Para a minha família, com amor Sumário



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QUINTA VELA

1


Na sexta-feira de manhã Yaári está parado perto da lata de lixo na cozinha, peneirando o jornal Haáretz dos suplementos desnecessários, nacionais e locais, cadernos de imóveis e encartes das grandes redes de distribuição, e em meio a isso ressurge em sua mente o aquecedor em que o cunhado queimou os jornais de Israel. Se os jornais continuarem a engordar dessa maneira será necessário instalar um daqueles aqui também, para não sobrecarregar a lata de lixo. Sua leitura é seletiva e apressada, mas ele procura não saltar por cima do índice de precipitação, do nível do mar da Galileia e do mapa sinótico do clima. E quando o rádio faz companhia ao jornal e anuncia ventanias orientais secas mas intensas, que tomam o lugar dos ventos ocidentais úmidos, ele se pergunta se a alteração da origem mudará também alguma coisa na natureza das lamentações e dos uivos na torre, ou se a sucção não distingue oriente de ocidente.

Ele lava a louça do café da manhã na pia, pois na ausência da dona da casa é justo que o lava-louças também tenha uns dias de descanso. Mas o silêncio o oprime, ainda mais por saber que o espera um sábado que se arrastará bem lentamente. É verdade que tinha ordenado à dona do elevador de Jerusalém que o esperasse a partir das nove da manhã, mas por experiência própria ele sabe que não é boa ideia irromper na casa de uma velha senhora antes que ela tenha se organizado direito. Ele está de bom humor. A reação tolerante de Morán ao seu esboço noturno ainda ressoa dentro dele como uma afável melodia. Assim, a caminho de Jerusalém ele se dispõe a ouvir mais uma vez as queixas dos ventos, antes de decidir com o fabricante a respeito dos pontos que julgarão indefensáveis ou não. Até a hora de acender as velas com os netos Yaári não vê, no horizonte, nenhuma pessoa significativa com a qual seja possível e valha a pena marcar um encontro. Já faz muitos anos que os encontros com amigos acontecem sempre entre casais. E se ele decidir visitar sozinho algum amigo apenas dois dias depois que Daniela viajou, acabará por levantar a suspeita de aproveitar a ausência da esposa para contar ao amigo alguma novidade sobre si mesmo.

Mais uma vez ele emite o sinal eletrônico para o portão de ferro e se deixa engolir pelo estacionamento subterrâneo. Tem o cuidado de esperar que o carro que entrou depois dele estacione na sua vaga, e só então dirige até uma das vagas desocupadas, que já não são tantas quantas eram na visita anterior. Ao abrir a porta corta-fogo que separa o estacionamento da rampa de acesso aos elevadores, ele tem a impressão de que os ventos vindos do oriente tornaram o berreiro ainda mais exacerbado, talvez por serem mais secos. Não há dúvida, algo muito intrigante acontece aqui, exigindo um exame de consciência do arquiteto e da construtora — mas seu escritório de planejamento e a empresa de elevadores tampouco poderão se livrar de uma autocrítica. Yaári não chama nenhum elevador, apenas fica parado ali, imóvel, ouvindo, e, quando chega o morador que acabou de estacionar o carro, não admira que a atitude passiva do estranho em frente aos elevadores lhe desperte uma suspeita.

O homem é de meia-idade, de rosto sombrio e faces encovadas; está usando velhas calças de brim e os sapatos estão cobertos de lama fresca, como se ele voltasse de um passeio no campo. Apesar de já estar com as chaves balançando na mão, ao ver o visitante postado como numa silenciosa prece em frente aos elevadores, parados cada qual num andar diferente, ele também evita chamar um elevador, limitando-se a inclinar a cabeça e a prestar atenção com um olhar severo. Os dois enviesam o olhar para se examinarem mutuamente às escondidas, e na cabeça de ambos já rolou uma suspeita. Por fim o morador arreda para um lado e saca o celular do bolso, e quando Yaári, já satisfeito de ouvir os uivos da ventania, estende a mão para abrir a porta corta-fogo e voltar para o carro, começa a tocar em seu bolso o refrão que o faz estacar.

A voz do morador que se faz ouvir no canto funde-se com a voz ouvida no celular de Yaári.

“Sim, sou eu, Kidrón.”

“Então agora você acredita que os fantasmas são reais e não uma fantasia?”, continua a falar o morador, de celular a celular, a uma distância de poucos metros.

Mas Yaári, que prefere conversar cara a cara com vozes verdadeiras e sem o custo da chamada, fecha o celular.

“Com certeza são verdadeiros, nunca o acusei de imaginar coisas. Mas eu duvido, quer dizer, recuso-me a acreditar que isso seja responsabilidade do meu escritório.”

“A construtora também se evadiu, o arquiteto desertou, e o seu bom amigo Gottlieb escondeu-se num bunker, então afinal quem é que vai assumir essa responsabilidade sem pai nem mãe?”

“Não posso dar uma resposta simples. Ainda é preciso averiguar. Mas você me permite fazer uma pergunta que talvez lhe pareça um pouco indelicada?”

“Por exemplo?”

“É que ventos fortes são raros neste país geralmente quente, e em Tel Aviv são mais raros ainda, e a viagem de elevador, mesmo até o andar mais alto, não dura nem um minuto...”

“Então?”


“Então por que tanta confusão? Em certo sentido, visto por um outro ângulo, o vozerio dos ventos no silêncio exagerado de um prédio de apartamentos só acrescenta uma sensação de natureza viva — um certo gosto de nuvens, e até um aroma de montanhas...”

“Aroma de montanhas? Você perdeu o juízo?”

“Digamos, é a alternativa de um olhar um pouco diferente sobre tudo isso.”

“Talvez você goste da alternativa, mas com certeza não é o que os moradores sentem. E se você imagina que com fantasias esquisitas desse tipo você e o seu escritório conseguirão se evadir da responsabilidade pelo projeto equivocado que nos forneceram, fique sabendo que não vai funcionar. Porque nós iremos persegui-los até o tribunal.”

“Você não tem nada mais importante para fazer?”, pergunta Yaári com um sorriso generoso.

“Tenho”, responde o homem de modo decidido, “mas também tenho tempo livre de sobra para cuidar de cada coisa. Olhe: assim como você me vê, e são apenas seis e meia da manhã, eu já terminei o meu dia de trabalho, que começou há uma hora.”

Um rápido calafrio percorre as costas de Yaári.

“Pois o meu trabalho toma pouco tempo”, continua o morador, “ainda que não seja fácil. Vou toda manhã à quadra militar do cemitério, ao túmulo do meu filho, andar um pouco à sua volta, arranco uma erva daninha, retiro uma pedrinha antiga e ponho em seu lugar uma nova, e às vezes, se aparece uma lágrima, preciso também enxugá-la, não é realmente uma ocupação muito extensa, e por essa razão me sobra o tempo de que preciso para exigir dos demais que cumpram suas obrigações.”

Yaári inclina a cabeça e se lembra do que Gottlieb disse, de que essas pessoas enlutadas têm uma agenda diferente na cabeça, e com uma espécie de contentamento íntimo ele diz:

“É verdade que eu não sou um pai enlutado como você, sou apenas um tio enlutado, mas sei como é, por minha própria família, um luto como o seu, e o respeito imensamente. Então, por favor, não fique zangado por eu ter brincado um pouco. Pode ficar tranquilo porque estou aqui para isso, e vou convocar uma reunião com o fabricante dos elevadores, com a construtora e com o arquiteto para, num esforço conjunto, diagnosticar o lugar por onde os ventos penetram, e quando descobrirmos sua origem e talvez também sua causa, trataremos de acalmá-los.”

2

Ao voltarem à fazenda, esgotada pela viagem a Dar es Salaam e por percorrer a Via Dolorosa da irmã, Daniela pede licença ao cunhado e à enfermeira, pega os doces que sobraram e sobe para o quarto. Numa agilidade que não lhe é costumeira, despe o vestido que não poderá mais usar nesta visita, passa um longo tempo debaixo do chuveiro, decide deixar de lado os doces, cujo retrogosto e exagerada doçura lhe provocam aversão, e deita-se para dormir com fome. Abandona, igualmente, o romance que está perto da cama, reservando-o para a viagem de volta. Apaga imediatamente a luz, procura a posição correta e mergulha num sono profundo.



E assim seu despertar ocorre bem cedo. Quando despontam as cinco horas no relógio, Daniela já havia entendido que para ela a noite chegara ao fim, e que não dispõe de truque algum na algibeira com o qual poderia angariar um pouco mais de sono. Por meia hora permanece deitada de olhos abertos no escuro, em posição de feto, localizando em sua respectiva cama cada um dos entes queridos, encontrando dificuldade apenas para divisar mentalmente o leito militar do mais recente prisioneiro. Por fim a fome a fez acordar na aurora prolongada, nem que fosse apenas por uma xícara de café e uma fatia de pão.

Teoricamente seria possível acelerar o tempo se ela voltasse a ler seu romance “feminino”. E, se o editor houvesse explicado melhor na contracapa do livro de que tipo é a reviravolta à espera da leitora, ela teria mais paciência de ler até aquele ponto. Mas, pelo que ela pôde ver até onde chegou, não se pode esperar aqui nenhuma virada dramática na narrativa ou uma renovada autopercepção da personagem principal. É possível apenas um novo entendimento da motivação ou do gênero desse romance. Isso, porém, representaria uma reviravolta pouco importante, dependendo além do mais da vontade da leitora de levá-la em conta. O fato é que esse romance não é abrangente ou profundo a ponto de provocar tamanha transformação.

Não, ela não sente vontade alguma de retomar a leitura. Mas, se tivesse nas mãos a edição de sexta-feira do Haáretz, poderia aplacar com ela sua fome e continuar deitada. Porque ela é capaz, bem mais que o marido, de pescar, dentro das variadas seções do jornal, informações sobre a natureza da nova sociedade humana que vem se desenvolvendo no mundo.

Mas até que volte a Israel Daniela não terá jornal algum, e por essa razão ela despe sua roupa de dormir e veste as roupas de viagem com as quais veio, e em meio à penumbra da escadaria aterrissa devagarzinho na enorme cozinha. Já estou me sentindo um pouco dona da casa, ela graceja consigo mesma. Mas na cozinha já a antecipa uma pequena luz. O velho porteiro, que na véspera ajudou-a a encontrar café e açúcar, empertiga-se à sua chegada. Estaria à espera dela por iniciativa própria, depois do fracasso de Daniela em descobrir sozinha onde estavam o café e o açúcar, ou teria havido alguma instrução secreta do anfitrião?

Contente com sua presença, ela aperta a mão do porteiro com as duas mãos, não só de modo cordial, mas até com certa força. No lugar do marido estará agora à sua disposição um velho homem um tanto murcho, que já ferveu a água e pôs sobre a mesa um prato, uma caneca e talheres, juntamente com os potes de açúcar e café, e agora tira da geladeira também aquele leite acinzentado. Nesse meio-tempo o homem pode ter aprendido a pronunciar melhor o nome do animal que presenteou o mundo com seu leite, e então ela talvez aceite usá-lo para misturar ao café.

Mesmo que ao longo dos anos ela venha a esquecer a maioria dos detalhes e de tudo que viu nesta visita à África, desse africano velho e encarquilhado, que a serve na gigantesca cozinha antes do alvorecer, como faz o marido em casa, ela não se esquecerá até o dia de sua morte.

3

Apesar do desejo de retardar sua chegada à visita de misericórdia que fará em Jerusalém, que muito provavelmente não trará benefício algum, a estrada desliza velozmente debaixo dele. Pelo fato de toda a azáfama estatal e empresarial da capital se dissipar nos fins de semana, como uma casca que o vento sopra em direção à planície litorânea, Jerusalém às vésperas do sábado transforma-se numa cidade provinciana, não mais sitiada mas um tanto abandonada, e principalmente fácil de alcançar. Ainda não são nove da manhã, e ele já estaciona o carro numa ruela, perto da antiga sede do Parlamento.



Por vezes acontece de Yaári ter de realizar projetos em Jerusalém, mas atualmente não mais no centro da cidade, e sim nos subúrbios e sobretudo nos bairros industriais que prosperam ao redor, motivo pelo qual seu passeio nas cercanias da velha sede do Parlamento, que entrementes tornou-se a sede do Tribunal Rabínico, é quase o passeio de um turista, e ele inclusive entra no prédio para percorrer uma pequena exposição de fotografias em preto e branco de tempos longínquos mas ainda não esquecidos. Apesar de nunca ter morado em Jerusalém, e de nos anos 1950 e 1960 não haver televisão para matraquear em público os ditos e feitos dos seus representantes, ainda estão gravados em sua memória os cinejornais que passavam antes do filme. O primeiro-ministro e os membros do gabinete eram vistos andando de maneira simples e natural, sem nenhuma pompa e nenhum brutamontes de segurança, no meio da rua King George v, onde ele próprio caminha agora, e bastavam dois guardas para desviar o trânsito ao redor.

Mas por que chapinhar na nostalgia pelos bons tempos de outrora se esse mesmo prédio simples e ingênuo do velho Parlamento foi inclusive bombardeado com pedras e garrafas nos dias da explosiva controvérsia sobre as indenizações alemãs depois do Holocausto? Nesse caso, é melhor manter um pé atrás quanto à pureza do passado e concentrar-se no presente. Ele verifica onde é a casa para a qual se dirige e entra num belo café de esquina, pedindo para si um croissant fresquinho e uma xícara grande de café. Desse modo ele fica inclusive liberado do que a sra. Bennet talvez resolva lhe servir, e poderá escapulir de sua casa mais depressa. Não apenas por não ter intenção alguma de ser visto por quem quer que seja como um técnico de elevadores obsoletos, mas também por sentir certa repulsa por esse encontro com uma mulher que foi significativa na vida de seu pai, talvez mesmo uma amante, mesmo que atualmente ela seja uma garota de oitenta e um anos.

Mas apesar de todos os seus esforços não lhe é possível empurrar o tempo para a frente de um modo perceptível, e quando sobe as escadas para o quarto andar ainda são nove e vinte. A cada andar ele se demora lendo os nomes dos moradores. No último, ao lado de uma escada de ferro que leva ao terraço, há apenas uma porta, com uma plaquinha escrita em letras hebraicas e latinas: dra. Dvórah Bennett, psicóloga analítica. Ele não toca a campainha. Em vez disso, bate de leve na porta, para conferir a acuidade da audição da senhora.

Aparentemente está em curso um diálogo dentro do apartamento, pois a voz da moradora se faz ouvir bem alto. Mesmo assim ela não deixa de escutar as leves batidas na porta, a qual é aberta pela mão de uma anciã de cabelos claros, encarquilhada e diminuta, mas ao mesmo tempo flexível e ligeira, sorridente e alegre, que segura um telefone e continua a falar através dele, dizendo: Sim, é o seu filho, pontual como o pai.

O coração de Yaári azeda dentro do peito, pois agora ficou claro que essa garota foi, no passado, uma bela e atraente mulher, e, se não foi amante do pai, certamente terá sido objeto de seu desejo. Resta apenas a questão de saber se tudo isso aconteceu antes ou depois do falecimento de sua mãe.

“É o seu pai ao telefone”, ela agita o fone graciosamente, “ligou para saber se você já tinha chegado. Quer falar com ele?”

“Não”, reage Yaári com impaciência, “vou fazer um relatório depois da visita.”

“Não, Yúlik”, ela diz ao telefone, pressionando-o a seu ouvido, “seu filho decidiu que vai falar com você só depois da visita médica, então por enquanto até logo, meu querido, e não nos atrapalhe mais.” Ela põe docemente o fone no gancho e lhe estende a mão, marcada pelos sinais da velhice.

“Obrigada por você ter aceito vir até aqui. Não se preocupe, eu sei que você é só engenheiro e não técnico, mas se me der um diagnóstico poderei procurar a solução. Seu pai disse que hoje não vai sair para o passeio no parque e permanecerá junto ao telefone, para que você possa lhe perguntar o que precisar durante a visita. Ele vai...”

“Não tenho o que perguntar a ele”, interrompe Yaári, “e aliás, você sabia que meu pai está se movendo em cadeira de rodas com a ajuda de um filipino?”

A sra. Bennett não sabia da cadeira de rodas, apesar de ter adivinhado sua existência, mas sobre o mal de Parkinson ela sabia há anos, e ficou muito zangada com o homem que sentiu vergonha de sua doença e deixou de visitá-la. Por que a vergonha, afinal? Mesmo o tremor é um fenômeno humano.

Yaári a perfura com o olhar.

“Ele vinha visitá-la nos últimos anos?”

“Claro. Depois que sua mãe faleceu, nós nos tornamos mais que amigos... até onde a idade nos permitia. Mas sente-se, por favor, e tome um copo de chá, e assim terá forças para ouvir os uivos do meu elevador. Já está tudo pronto, não vou lhe roubar mais tempo do que o necessário.”

Sobre a mesa na sala de jantar, perto de um castiçal de Hanukah já a postos para as cinco velas desta noite, aguardam duas xícaras brancas limpíssimas, uma pequena tigela com açúcar, vários envelopinhos de adoçante, saquinhos de chá de todos os sabores, e ao lado um prato com bolinhos e mais uma tigela com quadradinhos de chocolate. E tudo isso dominado por um vaso repleto de flores bem ao lado.

“Obrigado, já tomei café no belo café perto do Parlamento.”

“Então você não confiou em mim”, diz ela sem ressentimento. “Pena que seu pai não tenha lhe contado como sou boa em agradar as pessoas. Eu é que saio perdendo, como se diz hoje em dia. Mas pelo menos adoce um pouco a sua amargura com um quadradinho de chocolate.”

Um pequeno sorriso aparece nos lábios de Yaári. Ele morde o chocolate e olha em volta, mas não percebe nada que tenha a ver com um elevador.

“Você deve estar procurando o elevador, então venha, por favor.”

Ela o guia até o corredor de um apartamento que agora não parece mais tão pequeno. E, ao contrário do que costuma acontecer em casas de pessoas de idade, aqui o acúmulo de objetos não pesa de modo algum. Os móveis antigos brilham e não há sinal de desleixo ou deterioração. E há ordem até nos cabides atrás das portas. Ele anda atrás dela, observando a cachoeira de cabelos brancos dourados presos em sua nuca. Passa por um consultório onde há vários retratos de Sigmund Freud, em idades diversas, espiando por entre prateleiras abarrotadas de livros e revistas; e depois do banheiro e da cozinha ele chega ao quarto, em cujo centro há uma grande cama de casal, coberta por uma colcha estampada de flores e pavões, sobre a qual se espalham diversas almofadas de seda colorida.

Mas ainda não há sinal do elevador. Até que ela se aproxima de um grande armário embutido e escancara de par em par duas de suas portas, como se fosse a Arca Sagrada de uma sinagoga. No lugar da cortina tradicional, ela abre uma grade de ferro fininha, atrás da qual, finalmente, se avista o elevador — pequeno, estreito, encarnando a visão noturna do quinto elevador, no ângulo do poço. Dentro dele há três botões: verde, para subir, azul, para descer, e um vermelho, para pedir socorro em caso de algum problema.

4

Enquanto sorve o café, Daniela estende o maço de cigarros ao velho africano, sentado à frente dela sem tirar os olhos de seu rosto. O homem puxa um cigarro, recolhe um graveto da pilha de lenha, abre a portinhola do forno e acende o graveto, aproximando-o primeiro do cigarro dela.



Ele se chama Richard, e não há como saber se esse é seu nome original ou se lhe foi dado quando trabalhava tempos atrás numa fazenda inglesa nas redondezas. Já faz muitos anos que ele quase não fala a língua inglesa, que pelo visto conservou-se dentro dele só em pequenos fragmentos, como fósseis dos quais ele consegue extrair algum sentido. Quando lhe falam em inglês ele inclina a cabeça em alerta total, como se estimulasse o falante a despejar sobre ele mais e mais palavras, até que lhe surja aquela graças à qual ele entenderá o sentido do todo.

Como o velho é agradável e a manhã será longa, e Yirmiyáhu e Sijin Kuang ainda não desceram, ela se dispõe a tagarelar em seus ouvidos sem economizar nas palavras e sem muita esperança. Apenas para ele perceber que ela o respeita e lhe agradece por seus serviços, e acredita, inclusive, que entre todas as palavras que ela generosamente precipita sobre ele haverá alguma que lhe seja adequada. E tal palavra realmente existe, pois eis que ele se levanta e abre para ela a porta do quarto onde Yirmiyáhu encontrou uma cama temporária. Não é um quarto grande, e nele há uma cama estreita cuja coberta está amassada. Por alguma razão Daniela fica satisfeita por não ver ali nenhuma outra cama, arrumada ou desfeita, apesar de não saber, na verdade, por que isso lhe importa e por que ela se dá o direito de se preocupar com algo que, de qualquer maneira, não tem mais o menor sentido. Mancando em silêncio, o porteiro aproxima-se para alisar a coberta da cama, e ela se dirige até uma pequena janela da qual se pode ver a trilha de terra pela qual passou para ir à aldeia do elefante cheio de triste sabedoria. A chuva que caiu à noite purificou muitíssimo o mundo e adocicou a luz matinal, e até que o sol reúna forças é possível passear pelos arredores em vez de permanecer sentada sem fazer nada à espera de que o cunhado apareça.

Mas teria ela permissão de passear sozinha? E por que não? Daniela se lembra muito bem desse caminho tranquilo, e não pretende mesmo ir muito longe. Por um momento ela pensa em pedir a Richard que a acompanhe, mas realmente, para que infligir a ele esse peso, e a ela também? Antes que o sol fique mais forte, ela se apressa em subir a seu quarto, pega o casaco corta-vento da irmã, enterra no bolso algumas notas que tirou da carteira e volta para o andar de baixo, na esperança de que o velho ao menos a veja sair. Mas ele já não está mais ali, desapareceu como tinha surgido.

O ar está fresco, mas o caminho, um tanto enlameado. Sem esforço, ela sobe lentamente colina acima, com uma sensação de liberdade, mas também com uma ponta de medo. Volta e meia olha para trás, porém não há ninguém. Mesmo no topo da colina não é possível ver pessoa alguma. Os animais não a preocupam, aqui tudo está à mostra e tudo é visível, e, se apesar de tudo houver algum animal, será pequeno e inofensivo.

Ao descer a ladeira já não é mais possível ver a fazenda. Mas o caminho está bem claro em sua memória, e ela tem certeza de que saberá voltar. Duas jovens mulheres lavam roupa no riacho. Ao aproximar-se, Daniela percebe que os seios de ambas estão à mostra, e por isso ela inclina a cabeça em sinal de respeito, sorri para elas amistosamente e aponta para trás, em direção à casa da fazenda oculta pela colina, para explicar de onde vem e para onde pretende voltar. Mas não parece que as moças se constranjam pela presença da mulher branca e mais velha. Elas riem e atiram água uma na outra. Seus seios são perfeitos, sólidos e lisos. Entre as longas pernas despontam os jovens pelos de sua nudez. Uma delas diz algo à amiga, e elas subitamente apontam na direção da aldeia e colam a mão em concha a um dos olhos, tentando em vão encontrar a palavra certa que estimulará a visitante solitária a prosseguir em seu caminho. “Álafant”, elas se recordam finalmente. “Álafant”, gritam de alegria por terem encontrado a palavra correta.

Daniela faz sinais de ter entendido perfeitamente a mensagem. Ela já esteve duas vezes com esse Álafant, inclusive à noite. Mas as moças não captam sua intenção, e para instigá-la a ir em frente na subida oposta elas saem do riacho e põem-se a dançar diante dela, atraem-na com graciosos meneios de suas nádegas rijas e apontam na direção correta. Daniela ri e diz, Sim, assim farei, eu seguirei em frente. Então olha para trás e vê que o velho porteiro está de pé no alto da primeira colina. Assim, apesar de tudo há alguém se preocupando com ela e cuidando dela, como sempre. Então não tem mais motivos para impedir-se de sua terceira visita ao elefante tristonho.

Ao aproximar-se, porém, parece-lhe que o elefante já migrou para exibir suas maravilhas em outro lugar, porque a palhoça desapareceu da paisagem. Ela continua a caminhar e percebe que chegou bem na hora do adeus. A cobertura de palha jaz enrolada, mas o próprio elefante ainda está acorrentado ao toco de árvore, e o enérgico e competente dono do animal luta para cobrir seu tesouro com um retalho colorido, quem sabe para proteger o olho ciclópico azul do pó das estradas, ou talvez do olho gordo dos malvados. Mas o elefante se rebela, balança a cabeça, lança a tromba para o alto e protesta com um estranho rugido, que os africanos em volta imitam com intensa exultação.

Por fim aproximam-se alguns dos espectadores e se oferecem para participar do esforço do dono, tentando acalmar o grande animal, e o retalho colorido é amarrado com força atrás da orelha oposta ao olho prejudicado. Apesar de não haver motivos para acreditar que esses africanos viram na televisão o elefante que os netos de Daniela adoram — um elefante que sofre de dor de dentes e vai ao dentista, um coelho —, eles aplaudem ao verem o elefante com a venda no olho.

O coração batendo com força, Daniela abre caminho em meio à multidão, que não dá atenção alguma à sua presença pois estão todos voltados para a criatura, que tenta remover a venda balançando ansiosamente a grande cabeça. O sofrimento do elefante faz o coração da mulher tremer, como se ele fosse um parente próximo. Ela força passagem até o dono do animal, teimosa e decididamente parado em frente à criatura rebelde, com a ponta da corrente já na mão, pronto para seguir caminho. Ela abre o zíper do casaco da irmã e retira dali uma nota, oferecendo-a a ele à vista de toda a plateia, na condição de que ele tire a venda e lhe exiba mais uma vez aquele olho único no mundo.

O homem de pequena estatura, que sem dúvida se lembra da mulher branca e a identifica, parece entontecido e abalado por essa oferta. Pois a nota que lhe é estendida, e só agora ela se dá conta de seu erro, é de cem dólares; e, apesar de mal haver terminado a difícil tarefa de amarrar a venda, ele não se permitiria abrir mão de uma contribuição de somente um único dólar, que dirá de uma verde nota de cem, que lhe é oferecida de modo tão resoluto e pode muito bem mudar o rumo de sua vida. Assim, ele se apressa em amarrar novamente a corrente ao toco, e ordena ao elefante que se ajoelhe e mesmo que se deite completamente à frente da mulher generosa mas agressiva. O homem estende a mão e busca algo atrás da orelha, que se eleva como um abano, ele localiza o nó, desamarra-o e retira o pano colorido, para alegria de todos os presentes.

E dentro do azul amarelo-esverdeado, voltado para ela com anseio, condensa-se uma umidade que muito lentamente se converte numa lágrima, e depois desta escorre mais uma, e as lágrimas da muda criatura, que talvez lhe tenha até mesmo gratidão, agitam a alma da turista, como se nesse exato momento houvesse se realizado finalmente o desejo que a trouxe até a África em plena festa de Hanukah.

5

“Pedir socorro a quem?”, espanta-se Yaári.



“Por exemplo a um companheiro, caso ele estivesse aqui”, sorri a sra. Bennett, e Yaári percebe a vitalidade de seu senso de humor.

“Mas por que justamente no seu quarto de dormir?”

“Porque só aqui, no canto, o seu pai teve a certeza de que não teríamos na parede a surpresa de um cano d’água, ou de telefone ou eletricidade, de modo que se ele saísse por aqui para o terraço não havia perigo de estragar nada.”

Yaári hesita um pouco antes de entrar no minúsculo elevador. De fato, um portento de engenharia muitíssimo sofisticado, quase uma diabólica artimanha, aqui realizado na década de 1950. Seu pai havia conseguido adaptar ao canto do quarto de dormir um elevador movido pela pressão hidráulica produzida por um pistão lateral fixado à parede, que aciona uma haste em forma de mão presa embaixo da cabine, fazendo-a subir e descer ao longo de dois trilhos de sete metros de comprimento, até um pequeno e escuro nicho no qual se pode ver a porta de saída para o terraço.

Mas a psicanalista, talvez com a ajuda do pai de Yaári, não conservou o elevador em sua nudez mecânica. Investiu nele um bom esforço estético, tanto dentro quanto fora, no poço à sua volta, para que se integrasse harmoniosamente ao apartamento. Dois painéis da cabine foram revestidos de placas escurecidas de carvalho; e para que o viajante não se esquecesse da própria cara antes de chegar ao seu destino, por mais curta que fosse a viagem, um pequeno espelho estava fixado numa delas; o terceiro lado do elevador permaneceu aberto para o pistão preso à parede do poço, parede essa que, essencialmente, era uma continuação natural da parede do próprio quarto, razão pela qual estava caiada e nela havia inclusive a foto de um cavalheiro europeu de aspecto importante.

“Aqui também você enfiou o seu Freud?”, comenta ele, não conseguindo impedir-se de caçoar um pouco da velha psicóloga.

“Esse não é o Freud. Aqui eu pendurei o Jung.”

“Quem é esse?”

“Se você se sentar depois para tomar um chá eu lhe contarei sobre ele.”

Yaári examina de modo cordial sua interlocutora, depois fecha com cuidado a grade de ferro e aperta o botão de subir. Inicialmente se ouve um zumbido fininho mas demorado, apontando para alguma dificuldade na passagem da energia elétrica, mas subitamente o elevador passa a agitar-se com força, estremecendo e rangendo como se lutasse contra um invasor estranho e hostil, até que por fim, sem motivo discernível, aquieta-se e se rende, e passa a arrastar-se para cima ao som de um uivo esquisito, de cortar o coração. Ao longo do estreito poço o lado não coberto mantém seu aspecto caseiro, pintado e liso, e durante o percurso exibe algumas paisagens pintadas por amadores.

O estremecimento e o rangido recrudescem no final do pequeno trajeto, como se uma mão invisível e enérgica precisasse lutar contra o desejo do elevador de continuar a subir para além do terraço. Mas o uivo não cessa quando o movimento chega ao fim. Por longos segundos continua agonizando em sua dor. Aos ouvidos de Yaári, não se trata da choradeira de uma gata no cio, como disse a dona da casa ao pai dele, mas das lamentações de um chacal, como aqueles que erravam pela noite durante sua infância.

O sol invernal de Jerusalém ofusca os olhos de Yaári quando ele desembarca numa laje ampla e plana, malhada por cicatrizes de piche envelhecido. Alguns tonéis barrigudos e veteranos estão dispostos ao redor do prato de uma antena brilhante, que envia seus cabos para todos os lados. No canto oriental há uma mesa branca, cujas cadeiras se prendem por correntes a seus pés, para não ser levadas por uma ventania.

Mas se era verdade, como disse seu pai, que a moradora podia avistar as muralhas da cidade antiga na época em que a cidade permaneceu dividida, eis que agora, na divisão unificada, as muralhas desapareceram atrás dos bosques de antenas e de tonéis dos aquecedores solares, e apenas as torres da Augusta Vitória e da igreja ortodoxa continuam erguidas no alto do monte das Oliveiras. Ele olha para o oeste, na direção do antigo Parlamento, e observa com doce afeição o edifício Fromin, com seus três andares. Pois então esse é um tipo de elevador secreto, ele acha graça na ideia, que sem ninguém saber leva ao terraço direto do quarto de dormir de uma mulher solitária, e poderia ser uma tentação para alguém interessado em eliminar um adversário político irritante que ingenuamente veio a uma sessão plenária.

A portinhola metálica onde termina a escada de ferro vertical é levantada com ímpeto e jogada contra o teto com uma forte pancada. Equipada com óculos escuros e um chapéu de palha, surge a sra. Bennett depois de escalar os degraus embutidos na parede, investindo com uma queixa contra o engenheiro de elevadores que não fechou com cuidado a grade e com isso impediu que ele fosse chamado de volta.

“Ai, desculpe, eu estava imaginando que você tinha receio de usá-lo.”

“Por quê? Que perigo há se ele treme um pouco? E olhe que seu pai havia instalado para mim um botão de emergência que libera a pressão hidráulica e faz o elevador descer sozinho.”

“Eu não percebi esse botão”, ele sorri afetuosamente para a pequena anciã parada à sua frente, enrugada mas ligeira, capaz de falar de “pressão hidráulica”. “Estou vendo que meu pai realmente cuidou de tudo por aqui.”

“O seu pai é um verdadeiro amigo, amigo para toda a vida. Se ele estivesse um pouco menos doente era ele que estaria aqui, e não você.”

“Com certeza.”

“Então, o que você acha do meu elevador? Por que ele sofre tanto?”

Yaári dá de ombros e seu olhar não se desvia do prédio do antigo Parlamento.

“Diga-me”, ele ignora sua pergunta, “você já morava aqui quando jogaram pedras sobre o Parlamento por causa das indenizações da Alemanha?”

“Claro. E eu mesma algumas vezes tive vontade de ir lá jogar uma pedra naquele Parlamento, mas não por causa das indenizações, e sim por outros motivos.”

“Por exemplo?”

“Exemplos há de sobra. Mas o sol aqui está forte demais para ficarmos falando de história. Vamos lá para baixo.”

Apesar dos aquecedores e dos batalhões de antenas em volta, não falta graça a esse terraço hierosolimitano. O deserto de Judá purifica e clareia o ar.

“Desça no elevador, eu vou pela escada.”

“Por quê? Vamos descer juntos. O seu pai fez com que o elevador pudesse carregar duas pessoas.”

Realmente, por que não se espremer com ela no minúsculo elevador para saber como é andar nele a dois?

Ela entra primeiro e se encolhe no canto, e ele entra depois e a comprime com as costas, e então estende a mão e aperta o botão de descida. Novamente, como que vindo das profundezas, ouve-se aquele zumbido agudo e o elevador trepida com violência, e quando a sra. Bennett é impelida contra ele, exalando um cheiro agradável de sabonete, faz-se ouvir aquele uivo, e ao final da lenta descida a mesma forte mão imobiliza o elevador com intensidade, como que para obliterar sua intenção original de irromper no apartamento de baixo.

Ele abre a grade de metal, encolhe-se no canto e permite que ela saia primeiro.

“Ouviu? O que você acha?”

Yaári dá de ombros novamente, e volta a interessar-se pelo ano em que seu pai havia instalado o elevador.

“Foi em 1954.”

“E você tem certeza de que o meu pai me trouxe com ele?”

“Eu me lembro de você, um menino de sete anos.”

“Oito...”

“Tão pequeno, ficou sentado aqui no canto olhando fascinado para o pai. Então, quantos anos você tem agora?”

“Não é difícil calcular.”

“Seja como for, ainda é uma criança.”

“Cuidado, é exatamente assim que o meu pai se refere a você, menininha...”

“Ah, é tão gostoso isso e me faz tão bem... Você não imagina o quanto me alegra que ele me chame de menininha.”

“E a minha mãe, você conheceu?”, ele dispara, irritado.

“Claro. Ela era forte. Verdadeira. Ela também vinha de vez em quando me visitar junto com o seu pai. E certa vez a fizemos andar no elevador.”

“Estranho”, murmura ele, queixando-se em voz baixa, “nunca me contaram sobre você.”

“Talvez eu fosse uma espécie de segredo para eles”, ela pisca com uma pálpebra enrugada.

A cabeça de Yaári gira e ele chega a fechar os olhos por um momento, tentando retomar aquela visão epifânica. Como se sentisse o tormento em sua alma, Dvórah Bennett volta um pouco e pergunta com cuidado, com certa preocupação: Então o que você acha? Será possível consertá-lo?

E ele se recompõe e fornece um rápido diagnóstico.

“As trepidações provavelmente têm origem no pistão que aciona a pressão do óleo. Vai ser necessário desmontá-lo e examinar. Mas como desmontar uma coisa dessas? Talvez meu pai tenha alguma ideia. Se bem que vai ser impossível conseguir peças de reposição. A única possibilidade é mandarmos tornear as peças especialmente, e isso não é nada fácil.”

“Mas possível.”

“Talvez.”

“E o uivo?”

“Quem sabe não haja realmente um gato escondido ali?”, diz ele, piscando o olho.

“Não,” ela sorri, bem-humorada, “não há um gato, nem nunca houve.”

“Nesse caso não há alternativa a não ser trazermos aqui uma especialista com um ouvido sensível que possa nos dizer de onde vem o uivo. Caso contrário teremos de começar a desmontar peça por peça o sistema elétrico antiquado, que vai virar pó nas nossas mãos, e nunca mais conseguiremos montá-lo de volta.”

“Ou seja, a coisa vai longe”, suspira ela.

“É o que parece. E por enquanto eu preciso de um metro para medir. Você tem alguma coisa desse tipo em casa?”

6

Logo depois o elefante levantou-se e saiu andando, agora sem a venda no olho. Por gratidão ao animal que de súbito o tornou um homem rico, seu dono o dispensou da venda incômoda, limitando-se a enrolar o pano colorido e amarrá-lo à carga que depositou sobre o elefante. Sem mais tardanças, como se temesse que alguém tentasse compartilhar seu grande prêmio, pôs os óculos escuros contra o sol, tomou da corrente e puxou o elefante atrás de si. Aparentemente, também o animal alegrou-se por poder andar a passos largos savana afora, depois de ficar amarrado por muitos dias na palhoça não muito grande, e não se passou muito tempo até que os meninos que dispararam atrás do elefante até bem longe começaram lentamente a se dirigir para a aldeia.



O sol equatorial já castiga com gosto o cocuruto da visitante, e é tempo de voltar para a fazenda. Dado o alvoroço na partida do dono do elefante, e por ele ter desistido de amarrar a venda novamente, os habitantes concluem que, pelo visto, essa mulher de meia-idade, que veio aqui pela terceira vez, e agora sozinha, detém poder e influência, e por isso se apegam a ela em seu caminho de volta.

E assim, acontece à professora de inglês de ver-se como num passeio escolar, liderando atrás de si e a seu lado, numa linda manhã, uma caravana de meninos e também alguns adultos, e por um momento ela se assusta, mas cuida para não apressar muito o passo, para não pensarem que foge. Ela passa ao lado do riacho, no qual agora saciam a sede vacas cinzentas, e enquanto sobe a ladeira da outra colina repara na trilha sombreada que não encontrou, a mesma pela qual Yirmiyáhu a tinha guiado na primeira vez. A pequena multidão ainda a segue, não desiste — até que ela dá a mão a Yirmiyáhu, que tinha vindo a seu encontro.

“Você não pode circular por aqui sozinha”, diz ele, furioso.

“Por quê?”, ela sorri levemente, “Não me diga que é perigoso.”

“Não é perigoso e as pessoas não são violentas, mas mesmo assim você não anda mais sozinha.”

“O que aconteceu?”

“Não aconteceu nada e não vai acontecer nada”, ele diz de modo agressivo, “mas você não vai mais andar sozinha por aqui.”

Os meninos que a acompanhavam, parados a alguns passos de distância, percebem a ira do homem alto e careca, e seus olhos brilham de medo e curiosidade, para ver se o velho descascado chegará mesmo a levantar a mão para a generosa senhora. Ela se sente subitamente humilhada, mas continua a sorrir com presença de espírito.

“Eu não estava andando... estava passeando.”

“E não vai mais passear.”

“Por quê?”

“Por quê, por quê, por quê... porque é o que estou pedindo e é o que estou dizendo.” Agora um grito impaciente assume o poder em sua voz. “Você chegou sem o Amótz, e não vai perambular sozinha em lugar nenhum. Você sabe muito bem que o Amótz não a deixaria nunca andar sozinha por aqui...”

Ela continua a discutir, mesmo sem saber para quê.

“Você não é o Amótz, e não é responsável por mim. E por que você está zangado? Ao contrário da Shúli, eu não gosto de ficar sozinha, sinto-me sempre bem quando há gente em volta, mas eu pensava que você em geral estaria livre, e hoje de manhã você desapareceu.”

“Em geral eu não tenho muito trabalho aqui, mas às vezes fico um pouco mais ocupado, como na noite passada, e para mim isso é muito útil.”

“Útil para quê?”, ela deseja atirar, com angústia, à cara do homem velho e careca, cujas roupas claras a ofuscam à luz do sol, “para apagar a Shúli e também o Eyáli?” Mas em vez disso ela engole a língua.

7

Depois de anotar num pedaço de papel as dimensões do diminuto elevador, ele se despede de Dvórah Bennett sem prometer nada muito claramente. A prolongada ausência da esposa aumenta nele a sensação de fome pelos filhos. Há apenas dois dias Nófer acendeu com ele as velas de Hanukah, mas a presença do seu estranho colega impediu, talvez deliberadamente, qualquer possibilidade de uma conversa mais pessoal. Se acabei me abalando até a Jerusalém dela numa sexta-feira, pensa Yaári enquanto dá a volta ao prédio do velho Parlamento, para que a pressa de voltar? Antes mesmo de entrar no carro ele liga para o celular da filha e o encontra desligado. Quer dizer, ela está no hospital. Quando Nófer está de plantão ela mantém o celular desligado, para não interferir com o funcionamento dos aparelhos eletrônicos supersensíveis. Mas, em vez de desistir e conformar-se com um recado deixado na casa de seus senhorios, ele decide desta vez deixar-lhe um bilhete; surgiu-lhe a rara oportunidade de dar uma espiada no quarto que ela aluga, onde nunca mais esteve desde que a ajudou a trazer suas coisas a Jerusalém, quando a filha finalmente se decidiu por adiar o serviço militar em troca de um tempo de serviço voluntário num hospital.



Agrada-lhe perceber que os donos do apartamento, um casal que faz especialização no mesmo hospital em que Nófer serve, se lembram do pai dela, que na opinião deles se parece muito com a filha, tanto no aspecto quanto na linguagem corporal. Eles o recebem com evidente simpatia, mas se admiram por ele ter esquecido que nas manhãs de sexta-feira Nófer está sempre de plantão e com o celular desligado. Yaári, na verdade, se lembra e sabe de tudo, mas por acaso teve de vir hoje a Jerusalém, e antes de voltar para o litoral resolveu aproveitar a chance de dar uma olhada no quarto em que a filha mora há quase um ano, e talvez deixar-lhe um bilhete. Seria possível? Desde que a ajudou a trazer as coisas para cá ele não teve como saber de que modo ela se organizou, afinal.

Ao entrar no quarto alugado da filha, seu coração tem um pequeno sobressalto. Ele sabe que ela não ficará contente com essa invasão, ainda que limitada a um curto bilhete. Pois, como tinha imaginado, o que ele encontra é um caos total e absoluto de roupas, lençóis, livros e papéis, restos de comida e flores murchas — uma desordem concreta, quase que por princípio, que por alguma razão não incomoda os jovens donos da casa, parados na entrada do quarto a falar maravilhas da inquilina.

Surpreso e emocionado, Yaári balança a cabeça em concordância. Sim, ele sabe o valor da filha: apesar de assemelhar-se a ele externamente, seu interior, na verdade, pertence à mãe. Quer dizer, uma mulher com fronteiras claras e sólidas, que por isso pode se permitir a selvagem desordem a seu redor. Os dois riem gostosamente ao ouvir essa encantadora explicação, que poderão usar para justificar a confusão em seu próprio quarto. E Yaári sente-se grato ao jovem casal, que acolheu a filha sob sua asa protetora, e os interroga um pouco sobre eles mesmos, sobre seu plantão de serviços no hospital, sobre a especialização que fazem lá, e dali passa para a medicina propriamente dita, quais as novidades e o que já é obsoleto, e pelo fato de a conversa fluir com facilidade e franqueza permite-se fazer uma pergunta que seria melhor se permanecesse confidencial. Nófer não lhes parece angustiada e solitária em demasia? Solitária não, absolutamente, exclamam ambos ao mesmo tempo, pois à noitinha, quando não está de plantão, às vezes aparece um amigo, nem sempre o mesmo, para levá-la ao cinema ou a um pub. Mas triste? Talvez. É como se... hesita a dona da casa, como se, apesar de sua pouca idade, ela já tivesse perdido algo que não pode ser substituído.

Yaári eleva os olhos até a foto pendurada acima da cama da filha, de Eyáli ainda adolescente — foto de cuja existência ele nunca soube —, e gagueja algo sobre a origem da melancolia em sua família. Mas não é necessária aqui nenhuma explicação, pois os donos da casa já ouviram falar do episódio até o último detalhe. Nófer faz frequentes referências ao fogo amigo — são essas as palavras que ela usa, mas mesmo assim eles interrogam o pai que veio a eles, como pode ser que uma história dessas tenha ficado tão profundamente gravada nela? Que idade Nófer tinha naquela época, afinal? Porque parece que ela se confundia um pouco com as datas.

Era muito jovem, diz o pai, tinha onze anos e meio, estava na sexta série. E o rapaz estudava medicina pelo acordo Exército-Academia, mas depois não quis servir como médico, fez questão de se alistar numa unidade de combate. Se ele ainda estivesse vivo, seria médico como vocês. Mas uma diferença de idade tão grande, diz Yaári com um sorriso amargo, não impediu Nófer de pensar que, além de ela estar apaixonada por ele, ele também estava apaixonado por ela. Talvez ele tenha lhe dado algum sinal que não percebemos, algo que a deixou muito impressionada, e por isso ficou obcecada.

Pelos olhares dos donos da casa, o pai tem a impressão de ter ido longe demais. Exatamente porque eles gostam de sua triste inquilina e a respeitam tanto, ele não devia ter revelado coisas que ela própria ainda não revelou. Assim, para interromper a conversa de maneira delicada, ele olha o relógio e procura um pedaço de papel. Mesmo isso é difícil de achar no quarto. Por fim ele encontra um bloco de receitas da farmácia do hospital, arranca uma folha e escreve algumas palavras simples:


Nófer, minha querida, o vovô me obrigou a vir a Jerusalém para examinar um velho elevador de uma antiga namorada dele, então pensei que, já que eu estava aqui nesta sua cidade triste, podíamos tomar um café juntos, mas não me lembrei de que você está de plantão de manhã, e por isso mais uma vez eu perco a chance. O Morán ainda está entalado no Exército, e sua mãe, se você se lembra, está na África com o Yírmi até segunda-feira. À noite vou acender as velas na casa da Efrát. O que você acha de vir também? As crianças vão gostar, e a Efrát também, lógico. E assim tudo ficará menos triste. Eu estou como sempre no celular, esperando que você dê sinal de vida. Beijos, Papai.
Ele afasta algumas coisas sobre a mesa caótica para abrir um espaço claro e visível onde deixar o bilhete, e novamente olha para a foto do menino, mas de repente se dá conta de que Nófer não vai lhe perdoar por ter invadido assim sua privacidade. Numa decisão imediata, ele trata de anular sua presença ali. Amarrota o bilhete e o enfia no bolso, depois vai até os donos da casa, que nesse meio-tempo sentaram-se na cozinha com seu bebê, e enquanto eles o convidam para juntar-se a eles, Yaári lhes pede, enrubescido e mortificado, que ocultem sua estada ali. Eu a conheço bem, desculpa-se ele, ela é muito sensível quanto à sua independência, e terá muita dificuldade de aceitar que eu tenha vindo aqui sem aviso prévio, e tenha desse modo penetrado no seu caos. Por favor, então, não contem que estive aqui. Não digam nada. Nem deixei o bilhete lá. Vou ligar mais tarde... vai ser melhor para ela também. Muito obrigado, então... e me desculpem... eu sinto muito... desculpem... e, sem dar a eles qualquer chance de lamentar sua partida, ele se vira e sai do apartamento. Talvez o vento leste que despertou à noite tenha acrescentado ímpeto à velocidade de seu automóvel na via expressa de Jerusalém até o litoral. E a falta da mulher, que despertou nele o apetite pelos filhos, deve agora satisfazer-se apenas com seu pai, cuja alma admiravelmente generosa ainda consegue se apossar de sua curiosidade. Por isso ele toma iniciativa e liga o viva-voz:

“É isso, pai, estive lá com a sua dama.”

“E o que está havendo, então?”

“O seu elevador é uma graça, e a menininha também...”

“Vamos lá, Amótz, sem gracinhas agora...”

8

O coração de Yírmi abranda um pouco, e ele sorri e põe a mão no ombro de Daniela, como se desejasse anular não só a humilhação da hóspede, perturbada pela inesperada reprimenda, mas também a do velho africano, que correu para chamá-lo e agora está ali ao lado observando-os.



Ao voltarem para a fazenda, o africano trata de amainar o conflito dos dois parentes por meio de uma boa refeição. Põe mais lenha no fogo e assa um grande pão árabe redondo. Ele lança certas raízes escolhidas e algumas cascas a uma panela com água fervente, e acrescenta grãos de milho e carne cortada em cubinhos. Dois outros cozinheiros acordam no minidormitório ao lado da cozinha e apresentam-se para ajudá-lo. E Yirmiyáhu, sentado à frente da cunhada, quer saber o que tanto a fascina nesse elefante a ponto de ela ter ido vê-lo pela terceira vez. Mas Daniela ainda não está em condições de revelar seus sentimentos diante de quem agora mesmo ralhou com ela na frente de estranhos, e em vez de explicar o que a levou a buscar num defeito genético tão deslumbrante a raiz do infortúnio humano, ela trata de espicaçá-lo contando com um orgulho infantil sobre a nota de cem dólares que deu ao dono do elefante em troca da retirada da venda.

“Cem dólares? Você enlouqueceu?”

Não foi proposital. Apesar de não dar importância ao dinheiro, ela ainda conserva alguns limites. Mas, por acreditar que todas as notas que enfiou no bolso do casaco fossem de pouco valor, pois Amótz sempre guarda com ele as notas altas, só depois que a estendeu é que reparou em seu valor, e aí já era tarde demais, o homem a pegou com grande agilidade e a enterrou fundo em suas roupas, e logo correu a cumprir o que ela pedia. E quando o elefante se deitou à sua frente uma lágrima surgiu no imenso olho, e depois dela outra e outra mais.

“Lágrimas? De elefante?”

Foi isso que seus olhos viram. Como, então, dizer ao dono do elefante, um momento, cometi um erro, desde que a minha irmã morreu eu fiquei um pouco confusa, e lhe dei por engano uma nota de cem dólares, mas para você bastam dez, então me devolva a nota, por favor.

“Ele ficaria satisfeito com um único dólar.”

“Quem é que decide isso? Você? Em nome de quê?”, ela desanca o cunhado de modo agressivo. “Esqueça, Yírmi, eu estou muito contente por ver que a nota de cem dólares, que o Amótz pôs na minha carteira, passou dessa maneira, com total simplicidade, para as mãos daquele homem, que de agora em diante talvez trate o seu elefante um pouco melhor.”

“Disso nunca saberemos, mas de uma coisa não tenho dúvida, você provocou uma pequena revolução na vida desse africano, que irá se lembrar de você pelo resto da vida.”

“É bom saber que pelo menos uma pessoa na África vai pensar em mim também até o fim da vida. Pois você próprio também não ficará aqui por muito tempo.”

“Por que você tem certeza disso? Tudo está em aberto... Aqui eu não devo nada a ninguém, sou livre como um pássaro.”

“Então vocês dois, você e o dono do elefante, se lembrarão de que eu estive aqui.”

“Eu? Quem foi que disse? É verdade que o amor da Shúli por você não tinha limites, mesmo quando você era uma menina chata, que ficava sempre atrás dela e entrava no quarto sem bater. Mas me lembrar? Estou aqui para esquecer, não para lembrar.”

“De quem você está falando?”, pergunta Daniela, apavorada.

“Você sabe muito bem. Estou aqui não apenas para reforçar as minhas economias, mas também para me esquecer dele e de tudo que me faria lembrá-lo.”

“Esquecer o Eyáli? Como é possível?”

“É possível... Por que não? Afinal ele não está em nenhum lugar, e eu ainda não sou um sudanês que acredita em espíritos.”

“Por que espíritos? É o único modo de manter uma lembrança?”

“A lembrança acabou. Já completei o luto por ele. Você não pode nem imaginar o quanto investiguei e aprendi sobre essa morte, mas a minha responsabilidade chegou ao fim. E se o nosso Eyáli — de todos nós, inclusive de vocês, por que não? Vocês também o amavam muito —, se esse filho por acaso ressuscitasse, acredite que eu lhe diria: Muito bem, meu querido, parabéns por ter conseguido voltar a um mundo que não teve piedade de você, que o pegou por engano e o liquidou com dois tiros certeiros. Mas agora, por favor, apesar de todo o meu amor, agora tenha piedade de mim e procure um outro pai.”

“Um outro pai?”, murmura ela, “você ficou louco?”

“E por que não? Já passei dos setenta, e não tenho mais muitos anos pela frente. Já cumpri o meu dever, completei a minha cota de preocupação e de torturas. No bar mitzvah do Eyáli, depois que ele terminou de ler o trecho dos Profetas, o rabino me pediu para anunciar em voz alta: ‘Bendito seja Aquele que me libertou do castigo deste aí’. Eu repeti essas palavras revoltantes como se estivesse possuído por um demônio. Mas agora, passados quase vinte anos da sua morte, tenho a impressão de que o demônio do bar mitzvah não era nada bobo. Agora eu abaixo a cabeça e digo simplesmente: ‘Bendito Aquele que me libertou’. Se o meu filho deseja voltar a ser um ‘caçado’, e não um caçador, tem todo o direito, mas que me faça o favor de procurar um outro pai.”

“Yírmi”, ela diz com voz abalada, “do que você está realmente falando?”

“Você quer envenenar a refeição?”

“A verdade liberta, não envenena.”

Yirmiyáhu a olha com carinho.

“Então está bem. Se você veio me ver inclusive para encontrar a verdade, eu lhe darei alguns novos detalhes sobre o fogo amigo que o seu Amótz atirou em mim.”

“Deixe o Amótz em paz”, ela retruca com impaciência, “ele desejou apenas consolar você.”

Ele pousa a mão no braço da cunhada.

“Não tenho dúvida, e não tenho queixa alguma dele. O Amótz é um homem prático, mora no meu coração. Mas o tal fogo amigo dele me deixou louco no início, porque para mim ele se transformou num projeto. A todo custo, de qualquer maneira, eu queria saber quem foi o amigo que despejou aquele fogo, como se chamava, que aspecto tinha, qual era a sua história, quer dizer, quem eram os seus pais, os seus professores, tudo.”

“E por que isso era importante? O que você queria fazer com ele? E o que você poderia fazer com ele, afinal? A Shúli nunca me contou que você se preocupou com isso.”

“Porque eu já não contava mais nada à Shúli. Ela pôs um fim na nossa sexualidade, e eu pus um fim na minha sinceridade absoluta com ela.”

“O Amótz soube algo a esse respeito?”

“Nem o Amótz nem ninguém mais.”

O cozinheiro africano pôs à frente deles dois pratos com uma espécie de cozido de carne e verduras.

“Isto é um café da manhã ou um almoço?”

“As duas coisas. Depois de dar cem dólares pelas lágrimas de um elefante nômade você merece uma refeição completa. E não estranhe o gosto da carne, ela foi cozida em fogo alto. Não vamos então estragar a refeição falando sobre algo que com certeza a deixará nervosa.”

“Então continue. Detesto comer em silêncio. Estou prestando atenção. Nunca imaginei que a identificação do soldado que atirou no Eyáli por engano seria tão importante para você. Afinal, todos disseram que ele não teve culpa.”

“E não teve mesmo. A culpa toda foi do Eyáli. Ainda assim eu quis entrar em contato com quem o matou.”

“Que contato?”

“Um contato.”

“E no final você identificou o soldado?”

“Não. No final perdi as esperanças e desisti.”

9

Com a mão trêmula, o velho Yaári tenta esboçar para o filho a estrutura interna do pistão da bomba hidráulica, que leva o elevador para cima e para baixo, enquanto Hilario corre para cá e para lá entre os quartos para arrancar de seu caderno de matemática novas páginas para outras tentativas. Conforme o pai se lembra, as duas partes do pistão ligam-se uma à outra por meio de cilindros internos e não por conectores externos cujos parafusos iriam enferrujar com o passar do tempo. Dessa forma, ele garantiu estabilidade e confiabilidade por muitos anos, e também que o óleo não vazaria por furos imprevisíveis. Mas nem um aço de qualidade, fundido na Tchecoslováquia antes da Segunda Guerra Mundial, seria imune ao desgaste do tempo, e por isso é necessário localizar o encaixe e separar as duas metades, e então retirar as dobradiças defeituosas e trocá-las por novas.



“Não vale a pena tentar desenhar, papai”, diz o filho para desestimular o esforço. “Tenho certeza de que a esta altura as duas partes já se fundiram, de modo que vai ser impossível separá-las. A única opção é desmontar todo o mecanismo da parede e tentar conseguir algum outro que o substitua e faça o mesmo trabalho.”

“Mas não acredito que seja possível conseguir peças prontas que se adaptem ao meu pequeno elevador. Será preciso tornear um novo pistão de acordo com o antigo.”

“Tornear já é outra história. Não tenho ideia de quem poderia fazer isso, para não falar dos custos.”

“Por quê? Posso pedir ao Gottlieb que faça a peça na fábrica, ele me deve muita coisa e poderia quebrar esse galho para mim.”

“Não se iluda de que ele vá trabalhar para você. E eu não tenho nenhuma certeza de que ele é capaz de fazer esse trabalho, porque na fábrica dele tudo é automático e informatizado, e os tornos trabalham conforme modelos fixos. Já passou a época das oficinas capazes de fazer por encomenda todo tipo de peça para elevadores pessoais de mulheres solitárias.”

“Para mim ele faria”, diz o pai, ignorando a cínica observação do filho. “Eu sei do que ele é capaz.”

Hilario está a postos perto da cadeira de rodas, pronto para ir correndo buscar mais uma folha para o velho. Francisco sentou-se em frente a eles, prestando atenção máxima, e da cozinha ouvem-se os trinados de Kinzi misturados ao vapor dos cozidos para o almoço.

“E nem falamos ainda da instalação elétrica com aqueles uivos”, continua Yaári num tom ameaçador, “o que é uma outra história. Quero cair morto se alguém seria capaz de descobrir onde você a escondeu e de onde vem a energia.”

O velho sorri. Por que morrer? Ele já não se lembra mais onde ela está, porém, como se trata de matéria e não de espírito, vai aparecer um dia. Mas a energia para o elevador vem direto da companhia de eletricidade.

“Da companhia de eletricidade?”

Como o apartamento de Dvórah Bennett, tão antigo quanto os demais no mesmo prédio, não tem três fases, o pai não quis sobrecarregar o sistema e acabou encontrando um jeito de ligar o motor direto na rede elétrica da rua. Significa que a menininha andou viajando de graça ao longo dos anos, como se fosse um membro veterano da comissão estatal de energia elétrica.

“Já percebi que essa mulher despertou em você certos instintos criminais”, ri Yaári. “Mas nesse caso pode esquecer de mim. Não chego perto de nenhuma instalação elétrica que uiva e trepida ligada a uma fonte não identificada e ilegal.”

“Não exagere... Você disse que o Gottlieb tem uma especialista em ruídos técnicos, então vamos levá-la a Jerusalém e juntos vamos encontrar esse gato e fazer com que cale a boca.”

“O que quer dizer ‘vamos levar’ e ‘juntos’?”

“Eu também irei a Jerusalém. Quero ver mais uma vez esse elevador no quarto dela antes de morrer. Você contou que estou em cadeira de rodas?”

“Dei algumas indiretas.”

“Por quê?”

“Para que ela não o perturbasse demais. Mas não me diga que você tem vergonha.”

“Agora já não tenho mais. Mas, para dizer a verdade, quando a doença começou eu tive muita vergonha, e cortei a comunicação com ela. Saiba que depois que sua mãe morreu eu tentei me dar mais liberdade, tornar mais concreto o que já sentia por ela antes. Para falar a verdade, Amótz, quando construí esse elevador no quarto dela, eu me apaixonei completamente. E não numa fase só, em três. Eu quase não conseguia respirar perto dela. Depois tentei esfriar essa paixão. Mas quando sua mãe se foi e fiquei sozinho tivemos um caso bem agradável, não muito intenso, claro, bem compatível com a nossa idade. Se não fossem os pacientes que viviam na casa dela o dia inteiro, eu teria ido morar com ela. Mas nesse momento o tremor aumentou e chegou aos meus joelhos...”

O rosto de Yaári pega fogo ao ouvir as confissões amorosas do pai.

A filipina sai da cozinha, pequena e tímida. Menina anã, vestindo um roupão de seda colorida, pergunta ao dono da casa em inglês se ele está pronto para o almoço.

“Talvez daqui a pouco”, responde ele, num inglês capenga.

“Mas acabei de passar o bife na frigideira, como o senhor gosta.”

“Coma, papai, eu não vou fugir, vou ficar sentado aqui perto.”

“Mas você não gosta de olhar quando me dão a comida.”

“Não faz mal, está tudo bem. Eu até vou lhe fazer companhia.”

Francisco pega um grande guardanapo e cobre o peito do pai. Traz um prato com bife e ervilha, corta a carne em pequenas porções, põe um garfo na mão trêmula do pai e segura um outro garfo em sua própria mão, com o qual vai alimentando o ancião.

“Quer que façam um bife para você igual ao do seu pai?”

“Eu posso comer bifes em qualquer lugar. É melhor eu experimentar o que a sua esposa está cozinhando para você.”

A filipina se alegra com o elogio, e põe na tigela de plástico amarelo, em que Amótz comia na infância seu mingau de semolina, a sopa quente cheia de frutos do mar.

“Você agora come até insetos?”, admira-se o pai.

“E o que fazer? Desde a infância vocês me ensinaram a aceitar o que me serviam.”

Francisco dá de comer ao velho trêmulo, enxugando de vez em quando o líquido que escorre de sua boca, juntando no guardanapo os grãos de ervilha que caem e devolvendo-os ao seu destino. Amótz não se abala com a dolorosa cena, mas sente que seu coração anseia pelo pai, que luta para preservar a dignidade. E assim, quando o pai começa cuidadosamente a perguntar sobre a dona do elevador, pedindo uma descrição detalhada dela e de seu quarto, ele lhe sugere convidar a menininha para vir fazer uma visita, e promete que ele próprio vai trazê-la e levá-la de volta.

Mas o velho não deseja que Dvórah Bennett venha visitá-lo em sua casa e o veja na humilhação da cadeira de rodas. Principalmente antes de ele ter comprovado que é capaz de honrar a garantia que lhe deu para toda a vida.

“Vamos falar com o Gottlieb”, implora o pai.

“O Gottlieb não vai ser útil nesse caso. Ele já não tem mais nenhum amor à profissão, agora ele só pensa em dinheiro.”

“Excelente”, inflama-se o velho. “Se agora ele só pensa em dinheiro, então insinue que não vai mais encomendar a ele os novos elevadores do Ministério da Defesa. Tenho certeza de que desse modo ele vai tornear qualquer coisa que você pedir.”

“Ameaçá-lo?”, admira-se Amótz. “Você quer que eu chegue a esse ponto?”

“Sim, Amótz. Quando você promete algo a uma mulher para a vida toda, você tem que cumprir a promessa.”

10

“E acredite”, continua Yirmiyáhu, “que não é fácil para mim desistir de identificar o soldado que atirou a bala mortal. Para mim era muito importante conhecê-lo cara a cara. No início tentei investigar de modo direto e aberto, mas quando me vi diante de uma muralha impenetrável de silêncio dos membros daquela unidade, passei a usar meios indiretos. Apesar de empregar técnicas sofisticadas, visitando o local e calculando ângulos dos possíveis tiros, não cheguei a nenhuma identificação positiva.”



“Por quê?”

“Por quê? Porque todos tinham medo dessa identificação, e fizeram o que podiam para me impedir. Temiam que eu estivesse planejando algum tipo de repreensão, uma acusação ou um processo. Ou até ao contrário: que eu grudasse no atirador de maneira doentia. Isso ocorre às vezes, e talvez acontecesse comigo também. Não consegui de modo algum convencê-los de que eu buscava uma identificação concreta justamente por me preocupar com o soldado que atirou, que apesar da culpa indiscutível do Eyáli, o atirador poderia, por excesso de sensibilidade, arrastar com ele uma ferida que iria envenenar a sua vida inteira. Eu queria me sentir capaz de tranquilizar o rapaz, de dizer-lhe: Querido, eu sou o pai que deseja ratificar a sua inocência. Você é inocentado não apenas por seus comandantes, mas também pelos pais do rapaz que você matou por engano. Para o seu bem, vamos manter contato. Se ao longo de sua vida surgir em você o pânico ou a culpa por esse fogo amigo contra um colega que errou no cálculo do tempo, você pode sempre vir me procurar e eu o ajudarei a diminuir a culpa e a abrandar o pânico.”

“Estranho...”

“Sim, é estranho, mas também é verdade. Eu fui atacado pela obsessão de segurar o dedo que puxou o gatilho. Como se aquele tivesse sido o último dedo a tocar a alma do Eyáli. Sim, Daniela, nos primeiros meses fiquei pensando em termos de espírito e alma, até que abandonei totalmente essas maluquices.”

Sobre o prato restam pedaços de carne que Daniela prefere recusar. Um dos cozinheiros cantarola sozinho uma alegre canção africana e reforça o ritmo da melodia com um batuque ágil sobre uma panela, e de vez em quando lança uma olhadela furtiva aos brancos. Os dois estão bem cansados, ela sem motivo aparente, talvez por estar longe do marido, mas Yirmiyáhu merece totalmente um descanso — poucas horas depois de voltarem de Dar es Salaam houve algo que a seu ver justificava uma viagem noturna até o sítio das escavações. Mas a atenção empática e emocionada da cunhada dá combustível à sua confissão febril.

“Pois teoricamente a identificação do atirador não precisava ser tão difícil. Não se tratava, aqui, de um fogo amigo anônimo, saído de um canhão ou de um helicóptero, que apesar de todos os equipamentos sofisticados permite saber com exatidão somente as intenções, não o modo como se concretizou o impacto. Aqui a história era muito mais simples, quase idílica, de um tiroteio entre amigos, um pequeno grupo de soldados de elite, oito no total, incluindo o comandante da emboscada, um oficial muito agradável chamado Micha, que no decorrer dessa história se tornou quase um membro da nossa família. Ele também estava servindo depois de concluir a universidade, no caso dele, direito, e no meio da noite enviou o Eyáli até a laje de uma família local para observar o terreno, para o caso de o ‘procurado’ escapar da emboscada que lhe prepararam. E não apenas uma emboscada, mas duas, ao norte e ao sul, ambas a uma distância de cinquenta, sessenta metros do prédio. Era tudo muito claro, muito simples. Você ainda se lembra de alguma coisa do que foi falado na ocasião?”

“Creio que sim.”

“Então diga se não é verdade: não dei à família muito trabalho com detalhes em excesso. Shúli desconectou-se inteiramente da história ainda na primeira fase. E com toda a razão. Mas eu continuei a perseguir mais e mais detalhes, cavando aqui e ali, numa espécie de febre que talvez seja adequada a um tipo de luto masculino. Por exemplo, a vontade que surgiu em mim na época de saber quem era o ‘procurado’ daquela noite infeliz, por que ele era importante a ponto de precisarem infiltrar em sua homenagem oito soldados no meio da noite na cidade árabe de Tulkarem.”

“E por que você se importava em saber quem ele era?”

“Essa é justamente a pergunta que o oficial do Serviço de Segurança Geral me fez quando tentei arrancar dele algum detalhe sobre o ‘procurado’. O que você ganha se eu lhe disser o nome dele? Um ‘procurado’ vai, outro ‘procurado’ vem, a lista continua como sempre. Não falta muito para que todos os palestinos figurem aqui na lista de ‘procurados’. Ainda assim, teimei, ‘procurado’ para quê? ‘Procurado’ pelo quê? ‘Procurado’ pelo tribunal celeste, riu o oficial, e não me deu nenhum dado a mais. E com razão, porque um dado leva a outro, e essa informação não teria relevância nenhuma se a morte já aconteceu. Mas eu ainda sofria da vertigem que desejava absorver toda a realidade daquela noite, e pedi na televisão o vídeo do enterro militar, e eles me deram. Era uma reportagem muito curta, no máximo de um minuto, e à noite, depois que Shúli adormecia, eu a fazia rodar na tv muitas e muitas vezes, não para ver o nosso sofrimento, incluindo o drama da Nófer, que parecia querer jogar-se na sepultura junto com ele, mas para observar com muito cuidado os rostos dos soldados em formação, que deram os três tiros em honra do morto, mesmo que este tenha provocado por engano a própria morte. Eu ficava examinando as expressões no rosto dos soldados, dos quais eu já sabia os nomes e as histórias, porque acreditava que algo em suas expressões no momento em que apertaram o gatilho me permitiria descobrir a identidade do autor do fogo amigo.”

“Absurdo...”

“Sim, absurdo. Mas era assim naquela época. O que se pode fazer, é normal e até natural, os primeiros meses do luto são uma vertigem de absurdos. Por fora damos a impressão de manter a sanidade e o sangue-frio, mas por dentro nos perdemos entre a fantasia e o absurdo. E até alcançar a iluminação final, filosófica, naquela noite sobre a laje da casa em Tulkarem, não consegui sair desses absurdos todos e dar início ao meu Projeto do Grande Esquecimento. Por que você vai entender. Os colegas dele não nos abandonaram. Nós, afinal, não somos americanos ou japoneses, que mandam telegramas de condolências aos pais lá longe e dizem ‘Bye-bye’, mas não dizem ‘Até breve’. Entre nós existem comportamentos de luto já cristalizados, de não deixar a família do soldado sozinha, de manter um contato permanente com ela. Contato institucional e contato pessoal. Os componentes da unidade em que o morto serviu vêm visitar a família de vez em quando e se tornam quase parentes, convidam para eventos pessoais, contam sobre si mesmos, compartilham impressões. No início eles vêm em grupo, todos juntos, um bando de rapazes sem jeito que mal cabem na sala de visitas, e que se vigiam mutuamente para que ninguém diga alguma palavra inadequada. Mas, depois que passam a conhecer melhor os pais enlutados e se certificam de que estes ainda são seres civilizados e de que a morte não apagou o cerne da sua humanidade, eles começam a se permitir fazer visitas mais pessoais, em trios, ou duplas, e mesmo sozinhos, e desse modo repassam a suspeita a uns e a outros, como se fosse uma bola, e nesse meio-tempo alguns deles dão baixa mas continuam a nos visitar como civis, e a tentativa pretensiosa, patética e sem sentido de identificar o atirador se torna mais difícil e complicada a cada dia que passa. O fogo amigo pessoal se dilui em fogo-das-nossas-forças, um fenômeno coletivo, e aos poucos o fogo militar se transforma em fogo civil, e de fogo civil em fogo puro e simples, até que o próprio atirador já não tem certeza de que numa certa noite ele acabou atirando num colega. E então eu disse a mim mesmo, se é assim, preciso mudar de direção, e em vez de perseguir uma sombra para oferecer perdão a quem não o deseja e não precisa dele, vamos pedir ao Exército permissão para ver o local, vamos à casa em Tulkarem para entender melhor o que fez o meu filho cometer o erro. Porém, essa é uma história para outra hora. Agora o que eu quero é dormir. Mas o que você queria dizer?”

“Por favor, Yírmi, nunca mais diga que apenas parecia que a Nófer queria se jogar... Pois isso foi verdade, Yírmi, está provado, acredite, a menina entrou em depressão total na época do enterro, e ainda há sequelas disso.”

“Perdão, Daniela”, ele diz tenso, “não tive a intenção... Claro que tudo aquilo foi verdade. A Nófer é uma menina maravilhosa... e o amor dela pelo Eyáli também era maravilhoso.”

11

Já que é para ameaçar, pensa Amótz, que seja com cuidado e boa educação, e sem a presença do pai, cujo entusiasmo romântico poderia arrancar o fone de sua mão no meio da conversa e estragar a delicadeza da ameaça com uma admoestação impaciente de um velho que sabe que seu tempo já acabou. Assim, ele elimina o gosto dos frutos do mar com um bolinho filipino, afaga a cabeça de Hilario e vai para o escritório.



Sexta-feira cinzenta e fria. Duas horas da tarde. Os escritórios já estão fechados em toda a vizinhança, mas no salão da firma de Yaári há dois funcionários ocupados numa viva discussão à frente de um dos monitores. São dois engenheiros jovens, um homem e uma mulher, que ao longo da semana se deram o direito de ausentar-se muito honrosamente em função dos divertimentos festivos dos filhos, e nesse dia livre abandonaram a esposa e o marido e vieram completar o que deixaram para depois. Yaári sente orgulho do sentimento natural de dever que conseguiu consolidar em seus funcionários, mas toma cuidado de não se aproximar muito deles, para que não o detenham com alguma pergunta capaz de criar-lhe o desconforto de responder. Ele sorri e acena com a mão, e sem dizer nada entra em sua sala e fecha a porta.

Mesmo que, depois da conversa ao telefone no dia anterior, ele não tenha mais motivos para esperar por um novo sinal da esposa, cuja realidade dentro de setenta e cinco horas ele poderá segurar nos braços, Yaári se sente um pouco frustrado pelo silêncio africano. Por esse motivo ele liga para Gottlieb.

É urgente? Pode esperar?, reclama o industrial, que está num café se divertindo com colegas, está difícil falar e ainda mais difícil ouvir. E afinal, só porque a sua mulher ainda não voltou da África, você precisa me perturbar até numa sexta-feira?

“É bom saber que você está ligado na programação dela”, admira-se Yaári, “pelo que vejo, ao longo dos anos você passou a fazer parte da nossa família.”

O fabricante de elevadores amolece um pouco e se dispõe a ouvir um resumo, desde que seja dito em voz alta e clara. E Yaári lhe repassa o essencial no pedido do pai, de tornear novas peças para um pistão original e único, que envelheceu num elevador minúsculo e antiquíssimo em Jerusalém. Por que tornear?, indaga Gottlieb, por que não trocar o elevador todo, e aproveitar a ocasião para alargá-lo um pouco?

Não é possível aumentar, é um elevador estreito de uma senhora idosa, que sai de um armário embutido direto para o terraço. Não é possível alargar nem substituir, é essa a situação.

Como Gottlieb está com pressa de voltar aos amigos, cujos risos se fazem ouvir em meio à sua fala, ele promete examinar, no primeiro dia útil, as possibilidades do velho torno, que já está fora de operação há vários anos. Mas saiba, ele ralha com Yaári, que não é por você, que é um sujeito difícil, e sim porque é o seu pai que está pedindo. O que eu posso fazer, suspira o empresário, desde o primeiro dia, há cinquenta anos, me afeiçoei a ele.

Agora Yaári solicita também os serviços da técnica especialista em ruídos, para localizar a origem dos zumbidos no sistema elétrico daquele elevador.

“Se você quer alugar o ouvido musical da minha especialista”, informa Gottlieb com prazer, “você vai ter que pagar por fora. Não às minhas custas. Ela que tire um dia de licença formalmente, e você poderá brincar com ela tanto quanto quiser.”

“Mas um momento, precisamos dela também para diagnosticar a queixa sobre os ventos na torre, e isso já é da sua conta sim.”

“A queixa sobre os ventos? Como é que isso volta à pauta tantas e tantas vezes? Não tínhamos eliminado esse assunto da nossa agenda? Decidimos que não temos responsabilidade sobre as lamúrias causadas por erros da construtora.”

“Não, Gottlieb, ouça o que eu estou dizendo. Não é tão simples assim. Estive lá hoje de manhã, o berreiro e os rugidos são realmente insuportáveis. E por acaso encontrei o síndico, o morador enlutado...”

“Mas por que você foi até lá?”, Gottlieb o interrompe, furioso. “Eu não lhe avisei para não chegar perto do edifício e muito menos desse fulano, que num instante faz qualquer um morrer de culpa? Eles querem nos provocar despesas enormes, e sem que sejamos responsáveis por coisa alguma. Se eles quiserem abrir os elevadores e examinar o poço, muito bem — mas que paguem cada minuto do trabalho dos técnicos. Preste atenção, Yaári, estou lhe avisando, se você está procurando encrencas, faça-o sozinho. Esses ventos não me interessam nem um pouco. Eu estou fora dessa história toda.”

“Você não está fora de coisa nenhuma”, responde Yaári, conservando o sangue-frio. “Você vai ter que ficar por dentro. Prometi ao tal morador, o síndico, que nós dois, mais o arquiteto e a construtora, vamos descobrir a natureza do problema. Você não pode dispensar a si próprio e sumir. Porque se você prejudicar a minha credibilidade no futuro, eu vou ter de tirá-lo de coisas que são do seu interesse.”

“Do quê, por exemplo?”

“Por exemplo dos novos elevadores do Ministério da Defesa. Acredite em mim, Gottlieb, que se fizermos a encomenda aos chineses o Estado vai economizar um bom dinheiro.”

Agora impera o silêncio do outro lado da linha. Yaári ouve a respiração do fabricante de elevadores, que acabou de levar uma flechada no bolso.

“Você está me ameaçando?”

“Se você quiser, pode chamar a isso de ameaça.”

“Você sabe que eu também posso ameaçar.”

“Claro, qualquer pessoa neste país pode ser ameaçada por alguém. Ninguém está imune.”

“Nem você.”

“Com certeza.”

“E é assim que você ameaça uma pessoa que agora há pouco chamou de membro da família?”

“Justamente porque é membro da minha família”, ri Yaári.

“Tome cuidado, eu vou fazer queixa de você ao seu pai.”

“Tome cuidado você, foi exatamente ele que me deu a ideia de fazer a ameaça.”

“Então vocês combinaram para arruinar o meu sábado.”

“Não vamos arruinar nada, meu caro Gottlieb. Por enquanto não se trata de dinheiro, trata-se só de tempo. Esses ventos que perambulam pela torre só estão exigindo de nós alguns momentos de atenção e de paciência, para encontrarmos outro lugar por onde eles possam sair.”

12

Lá fora escorre uma chuva apressada, que desabou sem aviso prévio, mas a grande cozinha da fazenda está cada vez mais aquecida pelas refeições destinadas à equipe de cientistas famintos que chegará amanhã para o fim de semana. A mão de Yirmiyáhu sustenta-lhe a cabeça, como se, por tamanho cansaço, o crânio pudesse cair e rolar sobre a mesa por entre a profusão de pratos. A viagem noturna até o sítio de escavações — ainda não se esclareceu por quê — foi extremamente exaustiva; as estrelas e a lua, os amigos de Sijin Kuang, desapareceram atrás das pesadas nuvens, e ela pôde guiar-se apenas pelas árvores e pelos ventos, que a faziam errar vez após outra. Os olhos de Yirmiyáhu agora se fecham por vontade própria, de modo que ele decide subir pesadamente os degraus até seu quarto temporário, enquanto ela permanece sentada à grande mesa, acompanhando distraída o trabalho dos cozinheiros, sorrindo para eles com muita cordialidade. Os africanos sentem-se muito atraídos por essa senhora branca, e frequentemente vêm com alegria pedir a ela que prove um bocado desta ou daquela comida que acabou de ficar pronta. Assim, não lhe resta alternativa senão também subir ao quarto. A chuva cessou tão depressa quanto surgiu, e um sol recém-escovado apareceu para degustar o mundo. Mas, depois da reprimenda que recebeu do cunhado, ela não ousará mais sair nem para um pequeno passeio.



Ocorre-lhe pensar que talvez sua visita esteja se prolongando em excesso. Hoje mesmo havia um voo de Morogoro a Nairóbi, e de lá seria possível chegar a Tel Aviv amanhã cedo, passando por Amã na Jordânia. Mas uma segunda espera, sobretudo em Amã, havia assustado Amótz, e ela mesma não considerou apropriado fazer uma viagem de luto do continente asiático ao continente africano por não mais que três dias. Se houvesse aqui um jornal de fim de semana ela poderia até sentir o prazer de estar distante do marido e de casa. Mas não há nem resquício de jornal, nem mesmo em outra língua, e resta a esperança de que até sua volta, na segunda-feira, Amótz não elimine tudo aquilo que valia uma leitura.

Ela pergunta aos cozinheiros se há na cozinha um pequeno rádio portátil que possa conectá-la com o mundo. Apesar de eles compreenderem o que ela deseja, não há aqui nenhum aparelho desses, mas eles prometem que os cientistas que chegarão amanhã do sítio de escavações em busca do macaco primevo poderão dar-lhe notícias atualizadas do grande mundo. Porque lá, na ravina, existe um grande prato, que coleta tudo aquilo que é interessante e importante no mundo. Assim sendo, por enquanto ela desiste de ligar-se ao mundo.

Mas da cabeça que começa a doer não é possível desistir. Seria uma indicação de que a pressão sanguínea está subindo, ou uma simples dor de cabeça? Para ela ainda é difícil identificar os indícios de pressão alta que surgiram depois da morte da irmã. O médico de família não se impressionou muito com a pressão e viu nisso apenas uma reação emocional. Portanto, em vez de atrelar a ela um comprimido diário, sugeriu uma caminhada diária e alguma perda de peso, deixando para Amótz a tarefa de medir de vez em quando a pressão da esposa com o aparelho apropriado.

Caminhada diária e perda de peso não são coisas que fascinem uma mulher não muito tolerante com limites impostos à sua liberdade. É mais simples arregaçar a manga e estender o braço nu ao marido, para que ele ate a faixa do aparelho e lhe garanta que seus sintomas são apenas ilusórios. Mas aqui na África, numa fazenda isolada, ela pode contar somente consigo própria, e visto que há dois comprimidos para baixar a pressão colados ao seu passaporte, não há razão para não engolir um deles e levar o outro consigo a Israel. Ela sobe então ao seu quarto, ao passaporte.

No entanto, antes de tomar o comprimido, Daniela prefere trocar uma palavra com a enfermeira sudanesa, que deve ter um aparelho como aquele do marido. Ela volta à cozinha, e os cozinheiros sabem como orientá-la até a enfermaria de Sijin Kuang, localizada não no prédio, mas numa construção nos fundos, afastada, que no passado colonial funcionou como estrebaria. Lá, sobre um chão de esteiras, envolta numa manta preta, está deitada a sudanesa, dobrada como um enorme pássaro, e a modesta enfermaria lembra a Daniela a enfermaria da escola onde ela leciona. Um armário de vidro com fileiras de vidrinhos e bandagens e adesivos, e seringas e frascos de desinfetante, e sobre uma pequena maca estão um estetoscópio e alguns apetrechos brilhantes para espiar nos furos do crânio humano, e no canto, ei-lo ali, pendurado, o aparelho para medir a pressão sanguínea.

Daniela toma cuidado para não perturbar o sono de Sijin Kuang, que agora se recupera dos erros de navegação cometidos na noite anterior. Ela espera num banco lá fora. A dor de cabeça não dá trégua, e o pequeno comprimido que o marido havia dado ainda está em sua mão, e ela se pergunta se não é melhor tomá-lo e desistir da consulta. Mas Daniela tem a impressão de que o contato com a pele aveludada nascida no deserto lhe fará um bem maior que a mão forte do marido.

Ela fecha os olhos para permitir que o zumbido sereno da natureza dilua um pouco a dor, e pelo ar claro e puro fluem até ela os odores da cozinha. Sua aversão às tarefas da cozinha sempre a espicaça com uma culpa feminina adormecida, e por isso ela muda de posição, deita-se sobre o banco duro e cruza os braços sob o crânio, como um pequeno travesseiro. É impossível que Shúli tenha lhe ocultado alguma coisa. Depois da tragédia ela ligava duas ou três vezes por dia para a mãe enlutada para fortalecer-lhe o espírito e conversar longamente com total franqueza. Se Shúli soubesse, mesmo que indiretamente, que Yírmi passou uma noite inteira na laje de uma casa palestina em Tulkarem, ela teria lhe contado imediatamente. Mas a irmã não sabia. No momento em que a sexualidade chegou ao fim, cessou também de existir a franqueza.

Seus membros sorvem bem-estar, apesar da dureza do banco. Ela cochila, e o sussurro do capim acalenta seu dormitar. Tem a impressão de ouvir débeis sons de flauta. É possível que, apesar de tudo, exista sim por aqui um rádio. A maciez de uma mão a toca. A enfermeira sudanesa, séria e altiva, põe a mão tranquilizadora em seu ombro, ao mesmo tempo que junta um dedo aos lábios, pedindo silêncio. Não se mova, não faça movimentos bruscos.

À distância de uns vinte metros está parado um animal preto desconhecido, do tamanho de um enorme gato, que empina um rabo grosso e peludo, e levanta suas patas dianteiras, das quais emergem garras curvas e muito longas. Sua boca estreita e comprida, como a de um pequeno crocodilo, escancara-se na direção de uma serpente amarelada, que se empina de dentro do capim agitando a língua e soprando como que numa flauta silenciosa.

Os dois animais estão hipnotizados um pelo outro, mas evitam aproximar-se. O bicho negro poderia, aparentemente, vencer a serpente com suas unhas e dentes, e talvez seria esse o destino dele segundo a natureza de sua criação, mas a hesitação indica que preferiria medir-se com uma presa menos arrogante e perigosa. Mas como se afastar da cobra sem perder o orgulho? Como cortar o contato sem que a honra de sua natureza seja atingida? Por isso ele aumenta os grunhidos e exibe as presas, para que a serpente pare de empinar a cabeça com tal nobreza faiscante e não bamboleie mais o corpo ao som sibilino de seu sopro. Mas a serpente também se apieda de sua honra, e, apesar de não ser capaz de devorar e digerir um animal grande como esse gato preto, gostaria ao menos de fazê-lo calar seus rugidos.

Sijin Kuang conduz Daniela em silêncio até a enfermaria. Até que esses bichos reúnam coragem para se afastar pode passar bastante tempo, ela diz em voz baixa. Você precisa de alguma coisa? E, apesar de a dor de cabeça de Daniela já ter passado, ela pede que a enfermeira meça sua pressão, para saber se vale a pena engolir o comprimido que traz na mão. A enfermeira faz o exame com toda a boa vontade, mas, ao contrário de Amótz, não lhe basta que a paciente esteja sentada. Deita-a antes de mais nada, e não se satisfaz com o arregaçar da manga, pedindo-lhe que tire a blusa.

Daniela gosta muito disso, e, como ela havia imaginado e esperado, a pele cor de carvão da jovem mulher tem a rica textura do veludo. Sijin Kuang também se esmera mais que o marido em envolver de modo correto seu braço com a faixa do aparelho. Será que minha carne branca, descascada, perturba essa jovem tristonha?, pergunta-se Daniela, e acha uma pena que a moça, concentrada nos movimentos da agulha do medidor, veja apenas os defeitos da idade em seus braços e sua barriga, e não os seios que conservaram a forma e o viço.

“Sua pressão está normal”, diz Sijin Kuang em seu excelente inglês, e ajuda Daniela a aprumar-se e mesmo a vestir a blusa. A porta aberta revela apenas silêncio. Durante o exame os dois animais reuniram coragem para afastar-se um do outro, ou, quem sabe, o bicho preto estaria agora com suas longas garras arrastando para a sua toca uma cobra dourada estraçalhada.

“Você deve ter tido uma noite difícil, não?”, diz Daniela, tentando afeiçoar-se à enfermeira, que neste momento enrola o aparelho de pressão. “Yirmiyáhu contou que você errou o caminho algumas vezes”, acrescenta, e sorri com simpatia.

O sorriso de Sijin Kuang exibe dentes alvíssimos e perfeitos.

“O seu cunhado é um homem mimado”, ela deixa Daniela espantada com essas palavras estranhas à sua afeição, lançando um feixe de luz inesperado sobre o homem que ela conhece desde a infância.

13

E dentro do elevador que desce ao subsolo do velho Parlamento, Amótz é despertado pelo toque do celular da nora, que num tom zangado o repreende: O que há com você, vovô, as crianças o esperam para acender as velas.



Aflito, ele sacode de si o sono profundo e sem limites. Eis aí o logro. Quando um homem como ele perambula entre uma velha encarquilhada de oitenta anos e um pai ancião a quem dão de comer numa cadeira de rodas, seus sessenta e um anos parecem destituídos de qualquer peso. Mas sozinho em sua cama, no quarto de dormir agora escuro, ele os sente pesadíssimos. Seria só pelo cansaço acumulado, ou a falta da mulher que dorme a seu lado enfraqueceu sua natural presteza em relação ao mundo?

O sentimento de culpa para com os netos que o esperam ao lado do castiçal de Hanukah alvoroça seus movimentos, e com uma agilidade impressionante, sem escolher as roupas nem lavar o rosto, ele corre para o carro e o faz disparar em direção à casa do filho, no lusco-fusco de uma véspera de sábado modorrenta e ensopada. No cruzamento de Halachá, diante de um sinal vermelho que demora muito para mudar, volta-lhe uma imagem de dentro do sonho, que já está a caminho de apagar-se. Era no prédio velho do Parlamento. Ele veio vestido de mecânico, com uma caixa de ferramentas na mão, e o bedel, com um quepe e um terno de flanela azul, abre-lhe a porta interna e o introduz num velho elevador, luxuoso e amplo, daqueles de que ele sempre gostou. Mas, em vez de levá-lo ao terceiro andar, para ver o terraço do apartamento da antiga namorada do pai, o ascensorista aperta o botão do subsolo e diz: prepare-se para uma descida sem fim, na época dos turcos havia ali um buraco bem fundo.

Ele liga para Efrát e verifica se vale a pena comprar no caminho algum bolo, ou sorvete, ou qualquer outra coisa para contentar as crianças. Não, já é tarde, ralha a nora, desta vez basta você trazer a si próprio, mas venha depressa, as crianças já estão impacientes e vão acender as velas sozinhas. O que foi que houve? Geralmente você é pontual.

Agora seu sangue já está fervendo. Por acaso, Efrát, ele murmura com ironia, eu sou um homem que também trabalha neste mundo, e lhe dá vontade de tascar na belezoca inútil também os sessenta e um anos de vida, mas ele se lembra da advertência da mulher para não humilhá-la, de modo que desliga rapidamente antes que lhe escape um palavrão. Mas, para não se sentir vexado ele próprio diante dos netos, Yaári não se permite chegar de mãos vazias, e para o carro perto de uma loja de guloseimas muito colorida.

Lá, entre os rapazes e as moças que se amontoam, desce sobre ele o espírito da doçura generosa de sua mulher, e sem fazer cálculos ele junta balas e confeitos para os netos. Atraem-no especialmente umas bengalinhas enfeitadas cheias de balas coloridas, e dois bonecos, menino e menina, esculpidos em chocolate preto.

Neta e Nádi debruçam-se sobre ele com amor. A ausência do pai faz subir automaticamente o preço das ações do avô. Ele os beija e abraça, em seguida abraça Efrát de leve e mal toca sua bochecha com os lábios. Ele se permitiu dar-lhe o primeiro beijo só depois que Morán anunciou o casamento, e ao longo dos anos, mesmo depois dos partos, ele não se arrisca a aumentar sua intensidade.

“Os doces são para depois do jantar”, ele declara com assertividade educativa, mas é tarde demais. A cabeça do menino de chocolate já foi arrancada e está agora dentro da boca de Nádi. “Seu comedor de gente”, ele beija com força o pequeno, mas o proíbe de comer o resto do corpo do menino sem cabeça.

O castiçal está pronto, com a vela assistente no receptáculo superior. Yaári vira a caixinha de velas, para ler corretamente as bênçãos na parte de trás. Não é certo errar o texto na frente das crianças. Mas repentinamente Neta teima que o avô tem que fazer a bênção com um quipá na cabeça, como faz o marido de sua professora no jardim.

Efrát sai dando voltas, cansada e desbotada, seu belo rosto pálido, os cabelos em desalinho, vestida com um roupão um pouco desleixado. Morán ligou de manhã e lhe pediu para ir com as crianças visitá-lo no dia seguinte, junto com os pais dos recrutas. Entrementes todos procuram pelo quipá, mas não é fácil achar um nesta casa. Nem um de papel, como os que se usam nos enterros. E eis que Neta, diligente, descobre uma solução: fabrica rapidamente um círculo de cartolina vermelha e lhe dá uma forma abobadada usando clipes. Yaári veste o chapeuzinho com um sorriso gaiato e dispõe-se a acender a vela, mas Nádi se lembra de que é menino e não menina, e portanto ele também necessita de um quipá, e é preciso esperar até que lhe tragam um chapéu, que quase cobre seus olhos.

Agora está tudo pronto para o acendimento das velas, e as crianças, emocionadas, exigem que as luzes sejam apagadas, para que as velas façam um “Fora, escuridão!”. Efrát parece deprimida, sentada no sofá, no escuro, mergulhada em pensamentos distantes. Talvez ela esteja novamente grávida, imagina Yaári, emocionado, e tira do lugar a vela assistente e a acende, esforçando-se por ler a primeira bênção à sua luz, e depois a segunda, e quando ele prorrompe com o “Maóz Tzúr Yeshuatí”, com voz mecânica, entrega a vela a Neta, que com ela acende a primeira vela e a segunda, e depois a repassa, com certa hesitação, a Nádi, que já está de pé sobre uma cadeirinha, pronto para acender a terceira e a quarta. E quando resta somente a quinta vela, Yaári pega a vela assistente e se volta para Efrát, venha, Efrát, acenda você também uma vela, mas ela o olha com estranhamento e não se move do lugar, já acendi velas suficientes desta vez, dê para a Neta, e ele entrega a vela para a menina, que acende a quinta vela, e no mesmo instante Nádi explode revoltado, tenta jogar o castiçal aceso ao chão, e quando o avô o impede de fazê-lo, desce ao chão de joelhos, como muçulmano, e bate com a cabeça no piso, uivando com fúria — porque a irmã acendeu a quinta vela e não ele. E não há como apaziguar seu ciúme, a não ser apagando a quinta vela e dando em sua mão a vela assistente. Mas ele ainda assim não se satisfaz, por que ele não acendeu a quinta vela primeiro?

Durante o jantar, ele conta à nora e aos netos sobre o pequeno elevador que seu pai havia construído para a sra. Bennett em Jerusalém, explicando como ele subia direto do quarto de dormir até o terraço do prédio, e que parte da cidade velha de Jerusalém era possível ver dali. Depois ele conta sobre a própria senhora, troçando do amor antigo que acabou despertando. A nora se interessa pela história. A ideia de que o avô de Morán viveu uma aventura em Jerusalém nos anos 1950 apetece à sua imaginação. Ela faz e refaz a conta dos tempos e dos anos — quando o elevador foi construído, quando a avó faleceu, quando o mal de Parkinson começou. Com uma curiosidade metódica e bisbilhoteira ela tenta reconstruir uma história de vida, para saber durante quantos anos a avó, à qual ela conheceu somente em seus dois últimos anos, foi enganada pelo marido, que teria mantido em segredo uma amante em Jerusalém.

Yaári tenta defender os pais, mas não obtém sucesso total. Efrát cruza os dados e prova a ele que seu pai não era santo. Por que santo?, admira-se Yaári. Porque você e Daniela tentam passar uma imagem de que com vocês está sempre tudo bem, que vocês são perfeitos. Yaári acha graça, perfeitos como? Nós também temos defeitos. Claro, a nora também acha graça, e seu rosto afogueado retoma o brilho maravilhoso, mas de algum modo vocês conseguem convencer a todos nós de que seus defeitos são qualidades. Amótz ri cordialmente e conserva o sangue-frio, talvez a Daniela, eu não. E observa com afeição o rubor que voltou ao rosto da nora.

Nádi come os membros e o tronco do menino de chocolate, e pede para comer também a menina de chocolate de Neta. Mas esta foi esperta em escondê-la num lugar alto, salvando-a das mandíbulas do irmão.

Na televisão, perto de um caça a jato, o ministro da Defesa acende as velas de Hanukah e canta em voz agradável “Aquele que fez os milagres para nossos pais”. Nófer liga e conversa alegremente com a cunhada, exigindo de seus dois sobrinhos que a beijem pelo telefone. Com muita relutância Yaári pega o fone e se pergunta, com algum receio, se os senhorios da filha delataram sua rápida visita. Fica claro que eles cumpriram a promessa, mas o pai de Yaári contou para a neta sobre a visita dele a uma antiga cliente em Jerusalém, e Nófer lamenta que ele não tenha tido a ideia de vê-la no hospital, porque ela o teria levado ao setor de trauma, para onde pediu transferência, pois assim ele agora poderia vir a acreditar na ressurreição dos mortos.

Nádi cai sobre o sofá, adormecido, e Yaári ajuda a neta a vestir o pijama, cobre-a e lhe conta a história de uma família que não se importa que um rato fique circulando livremente em sua casa. A louça se amontoa na pia, a mesa de jantar está um caos e as velas de Hanukah vão se extinguindo lentamente. A nora, inquieta, dá voltas pelos quartos, telefonando para cá e para lá à procura de uma baby-sitter, mas fica claro que é impossível, numa véspera de sábado, no auge de uma festividade, localizar uma garota que aceite abrir mão da festinha com os amigos. Escute, Efrát, ele diz com compaixão à mulher desesperada, eu fico aqui esta noite com as crianças, você também merece um pouco de alegria na vida. Ela ergue o rosto, espantada, sem saber se ele está sendo irônico ou sincero. Mas pode ser que eu volte tarde, ela avisa ao sogro. A hora que quiser, ele responde em tom generoso, dormi bastante durante a tarde, não vou ter problemas em aguentar acordado.

Por que aguentar acordado?, admira-se a nora. Ela estenderá um lençol e um cobertor sobre o sofá, e lhe dará uma camiseta e um moletom limpos do Morán, e ele poderá dormir tranquilo até de manhã. Agora ele recua: Não estou entendendo, você pretende voltar só de manhã? Não tenho como saber, ela diz com um sorriso misterioso, depende de como as coisas se desenvolverão lá na festa. Que coisas?, pergunta ele a si mesmo. Talvez seja o caso de impor limites à mãe de seus netos e fazê-la voltar até a meia-noite. Mas já é tarde demais. A jovem mulher despertou para a vida, e com muita rapidez uma dona de casa deprimida e desleixada transforma-se numa mulher alegre, de uma beleza esplêndida, cujos saltos ressoam à sua volta orgulhosamente. Seu leve vestido exibe, pelos ditames da época, tudo o que é possível e necessário exibir numa mulher, à exceção dos bicos dos seios, que ainda pertencem ao marido, e sua carne exposta e alva está semeada de uma espécie de poeira de estrelas, que iluminarão à frente da mulher o caminho para o banquete dos deuses.

Pelos olhares que Efrát lhe lança, dá para ver que ela espera receber algum elogio por sua aparência, mas Yaári prefere calar-se. Daniela já o advertiu para evitar com a nora qualquer elogio que os homens fazem às mulheres. Você não vai olhar para a sua nora com olhos de homem. Mesmo aquilo que é permitido ao pai dela é proibido a você. E certamente ela tinha razão. Porque quando ela se inclina para o filho adormecido, deitado ao lado de Yaári no sofá, para ver se vale a pena transferi-lo para a cama dele, os seios perfumados que quase lhe roçam o rosto, principalmente a minúscula tatuagem no alto de um deles, acendem nele um estranho desejo, e por um breve instante sua respiração perde o ritmo.

“Não o leve para a cama. Deixe-o aqui ao meu lado. Mesmo que ele acorde, eu me arrumo com ele.”

“O principal”, ela o surpreende, “é não dar nenhuma impressão de medo ou fraqueza, porque aí ele fica ainda mais maluco de propósito.”

“Fica maluco? Você não está exagerando?”

Apenas por precaução, para uma emergência, ela enfia a fita do Baby Mozart no videocassete. Desde quando Neta era bebê Yaári se lembra com saudade dos pequenos vagões transportando bichos; e das danças dos bichos tão simpáticos; e do vagão que some, volta a se engatar, e some outra vez; e das focas que vivem mergulhando e emergindo de novo; e tudo isso ao som da música genial de Mozart, que segundo todas as pesquisas tranquiliza a alma dos pequerruchos e ao mesmo tempo afia e amplia suas mentes. Se houvesse uma fita dessas na minha infância, ele costumava se queixar, hoje eu não seria um simples engenheiro, mas um cientista importante.

Apesar de sua advertência, a mãe elegante teima em batucar com os saltos altos até o quarto das crianças para despedir-se da menina adormecida, e tranquilizar uma possível angústia de abandono por meio da presença de um avô legítimo, forte e lúcido, que irá defendê-la dos fantasmas e dos pesadelos. Em meio ao sono a menina murmura um rápido protesto. Pode me matar se eu estiver errado, queixa-se Yaári, mas para que tanta franqueza? Contudo, a beleza de Efrát pelo visto a obriga a relatar todos os seus movimentos no mundo, para que a imaginação do marido não o torture. Agora ela se cobre com uma fina echarpe azul, que combina com a cor de seus olhos.

“Você não vai ficar com frio?”

“Está tudo bem, vou de carona de porta a porta.”

E, antes de se despedir, brilhando de alegria e gratidão, ela procura beijar e abraçar com força o velho baby-sitter que lhe apareceu, mas este recua, roça de leve nos cabelos dela e cuida para que seus corpos não se toquem demais.

“Vá... vá... não perca mais tempo.”

Mas assim que a porta bate prorrompe do quarto das crianças um berro desesperado: Mamãe, mamãe, cadê você? E quando ele corre para lá e acende a luz encontra a neta, doce imagem e semelhança da mãe que se foi, em pé na cama choramingando uma obstinada elegia: Mamãe, mamãe, cadê você? Por que você foi embora?

Neta é tida como uma menina obediente e racional, e, comparada com o irmãozinho selvagem, é definida por vezes como um anjo que caiu do céu. Assim, Yaári tem certeza de que conseguirá acalmar facilmente o choro que a atormenta e a deixa toda trêmula. Mas quando tenta acolhê-la nos braços ela intensifica ainda mais o berreiro, segurando a cabeça com as mãozinhas como se esta pudesse cair.

Ele fecha a porta do quarto das crianças, para que os gritos não acordem o irmão, mas é tarde demais. O pequeno já está martelando a porta com o punho, e quando entra — descalço, desfeito, de olhos vermelhos — sobe imediatamente para a sua cama e senta-se numa estranha postura oriental, observando impávido a irmã que se debulha em lágrimas, balançando o pezinho como se fosse um pêndulo.

“Eu estou aqui, estou tomando conta de você”, Yaári tenta dissolver o terror do abandono da neta, mas as lamúrias já adquiriram uma inércia própria, e nada poderá freá-la agora. E ela persiste em segurar a cabeça com a mão, como se uma síncope anunciada estivesse a caminho, e no torvelinho da lamentação, esganado volta e meia por um soluçar interior profundo, continua a malhar o mesmo refrão fixo e idêntico: Mamãe, mamãe, cadê você? Por que você foi embora?

Yaári se desespera. Ele previa um embate com Nádi, mas não com Neta, que sempre colabora de muito boa vontade. Assim, depois de tentar em vão tranquilizá-la com promessas, ele decide mudar de tática.

“Mas o que é isso, Neta? Você já é grande, não é mais uma menininha, veja como seu irmãozinho está sentado tão calminho.”

Mas ele já se arrependeu do que disse, porque à choradeira inconsolável adiciona-se agora um violento grito de humilhação.

E assim permanecem eles, sentados os três, presos num redemoinho perpétuo de lamentação cíclica e choro monocórdio, que já perdeu sua razão de ser original e se move, agora, pela energia de um ritual antigo por alguma perda atávica, pré-histórica. Nádi continua sentado em sua cama e prossegue balançando o pé. Ele tem só dois anos e pouco, mas seu rosto largo, forte, atesta que dali brotará um macho agressivo, talvez até violento. Com quem ele se parece? A quem ele lembra?, Yaári se repete a pergunta tantas vezes feita. Ele sorri levemente para o neto e pede um conselho: E então, Nádi, como vamos acalmar a sua irmã? “Nana quer a mamãe dela”, assim resume o menino para o avô em que pé estão as coisas.

14

“Tive vontade de sentir essa laje à noite, mas no comando autorizaram uma visita só à luz do dia. Por fim concordamos sobre um horário ao fim do dia, que se estenderia um pouco para dentro da noite. O oficial que comandava a companhia foi muito simpático comigo e tratou de satisfazer minha curiosidade e me ajudar a entender. E como era um oficial sério e experiente, que conhecia bem os moradores do local e não tinha medo de sombras, assumiu a responsabilidade de transgredir um tanto as ordens superiores e me permitiu ficar na laje, no lugar onde o Eyáli esteve, bem depois do pôr do sol, quando os moradores já estavam acendendo as luzes.”



Na fazenda africana o anoitecer também já está próximo. Yírmi está sentado perto da janela aberta, de frente para sua cama, onde agora está deitada a cunhada, ao lado da qual, aberto, repousa o romance do qual leu um pouco durante a tarde.

Vê-se que o sono de Yirmiyáhu foi profundo e tranquilo. Os olhos dele estão completamente abertos, a pele do rosto relaxou, dele emana um agradável cheiro de banho. Ele havia trocado as roupas suadas da viagem por outras, limpas e bem passadas, e bateu muito de leve na porta do quarto, e só depois de ter certeza de que a cunhada estava acordada e o convidava cordialmente a entrar, Yírmi entrou no aposento e moveu a cadeira da escrivaninha para perto da cama, sentando-se de costas para a luminosidade da ampla pradaria.

“E evidentemente a Shúli não fazia ideia de que você iria lá.”

“Claro que não. Você imagina que eu seria capaz de deixá-la apavorada com a ideia de perder também a mim no mesmo lugar? E tampouco depois eu lhe contei alguma coisa, porque sabia que ela teria certeza, e com razão, de que eu pretendia voltar lá.”

“E você pretendia voltar...”

“Não só pretendia, como voltei. Mas sozinho, sem nenhum israelense por perto.”

“E você não contou nem ao Amótz.”

“Nem ao Amótz. Porque eu sabia que entre vocês não há segredos, e no momento em que você viesse a saber — logo você, que não consegue segurar nem o farelo de um segredo — a notícia chegaria à sua irmã na velocidade do som.”

Daniela tenta protestar, mas sabe que ele tem razão. É difícil para ela guardar um segredo das pessoas que ama. Puxando o cobertor, ela trata de cobrir os pés expostos, e de repente sente saudade da mãe, falecida dois anos depois do nascimento de Nófer.

“Mas como você conseguiu a licença para chegar àquela laje?”, pergunta ela, ressentida.

“O que mais me espantou foi a facilidade com que consegui a permissão. No setor de enlutados do Ministério da Defesa há um pequeno escritório cuja função é lidar com pedidos esdrúxulos de pais, filhos ou irmãos em luto. Trabalha lá um velho funcionário, ele próprio um veterano que perdeu o filho, que conta com uma oficial da ativa, eficiente e bem treinada, e é ela que o põe em contato com os vários setores do Exército. Excursões de pais enlutados aos lugares onde seus filhos morreram não são consideradas solicitações extraordinárias, desde que o campo de batalha já não seja mais um campo de batalha, como por exemplo o Sinai, o planalto do Golã, e mesmo a fronteira com o Líbano. Mas nos territórios ocupados as coisas são mais complicadas, porque ali não há campo de batalha, e toda a região é um campo de batalha. Ainda assim, eles têm suficiente flexibilidade para atender a pais, e mesmo a irmãos e irmãs, que pedem para tornar concretos os lugares onde o ente querido morreu, e talvez até entender como e por qual razão. Você está ouvindo?”

“Cada palavra.”

“E o meu pedido mereceu uma atenção especial. Pois se referia a uma situação de fogo íntimo, que mesmo depois da investigação concluída ainda guarda alguns detalhes não explicados. É possível dizer, inclusive, que as pessoas naquele escritório não apenas trataram de vir ao meu encontro, como até esperavam que eu me dirigisse a eles.”

“O que você queria saber?”

“Eu queria examinar.”

“O que você queria examinar?”

“Por que ele, que fazia parte do grupo que procurava, tornou-se o procurado.”

“Mas vocês receberam a explicação. Ele errou o momento e desceu cedo demais da laje.”

“Ele não errou o tempo, Daniela. Eu já disse a vocês algumas vezes para descartar essa ideia. O Eyáli não era de se confundir com horários. O relógio que nos devolveram e que ele usava quando foi morto estava marcando a hora certa.”

“Talvez ele tenha ficado ansioso, talvez tenha tido medo de alguma coisa.”

“Não, ele não teve medo. O Morán de vocês era um menino medroso, mas o Eyáli não. Pare com esses ‘talvez’ e pare de tentar me ensinar algo que eu sei melhor que você. Preste atenção. É só isso.”

Ela enrubesce. Mas percebe o tormento na alma dele, e sem dizer palavra balança a cabeça em sinal de atenção total.

“Eu nunca tinha estado em Tulkarem, apesar de ficar só a meia hora de Natânia. Certa vez tomamos coragem e fomos até Hebron, e visitamos também a Igreja da Natividade em Belém. Comemos num restaurante em Ramallah, passamos por Jericó, e há muitos anos estivemos também em Nablus e Jenin. Mas eu nunca estive em Tulkarem. O que eu iria fazer numa cidadezinha tão pequena, simpática até, bem na fronteira? Uma cidadezinha simples, não muito malcuidada, bastante limpa, que tem várias ruas largas, algumas avenidas e alguns bosques e plantações. As casas são de variados tamanhos e projetos, de um andar, de dois e até de três andares. E há até algumas ainda mais altas. E obviamente não falta ali um pequeno acampamento de refugiados. Mas nada demais, dá para viver. Com certeza em Israel há lugares ainda piores.

“Às vezes os soldados sobem até as lajes. Para observação, ou para fazer emboscadas. Por uma noite, às vezes por várias. E há lajes importantes, estratégicas, onde todo um pelotão fica plantado por um mês inteiro. E debaixo da laje as pessoas vivem, famílias com crianças e amores e ódios. Nada demais. O mundo não acaba. O que importa é viver.

“E a nossa história é anterior à primeira intifada, numa época em que a confusão ainda não era organizada, e o caos era o comandante supremo dos dois lados. E esse oficial, um advogado bem-sucedido que voltou ao Exército em busca de aventuras, o comandante da companhia do Eyáli, estava naquela noite no lado oposto da cidade, e também estava atrás do tal procurado importante, que até hoje eu não sei que fim levou, se já está aproveitando a vida no tribunal superior, como disse aquele palhaço do serviço secreto, ou se o deixaram para lá. E esse tal oficial conhecia tudo, andava por Tulkarem como se estivesse em Ramat Gan, e tudo isso num jipe de luxo, pesado e à prova de balas, no qual está sentado um soldado taciturno com uma metralhadora. E ele me mostra o lugar onde o Eyáli foi atingido, entre as tábuas de uma obra, ao lado de uma torneira, e me aponta a entrada do prédio por onde ele saiu correndo, e me explica onde ficava a emboscada, e com as duas mãos faz uma demonstração dos ângulos em que os tiros foram disparados, uma bala e depois mais uma. E eu, que ainda mantinha a minha intenção de identificar quem atirou, pergunto a ele meio casualmente, e então, se os tiros vieram de lá, quem foi o soldado que atirou? E o oficial, um homem esperto, pisca o olho e diz, para quê? Você já conhece todos eles, são todos bons rapazes, por que discriminar um deles?

“Então, eu digo a ele, vamos pelo menos subir à laje. Eram cinco horas da tarde, e eu, Daniela, me lembro de cada detalhe. Subo as escadas, em parte sem corrimão, e em alguns lugares a parede não estava pintada, e eu ia passando por portas abertas e cumprimentando com a cabeça famílias inteiras, crianças e adultos, velhos e velhas, cozinhando, costurando, fazendo os deveres da escola. Um prédio com vidas inteiras lá dentro. Três andares de verdade, não muito bem acabados, mas em cima havia uma laje grande, cheia de roupas nos varais, lençóis coloridos balançando ao vento, e os moradores não pareciam surpresos de ver judeus subindo mais uma vez para observar o mundo do telhado palestino, e se vinha junto um civil já idoso a importância da visita era ainda maior.”

“Que época era, exatamente?”

“Era outono, três meses depois que ele foi morto. O tal soldado calado com a metralhadora era druso, e o mandaram conosco a fim de que traduzisse para o árabe quem eu era e o que estava fazendo ali. Mas não era necessário um tradutor, pois entre os moradores sempre há alguém que fala hebraico. Por exemplo, uma jovem grávida, simpática, estudante de história na faculdade Rupin. Ela não se lembra do soldado que morreu, mas seu pai logo vai voltar do laranjal e talvez ele saiba alguma coisa sobre aquele ‘acidente de trabalho’.”

“Acidente de trabalho?”

“É a expressão que usamos quando um deles morre por erros deles mesmos, por exemplo quando montam uma bomba. Por isso eles nos devolvem a expressão, por que não? Muito bem, lá estamos em cima da laje, e o druso apoia a metralhadora no parapeito, e o oficial me dá detalhes da região, e eu fico andando para cá e para lá, talvez encontre alguma pista, algum indício do que poderia ter feito o Eyáli descer de maneira suspeita. A noite já começa a cair, numa espécie de vapor azulado, e a estudante grávida que subiu conosco pergunta se é para tirar algumas das roupas da corda, e o oficial lhe diz que não é necessário, e me mostra como a oeste, ao alcance da mão, acendem-se as luzes israelenses do litoral.”

“Era possível ver o mar dali?”

“Antigamente era, mas hoje os novos edifícios não permitem mais. Foi o que o oficial me explicou, e na opinião dele isso era até bom.”

“Por quê?”

“Porque assim eles não ficariam com vontade de ter o mar também.”

“Foi isso que ele disse? Desgraçado...”

“Talvez porque a paciência dele já estivesse no fim. O tal pai, que devia chegar a qualquer momento, não apareceu, provavelmente foi informado pelos vizinhos sobre os judeus que o esperavam na laje e achou melhor ir visitar um tio doente para não ter que passar por mais um interrogatório, no qual ele teria que repetir tudo aquilo que já disse ao Exército, ou seja, nada de muito relevante. Você quer mesmo conhecer essa velha história?”

“Cada palavra.”

Ele se levanta, olha demoradamente pela janela, depois anda um pouco pelo quarto, pega o romance, dá uma olhada e o deposita de volta onde estava, de costas.

“Sobre o que é?”

“Agora não. Se você quiser, posso tentar terminá-lo antes de viajar e deixá-lo com você.”

“Deus me livre... Você teima em não entender. Não ouse deixar aqui uma única letra em hebraico.”

Ela o fulmina com o olhar.

“Então o pai não chegou. E a estudante grávida, que falava um hebraico tão doce, delicado, percebeu que já estávamos impacientes, e foi chamar a mãe, uma árabe vestida à maneira tradicional, gordinha, que não sabia uma palavra de hebraico mas era muito astuta, lembrava sim do soldado. Ela não chegou a vê-lo, mas ouviu alguma coisa do marido. No meio da noite ele foi levar um café bem forte ao Eyáli, por iniciativa própria, e também levou um balde que o soldado havia pedido.”

“Ele levou o café por iniciativa própria?”

“Para que ele ficasse acordado e não caísse no sono, foi assim que ela, a filha, explicou. E quando eu perguntei por que o pai não queria que ele adormecesse, afinal não era a eles que ele estava protegendo, bem ao contrário, a mãe olhou para mim com um olhar caloroso, e mesmo sabendo que eu era o pai do soldado morto, disse sem nenhum constrangimento que o seu marido teve medo de que, no caso de o soldado israelense adormecer, ele pudesse sentir vontade de matá-lo. Mas um soldado acordado teria como se defender, e por isso ele trouxe o café bem forte. Tudo isso foi traduzido pela estudante grávida naquele sotaque macio, trocando sorrisos travessos com a mãe.”

“Um árabe de alma complexa. Oferece um café para não ficar com vontade de matar...”

“Assim traduziu ela. Talvez em árabe a palavra não fosse exatamente vontade e sim uma outra, mas só para você não entender errado, essa conversa toda na laje aconteceu num estado de espírito bastante bom, estávamos todos sorrindo, até o oficial sorria, menos o druso, que continuava sério.”

“E então?”

“E então já estava mesmo na hora de irmos embora dali, porque tínhamos ido muito além do que diziam as instruções, mas eu sabia que aquela laje ainda iria me dar trabalho. Eu teria que entender melhor a história do café e do balde. Talvez a estudante grávida, com seu hebraico tão doce, também tenha colaborado nisso, quer dizer, não exatamente ela, mas a gravidez, ou melhor, a ideia de que o bebê que estava para nascer iria engatinhar ali naquela laje. Aliás, você sabia que a Efrát...”, e ele hesita.

“A Efrát o quê?”

15

Aos poucos a lamentação pela mãe traidora vai se abrandando. Os espasmos de choro se atenuam, os intervalos entre eles se alongam, a força do ódio e do terror começa a minguar, embora, para lhe garantir a honra, não sucumba de vez, mas agoniza e morre devagar. Neta não consegue mais ficar de pé segurando a cabeça como a um manifesto, e desaba lentamente sobre a cama. No início só se senta, e por fim o corpo cauliforme fecha-se numa postura fetal atávica. O avô não interfere no processo, apenas senta-se pacientemente, imóvel, sem dizer nada. Por vezes cerra os olhos para estimular e reforçar o adormecimento da menina. Nádi o observa com olhar severo, e repentinamente desce da cama e sai do quarto, e Yaári faz sinal de silêncio com o dedo, para não perturbar o desabamento da irmã para dentro de si mesma. Aguarda mais um tempo até que o torpor a envolva por completo, e então apaga a luz e estende o cobertor sobre a menina.



Na sala as velas já se apagaram há tempos. A única luz vem da cozinha. Ele procura o menino, mas não o localiza. A porta da rua está trancada, bem como a da varanda. Ele procura no banheiro, mas o menino não está lá. Ele chama “Nádi, Nádi”, mas não há resposta. Por um momento ele é tomado pelo pânico, mas, como a casa do filho não é grande, ele examina rapidamente os guarda-roupas e atrás da máquina de lavar, até se lembrar do esconderijo preferido do neto, embaixo da cama dos pais, e lá está, de fato, o menino, deitado como um saco cinzento. O avô acende a luz, mas o garoto berra “Apaga, apaga, Nádi não tá aqui”. Yaári experimenta brincar um pouco na escuridão, fingindo que não consegue encontrar o neto, mas agora, sob a cama dos pais, o pequeno recusa-se a colaborar com essa conhecida brincadeira e começa a berrar com força.

Yaári tenta rastejar até ele, mas o menino o repele, arranha sua mão, se arrasta velozmente para fora, dispara em direção à porta trancada e passa a golpeá-la com o pé descalço.

Não chama pela mãe nem pelo pai. Sua fúria volta a despejar-se contra a quinta vela, que a irmã acendeu antes dele, e Yaári tenta, então, reparar a humilhação limpando o candelabro dos restos de cera e acendendo mais uma vez todas as cinco velas. De início Nádi não acredita que o avô se disponha a indenizá-lo a tal ponto, mas, ao ver que o avô acendeu a luz, enfiou o quipá na cabeça e leu novamente as bênçãos, pondo a assistente acesa em sua mãozinha para que ele acenda todas as velas, o menino aplaca o furor e um pequeno sorriso paira em seu rosto atormentado.

Rapidamente, porém, se constata que o sorriso era apenas temporário. O pequeno pressente, em sua alma afiada e complexa, que um segundo acendimento das velas na mesma noite não pode ser de verdade, e que a simulação do avô tinha apenas o propósito de apaziguar o ciúme que sentiu pela primogenitura da irmã, e assim, quando as velas coloridas e a assistente já ardem calmamente no castiçal, Nádi as examina com hostilidade por um minuto ou dois, e de repente sopra todas elas como se fossem velas de aniversário, e não lhe basta apagá-las, ele empurra o castiçal fumegante e o derruba no chão, e então prorrompe num brado furibundo e corre até a porta de saída, chamando pelo pai.

Agora ele entende bem melhor que a advertência de Efrát nada tinha de exagero. Morán, pelo visto por vergonha, relatava a eles em geral somente os problemas de saúde do filho. Yaári agarra então o menino com força, arranca-o de perto da porta e o levanta em seus braços. O pequeno luta com selvageria, tenta libertar-se, aproxima os dentes da mão do avô e procura mordê-la. Mas o avô, surpreso com a força do menino, não afrouxa seu abraço.

O esforço do neto por libertar-se começa a perder o ímpeto, mas, quando Yaári apaga a luz e o deita no sofá, ele salta e corre para continuar a chutar a porta, e a dor do pé descalço intensifica ainda mais a gritaria desesperada. Mais uma vez Yaári o acolhe nos braços, e para tentar desviar sua atenção ele aciona a fita do Baby Mozart, com a qual Nádi já estava acostumado desde que era de colo, e cujo fascínio ainda não havia se dissipado.

E enquanto o menino continua preso em seu abraço, na escuridão reinante, na tela começam a mover-se trens e escadas, chafarizes e gangorras, bonecos de pano em forma de bichos graciosos, e a música em sua maravilhosa simplicidade, do compositor que morreu na flor da idade, faz as pazes entre avô e neto.

A atenção do pequeno de fato volta-se para as imagens e os sons que já conhece, mas não há como saber se ele ainda peleja para livrar-se do avô ou se agora apenas agarrou-se a ele com toda a força. Durante todo o tempo Yaári ficou de pé, porque quando tentava sentar-se no sofá o menino voltava a protestar aos berros. E assim, em pé, fluem uma atrás da outra as imagens tão queridas produzidas por educadores bem-intencionados na tranquila Califórnia, e depois que o último som some no ar, e a tela escurece, o menino murmura com suas últimas forças, “de novo, vovô”...

E Yaári não tem outra saída a não ser voltar ao início da fita.

Agora, com a cabeça do neto apoiada em seu ombro, ele tem tempo para aprofundar-se de perto nos traços do rosto de Nádi, apesar da penumbra. E finalmente ele entende por que não lhe era fácil identificar o original. Muitos anos atrás houve uma vez em que ele ficou de pé no escuro, tendo em seus braços um menininho parecido com o neto, mas na ocasião o silêncio era total, sem acompanhamento musical. Eles estavam de visita em Jerusalém, ainda antes de Morán nascer, quando ele e Daniela se ofereceram para tomar conta de Eyáli ainda bebê, para que Shúli e Yírmi saíssem para se divertir, e eles pudessem se abrigar sob um teto tranquilo para uma longa noite de luxúria.

O rosto infantil do sobrinho morto por fogo amigo disparado por seus companheiros, que agora voou de volta das lonjuras do tempo para aninhar-se nos braços do tio, abala a alma de Yaári com a dor da perda amalgamada à doçura da saudade dos tempos em que era jovem. Ele aperta contra si o corpinho do neto para infundir nele, ao som da música de Mozart, a força da confiança que adquiriu para si no decorrer da vida.

E quando a fita de Mozart termina sua segunda rodada e Nádi sussurra, já adormecido, de novo, vô... ele decide não repetir aquelas melodias agradáveis pela terceira vez, e tenta esfriar a cabeça com uma fita diferente, que faça o menino adormecer de vez. De dentro da pilha de vídeos arrumados um em cima do outro ele retira uma fita de um invólucro anônimo e a põe para rodar.

Poucos segundos depois ele percebe que cometeu um erro. Mas não desliga o aparelho. Não se trata de uma fita para crianças, nem mesmo para adultos. É uma fita pela qual ele jamais imaginou que o filho e a nora teriam algum interesse.

E, apesar de que ultimamente, mesmo em filmes normais, as cenas lascivas tenham se tornado muitíssimo ousadas, elas ainda são bem curtas, dando a Yaári a impressão de que os atores temem um pouco a si próprios ao fazerem de conta que sentem desejos que não são seus. Mas nesta fita aqui não há história nem narrativa, não há relacionamentos ocultos entre os personagens, o que há é exclusivamente sexo, e se trata de um sexo natural e a céu aberto, sem simulação e sem constrangimento, ao compasso das batidas de um tambor invisível.

O sono do neto começa a pesar-lhe nos braços, e ele já se prepara para desligar o vídeo, mas a expressão facial da jovem de cabelos curtos que o homem mais velho agora despe o detém. Alguma coisa no sorriso tímido dela e em sua tentativa instintiva de ocultar os seios e defender o ventre atesta que essa jovem e bela mulher não está acostumada a luxúrias em frente à câmera. É bem provável que seja esta a primeira experiência de uma estudante americana sem recursos que precisa pagar pelos estudos.

A jovem agora fecha os olhos, joga a cabeça para trás e abre a boca, mas seu corpo continua a digladiar-se com o homem prestes a exigir que ela lhe conceda tudo, e o misto de pânico e prazer chama a atenção do observador na escuridão. Antigas memórias de sua jovem esposa nos primeiros dias depois do casamento o fazem tremer de desejo.

E então ele se apressa a parar a fita, retira-a do aparelho e a devolve à embalagem, guardando-a anonimamente entre as outras fitas. E transporta até a cama o pequerrucho adormecido, põe nele uma fralda noturna e o cobre com o cobertor.

16

“O que a Efrát tem a ver com tudo isso?”, ela repete a pergunta, exigindo uma resposta.



Pela janela aberta, no horizonte da savana, despencou a cerração que amortalhava a lua, e ela agora se deixa ver clara e precisa.

“Ela mesma não tem nada a ver”, diz por fim Yirmiyáhu. “Aliás, quando exatamente o Nádi nasceu? Sabia que você não nos contou quase nada sobre ele?”

“Ele nasceu depois da nossa visita a vocês, e nessa época eu não acreditava mais que a Shúli tivesse algum interesse pelos parentes.”

Yírmi nada diz. Levanta-se da cadeira e dá voltas pelo quarto. Pega novamente o romance, distraído, e até se vê tentado a ler algumas linhas, mas rapidamente o põe de volta no lugar. Daniela, calada, espera.

“Ainda assim, a gravidez dela tem sim a ver. Porque pouco tempo depois da visita de vocês recebemos dela uma carta nos contando que estava grávida.”

“Carta da Efrát? Por que ela escreveu? O que ela queria de vocês?”

“Ela nos pedia permissão para chamar o filho que ia nascer de Eyáli.”

“Verdade?”, espanta-se Daniela. “Eu não sabia... Ela não me disse nada. Escreveu por ela mesma, ou também em nome do Morán?”

“Só por ela. Disse que o Morán ainda não sabia dessa vontade dela. Ficamos na época bem surpresos porque ela, ainda no fim do quarto ou quinto mês, já falava com tanta segurança sobre o filho e até já planejava um nome para ele.”

“Yírmi, hoje em dia não é como no nosso tempo, o ultrassom do feto é tão abrangente e preciso que é possível saber não só o sexo mas também a saúde de todos os seus órgãos. É tão sofisticado que já se pode saber se o bebê que se desenvolve ali será simpático ou não.”

“E, se não for simpático, o que é possível fazer?”

“Depende dos pais”, sorriem com leve tristeza os olhos de Daniela, e seu coração se aflige de repente pela nora.

“E como foi esse nascimento?”

“Difícil. Precisaram tirá-lo com uma cesariana, porque ele se complicou todo e acabou virando. Mas o que vocês responderam? Espero que não a tenham ofendido.”

“Não sei muito bem o que se passou na cabeça da Shúli quando recebemos a carta, porque eu não lhe dei chances nem sequer de ter dúvidas. Na mesma hora escrevi a ela que nós definitivamente recusávamos o seu pedido. Agradeci com muito carinho pela intenção dela que nos emocionou muito, e realmente emocionou, mas que era algo que não podíamos de modo algum aceitar. Pense você também, Daniela, por que depositar o peso de um morto nas costas de um bebê que ainda nem nasceu? E, já que comecei a falar de desligamentos, a última coisa de que eu precisava era amarrar a minha alma a um novo ser humano. Aliás, que tipo de menino se desenvolveu ali? Simpático?”




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