Para a minha família, com amor Sumário



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TERCEIRA VELA

1


No meio da noite, Tel Aviv clareia por um breve intervalo, e a lua, livre de seu manto cinzento, faz o marido, então no território abandonado da esposa, rolar de volta para o seu lado da cama, e de lá, depois de uma leve hesitação, levantar-se. Yirmiyáhu bem que o avisou para não esperar por provas de vida eletrônicas antes do dia seguinte, mas ainda assim ele mais uma vez percorre os canais de televisão para adormecer com a garantia de que nenhum avião caiu ou foi sequestrado, reforçando a certeza com um comprimido para dormir, ainda que fraco. E nesse meio-tempo, até que o sangue transmita a notícia para o cérebro, ele tenta, com um esboço apressado num papel quadriculado, sempre a postos em sua mesa de cabeceira, examinar a possibilidade de que o quinto elevador exigido pelo Ministério da Defesa não só tenha um comando em separado, mas também portas abrindo de par em par, a fim de se encaixar no canto sudoeste do poço sem roubar espaços significativos dos quatro elevadores já planejados. O esboço é inicial, inspirado em algum modelo que lhe pisca da memória, talvez de alguma revista técnica antiga, e por força do velho hábito de não atrapalhar o sono da esposa ele se contenta também esta noite com uma luzinha bem fraca, que se mescla ao brilho avaro da lua. Apesar de se entusiasmar com a ideia, e não obstante sua fé no desenho que a materializa, ele acrescenta ao final da página uma frase lacônica: Morán, veja se isto é viável!

2

E na clara noite de verão ao sul do equador, essa mesma lua, agora rica e pródiga, não atrapalha o sono da mulher, cuja serenidade natural fundiu-se confortavelmente ao leito de seu anfitrião, arrumado com roupas de cama inteiramente novas. Sua experiência de muitos anos lhe disse que, assim como a irmã, ela não teria descanso entre lençóis velhos lavados num alojamento suspeito. Mesmo sem ter solicitado sua visita, lembrou-se de que ela necessita de lençóis recém-desembalados. Era assim que as irmãs se mimavam, quando visitavam e eram visitadas, e a morte de uma delas não libera o marido de sua obrigação para com a outra, para além da obrigação pessoal de liberar seu quarto e sua cama.



Essa gentileza não o incomoda. Seis noites passam rápido. Entretanto, a ela incomoda o fato de que os jornais de Israel tenham sido lançados ao fogo, e a destruição das velas de Hanukah a deixa decididamente revoltada, ainda que ele tenha prometido não queimar mais nada. E depois da meia-noite, enquanto ela fumava na grande cozinha um último — agora sim — cigarro, a ser descontado de sua cota do dia seguinte, Yirmiyáhu também lhe disse para não se equivocar quanto a ele, pois a crítica, o julgamento e o protesto de cidadão já haviam se desprendido dele há muito, e agora restava apenas o desejo de desligar-se e distanciar-se, ou ao menos de fazer uma pausa. Ela é, afinal, uma mulher adulta, e conhece esse homem e sua história desde a infância — então por que suas palavras não lhe soariam aceitáveis?

Depois de lavar o copo de chá e devolvê-lo a seu lugar, ele pegou a maleta e disse, venha, vamos subir, e prepare-se para setenta degraus, porque aqui obviamente não há elevador, apesar de que Amótz ficaria surpreso em saber que o arquiteto que planejou este lugar entre as duas guerras mundiais não descartou inteiramente a ideia. Desenhou um poço redondo e estreito ao lado da escadaria, que ao longo dos anos ficou cheio de móveis e objetos velhos jogados lá dentro de todos os andares.

E talvez o elevador nem seja necessário, porque os degraus são largos e baixos, facilitando a subida até o quarto no último andar. Essa era a exigência do homem branco que veio juntar-se à expedição africana — um quarto particular no último andar, com vista para a paisagem vasta. O quarto em si não é grande, mas está arrumado e limpo. Em contraste com seu escritório em Jerusalém, aqui os livros são muito poucos, enquanto a mesa de trabalho está coberta por uma pilha de papéis e cadernetas de contabilidade, sobre a qual descansa um crânio reluzente.

“Não se assuste”, Yirmiyáhu levanta o crânio e o afaga, “ele não pertenceu a um ser humano, e sim a um jovem macaco, há mais de três milhões de anos, talvez um antepassado longínquo na cadeia da evolução. E nem é verdadeiro, foi restaurado a partir de um dente de siso incrustado dentro dele. Mas se você acha que vai incomodá-la à noite, eu o levo daqui. A Shúli com certeza não dormiria sozinha com ele no mesmo quarto.”

Mas a irmã mais moça não tem medos imaginários. Por que o crânio de um jovem macaco de três milhões de anos iria atrapalhar seu sono? Ele não se lembra de que na infância ela trazia à noite rãs verdes das margens do rio Yarkon para os pais acariciarem antes de dormir? É verdade, seu rosto iluminou-se num leve sorriso, ele se lembra também das rãs que pulavam sobre a cama da irmã. E talvez até se lembre de outras coisas. Por um momento ele parece contente pelo fato de a cunhada ter vindo visitá-lo. É verdade, reconhece ele, o último luto foi apressado, talvez porque o primeiro tenha sido muito, muito longo. Ele saiu de Israel antes que se completasse um mês não porque queria fugir, mas porque temia que as autoridades em Dar es Salaam aproveitassem sua ausência e fechassem a representação, da qual há muito tinham se arrependido, devido aos gastos com a segurança. Mas, para cúmulo da ironia, quem a liquidou para cortar despesas foi justamente o Ministério do Exterior em Jerusalém, e quem sabe a própria representação comercial afinal tenha sido criada como uma compensação pelo “fogo amigo” que matou seu filho.

Ela ficou sentada na cama, ouvindo, cuidando para não demonstrar cansaço a fim de não ofendê-lo, mas ele se deu conta e, antes que a deixasse em paz com seu cansaço, explicou-lhe como funcionavam as torneiras do chuveiro, e com um sorriso irônico prometeu que a água quente era abundante, pois o aquecedor no primeiro andar ainda estava digerindo os jornais de Israel e acendendo as velas de Hanukah.

Depois de um demorado banho ela foi para a cama, e para se acalmar da tempestade que foi a viagem e mergulhar num sono certeiro, sem o marido a seu lado, embaçou seu espírito com uma página qualquer do livro. Em seguida apagou a luz, e com seu raro talento para fundir preocupações e receios em lembranças e sonhos, pôs a mão sobre a boca, num gesto primitivo vinculado à amamentação, e adormeceu.

Ao amanhecer, quando o cunhado entrou na ponta dos pés para fechar a persiana a fim de protegê-la da violência do sol, ela simplesmente sorriu de gratidão, e como confiava que ele cuidaria para enviar um sinal de vida em seu nome para o marido, persistiu por muitas horas mais a dormir de modo inteiramente despreocupado.

3

Yaári alegrou-se por encontrar, no correio eletrônico do escritório, o esperado sinal de vida. Então, com a esposa aos cuidados do cunhado, ele se permite abandonar a preocupação até que ela comece a viagem de volta, daqui a cinco dias. E num espírito agora livre ele trata de aperfeiçoar, num programa de computador, a ideia noturna do elevador lateral estreito, que funcionará por um comando próprio e não furtará praticamente nenhum espaço dos outros quatro elevadores. Mas ele ainda teme compartilhar a ideia com algum dos técnicos do escritório, receoso de alguma palavra arrogante de desprezo ou ceticismo. Melhor ouvir primeiro o que dirá Morán, porque sua crítica, mesmo que rude e reprovadora, permanecerá entre pai e filho.



Mas Morán tarda em chegar ao escritório. Teria mais uma vez o pequeno Nádi afugentado o sono dos pais e, como sempre, foi o pai quem cuidou de acalmá-lo, e não a mãe? Esse neto de dois anos, apesar de doce, é um pequeno furacão, e os avós costumam trocar comentários críticos sobre a nora, que de tanto procurar a si mesma estaria talvez negligenciando o filho. Mas os dois sempre advertem um ao outro para não permitir que escape alguma palavra desabonadora nem diante dela nem diante de Morán. Quando a conheceram, sete anos atrás, parecia uma moça tímida e desbotada, e era difícil prever a beleza que nela viria a brotar. Eis que depois de dois partos seu corpo recheou-se, sua pele recobriu-se de um brilho novo. Ela passou a andar de sapatos de salto alto, que elevaram sua altura e expuseram-lhe a graça das pernas, e seu rosto, tendo aprendido a arte da maquiagem, começou a atrair as atenções. Mas a beleza que nela se revelou, e que pelo visto nem ela mesma, no passado, imaginava possível, embaralhou um tanto seu juízo. Por um lado tornou-lhe mais fácil encontrar empregos, mas por outro abalou sua determinação de perseverar neles. Soberbamente confiante de que o mundo sempre acatará sua beleza, ela trata com desprezo suas obrigações, demite-se com frequência sem pensar duas vezes, mudando de emprego com altiva facilidade.

Lá fora a calmaria é cinzenta. Não chove nem venta, e no entanto nem a amenidade do inverno é suficiente para impedir que aquele morador teimoso e depressivo, o síndico da torre da rua Pinsker, ligue para o celular de Yaári para mais uma vez exigir dele que faça alguma coisa que acabe com o uivo dos ventos nos elevadores. Yaári não tem por hábito discutir com pessoas físicas os limites de sua responsabilidade, e apenas por boa educação mostra-se interessado em saber se agora, neste exato momento, ainda ressoam os ventos no edifício. Porque, por exemplo, na grande árvore em frente à janela do escritório não se agita nem uma única folha.

“Não se agita nem uma única folha”, graceja o morador, “talvez no seu escritório, senhor Yaári, mas seus elevadores não precisam de vento que venha de fora, eles o fabricam sozinhos.”

Yaári ri e desliga com uma vaga promessa.

Já são quase nove horas e Morán ainda não chegou. Yaári liga para o seu celular, mas quem responde é a caixa postal. Apesar de saber que a nora ainda deve estar, como sempre, dormindo, ele liga para o apartamento do filho. Mas lá também ninguém responde. Sem alternativa, telefona para o celular da nora, e ali a caixa postal o convida gentilmente a deixar um recado. Alguns minutos depois ela liga de volta com uma voz um tanto perturbada.

“É verdade, esqueci. Esqueci de lhe avisar que esta manhã Morán foi para a Reserva.”

“Reserva? Ainda? O que foi que mudou?”

“Quer dizer, ele não foi exatamente por conta própria, foi levado.”

“Por quem?”

“A polícia do Exército esteve aqui.”

“Polícia do Exército? Isso ainda existe?”

“Pelo jeito...”

“Droga, eu bem que avisei a ele. Mas Morán pensou que se esqueceriam dele.”

“Pois então não esqueceram.”

“Você também, Efrát, agiu de um modo não muito correto. Tinha que ter pressionado o Morán a não fazer esse tipo de provocação.”

“Ótimo, Amótz, agora eu também estou errada”, ela se encrespa, como se sua beleza fosse também uma garantia de que ela está sempre certa. “Por que eu? Por que você tem tanta certeza de que o Morán me conta essas trapalhadas dele?”

“Está bem. Me desculpe. E agora, como vai ser? Eu precisava dele no escritório com urgência.”

“Se você precisa dele, vai dar um jeito de encontrá-lo.”

“E as crianças, Efrát?”, ele se enterneceu, “e as crianças? Você não precisa de ajuda com elas?”

“É claro que preciso. Tenho um curso hoje à noite no Norte. Mamãe prometeu que eles iriam pernoitar lá, mas se o Nádi dormir novamente na creche ela não vai conseguir lidar com ele à noite.”

“E eu que tinha planejado ir acender as velas hoje aí com vocês.”

“Muito bom... Então vocês podem ir direto para a casa da mamãe. Acendam as velas junto com ela, e ajudem-na um pouco. As crianças vão ficar contentes... E se minha mãe já estiver esgotada por causa deles, vocês poderiam levá-los para dormir com vocês.”

“Um momento, Efrát, estou falando apenas por mim. Você esqueceu que a Daniela viajou para a África ontem?”

“Ai, é verdade. Estou tão pouco acostumada a pensar em vocês individualmente que esqueci por completo da viagem dela.”

4

A persiana fechada antes do alvorecer de fato auxiliou a prolongar o sono da visitante até o final da manhã, e quando ela se deu conta do tempo que havia passado compreendeu quantas emoções e medos haviam se acumulado nela nas últimas vinte e quatro horas, daí o sono assim profundo. Yírmi pelo visto não conjecturou que para uma visita de alguns dias seria preciso liberar uma prateleira no seu pequeno guarda-roupa, e por falta de alternativa sua maleta com rodinhas funcionará como armário, mas um vestido de tecido africano, que Amótz a estimulou a comprar três anos antes no mercado de Dar es Salaam, e que em Israel ela não ousou vestir, encontra-se agora pendurado ao lado das roupas cor de areia do cunhado, para endireitar as dobras da viagem a fim de ser provado, pela última vez, no continente onde teve origem.



Quando os painéis da velha persiana se abrem com um agradável rangido, descobre-se ante seus olhos uma paisagem avermelhada de colinas baixas, ricas em vegetação rasteira. O caos do capinzal noturno, que a acompanhou todo o caminho em volta do monte Morogoro, desapareceu, e a extensão à sua frente apresenta agora, apesar da coloração esverdeada, o gosto de um deserto próximo. Junto à entrada da fazenda ela identifica o Land Rover que a trouxe, estacionado entre duas caminhonetes.

No andar térreo, ao qual ela desce devagar, a azáfama da atividade humana é acompanhada de cantoria feminina, do som de água correndo, da barulheira dos utensílios e do cacarejar de galinhas. À cozinha gigante agora inundada de luz são trazidas guarnições de mesa poeirentas e pegajosas, que chegaram à noite do sítio das escavações, caixas de plástico, pratos e copos, e uma profusão de colheres, facas e garfos, e tudo é levado prontamente para receber água e sabão. E sobre as mesas no refeitório aguarda uma pletora de alimentos — verduras frescas, ovos amarronzados, pão de milho, grandes postas de carne ainda sangrando e peixes que experimentam seus últimos estertores. Sobre uma das mesas há uma gaiola com as galinhas cacarejantes, e à porta de entrada está atada uma cabra preta, amamentando um cabrito também destinado à degola.

Os fogões funcionam a todo vapor, e sobre eles encontram-se enormes panelas, tigelas e frigideiras; cozinheiros e cozinheiras negros, vestindo gorros e aventais branquíssimos, decepam cabeças e caudas de peixes, retalham carnes, misturam e assam, e o próprio Yírmi se associa ativamente à equipe, mesmo que não cozinhe, só negocie. Usando um chapéu safári, está sentado a uma mesa sobre a qual há uma velha balança, e a seu lado diversas notas e moedas, e ele examina e anota os detalhes das mercadorias que entram na cozinha, e barganha antes de liquidar as contas, e sua presença empresta a autoridade do homem branco, calvo e idoso, frente à africanidade fervilhante e caleidoscópica.

“E então? Você dormiu à beça, hein?”, ouve-se em sua voz um leve tom de reclamação contra a cunhada que veio chorar a morte da irmã e por enquanto age como se estivesse de férias.

Ele chama a enfermeira, Sijin Kuang, que também circula ali entre os fogões e os cozinheiros, talvez para fiscalizar a higiene dos afazeres, e lhe pede para servir à visitante uma seleção dos alimentos prontos numa combinação de desjejum e almoço.

Aqui na base estão sendo preparados alimentos que serão acondicionados em caixas plásticas — enviadas, em contêineres, ao sítio das escavações. A expedição científica em si mesma não é numerosa: são dez pessoas no total, africanos que em sua maioria nasceram no grande continente e adquiriram experiência em escavações promovidas por expedições europeias no Quênia, na Tanzânia e na África do Sul, e agora realizam uma escavação de pesquisa de sua própria autoria. A esses pesquisadores vieram juntar-se muitos escavadores, provenientes das tribos ao redor, na esperança de que a proximidade linguística e racial entre os cientistas e os operários ajudasse a localizar e expor de modo eficiente os tão ansiados fósseis.

Daniela tem muita fome, mas não costuma comer sozinha, e por isso convida a enfermeira sudanesa a acompanhá-la; Yirmiyáhu cobre as notas e moedas com seu chapéu de safári e se junta a elas. Quando o chefe dos cozinheiros aparece ao final da refeição para recolher a louça, ela elogia os pratos e se oferece para ajudar a lavar a louça. O homem preto, espantado com os modos nada elitistas da senhora branca, escancara os dentes como se desejasse devorá-la inteira.

Yirmiyáhu explode numa gargalhada.

“Lavar a louça? Você? Aqui?”

“E por que não?”

“Por que não? Pois se na casa de seus pais, aos sábados, quantas manobras de evasão você fazia para escapar da única obrigação que lhe deram — a de lavar a louça do almoço, até que a Shúli perdia a paciência e se levantava para lavá-la no seu lugar.”

“No meu lugar?”, enrubesce Daniela, “não é verdade... Às vezes ela vinha me ajudar a enxugá-la.”

“Não, não”, e insiste por alguma razão nas memórias de infância de mais de quarenta anos atrás. “Você era especialista em evasão.”

“Não é verdade. Só queria fazer as coisas no meu próprio ritmo.”

“No meu próprio ritmo”, imita ele num tom de estranho desdém, como se falasse de algo atual e concreto, “mas no fim não havia ritmo nenhum.”

Daniela sorri, porque realmente “no meu próprio ritmo” era o seu truque para escapar da obrigação. Sua esperança era de que alguém perdesse a paciência e a substituísse, ou ao menos viesse ajudá-la. E apesar de que lavar a louça do almoço do sábado fosse sua única obrigação nas tarefas domésticas, ela mergulhava em depressão ainda durante a refeição, e pelo fato de ser geralmente uma menina bem alegre, a família logo captou essa “depressão da louça” e a transformou numa grande piada, mas não abria mão de cobrar a tarefa da menina adorada, por uma questão educativa. E, afinal, o que havia de tão difícil em lavar a louça?, a mãe amorosa perscrutava a filha com um olhar de compaixão, mas a menina não sabia explicar a humilhação que sentia por ficar em pé naquela cozinha apertada e deprimente — que a própria mãe também detestava — enquanto os outros membros da família refestelavam-se na sesta da tarde de sábado.

E “no seu próprio ritmo”, quando já estavam todos deitados, ela entrava com uma sensação de nojo na cozinha escura do apartamento proletário, parava em frente à pia cinzenta e arranhada, repleta de louças cada qual mais repulsiva que a outra, espalhava rios de detergente sobre todas elas, e escapulia dali para folhear o jornal, ou para um longo papo ao telefone, rezando para que o detergente fizesse o trabalho sozinho. E quando os pais acordavam e encontravam a pia cheia de louça suja, ouvia-se às vezes da cozinha o barulho salvador da água a correr, e ela saltitava até lá, sorridente e alegre, e dizia, ai, por que tanta pressa? Eu prometi lavar, por que vocês não têm paciência para esperar que eu faça no meu próprio ritmo?

Agora, observando a satisfação do trabalho coletivo na enorme cozinha, surge em sua mente a ideia de que não era a lavagem da louça em si que a fazia sofrer, mas a solidão. Pois ela sempre gostava de ajudar o pai a cuidar do pequeno jardim, ou a pintar o batente do portão, mas sua alma revoltava-se contra ficar ali sozinha diante daquela sujeira e daqueles restos deixados pela família agora adormecida, mesmo sendo eles tão amados.

E se por vezes acontecia de, à hora do jantar, não restar nenhum copo, prato ou colher limpos, e uma justa ira enchia a casa devido a um “ritmo” em que nada se movia, sua irmã vinha em seu socorro, e entrava na cozinha sem qualquer ressentimento, pacificando a todos com sua ativa colaboração.

“É verdade que ela nunca ficou zangada comigo?”, pergunta agora Daniela, sem entender. “Seria até natural ela se zangar também...”

“Zangada? Não, eu não me lembro...”

A irmãzinha, que em pouco tempo fará sessenta anos, desvia o olhar — aliviada — grata, com a garganta apertada, para o céu azul, para as colinas da savana africana.

5

Em Tel Aviv os ventos acordam, o que torna tempestuosa também a conversa entre Gottlieb e Yaári.



“Apesar de tudo, Yaári, tente me explicar de novo, mas por favor de modo racional, por que exatamente você está tão preocupado com esses ventos, quando você sabe tão bem quanto eu que o barulho no poço nada tem a ver com o que você planejou nem com o que eu construí. Por que gastar um dia de trabalho com isso, paralisar elevadores, desmontar portas e inventar despesas só para descobrir o que na verdade já está mais do que claro para todo o mundo: que a construtora economizou no ferro e não caprichou na concretagem, e por isso ela é que devia quebrar a cabeça com os moradores?”

“Pode ser que você tenha razão e que é isto que ficará claro no fim, mas, ainda assim, o Morán falou com a sua especialista, a tal técnica...”

“Rôlaleh...”

“E segundo ela os defeitos do poço são antigos, aparentemente já estavam lá muito antes da colocação dos elevadores, de modo que, mesmo que não sejamos formalmente responsáveis pelos defeitos, do ponto de vista moral...”

“Do ponto de vista moral?”, espanta-se o fabricante. “Essa é nova. De onde surgiu essa história?”

“Ouça e não fique zangado, moralmente existe a responsabilidade dos seus técnicos e, reconheço, talvez também do nosso engenheiro que fiscalizou o trabalho, de prestar atenção aos defeitos e avisar a empresa construtora antes da montagem.”

“Não e não. Você está enganado. Há mais de trinta anos trabalhamos em conjunto, e apesar da experiência e do profissionalismo que você adquiriu com o tempo, eu estou aqui há mais tempo que você, e entre mim e seu pai sempre houve acordos e entendimentos sobre as fronteiras da nossa responsabilidade conjunta. E, mesmo quando seu pai ficou doente e passou o comando para você, concordamos em continuar no mesmo espírito, quer dizer, conciliar as nossas posições para que os contratantes e as construtoras não nos tratassem na base do dividir-e-dominar. Então o que é que o ‘ponto de vista moral’ tem a ver neste caso? No passado nunca usamos essa expressão, e ela é inútil também quanto ao futuro. Falamos sobre responsabilidade legal conjunta, e decidimos quais seriam as consequências financeiras, e assim tocamos a nossa parceria de maneira digna e econômica. Por que então você está tentando agora acordar defuntos que não querem ser acordados? A construtora está calada e não apresentou nenhuma exigência até agora, só fica tentando nos enfraquecer indiretamente, através do síndico — que, ainda que tenha perdido um filho, não pode nos levar a perder a cabeça por causa dele.”

“Ele perdeu um filho? Como você sabe?”

“Ora, não é só a você que ele fica perturbando, a mim também, por isso decidi pesquisar quem é ele e o que o impele. Descobri que seu filho foi morto em combate há não muito tempo, um ou dois meses antes de ele se mudar para lá. E, apesar de que pessoas assim devem ser tratadas com respeito, não podemos esquecer que elas têm uma agenda na cabeça que é diferente da nossa. Infelizmente tenho aqui na fábrica, depois de todas as guerras, várias pessoas que perderam filhos, e eu sempre cuido para não entrar em confronto com elas. Ouço o que dizem educadamente, abaixo a cabeça e prometo pensar no que pedem e fazer o possível para atendê-los, e depois, com cuidado e delicadeza, eu os contorno aqui e ali e faço o que é preciso fazer. Porque se você entra em conflito com gente que perdeu o filho eles são capazes de arrastar você até muito longe.”

“Você sabe que conosco também, na nossa família...”

“Claro, eu estive no enterro militar.”

“Você também foi ao enterro? Não me lembro de vê-lo. Estava ocupado com a minha filha mais moça, a Nófer, que desmaiou na beira da sepultura, e fiquei tão assustado que nem vi...”

“É verdade, e eu me lembro também do susto que levou o seu pai, que já naquela época usava uma bengala... Quantos anos tinha a menina?”

“No máximo doze. Mas de nós quatro foi a que mais sofreu com a perda do primo, e eu acho que até hoje, sete anos depois, ela ainda não se recuperou inteiramente.”

“Isso acontece às vezes entre primos, que se apaixonam em segredo com muita intensidade.”

“Pode ser... Quem conhece a alma dos filhos? Pois se até uma esposa pode surpreender a gente... Mas, olhe, vamos voltar à reclamação e estabelecer um dia de trabalho a ela, para manter o nosso bom nome, o meu e o seu, e dividir as despesas. Vamos subir no teto do elevador principal, e subir bem devagar, iluminando o poço com uma luz bem forte, para comprovar de uma vez por todas de onde vêm os ventos e por que eles se lamentam.”

“Não, meu querido. Eu me recuso terminantemente. Já aprendi que as máquinas são como o corpo humano, você começa a abrir e bisbilhotar e acaba descobrindo coisas que era melhor não saber. É verdade que a minha técnica é muito sensível a sons e ruídos, mas acredite em mim, ela também é um pouco doida.”

“Doida?”


“Excessivamente autoconfiante. Por isso é preciso pôr limites ao que ela diz. Resumindo: enquanto não houver uma exigência formal, nós dois ficaremos sentados quietos em nosso canto. E se esse homem, o síndico, perturbar você novamente, diga-lhe que tem razão, estamos estudando o problema, mas vai levar algum tempo até resolvermos, e com delicadeza faça-o desgrudar de você. Uivos de ventos ainda não enlouqueceram ninguém. E a moral, meu amigo, deixe para os assuntos de família.”

6

Agora os cozinheiros tiram os gorros brancos da cabeça e com eles abanam por cima das panelas, para baixar um pouco a temperatura dos alimentos antes que estes sejam devorados pelas caixas plásticas e postos na grande geladeira. As refeições vão para o sítio das escavações só às três da tarde, e nesse meio-tempo Yírmi sugere à cunhada saírem para um passeio não muito longo, a pé, para que ela veja um elefante sui generis.



“Elefante”, exulta ela. “Excelente, mas por que ele é sui generis?”

“Quando você o encontrar, entenderá.”

“E por que precisamos ir a pé? Não dá para ir de carro?”

“Não vai ser uma caminhada muito longa.”

“Tem certeza?”

“Não vou levar você para nenhuma caminhada que sua irmã não aguentaria.”

Ela sobe até o quarto para calçar sapatos mais esportivos, pensa um pouco e resolve vestir o vestido africano, pois um canto perdido na África é o lugar ideal para avaliar se aquelas cores berrantes são compatíveis com sua personalidade. Para sua surpresa, o cunhado identifica o vestido comprado no mercado perto da representação israelense. Ele havia tentado então instar sua mulher a fazer como a irmã e comprar para ela própria um vestido semelhante. Mas Shúli não se deixou convencer de modo algum.

“Não tive coragem de vesti-lo em Israel, porque as cores não só são berrantes, como acho que não combinam.”

“É uma pena, porque as mulheres africanas da sua idade sabem que cores berrantes e que não combinam só as fazem parecer mais jovens.”

“Então agora serei uma africana mais jovem”, a visitante atravessa, divertida, a porta da casa da fazenda, e o sol a ofusca já no primeiro passo. “Um momento”, diz ela, “pare. Não estou preparada para um sol tão forte. Você se esquece que vim de um país onde chove e venta muito.”

Mas Yírmi faz pouco da potência do inverno israelense, que grandes tempestades acontecem por lá, afinal. Ele tira o chapéu de safári e o enfia na cabeça dela, aqui, isto é em homenagem ao equador, e a guia a uma trilha de terra protegida pela sombra, agradável para caminhar. Apesar da violência da luz, ela percebe a pureza do ar.

Depois de uma curta e tranquila caminhada eles chegam a um pequeno riacho em cujas margens pastam vacas pretas. Yírmi dirige algumas palavras aos pastores altos, no idioma deles, e eles lhe devolvem uma frase mais comprida.

Desde que chegou ontem à noite ela ainda não disse nada a respeito de sua família, não mencionou nem Amótz nem Morán ou Nófer, e cuidou sobretudo de não dizer nada carinhoso sobre seus dois netos, e estranhamente ele também ignorou até agora a existência deles, nem perguntou nem se interessou, como se eles tivessem sido engolidos pelo abismo do distanciamento. E enquanto andam pela margem do riacho ela decide falar deles, pois o cunhado até então sempre lhe parecera afeiçoado às crianças. E ele caminha a seu lado indiferente e calado, nas suas roupas largas cor de areia, o crânio exposto avermelhando-se à luz ofuscante.

“Desculpe, isso tudo lhe interessa de algum modo?”

“Para falar a verdade, não... Mas se você acha importante fale, por que não?”

Ela se espanta e cala, relevando a agressão direta. É verdade, ela impôs a ele essa visita não para falar do marido e dos filhos, e sim para falar e ouvir sobre a irmã, mas quem sabe dela também ele deseje se distanciar.

Meia hora depois chegam a um amplo rio, às margens do qual há barracos e casebres.

“Olhe, lá está o elefante”, ele aponta para uma palhoça distante. Alguns meninos aglomerados à volta da palhoça começam a correr em direção aos dois brancos. Um africano idoso, de cabelos brancos, sentado à entrada da palhoça, identifica de longe o homem branco e o chama pelo nome. Yirmiyáhu já havia visitado o lugar algumas vezes, pagando o preço da entrada.

O elefante não é muito grande, mas sua existência e seu cheiro preenchem a palhoça. Uma longa corrente amarra uma de suas pernas a um tronco de árvore cuja copa foi cortada, e sem dar atenção aos visitantes que vieram vê-lo ele continua a catar delicadamente vegetais da pequena manjedoura e fazê-los voar com sua tromba até a boca avermelhada.

O africano grita uma ordem aguda, e o animal para de comer, levanta a cabeça e a aproxima dos visitantes. Agora a turista compreende a finalidade do passeio. O olho esquerdo do elefante é estreito e normal, mergulhado na carne escura da bochecha, mas o olho direito é enorme e escancarado, como um olho ciclópico cheio de curiosidade e sabedoria, no qual se mexe uma íris azulada ou esverdeada. E esta examina o mundo de um modo humano e melancólico.

“O que é isto?”, ela se arrepia, assustada, “esse olho é verdadeiro?”

“Claro. Esse homem cuidava dos animais numa certa reserva e percebeu o olho diferente logo que o elefante nasceu, e notou também que devido ao defeito genético a mãe rejeitou o bebê e poderia até agredi-lo. Por isso pediu permissão às autoridades da reserva para isolar o elefantinho a fim de protegê-lo e também mostrar essa maravilha ao mundo. E assim ele migra de lugar em lugar, constrói uma palhoça e cobra a entrada.”

O africano profere uma outra ordem, e o animal dá alguns passos para se aproximar de Daniela, ajoelha-se com grande cerimônia e inclina a cabeça para mostrar de perto o prodígio do grande olho e receber uma recompensa. A visitante se sente esmorecer. O cheio acre do elefante a deixa tonta. Pode acariciá-lo, diz o cunhado, e ela estende a mão para o globo ocular azul esverdeado que a hipnotiza, mas recua imediatamente. Yirmiyáhu prorrompe numa risada curta e estranha.

Daniela observa o cunhado, que parece bem-disposto e satisfeito. É, desde sempre ele manifestava esquisitices que perturbavam os pais dela, mas o amor e a devoção à irmã afastaram as preocupações de todos. Agora, sem a mulher, ele aparentemente começou a se soltar das rédeas.

O elefante se levanta e, em homenagem às visitas, deixa cair seus dejetos, que pousam com uma pancadinha amistosa no tapete de palha. O africano as examina, satisfeito, e sorri para Yirmiyáhu, que concorda com a cabeça.

“Vejo que você gosta daqui”, provoca Daniela ao saírem da palhoça, “você se isolou e esqueceu os problemas. Queima jornais, e vive sem telefone nem rádio. Mas você realmente consegue se isolar, ou está apenas fingindo? Não me diga, por exemplo, que você não ficou sabendo da mudança do primeiro-ministro em Israel.”

“Não sei”, ele levanta a mão para que ela pare, “e não quero saber.”

“Você nem quer saber quem é o primeiro-ministro atual?”

“Realmente não”, ele enfatiza, “e não diga nada. Não quero ouvir o nome dele, nem o nome dos ministros e dos deputados. Não me importa e não me interessa. Por favor, Daniela, comece a se dar conta de onde eu estou e o que para mim é importante agora. Afinal você veio para reavivar seu luto, e não para envenenar meu distanciamento.”

7

Yaári tenta, sem sucesso, entrar em contato com Morán. É difícil para ele aceitar o fato de que o celular do filho, sempre acessível e pronto para encontrá-lo, de súbito transformou-se numa simples caixa postal acumulando, indiferente, informações em algum lugar na empresa de telefonia móvel. Ele liga então para a residência do filho, não na esperança de encontrá-lo, mas para deixar um breve e enérgico recado numa secretária eletrônica de verdade — a preocupação de um pai disfarçada da exigência de um patrão cobrando informações sobre quando exatamente seu empregado será liberado. Em seguida liga novamente para o celular de Efrát, que só vai retornar a ligação dentro de algum tempo. Por saber que a nora pode identificá-lo na tela e ignorá-lo à vontade, ele lhe deixa o recado mais veemente que um sogro pode deixar para a mãe de seus netos sem estragar o relacionamento com ela. Efrát querida, diz ele com uma ponta de desesperança na voz, se você conseguiu entrar em contato com o seu desertor por favor avise-me imediatamente, porque preciso dele com muita urgência.



A bem da verdade, não há nada urgente que torne indispensável a presença de Morán no escritório, mas o pai não está à sua procura como empregado e sim como um filho que ele pode dominar com seu amor, especialmente agora, mais de vinte e quatro horas depois de ter se separado da esposa, cuja falta, por enquanto mais emocional que física, o oprime. A esposa sabe traduzir em palavras angústias que ele próprio tem dificuldade de definir, bem como abrandá-las e diminuir-lhes o peso. E ainda que não vá rebaixar-se fazendo ao filho as reclamações que faria para ela, ele o procura como a uma efígie silenciosa da mulher.

Liga então para a filha em Jerusalém, mas ela também não responde à chamada no celular, o que lhe dá a satisfação de poder deixar um recado sem ser obrigado a uma altercação. Acredito, Nófer, diz ele escolhendo cuidadosamente as palavras, que você não tenha esquecido que sua mãe viajou ontem para visitar o Yírmi na África. O Morán foi se apresentar à Reserva, ou melhor, foi levado, e ainda não está claro se irá voltar hoje à noite ou só amanhã. A Efrát está fazendo mais um curso de aperfeiçoamento, e a mãe dela vai levar as crianças para dormir na sua casa. Portanto, hoje estou sozinho. Se você não tiver plantão ou alguma coisa importante em Jerusalém, seria bom se viesse para casa ficar comigo um pouco e assim acenderíamos as velas juntos.

Silêncio. Às suas narinas chega um odor agradável de tabaco. Ele se levanta, apanha o paletó e sai de sua sala para o salão. Apesar de a hora do almoço ainda estar longe, o recinto está praticamente vazio. Mas no canto, apartado por uma pequena divisória de vidro, está sentado o engenheiro chefe, o dr. Mal’achi, pensativo à frente do esboço de um grande elevador desenhado na tela. Na ausência de outras pessoas à sua volta, ele se permite pitar seu cachimbo. Yaári aproxima-se para melhor desfrutar do cheiro.

“O cheiro de tabaco é parte inseparável da minha infância, dos bons tempos em que era permitido fumar no escritório. Se não fosse a reunião no Ministério da Defesa eu ficaria para desfrutar o cheiro mais um pouco. Mas, por favor, antes de sair, cuide para não deixar brasas acesas na cesta de lixo...”

“E você cuide para não prometer um quinto elevador antes que eles se comprometam a pagar todas as despesas que teremos que fazer com a modificação do planejamento.”

“Veremos”, murmura Yaári, e veste o paletó, “veremos.” Mas não exibe o esboço noturno guardado no bolso, por recear o tom de mofa daquele a quem ele paga o maior salário da empresa.

8

“Você não está chateada por eu tê-la arrastado até esse elefante?”, ele procura saber, delicadamente.



“Não”, responde ela, e por trás da aba do chapéu aparece uma doçura infantil em seu rosto já não tão jovem. E acrescenta com um sorriso: “Então a você interessa mais o elefante mutante que o primeiro-ministro...”.

“Por quê? Ele também é um mutante?”, ri o cunhado, e seu olhar se volta para o horizonte das colinas.

Nesse meio-tempo o sol elevou-se mais um pouco, e a trilha agora está banhada por uma luz escaldante. Aquele esboço de sombra imaginária, que antes ela acreditava acompanhá-los pelas costas, agora se evaporou e desapareceu.

Eles voltam até o riacho e caminham por entre vacas e ovelhas, e os pastores muito altos apoiam-se em seus cajados e os observam com grande seriedade. Não muito longe dali, na subida de uma colina, evola-se a penugem de fumaça de um casebre que até então ela não tinha percebido. Diga-me, ela pergunta ao cunhado, seria possível ver o interior de um casebre desses? Por que não?, responde ele, você vai ver como vive o ser humano, vai compreender a profundidade da miséria e sentir a espessura do fedor. Eles se voltam e começam a subir colina acima. Ao lado do casebre uma vaca mordisca o capim, e uma mulher grandalhona em pé sobre um toco de árvore lambuza o teto da cabana com o esterco fresco do animal. Yirmiyáhu lhe diz alguma coisa, dá a ela uma moeda e empurra ligeiramente a cunhada em direção à entrada.

Lá dentro não há ninguém. Aqui e ali se espalham alguns cobertores e, sobre eles, alguns pratos de zinco. Num canto, uma coroa de pedras basálticas pretas aprisiona o brilho violeta de uma chama cuja fumaça acaricia as palhas que se eriçam do telhado.

“Eles não têm medo de que o fogo pegue na palha e queime a casa?”

“Mesmo que queime, eles a construirão de novo muito facilmente. Esse é um fogo perpétuo, eles mantêm há muitas gerações o hábito de conservá-lo aceso, mesmo no verão mais abrasador.”

“Fogo amigo”, ela sussurra sem querer e seus olhos enchem-se de lágrimas devido à fumaça.

“É verdade”, ele tem um sobressalto, “um verdadeiro fogo amigo... vai saber por que ficamos tão contaminados por essa expressão revoltante. Você tem ideia de quem a usou pela primeira vez?”

“Não.”


“Adivinhe.”

“Não sei...”

“O homem que você mais ama...”

“O Morán? Não. Só não me diga que foi o Amótz...”

“E por que não? Exatamente o Amótz. Ainda em Jerusalém, no Ministério do Exterior, quando entraram na minha sala o oficial e o médico. O Amótz os trouxe para falar comigo, pois no formulário militar, ainda no treinamento básico, o Eyáli anotou o nome dele e o seu para o caso de haver uma notícia fúnebre. Eles não podiam ocultar o fato de que o soldado foi morto por disparos das nossas forças, pois já tinha vazado para a mídia, e então, quando eu estava lá com a lança envenenada enfiada no coração, e esse anjo anunciador, fardado, explica que os tiros vieram dos nossos e desenha com a mão trêmula o croqui do confronto, como se realmente tivesse ocorrido um confronto e não a simples morte de um soldado confundido com um alvo, nesse exato momento o seu Amótz, o meu, o nosso Amótz, que veio de Tel Aviv com o anunciador, de algum modo tem a impressão de que eu não entendi as explicações, ou talvez ao contrário, talvez ele quisesse me consolar, abrandar a corda adicional que me apertava o pescoço, porque os tiros disparados pelos nossos são cem vezes mais cruéis que o ‘fogo inimigo’ — nesse momento ele agarra a minha mão e me abraça com força. E me diz, Yírmi, eles se referem a fogo amigo.”

“O Amótz?”, sussurra ela, com uma profunda tristeza.

“Sim, o Amótz. E não uma vez, várias e várias vezes ele repetiu essa expressão infeliz, e no início tive vontade de estraçalhá-lo, mas de repente, no meio de todo o choque e a fúria, compreendi também que no interior dessa expressão estúpida, desse ‘fogo amigo’, havia algo mais, uma pequena centelha de luz, que me ajudaria a encontrar o caminho na pavorosa escuridão que estava à minha espera e identificar melhor a verdadeira doença que afeta a todos nós... e dali em diante eu me apaixonei por essa expressão, e passei a lançá-la a torto e a direito, e mesmo contaminar com ela outras pessoas... Veja, irmãzinha, até você entra agora num casebre miserável na África e diz, com a maior naturalidade: ‘Fogo amigo... Não é?’.”

9

O Ministério da Defesa não fica muito longe do escritório de Yaári, mas pais e alunos que jorram em direção ao Palácio da Cultura dificultam um tanto seus passos. Yaári herdou um salvo-conduto do pai, que no passado também trabalhou para o ministério, e por essa razão seu ingresso no edifício tão bem guardado é rápido e sem demoras desnecessárias.



Alguns anos antes o velho prédio havia sido ampliado, ganhando novos andares acima e no subsolo, e o escritório de Yaári planejou a maioria dos elevadores nas alas novas. Em certos momentos Yaári participou com frequência de reuniões no Departamento de Edificações do ministério, para defender seus projetos dos cortes propostos pelos construtores. E como alguém familiarizado com os usos e costumes no local, percebe que ali também estão faltando muitos dos funcionários. Os computadores estão desligados e as salas abandonadas, inclusive a sala do diretor do departamento, com quem tinha uma reunião marcada. O que é que há?, pergunta ele à secretária veterana que permaneceu em seu posto, o Ministério da Defesa está incrementando o caráter sagrado do Hanukah para aumentar as folgas dos funcionários?

“E por que não?”, responde ela, admirando-se de Yaári não saber do evento de Hanukah para os filhos dos funcionários que o ministério realiza no Palácio da Cultura. Até Morán, seu filho, conseguiu extorquir dela umas entradas grátis para os filhos dos empregados do seu escritório.

“E nem se deu ao trabalho de me contar, e nem minha nora sabe disso. Esta manhã ele teve que ir verificar algum assunto ligado ao serviço de reservista dele, e meus dois netos perderam a apresentação.”

“Que idade eles têm?”

“O menino tem dois e a menina, cinco.”

“Então não se preocupe. Os meus netos tinham idades parecidas no ano passado, e foi difícil que aguentassem as bobagens que apresentaram.”

“E como você sabe que este ano é a mesma coisa?”

“Quão criativo seria um bando de atores aposentados?”

“Então não há ninguém por aqui com quem discutir o assunto.”

“A nova vice-diretora está aqui.”

“Por quê? Ela não tem filhos?”

“Filhos? Não, é uma solteirona convicta. Vá à sala dela.”

A vice-diretora, engenheira civil com Ph.D., de uns cinquenta anos, alta e risonha, recebe Yaári com satisfação e localiza a pasta sobre a qual está escrito com tinta vermelha: Secreto.

“Esse quinto elevador”, lamenta-se Yaári, “que foi jogado sobre nós depois de concluirmos todo o planejamento — diga-me sinceramente —, ele é necessário de fato?”

A vice-diretora folheia a pasta e também se lamenta. “O que fazer? Nós também recebemos ordens. Pelo visto precisam aqui de um elevador a mais, independente, que vá do último andar direto até o nível mais baixo do estacionamento, sem paradas no meio do caminho e sem acesso a passageiros adicionais. Além de um telefone interno, eles querem que haja ali também um monitor ligado às câmeras de vídeo que observam o mundo ao redor. Resumindo, uma espécie de elevador pessoal.”

“Bem, vamos ter de dar um jeito nisso. Mas espero que vocês tenham levado em conta que a alteração implicará uma reviravolta completa no planejamento do poço, e provocará um aumento no preço final.”

“A reviravolta é natural”, reconhece a vice-diretora, “mas quanto ao aumento — já arrancamos para esse projeto a última moedinha possível.”

“Muito obrigado. Qual é a conclusão? Que eu vou ter de financiar agora os serviços de segurança do Estado.”

“E por que não?”, ela ri, “afinal eles também o protegem.”

Yaári dá de ombros, mas não argumenta. De qualquer maneira os orçamentos são decididos num outro departamento, e lá ele encontrará os meios de fazer valer seus interesses. Ele hesita um pouco quanto a mostrar à vice-diretora o esboço que fez à luz da lua, e por fim resolve expô-lo. Mulher graciosa, elegante e bonita à sua maneira, não se dará a liberdade de reprovar uma solução técnica estranha à sua especialidade. Veja isto, ele lhe explica com um sorriso enigmático, já que está viúvo, porque sua mulher viajou para a África, e à noite às vezes perde o sono, esta noite lhe surgiu uma ideia que talvez consiga agradar a todos. Um elevador em ângulo, com portas em esquadro abrindo de par em par, que poderia ser encaixado no canto ao sul do poço e seria operado por um comando próprio, e desse modo não se roubaria um espaço significativo dos quatro elevadores existentes, de maneira que o projeto já concluído não precisará de uma modificação total.

A vice-diretora tira uma régua de cálculo, mede e calcula a escala do desenho.

“Este seu elevador é muito estreito, senhor Yaári”, ela sorri ironicamente. “O nosso passageiro secreto terá que emagrecer para viajar nele.”

“É verdade”, concorda Yaári, “ele é realmente estreito, mas não se esqueça de que há ali um canto a mais, para uma outra pessoa, digamos a esposa do passageiro secreto.”

“A esposa?”, ri gostosamente a vice-diretora, muito surpresa, “veja só, dela eu realmente não me lembrei no caso desse seu estoico elevador. Mas, se a mulher dele fizer questão de acompanhá-lo onde quer que ele vá, ela também terá de emagrecer.”

10

A ampla cozinha da fazenda está limpa e vazia. Os cozinheiros e cozinheiras desapareceram. Yirmiyáhu abre uma das portas da grande geladeira para a cunhada. O que esquentar para você? Mas o sol forte e a mulher africana que untou o telhado com excremento de vaca fizeram-na perder o apetite. Não há pressa, ela diz, antes vou subir e descansar um pouco, e depois, se for possível...



Sim, eles podem adiar o almoço, mas terão que terminá-lo antes das três, porque nessa hora ele sai para entregar a comida no sítio de escavações e só volta no início da noite.

“É longe?”

“Não muito, mas a viagem é lenta.”

“O que vou fazer, então?”

“Descanse, leia, no final das contas, não queimei o seu romance.”

“Quem mais vai ficar aqui?”

“Há sempre um segurança.”

Repentinamente ela é assolada pelo medo do abandono.

“Posso ir com vocês? Há lugar para mim também?”

“Há, contanto que não nos faça esperar até o último minuto, como fazia a sua irmã. Esteja pronta às duas e meia, para comermos e pegarmos a estrada. Quer que eu a acorde?”

“Não é preciso”, emerge de dentro dela uma leve agonia, “não acredito que eu consiga adormecer.”

Ela sobe devagar os degraus largos e confortáveis que rodeiam o antigo poço. O quarto do qual saiu de manhã exala agora um cheiro de creolina que a faz lembrar dos banheiros em sua escola. Enquanto se ausentava, alguém lavou o chão, esfregou o banheiro, e até mesmo refez sua cama de outra maneira. Seu olhar se volta para as emanações azuladas do céu de verão. Sobre uma distante colina veem-se duas grandes zebras, e é difícil saber se estão brigando ou cruzando. Sua alma agarra-se ao marido. Seria ele a fonte do “fogo amigo” que já nos sete dias de luto rolava na língua de Yírmi com um sarcasmo que oprimia e deprimia sua irmã?

Ela puxa as folhas da veneziana e lança uma sombra à sua volta. O quarto é agradável, mas falta-lhe um espelho grande que reflita sua imagem por inteiro. O pequeno espelho arranhado acima do lavatório não satisfaz sua curiosidade. Ela descalça os tênis e despe o vestido. A julgar pelos olhares amistosos das pessoas do local, ela deveria ser grata a Amótz, que a aconselhou a experimentar aquelas cores fortes no continente de onde veio. Já há muitos anos ela vestia apenas calças compridas, por acreditar que os vestidos adensavam sua silhueta aos olhos alheios, se bem que não aos seus. Mas aqui ela estava livre e não precisava defender sua cintura. O vestido largo lhe acrescentou um toque particular.

Ela se espalha sobre a cama de calcinha e sutiã, mas em alguns minutos desabotoa o sutiã e deixa os seios livres. Em seguida, embrulha-se num leve roupão que encontrou no pequeno armário de Yírmi. Amótz desistiu rápido demais de acompanhá-la. É verdade, desta vez ela achou que ele poderia atrapalhar, mas por enquanto ela não se sente inundada nem por dor nem por lembranças, e quem sabe o que pode acontecer nessa curta semana à sua disposição. O distanciamento a que o cunhado se entrega de modo ortodoxo complica o vínculo simples e natural que ela sempre teve com ele. Pois não é possível que ele esteja radicado aqui apenas para engrossar as economias. Certamente terá alguma intenção mais radical. Ao folhear os três livros de antropologia e geologia que encontrou no quarto, ela sabe que não estão ali para serem lidos, nem mesmo consultados. São apenas para marcar a posição de um homem cuja biblioteca em Jerusalém sempre transbordava para todo lado.

Ela se levanta para ver se trancou a porta do quarto. Se houvesse ido com Amótz ao Ministério do Exterior no dia da terrível notícia, talvez ele tivesse cuidado mais de sua língua e não tivesse soltado aquele “fogo amigo”, ao qual Yirmiyáhu se afeiçoou e dele fez brotar uma nova religião. Mas ela chegou tarde ao encontro com a irmã em Jerusalém. Morán tanto temeu o golpe que iria assestar em sua mãe que passou uma hora inteira dando voltas em torno da escola esperando que a aula terminasse. Todos ficaram sabendo antes dela da morte de Eyáli.

A porta está trancada. Apesar do calor, ela pega um dos cobertores de lã de Yírmi e se envolve nele. Há muitos anos ela se mantém fiel ao seu descanso na hora do almoço, mesmo em viagens. E pelo fato de já no primeiro ano de casados ter ficado claro para Amótz que a hora da sesta incrementa a sexualidade da esposa, o marido tornou-se seu sócio infalível. Seria a força misteriosa do sol a responsável por esse fenômeno? Ou quem sabe a energia sexual que nela desperta à hora do almoço está ligada a seus tempos de garota que, ao final das aulas, era cercada pela paixão de vários meninos, que a seguiam e a detinham na entrada do conjunto habitacional, enquanto sua mãe a esperava com o almoço?

Por isso ou por aquilo, tantos anos depois de falecida sua mãe, quando seus pretendentes já viviam satisfeitos e tranquilos com outras mulheres, ainda ardia dentro dela a chama da hora do almoço, que Amótz tratava de não desperdiçar, a ponto de às vezes apressar-se em interromper uma reunião ou um encontro e percorrer longas distâncias até o subúrbio na zona norte, para testar seu vigor na penumbra do quarto onde dormia uma professora ao final do seu dia letivo.

11

Estimulado pelo fato de o croqui noturno ter merecido até agora mais humor que derrisão, Yaári abre mão de descer num de seus elevadores e saltita escada abaixo em direção à saída. O céu havia clareado, e um agradável sol de inverno afagava os passantes. As ruas sossegaram depois que o Palácio da Cultura finalmente deglutiu as crianças e seus pais. Mas teria o evento de Hanukah engolido também o engenheiro chefe e o contador? Porque o escritório estava fechado. Somente o odor do tabaco pairava em seu interior. Ele liga para o celular de Morán, mas o aparelho cheio de recursos, devidamente pago pelo escritório, lhe dá apenas a possibilidade de estragar as coisas verbalmente ou por uma mensagem escrita. Sem muita esperança, ele liga então para o celular de Efrát, que o velho contador conseguiu encaixar também nas despesas do escritório, e o aparelho repete como papagaio a mensagem solícita, sem piedade alguma. Todo mundo foge de suas responsabilidades. Será ele o único a permanecer perto da mesa de trabalho? Sobre seu monitor está colado um bilhete do engenheiro chefe. Uma velha senhora de Jerusalém, a dra. Dvórah Bennett, pede para falar com o pai dele sobre um defeito no elevador particular em sua casa. De propósito não anotei o número do telefone dela, para não dar a impressão de que iríamos ligar de volta. Mas ela certamente telefonará de novo depois do almoço. Seria o caso de dar o número da casa de seu pai?



Não, Yaári rabisca com uma caneta piloto preta, não lhe dê o número de ninguém. Já basta o morador da Torre Pinsker. Você esqueceu que somos um escritório de planejamento e não uma oficina de consertos? Ele cola o bilhete no monitor de quem perguntou, tranca o escritório e vai para casa. Se não merece uma entrada grátis para a festa das crianças, pelo menos tem direito a um sonho grátis na sua cama de casal.

E assim, desejoso apenas de um sonho, ele abre caminho com o automóvel pelas ruas apinhadas, admirado de ver tantos religiosos que, tendo se permitido folgar de seus estudos da Torá, e, por não terem um evento infantil próprio, congestionam, apesar do frio, os brinquedos nos parques à margem do Yarkon, deslizando e balançando, com seus cachinhos ao vento em volta do rosto.

Antes mesmo de entrar, ele afasta as folhas amealhadas pelo vento na porta de entrada. A ordem impecável na casa maximiza a ausência da esposa, que costuma descuidar das coisas à sua volta. Ele põe no lugar uma vela vermelha que caiu do candelabro preparado para o anoitecer, esquenta o almoço e come rapidamente. Em seguida entra no quarto e se despe. O sono solitário, sem luxúria, seria razão suficiente para desligar-se do mundo?

Sem hesitar, ele desconecta o telefone. Amanhã Yirmiyáhu vai levá-la a Dar es Salaam, e de lá, na hora do almoço, como combinaram, vão se telefonar. Portanto, neste momento é possível afrouxar as rédeas. Os filipinos cuidam de seu pai, o Exército controla seu filho, a sogra de seu filho cuidará das crianças, e a beleza de Efrát anulará as suas falhas. E de qualquer maneira, é impossível controlar a Nófer, mesmo que venha aqui à noite. Ele baixa a veneziana, liga o aquecedor, entra na cama e se cobre. Ainda assim há um certo desconforto no silêncio não interrompido pelo farfalhar dos jornais a seu lado. É verdade que seu amor deveria tê-lo levado a oferecer a ela sua companhia, mas um amor mais inteligente consistiria em não insistir nesse ponto. E ele bem que alertou Yirmiyáhu para redobrar a vigilância diante da dispersão e da confusão sonhadora que se intensificaram ultimamente.

Ele sabe que o cunhado teria preferido que ele a acompanhasse. Mas se tivesse ido teria pesado sobre a visita com seu silêncio bem-educado, que seria interpretado como irônico. E mais um passeio à Tanzânia não compensaria os sacolejos da viagem e as despesas envolvidas. Há apenas três anos eles estiveram com Shúli e Yírmi numa enorme cratera em que uma reserva natural inteira ficou aprisionada, riquíssima em predadores e em plantas raras. Sim, às vezes ele sente uma pontada de saudade da serenidade da savana, ou da tempestade de cores do pôr do sol, mas valeria a pena, por saudade, deixar de lado toda uma semana de trabalho no escritório e sentar-se calado entre a mulher e o cunhado? Depois que Yírmi apegou-se ao “fogo amigo” que ele tinha deixado escapar naquele dia horrível e passou a usá-lo com aquela intensidade absurda, Yaári entendeu que teria de se cuidar nas conversas espontâneas com ele. Gottlieb tinha razão, pais que perderam filhos têm uma agenda bem diferente na cabeça.

Ele se levanta para fechar a cortina e aumentar a penumbra no quarto, e percebe seu celular, vivo e acordado, sobre a cômoda. Desligá-lo totalmente ou deixá-lo no modo vibrar? Por fim ele decide a favor da vibração, mas o enterra debaixo do travesseiro.

12

Na fazenda africana já são quase três horas da tarde, e em frente à porta trancada de seu quarto Yirmiyáhu chama a adormecida: Estamos saindo! Por que você achou que não era necessário acordá-la?



Daniela se desculpa, mas não se sente realmente culpada. Em viagens ao exterior ela sempre cuidava de manter em seu relógio a hora de Israel, a fim de estar conectada a seus filhos e netos, enquanto o tempo local era atribuição de Amótz.

“Mas o Amótz não está aqui”, admira-se o cunhado com uma pontinha de irritação, exigindo que desça depressa, caso contrário a deixará aqui para terminar seu livro.

Apesar de ser uma mulher que leva muito a sério “seu ritmo”, a ameaça de ficar sozinha com um velho segurança africano torna mais lépidos seus movimentos, ainda mais que desta vez não lhe é necessário entrar em conflito quanto às roupas. Com ágil naturalidade ela se enfia novamente no vestido africano, não só devido à textura agradável do tecido e aos olhares amistosos dos pastores empertigados apoiados em seus cajados, mas também por saber que só aqui, na África, lhe é permitido um vestido tão colorido.

No pátio da fazenda, os veículos já estão prontos para partir. Perto das caminhonetes, paradas lado a lado, estão os tonéis de leite, os recipientes de água e os pequenos sacos com farinha e batatas e feijão branco pré-cozido, e também alguns grandes panelões de sopa, e panelas vazias limpas e utensílios de mesa. O cabrito, que teve sua degola adiada, examina o mundo com muito interesse. E os cozinheiros, que trocaram os uniformes brancos do trabalho matinal por curtos casacos de tecido grosso acinzentado, concluem os últimos preparativos para a viagem, azeitam espingardas de caça e remexem nos motores das velhas caminhonetes.

A cozinha está deserta. Sijin Kuang, vestindo um guarda-pó verde, deposita numa das longas mesas um prato e um copo para a visitante.

“Vamos lhe esquentar algo”, pressiona o cunhado, “mas com a condição de que você coma rápido.”

Contudo, a visitante faminta não pretende rebaixar-se a comer sozinha à vista de estranhos, e ainda numa rapidez à qual não está acostumada. Não, ela abre mão da refeição. Aguentará bem até o almoço com o pessoal da escavação. Se é assim, podemos iniciar a viagem. Mas a enfermeira sudanesa não se contenta com a desistência da visitante e lhe prepara competentemente dois sanduíches para o caminho. E nem com isso ela se contenta, e enquanto os motores das caminhonetes acordam e tossem, ela desaparece no interior da casa e volta com um grande casaco. Seu vestido é bonito, mas à noite a senhora precisará de uma defesa a mais contra o frio, diz ela a Daniela, e toma seu lugar ao volante do Land Rover.

Yirmiyáhu tem pernas compridas, e por isso pede licença à cunhada, que é enviada ao banco traseiro, em meio às iguarias especiais — garrafas de uísque e conhaque, e pacotes de cigarros e chocolate, para os cientistas, e equipamento médico para todos. Ela deposita o casaco de Sijin Kuang sobre os joelhos e olha em volta, mordendo o sanduíche. O Land Rover viaja entre duas caminhonetes, a da frente levando os africanos, com as espingardas nas mãos.

“Por que as espingardas?”, admira-se a visitante, e recebe a explicação de que, por vezes, animais e aves de rapina sentem-se atraídos pela comida ao longo da viagem, e é necessário afugentá-los.

Inicialmente a caravana dirige-se à pequena aldeia em que estiveram pela manhã. Os meninos ainda se acotovelam perto da palhoça do elefante com o olho de ciclope. Dali a estrada desce numa ladeira moderada até a planície gigantesca e deserta da savana, em que o sol a ocidente agora doura o ar e o capim seco, chamuscado em vários lugares. Eles viajam devagar, tomam distância uns dos outros, para evitar as nuvens de pó levantadas pelos pneus. Volta e meia freiam diante de manadas de pesados gnus, e por vezes de zebus, cujo tempo lhes é sagrado e por isso não se apressam para lugar algum, razão pela qual é necessário aguardar até que decidam mover-se e liberar a estrada.

O espaço aberto à sua frente desperta um sentimento de reverência no coração da visitante. Yirmiyáhu chama sua atenção para um gigantesco baobá cujo tronco é mais largo que a largura do seu quarto na fazenda, e cujos galhos dão a impressão de que a árvore virou de cabeça para baixo, enviando suas grossas raízes pelos ares. Sobre um dos galhos está sentada uma fera de pelos dourados.

Os mortos, tanto animais quanto seres humanos, explica a enfermeira sudanesa, não são enterrados, mas sim largados no campo, para serem comidos pelos animais e pelas aves, até se dissolverem na natureza que os gerou. Para eles não haverá outra vida, mas uma alma boa poderá encontrar um vento forte que concordará em levá-lo consigo.

No horizonte brotam duas colinas, que talvez sejam o objetivo da viagem, pois no momento em que elas surgem a caravana modifica sua formação e não mais transita com um veículo atrás do outro, mas agora com os três veículos lado a lado, na alegria da liberdade ou da competição daqueles cuja meta lhes é conhecida e não precisam mais do auxílio de um roteiro ou de regras de trânsito. O avanço se realiza graças apenas ao céu que os encobre, que muda suas cores incessantemente tendo em vista o poente que não tarda, e que rodopia acima deles devido às aves de rapina que perseveram em seguir a expedição de comida em movimento, a qual de vez em quando dispara em sua direção uma violenta descarga de chumbo. Os africanos abanam alegremente das caminhonetes em direção ao Land Rover, em especial para a visitante israelense, que ainda ontem pela manhã decolou de sua terra, e para a qual seu país, o marido, os filhos e netos já parecem estranhamente distantes. Sim, medita ela, de fato é irrelevante acender velas de Hanukah num lugar onde estão em busca de um macaco primevo que jamais teria imaginado judeus saindo de suas entranhas.

A sudanesa e Yirmiyáhu trocam entre si algumas frases curtas, que o ruído do motor torna inaudíveis. Ela aperta contra os joelhos o casaco que Sijin Kuang lhe trouxe, e depois o levanta e o aproxima do rosto, aspirando seu cheiro. Subitamente sua respiração estanca. Os africanos, em meio a gritos exultantes, atiram contra um abutre teimoso e o derrubam. Pálida, ela toca nas costas largas de Yírmi, aponta em silêncio para o casaco, e antes mesmo que ela pergunte ele lhe dá a resposta:

“Sim, claro, esse é o casaco da Shúli, eu lhe disse que haveria aqui um casaco quente para você.”

13

Em Israel ainda são três horas da tarde, e o travesseiro sob a cabeça do marido esganou não apenas uma vibração, mas cinco, talvez devido à qualidade de suas plumas, talvez graças à profundidade do sono. Mas cada vibração deixou atrás de si também uma mensagem, e agora Yaári está novamente de pé, ouvindo cada uma delas.



A primeira mensagem, para a sua surpresa, é de Nófer. Tudo bem, papai, se mamãe viajou então eu vou até aí. Chegarei por volta das sete. Estou levando um amigo que você não conhece, e ele também não vai ficar muito tempo. O.K., vamos acender as velas. Mas é só isso. Por favor, não o submeta a um interrogatório e não pergunte o que os pais dele fazem, ele é apenas um amigo. Hoje está aqui, e amanhã não. E quanto às velas, a condição é que seja sem o “Maóz Tzur” e as outras musiquinhas que eu detesto. Faça uma bênção curtinha, se for indispensável, e acabou-se. E, se você tiver tanta vontade de cantar, tudo bem, cante você mesmo depois que a gente for embora, e assim vai dar tudo certo. Se para você é importante o amor da sua filha, por favor ouça o que ela diz. Desculpe.

A segunda mensagem vem com uma voz bem fraca. Aqui é a doutora Dvórah Bennett de Jerusalém. Se este é realmente o seu número, Amótz Yaári, por favor não desligue no meio da mensagem. E por favor ligue de volta para zero dois seis sete cinco quatro dois zeros e ao final seis. Vou repetir: zero dois, Jerusalém, depois seis sete cinco quatro dois zeros e por fim mais um seis. Preciso urgente do telefone do seu pai. Se você lhe disser o meu nome, Dvórah Bennett, ele com certeza vai se lembrar. Porque éramos grandes amigos no passado, eu sei que ele já está doente, mas aqui em casa há um elevador particular que o seu pai construiu há muitos anos, ao qual ele deu, quer dizer a mim, garantia pelo resto da vida, pelo resto da vida do elevador, quero dizer, ou melhor, pelo resto da minha vida. Eu sei que vocês não são uma empresa de consertos, só de planejamento, mas comigo é uma caso especial. O que eu lhe peço por favor é apenas o número do telefone do seu pai. É só isso. Por favor, Yaári, se você ainda é um ser humano...

A terceira mensagem era de Efrát. É o seguinte. O Morán pegou inicialmente uma semana de permanência na base, e também tomaram a bateria do celular dele. Ele disse que vai tentar entrar em contato com você amanhã de manhã para explicar o que aconteceu exatamente. Ainda vai ser julgado pelas deserções anteriores. Por enquanto combinei com a mamãe que ela pegará as crianças no maternal e na creche — o feriado de Hanukah só começa amanhã para eles —, mas se você puder ajudá-la pelo menos no início vai ser muito importante. Eu ainda estou aqui no Norte e vou voltar bem tarde...

A quarta mensagem era do morador da Torre Pinsker. Esperei em vão por sua resposta. Assim, não nos resta outra alternativa a não ser dizer-lhe algumas coisas mais explícitas. Consultamos os funcionários da empresa construtora, e eles alegaram que quem planejou e montou os elevadores é responsável pelos ventos. Por isso é obrigação sua e do fabricante pelo menos averiguar a origem da falha antes de nos reunirmos todos para pensar em como lidar com ela. Se você continuar a nos ignorar seremos obrigados a entrar com um processo legal. Sabemos que um processo desse tipo é capaz de se arrastar por vários anos, mas, como deve ser de seu conhecimento, haverá uma indenização pelo tempo que passou sem solução.

A quinta mensagem era de Yaêl, a mãe de Efrát, uma divorciada escandalosa mas de bom coração, cujas frases de efeito sempre agradavam Yaári. A Efrát já deve ter lhe dito que o seu filho pegou uma semana de permanência na base pelos sumiços insolentes. Mas também a Efrát, por seu lado, teima em continuar hoje o treinamento que ela diz ser tão importante. Com pais tão problemáticos, os avós dos dois lados não têm escolha a não ser se darem as mãos para evitar que os netos fiquem abandonados. Então, por favor, Amótz, ligue para mim o mais rápido que puder, eu estou neste momento sentada na cadeira do dentista, que está prestes a me arrancar um dente, mas o celular está sempre pendurado no meu pescoço, pronto a informá-lo qual é a sua parte na confusão que se criou.

Yaári liga imediatamente, e Yaêl lhe pede, com metade da boca anestesiada, cheia de tubinhos de algodão, para pegar às quatro os netos no jardim de infância e esperar por ela no Café Roladín, em frente à sua casa.

“Café?”

“Por que não? Eles conhecem as crianças. Peça para cada um uma bola de baunilha, e lembre ao garçom para não espalhar pedacinhos de chocolate no sorvete do Nádi, que pensa que são moscas. É um lugar agradável, e assim que terminar a extração vou voando render você. Sinto muito, mas o que fazer? Inclusive hoje seria a vez da Daniela, mas ela me avisou que ia viajar à África para consolar o cunhado que ficou entalado lá, e quem não aprovaria um gesto nobre como esse?”



14

Os movimentos do céu africano persistem em sua promessa de um poente muito em breve, e o horizonte de colinas arroxeadas se aguça num caracol ancestral. O solo sob as rodas é agora selvagem e acidentado, repleto de arbustos e arapucas ocultas. Não é mais possível aos veículos tomarem para si a liberdade de escolher a rota, e eles voltam a se agrupar numa formação de pequena caravana que tateia para encontrar o caminho melhor. Nas lonjuras despontam por vezes manadas de zebras, que somem e voltam a surgir. Entre as poucas árvores espiam aqui e ali chacais ou hienas, que de longe sentiram o cheiro da sopa e vieram matricular-se no comboio de comida que rasteja adiante. Um dos africanos, que já voltou a pôr a touca de cozinheiro em honra do jantar que se aproxima, senta-se no teto de lona da caminhonete e dispara na direção das feras, não para acertá-las, somente para advertir.

O lusco-fusco apressado da região dá lugar à escuridão, que já reina no grande acampamento de tendas da expedição quando a caravana o alcança na encosta de uma profunda ravina vulcânica. Lá no fundo é possível ainda distinguir o brilho azulado de um curso d’água. Um pouco mais perto encontra-se um mastro bem alto no qual tremula uma bandeira da unesco, e há bandeirolas de todas as cores espetadas em todo lugar, certamente para assinalar os locais em que estão os fósseis. Um pequeno agrupamento de cavadores e cavadoras já começa a descarregar a bagagem, e também o cabrito é apeado de uma das caminhonetes, recebendo exclamações de alegria. Sijin Kuang apressa-se com a mochila dos medicamentos até uma das tendas maiores, enquanto o administrador branco espera, com as bebidas alcoólicas, os cigarros e os chocolates, a chegada dos cientistas.

Ei-los que sobem e se aproximam na encosta da ravina, jovens empoeirados, a maioria sem camisa, africanos diferentes um do outro em aspecto e matiz, mas todos igualmente fascinados ao encontrar aqui a mulher branca, já madura, com seu colorido vestido africano e seu velho casacão. Quem será essa mulher?, eles querem saber, em inglês, numa profusão de sotaques.

Yirmiyáhu apresenta a irmã de sua falecida esposa, que deixou a família, o marido e a pátria e veio apenas por alguns dias para tentar fazer contato com o espírito de sua amada irmã.

Os pesquisadores negros a cumprimentam cordialmente e se impressionam com a audácia dessa mulher madura que se aventurou até o local das escavações para encontrar a origem do homem primitivo e sua separação do chimpanzé há milhões de anos a fim de chorar a morte da irmã. Daniela não cabe em si de contentamento, e com a autoridade natural de professora veterana do ensino médio deseja saber os nomes dos homens postados seminus à sua frente, bem como o país de origem e a identidade profissional de cada um deles, um por um. Yirmiyáhu não havia exagerado ao descrever a fartura de nacionalidades desse grupo que veio de todos os cantos do continente negro. Aqui, um arqueólogo de Uganda, a seu lado um botânico do Chad, dois geólogos sul-africanos de elevada estatura, e um antropólogo tanzaniano preto como o carvão, que inclusive é o chefe da equipe. Atrás deles estão um físico de Gana, um zoólogo americano negro de Kansas City, que não se esqueceu de seus antepassados e veio do Novo Mundo para ajudar a comprovar que a humanidade teve início exatamente aqui, na velha África.

E enquanto eles se apresentam a ela com seus nomes sonoros e seus títulos científicos, e apertam vigorosamente a mão dessa mulher já nada jovem, cujo inglês é agradável e preciso, ela especula, ligeiramente preocupada, se Yaêl lembrou-se a tempo de que hoje ela não poderá pegar os dois netos na creche e no maternal, apesar de ser sua vez de fazê-lo.

15

E a ligeira preocupação da mulher na África Oriental transforma-se, em Tel Aviv, num quase pânico, porque Amótz, chegando para apanhar o neto no maternal, descobre para seu espanto que não há, aqui, apenas um modesto maternal, mas uma rede inteira de maternais que se ligam a um único pátio, e em meio ao burburinho dos pequeninos que correm para todo lado ele se vê em dificuldade para identificar o neto.



No momento em que concordou em recolher as crianças, o tempo disponível começou a escassear. De início tentou transferir as cadeirinhas de segurança do pequeno automóvel da mulher para o seu próprio, mas quando se viu enredado com as correias e as presilhas, perdendo um tempo precioso, decidiu abrir mão de seu carro e pegou o da mulher, que além de lento estava quase sem combustível. Nas poucas vezes em que acompanhou Daniela até aquela rua estreita e apinhada em Tel Aviv, teve de esperar em fila dupla ou numa vaga para deficientes, até que ela voltasse trazendo seu butim. E por vezes ficava cismando sobre como se explicava que um portão que parecia tão pequeno expelia tantas criancinhas. Mas somente hoje, ao entrar ele mesmo naquele pátio, compreendeu a dimensão de sua riqueza. Daí sua inquietação ao se dar conta de que não sabia qual era o maternal de seu neto, principalmente porque, em razão do pequeno atraso, ou talvez devido à festa de Hanukah, alguns dos maternais já haviam se esvaziado por completo, e visto que não o conhecem, aqui, como avô, não lhe era dado simplesmente ficar parado no pátio e esperar, tendo que percorrer o pátio em várias direções até avistar o menininho, devidamente vestido e abotoado, abraçado a uma pequena pasta, e com uma vela de Hanukah de papel coroando sua cabeça, ele próprio estranhando o avô que alegremente se ajoelha à sua frente.

“O que houve hoje com sua mulher?”, admiram-se as jovens professoras.

Por um minuto Yaári se interroga se o momento era adequado para explicar em detalhe os muitos motivos para a sua ausência, mas finalmente se decide por dar-lhes um resumo da história.

“África?”, pasmam as professoras, e pedem a ele que avise aos pais do menino que hoje, no tumulto dos bolinhos da festa, o pequeno Nadáv conseguiu esgueirar-se entre as crianças que dormiam a sesta. Em dias normais elas não se esquecem de impedi-lo a todo custo e de cansá-lo no recanto de jogos, para que não venha a exaurir seus pais até a meia-noite.

Yaári balança a cabeça e pigarreia. Não será um problema dos pais dele, mas da sua outra avó, em cuja casa ele vai dormir hoje junto com a irmã, não é verdade, Nádi?

Mas o pequerrucho ouve num silêncio desconfiado e nada amistoso, e não há como saber o que estaria tramando.

Dali eles vão pegar Neta, menina simpática e amistosa, que corre até eles com um pequeno candelabro de argila na mão, e orienta o avô a afivelar seu irmão.

No pequeno café em frente à casa de Yaêl, todos conhecem muito bem as crianças, não sendo necessárias muitas explicações para receber as bolas de baunilha nos pratinhos coloridos, sobre uma das quais foram espalhadas pequenas lascas de chocolate preto, enquanto a outra brilha em sua brancura imaculada.

“A vovó”, diz Neta para o avô, “sempre tira o casaco do Nádi, para ele não sujar.”

Yaári obedece à instrução da menina e tira o casaco do menino mal-humorado. Ao contrário da mulher, ele não saberia dizer em que cidade da Europa foram compradas as roupas dos netos, mas da loja onde tinha sido comprado este casaco, em Roma, ele se lembrava muito bem devido ao preço exorbitante.

Ele tenta ajudar o neto a lidar com seu sorvete, mas o pimpolho não necessita de qualquer ajuda. Com sua colherinha ele cavouca com esperteza e tenacidade as profundezas da bola branca, até que a colher bate no fundo do pratinho.

“Mais uma bola”, ele exige, autoritário. Yaári recusa. “No verão você pode comer duas bolas de sorvete, mas no inverno basta uma. Quando eu tinha a idade de vocês”, ele conta aos netos, “meu pai nunca pensou em me dar sorvete no inverno.”

“O seu pai ainda está vivo?”, pergunta Neta.

“Claro. Você não se lembra de que fomos visitá-lo no Ano-Novo?”

Neta se lembra dos tremores do bisavô, que a deixaram com muito medo, mas Nádi ficou impressionado com a cadeira de rodas.

Lá fora a chuva começa a tamborilar. Seja pelo clima, seja pela festa, os fregueses se espremem a tal ponto para dentro do pequeno café que Yaári sente uma leve pressão para que libere a mesa. Mas para onde poderia ir? Daniela sabe conversar com os netos, porque conhece pelo nome todas as professoras e muitos de seus amiguinhos. Mas Yaári não sabe nenhum nome, e seus esforços em fazer os netos falarem por meio de perguntas genéricas sobre o mundo são respondidos por “sins” e “nãos” também genéricos da menina, enquanto o menino durão nem sequer se digna a desviar os olhos. Menos de quarenta e oito horas se passaram desde que se despediu da mulher e já o oprime a saudade de tê-la sentada a seu lado, ajudando-o, com sua sabedoria, a despertar o interesse dos netos. Ele sugere pedir para as crianças bolinhos da festa e um chocolate quente, mas eles já estão cheios de bolinhos, e esse fato o deixa sem outra alternativa a não ser a de transgredir a lei recém-implantada e encomendar outras bolas de sorvete.

Yaári observa fascinado o neto, que ataca com muita competência camada após camada. Com quem ele se parece? Quem ele lembra? Essa é uma pergunta que ainda não encontrou resposta satisfatória. A neta, a cada dia que passa, parece-se mais e mais com a mãe, mas nas feições e na cor dos olhos de seu irmãozinho é difícil detectar a fonte em que se inspirou sua genética. Morán vez por outra se diverte com a história de que, devido aos berros de Efrát na sala de parto, ninguém prestou atenção quando trocaram o lindo bebê que tiveram por este diabinho.

Mas Daniela se revolta com grande veemência. Diabinho? Como você ousa? Ele é só um menino muito ativo, cheio de imaginação, assolado por tempestades interiores, e é por isso que tem medo de dormir sozinho. Mas é muito criativo, e no jardim de infância não faltam crianças que o admirem.

Só depois que a colherinha do menino criativo golpeia uma e outra vez o pratinho vazio é que chega, com muita festa, vovó Yaêl, coberta por um casaco de pele de raposa, ou quem sabe de lobo. Com as bochechas vermelhas de frio, traz na mão dois grandes pirulitos. As duas crianças lançam-se sobre ela com carinho, e quem sabe também com uma sensação de alívio. Agora estão livres da vigilância do avô que faz tantas perguntas bobas.

“Cadê o dente?”, exige Nádi.

Ficou claro que a avó contou aos netos sobre o dente que lhe doía, e prometeu mostrá-lo depois de arrancado e trazido para o ar livre.

“Esse menino me deixa louca”, beija ela o pequenino com toda a força, “ele não esquece nada.” E imediatamente retira de sua carteira um lenço onde jaz, com grande majestade, um enorme dente do siso dotado de um pequeno rabicho.

“Irk”, recua Neta. Mas o pequeno não sente medo do dente da avó e até o acaricia levemente com o dedo.

“Ele dói quando eu toco?”

Essa é uma mulher do tipo direto, sem “mecanismos de defesa” e sem “inconsciente”. Assim a definiu Daniela depois de a conhecerem. E a falta dos “mecanismos de defesa” não impediu que Daniela tecesse laços de afeição telefônicos com a outra avó, que além do mais era uma divorciada de longa data. Yaári tomava cuidado com ela. Para o casamento de Morán e Efrát, pago pela família Yaári, ela convidou na última hora e sem aviso prévio cinquenta pessoas além da sua cota estabelecida, e só a inventividade do pessoal da cozinha fez com que ninguém voltasse para casa esfomeado. É uma mulher patética e imprevisível, mas no fim das contas, uma mulher feliz. Até seu ex-marido, um playboy cínico e amargurado, dançou com ela no casamento até depois da meia-noite, para grande despeito de sua jovem companheira.

Yaári levanta-se e veste o casaco.

“É o seguinte. O vovô vai embora”, anuncia ele em terceira pessoa sobre si mesmo, e só agora se lembra de que a professora pediu para avisar que Nádi conseguiu mais uma vez burlar a proibição de dormir depois do almoço.

“Ai”, diz a avó, juntando as mãos num gesto de desespero, “e agora, meu querido? Você vai de novo fazer a vovó passar a noite em claro?”

“Noite negra”, corrige o menino, “papai diz Nádi me fez passar uma noite negra.”

16

Uma verdadeira noite negra é a que cobre com seu manto de veludo macio a outra avó, parada sobre a borda do cânion de basalto. Acima dela as estrelas africanas desconhecidas arrebatam a Via Láctea de sua infância numa fogosa ciranda rumo ao coração do universo. Em algum lugar da encosta um gerador oculto estilhaça o ar, e a luz elétrica demarca as passagens entre as tendas. Mais perto, chamas tímidas dançam sob os panelões apoiados sobre pedras, repletos de delícias nutritivas.



O chefe tanzaniano da expedição, Seloheh Abu, convida a visitante para juntar-se à mesa dos cientistas, onde os cozinheiros já servem os cozidos.

“Pergunte a eles sobre as escavações”, sussurra Yírmi, “mostre interesse por seu trabalho. Eles precisam de atenção e reconhecimento.”

Daniela aquiesce.

“Com o seu inglês fluente você vai poder se comunicar com eles e captar suas explicações antropológicas. Eu, nesses assuntos, troco as mãos pelos pés. Talvez, inclusive, porque minha audição já não ande muito bem.”

“A audição ou a concentração?”

“Pode ser que também a concentração... como acontece com todos os solitários.”

“Não se preocupe, vou mostrar o maior interesse”, os olhos da visitante rebrilham quando ela se aproxima do fogo, “e não só por educação, é principalmente por hábito. Uma professora como eu está acostumada a fazer os jovens falarem.”

Eles tomam assento junto aos pesquisadores no quadrado formado pelas mesas de campanha, em cujo centro, aprisionada num círculo de pedras, uma chama azulada choca suas brasas. O prato de Daniela está à sua frente, e os odores dos acepipes aquecidos desperta nela um grande apetite. Desde os sanduíches da Sijin Kuang ela não havia comido nada. Ainda assim, ela não se atira à comida antes de perguntar aos cientistas sobre o projeto.

O chefe da equipe tanzaniano prefere que o dr. Roberto Sabolideh Kukiriza, arqueólogo de Uganda, explique para a mulher branca o objeto da missão.

O doutor é um belo tipo africano, de uns trinta e cinco anos, cujos estudos em Londres afiaram o inglês que estudou na juventude, e que se mostra ávido por explicar e ilustrar. Abandona sem hesitar seu prato repleto de iguarias e corre para trazer um quadro de madeira dobrável sobre o qual está colada uma imagem: um mapa colorido da África, sinalizando os sítios antropológicos conhecidos e prováveis.

Dispõe o quadro bem à frente da visitante, muda sua posição para que o fogo o ilumine, e então se dirige à mulher pelo menos vinte anos mais velha que ele, e diz:

“Eu lhe explicarei, minha senhora, contanto que a senhora comece a comer.”

À explanação científica antecede um prólogo político, em que o dr. Kukiriza lamenta a glória profanada da África e o fim da confiança do mundo no continente negro. A fome, as doenças, e principalmente os conflitos e as guerras cruéis semearam no mundo desenvolvido a desesperança em relação ao futuro da África. De fato, não há como torcer a amarga verdade: sob a escravidão colonialista não houve tanta fome, doenças e morticínio quanto os trazidos pela independência, e o mais difícil é ver que a rejeição do primeiro mundo, do segundo e mesmo do terceiro — que percebe a África como última da fila — penetra cada vez mais a própria alma africana, podendo a depressão vir a secar as fontes da alegria popular. Essa foi a razão pela qual um grupo de cientistas decidiu superar os conflitos tribais e nacionais, e tentar reerguer um pouco, por meio de uma pesquisa original e independente, as costas curvadas do continente. Sem laboratórios sofisticados, sem equipamentos requintados, apenas com ferramentas de trabalho simples e baratas, puseram-se a cavar e a revirar o solo em busca da origem de toda a humanidade, em busca do passo dado pela evolução do chimpanzé ao Homo sapiens, a fim de fincar a África no mapa mundial como berço da civilização.

Sim, apesar de terem sido encontrados fósseis de aspecto humano, de hominídeos pré-históricos, em todos os cantos do mundo, há um consenso na comunidade científica de que a origem do homem como tal derivou dos grandes símios africanos. Somente com a separação entre o chimpanzé e o Australopithecus afarensis começa necessariamente a evolução que levou à humanidade. E num momento em que o mundo desenvolvido desiste deste continente e pode vir a abandoná-lo, talvez seja interessante voltar e lembrar a essa humanidade, se não para onde caminha ela, ao menos de onde ela veio.

Trata-se, é verdade, de um objetivo ideológico e não científico, concede o eloquente orador à visitante branca, e não passa de um objetivo bem modesto, não de uma revolução, porque de um modo ou de outro estamos submetidos à ciência da evolução, e a ideologia não passa de uma cobertura fácil de ser retirada. E a própria evolução tampouco é um processo revolucionário, pois consiste apenas de uma transmissão como numa corrida de revezamento. Por exemplo, o chimpanzé continua a perambular pelo mundo e não tem nenhuma intenção de se tornar um ser humano. Mas há cinco ou sete milhões de anos uma chimpanzé decidiu passar para os seus descendentes alguma coisa nova. E um deles passou essa mesma “coisa”, com um pequeno acréscimo, a um descendente seu. E o que seria essa “coisa”? Podemos chamá-la de uma nova característica, física ou mental. “Característica” é, com certeza, uma palavra literária não muito precisa, mas nenhuma é melhor que ela para explicar toda essa história. Porque ela pode, no fim das contas, limitar-se a um dente do siso a mais, ou inclinado, ou a um formato mais redondo da articulação da coxa, ou a um faro mais apurado e mais abrangente, que aumentou a curiosidade do animal quanto ao mundo que o cercava.

Os “transmissores” de várias naturezas, continua o arqueólogo ugandense com seu inglês excelente, não tinham ideia do que transmitiram de si mesmos e até onde chegaria essa transmissão. Eles continuam fiéis e apegados à sua espécie, à sua vivência de macacos de vários tipos, a maioria dos quais foi extinta ao longo do tempo. Mas o que foi transmitido por eles continuou a desenvolver-se por sua própria conta, e foi se modificando de transmissão em transmissão, por vezes tornando-se mais forte, em outras enfraquecendo, em certos momentos ficando mais evidente e em outros tornando-se mais obscuro — até que ao cabo de infinitas transmissões levantou-se e surgiu gradativamente nosso ancestral pré-histórico, o Homo sapiens, que era humano em todos os sentidos.

E assim podemos ver que o desenvolvimento a partir do chimpanzé não é uma estrada pavimentada, mas um caminho que se bifurca em muitas trilhas laterais, e temos então certos parentes que se afastaram ou foram jogados fora do caminho principal, indo parar em becos sem saída. Por exemplo: há cerca de três milhões e meio de anos separou-se do processo da evolução humana o nosso parente conhecido como Australopithecus robustus, que incluía o Australopithecus boisiei, encontrado aqui mesmo na África Oriental. Eles eram, dito em linguagem grosseira, “máquinas de comer”, e, em termos mais afetuosos, “quebra-nozes”. Há um milhão de anos eles foram extintos, porque seu pequeno cérebro não lhes permitiu qualquer flexibilidade culinária.

“Máquinas de comer”, Yírmi agarrou-se alegremente à expressão.

“Sim, eles tinham mandíbulas trituradoras gigantescas, e um rosto do tamanho de um prato de almoço, mas apesar disso eram vegetarianos.”

Nesse momento, porém, o chefe da expedição corta a palavra do seu colega antes que esta escorregue para fora da estrada real. A comida está esfriando nos pratos, e é preciso terminar o jantar comunitário de modo adequado. Mais tarde mostraremos à visitante alguns dos fósseis que encontramos.

A comida pareceu muitíssimo saborosa à visitante israelense, e ela retribui aos cozinheiros com palavras de admiração calorosa, e não se recusa a repetir isto e aquilo.

Ao final do repasto, retiradas todas as sobras, chega a hora de mostrar concretamente à visitante inesperada a verdade pela qual tanto se peleja no remoto cânion vulcânico. Sobre a mesa é posta não uma série de doces iguarias, mas diversos fósseis muito significativos. Um fragmento de mandíbula enorme, com dois grandes dentes ainda fincados nela. Órbitas vazias de olhos gigantescos numa fatia de crânio. Um fêmur entortado do qual se pode aprender sobre Deus e o mundo.

Agora não é mais apenas o ugandense a falar, também o queniano e o ganês vêm em seu auxílio para expor a dramática importância dos ossos. Daniela saboreia com gosto a obscura sensação de que não há, aqui, apenas o desejo de aproveitar a chance de mostrar essas vitórias a uma estranha disposta a interessar-se por elas por alguns momentos, mas também o apetite por beneficiar-se de um olhar feminino e maternal maduro, talvez até por ser a mulher tão branca quanto é. Ela, então, esforça-se por não perder nenhuma palavra e por estimular os expositores com murmúrios de aprovação. E enquanto os milhões de anos antropológicos se entrechocam e se confundem em meio aos maxilares da máquina de comer e os olhos vazados de um símio pré-histórico, escancarados de espanto em cima da mesa, Daniela espicha uma olhadela disfarçada ao cunhado, para ver se ele também se esforça, como ela, em acompanhar as explicações. Mas o crânio recém-exposto do homem envelhecido está voltado para o fogo, seus olhos perscrutando o vazio, e no rosto iluminado paira agora uma aura de tristeza.

Mais uma vez o chefe da expedição acha necessário impor sua autoridade. Já é o bastante, diz ele aos amigos. Se temos a intenção de que nossa convidada se lembre de alguma coisa, não é bom amontoarmos sobre ela tantas datas e tantos fósseis. Apesar de sua rápida visita, talvez a vejamos mais uma vez. Daniela percebe a frustração dos oradores, cujo desejo de impressionar uma mulher foi tolhido antes da hora, e assim, ao despedir-se, ela se dirige a eles com uma pergunta desafiadora, mas totalmente integrada ao espírito dos tempos: Vejam, vocês são uma equipe de uma pureza africana integral, uma expedição masculina negra, e isso representa uma grande honra e um grande feito científico. Por que, então, não pensaram em trazer uma mulher com vocês?

“Mas há uma mulher entre nós”, protestam eles, “uma paleontóloga árabe. Por favor, venha conhecê-la também.”

E eles a acompanham até a tenda que serve de enfermaria, onde a enfermeira Sijin Kuang encontra-se sentada ao lado de uma cama de campanha sobre a qual jaz uma jovem de pele clara, de feições delicadas. Ela é apresentada como Zohara al-Ukbi, árabe do norte da África, que sorri dolorosamente para a visitante inesperada e lhe estende a mão ardendo em febre.

17

O escritório está escuro e trancado, e quando ele entra apenas o penetrante aroma do tabaco ainda permanece em seu interior. Ele acende todas as luzes e descobre que nenhum dos funcionários chegou a pensar em voltar depois do intervalo do almoço. Isso é novidade, resmunga Yaári consigo mesmo, santificar como feriado qualquer história velha e duvidosa. Mas como ele próprio decidiu pela abolição do relógio de ponto, delegando à consciência dos empregados a tarefa de administrar o tempo, fica totalmente seguro de que o trabalho não será prejudicado. E por isso não tem vontade de se demorar aqui. Examina o correio eletrônico e verifica que não chegou nenhum novo sinal de vida nem da mulher nem do filho. Amanhã, de acordo com os planos, Yirmiyáhu irá levá-la a Dar es Salaam e finalmente haverá uma conversa de verdade.



O escritório está localizado no primeiro andar de um prédio residencial sossegado, no coração de Tel Aviv. Lá fora as lâmpadas da iluminação pública estão acesas, e o belo anoitecer, sem ventania, traz pela janela o alegre matraquear dos passantes. A festa de Hanukah é amada por todos. Se Daniela estivesse aqui eles com certeza iriam ver algum filme num dos shoppings, ou seriam convidados por amigos para festejar. Por um momento ele pensa em ligar para o pai, mas decide manter controlada sua presença na casa paterna. É melhor não estimular nos filipinos uma dependência grande demais.

Se o filho estivesse a seu lado seria mais fácil suportar a ausência da mulher. Ele desliga as luzes do escritório, mas quando já está prestes a trancar a porta seu celular prorrompe em cantorias, e ele o agarra no escuro sem verificar primeiro quem estaria ligando. Não, não é o encarcerado. É a velha senhora de Jerusalém, a dra. Bennett, cuja voz tremula até ele na escuridão. Finalmente ela o apanhou e não vai largá-lo até que ele lhe confesse como é possível entrar em contato com o sr. Yaári original, que instalou o elevador em sua casa e lhe prometeu garantia por toda a vida, tanto a do elevador quanto a dela.

Sim, ela sabe que o pai dele aposentou-se há muito tempo e que está doente, mas acredita ser um caso especial. Amiga de longa data pela qual, ela tem certeza, o verdadeiro Yaári certamente melhorará e virá com tudo o que é necessário, com as peças e os técnicos.

“Não”, explica Yaári pacientemente, “somos um escritório de planejamento, não temos nem técnicos nem peças, apenas sentamos diante dos computadores e pensamos. A senhora já ouviu falar nas páginas amarelas? Lá será fácil encontrar a ajuda que precisa.”

As páginas amarelas ela conhece e sabe muito bem usá-las. Mas o pai de Yaári a fez jurar que ela chamaria apenas a ele toda vez que alguma coisa enguiçasse. Porque esse é um elevador interno, pessoal, uma invenção original dele, e só ele saberia consertá-lo.

“E quando aconteceu o último problema?”

Problema sério não acontece há muitos anos. Porque o elevador recebeu sempre a manutenção necessária. Quando o pai dele subia a Jerusalém, sempre passava lá para verificar o funcionamento.

“Estranho, ele nunca me contou nada nem sobre a senhora nem sobre o elevador.”

Quem sabe ele não tenha contado também outras coisas.

“Pode ser”, responde Yaári, mais gentil. “Mas o meu pai, senhora Bennett, com toda a sua boa vontade, não poderia ir até aí. Ele está doente. Ele tem Parkinson.”

E daí?

“Como e daí? Suas mãos e pés tremem e ele não pode consertar coisa alguma.”



Que venha ao menos fazer um diagnóstico. Tenho alguns bons amigos que também sofrem de Parkinson, mas a cabeça ainda funciona.

“Sim, é verdade, a cabeça dele ainda funciona, mas não para o seu elevador.”

Agora a senhora de Jerusalém se revolta contra o homem que a trata de modo inadequado. Por que ele está falando em nome do pai e não deixa que este resolva por si mesmo? Pois não é correto ele tratar o pai como se fosse uma criança quando ela se lembra dele próprio como criança.

“A mim? Como criança?”

Sim, lá na sua casa, em 1954, pouco depois do surgimento do Estado, quando instalaram o elevador. O pai dele o trouxe para mostrá-lo a ela. Ela acha que ele devia ter uns sete anos.

“Oito.”


E ela lhe deu um sorvete inteiro. Isso talvez o ajude a se lembrar.

“Um sorvete inteiro? Eu não me lembro, mas acredito na senhora”, Yaári ri e se rende. “Se eu tomei um sorvete inteiro na sua casa com oito anos de idade então me diga, por favor, o que eu posso fazer pela senhora. O enguiço do elevador eu não creio que poderei consertar.”

Mas isso ela própria já havia dito. Ela precisa do número do telefone do pai dele. Há vários Yoel Yaári no catálogo de Tel Aviv-Jaffa, e ela é uma senhora de idade que não tem como ligar para todos eles.

“Mas eu lhe aviso que mesmo falar já não é algo que o meu pai faça com facilidade. Por favor, converse com ele muito rapidamente.”

Com certeza, muito rapidamente. Ela pertence a uma geração que prefere a ação às palavras.

“Então anote, por favor...”

18

Agora o Land Rover viaja na frente da pequena caravana de suprimentos. Sijin Kuang tateia na planície desértica para encontrar o caminho de volta, e as duas caminhonetes seguem coladas atrás dela. E como os contêineres laterais estão vazios, os cozinheiros ficam livres para relaxar a vigilância e se aboletar tranquilamente, mas o cheiro da comida pelo visto ainda flutua ao seu redor, a julgar pelos olhos brilhantes que os acompanham na escuridão.



No assento dianteiro, a cabeça de Yirmiyáhu balança a esmo como se liberta da autoridade do dono, e assim prossegue por conta própria, até se inclinar finalmente e cair no sono. Mas no banco traseiro sua cunhada está ardentemente acordada.

“Como você consegue navegar nessa escuridão?”, pergunta ela à motorista silenciosa.

“Pelas marcas do caminho, mas as estrelas também ajudam.”

Daniela alça os olhos e vislumbra um céu que jamais havia encontrado em lugar algum. Há estrelas que ela nunca viu e provavelmente não voltaria a ver. E nunca se viu exposta a um brilho de esmeralda límpido como esse. Além do mais, quando teria ela contemplado a natureza estando sozinha? Mesmo no passado remoto, nos acampamentos do movimento juvenil, ou no serviço militar, seu contato com a natureza sempre esteve acompanhado pelo falatório das pessoas. E depois disso Amótz já estava a seu lado. Casou-se com ele muito jovem. Mal havia completado o serviço militar. Ele a apanhou com seu amor e correu para forrar-lhe o ninho.

Os jovens cientistas negros a comoveram. Há muito ela não se sentia tão desejada e tão bem-vinda. Seria talvez pela prolongada escassez de mulheres entre eles, ou pelo fato de ser ela estrangeira e de pele tão branca é que se sentiram atraídos por uma mulher mais velha que eles em pelo menos vinte anos?

Apesar de as marcas do caminho estarem impressas em sua memória, e a despeito da ajuda prestada pelas estrelas, acontece de a sudanesa hesitar quanto à direção certa na planície homogênea. Ela então freia e espera que os dois outros motoristas parem, desçam das caminhonetes e venham conferenciar sobre o rumo certo. Agora os três conversam entre si em voz baixa, em sinal de respeito mútuo. Um dos homens ajoelha-se para cheirar a terra, e o outro eleva o braço e aponta para o céu. Yirmiyáhu espicha-se e boceja, envia um olhar alheado à conversação dos motoristas, na qual não toma parte, e limita-se a dizer à cunhada que nesse exato lugar eles sempre titubeiam sobre o caminho a seguir.

E a visitante sentada atrás do homem alheado percebe que ainda não começou a aproximar-se do objetivo de sua visita. Ao contrário, nos dois dias que se passaram desde que partiu, ela apenas aprofundou ainda mais a serenidade de seu mundo interno. Amanhã, em Dar es Salaam, ouvirá a voz viva do marido, de quem ela não espera nenhuma informação extraordinária. Ela confia plenamente na competência de seus cuidados com a família.

Yirmiyáhu volta-se para trás e boceja novamente, e logo se desculpa. Sim, às vezes eles o cansam com suas pedras e seus ossos de macaco, mas de um modo geral esses pretos são muito delicados.

“Um momento, eu gostaria de saber — eles não se ofendem quando são chamados de pretos?”

“Por que se ofenderiam? Eles sabem que um milímetro depois de sua pele negra eles são exatamente iguais a nós. A única diferença é que nos somos muzongu e eles não.”

“O quê?”

“Nós somos muzongu, quer dizer, descascados... Não brancos, apenas descascados. Tiraram de nós a nossa casca preta.”

“Descascados? É essa a diferença?”

“Do ponto de vista deles.”

Um ciclista, que surge repentinamente da escuridão, decide em definitivo a discussão em voz baixa entre os motoristas, e a caravana faz uma volta completa e segue atrás dele, até que a lua aparece de trás das montanhas e clareia a imensidão.

Yirmiyáhu volta a adormecer. O ar está frio, e Daniela abotoa com capricho todos os botões do casaco da irmã. Abraça a si mesma com ambos os braços, e seus pensamentos migram e vão parar em Tel Aviv. Teria Amótz ido acender as velas com os netos, ou conseguiu convencer Nófer a dar um pulo em casa? Mas eis que surgem o rio e os casebres, e a caravana aumenta o ritmo da viagem. A palhoça do elefante agora está cercada por tochas acesas, e a seu lado há uma pequena multidão. Daniela sente uma vontade intensa de observar sozinha a maravilha do grande olho. Ela toca o ombro de Sijin Kuang e lhe pede para parar por alguns minutos.

Sem acompanhantes e sem receio, ela rapidamente abre caminho entre os africanos, e na entrada da palhoça o dono do elefante já identifica a mulher branca que veio pela manhã e sente seu regresso como um sinal de apreço pelo elefante e por ele próprio. Por essa razão ele não lhe cobra a entrada, mas ela tira de sua carteira alguns dólares e os deposita sobre a mesa.

E nessa hora tardia do anoitecer novamente se deixa ver a sabedoria tristonha no olho gigantesco. Daniela pergunta a si mesma se esse defeito genético permanecerá apenas como curiosidade e se perderá para sempre, ou se por algum caminho inexplicável alguma coisa dele será transmitida para a evolução do gênero humano.

19

Amótz ouve o ruído da água escorrendo no chuveiro assim que abre a porta de entrada. Então a Nófer está em casa, ele pensa com alegria, mas também com receio de encontrar o novo colega.



E, sim, o colega também está, não um namorado, nem mesmo um amigo, apenas um colega, que apesar disso não fica educadamente sentado à espera, mas toma a liberdade de circular pela sala de visitas como um membro da família. E desta vez, para variar, não é um jovem de sua turma, mas um adulto. Seu rosto não está barbeado e suas costeletas revelam alguns fios brancos. Um homem que se dispôs a vir com sua jovem colega para juntar-se, mas apenas como colega, ao acendimento das velas de Hanukah na casa do pai que ficou solitário durante os longos feriados.

Yaári cuida para obedecer à ordem da filha e evita qualquer tentativa de verificar, como de costume, as qualificações do colega, ou bisbilhotar nos afazeres dele para ter uma ideia de seus objetivos na vida. E o caminho para contornar essa investigação que faria dele alvo de ira é conversar sobre o clima, mostrar-se contente com as chuvas e censurar as ventanias ferozes, que por vezes se infiltram até em edifícios residenciais. E ele acrescenta um queixume contra a festa, que no passado se limitava aos bolinhos e aos piões, e agora recebeu um upgrade e se transformou em férias do trabalho. Por exemplo, todos os engenheiros do escritório saíram na hora do almoço para a festa das crianças no Palácio da Cultura e não voltaram mais.

O colega dá voltas pela sala com um aspecto lúgubre e desconfiado, não demonstra concordância nem simpatia, e seus olhos pequenos e fundos voltam a focalizar os retratos dos membros da família que Daniela semeou em todos os lugares, nas paredes e nas prateleiras da estante. Não só como um colega de passagem, que hoje está aqui e amanhã já não estará, mas como alguém realmente interessado, ele sente que é seu dever examinar metodicamente cada uma das fotos, como se estivesse tentando adivinhar a estrutura da família. E quando chega a uma fotografia circundada por uma moldura negra, de Eyáli, ele pergunta com um sussurro sombrio:

“Este é o primo que foi morto, de quem a Nófer não para de falar?”

Um terror faz tremer o coração do dono da casa.

“Que idade ele teria se estivesse vivo hoje?”

“Mais ou menos a sua idade, trinta e dois. Ele era só três anos mais velho que o irmão da Nófer.”

Mas o colega curioso não se dá por satisfeito. Como se tivesse aceito o convite para o acendimento das velas apenas sob a condição de ter a oportunidade de saber mais detalhes sobre o soldado morto em ação pelo fogo de seus amigos.

“A Nófer me contou que você é que teve de dar a notícia aos pais dele.”

“Ao pai. E eu não estava sozinho, estavam comigo também um oficial e um médico.”

“E ele realmente foi morto por engano, por nossas próprias forças, como se diz?”

“Sim, por fogo amigo, algo assim...”, sussurra Yaári.

“E era necessário contar o que aconteceu?”

Yaári contrai o semblante contra um estranho que se dá o direito de penetrar na sua intimidade, mas por consideração à filha controla-se.

“Claro, porque a mídia de qualquer modo contaria a verdade. Mas eles dizem ‘de nossas forças’, e eu disse algo um pouco diferente, para amaciar.”

“E amaciou?”

Yaári não responde, porque nesse momento Nófer entra na sala com os cabelos molhados do chuveiro. Está toda de preto, e seus olhos amendoados, os olhos da mãe, lançam ao pai uma flecha de advertência.

“Finalmente consigo ver você”, ele a abraça e a beija com força.

“Então vamos, pai, vamos acender as velas, porque nós temos que ir a uma festa. Mas lembre-se do que pedi — só as bênçãos essenciais.”

Ele inclina a cabeça em submissão e se aproxima do grande candelabro de prata, que os espera com suas quatro velas a postos. Retira a vela assistente de seu lugar e a acende com um fósforo. Sobre a caixa azul de velas estão impressas duas bênçãos, que ele lê com voz suave enquanto transmite o fogo para a primeira vela no candelabro. Em seguida estende a assistente acesa ao colega, que acende a segunda vela e a repassa a Nófer, sua jovem colega. Nófer esquenta um pouco a ponta da vela, até que o pavio oculto se deixa ver, e, depois que a chama azul ganha força e se torna amarelo-avermelhada, devolve a assistente ao pai, que a enfia em seu nicho apartado das outras.

20

E na África Oriental, no último andar da casa da fazenda, Daniela se revira na cama, em meio à escuridão, demorando a localizar o foco do cansaço a partir do qual poderia deslizar sem mais problemas para o sono. A meia-noite já se aproxima e, mesmo que em seu país ainda seja mais cedo, com certeza as velas do candelabro já se apagaram tanto em sua casa quanto na do filho. E quanto a Nófer, ela certamente vai interditar qualquer luz de alegria enquanto não alcançar o ponto culminante do luto que se abriga em seu coração.



O distanciamento de Yirmiyáhu pode ser contagioso, e é preciso cuidar desse aspecto. Ele parece satisfeito com o primitivismo que o envolve, e a lembrança da esposa vai lentamente desbotando dentro dele. Se ela não encontrar um modo de despertar em Yirmiyáhu as lembranças sobre sua irmã, ele é que não o fará por ela.

Levantando-se da cama, ela abre de par em par as folhas da veneziana e olha para longe, onde não se pode ver nem uma única luz artificial. Sente intensamente a falta do toque da mão do marido, de seus olhos sempre atentos. Poderia ter facilmente o intimado a vir junto.

Ela acende a luz e observa o crânio do jovem macaco sobre a escrivaninha. Um parente extinto há alguns milhões de anos que voltou replicado. Escancara com os dedos a boca dele para melhor examinar as mandíbulas. Um só dente verdadeiro há aqui, mas ela não tem como identificá-lo. Não, ela acaricia o crânio liso, você não é uma máquina de comer.

O sono lhe foge mais e mais. Não tivesse Yirmiyáhu se apressado em queimar os jornais de Israel em vez de simplesmente devolvê-los, ela poderia agora se apaziguar com as velhas novidades lá da terrinha. Mas não há uma única letra hebraica ao redor, a não ser seu romance, do qual leu na noite anterior duas páginas que a deixaram com a alma ressequida.

Por falta de alternativa, ela o abre no ponto em que tinha parado na véspera e aproxima a luz do abajur. A heroína encontrou afinal um amante, ou amigo, ou um mero colega. Alguém que se ocupa das ciências ocultas. Em favor da autora é possível dizer que ela não planta esperanças vãs nos leitores de olho afiado. Já está claro que o relacionamento entre os dois não durará até o fim do livro, mas por enquanto há desejo, há atração.

É isso, a leitora pisca os olhos, vamos ver como e por que eles se tornarão entediantes um para o outro. Na página oitenta e cinco a heroína parte, acompanhando o colega, numa viagem à Europa. Ao chegarem a um hotel numa capital, inicia-se sem mais delongas a descrição detalhada de um episódio erótico. Geralmente Daniela tolera bem descrições de atividade sexual nos romances, pois quase sempre se resumem a dois ou três parágrafos, no máximo uma página inteira. Mas aqui a autora decidiu detalhar e estender e não ceder até o fim do capítulo, ou seja, oito páginas cerradas de apalpadelas e orgasmos. Seria verdadeiro o desejo que explode entre eles, quer dizer, seria ele compatível com as possibilidades da heroína de acordo com sua descrição até agora, pergunta a leitora a si própria, ou a autora decidiu aquecê-la artificialmente, a fim de atender às expectativas dos leitores? As descrições são excessivamente corpóreas, e como sempre acabam por repetir-se. A linguagem é correta, mas devido justamente a isso acaba provocando asco. A escritora não tem um Deus em seu coração, e não se evade de palavra alguma. Daniela se sente lograda. Até agora, a despeito da inconsistência dos personagens, havia algum anseio espiritual ao redor deles. E de repente surge esse naturalismo cru. Ela percorre o texto na contracapa do livro para ver se nas palavras do editor havia indícios ou alguma preparação para tanta grosseria. Mas ao que parece o editor, apesar de poder, com isso, atrair mais compradores, preferiu silenciar e assim preservar o prestígio de seu gosto literário.

É o caso de pular essa parte e ir direto para o próximo capítulo?, pergunta-se a leitora, cuja respiração vai se tornando mais e mais pesada. Mas como não lhe é habitual folhear ao acaso os livros que lê, ela decide ir em frente, página após página, até que a luz se apaga no quarto dos bacantes, que alcançaram, aplicando seu método, a satisfação suprema.

A leitora, contrariada, deixa cair o romance no chão, apaga o abajur e espera pacientemente que o sono se apiede dela.




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