramos — aquele grande macaco africano que perdeu as esperanças no seu futuro neste continente —, passou a pé da África para a Europa e contribuiu com os genes da ‘máquina de comer’ bulímica para a civilização que ali se desenvolveu.”

Ela examina cuidadosamente os olhos deles para ver se há ali alguma chispa de humor.

“Agora você está brincando comigo.”

“Por quê?”, pergunta o africano com toda a inocência, apesar de um sorriso travesso começar a despontar em seus olhos.

Sua juventude em plena floração, àquela luz matinal, desperta nela uma ternura. O inglês que ele fala é natural e fluente, mesmo que com os pais ele provavelmente fale em zulu ou sesoto. Sem dúvida, pensa Daniela, a extinção do apartheid valorizou esse homem negro, e agora, certo de que há esperanças para a sua identidade, ele ensaia desafiar de igual para igual a Europa empanturrada e próspera. Subitamente o coração de Daniela se contrai por Morán, detido pelo Exército, o qual não percebe que o conflito que envenena o país o desvaloriza também e abala sua identidade pessoal, e a Morán associam-se em seu pensamento Nófer e Efrát e Neta e Nadáv, e também alguns de seus ex-alunos, inclusive os mais jovens para os quais voltará ao final do feriado de Hanukah. Ela os imagina todos à sua frente, sentados na sala de aula decorada com cartazes e murais, e entre eles Daniela descobre, para o seu imenso pesar, a efígie do sobrinho, que desceu de Jerusalém até a planície costeira para exigir sua parte na lágrima que agora lhe embaça o olhar.

E Absalom Wilkazi percebe a tristeza que de repente paralisa a senhora branca, mais velha que sua mãe, e receia que ela esteja interpretando o absurdo da migração do macaco pré-histórico para a Europa como um insulto à sua inteligência. Ele se permite, então, a liberdade de pousar delicadamente a mão sobre o ombro dela, em sinal de reconciliação, como costuma fazer com a mãe, e diz, sinto muito, eu só estava brincando.

5

“Você está na nossa casa?”, espanta-se Morán quando o pai lhe telefona, “aconteceu alguma coisa?”



Num resumo profissional Yaári o deixa a par de suas atividades voluntárias de baby-sitter, e, com grande consideração, poupa o filho quanto às arruaças noturnas das crianças.

“Mas a que festa ela foi?”

“Não perguntei e ela não disse, apenas cuidei para que desta vez levasse o celular, porque eu fico nervoso quando ela anda por aí sem ele.”

“E por que você ficou até de manhã? Você dormiu e não percebeu quando a Efrát chegou, ou ela ainda não voltou?”

“Não, não, o que há com você? Que ideias são essas? Ela está em casa, mas dormindo. Voltou depois da meia-noite, mas implorou que eu não fosse para casa no escuro, e foi tão competente em abrir o sofá-cama que eu acabei me rendendo.”

“Você também se impressiona com a insistência agressiva dela?”

“Por que agressiva?”

“Não importa.”

“Por que não importa?”

“Pai, deixe isso para lá... Não interessa... Continue.”

Yaári sente o pesado desapontamento do filho com ele, com sua mulher e talvez até consigo mesmo.

“O que há com você, filho?”

Ele está cheio. Esse castigo solidário já está lhe dando nos nervos. É verdade que no início ele até gostou de ser obrigado a desligar-se do mundo, da Efrát, das crianças, do escritório e, por que não, também do pai exigente. Foi muito bom poder dormir no meio da manhã, ou antes do jantar, sem ter que apresentar contas para ninguém. Mas nas duas últimas noites toda a sua tranquilidade sumiu. Esta noite ele ficou se revirando no colchão militar fedorento, e sua cabeça ficou cheia de besteiras, como qual seria o lance para salvar a rainha branca dos cavalos pretos do maldito ordenança...

“Ah”, brinca Yaári, “aquele ruivo já alistou você para jogar xadrez também?”

“Depois que a sorte virou e eu comecei a ganhar dele no gamão.”

“Um momento, Morán, você quer dizer alguma coisa às crianças? Elas estão aqui comigo na cozinha, comendo sucrilhos e olhando para mim.”

“Não, pai, agora não, não vai dar tempo, de qualquer maneira vamos nos ver daqui a pouco. Só me faça o favor de entrar no quarto da Efrát e arrancá-la da cama, porque se ela não começar a se arrumar para vir até aqui não vai conseguir chegar. Estamos anexados a uma base de recrutas, e os horários de visita são muito rígidos. Só até a hora do almoço. Veja se a apressa, que pelo menos uma vez na vida ela saia de casa a tempo. O trânsito não vai ser fácil nas estradas, já faz algumas horas que há um dilúvio caindo por aqui.”

“Mas em Tel Aviv agora é primavera, o céu está totalmente azul. O país não é tão pequeno quanto se pensa. Veja, eu tive uma ideia: vou levar todo mundo no meu carro... vai ser mais seguro, e por vários motivos.”

“Mas você ainda vai ter paciência para todos nós depois de uma noite maldormida no sofá da sala?”

“Ora, não tem problema. Afinal, às três da manhã ele virou uma cama.”

Apesar da permissão que recebeu do filho, Yaári nem imagina entrar no quarto de Efrát, achando melhor bater à porta com força; e quando se convence de que ela já recobrou os sentidos e recuperou a consciência, ele lhe transmite, num tom de urgente seriedade, as instruções do marido.

“Ai, Amótz, vai ser ótimo se você levar todos nós.”

“E vai ser melhor ainda se você se levantar de uma vez.”

Os netos também gostam da ideia de ir com o avô no carro grande em vez de com a mãe, e recebem sem discutir as decisões de Efrát sobre o que irão vestir. Parecendo dois ursinhos, desajeitados em seus grossos casacos, aceitam de bom grado ajudar Yaári a transferir os assentos infantis de um carro para outro, e lhe ensinam como atar as correias. Enquanto isso, Efrát comprova que lhe basta querer para tornar-se eficiente e rápida mesmo pela manhã, e prepara sanduíches e legumes descascados, pães árabes com pasta de grão-de-bico, e acrescenta laranjas e alguns achocolatados. E quando ela desce carregando o grande isopor, pálida e sem maquiagem, calçando um par de tênis e vestindo um jeans desbotado e um velho casaco militar bem folgado, que quase de propósito engrossam sua silhueta e a dissimulam — Yaári tem a impressão de que a moça pretende punir-se, indo reunir-se ao marido em sua detenção.

Mesmo na manhã de um sábado de inverno a estrada litorânea está sobrecarregada, contrariando toda lógica, e não há como saber se as crianças é que impõem aos pais essa ansiedade automotiva, ou se são os pais, sentindo-se culpados em relação aos filhos, que procuram no dia de descanso divertimentos e compras. Mas à chuva vinda do norte, como Morán havia relatado, junta-se agora, na saída de Tel Aviv, uma possante ventania vinda do leste, que balança o carro e obriga Yaári a segurar o volante com as duas mãos. E como não há no carro dele fitas de música popular israelense, que poderiam atenuar nas crianças o tédio da viagem, Efrát procura diverti-los com o jogo dos contrários, e Yaári tem a impressão de que a nora aprendeu bem a teoria dos antônimos. Sem qualquer esforço ela expele rapidamente substantivos e adjetivos, acreditando piamente que cada uma das palavras fará surgir seu contrário, e que as crianças certamente o sabem.

E assim a estrada vai escorregando para o norte, por entre noite e dia, quente e frio, seco e molhado, verão e inverno, inteligente e burro, alto e baixo, teto e chão, alegre e triste, limpo e sujo, reto e torto, marido e mulher, sol e lua, porta e parede, morto e vivo. E, como Neta já treinou as respostas certas, ela as atira antes mesmo que o irmão menor tenha sequer começado a tatear em busca delas. Apesar de a mãe e o avô tentarem pôr rédeas na enxurrada de respostas, a fim de dar também ao pequeno uma chance de experimentar suas forças, a irmã não consegue frear sua ânsia pelos contrários, e Efrát aparentemente não deseja realmente lhe roubar tal prazer.

No espelho acima dele Yaári repara na crescente fúria do neto, que se pudesse libertar-se das amarras do assento que o atam ao lugar já teria descido dali para chutar com toda a força a porta do carro.

“Bem, já chega de tantos contrários”, ele ordena a Efrát e Neta, “o menino daqui a pouco vai explodir.”

Depois do cruzamento de Cesareia o tráfego aumenta. Esse é o primeiro dia de visita dos pais aos recrutados deste ano, e famílias inteiras acorrem ao acampamento para complementar as rações e outras necessidades dos recrutas. A chuva parou, afinal, mas a praça em frente ao portão da base está coalhada de poças, entre as quais foram instaladas churrasqueiras, abriram-se mesas dobráveis, depositaram-se cadeiras, e aqui e ali também foram fincadas estacas sobre as quais se estenderam lonas contra a chuva que talvez caia de novo. Entre as churrasqueiras e as caixas de isopor, que sapecam o chão de alegres manchas azuis, alaranjadas e verdes, giram israelenses de todos os tipos, veteranos e enraizados, imigrantes novos e antigos, russos e etíopes; e os recrutas em seus uniformes novinhos sentam-se em frente aos pais que os adoram, e comem diligentemente as carnes e as saladas, e os bifes caseiros, como se no último mês tivesse piorado muito a escassez de alimentos nas bases militares.

Mas onde está Morán?

Efrát e Neta ficam esperando no carro, e Yaári sai com Nádi nos braços e vai até o portão, dá voltas perto da guarita, examina o sentinela de grande estatura, espia para dentro da base, mas entre os recrutas que entram e saem pelo portão não há sinal do detido solitário, ocupado em defender sua rainha branca dos cavalos pretos. Até que, por fim, alguém o segura pelas costas, puxa o menino de seus braços e o levanta no ar.

Morán, barbado, de olhos vermelhos, está ali vestindo um velho uniforme de trabalho.

“Papai”, borboleteia Nádi no ar, em alegria infinita, “você está vivo?”

6

Yirmiyáhu, atônito, examina Daniela sentada numa poça de luz, diante da barafunda de louças e talheres produzida pelo café da manhã, a ouvir, com paciência ilimitada, o geólogo que em sua homenagem quebrou uma pedra e tenta explicar com a ajuda dos estilhaços um resumo da teoria do tempo.



“Muito bem”, elogia o cunhado, “vejo que os jovens também estão usufruindo da sua paciência. Não faz mal que você não compreenda tudo, o que importa é a atenção. Espere mais um pouco, logo logo descerão os outros colegas e darão a você um seminário. Nesse meio-tempo Sijin Kuang e eu levaremos a doente de malária para uma casa de saúde não muito longe daqui, e voltaremos à tarde.”

“Há mais uma casa de saúde por aqui?”

“Não é exatamente uma casa de saúde, é mais um sanatório.”

“Sanatório de verdade?”

“Concreto, mas não de verdade”, ele ri, “uma espécie de pensão da saúde, uma fazenda para convalescentes ou casa de repouso para quem deseja despedir-se do mundo em meio à natureza africana, por um preço acessível e sem os tormentos da civilização moderna. Não é um sanatório dos Alpes suíços, mas funciona sob o mesmo princípio.”

“Há um lugar para mim?”

“Onde?”

“Com vocês no veículo.”



“Por que não? Mas, como sempre, você terá que sentar no banco traseiro, e desta vez você terá também que se encolher, pois a doente irá a seu lado. Mas não precisa se preocupar, pois a malária não é uma doença contagiosa, não há vírus ou bactéria, apenas um parasita, e o mosquito fêmea transmissor, que inoculou o parasita no sangue de Zohara al-Ukbi — porque é sempre uma fêmea, nunca um macho —, já não se encontra neste mundo.”

“Se você acredita mesmo que eu não terei problemas, então por que não me juntar a vocês? Dentro de dois dias irei embora daqui, e seria bom que eu tivesse uma noção um pouco melhor do ambiente em que você se enfiou.”

Ela pede desculpas aos jovens pela interrupção, e secretamente espera que talvez no caminho lhe seja dado ver algum outro fascinante defeito genético. E, ao sair pela porta da cozinha, constata que a sudanesa já está a postos no automóvel. Porém, antes de tomar seu lugar no banco de trás, Daniela trata de cumprimentar a motorista, e ao notar sua triste expressão, enche-se de afeição pela animista delicada, e se inclina em sua direção e roça os lábios sobre o rosto negro. A enfermeira, surpresa com o cumprimento inesperado, pousa a mão, leve como a asa de um pássaro, sobre os cabelos juvenis da senhora, e diz, que bom que você vem conosco.

E também a jovem norte-africana, cujo sangue foi posto a ferver pelo parasita e cujos membros tremem devido a ele, alegra-se com a passageira que se espremeu a seu lado, e de dentro do cobertor que a enreda envia em sinal de amizade sua mão febril. Ahalán vasahalan, madam, é bom que a senhora também vá me acompanhar.

O Land Rover toma agora um novo rumo, para o sul, e a estrada de terra é tão agradável que o murmúrio das rodas lança um véu de sonolência sobre sua alma, apesar da hora matutina. E como não vem ao caso sondar agora a febril paleontóloga sobre a natureza de sua profissão e seu papel na estrutura científica da expedição, a passageira saudável prefere fazer companhia à doente, fechando os olhos e fervendo também ela com as carícias do sol que os acompanha.

Mas a viagem não é longa, leva menos de uma hora, e quando o veículo alcança seu destino Daniela acredita que, embora o mosquito transmissor não esteja mais entre os vivos, algum parasita preguiçoso esgueirou-se furtivamente para dentro de seu sangue e agora lhe estonteia os sentidos. Assim, quando o cunhado abre a porta traseira, suspende a jovem árabe nos braços, deposita-a com todo o cuidado sobre a maca trazida por um funcionário do local, cobre-a e os dois a transferem para o interior do prédio, surge na israelense o estranho desejo de que façam o mesmo com ela, que também a transportem numa maca, e como não há por ali ninguém capaz de adivinhar sua vontade, ela se mantém imóvel no lugar e espera o apoio da mão da motorista, cujo rosto há pouco havia beijado.

Este prédio também tem sua origem numa fazenda colonial, e por fora parece gêmeo daquele de onde vieram, mas o interior é muitíssimo diverso. Não há uma gigantesca cozinha com pias e fogões para lhes dar as boas-vindas, e sim um pequeno salão de hotel, com um balcão de recepção de madeira enegrecida que no passado pode ter sido um bar. Em semicírculo, de costas para o balcão, acocoram-se poltronas de couro preto em frente a uma grande janela, que se abre para um horizonte longínquo a ponto de, mesmo à luz violenta do sol do meio-dia, permanecer envolto em penumbra.

E o elevador, que não teve a felicidade de encontrar abrigo na fazenda da expedição científica, acopla-se aqui, com seu ruído antigo e simpático, ao gêmeo redondo do poço abandonado na fazenda. Quando a grade que lhe serve de porta se abre, surge de seu interior um médico indiano de aspecto agradável, que veio receber a doente de malária, a qual não está aqui para falecer, Deus nos livre e guarde, mas apenas para recuperar as forças. Enquanto o médico esboça as primeiras perguntas para a paciente, Yirmiyáhu chama a atenção da cunhada para o fato de os funcionários mais graduados aqui não serem africanos, e sim indianos que cruzaram aquele oceano deles. Porque os europeus, e principalmente os ingleses idosos da classe média, confiam muito na capacidade dos indianos de proporcionar um excelente tratamento, tanto físico quanto espiritual, aos que desejam um pouco de vigor e mimo antes de morrer.

Pela ampla janela vê-se também uma pequena piscina, ao redor da qual passeiam alguns animais selvagens, aos quais a instituição ajuda a viver a fim de que, com sua beleza e paciência, proporcionem consolo às consciências individuais que lentamente se apagam. Entrementes, até prepararem o quarto adequado para a doente de malária, já dão a ela de beber um caldo de galinha quente, que mantêm permanentemente no fogão, na grande cozinha repleta de garrafas de uísque e gim.

A sudanesa conversa baixinho em árabe com a paciente, e a sopa quente aquieta um pouco o seu tremor. E Yirmiyáhu, também ele afundado numa das poltronas de couro, continua dissertando sobre as especificidades da clínica aos ouvidos da cunhada, em cujo sangue o parasita soporífico permanece muitíssimo acordado.

Apesar de modesto, e de não ter tantos quartos, não cabe chamar o edifício de enfermaria, nem simplesmente de pensão. Este é um sanatório, um instituto médico, pois aqui os tratamentos são médicos, tanto físicos quanto espirituais. E, se a reputação de instituições médicas desse tipo no mundo é determinada pela beleza natural que as rodeia — cumes nevados ou lagos ocultos —, aqui também a natureza apresenta uma especialidade própria: seu primitivismo, e os animais selvagens que não temem o ser humano.

Mas o verdadeiro teste de qualidade de instituições como esta é o tipo e o nível dos tratamentos oferecidos àqueles pacientes que aqui vêm por decisão própria, e permanecem pelo tempo que julgam adequado. E que ela não se engane: esta clínica, apesar da modéstia e do isolamento, ocupa um lugar muito honroso na classificação da competência e da variedade de serviços, e sobressai inclusive por seu baixo custo. Pois quem vem até aqui? Geralmente idosos solitários nada abastados, que não podem mais contar com a paciência de parentes e amigos. Viúvos e viúvas cujos filhos se distanciaram deles, ou velhos que não foram agraciados com descendentes, ou que os perderam em circunstâncias trágicas. E principalmente são atraídas para cá indivíduos que ao longo da vida prestaram serviços a outros, e agora podem receber aqui, por um preço acessível a qualquer um, um serviço conforme à sua vontade, como por exemplo a presença de homens ou mulheres jovens, que se sentem ao lado de suas camas ao longo de toda a noite, e segurem sua mão protegendo-os de sonhos ou pesadelos; e não apenas camareiros que limpam e arrumam seus quartos, mas também alguém que cante ou dance para eles e atenda aos seus pedidos, e até mesmo uma idosa vovó que se sente a um canto e tricote para eles um cachecol, com um bebê preto engatinhando a seus pés.

À primeira vista o lugar talvez lhe pareça calmo e mesmo um tanto deserto, mas até isto é uma virtude. Resumindo, este é um lugar bastante enclausurado. Mas a meio quilômetro daqui há uma pequena aldeia, cujos moradores são, todos eles, potenciais prestadores de serviços. Homens e mulheres, rapazes e moças, e mesmo crianças, são chamados para todo serviço, de modo que o hóspede capaz e disposto a entregar seu corpo e também sua alma aos cuidados de outros receberá, aqui, um tratamento que somente príncipes e nobres podiam merecer no passado. E justamente pelo fato de os serviçais geralmente não entenderem a língua do hóspede, as fronteiras da intimidade são mais fáceis de controlar. Sim, por um preço muito baixo, mas nos padrões da região, existem aqui pessoas que se dispõem a realizar fantasias e caprichos de um serviço criativo, comparado ao qual os cuidados que o pai de Amótz recebe dos filipinos parece exíguo e entediante. E os aldeões se mostram ávidos por prestar tais serviços aos brancos, e prontificam-se a ser chamados mesmo no meio da noite. Poder-se-ia considerar que se trata de uma volta à escravidão, mas agora por livre e espontânea vontade.

“E você aceita?”

“Que mal há, se ambos os lados ficam satisfeitos?”

Ela olha com hostilidade para o homem corpulento, quase engolido pela poltrona de couro desbotado.

“E isso o satisfaz?”

“É uma possibilidade. Quando a expedição concluir o seu projeto, é possível que valha a pena vir até aqui para um tratamento... mas apenas na condição de que eles incrementem meus analgésicos.”

Uma camareira indiana chega para levar a paciente ao seu quarto, mas esta reluta em separar-se deles, e pede que Sijin Kuang a acompanhe. Os dois israelenses levantam-se, e o administrador promete a ela que dentro de dez dias voltarão para buscá-la.

“E você, madam?”, diz a moça árabe à visitante de Israel, “você ainda estará aqui quando eu estiver curada?”

“Não”, responde Daniela, “eu já não estarei na África. O meu recesso na escola termina daqui a dois dias; e talvez os meus alunos não sintam tanta saudade de mim, mas espero que o meu marido, os meus filhos e os meus netos me queiram de volta.”

“Então venha novamente à África, madam”, sussurra a jovem.

7

Neta percebe, de longe, a expressão de vitória no rosto de Nádi, que veleja por sobre as cabeças das pessoas, e ela grita, papai, papai, eu também estou aqui. Magra e ágil como é, esgueira-se por entre churrasqueiras e isopores. Morán a abraça e beija com muito amor, e, como ela também exige um lugar no ombro do pai e o irmão não admite abrir mão de sua propriedade, o detido acaba por amontoar os dois filhos às costas e vai até o carro, seguido pelo pai, enquanto as crianças puxam seus cabelos. Você vai acabar deixando cair alguma coisa, adverte-o Yaári.



Efrát está sentada no carro, falando ao celular, e não se move mesmo quando Morán faz os filhos descerem e abre a porta. Com quem você está falando agora? Com minha irmã, responde ela impaciente, sem olhar para ele. Justo agora?, pergunta ele irritado. Sim, justo agora. Você já não falou o bastante com ela?, ele insiste, enfurecido. Mas ela não responde e lhe volta as costas. E então ele arranca o celular de sua mão e diz, chega, não passe dos limites.

Para desviar dos pais a atenção das crianças, Yaári as atrai até o porta-malas do carro, propondo que o ajudem a tirar da caixa de isopor os sanduíches, os legumes descascados e as laranjas, e arrumar tudo bonitinho sobre um velho encerado. Daniela sempre tenta adivinhar os motivos dos vários atritos no casamento do filho, mas agora ela está longe, na África, e ele terá de manobrar sozinho diante do ódio que se inflama.

Certa noite, no escritório que se esvaziava, num momento de rara confissão, Morán contou-lhe que a beleza da mulher não era fonte apenas de orgulho, por vezes se tornava um peso. Sua beleza a fazia mais visível aos homens. Facilmente ela passava a fazer parte de fantasias selvagens dos passantes, e eles arrastavam com ela também o marido, para vingar-se da beleza da mulher. Por mais que ele geralmente não a vigiasse e não suspeitasse dela, às vezes achava que o brilho de Efrát afastava deles seus melhores amigos.

Mas agora ela está sentada no carro, furiosa, desfigurada pelo casaco tão grande quanto velho, que torna indistintas por completo as linhas de seu corpo. A cara azeda, sem maquiagem, exibe espinhas horrorosas aqui e ali, como se ela se enfeiasse propositalmente aos olhos do marido, afastando de si qualquer suspeita ou reclamação.

“Não, Amótz, não estou com fome”, ela rejeita o sanduíche, “coma você.”

“Eu também não estou com fome”, Morán rejeita o mesmo sanduíche, “coma você mesmo, papai.”

O uniforme de trabalho de Morán exala um cheiro de óleo de fuzil — um cheiro fundamental para o israelense, sempre acompanhado por um toque de medo, pois é o cheiro do primeiro contato com o Exército, na época do treinamento básico, que mesmo quarenta anos depois não se apaga da consciência. O que é isso?, a mão estendida de Yaári mexe nos fios pretos e densos que cobrem o rosto do filho. Aquele ruivo não o obriga a fazer a barba antes de jogar com ele? Morán se afasta da mão. Olhe para si mesmo, ele desafia o pai, você também não faz a barba de manhã. Que história é essa, a mamãe viajou e você também está tentando um aspecto mais sexy?

“Sexy?”, ofende-se Yaári.

“Sexy como o Arafat”, diz Efrát com maldade na direção do marido.

Os pequenos ainda não se saciaram do pai, e o agarram e trepam sobre ele. Mas Morán os trata agora distraidamente, sem nenhuma animação. Sua mente está voltada para a mulher, mas os dois estão calados agora, e o silêncio venenoso já mostra seus efeitos nas crianças, que começam a implicar um com o outro para fisgar alguma atenção.

Nádi se sente atraído por uma carne assando numa churrasqueira próxima, e Yaári trata de contê-lo. A balbúrdia dos israelenses à sua volta aumenta cada vez mais. Uma fumaça azulada empesteia o ar invernal. Recrutas que já se abasteceram de carne e guloseimas improvisam um minifutebol nas margens do descampado, e outros passeiam abraçados com suas jovens namoradas no perímetro permitido pelos comandantes, pais gargalham entre si sobre experiências dos tempos do serviço militar, e mães trocam telefones para poderem acompanhar juntas os eventos especiais nos meses de treinamento.

É verdade, reflete Yaári, há mágoa e ressentimento entre os dois, mas também atração, e nesse estacionamento apinhado eles não vão ter como descarregar o ressentimento para poderem se despedir apaziguados. Ele não tem a pretensão de captar corretamente a dinâmica do casal, e não pretende se aprofundar nela sem a mulher. Mas Daniela, que se crê capaz de entender as profundezas da alma humana, também comete erros. Teria ela imaginado alguma vez, por exemplo, que entre o Baby Mozart e o Baby Bach está enfiada uma fita de sexo explícito, que esses dois jovens talvez assistam para ativar o desejo, pois não confiam no desejo deles mesmos? Mas ele não contará a Daniela sobre a fita, para não deixá-la mal.

Ele estende as chaves do carro para o filho e diz, “olhe, a confusão aqui é grande, e vocês talvez queiram um pouco de tranquilidade, então peguem o carro e procurem um bar agradável nas redondezas, e eu fico por aqui tomando conta das crianças. Quando andei à noite pela base procurando por você, tive a impressão de ter visto um tanque antigo que eles vão gostar de ver. O tanque existe mesmo ou foi só a minha imaginação?”

“Não vi nenhum tanque por aqui, mas também não andei muito pela base. Se você diz que viu um tanque, ele com certeza existe. Você, papai, nunca tem fantasias.”

E ele pega as chaves. Efrát hesita, mas Morán insiste, sim, é verdade, precisamos de um pouco de paz.

O menino se entusiasma com a ideia de escalar um tanque de verdade, mas a menina não quer se separar do pai. Nós não vamos demorar, promete Morán, e vamos trazer alguma coisa para vocês melhor do que os pepinos e cenouras que a mamãe descascou. E começa a devolver os mantimentos ao isopor.

Yaári agarra com força as mãos dos netos e com muito cuidado atravessa com eles a estrada. As crianças precisam ir ao banheiro, é urgente, diz ele com ar alarmado ao sentinela no portão, e continua a andar com eles, resoluto. O dia dos pais afrouxou as rédeas da disciplina na base, e muitos recrutas andam por ali sem a boina e sem arma, e alguns deles até trocaram os coturnos militares por sapatos civis. Algumas mães mais ágeis conseguiram infiltrar-se para dentro da base a fim de examinar as condições de moradia dos filhos. Há por aqui um monumento com um tanque antigo?, pergunta Yaári a quem quer que encontre pelo caminho, mas ninguém lhe dá uma resposta clara. Ele insiste, ainda assim. Eles chegam ao outro lado da base. Atrás dos eucaliptos veem-se as casas da velha cidadezinha ao lado. Uma gota de chuva cai em sua cabeça, e ele olha para cima. As nuvens realmente se apertam uma contra a outra, mas ainda há faixas azuis no céu. Num instante, porém, grossas gotas começam a desabar, e eles entram rapidamente numa grande barraca ali ao lado para se abrigar.

É uma barraca repleta de catres cuidadosamente arrumados, sob a guarda de um soldado etíope vestindo uma farda leve e estendido num deles, e o fuzil entre suas pernas dança ao som de uma música que não é possível identificar.

Yaári pede licença para abrigar-se até que a chuva passe, e Nádi imediatamente se aproxima do sentinela, e sem medo algum, aliás, com profunda reverência, passa a acariciar o manípulo da arma.

“Você não foi encontrar os seus pais?”

O recruta explica que está sozinho em Israel, porque seu pai faleceu logo depois de chegarem ao país e sua mãe, que pretendia vir um pouco depois, casou-se de novo e permaneceu em Adis Abeba.

Yaári quer saber se ele sente saudades da África.

Minha mãe e a África, conta o soldado, se tornaram uma coisa só, e ele não consegue separar uma da outra.

8

Sijin Kuang demora-se para voltar à recepção da clínica. O brilho feroz do sol do meio-dia, que se derrama janela adentro, já quase adormece os dois parentes afundados dentro do couro desbotado das poltronas que lembram um casal de hipopótamos. Atrás do balcão da recepção está um africano. À frente do monitor de um computador obsoleto, ele digita alguma coisa. Daniela se admira ao notar que já faz um bom tempo que não chega à recepção nenhum paciente ou funcionário. Somente as batidas do teclado se fazem ouvir no grande silêncio. Yirmiyáhu fecha os olhos e cochila, e Daniela pode agora examinar de perto o rosto dele, para descobrir o que mudou nesse homem que ela conhece há tanto tempo. É a primeira vez que você vem aqui?, ela pergunta quando por um momento ele abre os olhos muito vermelhos, e fica claro que já veio algumas vezes, quando trouxe para cá escavadores que não conseguiam superar a malária. E eles se curaram? É impossível saber, o contato com eles se perdeu, porque pessoas de suas tribos vieram rapidamente tirá-los daqui e enviaram outros operários em seu lugar. A unesco não fornece seguro-saúde para os escavadores.



Ele boceja e se espreguiça, leva a mão à testa e diz, acho que eu também estou com um pouco de febre. Ela põe uma das mãos no crânio exposto e a outra em sua própria testa e diz, acho que a febre está mais em mim que em você. Mas, diga-me, por que não se vê ninguém por aqui, nem paciente nem funcionário? Yirmiyáhu dá de ombros, não tem o que dizer. Talvez estejam dormindo, talvez comendo. Você acha, continua ela a perguntar, que por aqui existe alguma lanchonete onde é possível encontrar algo doce?

Um sorriso irônico se acende no olhar do homem.

“Não, Daniela”, e boceja de leve mais uma vez, “não acredito que haja alguma lanchonete por aqui.”

“Você tem certeza, ou apenas não acredita?”

“Tenho certeza de que não acredito.”

O elevador range baixinho e começa a subir, e quando volta a descer traz consigo a nobre motorista sudanesa, que não convida os viajantes a iniciarem a viagem de volta, mas pede ao homem branco que suba com ela e a ajude a acalmar Zohara al-Ukbi, que se recusa a permanecer na clínica. No trajeto até o quarto eles passaram pelos aposentos de doentes terminais, e a moça árabe se apavorou e exigiu que a levassem de volta com eles.

Yirmiyáhu suspira, levanta-se e vai atrás da enfermeira, e Daniela, estimando que a manobra de persuasão não será muito rápida, aproxima-se do funcionário da recepção para perguntar se ele por acaso teria alguma bala ou um doce, pois ela sente a boca um pouco amarga. O africano se desculpa por não ter nada para oferecer à mulher branca, nada que desfaça sua amargura. Ela observa os papéis ao lado do computador e pergunta se não haveria ali algo para ler, alguma revista sobre a região, talvez algo com fotografias, mas pelo visto a instituição não precisa de relações públicas, e os papéis acumulados não passam de relatórios sobre doenças e tratamentos, que são digitados para que o disco de memória os armazene para as gerações futuras. No entanto, o funcionário tem a impressão de que um dos doentes que faleceu aqui deixou um livro em inglês que talvez interesse à visitante. Pode ser que seja um livro de orações, ele subirá imediatamente para procurá-lo.

Não é exatamente por um livro de orações que a alma da visitante entediada ansiava — mas, se é em inglês, ela lhe dará a chance de interessá-la.

Entrementes ela trata de melhorar sua posição, e para isso faz girar o hipopótamo recém-liberado por Yirmiyáhu e o acopla ao seu, descalça os sapatos, desfaz-se também das meias e afunda as plantas dos pés na aspereza do couro desbotado do herbívoro à sua frente. Ela cerra os olhos e deixa que o sol do meio-dia a acaricie através da janela destituída de cortinas. As batidas do teclado cessam, e ela ouve o ruído de papéis e de uma gaveta sendo fechada, e de uma cadeira sendo arrastada. Agora, totalmente só, embala-a uma agradável sonolência, como no carro com o marido à noite, em viagens interurbanas, quando ele aumenta a velocidade. E quando o murmúrio do elevador invade o lusco-fusco de sua consciência, ela se decepciona com a volta rápida do cunhado, que talvez a arranque do conforto que ela havia se proporcionado e a convoque para a viagem de volta. Mas a voz que pigarreia agora num inglês castiço e com um sotaque perfeito não é a de Yirmiyáhu nem a do funcionário da recepção. E como que de dentro de um sonho, aproxima-se dela um homem de idade vestindo um roupão de banho branco sobre o corpo nu, e ele lhe estende as mãos de modo cordial, e para o seu espanto trata-se do inglês idoso, seu vizinho no voo de Nairóbi a Morogoro, que havia se pavoneado diante dela de ser o dono de uma pequena fazenda, e agora se revela que é apenas um dos pacientes. Ficara sabendo ainda agora que uma senhora branca havia chegado da base dos que estavam desenterrando o macaco pré-histórico, e ele imediatamente adivinhou de quem se tratava, e desceu bem rápido para dizer-lhe, com total franqueza e sem nenhum constrangimento, que ele não se esqueceu do breve encontro no avião.

9

Mas vovô, a chuva já acabou, diz Neta, puxando os dedos de Yaári, mergulhado na conversa com o soldado solitário sobre as paisagens africanas. O soldado descreve, muito contente, as paisagens de sua infância, e tanto o alegra a conversa com esse homem mais velho que ele se dispõe a desmontar o manípulo do fuzil para o menino fascinado e explicar-lhe ao vivo, com uma bala viva, como o percussor atinge a espoleta que incendeia a pólvora dentro do cartucho, enviando o projétil de chumbo para o alvo. Bum, bum, a gente mata e depois dá um beijo, resume Nádi com grande satisfação o processo do tiro. Depois que manuseou com a mãozinha a bala do fuzil e revirou-a de todos os lados, ele a faz sumir com ardilosa delicadeza num dos bolsos de seu espesso casaco. Mas Yaári agilmente a liberta do “pequeno assassino”. Sim, precisamos ir, já é tarde, e ele volta a agarrar as mãozinhas dos dois com grande firmeza, mas antes que comecem a sair ele não se esquece de verificar com o recruta solitário se há realmente aqui na base um monumento com um tanque antigo.



E sim, Morán tinha razão. Ele não é de ver coisas, nem de dia nem de noite. Atrás do barracão do comando puseram um tanque sírio da Guerra do Yom Kipur, como uma homenagem aos heróis de outrora. O recruta etíope sai da barraca e explica o caminho até lá, e depois, numa espécie de paixão repentina, agacha-se e beija as crianças. Nádi pendura-se nele com afeição, mas Neta leva um grande susto. Venham, crianças, vamos ver esse tanque, diz Yaári para consternação da menina, a quem o passeio militar já encheu as medidas, e como em sua sintonia fina havia pressentido a grande tensão entre os pais, seu grande desejo era o de voltar para eles. Mas o espírito masculino de Nádi agrada a Yaári, e ele pretende satisfazer ainda mais a curiosidade militar do menino, e assim, ao se verem diante do velho tanque soviético, cuja pintura de camuflagem imitava a cor negra do basalto do planalto do Golã, ele atende ao pedido do neto para levantá-lo até o alto da torre.

“Só um momento, Neta querida, só vamos espiar o que há dentro desse tanque, e já vamos voltar para o papai e a mamãe. Você não quer ver o que tem aqui dentro?”

Mas Neta, parada, pequena e tensa, ao lado das esteiras enferrujadas, não quer nem tocar no tanque sírio, que mesmo depois de mais de trinta anos ainda parece assustador. Também o céu cada vez mais nublado e escuro aumenta o desconforto da menina. Mas Yaári não desiste: levanta o entusiasmado pequerrucho até o degrau do tanque e ele próprio se junta ao neto, e de lá, com cuidado, num grande esforço, escala com o menino até a torre desengonçada, cuja escotilha, para o seu contentamento, podia ser levantada.

Dentro do tanque está escuro. Yaári serviu na infantaria e não se familiarizou com o interior dos tanques, mas um rápido exame o leva a crer que o Exército soviético não se preocupava muito com o conforto individual, apenas com a espessura do aço que o defendia. No interior era possível distinguir a cor verde-oliva dos volantes, e dois grandes cartuchos de bronze do canhão. Num dos cantos havia algo parecido com a farda em frangalhos do tanquista que morreu há mais de trinta anos. Nádi quer muito descer lá para dentro e tocar nos volantes, mas Yaári se recusa a deixá-lo baixar, pois talvez tenha problemas em fazê-lo subir de volta. Por isso, como uma troca, ele o vira e, num movimento oposto ao do parto, enfia sua grande cabeça pela abertura enquanto segura com força o corpo do lado de fora. Mais, mais, vovô, implora o menino, cuja cabeça flutua na obscuridade do tanque, tem um homem que morreu ali. Não, acabou, diz Yaári, que se arrepia com a imaginação selvagem do neto, você já viu bastante, agora vamos embora depressa antes que o oficial venha gritar com a gente. Não é verdade, o pequeno endurece o corpo, não tem oficial, você só tá falando besteira.

Yaári já havia notado que esse menino às vezes se dirige em linguagem depreciativa ao pai e à mãe, mas até agora havia cuidado de sua língua quando se tratava do avô. Por isso ele puxa sua cabeça de dentro do tanque de modo enérgico, e desce com ele rapidamente ao chão. Acabou, Nádi, você já viu bastante. Além disso, para os seus amigos no jardim de infância você pode dizer que estão falando besteira, mas não para o seu avô que tanto gosta de você. O menino se cala, abaixa a cabeça, em seguida contrai os lábios e olha para o rosto do avô de modo hostil. Neta já está à beira do choro, puxa-lhe a mão impaciente, e o céu começa também a derramar seus pingos. Se ela começar a berrar agora, o irmão lhe fará companhia num instante, e não vai ser muito honroso devolver aos pais duas crianças aos prantos.

Assim, antes que irrompa o grande berreiro, é preciso correr de volta ao portão da base. Mas primeiro ele põe em suas cabeças os capuzes dos casacos, e cobre sua própria cabeça, para alegria dos netos, com um papel quadriculado que encontrou no bolso, onde havia o esboço de um elevador de canto.

Ao chegarem ao portão Yaári descobre, para seu grande assombro, que o selvagem encontro com o mundo civil já havia sido completamente apagado da consciência dos recrutas, como se por um passe de mágica. A praça está deserta, todos os automóveis desapareceram e não restaram sequer papéis espalhados ou garrafas vazias de água mineral. Nem mesmo o carro que emprestou ao filho está lá, e só agora ele se lembra de que deixou lá dentro, ligado no viva-voz, seu celular.

Um relâmpago esverdeado rasga os céus, e em sua esteira arrebentam-se um trovão e outro mais. As crianças, aterrorizadas, grudam-se ao seu corpo, e o papel quadriculado desfaz-se em sua cabeça. Sem pensar duas vezes no que poderia entortar em suas costas, ele suspende os dois netos com os braços e corre e os devolve ao chão na guarita do sentinela, um soldado alto em farda de combate, que os examina com olhar severo. Desta vez não se trata de um simpático etíope, mas de um recruta russo que fecha a cara para os três civis que vieram pedir asilo. Seria solitário também este soldado, sua mãe teria ficado na Rússia? Yaári não tenta falar ao soldado taciturno, basta-lhe a cesta de palha posta a um canto.

“Mamãe, mamãe, cadê você; papai, papai, cadê você”, esguicha a cantilena de Neta, que agora não é um queixume hostil e desafiador, mas um lamento delicado, que faz tremer o coração com seu justo temor. Yaári iça a neta para junto de si, ajeitando de encontro ao peito o corpo incomparavelmente mais leve que o do irmão menor. E agora a lamentação penetra-lhe diretamente nos ossos — mamãe, mamãe, cadê você, papai, papai, cadê você —, como de costume, ela se apega à sua fórmula fixa mas cabal. Quanto mais Yaári procura acalmá-la, mais fortemente sente o pânico que escorre da menina para ele. O fato é que não haveria qualquer razão para que seu carro novo enguiçasse, restando apenas a possibilidade de um acidente.

Na guarita encharcada, ao lado do russo alto que expulsa ferozmente a mãozinha que tateia em direção à sua submetralhadora, o cérebro pragmático do engenheiro de elevadores não descansa. E já perpassam sua imaginação soluções para cada uma das situações possíveis, desde um simples furo num pneu até um automóvel esmagado e partido em dois. Raios, repreende ele a si mesmo, raios, homem, você está aqui com duas crianças que dependem de você, não pode se permitir dar sinais de desespero. E mesmo que novamente Daniela não esteja a seu lado na hora da má notícia, você não vai escapar para a África ou para outro continente. Vai usar sua lucidez, seu pragmatismo e sua responsabilidade e recolher para si todo esse vulcão gerador de caos.

Às horríveis imagens da catástrofe amalgama-se a crueza das soluções práticas. Como ele irá exigir que Daniela desincumba-se do magistério para dedicar-se aos netos; como alugará o apartamento de Morán, e a que preço; como o advogado do seu escritório examinará as apólices de seguro de vida; quem tocará o processo para fixar as indenizações. E ele já assinala para si mesmo quem será o arquiteto que saberá projetar em sua casa toda uma nova ala para as crianças, e de que modo convencerá Nófer a aceitar a guarda deles depois que ele e Daniela deixarem este mundo.

Um vento frio sopra em seus cabelos molhados, seus joelhos tremem, o terror da realidade o tortura, e as soluções precisas que lhe ocorreram não conseguem tranquilizá-lo. O olhar do soldado russo não desgruda da mãozinha gorducha que, com infinita delicadeza, não para de acariciar o ar nas proximidades da submetralhadora fixada em seu apoio bípede. E a cantilena quase inaudível continua a serrar o silêncio.

“Mamãe, mamãe, cadê você; papai, papai, cadê você.”

“Eles já estão chegando, Neta. Você vai ver, eu prometo, eles não podem ter esquecido da gente.”

E de fato, poucos minutos depois surge um brilho de faróis e um som de buzina, e Morán, que acabou descobrindo onde sua família foi parar, atravessa rapidamente a estrada, entra na guarita e se atira sobre os filhos, resgatando os três para o interior aquecido do automóvel.

“Desculpe, papai, não calculamos o tempo muito bem, e só depois que voltamos para o carro é que vimos o seu celular dentro dele e percebemos que você não tinha como se comunicar.”

As cabeças de Morán e Efrát estão molhadas, e o grande casacão da nora está manchado de lama e folhas rasgadas. Yaári olha fixamente para a jovem mulher sentada no banco dianteiro ao lado do marido, evadindo-se agora de seu olhar, evitando até mesmo tocar nos filhos que se sentaram ao lado dele no banco traseiro, como se sua alma atormentada ainda não estivesse pronta para eles.

“Vovô fez eu entrar dentro do tanque”, anuncia Nádi em tom festivo.

“Muito bem, Nádi”, exclama o pai, admirado, “viu que vovô legal eu fiz nascer para você?”

As duas crianças riem.

“Não é nada disso, você não fez o vovô nascer, ele não estava na sua barriga”, interfere Neta.

“A vovó Daniela é que fez o vovô nascer”, gargalha Nádi.

Morán os abraça e beija suas cabeças. E os olhos de Efrát, cujo matiz azul-amarelado, desértico, é realçado pela obscuridade que deriva das nuvens, também se compadecem dos filhos, e ela lhes estende uma mão carinhosa.

Eles já se reconciliaram, estala em Yaári a certeza ao ver a alegria esfuziante do detido. Realmente, por que perder tempo num bar e desperdiçar com lamúrias e queixumes o pouco tempo de que dispõem, se é possível deitar-se no colo da natureza, na chuva e no frio desse inverno, e curar o relacionamento machucado com um rápido acasalamento? Vai ser necessário lembrar-se bem desta festa de Hanukah — um sorriso esvoaça no interior do dono do carro, que ainda está se aquecendo no banco traseiro entre as duas cadeirinhas das crianças —, talvez resulte dela um terceiro neto. Sim, a luz já volta a florir no rosto de Efrát, e o olhar tranquilo que ela pendura no marido não está apenas limpo de toda ofensa, mas há nele uma expressão de gratidão para com o homem que sabe distinguir entre o que importa ou não num intervalo fugaz, e consegue identificar, sob o casacão militar desengonçado da mulher, o ardente anelo de sua carne.

Na verdade, por que não? A tragédia, já sabemos, nos espera à distância de um passo, e por que se esmurrar com a pessoa amada quando se pode ter prazer com ela? Dentro de dois dias Daniela voltará da África, e ele sabe que ela procurará, como sempre, ainda na primeira noite, saber o que se passou com o marido em cada um dos dias e em cada uma das horas. E, apesar de ela não gostar de vê-lo levantando hipóteses eróticas sobre seus filhos, desta vez ele fará questão de contar-lhe como ficou esperando com os netos no portão da base, exposto a raios e trovões, enquanto o filho e a nora faziam amor pelos campos. Sim, desta vez ele não lhe ocultará nada. E assim sendo, pensando melhor, ele também não irá poupá-la da fita de vídeo azul escondida entre o Baby Mozart e o Baby Bach, para que a mulher não tropece nela por acaso, como aconteceu a ele. Mas, de fato, por que não deixá-la tropeçar? Daqui a três anos ela terá sessenta, e já é adulta o bastante para entender que há no mundo impulsos mais selvagens do que ela imagina. Pois foi ela mesma que, antes de sumir atrás do portão de saída no aeroporto, fez menção ao “desejo verdadeiro”.

10

Não a esqueceu?, ri Daniela, espantada, afastando um pouco com a sola descalça a poltrona à sua frente. Por quê? Qual o motivo? Pois eles mal trocaram umas poucas frases no final da viagem.



“É verdade”, diz o velho inglês, recolhendo com um movimento elegante as abas do roupão de banho que vestia, sentando-se com cuidado na poltrona desocupada. Eles trocaram apenas algumas frases, mas ele se lembra de cada palavra e lamenta não ter iniciado a conversa logo no começo da viagem, porque assim teria ouvido mais sobre a irmã falecida e sobre o soldado morto pelo fogo amigo dos colegas, e principalmente sobre ela mesma, quem é ela e de que sorri permanentemente com tanta serenidade. Mas como na maior parte do voo ela preferiu olhar a paisagem pela janela, como se quisesse deliberadamente evitá-lo, teria sido indelicado perturbá-la. E a paisagem era realmente tão interessante, ou ela imaginava que ele não estaria sóbrio o bastante para conversar?

“Tanto uma coisa quanto outra.”

Mas a senhora acredita que um bebedor veterano como ele poderia ficar bêbado numa viagem de menos de uma hora? Quantas doses teria servido a aeromoça? Duas? Três?

“Pelo menos cinco”, ela sorri para o inglês arroxeado de cabelos brancos, sentado nu à sua frente, envolto num roupão de banho e encarando-a com um olhar admirador.

Cinco? É verdade? Ela contou? Ainda assim, ele não desceu bêbado do avião.

“Não havia como saber, porque muito rapidamente chegaram dois auxiliares e o levaram embora numa cadeira de rodas. Agora me ocorre que os dois vieram desta sua fazenda. Mas o que importa é que agora você está totalmente sóbrio, e conseguirá se desculpar...”

Pedir desculpas a uma mulher bonita é um prazer muito especial... Mas, por favor, por qual motivo?

“Por ter me dado o cartão de visitas desta fazenda dizendo que era sua, quando na verdade aqui você é apenas um paciente.”

Você tem razão, ri o inglês de modo cordial, ele é apenas um paciente, mas um paciente veterano, paciente frequente, que regressa para cá todo ano e se interna por vontade própria, de modo que é possível considerá-lo um pouco como acionista. Mas, se ela exige uma retratação, ele a apresenta imediatamente. Sim, ele lamenta tê-la levado ao engano. Lamenta muito. Mas não há palavras mais fáceis de saírem da boca de um inglês do que estas. Desde o momento em que viu como ela manteve uma fleuma aristocrática ao retardarem sua entrada no avião, ele interessou-se vivamente por ela, e mais ainda durante a rápida conversa que mantiveram ao final do voo. E apesar de que as chances de voltarem a se encontrar fossem muitíssimo remotas, pois ela havia dito que a visita ao cunhado seria curta, ocorreu-lhe plantar uma pequena isca, como o caçador que busca laçar um animal raro. E apesar de tudo funcionou, pois aí está ela.

Daniela enrubesce um pouco, mas sorri com indulgência.

“Você se engana. Eu não sabia que você estaria aqui. Não percebi que este lugar é a fazenda indicada no seu cartão de visitas. Eu simplesmente vim fazer companhia ao meu cunhado, que trouxe para cá uma moça da expedição antropológica que está com malária. Mas de fato eu não o esqueci. Sou professora já faz muitos anos, e treinei-me a guardar na memória os meus alunos, e também pessoas que encontro ao acaso se beneficiam disso gratuitamente. E quando o meu marido não está comigo, exigindo para si toda a minha atenção, uma pessoa original como você pode realmente ficar gravada na memória.”

Ficar gravado na memória de uma lady como ela é um mérito muito grande.

“Se você quiser chamar a isso de mérito...”, ela tenta arrefecer o entusiasmo do britânico de roupão, que agora já lhe parece um tanto justo, como o de um velho tarado. “Mas, por outro lado, o que você faz aqui? Tenho a impressão de que você não está tão doente.”

É verdade, ele ainda não está realmente doente, mas algum dia ficará, e tem planos de encerrar seus dias com dignidade. Sendo solteiro e não tendo filhos, com a aposentadoria do governo e uma pequena pensão, ele não tem na Inglaterra nenhuma possibilidade de receber um tratamento digno. Nas instituições municipais para idosos, as velhas inglesas infernizam a vida de solteiros como ele.

“Em que você trabalhou?”

Nos últimos anos, trabalhou na empresa de ferrovias britânica, mas sua carreira principal realizou-se no Exército de Sua Majestade. Era jovem demais para participar da Guerra Mundial, mas quando se alistou, logo depois, pediu para ser enviado aos lugares onde ainda havia esperanças de entrar em ação, ou seja, para as colônias na Ásia e na África. Contudo, quando a Índia e a Palestina lhes escaparam das mãos, as outras colônias também começaram a exigir independência, e ao chegar à patente de major a Grã-Bretanha já não possuía nenhuma colônia que pudesse ser governada com honra e dignidade, sem demasiado terror. Aos cinquenta anos, se é que ela seria capaz de imaginar tal coisa, tornou-se maquinista de locomotivas na empresa de ferrovias, e quinze anos atrás, ao se aposentar, decidiu voltar à África Oriental não mais como colonizador, mas como paciente.

“E você escolheu justo a África de todos os lugares onde serviu?”

Sim, entre todos os povos do Império de antigamente ele prefere ser tratado pelos africanos. Eles são mais sinceros e honestos que os paquistaneses e os birmaneses, e quando tratam do seu corpo não tentam roubar a sua alma, como os indianos. São modestos e não costumam suspeitar, como os árabes, por exemplo, que alguma doença europeia irá destruí-los. São pessoas introvertidas, e cuidam de você sem falar demais, como os veterinários tratam os animais.

É verdade que a paisagem desta região é menos impressionante que a de outros lugares, mas ele acha que o espaço aberto da monótona pradaria semiárida possibilita despedir-se da vida com menos pesar e mais esperanças.

“Esperanças de quê?”

De não estar perdendo muita coisa com a morte. Essa esperança permite encarar a morte com serenidade, como um animal.

“É desse modo que você se avalia? Em relação aos animais?”

Não os subestime.

“Com certeza não. Três anos atrás, quando a minha irmã ainda vivia e o meu cunhado ainda era oficialmente o representante plenipotenciário, viemos, o meu marido e eu, para uma visita de alguns dias, e fomos os quatro visitar as reservas naturais, e foi muito interessante observar o modo como eles se administravam.”

Essas reservas são muito turísticas, a ponto de até os animais passarem a se adequar ao olhar humano. Mas aqui a história é bem outra. Aqui eles estão no seio de uma natureza autêntica, numa região que outrora era um grande lago salgado, e se ela pudesse passar a noite aqui assistiria um espetáculo assombroso. Perto da meia-noite reúnem-se animais de todos os tipos, dezenas de animais pequenos e grandes, que vêm de todos os cantos da savana para lamber o sal depositado no fundo do lago que secou. E eles o fazem em silêncio e de modo solidário, não perturbam e não ameaçam uns aos outros, cada qual lambe a porção de sal de que precisa e vai embora. Só por essa razão valeria a pena passar a noite aqui.

Ela dá de ombros. Na África ela está em poder do cunhado, é ele quem cuida da sua agenda. Mas, se no fundo desse lago seco houvesse a sedimentação de algo doce, ela própria desceria até lá para lamber. E não esperaria até a noite, iria agora mesmo, no meio dessa tarde amarela.

Você iria?, o velho inglês surpreende-se com a avidez por doces dessa mulher que até agora lhe parecia inteiramente ajuizada. Mas infelizmente ele nada tem para oferecer. Os pacientes são proibidos de manter alimentos próprios em seus quartos. Mas talvez o licor que ele tem guardado, produzido naquela região, possa ser considerado alguma coisa doce.

Daniela se dispõe de bom grado a degustar uma bebida alcoólica doce, e ao mesmo tempo dar uma olhada em seu quarto, porque a partir do pequeno hall onde está sentada há mais de uma hora não é possível fazer alguma ideia de como é realmente esse lugar e do que afinal se faz ali.

Mas, para a sua enorme surpresa, o homem recusa com veemência a possibilidade de ela subir ao seu quarto. Não, seu quarto não pode ser visto por outras pessoas, mesmo porque é terminantemente proibido levar aos quartos visitantes que não estejam psicologicamente preparados para a visita. Se ela fizer o favor de esperar um pouco, ele trará o licor até aqui.

E novamente Daniela está só. Dentro de quarenta e oito horas ela já estará no ar, e a África irá dissolver-se em lembranças. Em Israel hoje é shabat e, se Morán ainda estiver detido, ela acredita que Amótz vai facilitar a vida de Efrát e levar Neta e Nádi ao parquinho. Repentinamente alguma coisa encolhe dentro dela, e o contato de suas mãos com o couro preto da poltrona lhe provoca repulsa. Ela calça os sapatos e vai até a janela. De fato parece haver uma extensão branca reluzente que talvez seja o fundo do lago. Deve ser um magnífico espetáculo a vista dos animais que se aglomeram à luz da lua para lamber o sal necessário à sua sobrevivência. Mas para ela esse espetáculo já está perdido. Ela nunca mais voltará à África. Mesmo que Amótz queira viajar, há outros lugares no mundo. E se Yirmiyáhu teimar em encerrar aqui seu tempo de vida, que cuide ele mesmo da remessa de suas cinzas a Israel, se quiser ser enterrado ao lado da esposa.

O elevador começa a andar, para e volta a mover-se. Não é possível saber se está subindo ou descendo. Mas eis que ele chega, e de seu interior sai o funcionário da recepção, que não encontrou nada doce para ela, mas trouxe, a seu pedido, o livro em inglês: a Bíblia Sagrada — o Velho e o Novo Testamento num único volume.

Tantos anos se passaram desde a última vez que ela folheou uma Bíblia. Nos eventos da escola geralmente são recitados trechos escolhidos dos profetas, em geral por meninas, mas ela nem se lembra mais em que lugar da estante de casa está posta a Bíblia. E justamente aqui, numa remota planície da Tanzânia, alguém entrega em suas mãos esse livro que ela conhece desde a infância, ao qual se juntaram com total naturalidade evangelhos e epístolas que jamais havia lido.

Antes mesmo que o funcionário sente para retomar sua missão histórica, ela verifica se ele sabe por que seu cunhado e a enfermeira sudanesa tanto demoram, e este lhe explica que a paciente com malária continua entrincheirada em sua recusa em ficar.

Talvez seja melhor que eu suba para tentar convencê-la, sugere Daniela, e se dirige ao elevador. Mas o funcionário da recepção empertiga-se apavorado e corre para cortar-lhe o caminho. Visitantes que não estejam preparados não podem subir.

Então aqui há realmente algo que teme ser visto, conclui ela sentindo-se perturbada. Arrasta uma cadeira simples e a dispõe ao lado da janela. Jamais lhe aconteceu de ler a Bíblia em outra língua que não o hebraico. Não há no livro indicação quanto ao tradutor e ao ano da tradução, mas pela linguagem elevada ela acredita tratar-se da tradução antiquada do rei James. E já numa primeira olhada ela se defronta com palavras como aloex e myrrh, de cujo sentido em hebraico ela não faz a menor ideia.

Daniela abre por acaso em 2 Samuel e lê sobre Amnon adoentado que convida Tamar ao seu quarto para lhe preparar dois bolos — a couple of cakes, segundo a tradução, e ela acha a prosa do livro clara e atraente. A métrica inglesa dos poemas de Jeremias [Yirmiyáhu em hebraico] lhe parece nobre e bela, e ela sente um prazer especial ao testar seu vocabulário da língua inglesa. E agora ela testará seus conhecimentos com os discursos dos amigos de Jó perante o homem que amaldiçoou o dia em que nasceu, e saberá se em inglês eles conseguem explicar melhor os desacertos do mundo do que no difícil hebraico de sua infância.

O paciente inglês toca de leve em seu ombro. Agora de camisa e paletó, ele pisca o olho para ela à maneira dos malandros e exibe, triunfante, a garrafa com o conteúdo dourado. O que você encontrou?, ele diz à sua nova amiga, e ela mostra o livro, perguntando de modo desafiador de qual dos dois ele gosta mais, do Velho ou do Novo Testamento. Ele se admira. Em dois meses fará oitenta anos, e ninguém jamais lhe havia perguntando isso. Nem mesmo seu padre. O cristianismo havia nos ensinado que a Bíblia é um organismo cujas partes complementam-se umas às outras e derivam umas das outras — como acontece nas peças de Shakespeare, em que o rei Lear complementa e reforça o desvario de Hamlet, e o grande amor de Julieta por Romeu reencarna na devoção de lady Macbeth por seu marido assassino.

Sua resposta a surpreende como a resposta brilhante de um aluno do qual nada mais se esperava. O oficial colonial, exultante com a impressão causada por suas palavras, oferece-lhe um cálice e verte algumas gotas como prova, e, como não passam de gotas, é possível apenas lambê-las, e seu gosto é estranho e totalmente desconhecido, mas sem dúvida é doce. Ela lhe devolve o cálice e diz, estou pronta, sir, vamos beber.

Bem devagar ela dá conta de dois cálices, e depois de ligeira hesitação pede um terceiro, mas o inglês, que não previa tamanho entusiasmo, sugere adiarem o terceiro para mais tarde. O efeito assassino do álcool local é sentido só mais tarde, ele a adverte, e seria melhor esperar um pouco. E apanha o livro delicadamente de suas mãos, como para renovar um velho relacionamento.

Nesse momento aparece Yirmiyáhu sem Sijin Kuang, e pasma ao ver que mesmo num lugar ermo e despovoado como este a cunhada foi capaz de fisgar um admirador inglês idoso, que se apresenta e oferece um cálice para selar a amizade.

Mas Yirmiyáhu, que parece perturbado, recusa a bebida. Eles devem voltar à estrada. Sijin Kuang ficará aqui esta noite, para ajudar a doente a adaptar-se ao lugar, e é ele que vai dirigir. E, apesar de a distância não ser longa, é melhor que ele preserve a lucidez.

“Não consigo entender”, irrompe Daniela, dirigindo-se ao cunhado em inglês, “o que há aqui de tão difícil que exige adaptação? Algum tipo de espetáculo estranho que exija preparação mental? É algo que se refere aos cuidadores ou aos que estão sendo cuidados? Mesmo a mim, uma mulher adulta, impedem de subir como se eu fosse uma menina.”

O inglês sorri, põe uma mão amiga em seu ombro e diz, fique tranquila, cara Daniela. Ele a chama pelo nome próprio, como um amigo muito próximo. Há aqui um número grande demais de jovens, rapazes e moças, e não é boa ideia, nem inteligente, deixá-los na berlinda.

Yirmiyáhu permanece calado, e quando vê que a cunhada, ainda à espera de uma explicação, demora a levantar-se, ele a toma pela mão, como fazia com a irmã dela, e com toda a intimidade levanta-a da cadeira. Venha. Mas Daniela apodera-se de volta do livro que estava nas mãos do inglês e o aperta contra o peito.

“Que livro é esse?”

“Pedi ao funcionário da recepção alguma coisa para ler, e ele encontrou para mim — adivinhe só — a Bíblia em inglês, com o Novo Testamento.”

“E daí? Você pode deixá-lo em cima da mesa.”

“Não, quero ler algumas coisas no tempo que ainda me resta aqui. O que se vê em inglês não se vê em hebraico. Por enquanto ele não fará falta a ninguém por aqui. E você poderá devolvê-lo quando vier buscar a sua paciente. Na condição de você não queimá-lo também.”

Os olhos dele faíscam.

“Por que não queimá-lo? Por que a fonte de todos os problemas tem mais imunidade que os jornais? Foi com esse livro que começaram todas as confusões e maldições. Justo esse é preciso destruir.”

O rosto de Daniela abre-se, o sorriso iluminado não desaparece.

“Mas este é em inglês, não em hebraico.”

Yirmiyáhu olha afetuosamente para a cunhada.

“Se está em inglês, vamos dar-lhe um indulto.”

11

“Isto é Israel”, declara Morán, estendendo as chaves ao pai. “Raios e trovões e tumulto, e um segundo depois aparece o sol e acalma tudo. Pena que a natureza aqui não é cruel para forçar os habitantes a brigar com ela, em vez de se meterem uns com os outros. Isso é inverno?”, insiste ele em acrescentar adornos ao discurso, talvez para diminuir um pouco a gravidade do atraso que deixou o pai e os filhos expostos aos raios e trovões que mencionou. “Em termos mundiais, isso aqui não passa de um outono bem suave.”



Os dois estão agora parados fora do automóvel, e no instante em que Morán se inclina para firmar as crianças nas cadeirinhas aparece como que por mágica o ruivo, que andava atrás de seu detido. Espantado com a beleza da esposa de Morán, anuncia: “Sou obrigado a confiscar o seu marido”, e ri para a mulher que o olha com um ligeiro desprezo. “Acredite, eu podia enviá-lo a Samaria, como guarda num bloqueio de estrada ou como caçador de homens, mas tive pena e preferi mantê-lo aqui para melhorar a sua cabeça, porque eu sou um sujeito que não desiste mesmo daqueles que parecem casos perdidos.” E ele sugere a Yaári tornar a viagem de volta um pouco menos monótona, pegando a estrada Trans-Israel. Você não vai se arrepender. A estrada começa aqui perto, e apesar de ser um pouco mais longa, e o ruivo até foi contra sua construção, pelos danos causados à paisagem, apesar disso é uma estrada calma e rápida, e seria infantil continuar a boicotá-la.

Yaári gostou da ideia. Há muito tempo ele não passa por ali, e não conhece o trecho mais recente. Mas Morán ainda não consegue se despedir da mulher e dos filhos, e na última hora se lembra de tocar no assunto do escritório. Vá cuidar heroicamente da sua rainha branca, ele o interrompe e o apressa a voltar à detenção, nenhum elevador vai fugir de você.

No cruzamento de Iron eles deslizam suavemente para a autoestrada, e depois que as câmeras confirmaram com um breve apito que se trata de um carro disposto a pagar pelo direito de andar ali, o avô aumenta a velocidade nesse magnífico trajeto que serpenteia ao longo do coração de Israel. Efrát já havia ocultado dentro da mala o casacão militar desengonçado, que serviu de leito para os seus amores, e agora ela está ao lado do sogro vestindo um leve suéter cor turquesa, que combina maravilhosamente com a cor de seus olhos, folheando com muito capricho um guia de estradas que encontrou no porta-luvas — não tanto porque seu interesse pela geografia do país seja grande, mas aparentemente para fugir ao olhar curioso do motorista, formalmente um membro da família, mas na verdade um completo estranho.

As crianças são colhidas por um sono profundo. O passeio pela base militar, e mais ainda o terror durante a espera pelos pais, dissolvem-se agora no calor dentro do carro e ao murmúrio das rodas na estrada. A menina é a primeira a deixar tombar a cabeça sobre a lateral do assento, e estende uma das mãos para a frente, como se pedisse clemência, parecendo uma santa da Igreja num gesto de súplica, enquanto Nádi pelo visto ainda luta contra o fantasma do soldado sírio morto dentro do velho tanque, até que o sono também faz pender sua cabeça.

Yaári sorri ao ver à sua frente os netos sentados lá atrás. Sabe, diz ele para a nora, ontem, quando fiquei com as crianças, tive a impressão de ter encontrado traços de uma semelhança nova — entre Nádi e Daniela.

“Daniela?”, e Efrát vira a cabeça para trás e olha rapidamente para o filho.

“Talvez não a própria Daniela”, ele recua um pouco, “mas através da Daniela chegando à Shúli e ao Eyál quando era pequeno. Você, obviamente, não poderia perceber essa semelhança, mas eu lembro do Eyáli quando tinha a idade do Nádi, e ontem à noite, veja só, quando você estava na festa e o Nádi começou a chorar e a criar confusão surgiram, de repente, os traços semelhantes.”

Efrát olha novamente para trás. A possível semelhança com o primo a emociona, mas também confunde. Por um momento ela hesita quanto ao que dizer, mas finalmente toma coragem e conta para o sogro algo que nem seu marido sabe. Quando estava no quinto mês, e já tinha certeza de que nasceria um menino e não uma menina, ela tomou uma iniciativa sem consultar Morán. Escreveu a Yirmiyáhu e a Shúli pedindo permissão para dar ao bebê o nome de Eyáli. Mas eles recusaram. Foram muito amáveis, até afetuosos, mas recusaram terminantemente. Ela acreditava estar fazendo um gesto de consolo, mas aparentemente aumentou ainda mais a dor.

Seu rosto pálido enrubesce intensamente pela aflição de ter revelado ao pai o que foi oculto ao filho. Yaári, a fim de confortá-la, tira uma das mãos do volante e a pousa sobre o ombro da moça, não muito longe de onde se esconde a pequena tatuagem. Bonito o seu gesto de oferecer o nome, e bonito o fato de você entender. Apesar de que eu, no lugar deles... mas ele não prossegue, e nem mesmo completa em pensamento o que tentou dizer.

O movimento na estrada é pequeno, e, apesar da velocidade, reinam aqui a gentileza e a serenidade. Dos dois lados da larga estrada surgem dois postos de gasolina idênticos, aos quais se juntaram lanchonetes e um variado comércio. Ele volta o olhar para Efrát, para ver se lhe ocorre comprar algo para as crianças, que não comeram nem beberam nada desde o café da manhã. Mas ela também deixou cair a cabeça para trás, como o filho, e seus olhos estão cerrados, como se a pequena confissão a houvesse esgotado. Estaria ela realmente dormindo, ou apenas fechou os olhos para evitar o contato? E um pouco antes, em meio à natureza, teria ela se permitido gritar de alegria, ou apenas deixou escapar o som de um leve murmúrio? Ele nada diz, só diminui o ar quente e aumenta um pouco mais a velocidade.

A nora, como a esposa, entrega-se com total confiança em suas mãos de motorista, e se entrincheira nas profundezas do sono. Ele tem, então, a oportunidade de examinar minuciosamente e bem de perto os componentes de sua beleza. Mas com os olhos fechados a luminosidade deles não brilha e, na ausência da covinha na bochecha, o rosto de madona se mostra um tanto flácido, e os ossos da face parecem pontudos e excessivos. Para alegrar a vista resta apenas o alvo pescoço de cisne, do qual pende um fino cordão de ouro. Seria então sua beleza um aspecto muito frágil e superficial, que na ausência da personalidade intensa fica pendurada por um fio?

Quanto mais viajam para o sul, o céu fica mais azul e o ar se torna mais límpido. Yaári presta atenção às placas da estrada, principalmente àquelas indicando os povoados à esquerda. Somente quando se está no coração do país é que se percebe o quanto os povoados árabes são enraizados e sólidos, pequenas aldeias que se tornaram densas cidadezinhas, dentro das quais se podem ver os altos minaretes das novas mesquitas. E quando, de súbito, começa a fluir à esquerda da estrada um muro de proteção não muito alto, ele retira com muito cuidado o guia das mãos da bela adormecida e o folheia para ver se tinha razão. Sim, eis aí Tulkarem, inimiga veterana e obstinada, mas também bucólica.

A sonolência dos passageiros, pairando no interior do automóvel, ameaça inspirar também o motorista, ainda mais que este dormiu em cama estranha a noite passada. Ele então liga o rádio, cuidando para que toque uma música bem suave. Efrát abre os olhos por um momento e volta a fechá-los. Se a música irritante da noite passada não lhe perturbou o sono, por que haveria de fazê-lo uma melodia delicada durante o dia?

A paisagem ao longo da Trans-Israel é trivial. Manadas de tratores cortaram colinas, apagaram campos, desenterraram modestos bosques e endireitaram o que estava torto, a fim de facilitar o tráfego, livrando-o de altos e baixos significativos e de curvas capazes de surpreender. Mas o sol, que já se inclina para o oeste, indeniza pela conveniente praticidade da estrada. Uma luz dourada de inverno incendeia as bordas das nuvens.

Mas Yaári sente que a música não proporciona o estado de alerta indicado para a alta velocidade que a estrada permite. Assim, apesar de a saída para Tel Aviv no cruzamento de Késsem não estar longe, ele retira o celular do viva-voz e liga para Nófer. Para a sua surpresa, a voz dela emana claramente um tom suave e amigo.

“Mamãe já está em casa?”

“Não, você esqueceu que ela volta só na segunda-feira?”

“Não consegui entender o que ela faz na África sozinha por um tempo tão longo.”

“Do que você está falando, Nófer, não se passaram nem cinco dias.”

“Cinco dias? Só isso? Então por que você está falando com essa voz de fantasma?”

“Porque estou falando com você de dentro de um carro que mais parece um dormitório. Efrát e as crianças estão dormindo à minha volta. Hoje foi o dia das famílias na base do seu irmão detido, então fomos lá visitá-lo, e agora estamos voltando para casa pela Trans-Israel.”

“Então eu tenho uma ideia. Se vocês já estão nessa via expressa, por que não continuam e dão um pulo em Jerusalém e vêm me encontrar? Estou de plantão hoje, e eu também mereço um diazinho de família.”

“Ir a Jerusalém? Agora?”

“Me contaram que você foi me procurar ontem onde eu moro, então você poderá me ver hoje aqui no Shaarêi Tzédek. Vamos lá, papai, não seja preguiçoso, essa estrada o levará sozinha até aqui. Em menos de quarenta minutos vocês estarão no hospital. Estou com saudade das crianças. Deixe-me falar com a Efrát, eu vou convencê-la.”

“Eu já disse, a Efrát está dormindo.”

“Então não a acorde. Quando ela acordar e perguntar para onde você a trouxe, diga-lhe que a Nófer também existe neste mundo. E não me diga que você tem medo dela, como a mamãe.”

“Chega, Nófer. Chega de besteira.”

Efrát continua a expiar seus pecados enquanto sonha, de modo que ele nem precisa pedir seu consentimento para desviar do caminho original. Jerusalém não está longe e, apesar de no inverno a noite chegar mais cedo, ainda haverá tempo para voltarem a Tel Aviv.

Assim, por ordem da filha, ele sequestra a nora e os netos e os arrasta como prisioneiros semi-inconscientes para Jerusalém. As emoções e os confrontos e os amores e os terrores das últimas vinte e quatro horas exauriram todos eles a tal ponto que nem percebem a mudança no som do motor do automóvel, que abandonou o terreno plano e agora trata de subir a serra. Mas, quando param no primeiro sinal de trânsito, abrem-se os olhos do menino, depois os olhos da menina, e por fim rebrilham os olhos de Efrát. Vocês dormiram como se estivessem mortos, ele diz, mas não revela para onde os trouxe, deixando que a nora recobre sozinha sua consciência do mundo. Estranhamente, Efrát não identifica muito rápido a cidade onde estão, e só quando começam a subir rumo ao monte Herzl é que ela vira o rosto em sua direção com um olhar espantado, como se ainda borboleteasse dentro dela uma última migalha de sonho. E, antes mesmo que ela pergunte, ele confirma que sim, Jerusalém. Nófer implorou para ver as crianças, mas você dormia e eu não pude perguntar se concordava.

Um sorriso irônico incendeia seu olhar.

“Jerusalém. Por que não?”

No portão do hospital Shaarêi Tzédek, Nófer os espera vestindo um avental branco, seus cabelos compridos apanhados num coque, à moda antiga. Ela fica entusiasmadíssima em ver os sobrinhos, e os cobre de beijos e abraços, e como sempre carrega Nádi nos braços como se fosse um bebê que ainda não sabe andar. E quando eles chegam à grande lanchonete e a encontram fechada a sete chaves, Nófer diz, como foi que acabei esquecendo que eles fecham tudo aqui por causa do shabat, mas Yaári apressa-se até o carro e volta claudicando sob o peso do grande isopor. Logo fica claro que, cavando um pouco lá dentro, é possível descobrir os grandes tesouros que Efrát teve a argúcia de estocar pela manhã. Eles encontram um lugar perto de uma grande janela. As crianças comem com um pragmatismo muito compenetrado os pães árabes recheados de pasta de grão-de-bico, e Efrát aquece as mãos numa caneca de café retirado de uma grande térmica. Nófer se satisfaz com um pepino descascado, e Yaári agora se atira com muito gosto sobre o sanduíche que pela manhã foi humilhado por várias rodadas de “não, coma você”. E enquanto come ele tenta, sem muito êxito, fazer os netos contarem sobre a excursão militar. À maioria de suas perguntas didáticas ele acaba respondendo sozinho, e ganha apenas um hã hã um tanto frouxo quando ao final pergunta: Não é? E então Nófer pede licença à cunhada para “mostrar ao pai uma coisa” em seu novo setor de trabalho.

No caminho até o setor de traumas ela o equipa com uma bata verde e o ajuda a vesti-la, e depois de receber licença para entrar conduz o pai até um quarto separado, imerso em penumbra, muito aquecido, onde há apenas um leito. Yaári encontra, ali, um rapaz seminu, ligado por uma vasta fiação e por vários tubos a diversos equipamentos e bolsas de infusão. O crânio está todo coberto de branco, e em seu centro arde um par de olhos. Nófer aproxima-se dele e o chama em voz alta pelo nome, e o jovem vira a cabeça em sua direção bem devagar. Aqui está, Nófer aponta festivamente. Este é o meu pai, ele veio se deslumbrar com a sua ressurreição.

Numa enxurrada de termos médicos, ela tece para o pai a história de um jovem operário que caiu de um andaime e foi trazido para cá já morto, mas apesar de tudo o fizeram voltar a viver. Não é verdade?, ela desafia bruscamente o paciente, atado à descrição de seu ressuscitamento. Bem que você tentou sair voando do mundo, mas nós aqui não deixamos, não foi? No meio do voo nós o pegamos. E o jovem, cujos olhos grudavam na moça que o provocava com grande afeição, move ligeiramente o crânio enfaixado, mas para Nófer não basta a confirmação. Seus olhos se emocionam intensamente, e ela continua sua doce reprimenda. Diga, é bonito tentar fugir assim sem pedir licença? E de dentro do crânio branco luzem uns olhos que a dor fez afundar nas órbitas, e uma voz quebrada libera um uivo agudo como o de um pequeno animal. Mas Nófer não o larga e, como se não estivesse deitado ali um ser humano ainda pendurado entre o céu e a terra, ela continua a falar com ele no tom de uma educadora veterana: Você precisa viver! Você não nasceu para fugir da gente assim no meio da vida!

E arruma o lençol que cobre o jovem, cola um beijo em seus olhos, endireita o tubo da urina e sinaliza de leve ao visitante para saírem do quarto.

No hall de entrada, Nádi e Neta empurram juntos uma rota cadeira de rodas, e ao mesmo tempo bebem um achocolatado em garrafinhas plásticas. Efrát, que já serviu para si uma segunda caneca de café, maquia metodicamente o rosto de frente para a paisagem agora quase cinzenta da cidade que se vê pela janela.

“Amótz”, diz ela num tom enérgico, enquanto ele despe a bata e a devolve a Nófer, “já que você me trouxe a Jerusalém com as suas artimanhas, pelo menos vamos aproveitar o fato de que já estamos aqui para conhecer a amante do seu pai.”

“Amante?”, espanta-se ele enormemente, “e por que afinal ela lhe interessa tanto?”

“E por que não?”, responde ela friamente, “eu preciso entender por que se trai na sua família.”

12

Yirmiyáhu dá a partida mas acaba afogando o motor, e agora precisa esperar um ou dois minutos até que o carburador se livre da inundação de combustível. Sijin Kuang é tão ávida por dominar o veículo e galopar por aí que eu já perdi a sensibilidade para esse motor, desculpa-se ele com a cunhada sentada a seu lado. Ela tem boas intuições, mas acredite que também comete erros.



“Você sabe voltar daqui?”, averigua Daniela, um pouco preocupada.

“Teoricamente não há nenhum problema.”

“E não teoricamente?”

“Não se preocupe. Quantas vezes já viemos da fazenda até aqui? Trinta, quarenta quilômetros, e por uma estrada bem simples. E se além do mais você está segurando o Velho Testamento, reforçado inclusive pelo Novo, não há com o que se preocupar.”

O motor se rebela novamente, mas Yirmiyáhu não desiste e acaba por subjugá-lo, e depois de tossir e pigarrear ele finalmente reencontra sua verdadeira identidade, saindo então para a estrada de terra batida. Yirmiyáhu estende a cabeça para a frente, a fim de melhor estudar o caminho, e inclusive pede à cunhada para não distraí-lo com seu falatório até que cheguem ao primeiro cruzamento, de onde pegarão a direção correta. Daniela dá de ombros, um pouquinho ofendida, e põe-se a passear pelas páginas da Bíblia. Alguns minutos depois eles chegam a uma bifurcação inesperada, e o motorista pede à cunhada que confirme seu palpite: Você se lembra? Não é este o caminho certo? Daniela se admira: Você pergunta a mim? Eu sou capaz de me perder em Tel Aviv, e você quer que eu assuma responsabilidades aqui na África? Por favor, decida você.

Ele decide. Opta pelo caminho à esquerda, logo começa a identificar objetos conhecidos desde a viagem pela manhã, e por fim se acalma e recupera o bom humor. Começa a cantarolar algo e acelera. Lança um olhar para a cunhada cujo rosto, em tão pouco tempo na África, já começou a ganhar um colorido.

“Alguma vez você deu aulas de Bíblia na sua carreira?”

Sim, vários anos antes ela substituiu um professor que ficou doente, e por uma semana leu com a classe a história de José e seus irmãos. E foi até bem fácil.

“José e seus irmãos? Uma linda história sobre uma família inteira que veio se estabelecer na África nas pegadas do irmão administrador. Os textos no Gênesis são histórias condensadas, sobre as quais é possível amontoar interpretações de todos os ângulos. Falam de uma família que ainda não se tornou um povo, e nessa família a grande obsessão dos patriarcas é a de amealhar tantos descendentes quanto possível, para ter quem cuide de seus rebanhos, mas descobrem para o seu desgosto que casaram com mulheres com grande dificuldade para ter filhos. Certa vez a Shúli e eu fomos a uma cerimônia em memória do pai de uns amigos, e em vez de falarem do pai falecido trouxeram para a cerimônia um conferencista, um poeta ou escritor, que narrou novamente o sacrifício de Isaac, e a mim ficou claro que sempre é possível encontrar novos ângulos mesmo no texto mais batido. O tal conferencista tratou de descrever o episódio do ponto de vista de quem ficou lá embaixo, os garotos que Abraão deixou no sopé da montanha tomando conta do seu burro.”

Já são quase três horas da tarde, e um vento novo atravessa a planície, poluindo o ar. Os raios do sol explodem contra as manchas deixadas no para-brisa por insetos mortos.

“É preciso limpar esse vidro de vez em quando”, observa Daniela.

“Eu também percebi”, o cunhado ignora o comentário, “que todos esses simpósios sobre o texto bíblico em geral tratam de temas fáceis e populares. Esaú e Jacó, o Cântico dos Cânticos, a filha de Jefté, Samuel e Saul, Davi e Absalão, o amor de Jacó por Raquel, Caim e Abel, Sansão e Dalila. Todos tentam pegar os atalhos mais fáceis para fugir da questão realmente difícil, os textos violentos sobre as loucuras dos profetas.”

“Dos profetas? Não me lembro de ter lido os profetas depois das minhas provas finais.”

“Eu também, até que o Eyáli foi morto. Mas então comecei a lê-los novamente, um depois do outro, e de repente percebi a profunda maldição incutida por eles nos genes desse povo.”

“Depois que o Eyáli morreu você também foi ler os profetas?”

“Foi um período não muito longo, mas foi intenso. Tudo começou com o vice-diretor-geral do Ministério do Exterior, um homem religioso e culto, que se ofereceu com muita delicadeza para organizar na nossa casa o quorum necessário para as rezas durante os sete dias de luto. E, como ele era o meu superior, e eu sabia que precisaria dele se pleiteasse algum posto no exterior, achei melhor não recusar. E na verdade eu não me importei muito. Como o shabat caiu no meio dos sete dias, restaram apenas quatro dias de reza. E ele, por sua vez, aceitou não me pressionar para que eu pusesse os filactérios. Pensei comigo: Por que não? Vocês ficaram num hotel em Jerusalém, e o Amótz teve contato com esse homem quando vinha rezar conosco.”

“Ele não se chamava Michaeli, ou Rafaeli?”

“Rafaeli. Exatamente. É espantoso como você se lembra de nomes sem nenhuma importância.”

“Devo isso ao magistério. Às reuniões de professores onde se avaliam às vezes alunos cujos rostos eu nunca vi. O Amótz na verdade teve uma boa impressão desse homem.”

“Sim, com certeza, era um homem de valor. E mesmo depois dos sete dias ele tentou continuar me orientando em termos religiosos, mas com muito tato, sem pressionar, e principalmente sem aquelas baboseiras sentimentais. Só agora você vai começar o seu verdadeiro luto, disse-me ele, então me permita sugerir alguns textos que você não conhece, talvez você encontre neles alguma inspiração.

“Recebi dele principalmente cópias de artigos de periódicos religiosos contemporâneos, e até discutimos alguns, mas bem depressa percebi que esse material não tinha nada a ver comigo. A ponte entre o pretenso crente e o descrente é frágil e insegura. Eu lhe disse então que achava melhor começar a ler um pouco a Bíblia, e depois poderíamos continuar adiante.

“E assim comecei a ler a Bíblia desde o início. O livro do Gênesis é muito interessante. Patriarcas, matriarcas, filhos e suas esposas, irmãos e irmãs, brigas e ciúmes. Mas não me pareceu que os patriarcas se interessavam realmente por seus filhos, exceto Jacó e José, que você mencionou. Quando não tentavam degolá-los, mandavam-nos embora de casa, ou simplesmente não ligavam mais para eles.

“Depois li um pouco os outros livros do Pentateuco. Ali já começam os conflitos e os atritos entre Moisés e a horda que saiu do Egito com saudade da carne com alho e cebola, e em vez disso recebe uma religião muito bem temperada. Os coitados devem ter percebido o que os esperava, e começaram a se rebelar contra essa religião cósmica, uma religião agressiva e exigente que se abateu sobre um pequeno povo. É interessante que esse Rafaeli, por mais religioso que fosse, me revelou que existe uma teoria bem ousada segundo a qual Moisés não morreu de morte natural, e sim que os hebreus o assassinaram. Então, tive vontade de dizer, é uma pena que eles não tenham se antecipado em trinta ou quarenta anos. Mas não falei nada. Em favor dos livros do Pentateuco se pode dizer que a sua prosa é límpida, sem truques, sem firulas. Não há ali as falcatruas de duplo sentido como nos profetas. É verdade que há maldições e reprimendas, mas ao menos elas ficam concentradas num só lugar, e as esperanças e os consolos em outro. Há alguma ordem no mundo.

“Depois li algo de Josué, e principalmente dos Juízes. Como são divertidas aquelas pequenas guerras, explodindo o tempo todo em todos os lugares da terra de Israel, exatamente como agora. E em sua homenagem surgem de repente de alguma aldeia perdida os juízes populares. Aod, Gedeão, Débora, Jefté, Sansão, travam curtas batalhas e desaparecem. Uma verdadeira rotatividade democrática.”

O veículo chega a uma nova bifurcação e estaca. O que é isso?, o motorista interrompe o fluxo de sua palestra. De onde surgiu essa nova encruzilhada? E leva a mão à testa tentando enxergar na direção do horizonte.

“Você não pode ver nada com esse vidro imundo”, diz Daniela, e pede ao motorista um pano e um pouco de água. Ele retira de debaixo de seu assento um pano imundo e entrega-lhe também um cantil militar, e ela molha o vidro e passa a esfregar as carcaças dos insetos. Enquanto isso ele anda um pouco no caminho à esquerda para ver se encontra as marcas dos pneus do Land Rover feitas no trajeto da manhã, e depois examina também o caminho da direita.

“Se errarmos o caminho, tente se lembrar de que foi aqui que o erro começou”, avisa ele, e dirige o veículo para a esquerda, por acreditar que essa é a direção certa. Sijin Kuang estava tão ocupada em seu esforço para que a moça árabe ficasse na clínica que se esqueceu de dar instruções detalhadas para a volta dos judeus.

“Então”, sorri ela ironicamente, “fico contente por você ainda se ver como judeu.”

“Mas estou me descascando disso. Dentro de um tempo eu serei um muzongu para os judeus.”

Daniela o olha com um daqueles seus olhares radiantes, cujo fulgor lhe garante de saída a confiança das pessoas. Por muitos anos ela se acostumou a ouvir calmamente as ideias originais, por vezes infantis, desse homem à sua frente. Mas os pensamentos que ele veio formulando nos últimos tempos ultrapassaram todos os limites. Daniela tem certeza de que se, mesmo na sua idade, ele encontrasse uma nova companheira, até a Shúli ficaria satisfeita.

“Yírmi, olhe bem, você tem certeza que está no caminho certo?”

“Não tenho certeza, mas acredito. Apesar dessas duas enormes árvores que se enredam uma na outra, que eu não me lembro de ter visto de manhã.”

“E eu acho que vi sim.”

“Então, irmãzinha”, ele dá uma palmada alegre no volante, “estamos no caminho certo, e por enquanto você não tem escolha a não ser ouvir um resumo do que eu penso sobre os profetas, e você entenderá por que certos trechos de poesia, que deveriam provocar admiração, fizeram ferver o meu sangue. Gente como nós, leigos preguiçosos, que geralmente põe num pedestal os valores dos profetas, na verdade não os lê. Recorda um belo versículo, um trecho ao qual deram uma melodia, espadas transformadas em arados. Atacamos os ortodoxos com base na moral dos profetas, falamos sobre justiça universal, sobre coragem e não conformismo, sem examinar qual a finalidade dessa coragem e aonde leva esse não conformismo. Porque, quando examinamos, descobrimos que tudo aquilo volta ao mesmo lugar, e que tudo gira em torno do mesmo ponto. A quem pertence essa justiça? Em qual autoridade ela se apoia? Será mesmo uma justiça universal, ou apenas uma justiça do Deus de Israel, parte de um contrato fechado de lealdade? Descobre-se que essa justiça está atrelada à lealdade entre o povo e seu Deus, e que aquela ira não se refere realmente à viúva e ao órfão, mas à traição contra Deus, que não passa de uma espécie de marido louco, com ciúme da mulher a quem ele se impôs no deserto e começou a torturar com os seus mandamentos. O grande drama social não passa de simples ciúme, mas, como a linguagem é esplêndida e a retórica é fascinante, ninguém dá atenção ao que realmente está escrito nas entrelinhas.”

“E o que está escrito nas entrelinhas?”, pergunta Daniela, que enquanto isso havia tirado os sapatos e levantara os pés, que agora quase tocam o para-brisa.

“Nas entrelinhas e dentro das linhas. Morte, ruína, exílio, castigo e mais castigo, devastação, pragas e fome. Comem-se bebês, tamanha é a fome. É verdade que às vezes, por entre as horríveis admoestações, que as pessoas exaltam em linguagem empolada, salta um consolo não muito plausível, utópico, grandioso. Consolo sob condição, consolo irritante, porque se resume quase sempre a um redirecionamento do fogo, geralmente voltado contra Israel, em direção a outros povos. Como se o mundo não pudesse jamais experimentar um minuto que fosse de verdadeira calma, como se sempre alguém tivesse que levar o coice.

“E tudo isso mamamos desde a primeira infância, foi isso que recebemos como alimento de bebês. Não admira, então, que todos nós vivamos em estado de alerta para a catástrofe que já se aproxima, talvez mesmo ansiando por ela, aí está ela, já ouvimos falar dela, lemos sobre ela palavra por palavra numa linguagem maravilhosa.”

A estrada de terra foi muito bem pavimentada. As rodas do Land Rover se movem sobre ela com um suave murmúrio, como se fosse uma pista asfaltada. A poeira amortece um pouco a luz do sol. A visitante tira os óculos escuros e examina com cuidado esse homem alto atacado por uma obsessão febril, que agora se diverte por ter encontrado um ouvido atento.

“E você também apresentou essa teoria toda à coitada da minha irmã?”

“Só em parte, tentei poupá-la de mais essa bile negra. E bem depressa passei eu mesmo a sentir náuseas ao ler a Bíblia. Mas, antes de abandonar o livro por completo, para juntar poeira na estante, contei a Rafaeli as minhas ideias, e devo dizer em sua homenagem que ele me ouviu com muita paciência, como um terapeuta ouvindo o paciente, e não tentou discutir comigo, apenas sugeriu que eu deixasse de lado os profetas e passasse para o Eclesiastes e os Provérbios, e eu pensei comigo, tudo bem, vou dar à Bíblia mais uma chance, e justo no Cântico dos Cânticos a morte do Eyáli de repente me estrangulou, e eu li aqueles poemas me desfazendo em lágrimas.”

“Morte no Cântico dos Cânticos?”, suspende-se a respiração de Daniela.

“Porque a beleza me deixou tonto. O amor... o erotismo maravilhoso, as descrições da natureza, e nesse momento fiquei esmagado por tudo aquilo que o Eyál não teria nunca mais.”

“E você não retomou mais a Bíblia?”

“Nunca mais a toquei. Desliguei-me dela como de outros textos irrelevantes.”

Instintivamente ela abraça o livro em seu colo e observa uma águia parada no alto de uma árvore com as amplas asas abertas.

“Você leu Jeremias também?”

“Com certeza. É natural, eu estou atado a ele de nascença. E imediatamente percebi: trata-se do profeta mais doentio e mais perigoso. Um homem instável. Irritante. Muda de assunto a cada momento. Um profissional da amargura. Estrategista de meia-tigela. Não se deixe enganar pela beleza da linguagem, pela graça das palavras, das metáforas e das imagens, pelo ritmo das frases. Tudo isso apenas atrapalha perceber o que há por trás. Agora, com uma tradução inglesa nas mãos, você pode descobrir a violência e o desespero que ali se escondem. Realmente, se você o traduzir de volta ao hebraico, numa linguagem verdadeira do dia a dia, vai encontrar o punho do ódio e do fanatismo atrás das penas do pavão. Tente... por que não? Eis aí um bom exercício para uma professora de inglês. Você não estava examinando o seu vocabulário? Então, por favor, faça uma prova para si mesma.”

Tão estranho e peculiar, reflete Daniela. Duas pessoas adultas fuçando na Bíblia em plena savana africana. Viajei de Israel até a Tanzânia, essa distância toda, para traduzir de volta a Bíblia para o hebraico.

Mas ela abre o volume, encontra o livro de Jeremias e diz que talvez seja bom ler primeiro em inglês. Não, responde ele, mesmo em inglês a linguagem ficará empolada e a enredará nos seus enfeites. Traduza espontaneamente, uma página ao acaso, mas para um hebraico simples, por favor, um hebraico que mesmo seus netos poderiam entender.

Ela traduz devagar, põe o dedo na página e tenta vencer o rumor do vento que agora está mais forte lá fora.

“Por isso assim falou o Deus dos Batalhões... dos Exércitos? Sim, o Deus dos Exércitos. Porque vocês dizem essa palavra, então eu vou transformar as minhas palavras na sua boca em fogo, e esse povo em árvores, e ele vai devorar todos. Vocês vão ver, eu vou trazer de longe um povo em cima de vocês, ó casa de Israel, diz Deus, esse povo é forte, esse povo é antigo, um povo que fala uma língua que vocês não conhecem, e vocês não vão entender o que ele diz. A bolsa de flechas dele é como uma sepultura aberta, todos eles são homens violentos. Eles vão comer a sua colheita e o seu pão, e vão devorar os seus filhos e filhas, e também vão comer o seu gado e as suas ovelhas, e vão comer as suas videiras e as suas figueiras, e com as suas espadas eles vão destruir todas as cidades fortificadas de vocês, nas quais vocês confiam. Mas, apesar de tudo, nessa época eu não vou dar um fim total a vocês. E se eles perguntarem, por que o nosso Deus faz conosco todas essas coisas? Então você vai dizer a eles, assim como vocês me abandonaram e foram servir a outros deuses estranhos na terra de vocês, da mesma forma vocês vão servir a um povo estranho numa terra que não é de vocês.”

“Ufa, chega”, e ela fecha o livro e o guarda no porta-luvas. Mas Yirmiyáhu se entusiasma com a tradução.

“Viu? Um trecho qualquer, ao acaso, e a violência fica visível num instante. Uma profecia de destruição, com muito prazer. Tragédia e morte e canibalismo, e de repente, e isso é típico, ele próprio se assusta com a sua profecia e diz, um momento, apesar de tudo esse não será um fim total. E por que não? Se os pecados são tão grandes, por que não acabar com eles de uma vez por todas? Muito simples, porque nesse caso ele não terá mais para quem profetizar, não terá mais a quem torturar com as suas maldições, não terá mais como ganhar a vida. E por que um povo estranho merece uma vitória tão grande? A resposta é simples: ciúme e poder. Não justiça, só traição. Vocês serviram a outros deuses, agora merecem ter os filhos e filhas devorados.”

A exaustão se apodera de Daniela. A estrada não termina. E o motorista agora dirige devagar e distraidamente. A poeira no ar se transforma numa cerração amarelada. O profeta antigo a cansa com seus ódios, e o motorista filósofo com suas lamúrias.

“Mas há ainda um outro trecho maravilhoso”, Yírmi se deixa levar nas asas de seu discurso, “no capítulo quarenta e pouco há um trecho que o editor precisou de muita coragem para anexar às profecias de Jeremias. Os exilados no Egito se revoltam contra esse profeta, que também foi parar lá, e têm a audácia de dizer a ele, direto na cara, palavras que são como esporas. Já chega, ouvimos tudo o que você disse, e não temos a menor intenção de lhe obedecer. Nós gostamos, nos dá prazer acender incenso para a deusa — que eles chamam ali com um nome especial, Deusa dos Céus. Os homens e os maridos passam a defender as suas mulheres que queimam o incenso, e dizem ao profeta irritante, sem papas na língua, que já chega, eles dizem: nós vamos continuar a fazer esse ritual idólatra, porque quando nós e as nossas mulheres estávamos em Jerusalém e servíamos essa rainha vivíamos bem, tínhamos comida em abundância, e o principal, e essa é a frase que mais me tocou — eles dizem a Jeremias, preste atenção: em Jerusalém, sem o peso das suas recriminações, nós éramos bons, nós nos sentíamos bons, mas desde que começamos a obedecer a você e paramos de dar incenso à Rainha dos Céus ficamos sem nada, e vieram a espada e a fome. Você está ouvindo? Você está ouvindo?”

“Claro, você está gritando.”

“Foi por acaso que tropecei nesse trecho, por acaso — dois ou três meses depois que enterramos o Eyáli —, e eu fiquei tão emocionado, tive vontade de abraçar os exilados no Egito à distância de dois mil e quinhentos anos. Pessoas que fizeram frente com muita coragem a esse chorão amaldiçoador, a esse estraga prazeres profissional, que também deixou cair o seu nome sobre mim.”

O caminho se torna esburacado, e de repente acaba. O motorista desce para verificar as rodas, e descobre que elas ficaram enrascadas numa densa vegetação com pequenas flores roxas. Bem, diz ele à cunhada, de tanto falar da Rainha dos Céus deixei de prestar atenção à terra, e nem percebi que já era para termos chegado à fazenda há bastante tempo. Mas não faz mal. Não se preocupe. Vamos encontrar o caminho certo, não estamos longe. Eu tenho uma espécie de walkie-talkie no carro, e também um velho revólver.

13

É a primeira vez que Nófer ouve falar da menininha, e presta atenção total ao que a cunhada diz. Yaári se admira ao ver como, a partir de alguns detalhes casuais proferidos por ele no jantar de ontem, Efrát consegue cozinhar toda uma longa história de traição. Fantástico, diz Nófer ao pai, é muito bom saber que temos um avô tão romântico e sofisticado, e, realmente, por que não ir até lá dar uma olhada nela? Com pessoas dessa idade “amanhã” pode ser tarde demais, e todos nós vamos nos arrepender de perder essa história.



“Mesmo que tenhamos tanta vontade de dar uma olhada nela”, Yaári se rende à filha e à nora, “isso não quer dizer que ela queira ou possa dar uma olhada em nós justamente neste momento.”

“Se ela realmente amou o vovô”, decide Efrát muito segura de si, “ela estará interessada em conhecer também a neta dele, os bisnetos e a mãe deles. Diga a ela que é uma visita muito rápida, não mais de quinze minutos, só para vermos o elevador especial do Yoel. E que ela não crie problemas para si mesma.”

Dvórah Bennett fica muito surpresa ao ouvir a voz de Yaári pelo telefone. Mas havíamos combinado a visita para amanhã.

E agora é a vez de Yaári se surpreender: Em segredo, sem nada dizer, o seu pai prometeu a ela que viria vê-la em pessoa, para sentir na própria pele as trepidações do elevador e ouvir aquele gato.

“Você não sabia da visita do seu pai amanhã?”, admira-se a velha.

“Nem imaginava.”

“Porque o seu pai certamente temia que você não o deixasse viajar. Ouça-me então, meu jovem, e permita-me chamá-lo de jovem, apesar de você já ser avô de netos, eu faço questão de que você venha também e não me deixe sozinha com ele, não me vá ele rolar pelas escadas.”

“Não se preocupe, não o deixarei sozinho aí nem por um momento.”

E, obviamente, Dvórah Bennett terá um enorme prazer em mostrar a eles o elevador de seu pai, e na mesma oportunidade poder ver a família dele.

Nófer corre até o setor onde trabalha para receber licença de sair só um pouquinho mais cedo, e quando volta sem o avental ela parece magra e pálida, mas se espreme entre as cadeirinhas dos sobrinhos com uma alegria juvenil. Já são quase quatro horas, e Jerusalém, da qual o sábado de inverno vai sendo arrebatado, começa a mesclar sua religiosidade e sua laicidade numa única realidade acinzentada. Yaári estaciona o carro exatamente ao lado do prédio do antigo Parlamento, acreditando que um prefeito religioso não permitiria que o sábado fosse profanado por uma multa de estacionamento irregular. Nófer e Efrát já estão desatando as crianças sonolentas de suas amarras, e voltam a vesti-las com seus casacos. E Nófer, em cujo coração o pequeno sobrinho está sempre presente, beija-o e abraça-o em primeiro lugar, para depois levantá-lo nos braços e levá-lo a atravessar a rua King George em segurança.

“Por que você o carrega no colo?”, Yaári ralha com a filha, “ele é muito pesado.”

“Para mim ele é muito querido e leve, e gosta muito de estar no meu colo. Não é, Nádi?”

O menino não responde, mas abraça com força sua jovem tia.

Num grande tumulto, Yaári conduz sua família escadas acima no velho edifício. Nádi, que já se acostumou a ser carregado no colo, teima em ser levado também ao subir a escadaria. Você está estragando o menino, revolta-se Efrát, essa não é boa tática. Não vai fazer tão mal, murmura Nófer, balançando ao peso do menino amado.

Dvórah Bennett fica muito satisfeita com a turma jovem que aparece em sua casa nesse crepúsculo cinzento. Como você conseguiu arrumar esses netos tão queridos?, ela brinca com Yaári, como se em sua família fossem raras as pessoas de quem se pudesse gostar. As crianças ficam fascinadas com a alegre velhinha, que lhes dá quadradinhos de chocolate e os leva junto com o resto da turma até seu quarto de dormir, para verem o elevador que o bisavô inventou. No corredor entre a sala de visitas e o quarto de dormir eles passam pelo consultório, cuja porta está aberta e nele se encontra uma senhora elegante, um tanto gorda, que fuma um cigarro com uma longa piteira. A dona da casa a apresenta aos visitantes: Esta é a senhora Karídi, uma antiga paciente que se tornou minha amiga, e que agora trata de mim em vez de eu tratar dela. A senhora sopra um amplo anel de fumaça, ri o riso rouco dos fumantes veteranos e faz um gesto de “pare com isso” com a mão.

E no quarto abrem-se as portas do armário, e a delicada grade é aberta, e aqui está o minúsculo elevador residencial, no qual foi posta agora inclusive uma pequena poltrona. Venham, crianças, vamos subir ao terraço, diz o avô aos netos em voz festiva, e no caminho talvez dê para ouvir o choro de um gato faminto. A neta tem medo de entrar sem a mãe, mas Nádi confia no avô e entra com ele no elevador. Yaári fecha a grade e aperta o botão certo. Novamente se sente a forte pancada, e à trepidação junta-se o choro oculto, que prossegue ao longo de toda a lenta subida até o terraço.

De tanto medo Nádi acaba arranhando a mão do avô, e Yaári o puxa para si, e o menino se abraça à sua perna, e assim agarrados um ao outro eles saem para o terraço, para ver a cidade que escurece. Um vento ameno sopra por entre os tubos dos aquecedores, e Yaári levanta o menino para que ele não tropece nos cabos pretos das antenas parabólicas. Olhe o antigo Parlamento, ele explica, e aponta o prédio na penumbra. Do apartamento gritam ao avô para que feche a grade, para que possam chamar o elevador. E pouco depois se aglomera no terraço toda a turma, encabeçada pela velhinha que se muniu de um cobertor todo colorido. Nófer e Efrát maravilham-se como se estivessem no topo do mundo, e Nófer lamenta que as novas construções escondam as muralhas da cidade antiga, porque ao anoitecer acendem-se sobre a Torre de Davi enormes velas de Hanukah. Quantas velas se acendem hoje?, pergunta Efrát. Hoje, diz Neta, acendemos a sexta vela. Então vamos para casa acendê-la, responde Efrát, já é hora de voltar.

A noite cai rapidamente. Entre os farrapos de nuvens passeiam as primeiras estrelas, e na rua as lâmpadas começam a acender.

O ar de Jerusalém é um tanto gélido, mas seco, e sopra um vento ligeiro, porém todos, à exceção de Nófer, estão vestidos de modo adequado. Ela novamente agarra o sobrinho no ímpeto de sua afeição, e o balança no ar não muito longe do parapeito. Chega, repreende o pai, esse menino é pesado, você ainda vai entortar alguma coisa nas costas.

E repentinamente surge no telhado a antiga paciente, a sra. Karídi, com um novo cigarro aceso na ponta da piteira. Como uma embarcação arredondada, trazendo um solitário lampião aceso na ponta do mastro, ela navega sua corpulência por entre os tonéis dos aquecedores e as antenas parabólicas e rema até a ponta do terraço, de onde poderá ver o mundo bem melhor. De fato, ouve-se em seguida a voz carcomida pelo fumo, e de longe se vê, agitada, sua mão: venham, crianças, venham ver o fogo. E é verdade, a elegante senhora descobriu uma fresta na cortina de construções que oculta as muralhas, e através dela é possível divisar as seis esplêndidas tochas que comemoram a festa de Hanukah.

14

Daniela desce do carro para orientar o cunhado na complicada manobra de marcha à ré. Vamos voltar um pouco e, se não encontrarmos o lugar onde pegamos o caminho errado para o beco sem saída, ficaremos esperando o pessoal da fazenda fazer contato conosco e vir nos buscar. Isso já aconteceu até mesmo com a Sijin Kuang dirigindo, e eles sempre ligavam e nos encontravam. Estou reconhecendo com total certeza aquela colina à nossa frente, que é possível ver até da minha cama. Você própria deve tê-la visto, pois há quatro noites dorme ali.



O veículo volta por onde veio, mas uns dois quilômetros adiante surge um entroncamento de onde partem quatro destinos diversos que parecem nunca ter estado lá. Yírmi freia, desliga o motor e diz, pronto. Vamos esperar aqui, para não errarmos mais ainda.

Da caixa de ferramentas ele tira um pano no qual está embrulhada uma grande pistola, e diz que sempre se esquece como fazer para destravá-la, e por isso não mexe muito nela, mas que se aparecer um animal suficientemente impressionante vai tentar assustá-lo. Depois saca um rádio e acende a lampadinha vermelha. Este também, como a pistola, parece lembrança do tempo dos ingleses, e talvez dos alemães, mas como que por milagre ele ainda funciona.

O aparelho emite de repente um forte ruído, e Yirmiyáhu aperta um botão e se identifica com algumas palavras em inglês. Ainda é cedo para eles se preocuparem conosco, explica para a cunhada, mas daqui a pouco, quando escurecer e eles perceberem que não voltamos, alguém acabará fazendo contato. Não se preocupe, não estamos muito longe, e aqui não há qualquer perigo.

“Eu não estou preocupada”, a cunhada responde serenamente. “Tenho certeza de que a Shúli, como eu, escolheu um marido em quem era possível confiar.”

Eles ficam sentados em silêncio dentro do carro, e o exterior começa a se tornar violeta. Daniela percebe que o cunhado está bem-humorado, talvez devido à ira que despejou sobre o profeta que lhe outorgou seu nome. Assim, ela se arrisca a perguntar-lhe, com voz macia, diga-me, se não lhe for difícil, você conseguiu compreender o que aconteceu lá naquela noite com o Eyáli?

“Sim, compreendi perfeitamente”, ele responde com simplicidade. “Aquele palestino, que deu ao Eyáli o café para que não adormecesse, sabia muitíssimo bem por que ele desceu da laje, mas não contou a ninguém, principalmente porque ninguém teve a ideia de perguntar justo a ele. Eu sabia que o Eyál sempre foi um rapaz organizado em termos de horários, e o relógio que nos devolveram parou mais ou menos na hora certa. Por isso precisei voltar ao Exército e investigar o motivo pelo qual os soldados erraram e pensaram que ele era o procurado. Pedi, então, a um farmacêutico cristão, um árabe chamado Emile que mora em Jerusalém Oriental, um homem inteligente, que conseguiu recuperar a farmácia do pai na parte ocidental da cidade — eu era freguês dele, e nos tornamos bastante amigos, e ele sabia que o Eyáli havia sido morto, e cheguei a contar-lhe da minha angústia pelo fato de que foi por fogo amigo —, a ele eu recorri, e perguntei se ele poderia me ajudar a fazer amizade com aquele palestino de Tulkarem, que tinha evitado falar comigo e com o oficial.

“Cerca de duas semanas depois, e por um pagamento nada desprezível — não para o farmacêutico, que agiu apenas por boa vontade, mas para o palestino, um homem de uns sessenta anos, taciturno e desconfiado, que teve medo de revelar seu nome —, nos encontramos ao anoitecer numa estufa de flores de um lugar chamado Nitzanêi Oz, onde ele trabalhava como prestador de serviços, para que pudesse me explicar o que aconteceu naquela laje do ponto de vista dele, mais abaixo. E o que aconteceu é tão simples, mas tão idiota, humano mas ao mesmo tempo constrangedor, que eu tive pena da Shúli e não lhe contei nada. É tão desesperador que dá ganas de bater com a cabeça na parede.”

Daniela o fita totalmente apavorada.

“Meu filho querido, o ingênuo, o tonto, o civilizado, o soldado que confisca a laje de uma família conquistada e deixa os moradores todos mortos de medo — tem vergonha de deixar atrás de si o balde que lhe deram, cheio daquilo que ele pôs lá dentro, porque temia...”

“Temia? Ele?”

“Temia sujar o seu bom nome, temia por sua dignidade aos olhos da família palestina, e por esta razão ele não abandona o balde na laje nem o esvazia lá de cima, mas, alguns minutos antes da hora ele desce com o balde, não para deixá-lo num canto, e sim para lavá-lo muito bem lavado, lavar o balde, você me entende? Para poder devolvê-lo à família palestina tão limpo como o recebeu. Ingenuidade? Consideração? Dignidade? Foi principalmente idiotice. Uma abismal incapacidade de entender por que vale a pena arriscar-se, ou não. E assim, um minuto antes dos tiros, o palestino ouve a água correndo no quintal. E os soldados na emboscada, que viram não o seu colega saindo do edifício, mas uma figura se esgueirando para dentro do prédio — por que não acreditariam que se tratava do procurado pelo qual estiveram esperando a noite toda?”

“E o palestino viu tudo isso acontecer?”

“Ele não viu nada, porque estava dentro de casa. Mas a torneira aberta e o ruído da água dentro do balde fizeram com que acordasse, naquela noite ele de qualquer maneira não dormiu muito bem, e em seguida ouviu os tiros, e de manhã, quando os soldados removeram Eyáli e foram embora dali, ele encontrou na entrada do prédio o balde dele lavado e limpo. Aí está o soldado que tinha a coragem de desobedecer a ordens expressas para dizer, eu também sou um ser humano, estou lhe devolvendo um balde limpo, é verdade que eu os conquistei, mas não sujei nada na sua casa.”

“E o palestino — o que Eyáli fez ao menos o emocionou de algum modo?”

“Foi exatamente isso que eu perguntei a mim mesmo, não naquele momento, mais tarde, quando consegui digerir a história. Pois o homem contou tudo isso com o rosto impávido, sem sentimentos, fatos sem comentários, e pegou o dinheiro e saiu depressa para Tulkarem, porque o toque de recolher já estava chegando.”

“Mas por que você não contou nada à Shúli?”

“Você não conhece a sua irmã? Ela teria imediatamente se enchido de uma culpa terrível, por toda a educação que deu ao Eyáli, por causa da louca mania dela quanto à arrumação e à limpeza.”

Daniela se cala. Entendia perfeitamente a que ele estava se referindo.

A colina não muito distante, que lhes serve de ponto de referência, vai perdendo seus contornos e se transforma numa sombra indistinta. Uma grande revoada de pássaros transpassa o ar. Yirmiyáhu tira a maca do carro, deposita-a no chão e se deita. Daniela observa o homem corpulento e careca, agora de olhos fechados. Ela deseja lhe dizer algo, mas acaba desistindo. Desce do veículo, afasta-se alguns passos, encontra um lugar escondido onde o capim é um pouco mais alto, arria as calças, se abaixa e se alivia bem devagar. Com as últimas gotas ela olha para cima, para o céu, e descobre que um primeiro grupo de estrelas já brilha acima de sua cabeça.

Um apito agudo perfura o espaço africano e logo se transforma num longo uivo. Surge então uma voz metálica rachada falando um excelente inglês. Jeremy, Jeremy, onde você está? Yírmi sai correndo da maca para responder ao chamado.

“Venha, Daniela”, ele chama a cunhada e dá a partida ao motor, “entre aqui e veja a surpresa que a espera.”

E conforme eles atravessam lentamente a estrada empoeirada em direção ao morro escuro, um sinalizador cruza o céu, formando uma redoma de luz amarela. A chama cai lenta, lenta, e o rastro de luz desaparece, e então outra luz é atirada através da escuridão, e em seguida uma terceira.




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