Para a minha família, com amor Sumário



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QUARTA VELA

1


Nem bem alvoreceu e nuvens da planície costeira desabaram e vieram distender-se, densas, sobre Tel Aviv, e às seis da manhã, quando Yaári abre a veneziana do quarto, surpreende-se ao ver que não só a casa do vizinho fora devorada pelo vapor esbranquiçado, como também sumira a árvore plantada no quintal havia uma dezena de anos para ocultar as casas uma da outra. Ele sacode as folhas mortas e úmidas de cima do jornal Haáretz jogado à soleira da porta e tenta detectar se a cerração traz consigo também algum vento, ou se o mundo oculto está imóvel.

O mundo recolheu-se, silente, satisfeito com o ligeiro mistério que o envolve. Enquanto Amótz toma o café da manhã e verifica no jornal a precipitação registrada no dia anterior, esperando pacientemente que o sol liberte a casa vizinha de seus cueiros de névoa, recorda-se da iniciativa de Gottlieb, que se deu ao trabalho de aparecer durante a noite em seus sonhos empurrando um carrinho de bebê onde se via uma menininha esperta, vestida com um macacão de mecânico e tendo uma chave de fenda pendurada ao pescoço, que espiava o sonhador com olhos que pareciam estrelas. Veja, minha técnica não passa disso aí, queixava-se Gottlieb, e você quer que ela vá sozinha ao poço dos elevadores sem ninguém tomando conta? Mas Yaári acordou antes de responder ao fabricante.

A jovem árvore no jardim começa a descompactar a cerração à sua volta, e entre seus galhos vê-se agora a casa vizinha, na qual também a luz foi acesa. O vizinho, um famoso ginecologista, marcha, compenetrado, em sua esteira elétrica. Toca o telefone, e Yaári salta sobre ele com a clara certeza de que a esta hora só poderia ser Morán. Mas para a sua frustração é justamente seu pai, cuja hora de acordar e lavar-se — atividades que exigem tempo e concentração — é exatamente esta. Aconteceu algo, papai? Não, responde o ancião, está tudo como sempre. Mas gostaria de pedir que, antes de você fechar sua agenda de hoje, antecipe sua vinda aqui do fim da tarde para a manhã. As velas eu posso acender com o Hilario, e você, se puder, venha agora pela manhã. Tenho algo urgente a tratar, não, nada físico, é um problema humano.

“Sim, posso adivinhar. Aquela mulher de Jerusalém o pegou, afinal.”

“É fácil adivinhar.”

“Mas me diga, papai, francamente — não é meio ridículo que eu, ou qualquer outra pessoa do escritório, vá cuidar agora de um elevador particular de cinquenta anos atrás? Além disso, você contou a ela que está preso a uma cadeira de rodas?”

“Não, não, Amótz, não é assim, pelo telefone, que vamos conversar sobre Dvórah Bennett. Trate de fazer o possível para vir aqui em casa daqui a pouco, antes do escritório, para descobrirmos juntos como ajudá-la. Dê a seu pai meia hora, não mais que isso.”

“Não é a questão da meia hora. Você sabe o quanto o Francisco detesta que eu o visite durante as tarefas da manhã.”

“O Francisco nos perdoará desta vez. Já falei com ele.”

2

A expectativa de ouvir hoje em Dar es Salaam a voz do marido contando como está cada um dos seus entes queridos torna o despertar de Daniela mais tranquilo, e a põe de pé antes que o sol se levante. Ela abre as abas da veneziana e se debruça para fora a fim de purificar o espírito com o ar escuro e um pouco frio. Depois se volta para pegar o romance do chão e o folheia até encontrar o lugar onde interrompeu a leitura na véspera. Desde a morte da irmã acontece de ela se flagrar percorrendo novamente páginas já lidas, e quando percebe já é tarde para pular aquele trecho, mas só muito raramente a releitura revela algum aspecto oculto dos personagens ou dos acontecimentos. Às vezes a leitura anterior fica até mesmo diluída.



Seus olhos esvoaçam sobre a última página do capítulo concluído na véspera. A descrição das carícias lhe parece agora menos degradante. Será a manhã em botão que amacia a crueza da leitura noturna, ou os estilhaços dos sonhos é que a apaziguam retroativamente? De um modo ou de outro, não é sua intenção reler esse capítulo, e além do mais seria melhor guardar o restante do livro para a viagem de volta, e usar todo minuto disponível aqui para aproveitar a natureza e conversar com Yirmiyáhu e as pessoas locais. Ela retira do passaporte o canhoto do cartão de embarque do voo já realizado e com ele sinaliza a página.

Apesar da janela aberta, o quarto nada grande está abafado. Depois de uma ligeira hesitação ela põe o vestido africano e se cobre com o velho casaco da irmã; desce os três andares, notando as três ou quatro portas em cada um deles. É preciso averiguar em que quarto se encontra a cama temporária de Yirmiyáhu. Apesar de sentir-se disposta e do sono tranquilo à noite, alguém cuja pressão sanguínea elevou-se no último ano gostaria de saber em qual porta teria o direito de bater à noite caso algo oprimisse seu coração.

Passear lá fora, mesmo que apenas ao redor do prédio da fazenda, é algo que ela não ousará enquanto o sol não se fortalecer e vozes humanas forem ouvidas claramente à sua volta. Mas ela tentará preparar uma xícara de café. A cozinha gigantesca está deserta, e por não encontrar o interruptor da luz ela se conforma com o brilho da alvorada que se irradia pelas janelas, tateando por entre os muitos utensílios que pendem das paredes. Acha por fim algo semelhante a um bule, enche-o de água e acredita que irá encontrar também açúcar e leite.

No dia em que a morte foi anunciada, na casa de sua irmã em Jerusalém — sentindo-se miserável por ter se atrasado e furiosa por logo a ela terem mandado para a cozinha —, deixou cair uma grande jarra de café, e em torno de si o chão ficou semeado de cacos de louça plantados no meio de pequenas poças pretas de café. Pois o atraso não foi culpa sua. Morán nem chegou a entrar na escola, aquela onde ele próprio havia estudado tempos atrás, nem mesmo para compartilhar a notícia da morte do primo com a diretora ou com a secretária. Com as pernas trêmulas, ficou dando voltas no pátio vazio por três quartos de hora, esperando que tocasse o sinal, e só quando este soou ele correu para a sala dos professores a fim de encontrá-la na porta, e sem dizer uma única palavra abraçou-a com força e a puxou para a saída.

Assim, ao chegar finalmente a Jerusalém, já lá estavam não somente Amótz, mas outros parentes e amigos, avisados rapidamente, e ao encontrar-se com a irmã ela já estava cercada pela compaixão alheia, de modo que não lhe deram tempo e espaço para enlaçar com os braços a mãe cujo filho morreu e absorver ao menos um pouquinho do sofrimento que fervia dentro dela. Naqueles primeiros momentos, na sala de visitas apinhada, Daniela se sentiu impotente diante de mulheres que não se apressaram em ceder o lugar que cabia a ela, e lhe pareceu até mesmo que a culpavam por ter se atrasado, razão pela qual a enviaram para preparar, na cozinha, uma xícara de café que talvez evitasse o esperado desmaio.

Agora, na gigantesca cozinha que ocupava todo o andar térreo, ela erra de armário em armário para descobrir café e açúcar, mas as prateleiras estão vazias de gêneros alimentícios, ocupadas apenas com assadeiras repletas de fósseis antiquíssimos, possivelmente restos de animais extintos, mas que, tendo em vista a barafunda em que se encontravam, não pareciam tão valiosos quanto aqueles que lhe foram mostrados na noite anterior sobre a mesa de jantar dos cientistas. Sem dúvida não proporcionarão um novo olhar sobre a origem do homem, e bastará apenas mais um exame para que sejam jogados ao lixo.

Um velho africano entrou em silêncio na cozinha, mancando levemente, e balançou a cabeça com pesar ao ouvir o pedido de café e açúcar da mulher branca. Abriu as portas de uma das grandes geladeiras e de lá retirou café preto e açúcar marrom, e também um leite acinzentado, mas leite de quê? Leite de onde? De quem?, ela interroga o velho, que não estranha a língua inglesa. Ele pronuncia o nome de um animal inteiramente desconhecido para ela, ou talvez não de todo desconhecido, mas pronunciado de modo incorreto, e por isso ela renuncia ao leite até que alguém mais autorizado e melhor informado lhe possa dizer algo sobre sua fonte.

3

Em contraste com outras visitas ao final da tarde, em que a casa está limpa e arrumada à perfeição, ele evita desta vez o hábito de produzir um breve toque da campainha e em seguida abrir a porta com sua chave, e se satisfaz com um toque longo depois do qual permanece à espera, para que sua entrada possa ser preparada convenientemente. De fato, os filipinos enviam Hilario para abrir a porta, para que a doçura de seu hebraico e talvez também a graça do chapeuzinho em sua cabeça auxiliem o filho do dono da casa a aceitar a balbúrdia à qual não está acostumado.



Devido à higiene matinal do pai a casa está superaquecida, e a identidade de seus habitantes se faz mais presente que à noitinha. Ela se revela nos odores picantes de alimentos cozidos à noite, ainda esfriando num canto do salão, ao redor da bebezinha deitada sobre a grande mesa de jantar vestindo apenas suas fraldas; nos pijamas estampados com grandes pássaros asiáticos, jogados sobre as camas ainda em desalinho; e no esplendoroso roupão de seda que a filipina traja sobre o corpo nu.

“O que houve, Hilario, não foi à escola hoje?”

“Não tive aula, senhor Yaári, é a Festa dos Macabeus”, declara o jovem aluno, exalando a visível emoção que o judaísmo lhe provoca.

A caminho do quarto onde dorme o pai, ele espia para dentro do seu quarto de criança, agora ocupado por Hilario e a bebê filipina. Entre os jogos eletrônicos de guerra, abaixo dos pôsteres de figuras mitológicas dos filmes infantis, ainda é possível divisar alguns objetos pré-históricos, tais como o jogo de Banco Imobiliário de sua infância.

O pai já fora devolvido à cama depois da complexa limpeza matinal, e Yaári não está acostumado a conversar com ele embrulhado por dois cobertores, deixando visível apenas a cabeça serena que repousa sobre uma toalha colorida, sem nenhum sinal dos tremores devidos à doença.

“Não fique zangado por eu ter exigido que você viesse agora de manhã”, diz o pai, “mas essa amiga minha, Dvórah Bennett, me disse que há dias ela tenta entrar em contato comigo e que você, e outras pessoas no escritório, evitaram dar a ela o número do meu telefone. Então saiba, meu querido, que essa mulher é uma grande amiga, e depois que sua mãe faleceu ela me ajudou muito numa época nada fácil. Aliás, antes que eu me esqueça, como vai Daniela? Já falou com ela?”

“Hoje ela deve ir a Dar es Salaam, e de lá o Yírmi vai fazê-la entrar em contato comigo.”

“Se você puder, diga-lhe que eu também mando lembranças, e espero que a visita ao cunhado a ajude a dar um jeito melhor em si mesma.”

“O problema dela é uma espécie de sentimento de culpa que a tortura... Ela sempre teve esse estranho sentimento de culpa em relação à irmã, uma culpa sem motivo, e depois do falecimento a culpa tornou-se ainda mais intensa.”

“Uma culpa pequena, mesmo sem motivo, pode realmente se transformar em alguma coisa viva e até fértil”, diz o velho especialista em elevadores, “principalmente quando se refere a parentes ou amigos, e é preciso levá-la sempre em consideração. É por esse motivo que eu lhe peço ajuda quanto ao meu pequeno sentimento de culpa em relação à amiga de Jerusalém. Ela é mais moça que eu uns nove anos, portanto deve estar agora com oitenta e um, cá entre nós, uma criança. Há muitos anos eu a ajudei com um elevador particular dentro de casa, para que ela pudesse chegar ao terraço diretamente e aproveitá-lo um pouco. Um elevador simples, pequeno, de um só andar, com um mecanismo tcheco de antes da guerra, movido pela pressão do óleo produzida por um pistão que o levanta e abaixa pelo lado. Mas todo o projeto foi meu. O Gottlieb o montou a partir desse projeto. E quando sua mãe e eu viajamos para a Alemanha no final dos anos 1950, encontramos também algumas peças de reposição num ferro velho, que eu mandei para Israel como material de pesquisa. Você vai ver tudo pessoalmente.”

“Por que você acha que eu vou ver?”

“Porque dei à minha amiga garantia para a vida toda. É uma senhora culta e um pouco artista, e na época do mandato britânico era casada com um inglês que tinha uma avó judia, mas que não conseguiu permanecer aqui depois da independência. A casa fica no centro da cidade, e depois que abriram no primeiro andar um salão de beleza, sugeri a ela, para criar um canto sossegado na casa, a instalação de um elevador que fosse direto ao terraço, um terraço não aproveitado ao qual só era possível chegar pondo uma escada vertical no hall da escadaria. Dessa forma ela passou a ter um cantinho sossegado e bastante fresco ao final dos dias de verão, você vai ver.”

“Mas por que você acha que eu preciso ver isso?”

“Porque seu pai está pedindo. Essa mulher me ajudou muito depois que sua mãe faleceu. E ela não tem recursos para chamar um técnico, que além do mais não vai saber o que fazer com esse elevador. É uma casa na rua King Jorge, em frente ao velho Parlamento, da qual ela certamente não vai sair enquanto estiver viva, e por isso precisa do elevador para chegar ao terraço. Quando Jerusalém estava dividida, era possível ver dali a cidade antiga. E eu não tenho dúvida de que o elevador está vivo e bem, precisa apenas de alguns ajustes e da troca de retentores. Você mesmo vai perceber isso.”

“Mas em que eu posso ser útil nessa história? Você sabe que sou engenheiro, não mecânico.”

O pai fecha os olhos e se cala.

“Bem”, ele diz finalmente, “se você é apenas engenheiro projetista, não vá até lá. Esqueça o que estou pedindo. Vou falar com o Morán. Ele tem mais paciência, e por isso tem mãos de ouro, apesar de também ser engenheiro como você, e não mecânico.”

“Esteja à vontade, peça ao Morán, ele é um ser independente, mas saiba que neste momento ele está no Exército.”

“Como? Ele me disse que ia ignorar o Exército.”

“Sim, ele ignorou, mas o Exército não o ignorou e o pegou.”

“Então o que vai acontecer?”

“O que vai acontecer? Vai acabar sendo solto.”

“Não, estou me referindo a Jerusalém.”

“Em Jerusalém, a menina vai ter que esperar um pouco. Se você lhe deu garantia para o resto da vida, não há perigo de a garantia acabar enquanto ela estiver viva. E por enquanto estamos no inverno, e ela não deve frequentar muito o terraço.”

“Agora você está falando comigo sem dó nem piedade. Mas não faz mal. Se você se recusa, e o Exército prendeu o Morán, vou pedir ao Francisco que consiga para mim um táxi que possa levar uma cadeira de rodas e carregue também mais uns dois filipinos amigos que trabalham no Lar dos Velhos, e eles irão comigo a Jerusalém para eu poder dar a ela pelo menos um diagnóstico.”

“Meu Deus do céu! Você é realmente teimoso. Mas me explique o que tem esse elevador mal-assombrado.”

“Primeiro, ele não é mal-assombrado, e segundo, eu lhe disse, ele funciona, ainda está vivo, mas, segundo ela, trepida quando começa a andar, e também quando para.”

“Quem sabe ele está um pouco velho, papai? O que você acha?”

“É claro que ele está velho, mas como não é um ser humano é possível calibrar a pressão do óleo e trocar uns retentores... Não?”

“Claro, tudo é possível.”

“Além do mais, ela diz também, a Dvórah Bennett, que ele começou de repente, quer dizer, o elevador, a uivar de uns tempos para cá, coisa que nunca fez. Como se uma gata no cio viajasse com ela no elevador.”

“Gata no cio?”

“Isso, é assim que ela descreve.”

“Não, papai. Não me venha você também com a história de uivos no elevador.”

4

E trata-se exatamente da mesma estrada, mas na direção contrária, e à luz de uma escaldante manhã de verão a viajante pode perceber aquilo que ficou oculto na noite em que aterrissou. É verdade que desta vez ela não está sentada no assento da frente, mas um pouco amassada no banco traseiro, atrás do crânio careca do cunhado, mas a motorista é a mesma, silenciosa e precisa como sempre. Sijin Kuang cingiu desta vez seus ombros e braços magros com uma echarpe cor de girassol, maximizando com isso o fulgor de carvão de sua pele. Às dez horas eles devem embarcar em Morogoro num trem chinês que leva minério de cobre ao porto de Dar es Salaam, e na capital, como prometido e combinado, ocorrerá antes de mais nada a conexão ao vivo entre a visitante e seu marido, e só depois eles irão cuidar das necessidades da equipe de escavações. Apesar de a sudanesa ter uma origem visivelmente diferente dos habitantes locais, Daniela está muito satisfeita por estar acompanhada de perto por uma mulher africana, que de certo modo confere a ela uma silenciosa legitimação com sua negra presença.



Ontem, na visita ao sítio de escavações, houve um momento em que pareceu a Daniela que talvez tenha surgido entre o ancião viúvo e a irmã de caridade um vínculo mais profundo que o apenas administrativo, mas essa impressão esvaneceu-se esta manhã ao ver a tristeza abismal da jovem mulher, cuja família foi toda assassinada. Assim diria quem estivesse sentado no banco traseiro e visse, quando a mão ou o ombro do cunhado encontravam por acaso a motorista depois de uma curva ou um sacolejo do veículo, como ela se encolhe e recua, como se fosse um inimigo querendo fazer-lhe mal.

Eles contornam o monte Morogoro numa larga estrada de terra, avermelhada, dura como asfalto, serpenteando em meio a uma densa floresta de arbustos que de vez em quando desaparece sem nenhum motivo e se transforma numa colina nua. Por que a terra aqui é mais vermelha?, pergunta ela ao cunhado. Lembro que você explicou ao Amótz e a mim da outra vez, mas não me lembro mais do que você disse.

“A cor vermelha deriva do minério de ferro que há nesta terra, que por outro lado enfraquece a sua fertilidade.”

“Ferro... Agora me lembro, foi o que você disse naquele dia.”

“Isso prova que sou um homem coerente, estável, que não muda de ideia a qualquer momento. Mas se você perguntar à Sijin Kuang de onde vem a cor vermelha da terra africana, ela dirá sem titubear que vem do sangue abundante derramado sobre ela.”

A motorista, ouvindo pronunciar seu nome, olha para trás.

“E talvez por causa do sangue que ela não consegue esquecer fica mais fácil para você estar com ela, pois a tragédia dela é maior que a sua. Perto dela você pode esquecer.”

Inicialmente Yirmiyáhu nada diz. Talvez não tenha ouvido. Talvez não tenha gostado do que ela disse. Mas de súbito ele se volta para trás, puxa para si a pequena mão da cunhada e a aproxima de seus lábios num gesto de gratidão. Às vezes você é espantosa por sua precisão, por sua capacidade de, como que sem querer, sem intenção, tocar no cerne das coisas. Sem dúvida a catástrofe dessa mulher é maior que a minha, tenho consciência disso, mas esse não é o único motivo pelo qual para mim é confortável que ela dirija o carro e vá comigo resolver os assuntos. Há uma outra razão. Você talvez se surpreenda, mas ela nada sabe sobre o nosso Eyáli, porque não contei nada a ela, e nem aos outros. Achei melhor que ninguém por aqui tivesse um contato emocional com aquilo que tento esquecer. E essa mulher me ajuda a me descascar da minha identidade.”

“Como?”

“Por tudo aquilo que agrada também a você. Eis aí uma verdadeira animista, pagã, que acredita em espíritos e árvores e pedras, mas não como um acréscimo confuso a uma fé abstrata e capenga, nem para pedir socorro no desespero e na fraqueza, mas como algo natural, por uma fé inteiramente outra. Assim, à diferença de cristãos e muçulmanos, ela não tem ligação ou dívida alguma para com os judeus, nem para o bem nem para o mal, nem amor nem ódio, nem como origem nem como adversários ou competidores. Para ela nós simplesmente não somos relevantes, e ela não se sente relevante para nós. Para mim ela é um lugar de onde não temos memória alguma, religiosa, histórica ou mitológica. Por isso eu sou para ela apenas um ser humano, branco, é verdade, mas ela considera isso um detalhe à margem, porque os assassinos de sua família e de sua tribo eram negros também. E assim, sem nenhuma palavra e sem nenhum esforço, ela me ajuda a me descascar de minha identidade, como o branco se descasca de seu negrume. Tudo aquilo que me oprimia está sendo posto abaixo, sem sofismas e sem discussões, de tal modo que mesmo que me caia em cima um visitante muito próximo e querido não há como ele fazer as engrenagens voltarem para trás.”



“Você está se referindo a mim, com certeza.”

“Por exemplo. Mas até aqui não tenho do que me queixar, você tem se comportado de modo educado e respeitado as fronteiras.”

5

“Está bem, eu me rendo”, diz Amótz ao pai, “amanhã é sexta-feira, vou tentar chegar a Jerusalém.”



“Por que não hoje, já que você tem mais tempo livre?”

“Como assim, tempo livre?”

“A sua mulher não está, e você não tem de quem cuidar nem com o que se preocupar.”

“Não exagere. Tenho sim de quem cuidar, e com o que me preocupar eu tenho sempre. Vou amanhã a Jerusalém não por causa dos uivos de um gato imaginário no cio, mas só para que você fique tranquilo.”

“E esta não é uma razão suficiente? Então me permita, antes de ir embora, que desta vez eu lhe dê um beijo.”

Yaári não se lembra de quando foi a última vez que o pai pediu para beijá-lo. Ele próprio, quando vem visitar o pai e o encontra na cadeira de rodas, segura às vezes a mão trêmula e beija de leve, por obrigação, a bochecha do homem de quem aprendeu tantas coisas. Mas ele não consegue lembrar de alguma vez, nas últimas décadas, que o pai tomou a iniciativa de beijá-lo. Ainda mais que agora está deitado nu em sua cama, debaixo de dois cobertores, e ele precisa inclinar-se para oferecer aos lábios do pai unicamente sua testa.

“Se você encontrar esse gato no cio dentro do poço dela, traga-o com você para que eu possa vê-lo”, diz o pai, que fecha os olhos e planta um beijo na testa do homem de sessenta anos.

A julgar pela emoção, ela deve ter sido uma espécie de amante dele, avalia Amótz, ao rumar agora para a zona sul até seu escritório, num dia cinzento e sem ventos. O velho pai inclusive tinha a intenção de confessar algo, mas seu filho não deu chance a que surgisse a confissão, pois poderia vir à tona que ela teria sido sua amante ainda durante a vida da mãe. Mesmo que ela tenha ajudado o pai a restaurar sua virilidade apenas depois do falecimento da mãe, a Yaári não apetece nem um pouco conhecê-la, e menos ainda se ocupar com seu vetusto elevador, cheio de uivos e trepidações. De qualquer modo, está acima de suas possibilidades curar as mazelas dele, e até mesmo diagnosticá-las. Se Morán estivesse na cidade, ele o teria certamente mandado a Jerusalém para satisfazer o capricho do avô. Mas Morán mergulhou nos abismos do Exército e ainda não lhe disse nem uma palavra, e Yaári começa a suspeitar que o filho está gostando dessas férias que o serviço na reserva lhe possibilita.

O escritório está um tumulto. Aqueles que se permitiram a folga de ontem apressaram-se hoje para cumprir suas tarefas. Onde está o Morán?, pergunta quem dele depende para fazer seu trabalho. Na reserva, e Yaári se poupa de contar toda a história. Mas ele disse que ia ignorar o Exército. Disse, e daí? Nem tudo que ele diz acontece. O Exército fez questão.

Por um momento ele considera a possibilidade de enviar a Jerusalém em seu lugar um dos jovens engenheiros. Mas quem quer que ele envie certamente se sentirá ridículo e impotente diante de um elevador particular pré-histórico, e ficará ressentido pela sexta-feira que lhe foi roubada à toa, e pela incumbência que mais caberia a um mecânico que a um engenheiro.

Telefona, então, para a senhora de Jerusalém e lhe fala num tom militar bem objetivo: A senhora venceu, madame Bennett, estarei aí pela manhã para ver o seu elevador, mas preciso advertir desde já que não alimente expectativas, vou apenas ver, não consertar. Por favor, não saia de casa a partir das nove da manhã.

E em seguida convoca à sua sala a reunião semanal da equipe, para ter certeza de que ao meio-dia, na hora previamente marcada, tanto ele quanto sua linha telefônica estarão livres para ouvir a voz africana de sua esposa.

6

De fato, ela já não está longe de Dar es Salaam, sentada numa cabine de passageiros improvisada no trem de carga chinês. No banco a seu lado dormita o cunhado, e à sua frente está Sijin Kuang, que por seu olhar carinhoso já deve ter percebido — ao menos pela palavra “pagã” — que a conversa dos dois parentes israelenses dizia respeito também a ela. A despeito de que sua tragédia pessoal, e além do mais por ter sido expulsa do país onde nasceu, tenha sido maior que a do velho administrador — cuja cabeça agora pendia sobre o peito e parecia dizer sim a tudo que era dito —, a visitante ainda assim sentia o impulso de sugerir a ela algo sobre o fogo que matou em vão o filho do homem branco.



Mas Yírmi não deseja contar coisa alguma a seu respeito, para que uma história não puxe outra e uma história não se ligue à outra, a ponto de mesmo uma idólatra acabar se sentindo parte de tudo aquilo. E a cunhada não veio até aqui para atrapalhar sua vontade. Por isso ela faz com que a conversa gire em torno de moléstias e ferimentos, talvez seja possível aprender com a experiência da enfermeira africana sobre remédios antigos e eficazes contra algum mal que venha um dia a ocorrer.

Pela janela já se veem algumas casas. E ruas. E uma cidade. Por um átimo se vislumbra a nesga de um mar muito calmo onde veleja um barco.

Yírmi, que está novamente alerta e assertivo, guia com total segurança as duas mulheres por ruas que lhe são perfeitamente familiares, entre barracas de verduras, tinas cheias de peixes e grandes sacos de carvão. Se for possível, diz Daniela, comecemos pelo telefonema a Israel. Prometemos ao Amótz, e tenho certeza de que ele já está segurando o aparelho na mão. “Se prometemos, cumpriremos”, Yírmi a tranquiliza com um sorriso. “Desde que o conheci, há quarenta anos, eu sempre soube que é perigoso deixar o Amótz esperando.”

E ele a introduz pela porta de uma mal iluminada cabine pública, que de tantos fios ligando velhos computadores e vetustos aparelhos telefônicos mais parece uma toca de aranhas, e a dona da loja — uma africana encorpada de nome Zaineb — comemora alegremente sua entrada e faz a turista sentar-se ao lado de um telefone de disco um pouco gasto.

“A experiência me ensinou que daqui se fala com clareza e pouco custo”, justifica-se Yirmiyáhu, “todo mês eu ligo para os Estados Unidos para informar à Elinór que estou bem, e ouvir dela algumas palavras a mais sobre o doutorado. Escreva para a Zaineb o número correto, mais o código de Israel e de Tel Aviv, e logo você estará acalmando o amado de seu coração. Nós vamos esperar por você lá fora com muita paciência.”

“Você não quer dizer alguma coisa a ele?”

“Só se você não exagerar na sua conversa. Bem, não fique tão certa de que eu não penso nele de vez em quando.”

A ligação feita do ninho de aranhas é rápida, e realmente o som é claro e alto. E em Tel Aviv a secretária fica feliz em ouvir a voz africana da esposa do dono, embora a espante um pouco a chamada feita tão cedo. Ele está em reunião com a equipe neste momento, mas não faz mal, num instante ela o arrancará dali. Só não desligue, por favor.

“Mas por que tão cedo? Combinamos de nos falar ao meio-dia de hoje.”

“Sim, mas aqui são onze horas”, ralha a secretária, “você tem uma hora a mais a seu favor.”

“A meu favor?”, ri Daniela. “Em que sentido?”

Mas a secretária já tinha ido arrancar seu marido de onde estava.

7

Não foi assim, em pé, ao lado da mesa da secretária e no telefone dela, exposto aos olhares e talvez até aos ouvidos de estranhos, que ele pensou em realizar a ansiada conversa com a mulher. Mas seria legítimo amputar a reunião e expulsar as pessoas da sala só para que ele pudesse se queixar sem testemunhas de suas várias amolações? Por falta de alternativas ele agarra com força o fone e estira o fio tanto quanto possível em direção ao canto da sala, tentando falar com voz contida, entre acusando-a e justificando-se.



“É verdade, errei, eu tinha certeza de que você estaria no mesmo meridiano que eu, e de repente descobri que a África fica não só no sudoeste mas também no leste. Quer dizer que tudo aquilo que imaginei sobre a sua viagem, você já tinha terminado uma hora mais cedo.”

“Não faz mal, é apenas a diferença de uma hora. Mas se não for um bom momento para você posso tentar falar mais tarde.”

“De jeito nenhum, só vou falar baixo, porque há muita gente aqui em volta. Você está me ouvindo bem?”

“Perfeitamente. Antes de mais nada, como estão as crianças?”

“Espere um pouco, deixe as crianças para depois. Conte-me você o que está acontecendo. Em primeiro lugar, como foi a viagem?”

“O voo para Nairóbi foi muito agradável, mas passar seis horas no aeroporto só para você ficar tranquilo foi cruel. E no final quase perdi o voo seguinte.”

“Perdeu? Como foi isso?”

“O cartão de embarque sumiu dentro do romance.”

“Romance?”

“É, o livro que comprei no aeroporto.”

“Eu bem que avisei para deixar tudo junto com o passaporte, até enfiei o cartão ali. Como é que ele foi parar dentro do livro?”

“Ah, não se preocupe, no fim eu o encontrei.”

“Tome cuidado, você tem direito de sonhar só quando eu estou por perto. E como foi o segundo voo? Fiquei preocupado com a possibilidade de oferecerem para esse voo doméstico um avião pequeno e desconjuntado.”

“Era realmente um avião pequeno, mas limpo e bonitinho, e nem um pouco desconjuntado. Até uísque serviram à vontade.”

“Espero que não para você”, ri ele. “E que fazenda é essa do Yírmi? Fica muito longe do aeroporto?”

“Não muito. Mas a estrada era basicamente de terra, e um pouco complicada, passando por uma floresta. Tive sorte de ter a pagã como motorista...”

“Pagã?”

“Uma moça sudanesa encantadora, adoradora de ídolos... uma mulher trágica, depois eu conto sobre ela...”



“Adoradora de ídolos? Ídolos de quê?”

“Não, não agora. Depois eu lhe conto tudo. Mas me diga de uma vez, como estão as crianças?”

“Deixe as crianças para lá um pouco. O Yírmi esqueceu de você e não foi ao aeroporto?”

“Não, não. É uma história complicada. Eu vou lhe contar tudo. Foi ele que a enviou, ela é a enfermeira da expedição.”

“E como está ele?”

“Ficou ainda mais esquisito. Mas está satisfeito consigo mesmo. Trouxe-lhe do avião um pacote de jornais de Israel e ele imediatamente os queimou.”

“Queimou? Muito bom. Por que ele iria precisar de jornais de Israel no meio da África? Que prazer ele teria com isso?”

“Ele também jogou no fogo as velas de Hanukah que eu trouxe.”

“Mas o que é isso? Ele tem uma fogueira dentro de casa?”

“O fogo do aquecedor de água.”

“Mas por que ele se zangou com as velas?”

“À toa. Ele agora está interessado em se desligar. De Israel, dos judeus, de tudo.”

“Desligar? Por que não? Boa ideia. Eu mesmo gostaria de me desligar um pouco de vez em quando, se fosse possível. Mas por que fazer isso na África? Há lugares mais agradáveis no mundo para se desligar.”

“Não agora, Amótz. Ele está ali fora. Vamos falar de tudo isso na semana que vem. Mas diga, como estão as crianças?”

“A Nófer veio ontem com um colega mais velho para acender as velas.”

“Muito bom.”

“Mas ela ficou muito pouco.”

“Não faz mal. O importante é que ela veio.”

“Mas o mais importante, veja bem, é que o Exército não abriu mão do Morán. Foi posto em detenção.”

“Detenção de verdade?”

“Totalmente. Por uma semana, ou algo assim. Mas ele está em Israel, perto do Batalhão de Ordenanças, não nos territórios. Ainda não consegui falar com ele porque lhe confiscaram o celular, mas ele às vezes fala com a Efrát. E ontem eu a substituí no rodízio das crianças na creche e esperei com elas num café até que a Yaêl conseguiu vir buscá-las. Amanhã é sexta-feira, e vou acender as velas com eles.”

“Que bom que a mãe dela está sempre disposta a ajudar.”

“A mãe dela é gente boa, mas a filha da mãe dela continua dando voltas no vazio. Hoje é um treinamento no Norte, amanhã é um seminário no Sul. Ela me deixa louco.”

“Pois trate de ficar louco sem ninguém perceber, e tome cuidado de não fazer a ela nenhum comentário. Ela não é problema seu, e não vai ser você que irá educá-la. Deixe o Morán cuidar dela.”

“Mas o Morán está preso. Um oficial do Exército. Veja só que vergonha.”

“Deixe-o em paz também. Não o critique. Já há muito tempo percebi que ele tem medo desse serviço na reserva.”

“Medo? O Morán? De onde você tirou essa ideia? O Morán nunca teve medo, e muito menos do Exército. Ele simplesmente teve vontade de passar por cima de todo mundo. E tinha certeza, como você, de que o mundo todo cairia aos seus pés.”

“O mundo todo cai aos meus pés?”

“Mais ou menos.”

“De onde você tirou essa ideia?”

“Não agora, tem gente aqui perto. Estou no telefone da secretária. Mas onde está o Yírmi? Eu bem que gostaria de trocar algumas palavrinhas com ele.”

“Que palavrinhas?”

“Que continue cuidando de você.”

“Nem tente.”

8

Yirmiyáhu espera num beco com Sijin Kuang, que pela nobreza altiva de sua presença ao lado do ancião branco e desajeitado atrai a curiosidade das pessoas do mercado. Volta e meia ele lança um olhar para dentro, para a cunhada tranquila e sorridente, sentada nas profundezas da caverna das comunicações ao lado de jovens africanos grudados nos monitores, enquanto ela, com uma graça juvenil, inclina a cabeça tosquiada para o fone gasto, cruza as pernas e permite que sua mão brinque com a barra do vestido, deixando à mostra seus bonitos pés. Apesar de a ligação aqui custar menos que em outros lugares da cidade, a conversa se estende por um tempo maior do que ele esperava, e o bate-papo cordial de seus parentes começa a lhe dar nos nervos. Faz só dois dias que se separaram, e daqui a outros três voltarão a se encontrar, e ainda assim fazem questão de uma conversa tão comprida. Ele se lembra de que já na juventude ela prendia a linha telefônica na casa dos pais por muito tempo, tagarelando e mexericando sem consideração pelos outros e sem pensar nos custos. E as conversas diárias entre ela e a irmã, nos anos anteriores à morte de Eyáli, duravam por vezes mais de uma hora. Foi justamente a morte dele que as encurtou, a morte fez o mundo encolher-se e mirrar. Sua mulher perdeu a paciência para as histórias de gente estranha e até mesmo para as histórias de parentes, e mesmo a irmã tão próxima passou a interessá-la menos.



Daniela faz-lhe um sinal com a mão para juntar-se a ela. Amótz pede para trocar algumas palavras com ele também. E talvez o melhor é desligarmos e o Amótz que ligue para cá, sugere ela. Não, é impossível, o cunhado rejeita a sugestão sem hesitar. A dona do lugar não gosta que passem por cima de seu ganha-pão e não revela o número do seu telefone. Ele pega o fone e sem nem dizer “Shalom” começa logo por espicaçar o cunhado.

“E então? Só dois dias e já é difícil ficar sozinho?”

Mas Yaári ignora a espetada e lhe pergunta com grande afeição:

“Yírmi, meu querido, como estão as coisas?”

“Nada a reclamar. Por enquanto a mulher que você mandou está se comportando bem, de modo que vamos devolvê-la inteirinha e não daremos nada aos leões.”

Mas o homem dos elevadores não está para piadas.

“Mas e você? O que há com você?”

“Comigo há o que tem que haver.”

“Quando nos vemos?”

“Quando você também vier para cá. Mas deixe eu me recuperar um pouco da visita da sua esposa.”

“Não na África. Quero dizer aqui, em Israel.”

“Israel? Por que a pressa? Passei aí a maior parte da vida, Israel não vai fugir. Tenho a impressão de que mesmo querendo esse país não vai conseguir desaparecer. Aqui é tranquilo e confortável, e principalmente muito econômico. Eu também quero um filipino bonzinho que cuide de mim na velhice. Além do mais, meu caro Amótz, surgiram em mim pensamentos um pouco diferentes a respeito do nosso mundo.”

“Que pensamentos?”

“Não, não agora no meio do mercado, numa ligação internacional. Há outras pessoas na fila que também querem falar com o mundo, e eu estou ocupando a linha. Daniela vai lhe explicar depois o que ela entendeu a meu respeito, e o que ela não puder lhe explicar você sempre pode me perguntar. Mas talvez nada disso tenha importância. O principal é: cuide-se, e não esqueça também as crianças.”

E, quando ele se prepara para depositar o fone no gancho, Daniela o arranca de sua mão e ainda tem tempo de perguntar ao marido como está o pai dele e o que há de novo com os ventos na torre.

Mas ao sair para a luz do dia ela percebe que a conversa em nada a tranquilizou, como se o estranhamento do Yirmiyáhu a tivesse contagiado também. E enquanto o cunhado se demora lá dentro, pagando por sua conversa com o marido, ela volta o olhar para a enfermeira parada em sua serenidade, apartada da profusão de cores que a cercam. E seu coração dói pelo luto e pela tristeza que hesitam em surgir dentro dela. Pois foi aqui, numa dessas ruelas do mercado, que a morte começou a agarrar sua irmã. Foi daqui que a levaram às pressas para a clínica mais próxima, onde ela se despediu do mundo na mais completa solidão.

Onde foi que tudo começou? Onde foi que Shúli parou?

E onde era mesmo aquela sua representação comercial? Até esse momento ela não havia reconhecido nada da visita anterior.

Ele lhe mostrará o lugar. E com um pouco de paciência ela acabará por reconhecer todos os lugares. Tudo aqui é perto, e ele com certeza mostrará a ela, mas é preciso entrar na agência bancária antes que fechem para o almoço.

E aqui eles se bifurcam. Sijin Kuang vai renovar o estoque de remédios, e ele e a visitante de Israel dirigem-se à filial do banco que parece bastante elegante, e sobem ao segundo andar. Ele a faz sentar-se numa sala de espera ao lado de um africano roliço, e desaparece no escritório do diretor.

Seu sorriso conquista de imediato o africano, que traja uma veste tribal, mas a ela não basta o sorriso e ei-la ousando, ao estilo britânico, proferir comentários sobre o tempo. O homem da tribo deduz rapidamente a que se refere a senhora branca, mas não há em sua boca inglês algum com o qual lhe responder. Ele se levanta então de seu lugar, agitado, e com um largo gesto imperioso de mão a convida a vir até a grande janela. Ali, numa torrente de palavras que pertencem a uma língua totalmente estranha, ele aponta para o céu e para as nuvens, e por fim se cala e volta humildemente ao seu lugar. Mas ela fica ao lado da janela, como quem tenta digerir o que lhe havia sido dito.

O tempo realmente mudou. O dia tornou-se repentinamente cinzento, e as primeiras gotas de chuva já pontuam a vidraça. A conversa telefônica com o marido revelou-se, afinal, mais técnica que afetiva. Se ele se sentiu inibido em revelar seus sentimentos na presença dos empregados, por que não voltou para sua sala, interrompeu a reunião e, sozinho, estimulou-lhe o espírito com algumas palavras que lhe garantissem seu amor? Ele não pareceu sentir nem amor nem saudade, apenas parecia perturbado por sua ausência, impaciente, buscando o controle. Ainda não lhe é claro o objetivo de sua viagem, por isso é bom deixá-lo com a certeza de que ao menos o avião não será desconjuntado, para que ele não a perca numa viagem inútil.

E talvez ele tenha razão, talvez seja realmente uma viagem inútil.

Na pontinha do horizonte borrifado de água vê-se uma pequena porção verde acinzentada do oceano Índico, sobre o qual oscilam barcos de pescadores. Portanto, a praia não deve estar longe. Na visita anterior, Shúli a levou mais de uma vez para sua caminhada diária ao longo da praia, e sozinhas, sem os maridos por perto, elas bateram perna inteiramente tranquilas pelo píer do porto dos pescadores. A irmã gostava muito da representação comercial do marido na Tanzânia. Quando a filha Elinór lhe der netos, disse ela, talvez sinta vontade de ficar perto deles, mas por enquanto lhe agrada muito esse ambiente estranho, capaz de atenuar a dor pela morte do soldado que atraiu para si o fogo de seus amigos. Surpresa, Daniela confirmou naquele momento a impressão que trazia havia muito tempo — de que por trás da cortina do luto silencioso, nobre, ardiam na irmã sentimentos pesados e estranhos em relação ao filho, e por temer revelar tais sentimentos mesmo que por acaso, era-lhe confortável a estada num país tão diferente, tão fora das rotas de amigos e parentes. Mesmo ao caminhar lado a lado com uma alma que lhe era mais próxima que qualquer outra, ao longo da praia de um oceano, Shúli preferiu nada revelar, limitando-se a reciclar histórias esquecidas da infância e a debruçar-se sobre a memória dos pais.

Depois, nos telefonemas feitos de Israel, Daniela procurou não mencionar em demasia os filhos e os netos, e devido ao desinteresse da irmã pelos outros parentes, ou por amigos comuns, e mais ainda por notícias da política local, não restaram às duas irmãs outros assuntos que não os repetidos comentários a respeito da curta visita, o espantar-se mais uma vez com os animais vistos na reserva natural e a lembrança dos meninos nus que brincavam nas ondas, como se daqui em diante só estes seriam considerados assuntos em comum dos quais valia a pena falar.

A visitante remete o olhar de volta para a praia e pergunta a si mesma se naquele dia terrível, no qual a irmã começou a agonizar no mercado de Dar es Salaam, ela teria conseguido fazer de manhã sua caminhada ao longo do píer no porto dos pescadores.

Assustada, vira a cabeça para trás. Não, não era o africano que a tocava, e sim o cunhado, que segura na mão duas sacolas, uma cheia de notas e a outra de moedas, e tem a seu lado o gerente do banco, um jovem africano sorridente com gravata e camisa de mangas compridas mas sem paletó, que conheceu muito bem sua irmã e por duas vezes almoçou com ela, nas vezes em que o cunhado veio resolver no banco assuntos mais significativos que a simples conta corrente de uma distante expedição. Sim, Jeremy havia lhe contado havia pouco sobre sua visita à Tanzânia, e esta lhe pareceu importante e necessária, pois não devemos esquecer os mortos, principalmente aqueles cuja alma os abandonou num lugar distante e desconhecido, pois só assim ela poderá voltar para o seu lugar.

“Ora, você também é pagão?”, atira Daniela uma pergunta mal-educada, que surpreende até mesmo a ela.

“Quem me dera”, suspira o jovem negro com franqueza, “mas para mim é tarde demais. Nasci muçulmano, e para que eu possa voltar ao paganismo seria necessário até mesmo reformular as normas deste banco.”

Ele se despede com uma ligeira mesura e convida o africano que dormitava para entrar em sua sala.

“Você tem ainda outros assuntos para resolver?”, pergunta ela ao cunhado, com um tom levemente queixoso, “ou já vai poder me mostrar onde tudo começou?”

“Ainda tenho algumas coisas a fazer”, ele responde serenamente, “mas ficam todas na mesma direção.”

9

Yaári não exige da mulher palavras de amor e carinho. Basta ouvir claramente a sensatez em sua voz e o tom divertido na voz do cunhado. Até mesmo o interesse que ela demonstra, no último instante, pelo queixume dos ventos aqueceu seu coração. Nenhum sinal da dispersão mental, se a essa distância ela se lembra do que o atormenta no dia a dia do escritório. É verdade que ela sempre o surpreendeu ao interessar-se inesperadamente por um problema no escritório que por acaso ele teria deixado escapar. Visto que as questões técnicas lhe eram estranhas por completo e muito distantes de sua compreensão, ela precisava descobrir suscetibilidades ocultas dos funcionários ou dos clientes para poder conectar-se aos dilemas do marido e até por vezes orientá-lo em seus afazeres. Sobre as lamentações dos ventos na rua Pinsker, ele lhe havia contado de modo semijocoso, mas ela, por alguma razão, viu acender-se a curiosidade e desejou ouvir com os próprios ouvidos como se lamentavam os ventos que haviam penetrado nos elevadores planejados pelo marido. Para isso, porém, seria necessário acertar um encontro entre seu tempo livre e uma ventania ocasional, e isso se revelou inexequível.



Ele volta à sua sala. A reunião continuou mesmo na sua ausência, mas descambou das questões técnicas no acréscimo do quinto elevador para uma discussão sobre o custo financeiro da alteração. O engenheiro chefe crava uma soma considerável, porém os mais jovens rebelam-se: enquanto não se souber o quanto e de que modo os demais elevadores terão de encolher, de nada adianta apontar de antemão alguma soma. Mas o engenheiro chefe fala não por seus conhecimentos técnicos, mas por sua experiência em finanças. Se você não apresenta a um órgão governamental uma soma elevada, e fecha a sete chaves a questão com o setor de orçamentos, eles lhe darão, ao final da obra, no lugar do pagamento, o livro dos discursos do ministro com uma calorosa dedicatória.

Yaári os interrompe com uma pergunta geográfica:

“O continente africano fica a oeste ou a leste de Israel?”

“O continente africano? O que você quer dizer com isso? De um modo geral fica a oeste.”

Yaári ri: “O que significa de um modo geral?”.

Agora os engenheiros percebem que o dono do escritório está tentando atazaná-los com uma pergunta simples, e comprimem os olhos para ver melhor o mapa-múndi em suas mentes.

“Tanto a leste quanto a oeste”, diz um dos jovens, “é um continente grande o bastante para se espalhar pelas duas direções.”

Yaári lhes explica sua breve ausência pelo fato de Israel estar uma hora atrasada em relação à África. Apesar da distância, ele troça — para espanto de seus engenheiros —, tinha certeza de que os dois, marido e mulher, estavam sintonizados no mesmo meridiano, mas o fato é que não estavam. E devolve rapidamente o debate para as questões técnicas, mas cuida de nada revelar sobre o esboço noturno dobrado em seu bolso.

Ao meio-dia ele convida a secretária para almoçar com ele, a fim de fechar alguns pontos esquecidos no dia anterior. O céu claro e o ar parado permitem ao garçom fazer uma pergunta inesperada: Aqui dentro ou lá fora? Lá fora, decide Yaári sabiamente, é uma boa ideia. E apesar de a secretária sentir frio e preferir o calor lá de dentro, não lhe ocorre recusar o desafio de lá fora, como se o inverno trouxesse algo especialmente valioso. Mas ela se vê obrigada a continuar com seu casaco e sua gola de pele artificial, e só com dificuldade consegue manobrar entre o garfo e a caneta com que anota as instruções do chefe.

O tempo continua a esquentar, e com a calmaria dos ventos acalmou-se também o telefone celular. O enlutado síndico da torre está quieto, e também a velha de Jerusalém, e mesmo Gottlieb evita conectar-se. Yaári volta ao escritório e olha com afeição para seus funcionários, cujos rostos brilham devido à sabedoria dos computadores. Entra em sua sala e abre a janela. Ao redor da árvore querida espalham-se galhos e raminhos arrancados pelas tempestades dos últimos dias, mas a poda natural não reduziu o encanto da árvore. E a trepadeira exuberante que se alastrou sobre ela irá em breve fazer florir seus botões vermelhos.

Será que Daniela tinha razão? Estaria Morán realmente com medo do serviço na reserva, e seu desdém destinava-se a camuflar tal temor? Yaári nunca percebeu no filho indícios de covardia. Tanto ele quanto o primo serviram em unidades de combate, e o filho acrescentou ao serviço regular um ano a mais como oficial. Mas Daniela sabia melhor como ler na alma das crianças. Mesmo assim, medo? Agora? Num momento em que o fogo nos territórios amainou? Será que pais de dois filhos, cuja família já saldou suas dívidas para com a pátria, não podiam pleitear certa consideração?

Ele liga para o celular de Efrát, e para a sua enorme surpresa este responde de imediato, mas com a voz da netinha.

“Querida, onde você está? Não está na creche?”

“Hoje não tenho aula, vovô, e o Nádi também não.”

“E onde vocês estão agora?”

“Em casa.”

“Em casa? Muito bem. Ótimo. Vocês estão brincando?”

“Não. Na televisão tem um programa para crianças.”

“Na televisão? E o que vocês iam fazer sem televisão?”

“Nada.”


“Querida, deixe-me falar com a mamãe.”

“A mamãe saiu.”

“Saiu sem o celular? Como é que pode?”

“Pode, porque ela esqueceu de levar.”

“E quem está com vocês? A vovó?”

“Não, uma menina veio tomar conta da gente.”

“Menina? Que menina?”

“Uma menina.”

“Mas quem é essa menina? Como ela se chama?”

“Ela não disse.”

“Neta, meu amor, me passe essa menina.”

“Mas agora ela está vendo televisão.”

“Não faz mal. Diga a ela que o vovô precisa falar uma coisa muito importante.”

O telefone é levado até a menina ao som da gritaria de crianças vindo da televisão.

“Quem é você, minha jovem?”

Seu nome é Michal, baby-sitter de ocasião, tem dez anos de idade, mora no prédio ao lado.

“E o que está acontecendo aí, Michal?”

“Nada.”


Nesse momento explode em chamas a ira de Yaári contra sua nora.

10

Em Dar es Salaam a chuva cai macia e devagar, e ao sair do banco Yirmiyáhu compra para a cunhada um guarda-chuva e contrata um homem descalço com uma grande cesta amarrada às costas para carregar suas compras no mercado.



“Você acha realmente importante ver esse lugar?”, ele continua a perguntar à cunhada, “afinal é só um lugar como outro qualquer, perto de algum tabuleiro. Não há nada de especial ali.”

Mas a visitante aferra-se ao desejo de ir ao lugar onde a morte começou a apoderar-se da irmã. Foi também por essa razão que percorreu o longo caminho desde Israel.

Ele segura o braço da cunhada e a guia com cuidado por entre as poças, conduzindo-a até uma venda de utensílios, e, conforme a lista em sua mão, empilha no cesto do carregador pequenas pás para escavar e peneiras várias, pilhas de diversos tamanhos, lanternas e lampiões a querosene. A compra é selada com algumas facas de aço, também elas abocanhadas pelo cesto. Depois passam por balcões de verduras e frutas até que chegam ao mercado de carnes e peixes. Lá, na pequena praça em que está estendida uma rede cinzenta rasgada aqui e ali, dois indianos esperam pelo administrador branco, e este lhes paga a conta da partida de peixes enviada para a expedição no mês anterior e lhes entrega a nova encomenda.

“Naquela manhã ela chegou a caminhar pela praia?”

Yirmiyáhu dá de ombros.

“Quem vai saber? Espero que sim, de todo o coração, porque ela gostava muito desse passeio à beira-mar. E desde que vocês passearam juntas ele ficou associado às lembranças comuns às duas. Saiba que em certos dias, depois que vocês voltaram a Israel, justo porque você não estaria mais, ela não tinha vontade de passear ali sozinha.”

“Porque eu não estaria mais?”, treme a voz de Daniela, e a tristeza pela irmã desperta, finalmente, sua própria tristeza.

Eles entram na praça das barracas de roupas, onde ficam dependurados vestidos e batas e camisas multicoloridas, abaixo dos quais se veem os rolos de tecidos indianos, e como saído das profundezas da terra surge ao lado deles um segundo carregador, em cujo cesto de palha são depositados cobertores militares que aquecerão à noite os ossos dos cientistas, e a visitante que veio de Israel, espremida entre passantes de todas as raças, empolga-se subitamente ao perceber que reconhece perfeitamente o lugar. Ela esteve exatamente aqui na visita anterior. Shúli os levou, a ela e ao Amótz, exatamente até esta barraca. Ela levanta a cabeça para procurar a corda estendida acima dela, e vê ali, pendendo, um vestido irmão do seu. É este o local, diz ela interiormente, é este o lugar, e em sua memória surge a imagem firme, decidida, da irmã ao recusar o conselho imperioso de Amótz para que comprasse um vestido idêntico, a fim de trocar mesmo que só ocasionalmente suas roupas de mãe enlutada.

O administrador da expedição científica lança uma série de pequenas notas e moedas às mãos do africano, e em seguida despede-se dele com um vigoroso abraço. E, antes que se volte para outra barraca, Daniela o puxa pela manga.

“Não é verdade que foi aqui que ela parou e começou a sentir tonteira?”

Por um instante ele se surpreende, observa a cunhada com afeição.

“Mais ou menos. Não é longe daqui. Você está vendo aquela pedra grande ali? Foi lá que ela se sentou. E esse homem, de quem comprei os cobertores, percebeu de longe sua aflição, e ela ainda conseguiu enviá-lo para me chamar. Mas quando cheguei ela já não estava mais aqui, tinha perdido a consciência e quatro homens a levantaram e começaram a correr com ela para o hospital. Mas por que você achou que era este o lugar?”

“Porque estivemos aqui na visita anterior”, diz Daniela com a alma revolta, “aqui compramos o vestido que andei usando, e o Amótz insistiu para que ela comprasse um igual...”, e aponta para o vestido pendurado acima deles.

“Não”, diz ele, convicto, “não comece a procurar aqui uma mística que não existe. Não é digno de você. Este lugar nada tem de especial. É simplesmente o caminho que levava à representação comercial, e ela passava por aqui todos os dias. E não fique tão entusiasmada também com o seu vestido. Há muitos outros exatamente iguais, se você olhar com cuidado, pendurados por toda parte.”

“E onde é o hospital para o qual a levaram?”

“Eles não chegaram com ela ao hospital. Conseguiram apenas levá-la a uma clínica, um pequeno posto de saúde, popular.”

“Por favor, Yírmi, leve-me até lá.”

“Mas agora já está um pouco tarde. O trem parte dentro de uma hora, e eu pensei que poderíamos comer alguma coisa.”

“A comida não importa. Leve-me até essa clínica.”

“Mas por quê? É apenas uma clínica. Por que você precisa ir lá?”

“Porque esse é um dos motivos pelos quais vim de Israel até aqui.”

11

Ainda fervendo de raiva, Amótz salva o documento no qual tentou em vão trabalhar a fim de se acalmar, sai do programa, e depois de pensar um pouco desliga também o computador, fecha a janela, veste seu casaco curto e diz para a secretária que precisa ir ver os netos. Se alguém precisar dele que ligue para o celular. E vai até a casa do filho, na zona norte da cidade. Desta vez ele não hesita em confiscar a vaga exclusiva em frente à porta do filho, e, como tem a chave da casa, nem toca a campainha. Abre a porta, entra na casa mal iluminada e exclama alegremente: Crianças, vejam quem chegou.



No chão, à frente da televisão, estão sentados o neto e a neta, e entre eles a tal baby-sitter de dez anos, uma menina gordinha e baixinha, mas também esperta e empreendedora — já que descobriu o interruptor da persiana elétrica para escurecer a sala de visitas e fortalecer, como no cinema, a ilusão de realidade das figuras que dançam na tela. Neta e Nádi olham por um momento para o animado avô, mas estão esgotados e enfraquecidos pela atenção prolongada que prestaram ao aparelho hipnotizante e não se levantam para abraçá-lo.

Por isso, antes de mais nada é preciso esganar as vozes da televisão, levantar a persiana e trazer de volta a luz do dia, e só então começa o interrogatório da baby-sitter, como se ela fosse a culpada por estar aqui.

“A mãe deles ligou?”

“Não.”


“E a avó deles?”

“Também não.”

“Quem ligou, então?”

“Só você.”

Mas Nádi pula e diz: “Não é verdade, o papai também falou”.

“Papai ligou?”

“Sim”, lembra-se a baby-sitter, “depois de você.”

“E o que ele disse?”

“Ele procurava a mamãe”, Neta vem em socorro da baby-sitter, “ele disse que o Exército ainda vai ficar com ele e precisa que a mamãe mande roupas quentes.”

“Cuecas”, acrescenta Nádi, “papai quer cuecas.”

“E também camisetas.”

“E é só isso?”

“É”, diz Neta.

“Não”, corrige o irmão mais jovem, “ele também deu um beijo no telefone dele.”

A fúria de Yaári já não arde mais, e ele permite que a baby-sitter aumente o volume dos urros dos bichos que agora dançam alegremente com a apresentadora do programa. Depois ele vai até a geladeira para ver o que há lá dentro antes de verificar se alguém está com fome e quer comer. Bem depressa fica claro que estão todos com fome, principalmente a baby-sitter gordinha. Com toda a boa vontade ele se dispõe a cuidar da fome, e prepara rapidamente pequenos sanduíches, e até os enfeita, como aprendeu com a esposa, com graciosas rodelas de pepino, e oferece às crianças grudadas em seus lugares. Prepara também para si um grande sanduíche, e vai passear pela casa.

Ele vê Morán todo dia no escritório, e Daniela prefere cuidar dos netos na casa dela, de modo que poucas vezes ele tem a oportunidade de visitar a casa do filho e da nora. Agora, na ausência deles, ele pode conhecê-la melhor. Inicialmente excursiona pela sala de visitas, examina os cds e fitas de vídeo, depois passa para o quarto das crianças, para ver os desenhos e os brinquedos, e de lá vai até o quarto de dormir e encontra a cama na mais absoluta desordem, como se mesmo na noite passada tivessem dormido ali duas pessoas, e não apenas uma. Ele examina as roupas do filho que, ao contrário do estado caótico da cama, mereceram ser postas numa ordem bem razoável. As calças e camisas estão penduradas, e os suéteres estão dobrados um a um nas prateleiras, e nas gavetas das roupas de baixo estão as camisetas e as cuecas.

O que estaria acontecendo lá no Exército? De onde veio repentinamente aquela mão de ferro? Perto da cama do casal cintila um palm top, e ele localiza com facilidade o número do telefone da base onde está o filho, e depois de hesitar um pouco liga para lá. Uma funcionária do comando da base que o atende identifica rapidamente o tenente Yaári, e até acredita saber para onde ele foi designado. Apesar de os soldados regulares já terem sido enviados para os postos de controle da Samaria, o batalhão de reservistas ficou dentro das fronteiras de 1967, na base de treinamento de Carcur.

“Carcur?” Yaári cerra os olhos para ver diante de si o mapa de Israel. “Carcur? Não fica muito longe daqui.”

“O que se há de fazer”, resmunga a funcionária, “tudo é perto neste país.”

Yaári volta para o salão e descobre que a baby-sitter tornou a abafar a luz do dia para melhor conectar-se com a tela, porque agora, depois que os alegres bichos do mato terminaram a dança, seu lugar foi ocupado por um apresentador de língua afiada, que coordena um papo cabeça com um grupo de rapazes e moças sobre o modo correto de criar os filhos. Mas Neta ainda é jovem demais para fazer os pais passarem sob o fio de sua espada crítica, e por isso se recolheu ao quarto para começar um desenho novo. Nádi, por sua vez, mergulhou num profundo sono ali mesmo no chão, e a baby-sitter não teve forças para levantá-lo e levá-lo até o sofá. Yaári apressa-se em tomar nos braços o pimpolho adormecido, e se admira por ver quão pesado ele é, como se dentro do menino estivesse oculta alguma coisa a mais. E para que o sono lhe seja agradável e não seja atrapalhado pela atividade de Neta no quarto das crianças, onde ela está desenhando, ele o carrega com amor e compaixão para a cama desfeita dos pais, tira seus sapatos, cobre-o com o cobertor deles, e ao ver a testa alta e a linha pronunciada do maxilar, um tanto agressivo, ele se pergunta: esse menino, a quem ele lembra?

“Quanto você ganha por hora?”, ele pergunta, voltando ao salão, à jovem baby-sitter, cujos olhos estão fincados na tela.

Bem, acontece que a baby-sitter original é sua irmã mais velha, e é ela que cobra o preço, e reserva para a irmã mais nova uma parte que lhe cabe como subempregada.

“Subempregada?”, troça Yaári.

“É isso que ela diz que sou para ela.”

“Como se chama a sua irmã?”

“Yuvál.”


“Pois fique sabendo que ela está explorando você.”

A baby-sitter fica estarrecida, e em seus olhos de bezerro já brilha uma lágrima apressada.

“Eu só estava brincando...”, diz o avô, “você não tem culpa nenhuma.” Surge nele a vontade de consolar a menina gordinha, porém ele se cuida para não afagá-la. Chega, tenho de sair daqui. Mas o candelabro em cima da televisão o perturba. Todo sujo de pingos de cera, com dois tocos de vela ainda encravados, como se um sopro natural ou humano não tivesse permitido que elas completassem serenamente sua extinção. Ele arranca os dois tocos, leva o castiçal até a pia, joga água quente da torneira sobre ele, descasca com uma faca o que restou dos pingos, e antes de devolvê-lo à televisão espeta nele quatro velas brancas e mais uma azul, a vela assistente, para o acendimento desta noite.

Se Nádi estivesse acordado seria possível, apesar da luz do dia, acender as velas com os netos e até cantar com eles uma canção não muito longa. Ele sorri para a jovem baby-sitter, mas ao que tudo indica esta não irá lhe perdoar a ofensa que proferiu contra a irmã mais velha. Então o que estou fazendo aqui, afinal? Ele se apruma, e num instante entra em ação total, movido pela necessidade ansiosa de exercer o controle. Na cozinha ele encontra um saco de lixo grande e limpo, leva-o na ponta dos pés ao quarto de dormir e verifica que Nádi ainda dorme profundamente. Abre com cuidado o armário e bota dentro do saco dois pares de calças, um suéter grosso e outro mais fino, e acrescenta várias camisetas e cuecas — como se se tratasse não de um soldado confinado à base, mas de um prisioneiro cumprindo longa pena. Depois anota num pedaço de papel os números dos celulares dele e da avó Yaêl e o entrega à menina para o caso de acontecer alguma coisa.

Ela examina os números.

“Yaêl é sua mulher?”

“Não, é a outra avó. A minha mulher está na África.”

E, quando vai se despedir da neta, esta o agarra, por que você está indo embora?, fique aqui, vovô, mas ele a beija com força, tenho de levar estas roupas ao papai para ele não ficar com frio, mas a mamãe vai voltar daqui a pouco.

Lança o saco de lixo por sobre o ombro e sai do apartamento, mas não chama o elevador. Corre célere escada abaixo até sair do prédio, de encontro ao entardecer de um magnífico céu de inverno, azul, branco e cor-de-rosa.

12

De má vontade, compelido pela enérgica exigência da cunhada, ele faz sinal aos dois carregadores, e sob um céu obscuro e sem graça, contra um vento frio que espeta o rosto com as alfinetadas da chuva fina, a pequena caravana faz seu caminho, tendo à frente um homem branco idoso e calvo, mas alto e robusto, que segura o braço de uma senhora branca protegida por um guarda-chuva, e atrás deles, a uma pequena distância, marcham dois carregadores descalços com seus cestos às costas. E quando os quatro passam na frente do prédio da representação israelense, que cedeu o lugar para uma empresa chinesa de tabaco, junta-se a eles repentinamente, como nascida do ar, a altiva enfermeira Sijin Kuang, que também traz consigo um carregador descalço com um cesto de palha às costas, e os seis caminham agora por uma rua de casas brancas até chegarem a um prédio diante do qual se acotovelam doentes e seus acompanhantes. Mas Yirmiyáhu, sem dizer palavra, por força de sua existência branca e enérgica, conduz a caravana prédio adentro, e sem perguntar a médicos ou enfermeiras, por saber exatamente qual o caminho, orienta-se até uma enfermaria em que se encontram cinco leitos, e aponta para a cunhada uma cama próxima à janela, sobre a qual aconteceu a rápida despedida do mundo.



Na cama da irmã está agora deitado um jovem africano, que observa espantado o homem e a mulher branca postados à sua frente, a olhar diretamente para ele, e a sudanesa que se eleva atrás deles. Nesse momento Daniela não mais controla os sentimentos que se sucedem dentro dela com a potência feérica que esperava, e ela se aproxima do leito e pega a mão do jovem doente, apertando-a amistosamente e dizendo-lhe palavras de estímulo em inglês, nas quais o africano, ainda que não capte o significado, pressente, ao que parece, a intenção calorosa e consoladora, pois se permite, como homem jovem que é, acariciar a mão amistosa da mulher branca. E a carícia da mão negra e delicada do jovem doente, junto à janela através da qual sua irmã deixou este nosso mundo, justifica nesse momento de modo categórico todo o longo caminho feito por ela desde Israel até aqui.

Os três carregadores cingidos com seus grandes cestos, que por algum motivo não se detiveram lá fora e prosseguiram enfermaria adentro no impulso da entrada assertiva do homem branco, dão passagem a um médico e a uma enfermeira, vindos às pressas para esclarecer a estranha irrupção. Mas depois de Yirmiyáhu apresentar a si mesmo e à cunhada, e explicar-lhes o significado de sua visita, eles balançam a cabeça em sinal de compreensão e solidariedade e, por serem novos na clínica, chamam um médico veterano, que se lembra bem da falecida branca do ano passado, e embora não tenha muito a dizer sobre um tratamento que nem chegou a começar, ou sobre a máquina de respiração artificial que demorou a vir, ao menos pode testemunhar a rapidez e a ausência de sofrimentos desnecessários com que se deu a despedida deste mundo sobre a cama ao lado da janela.

13

Ainda sem verificar no mapa onde exatamente deveria virar para pegar a estrada que leva a Carcur, Yaári parte para o norte na estrada litorânea, e com grande esforço insere-se no trânsito do final do dia, que se arrasta vagarosamente pelas três pistas. O ar invernal perdeu sua adstringência, e ele não hesita em abrir inteiramente a janela da companheira que não está a seu lado, na esperança de respirar o aroma dos campos irrigados e talvez até de um pomar oculto. Nesta hora do dia a luz dá o melhor de si, e no firmamento israelense geralmente monótono e entediante no resto do ano desenrola-se agora um pequeno drama. O sol, que abre caminho rumo ao ocidente em meio a uma cordilheira de nuvens encorpadas que vão se aproximando desde o mar, desconjunta vários picos nevados e alguns animais primevos antes de se despedir, além de incendiar as barbas de um velho gigante.



Dentro de pouco mais de cem horas ele irá receber a esposa no aeroporto, horas durante as quais ele por vezes deslizará com facilidade entre o sono e o trabalho, mas em outros momentos se sentirá aprisionado pela saudade — principalmente saudade de sua atenção. Se seu amor governasse o tempo, ele apressaria a volta dela. Mas neste momento há até certa vantagem em sua ausência. Porque Yaári não tem dúvida alguma de que a mulher lançaria uma proibição total a esse tipo de viagem. Morán já tem quase trinta anos, e o pai não precisa aparecer em sua cela de detento com camisetas e cuecas e humilhá-lo. Que a mulher dele cuide de suas roupas de baixo, em vez de perder tempo com todos aqueles treinamentos. Mas Morán não é apenas filho — é também um assalariado em sua empresa, assim se justifica ele às vezes, meio sério, meio caçoando —, e como patrão ele tem o direito, e até o dever, de se preocupar com o funcionário. Daniela com certeza rejeitaria essa duplicidade dissociadora, que confere a ele, mas não a ela, direitos adicionais sobre o filho comum a ambos. Se estivesse aqui neste momento ela diria, mas que bobagem, para você ele é apenas um filho, e além do mais, de onde você tira a certeza de que conseguirá localizá-lo, e de que o deixarão chegar até ele? Essa viagem é inútil, e depois você vai se queixar da falta de tempo. E assim, com sua sábia astúcia, ela teria impedido a viagem.

Mas a sabedoria e a astúcia estão agora passando uma temporada na África, e aqui ele é senhor e dono de si mesmo, confiante em seu expediente de que não deixará a viagem acontecer em vão. E mesmo que não consiga localizar Morán, não faz mal. Carcur não é longe, e apesar do trânsito pesado, que mal se arrasta, há beleza na luz de inverno e no movimento das nuvens, e devido ao feriado de Hanukah há no ar um tom festivo especial, a julgar pelos estacionamentos lotados nos shoppings dos kibutzím de Tel Aviv — Gáash, Shfayím e Yakúm —, em cujos campos, que se tornaram caríssimos como bens imóveis, restou uma antiga caixa d’água, sobre a qual gira um grande castiçal de Hanukah que não conseguiu esperar o fim da festa para liberar toda a sua potência luminosa, a jorrar por seus nove braços.

O próprio Yaári experimenta uma certa liberdade, e isso lhe agrada. É muito raro ele se sentir tão paciente como agora numa situação de engarrafamento prolongado da pista central, sem possibilidade de manobra ou de ultrapassagem; e pelo fato de nas pistas à direita e à esquerda, já há um quilômetro, ele estar sendo acompanhado por duas motoristas que, pela parte superior do corpo e pelo perfil, o atraem, ele abre também a janela a seu lado, e através das duas janelas escancaradas, à direita e à esquerda, cria uma comunicação viva entre as duas, sem palavras, e para sua grande surpresa elas de fato reparam uma na outra e tentam sinalizar algo uma para a outra por seu intermédio.

A popular loja sueca Ikea revela-se o escoadouro principal desse pesado trânsito, porque depois de ultrapassar a zona industrial ao sul de Natânia libera-se o fluxo de automóveis, e o vento que por isso se fortaleceu o obriga a fechar as janelas e a diminuir o aquecimento interno. Depois de breve hesitação ele liga para Nófer e sente alívio por não ter de lidar com uma conversação forçada que tanto o angustia, podendo simplesmente deixar para ela algumas palavras calorosas, mas comedidas, na caixa postal. Em seguida, liga para o apartamento do qual acabou de sair para saber se a dona da casa já voltou, e lhe responde de lá uma voz nova, da irmã mais velha que veio substituir sua subempregada.

“Não se preocupe, vovô”, ela o tranquiliza com uma intimidade a que se deu o direito, “seus netos estão dormindo muito bem. Sim, a Neta adormeceu no meio do desenho. Está tudo bem. Se acontecer algum problema sério eu entro em contato. Seu número está aqui na minha frente.”

E seus pensamentos voltam a centrar-se na conversa telefônica com a esposa. Agora lhe parece que havia na voz dela também uma certa tensão. Como se não estivesse convencida de que sua visita fosse bem-vinda. De fato, ao longo da amizade de tantos anos com o cunhado ele tomou consciência de várias de suas esquisitices. E se depois da morte da mulher ele optou por permanecer naquele lugar ermo e selvagem não apenas para engordar sua poupança para a velhice mas também para melhor distanciar-se da família, talvez não lhe agrade a visita que lhe foi imposta por uma parenta próxima.

Passado o cruzamento ao norte de Natânia, esvai-se o prazer da liberdade. As três pistas fundem-se em duas, e o devagar transforma-se em rastejar, e por vezes em total imobilidade. O automóvel à sua direita, ao mesmo tempo fechado e escuro, é também inquieto, tenta o tempo todo passar à frente. Se ele um dia fundasse um partido político, poria um único item na sua plataforma — Alargamento da estrada Natânia-Hadera. Com certeza ganharia várias cadeiras no Parlamento. Mas nunca lhe ocorreu concorrer nas eleições. Às vezes ele também sente vontade, como o cunhado, de queimar todos os jornais israelenses num grande forno. Mas a mulher os lê com avidez, porque quem dá aulas no ensino médio precisa conhecer a realidade para interpretá-la diante dos alunos.

Acima da ponte no rio Aleksander esvoaça uma formação periclitante e tímida de pássaros migratórios que perderam o contato com seu bando. Luz de fim de dia. Ele aproveita o trânsito lento para examinar o mapa. Foi bom não ter confiado em sua memória, pois esta lhe dizia para virar à direita no cruzamento de Hadera, e não como deveria, mais à frente, perto da enorme usina elétrica de Cesareia.

Quando lhe fica claro qual o melhor caminho, ele começa a ultrapassar e a se meter entre os carros. Não é boa ideia chegar a uma base militar depois do pôr do sol, porque nessa hora os sentinelas estão mais alertas e mais rígidos.

De fato, no portão do campo de treinamento básico, ao som do farfalhar dos velhos eucaliptos, o caminho do pai é barrado por dois esbeltos recrutas etíopes, armados de fuzis e portando equipamento completo, que exigem do visitante um passe assinado. “Eu nem estou indo para a base de vocês”, ele tenta driblar a exigência.

“Vou ao batalhão da reserva que está hospedado aqui. Meu filho é oficial junto ao comando, e precisa urgente de uma muda de roupas”, ele aponta para o saco de lixo.

Mas o batalhão de reservistas não tem um portão particular, e os recrutas disciplinados não foram instruídos sobre casos de civis trazendo encomendas urgentes de roupas de baixo. Como não podem abandonar o posto, eles lhe sugerem esperar pela patrulha que passará daqui a pouco.

“Quando?”

“Em uma hora, mais ou menos.”

“Não”, protesta Yaári, “eu sinto muito, não vou esperar aqui no escuro uma hora inteira. Vejam bem, recrutas, sou pai enlutado, perdi o meu filho mais velho no Exército há sete anos, numa operação militar em Tulkarem. Por favor, não sejam duros comigo agora. Já é tarde, e na sala de comando dos reservistas está o filho que me restou, um oficial combatente que precisa de roupas. Podem olhar à vontade, vou abrir o saco de roupas para vocês verem que não estou levando nem bombas nem granadas.”

14

E Daniela não se afasta do médico, cujo inglês não é rico em metáforas mas é generoso em detalhes, e ela sorve, sedenta, os minutos derradeiros da irmã para fazê-la ressuscitar, em sua imaginação, do vaso de cinzas trazido a Israel pelo marido, com a irritante certeza de que “nenhum de nós acredita na ressurreição dos mortos”. E depois de o médico inclusive prometer à turista israelense que o rapaz negro deitado na cama da irmã vai ficar bom e em breve voltará para casa, aquietou-se finalmente seu pensamento e ela se sente pronta a despedir-se desse lugar onde a dor encontrou enfim o espaço vazio preparado para ela. Ao saírem da clínica a passo rápido rumo à estação ferroviária, ela sente que, se sua viagem terminasse aqui, num momento em que já está claro para ela onde e como faleceu a irmã, já teria se concretizado de certo modo o verdadeiro objetivo de sua vinda. Se agora mesmo lhe surgisse um voo de Dar es Salaam, para estar com os netos na véspera do sábado, acender com eles as velas, cantar com eles as canções de Hanukah e comer com eles os doces típicos da festa, ela se despediria ali mesmo do cunhado. Ele que siga seu caminho nessa chuva de verão, com os três carregadores e a enfermeira esmagada em seu luto, pelas ruas cuja africanidade não esconde sua identidade muçulmana, visível pelas torres das mesquitas e pelos versículos do Corão decorando as paredes aqui e ali.



Mas, como não é possível a despedida antecipada, que inclusive poderia ser vista como uma ofensa declarada, é preciso paciência em relação ao anfitrião ao qual ela impôs sua presença. No restante de sua estadia, assim imagina ela neste momento, não lhe surgirão muitas coisas novas que ela já não soubesse sobre a irmã. Estava claro para ela que o cunhado não era dado a debruçar-se sobre memórias compartilhadas. Até que ela parta será necessário agir simplesmente com cordial humanidade.

Os três carregadores, que agora já sabem para onde vão, lançam-se à frente, e Yirmiyáhu precisa apressar-se para segui-los e fica olhando volta e meia para trás, a ver se a cunhada mantém o ritmo e não se arrasta atrás de Sijin Kuang, que fecha o pequeno desfile como o mastro de um navio andando de marcha à ré.

A imagem da cama e da janela na clínica a acompanha, e a tristeza brota dentro dela como um caldo quente, e mesmo desse homem calvo ela se compadece, o cunhado de setenta anos, companheiro e testemunha desde sua infância, que com seus passos saltitantes parece um pouco um macaco descascado.

Na estação já os espera o trem abarrotado de passageiros. Em cada janela espreita um mosaico familiar completo, dando a impressão de que eles não encontrarão lugar. Mas o administrador da expedição da unesco, que viaja neste mesmo trem com frequência, cuidou de reservar uma cabine num dos vagões, e os carregadores recebem, ao entrarem no vagão, seu pagamento não só pelo esforço de carregarem, mas também pelos utensílios que utilizaram, pois os grandes cestos de palha farão a viagem junto deles. E devido ao fato de que, por causa da visita à clínica, se perdeu a chance de comer com calma em algum restaurante, ou mesmo à beira de um dos balcões, Sijin Kuang é encarregada de buscar um farnel para o caminho. Alguns minutos depois ela volta com um butim variegado, no qual Daniela constata, para a sua frustração, a ausência de qualquer item maravilhosamente doce. Daniela, que nesse meio-tempo já havia posto um olhar aprovador num vendedor ambulante cujo triciclo estava abarrotado de belas guloseimas, pergunta ao cunhado, hesitante e constrangida, se haveria tempo para acrescentar alguns doces ao repasto. E, para o seu espanto, ele endossa o movimento independente na plataforma até a doceria ambulante, e nem sequer a adverte para apressar-se, como se a ideia de deixá-la sozinha na estação caso o trem partisse não o incomodasse muito.

Mas ele acompanha da janela do trem cada um de seus movimentos — de mulher de meia-idade, mas de postura e pernas firmes, como a irmã, cuja silhueta alargou-se um pouco e tornou-se mais pesada graças aos doces consumidos sem ponderação. Ei-la de pé, ávida, juntando uma guloseima e mais outra, como a mocinha em uniforme escolar e a mochila presa às costas, que se detém no caminho de casa no quiosque à entrada do conjunto habitacional.

De fato, ao voltar à cabine e estender diante dos companheiros os saquinhos com chocolates e rebuçados vindos do continente asiático, do outro lado do oceano que se estende entre aquele e este aqui, o cunhado lhe rememora o quiosque de sua adolescência, onde ela comprava sem pagar.

“Não exagere. Era tudo anotado.”

“Numa conta em aberto, que sua mãe pagava no início de cada mês.”

“É, algo assim...”

“Eu não entendo, esse arranjo funcionava também para outros alunos da sua classe?”

“Creio que não.”

“A mim sempre espantou essa história, que seus pais, modestos e quase ascéticos, admitiam a conta aberta de uma menina. Na verdade em sua casa quase nunca havia doces.”

“Por isso mesmo eles não se importavam com a minha frequência ao quiosque.”

“E eles não tinham medo de estragar você?”

“Você já me conhece há quarenta anos. Parece-lhe que isso aconteceu? Dinheiro é algo com que eu nunca me importei. Quando ganhava algum como baby-sitter ou como monitora em colônias de férias, entregava tudo à minha mãe e não me lembrava dele. Não, Yírmi, meus pais não perderam nada com a minha conta no quiosque. Ao contrário, apenas ganharam em sorrisos e bom humor.”

“E os seus fãs?”, alfineta ele, “eles também se aproveitavam da conta aberta?”

“A quem você se refere?”

“Aos rapazes que a acompanhavam depois das aulas.”

“Eles não estavam interessados em guloseimas.”

“Disso eu tenho certeza”, ri Yirmiyáhu, bem-disposto, como se algo nele houvesse afrouxado depois da visita à clínica. E enquanto o trem apita e encoraja a si mesmo a levantar âncora com um sacolejo para a frente e em seguida para trás, Yirmiyáhu se compraz em rememorar a juventude da cunhada, e aproveita para averiguar por que, de todos os seus pretendentes, ela se decidiu logo por Amótz.

“E por que não?”

“Porque você tinha outros amigos mais promissores, pelo menos era o que dizia a Shúli.”

“Promissores para quem?”, os olhos da cunhada fuzilam, e nesse momento o trem arranca do lugar e começa a mover-se com um forte chiado, “promissores em que sentido?”

Yirmiyáhu se assusta por um momento, dá de ombros e nada diz.

15

E como eram apenas recrutas, que dez dias atrás ainda eram civis, eles não estão cientes de que uma ordem militar pode ser infringida somente por desconhecimento, jamais por compaixão. Assim, abrem o portão para o pai enlutado que leva roupas quentes a seu filho vivo. Mas eles não sabem onde fica o batalhão dos reservistas.



Não se preocupem, ele o encontrará sozinho. Pede apenas aos guardas, que revelaram tamanha humanidade, que tomem conta de seu carro, e no lusco-fusco derradeiro de um dia de inverno ele parte em marcha acelerada pelas aleias da grande base militar, agasalhado pelo sussurro da leve aragem nos eucaliptos, altíssimos pelo tanto que mamaram dos pântanos pestilentos nos tempos iniciais do sionismo. Ele não pergunta a ninguém sobre o caminho a tomar, procurando-o pessoalmente entre barracões e tendas de campanha; passa discretamente por uma formação de recrutas, inteiramente equipados, atento ao discurso moralizador de um sargento arrogante, e erra pelas trilhas por um longo tempo, até lhe parecer que estava dando voltas pelos mesmos lugares. Enquanto isso, a terra dedica-se a cobrir seu sapato de mais e mais lama, e o céu se torna cada vez mais preto, e já ostenta duas ou três estrelas a vagar por caminhos invisíveis. O rápido escurecer já ameaça abalar sua autoconfiança quando avista dois automóveis civis e um Land Rover militar empoeirado estacionados junto a um barracão que treme ao impacto de uma música bem ritmada.

Acreditando que a escuridão ocultaria seu rosto, ele espia pelas várias janelas, para certificar-se pelo equipamento, fardas e camas, que aqui de fato residiam soldados da reserva. Um dos quartos era um escritório sem luz, mas o seguinte estava iluminado, e nele havia duas camas de campanha desarrumadas, e sobre um cobertor estendido no chão, perto de um pequeno aquecedor, estava sentado Morán vestindo uma camisa civil, jogando gamão com um major baixinho, dono de uma juba ruiva e revolta. Yaári não se apressa a revelar sua presença, limita-se a colar o rosto à vidraça e a observar o filho, até que subitamente Morán levanta o olhar e não parece surpreso ao ver o rosto do pai na janela. Não se levanta de onde está nem para de jogar, mas faz um sinal amistoso com a mão convidando o pai a entrar e diz ao amigo, não vá me dizer que eu não lhe avisei que meu pai viria me tirar daqui. O oficial de pequena estatura olha para Yaári com carinho e diz, Seja bem-vindo, pai do Morán, só nos dê mais um minuto para terminarmos o jogo, para eu anotar mais uma vitória a meu favor.

“Esteja à vontade, ganhe dele o quanto você quiser, ele merece”, responde Yaári com uma jovialidade esquisita, “mas fique sabendo que não vim aqui na condição de pai, e sim de empregador.”

Morán resmunga, sorrindo, “Claro, empregador”, e joga os dados com ímpeto.

Num minuto o jogo de fato termina, e os dois se empertigam devagar e se sacodem um pouco. Agora Morán abraça o pai com força e até oferece a bochecha para um beijo sem nenhuma inibição, enquanto o major se apresenta ao visitante com um alegre aperto de mão: Hezi, você talvez se lembre de mim, fiz o curso de oficiais junto com o Morán.

“E você também está preso aqui? Parece que aproveitam bem a prisão.”

“Não, pai, o Hezi não está preso, ele faz parte dos que prendem. Ele é o ordenança da divisão. Não tinha com quem jogar gamão, então resolveu me atar a ele por dez dias.”

Yaári acha graça.

“Então você é o ordenança? Saiba que avisei o tempo todo ao seu amigo que pedisse dispensa oficial e direta, em vez de acreditar que iam ignorá-lo assim sem mais nem menos.”

“E ele tinha razão”, diz o ordenança, “sabia muito bem que de mim ele não ia receber nenhuma dispensa.”

“Mesmo estando agora no meio de um projeto importante para o Ministério da Defesa?”

“Tenho aqui soldados com mulheres no oitavo e nono mês, tenho soldados com o pai ou a mãe no hospital, tenho soldados que a cada dia na reserva têm prejuízo nos negócios — por que eu iria me preocupar com o Ministério da Defesa? O Morán estava certo quando resolveu ignorar e achou que iam esquecê-lo.”

“Mas...”

“Mas o problema é que não é fácil esquecer alguém como o Morán, então mandei um policial militar buscá-lo, e acredite, pai do Morán, que foi só por pena que não o mandamos para a cadeia e o seguramos aqui vinculado à ordenança, também para eu ter com quem jogar gamão, apesar de ele jogar só mais ou menos e não ter muita sorte.”

Morán ri. “Não acredite nele, é calúnia.”

“Mas...”


“Mas o quê?”

“Mas...”, hesita Yaári, “então por que não o enviaram para servir com todos os outros?”

“Porque lá ele não é mais necessário. Designamos um outro oficial para a companhia dele. E eu tenho um princípio absoluto — um soldado dispensável e fora de forma é um soldado vulnerável. Além do mais, desta vez chegaram soldados demais, há muitos desempregados agora em Israel.”

“Então qual o problema em dispensá-lo?”

“Por que dispensá-lo? Ele desprezou a solidariedade, ofendeu o coleguismo, então que fique por aqui de serviço até o fim do mês e faça uma revisão de seu comportamento, e por enquanto também melhore um pouco no gamão.”

Morán ri, parece divertir-se com o sermão do amigo. Mas o pai perscruta o rosto do oficial para ver se está falando sério ou apenas fazendo piada.

“Mas como você se tornou major, e o Morán continua como tenente?”

“Porque eu não tenho um pai rico como o Morán, e decidi permanecer na ativa para guardar dinheiro para os estudos.”

“E o que você estudou?”

“No final não estudei nada.”

“Do que você vive, então?”

“De tudo um pouco.”

“Mas eu acho que me lembro do seu rosto de algum lugar.”

“Talvez você tenha visto essa cara na televisão.”

“Na televisão?”

“Assim como você o vê aqui, ordenança dos reservistas, major respeitável, explodindo de tantos valores patrióticos — na televisão ele faz parte de um programa satírico, conta piadas horríveis, e por sorte eles têm lá as gargalhadas gravadas para ele não passar vergonha.”

O oficial humorista enfia um punho afetuoso nas costelas de Morán.

“Então me diga, Hezi”, diz Yaári em tom de intimidade, “eu trouxe essas roupas quentes para o seu prisioneiro, mas o melhor é que liberte você da presença dele. Que faça alguma coisa boa pelo mundo, em vez de ficar plantado aqui.”

Mas o oficial humorista veste a máscara do rigor, e responde de modo assertivo: “É permitido dar as roupas ao Morán, mas é proibido dar o Morán ao pai dele. Ele está cumprindo sentença até o fim do mês de serviço, e será liberado somente quando os outros o forem. E quanto a fazer algo pelo mundo, é verdade que confiscamos seu celular, mas ele tem direito de ligar para a esposa uma vez por dia. Se ela não está em casa ou desligou o celular não é problema do Exército. Mas um momento: Como deixaram o Yaári entrar na base?”.

“Contei aos recrutas do portão que eu sou tio enlutado.”

“Tio enlutado?”, espanta-se o ordenança, “que história é essa?”

Morán também está surpreso com a autodescrição do pai, e lembra ao amigo seu primo que foi morto sete anos antes.

“De fogo amigo”, acrescenta Yaári baixinho.

16

O trem acelera, fazendo com que os vagões produzam um ruído metálico, e é necessário reforçar a estabilidade dos grandes cestos de palha que optam por uma curta viagem independente. Sijin Kuang se levanta, afasta-os até a entrada da cabine e os amarra uns aos outros, apartando-os da curiosidade dos passageiros que passeiam ao longo do corredor. Depois ela retira um jornal de uma das sacolas da comida comprada na estação, põe-se de joelhos e o estende no chão. Nas sacolas há ovos marrons, sardinhas defumadas, frutos do mar fritos, uma fatia de queijo branco duro ornada de filamentos vermelhos, algumas bananas esverdeadas, tâmaras frescas e um coco peludo. Com a delicadeza de seus longos dedos ela tira para si uma sardinha defumada e começa a roer sua cabeça achatada.



Daniela observa com simpatia a flexível posição dobrada das pernas da alta sudanesa, o que deixa espaço para outras pessoas no chão da cabine, e depois de hesitar um pouco recolhe a saia do seu vestido e também vai para o chão, colocando-se de joelhos. Mas ela cuida para não tocar nos peixes defumados nem nos frutos do mar, partindo para si o queijo com um canivete cujas lâminas Sijin Kuang abriu para ela. E Yirmiyáhu, que continuou sentado no banco, monta para si um cone com uma página do jornal e atira dentro dele alguns frutos do mar e sardinhas, corta uma generosa porção de uma pitta de grande diâmetro, e dá início à sua refeição. Eles comem em silêncio, como num repasto de enlutados, na fraternidade da cabine aquecida, apartada pela muralha dos grandes cestos, agora iluminados pelo sol da tarde.

Sijin Kuang não come doces. Basta-lhe, para livrar-se dos gostos do sal e da pimenta, o coco. Yirmiyáhu aceita com prazer alguns dos doces indianos que a cunhada trouxe, e em seguida estende a cabeça para trás perto da janela e fecha os olhos. Daniela acha demasiado açucarados os doces que comprou, e um gosto estranho acompanha o do açúcar. Abre mão deles e se satisfaz com algumas tâmaras frescas. E como os silêncios prolongados nunca lhe foram fáceis, tenta fazer Sijin Kuang falar sobre rituais de fogo, de espíritos, de árvores e de bichos, e de suas curtas respostas ela deduz que também numa religião pagã a concretude e o tangível cedem espaço para a metáfora e o símbolo. Descobre até que a sudanesa havia pensado que ao atirar as velas de Hanukah ao fogo Yirmiyáhu estava cumprindo um ritual religioso.

Não é possível saber se ele dorme ou presta atenção à conversa de olhos fechados. Daniela ajuda a enfermeira a enrolar os jornais sujos da refeição, e quando esta se esgueira entre os cestos e sai da cabine com a sacola de lixo, ela se senta perto da janela em frente ao cunhado. Ele abre os olhos e sorri. Bem, não deve ter sido assim que você imaginou a sua visita, que a fariam correr desse jeito de um lugar a outro. Mas não faz mal, nos dias que ainda restam você poderá descansar.

“Está tudo bem com esses passeios. Eu posso descansar quando chegar em casa.”

Ele concorda com a cabeça.

“Pensando bem, foi bom o Amótz não vir junto com você. Ele sempre tenta alcançar algo claro e objetivo, e uma viagem como a de hoje, de ida e volta, apenas para ver uma cama e uma janela, o teria deixado louco.”

O tom ligeiramente crítico a perturba. O trem corre com velocidade maior e apita com muita frequência. Yirmiyáhu espicha a cabeça para fora da janela, como quem tenta decifrar o motivo dos apitos. Eles viajam agora em meio a uma lagoa amarelada de capim baixo. Teria sido verdade que a irmã lhe contara sobre candidatos mais interessantes em sua juventude, ou ele é que teve essa ideia? Pois quando ela chegou ao ensino médio eles já estavam casados e moravam em Jerusalém, e só aos sábados vinham para o litoral. E quem, afinal, falava sobre “mais interessantes”? Com certeza não seus pais. Eles nunca definiram dessa maneira seus amigos, e apenas achavam alguns mais simpáticos que outros. E Amótz desde o início lhes pareceu simpático, e principalmente confiável.

De repente surge nela o impulso de desafiar o cunhado e defender seu marido. “É estranho”, ela fala com aspecto sério quando cessam os apitos do trem, “é estranho que você mencione amigos meus de mais de quarenta anos como se tivesse podido conhecê-los.”

“É verdade. Eu não conheci nenhum deles. Mas às vezes, anos depois, Shúli identificava um nome de alguém no jornal, alguém que chegou lá.”

“Lá onde?”

“Não sei”, ele diz, um tanto confuso, “por exemplo, aquele que se tornou o promotor geral do Estado.”

“E por que você acha que eu teria que me casar com o promotor do Estado? Eu nunca tive nenhum problema criminal...”

Ele ri: “E problemas de saúde?”.

“O que tem a ver?”

“Estou pensando naquele professor gordinho que encontramos certa vez com vocês há alguns anos num concerto em Jerusalém, um famoso cirurgião cardíaco, que tanto se emocionou ao ver você... Você não se arrepende?”

“De quê?”

“Não sei, não fique zangada, estou falando à toa... Não ter preferido ele ao Amótz?”

“Ele era um rapaz limitado e chato, e além do mais, você é engraçado — o que você sabe sobre ele?”

Ele põe a mão sobre o ombro da cunhada. “Irmãzinha, por que você fica chateada se eu só estou jogando conversa fora neste fim de mundo, neste fim da vida, sobre pretendentes de quarenta anos atrás? Só estou curioso. Eu perguntava também a Shúli de vez em quando, o que tem a sua irmã que tanto atrai os rapazes? Na verdade você nunca foi nenhuma beldade.”

“Claro que não. À minha volta havia meninas mais bonitas.”

“E apesar disso era você que os atraía, como um bolo de mel. E principalmente os intelectuais.”

“Não exagere...”

“E no final, você escolheu um técnico...”

“Ele não é apenas um técnico.”

“E você o escolheu entre os demais tão cedo, mal tinha vinte anos.”

“Mas o que está havendo”, revolta-se ela, “o que há de errado com o Amótz?”

“Quem disse que há algo errado? Por que me atribuir palavras que eu não disse e nem tive intenção de dizer? Afinal depois de tantos anos não somos apenas cunhados, somos amigos.”

“Então como é que de repente você faz tantas restrições a ele?”

“Quem disse que eu faço restrições a Amótz? o que foi? É proibido ficar falando bobagens sobre a sua juventude? É tão raro você estar sozinha comigo, sem a Shúli e sem o Amótz, então me explique por favor por que você escolheu justamente ele.”

“Ele morava no mesmo bairro, mas não estudou na nossa escola. Na sétima série ele foi para uma escola técnica.”

“Por quê?”

“Porque o pai queria prepará-lo melhor para as questões técnicas do seu escritório. Mas depois, você sabe, ele se tornou engenheiro diplomado.”

“Claro, eu nunca duvidei da sua capacidade. Mas...”

“Mas o quê?”

Por entre os cestos que isolam a cabine brota, esculpida com esmero em sua beleza de carvão, a figura de Sijin Kuang. Fica de pé no meio da cabine, com o rosto tenso mirando a janela. Mas logo ela se volta com um sorriso luminoso para Daniela, e estende um longo braço que convoca a mulher branca a olhar para fora. Do vagão ouvem-se gritos de alegria dos passageiros, e o trem parece desacelerar.

Não muito longe dos trilhos, sobre os galhos de um baobá solitário no espaço aberto, estão deitados alguns leões e seus filhotes, piscando serenos para os passageiros do trem.

Mas Daniela, perturbada, tenta não deixar que se rompa o fio da meada.

“Por que o Amótz me pareceu o melhor de todos? Porque desde o primeiro momento eu não apenas senti, eu soube que esse era o homem que poderia me defender de sofrimentos excessivos. Ele não é médico nem jurista, e nem é um engenheiro especialmente talentoso, e pode ser até que às vezes ele me oprima e me entedie, mas é um homem cujo amor e cuja lealdade fazem parte de sua natureza, e por isso não deixaria que o desespero se aproximasse de mim.”

“Desespero?”, recua Yirmiyáhu, como que enojado, “do que você está falando?”

“Desespero, desespero”, a palavra se manifesta em sua boca, como uma febre, e a sudanesa a olha hipnotizada, “desespero de dor, como aquele que matou a minha irmã. Você sabe do que estou falando.”

17

“Nesse caso,” diz Yaári ao ordenança, “deixe-me pelo menos me aconselhar com seu prisioneiro sobre um assunto urgente do trabalho.”



“Que trabalho?”

“Elevadores que estamos projetando para o Ministério da Defesa.”

“E isso não pode esperar até a semana que vem?”

“Cara, por que tanto problema? O que é que estou pedindo, afinal? Que o Morán apenas dê uma olhadinha no esboço que eu trouxe.”

“Só uma olhadinha, nada de reunião de trabalho, porque daqui a pouco começa o jantar e eu prometi ao rabino da base que levaria alguns reservistas para acender as velas com os recrutas.”

Yaári puxa o filho para um canto e com um secreto receio tira do bolso o rascunho da véspera. Não repare nos detalhes, ele adverte, avalie a ideia geral. Ainda não mostrei isto a ninguém do escritório, mas não me contive e mostrei para a nova vice-diretora do departamento de edificações, que nada entende de elevadores.

“E o que disse ela?”

“Nada demais... Achou graça na ideia de que o passageiro teria que ser muito magro... Apesar de que há lugar aqui para duas pessoas.”

Morán examina com mais atenção. O pai o olha tenso, teme que o filho ria dele intimamente.

“É estranho, como foi que você teve a ideia de um elevador no canto?”

“Foi à noite... nasceu de um sonho... talvez, pelo fato de sua mãe não estar comigo à noite, eu esteja menos tranquilo e mais criativo. E talvez eu tenha visto alguma coisa parecida numa velha revista. Mas que importância tem a origem e quem se importa com a inspiração? O principal, francamente — isto parece viável ou eu desenhei um absurdo? Não gostaria de passar vergonha por causa de uma ideia inútil.”

Morán revira o desenho de um lado para o outro. O ordenança endireita a farda, veste uma jaqueta de campanha, enfia a boina, arruma as divisas, olha para os dois impaciente.

“Eu não descartaria a ideia.”

“Sério?”, prorrompe Yaári exultante, “isso é viável?”

“Não sei... Vai ser preciso examinar. Mas em princípio eu não descarto a ideia. Talvez seja essa a direção. Porque senão vamos ter problemas. Você viu que por causa do desvio do poço já nos faltam a esta altura dez centímetros, e quando chegarmos ao telhado vamos descobrir que só nos roubaram meio metro — e ainda vamos ter que agradecer ao empreiteiro.”

“Esse foi exatamente o meu raciocínio”, alegra-se o pai, “em vez de encolher tudo que havíamos projetado, vamos simplesmente enfiar o maldito quinto elevador no canto sul.”

“Alguém lhe disse no Ministério da Defesa qual a finalidade dele?”

“Nada. Segredo total. Há mais de vinte anos trabalhamos com eles, e de repente em mistério. E sobre o quê? Sobre um elevador? Então nós também vamos fazer um pouco de mistério para eles, e quem teimar em andar nele, por favor, que se encolha e vá para o canto.”

“Chega”, exclama o ordenança já na porta, “o só-uma-olhadinha de vocês virou uma reunião completa, então tratem de se despedir. O rabino e as velas estão esperando.”

Ele apaga a luz, e na escuridão que se instalou Yaári e o filho abraçam-se com toda a força e saem para a noite. O ordenança chama algumas outras pessoas, soldados lotados no comando, secretárias, motoristas, e talvez alguns outros “prisioneiros”.

E o próprio Yaári se deixa arrastar pelo pequeno grupo que se move entre as pedras caiadas de uma trilha serpenteante. Por que, afinal, não participar do acendimento das velas? O rabino gostará de mostrar aos recrutas que até um civil idoso veio participar da cerimônia dele, e com isso lhes proporcionará um sentimento de fraternidade e aprofundará sua identidade e seu pertencimento. Junto com o grupo ele entra, então, no grande refeitório, repleto de etíopes e russos, de brancos e negros, recrutas aparvalhados pelo primeiro mês de treinamento. Eles se sentam apertados ao longo de compridas mesas, onde já fumegam as canecas de estanho cinzento cheias de chá, ao lado de tigelas abarrotadas de gigantescos sonhos.

Em cima de um pequeno palco está um castiçal: oito cartuchos de bronze, dos canhões de algum helicóptero. Quatro velas grossas e brancas estão sobre eles em posição de sentido, e acima delas eleva-se seu comandante, a vela assistente, vermelha e enorme.

O rabino sinaliza aos representantes dos reservistas que se aproximem dos lugares guardados para eles perto do palco, e pede que desliguem os celulares. Yaári prefere manter-se na entrada, inclusive porque seu celular começa a tocar e o obriga a sair para fora da luz.

Efrát voltou afinal para casa, e quer saber, autoritária, onde ele se meteu.

“Você não vai acreditar até onde consegui chegar”, ele proclama, orgulhoso, “estou com o Morán, trouxe-lhe camisetas e cuecas. Mas ele já não está mais comigo, levaram-no ao refeitório para acender as velas.”

O rabino militar, oficial com patente de tenente-coronel, acende a vela assistente, mas em vez de continuar de uma vez e proferir as bênçãos, aproveita a oportunidade e desenvolve uma preleção sobre os portentos e os milagres da festa, agitando a vela assistente como se fosse uma tocha.

“Não estou entendendo, quando foi que você largou as crianças?”

“Mais ou menos às quatro e meia. Essa menina, a baby-sitter, não contou a você?”

“Mas não entendo por que você decidiu botar o Nádi para dormir numa hora dessas.”

“Eu não botei o Nádi para dormir. Ele adormeceu no chão na frente da televisão, eu só o levei até a cama.”

“Mas por que na nossa cama e não na dele?”

“Porque a Neta estava desenhando no quarto e eu achei melhor evitar que a luz o atrapalhasse.”

“Se ele adormeceu, nenhuma luz poderia atrapalhá-lo”, ralha a moça com impaciência, “e o que que tem se a luz atrapalhasse o Nádi? Você queria mesmo acabar com a minha noite?”

“Se eu queria acabar com a sua noite?”, espanta-se Yaári, mas tenta se controlar e dar uma resposta racional. “Você mesma disse que nenhuma luz poderia atrapalhá-lo, então mesmo que eu o botasse na cama dele ele não iria acordar...”

“Mesmo assim”, persiste ela no mesmo tom de policial irritado, “por que na nossa cama?”

Algo deu errado com ela, ela foi humilhada de algum modo, pensa Yaári. Talvez o mundo tenha parado de se abismar com a beleza da moça.

“E que mal há em deixá-lo na cama de vocês?”

“É porque ele já conseguiu molhar os cobertores e os lençóis.”

“O Nádi ainda molha a cama? Eu não sabia.”

“Eu de fato esperava que você não soubesse”, diz ela com um sarcasmo de que ele nunca a imaginou capaz.

Yaári está arrasado. Mas sua capacidade de interiorizar as recomendações de Daniela o inibe de dar uma resposta mordaz. Com muita sabedoria ele convoca afeição e doçura suficientes para oferecer à jovem mulher.

“Efrát, o que houve com você? Por que você está tão zangada?”

Agora é a voz dela que se quebra.

“À toa. Estou cansada e estressada com toda essa festa. A detenção do Morán e a viagem da Daniela, que eu tanto esperava que me ajudasse nesse feriado com as crianças. De repente cai tudo em cima de mim e me deixa louca. Mas não faz mal, vamos sobreviver... Só, por favor, não esqueça de vir amanhã à noitinha, como prometeu, para acender as velas com as crianças. Quando o Nádi acordou, a primeira coisa que ele perguntou foi para onde o vovô sumiu e quando é que ele voltava.”

“Que gracinha.”

“Então você vem amanhã?”

“Com certeza.”

No refeitório a preleção, curta, compacta, já terminou, e as quatro velas mais a assistente estão acesas, iluminando a cantoria dos recrutas. Mas Yaári já chegou sem problemas ao portão, perto do qual os sentinelas etíopes acenderam uma fogueira festiva só deles. E aparentemente puseram no fogo alguma substância estranha, que talvez tenham trazido de sua terra natal, que mudou a cor da chama de vermelho para violeta.

18

Junto à plataforma em Morogoro, Daniela sobressalta-se ao perceber que os três carregadores que levaram às costas os cestos de palha em Dar es Salaam adiantaram-se a eles e vieram lhes dar as boas-vindas. Não, diz Yirmiyáhu, corrigindo o equívoco, é apenas a sua impressão, eles pertencem à mesma tribo, e talvez sejam até parentes dos outros três, mas exatamente como chegou até eles a notícia de que estávamos neste trem e de que precisaríamos de ajuda ao chegarmos — isto é algo que ninguém me revelará.



Os novos carregadores marcham à sua frente até o posto de gasolina, onde os espera o fiel Land Rover, agora bem lavado, com a tampa do capô levantada para a inspeção da motorista sudanesa — o filtro de óleo trocado, o radiador limpo e as velas do motor lixadas, produzindo agora uma centelha mais rápida e mais afiada. E enquanto os carregadores esvaziam os grandes cestos e arrumam seu conteúdo em caixas de papelão, Sijin Kuang enfia a cabeça nas entranhas do motor para certificar-se de que suas solicitações se concretizaram.

Yirmiyáhu distribui à sua volta notas e moedas. Os três grandes cestos trocarão de mãos mais de uma vez até voltarem, por caminhos sinuosos, ao mercado da capital.

Uma aeronave pousa numa pista não muito distante. Apenas dois dias se passaram desde que aterrissei aqui, confirma Daniela para si mesma, e dentro de quatro dias estarei decolando de volta.

Pela terceira vez, nesta estadia, Yirmiyáhu se desculpa com sua hóspede por exilá-la ao banco traseiro. Sijin Kuang assume seu lugar junto ao volante.

“Mas o que houve? Aqui na África você não dirige mais?”, ela pergunta ao cunhado um pouco inconformada. “Você sempre gostou de dirigir, e quando vivia conosco lá em Israel estava sempre disposto a me levar para casa à noite de qualquer lugar.”

Yirmiyáhu ainda gosta de dirigir, mesmo na África onde os caminhos são difíceis, mas quando a sudanesa o acompanha ele abre mão do volante e deixa a direção para ela, pois isso a consola de sua tristeza, e serve também de compensação para a sua sexualidade perdida.

Daniela fica abismada com o pouco caso do seu linguajar. Que grosseria. E o que ele sabe afinal sobre a sexualidade da moça?

O cunhado vira-se para trás para falar melhor com Daniela, que protege os olhos com a mão porque o sol, nesse momento, postou-se diretamente à frente do automóvel que ruma para o ocidente.

Ele nada sabe. Um homem branco como ele não tem como entender a sexualidade de uma órfã africana. E não passaria por sua cabeça espionar os hábitos dela para conhecer a verdade. Mas, ainda que não lhe ocorra nenhuma aversão étnica por sua feminilidade, ele sente, a partir de sua própria alma — a alma de quem viu sua sexualidade esmaecer —, que a lembrança do extermínio da família, sempre diante dos olhos dela, extingue-lhe a feminilidade. Ao menos é isso que ele sente, porque o mesmo aconteceu também com a Shúli. O fogo amigo incinerou o pouco de sexualidade que havia nela.

“Não, por favor, não repita essa expressão novamente.”

“Por quê?”

“Porque parece cínica. Não diga mais isso. Por mim.”

“Você se engana, não há cinismo algum nessa ideia, e sim uma descrição bastante realista, até com um toque poético...”

“Você é teimoso, Yírmi...”

“Não era eu o teimoso original, e sim a sua irmã, Shúli. E por eu ter falhado inteiramente, ao contrário do Amótz, em protegê-la do sofrimento, aceitei não exigir a sexualidade dela para mim, e com razão, porque ali, e só ali, ele não podia mais estar conosco.”

“Ele quem?”

“Você realmente não compreende?”

“O Eyáli?”

“Claro.”

Daniela percebe o pânico apoderar-se dela. Estar conosco? O que você quer dizer com isso?

O sol é engolido por uma grande nuvem, e Sijin Kuang acende as luzes do carro e concentra sua atenção na estrada. Depois de muitas horas em contato estreito com os dois brancos, ela pressente que a conversa tornou-se relevante.

Desde sua morte, ele esteve junto a eles em toda parte e em qualquer momento. Era possível associá-lo a qualquer assunto, falar dele sempre que ele ou Shúli desejavam lembrá-lo. Nem sempre queriam, mas sabiam que era possível. Podiam chorá-lo, ou chorar a si próprios, podiam sentir pena e também raiva, e também amaldiçoar quem se apressou em atirar nele, ou, ao contrário, compreender o equívoco.

Sim, quando o personagem de um filme ou certa música num concerto evocavam sua lembrança, cada um deles tinha o direito de dizer algo no meio do filme ou do concerto, e às vezes bastava um suspiro, um toque, um olhar. Eles sabiam e admitiam que ele era acessível a qualquer hora, e nenhum dos dois tinha o direito de dizer “chega de tortura, vamos deixar que descanse em paz”. Numa refeição ou num passeio, numa reunião com amigos, e até ao fazerem compras numa loja, sempre era possível torná-lo presente, até por uma piada ou por uma risada.

Mas não em momentos de erotismo. Nesses momentos existem só os dois, um homem e uma mulher, e o filho deles, vivo ou morto, não tem lugar na cama nem no quarto. Porque se o filho morto penetrar ali na sombra de um breve pensamento, ou imiscuir-se a uma perna exposta ou ao movimento de uma mão, a sexualidade imediatamente morre, ou apodrece. E, talvez para permitir que Eyáli continuasse dela, sua irmã matou deliberadamente a própria sexualidade, do dia do enterro até o dia em que morreu, e com isso matou também a dele. Pois como poderia ele obrigá-la a aceitá-lo quando sabia que a qualquer momento ela poderia abrir a porta de seu pensamento e chamá-lo, vem, meu filho, volte aqui para que eu o chore mais uma vez. Como poderia ele dizer, entre uma carícia e outra, um momento, filho, pare onde está, espere um pouco, você chegou cedo demais. Como naquela madrugada, aqui também há fogo, e se você der mais um passo para dentro da mulher nua que tenho em meus braços atirarei um fogo amigo sobre você...

Pingos de chuva fluem pelo vidro dianteiro, quando há tão pouco tempo ainda fazia sol. O caminho se embrenha mais e mais dentro da floresta montanhosa. E quando Yirmiyáhu vê que a cunhada, até então muito atenta às suas palavras, parece aturdida e recolhida em seu silêncio, ele volta lentamente a cabeça na direção da estrada, dando a entender que a confissão havia terminado e que nada mais havia para ser dito.

Mas para Daniela a conversa não terminou. Sem tentar elevar a voz para além do estrépito do motor, ela se inclina para a frente e aproxima os lábios do crânio careca do cunhado, sentado à sua frente, e, enquanto ele permanece congelado no lugar, quase sussurra em seu ouvido:

“Tão dolorosa, mas compreensível e natural essa sua confissão. Pois saiba que nós também, por várias semanas depois do enterro, quando pensávamos em vocês dois, não conseguíamos tocar um no outro. E apesar do tanto que o Amótz estava sempre ávido, naquela época ele cuidou de não me solicitar. Tornou-se monge sem dar explicações. E nessa época surgiu nele algo esquisito, que acontece às vezes até hoje. Começou a derramar lágrimas no cinema, no escuro, às vezes por bobagens... e quando olho para ele, ele se envergonha e fica todo confuso...”

O crânio de Yirmiyáhu imobiliza-se. Bem devagar ele se volta para trás.

“Derrama lágrimas no escuro? O Amótz? Não acredito...”

“Agora, então, você pode compreender por que escolhi justo a ele.”





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