Para a minha família, com amor Sumário



Baixar 349.89 Kb.
Página1/7
Encontro05.12.2019
Tamanho349.89 Kb.
  1   2   3   4   5   6   7

A. B. YEHOSHUA


Fogo amigo

Um dueto

Para a minha família, com amor

Sumário


Segunda vela

Terceira vela

Quarta vela

Quinta vela

Sexta vela

Sétima vela

Oitava vela

SEGUNDA VELA

1


É isso. Yaári segura a esposa com força. Está na hora da despedida, e com o coração apertado ele entrega a ela o passaporte, não sem antes verificar que todas as coisas enfiadas no envelope estão realmente lá — o cartão de embarque do voo seguinte, a passagem de volta para Israel, o seguro-saúde, no qual estão colados dois comprimidos contra pressão alta. Aqui, o principal e o mais importante está concentrado num único lugar. Você vai ter que se preocupar só com o seu passaporte. E ele volta a alertar a esposa para não cair em tentação durante a longa espera na escala: não sair do aeroporto para a cidade de maneira alguma. Desta vez, não esqueça, você está sozinha, eu não estarei do seu lado, e o nosso “embaixador” já perdeu esse cargo há muito tempo, de modo que se você tiver problemas...

“Mas por que eu teria problemas?”, rebela-se ela, “da nossa viagem anterior, eu me lembro que a cidade fica bem perto do aeroporto, e vou ter seis horas de espera até o voo seguinte.”

“Primeiro, a cidade não fica perto, e segundo, o que mais você quer ver lá? Estivemos lá há três anos e já vimos tudo que havia e que valia a pena ver. Não, por favor, não comece a me assustar logo agora na despedida. Você já não dorme tranquila há várias noites, e a viagem vai ser longa e cansativa. Arranje um bom lugar naquela lanchonete bonitinha onde fizemos hora na viagem passada, ponha os pés em cima de alguma coisa para evitar que os tornozelos fiquem inchados, e deixe o tempo passar tranquilamente. Você até não comprou um livro novo?...”

“Lanchonete bonitinha? Do que você está falando? Era um lugar deprimente. E por quê? Para você ficar tranquilo? Só por isso eu vou ter de ficar presa lá por seis horas?”

“Daniela querida, lá é a África, não a Europa. Nada por lá é muito claro nem muito estável. E se você for à cidade poderá perder a hora ou se perder pelo caminho.”

“E eu me lembro é de estradas vazias... e de pouco trânsito...”

“Exatamente. Pouco trânsito, os meios de transporte não são nada regulares. Por isso pode acontecer de, sem perceber, você se atrasar para o segundo voo, e o que vamos fazer com você entalada ali no meio do caminho? É por isso que eu imploro: não me dê mais motivos de preocupação... Toda essa viagem já é bem preocupante...”

“Ora, você está exagerando.”

“Só porque o meu amor por você é exagerado.”

“Quanto tem aí de amor e quanto de controle é algo que vamos ter de esclarecer um dia...”

“O controle do amor”, com um sorriso triste, o marido resume sua vida e abraça a esposa. Daqui a três anos ela estará com sessenta, e desde a morte da irmã mais velha, há mais de um ano, sua pressão subiu um pouco e ela se tornou distraída e sonhadora, mas sua existência ainda aquece o coração do marido e o atrai como nos primeiros dias. Ontem ela cortou os cabelos e pintou-os num tom âmbar, e agora, remoçada, ela o enche de orgulho.

Lá está o casal perto do portão das despedidas, e do centro da abóbada de vidro, onde já começa a brilhar a luz avermelhada do amanhecer, pende e balança no espaço do aeroporto um enorme candelabro de Hanukah, em que a chama da primeira vela tremula como um fogo de verdade.

“Então é assim...”, ele se recorda, “no final você conseguiu escapulir... não ficamos juntos, e você nem me deixou relaxar antes da viagem...”

“Shhh... Shhh...”, ela bota o dedo nos lábios dele e sorri assustada para os passantes. “Cuidado, estão ouvindo... e você podia ser mais honesto e confessar que também não fez muita força na última semana.”

“Não é verdade”, o marido defende com amargura sua virilidade, “eu quis e tentei, mas o que podia fazer contra você? Agora você não vai fugir da responsabilidade. Por isso não me deixe ainda mais triste do que já deixou, e jure que não vai sair para a cidade. Desde quando você tem dificuldade em esperar seis horas?”

Um pequeno sorriso se acende nos belos olhos da viajante. A ligação entre a luxúria perdida e a escala em Nairóbi a pega de surpresa.

“Está bem...”, ela hesita, “vamos ver... vou tentar... mas pare de procurar motivos para se preocupar. Se por trinta e sete anos eu não me perdi de você, não é agora que você vai conseguir fazer com que eu me perca. E na semana que vem vamos nos compensar pelo que perdemos... porque você acha o quê? Que eu não estou tão frustrada quanto você? Que eu não sinto desejo, e desejo de verdade?...”

Antes que ele possa reagir ela o aperta com força contra o corpo, planta um beijo em sua testa e desaparece por trás da porta envidraçada. É verdade que é só por sete dias, porém, pelo fato de há muitos anos ela não viajar sozinha para o exterior, ele está sentindo não apenas medo, mas também admiração por ela ter conseguido realizar sua vontade. Os dois já estiveram na África visitando a família há três anos, e a parte mais importante da viagem que ela vai fazer hoje ele conhece bem, mas, até que ela chegue, tarde da noite, e depois de dois voos, à casa do cunhado em Morogoro, vai passar várias horas sozinha, distraída e sonhadora como anda ultimamente.

Lá fora continua escuro. O tom avermelhado do amanhecer, que ainda há pouco iluminava a abóbada de vidro acima da chama virtual do candelabro, não passou de mais um truque do sistema de iluminação do novo aeroporto. Um primeiro aperto de saudade belisca seu coração quando percebe o xale esquecido no banco de trás. É verdade que, com ela ausente, ele espera ter mais liberdade e mais controle sobre suas tarefas no trabalho, mas a inesperada declaração sobre o “desejo de verdade” arranha novamente a frustração pela oportunidade perdida.

Apesar de ainda ser muito cedo, ele sabe que não vale a pena voltar para casa. Para a cama grande e vazia ele não vai voltar mesmo, nem vai conseguir relaxar, e o mais provável é que vá cair na tentação de lavar a louça, tarefa da empregada, e de arrumar alguma coisa desnecessária. Por um momento pensou em antecipar a visita ao pai, mas os filipinos ficam muito inquietos quando alguém invade o espaço da higiene matinal do velho. Ele passa, então, pela casa de sua infância e ruma um pouco mais para o sul, para o escritório de engenharia que herdou do pai.

Mas as copas das árvores, revoltas com os ventos da manhã, despertam-lhe na memória a reclamação que aterrissou em sua mesa há algumas semanas, e ele muda de direção. Dirige-se para o litoral onde, à beira da praia, fica a Torre Pinsker, construída recentemente. Ao chegar ele aciona, com o controle remoto, o sinal para o portão de ferro do estacionamento, e cuidadosamente se faz engolir pelo subsolo.

A construção do prédio de trinta andares ficou pronta no fim do verão, mas por algum motivo está havendo certa dificuldade em ocupar os apartamentos, tanto que, a essa hora da manhã, não há muitos carros na ampla garagem. Mas o pequeno número de moradores não os impediu de se organizar para reclamar dos defeitos na construção, e quando surgiram as primeiras ventanias do inverno uma nova queixa apareceu: assovios, urros, rugidos e murmúrios insuportáveis no poço dos elevadores, que o escritório de Yaári planejou e cujo processo de construção acompanhou de perto.

Realmente, assim que se abre a pesada porta corta-fogo que separa o estacionamento das escadas, Yaári se vê atacado por uma barulheira selvagem, como se tivesse ido parar na pista de decolagem de um aeroporto militar. Na semana anterior, enviaram um dos engenheiros do escritório para investigar, mas o homem voltou com não mais que conjecturas: Será que os ventos entram pelo estacionamento? Ou penetram pelo telhado? Será que o problema não estaria numa relação incorreta entre os elevadores e seus respectivos contrapesos, ou talvez tenha surgido uma brecha na entrada dos fundos das escadas? E é possível também que os ventos tenham encontrado um modo tortuoso de se infiltrar por um dos apartamentos ainda vazios. Alguns dias atrás o fabricante dos elevadores concordou em mandar ao edifício uma técnica especializada em distúrbios acústicos, mas naquele momento o inverno recuou e recolheu suas ventanias, e o silêncio que voltou a reinar no prédio não permitiu que a sensível engenheira chegasse a alguma conclusão.

As crianças têm medo de andar sozinhas nos elevadores, queixou-se ontem o presidente da comissão de moradores, em cujas mãos a construtora depositou o número do celular de Yaári, estimulando-o expressamente a entrar em contato com ele. Alguns bebês caem no choro assim que entram num elevador. Choro, espantou-se Yaári, incrédulo, e lembrou-se de seus dois netos pequenos. Chegam a chorar? Mas não lhe ocorreu dar menos importância à reclamação, nem tentou se livrar da responsabilidade. Importava-se muito com seu prestígio profissional e com o de seus funcionários, e isso o fez prometer que, se a tempestade continuasse, ele próprio iria até o edifício para dar ouvidos à gritaria.

Assim, ao alvorecer do dia, lá está ele cumprindo a promessa. Atento e internamente alerta, ele fica parado à frente das portas dos quatro elevadores, cada um dos quais, naquele momento, se encontrava num andar diferente do prédio. Com toda a autoridade que a experiência lhe proporcionou ele se entrega às violentas lamentações do vendaval. Por fim chama um dos elevadores, e o que está mais próximo rapidamente o atende, abrindo as portas à sua frente. Em vez de entrar, porém, ele o envia para o andar de cima e, enquanto o elevador zarpa para o seu novo destino, Yaári volta a pressionar o botão de chamada, para verificar se algum outro elevador, mais ao longe, irá obedecer ao comando, ou se esse primeiro, já prestes a cumprir sua missão, voltará até ele.

O painel de comando está funcionando perfeitamente. O mais distante não se move, e este mais próximo volta. Não há movimento desnecessário entre os andares, e isso economiza energia elétrica.

Ele entra, e com sua chave mestra dissocia esse elevador do quadro geral de comando, dobrando-o à sua vontade. Desse modo ele pode, agora, comandar o movimento do elevador, ir de um andar a outro a fim de tentar localizar a origem do vazamento de ar. Ele se encosta na parede dos fundos, grudando na sua imagem refletida pelo espelho, e durante a lenta decolagem presta atenção às lamúrias atrás da placa de aço. O rugido que se fazia ouvir no subsolo agora amainou-se numa fúria contida, que em certos andares muda de tom e transforma-se num pranto tristonho. Sem dúvida, num poço que deveria estar hermeticamente fechado para o mundo externo passeiam à vontade ventos não convidados. Mas pode ser que haja algum problema com os próprios elevadores. Deixariam eles a desejar? Pois contra o voto de seus engenheiros, que preferiam elevadores finlandeses ou chineses, que em última análise teriam custado até mais barato, ele se decidiu, desta vez, por aqueles fabricados em Israel.

Mas antes que seja necessário pedir aos técnicos a paralisação de todos os elevadores para excursionar no interior do poço e entender de que tanto se queixam os ventos, há ainda que convocar ao local, além do ouvido sensível daquela técnica especialista em detecção de distúrbios, também uma imaginação fresca e criativa. E Yaári imediatamente pensa no filho, que se juntou à equipe três anos atrás e mostrou uma competência apreciada tanto pelo pai quanto por todos os funcionários.

Ele chega ao último andar e, antes de sair, cancela seu controle sobre o elevador e o devolve ao quadro geral de comando. No trigésimo andar reina o silêncio. A julgar pelo plástico que recobre a porta do apartamento de cobertura, ainda não se encontrou um comprador para ele. Yaári abre a porta da casa de máquinas, e para sua surpresa não há ali nenhum assovio ou reverberação, apenas o chiado preciso e agradável dos cabos de sustentação europeus, que começaram a acordar com a saída de casa dos primeiros moradores. Ele caminha por entre os grandes motores e sai para uma pequena varanda com parapeito de ferro, que o arquiteto do edifício tentou vetar, mas que Yaári teimou em manter no projeto, para permitir aos técnicos encarregados da manutenção fugir para o ar fresco em caso de fogo ou fumaça na casa de máquinas.

Uma nuvem desleixada e embaçada cobre Tel Aviv de uma certa lerdeza. A Torre Pinsker brotou numa vizinhança urbana calma e baixa, e disso lhe adveio o poder de dominar um vasto território, e até de manter um diálogo honroso com os arranha-céus do centro que brilham, cinzentos, a sudeste.

O amarelado que agora tinge o horizonte não é, desta vez, um truque de iluminação, e a aeronave que ganha altura no mais absoluto silêncio também é verdadeira. Não, ele balança o relógio, ainda não é o avião de sua mulher. Se não houver atraso ela deve decolar só daqui a dez minutos, e não faz sentido ficar parado nesse frio mortal se não há muita esperança em identificar o voo.

Mas seu amor pela esposa o fixa à pequena varanda. A viagem dela começou e nada a deterá agora, mas vai ser bom ficar de olho nela, mesmo a distância. Teria sido possível, na verdade, juntar-se a ela. Mas não foi só pela sobrecarga no escritório que ele decidiu ficar. Conhecendo-a profundamente, entendeu que desta vez sua presença seria um estorvo em seu desejo de reavivar, com a ajuda do viúvo, a dor das doces lembranças da infância, com as quais ele próprio nada tinha a ver. Yaári entendeu perfeitamente que, mesmo sentado em silêncio entre ela e o cunhado, sem participar da conversa, sua mulher era capaz de pensar que ele não estaria interessado naqueles fragmentos distantes de memórias, da irmã e de si mesma, que pretendia fisgar do homem que a conheceu ainda criança, desde aqueles tempos em que ele começou a entrar e sair da casa dos pais dela, quando terminou o serviço militar, na condição de primeiro — e último — pretendente da irmã.

Apoiou-se com todo o peso do corpo ao parapeito de ferro. Como especialista veterano e experiente em planejamento de elevadores, o abismo que se abria à sua frente não lhe provocava tonteira alguma, mas ele ficou cismando sobre onde foram parar os ventos que deveriam estar, a essa hora, acariciando-lhe a face.

2

Ao sair do free shop ela ouve, espantada, seu nome sendo chamado pelos alto-falantes, apressando-a a embarcar. Dentro dela soa o alarme de uma nova consciência: desta vez não há ninguém que tome conta do tempo. Ela queria apenas comprar certo batom encomendado pela empregada, e não o encontrando no balcão de maquiagem desistiu e já ia saindo, quando uma vendedora veterana percebeu a frustração da simpática mulher de sua idade e não a largou mais até convencê-la a levar um outro batom de cor e qualidade idênticas, ainda que de outra marca.



É verdade que ela já notou, desde a morte da irmã, que seu interesse por mulheres mais velhas aumentou, como se nestas ela fosse encontrar o semblante da figura amada. E elas, por seu lado, respondem de boa vontade ao sorriso atento, um tanto hesitante como que por uma culpa indecifrável, a solicitar proteção. Passou a meter-se em longas conversas com professoras na escola, e com outras mulheres em restaurantes, salas de espera, cabeleireiros e, obviamente, lojas, como essa mulher de agora que veio até ela e logo lhe contava a própria vida, levando sua paciente ouvinte a adquirir — com considerável desconto — um creme de grande renome que fará maravilhas para a sua pele um tanto seca.

Mas as marcas do tempo ainda estão em seu rosto se o jovem comissário de bordo que vem às pressas em sua direção a identifica como a passageira que está faltando, apodera-se dela, e sem dizer palavra ou perguntar seu nome rasga uma parte do seu cartão de embarque e teima em acompanhá-la pessoalmente até a porta do avião, como se ela tivesse o poder de escapulir de dentro daquele tubo comprido hermeticamente fechado. Está tudo bem, ele abraça pelo ombro a mulher que poderia ser sua mãe, o importante é que você já está dentro, e ele a entrega, como a uma menininha abismada, à aeromoça, a qual pega sua maleta de rodinhas e a faz sumir num dos compartimentos de bagagem, levando-a em seguida até seu assento.

“Eu já tinha certeza de que você não viria”, diz-lhe com intimidade um jovem que hesita entre levantar-se e desimpedir a poltrona da janela, ou ficar onde está, e nesse momento a aeromoça lhe lança um olhar emudecido.

Ela enrubesce, mas não desiste da sua janela. Apesar de, durante os voos propriamente ditos, ela ter o costume de dormitar ou afundar a cara num livro, e pouco olhar para o céu ou para a terra, é importante que a janela esteja por perto, e desta vez, sem o marido a seu lado, mais que nunca. Quando as portas do avião se fecham e os motores começam a ronronar, e a viagem se torna um fato inexorável, uma rusga de preocupação turva a tranquilidade de sua testa. É mesmo indispensável essa viagem? Será útil? E o seu cunhado Yírmi, conseguirá ajudá-la a reavivar a dor já desbotada pelo ano que passou? Porque palavras de consolação não lhe faltam, até o dia de hoje. Parentes e amigos volta e meia se lembram de lhe dizer alguma coisa boa sobre a irmã, e sua família e o marido tratam sempre de alegrá-la. Mas não é isso que ela busca agora. Ao contrário, ela está à procura de palavras precisas, e fatos olvidados ou talvez novos, que avivem a dor e o luto pela irmã mais velha, que ao morrer levou consigo parte da infância da irmã caçula. Sim, ela sente agora o desejo bem nítido de avivar o sentimento de perda e fender a casca de esquecimento que começou a envolvê-la. É esse o motivo pelo qual almeja passar alguns dias perto de alguém que ela conhece desde a infância, e cujo amor e lealdade para com a irmã nada ficavam a dever aos dela mesma.

Obedecendo a aeromoça, que a observa com uma ponta de preocupação, ela afivela o cinto de segurança, aceita o jornal que lhe é oferecido e faz um pedido. Seria possível, ao final da viagem, guardar para ela outros jornais e revistas em hebraico que ficarem no avião? Porque lá, no coração da falha sírio-africana, vive um israelense que certamente gostará muito de recebê-los.

3

Encarapitado na minúscula varanda, Yaári ainda está tremendo e hipnotizado pela alvorada que começa a ampliar os horizontes do céu e a revelar, com sua luminosidade, as aeronaves decolando uma a uma do aeroporto em busca do seu destino a ocidente, na direção do mar. Mas seu olho atento já distingue um avião que, delicada mas obstinadamente, aponta o nariz para o sul. É ela, agita-se ele, como se a própria esposa estivesse pilotando o avião. Ele aperta os olhos até aquele ponto desaparecer no horizonte. E agora relaxa. Sim, sua mulher vai chegar sã e salva e voltar sã e salva. Ele sai da varandinha, tranca a casa de máquinas e chama um elevador que o leve até o estacionamento.



Sozinha? De todo?, admirou-se o cunhado Yirmiyáhu quando Yaári lhe informou por telefone as datas dos voos, ida e volta, de sua mulher durante os feriados de Hanukah. Completamente sozinha?, ele repete, duplamente espantado. Sim, sozinha, diz Yaári pronto a defender a honra da esposa, por quê, você acha que ela não consegue? É claro que ela consegue, gracejou de Dar es Salaam a voz querida e familiar, e se for por apenas sete dias e não mais, ela vai resistir muito bem aqui sem você. Mas será que você vai aguentar? Vai mesmo aceitar a separação sem se arrepender na última hora e se juntar a ela?

Pois é, o cunhado bem sabia o que lhe passava na alma, talvez por conhecer a própria alma. Porque até duas semanas antes da viagem Yaári ainda hesitava se devia ou não deixar que Daniela, cuja pressão havia subido um pouco depois da morte da irmã, viajasse sozinha para a África, mesmo que para encontrar essa pessoa tão próxima, quase um irmão mais velho, um homem muitíssimo responsável e inteiramente confiável, sobre quem a mão do destino golpeou duas vezes nos últimos anos.

Yaári, ao contrário dos parentes e amigos, não condena o cunhado por não ter esperado até o trigésimo dia de luto por sua esposa, e ao final dos sete dias apressou-se a voltar para seu posto de plenipotenciário no escritório para assuntos econômicos de Israel na Tanzânia. No entanto, meio ano depois de sua volta à África, decidiram lá em Jerusalém, talvez por questões de contenção de gastos, talvez por outras razões, desativar o pequeno escritório e aposentar o diplomata velho e viúvo, que além de um segurança e dois funcionários locais não tinha mais ninguém a seu lado. Verdade que o próprio Yirmiyáhu costumava brincar com parentes e amigos quanto à pouca utilidade da sua pequena representação, que às vezes lhe parecia ter sido inventada especialmente para ele, uma indenização tardia para um antigo funcionário do setor administrativo do Ministério do Exterior cuja aposentadoria, segundo as normas, foi adiada devido à perda de um filho em serviço militar, o que pela lei lhe conferia o direito de aposentar-se mais tarde que o normal. Por isso ele recebeu com serenidade e sem nenhuma ofensa o cancelamento da representação não muito tempo depois da morte da esposa. E seria natural que, ao voltar definitivamente para casa, já tendo informado os inquilinos de seu apartamento em Jerusalém sobre sua intenção de regressar, ele se permitisse pegar um atalho, passar uma curta temporada com a filha e o genro, que ainda se esfalfavam por um título acadêmico numa universidade americana.

Mas a América não sensibilizou o novo aposentado, e a temporada encurtou ainda mais. Sem consultar ninguém, e ninguém lhe imporia tal obrigação, e sem nenhuma indicação antecipada, prorrogou o contrato com os inquilinos por mais dois anos e voltou para a África Oriental, não para onde ficava o escritório agora desativado, mas para as cercanias de Morogoro, a duzentos quilômetros a oeste dali, perto da falha sírio-africana — para uma função não muito bem definida de administrador de uma certa expedição científica no campo da antropologia.

E por que não?, desculpou-se ele com seus cunhados, numa ligação de Dar es Salaam, a caminho do seu novo emprego, que pressa tenho eu de voltar a Israel? Quem realmente precisa de mim aí? Nem vocês, porque eu estaria em Jerusalém e vocês em Tel Aviv. Vocês vivem ocupados com seus trabalhos, com os filhos e agora os netos, e eu estou completamente livre, sem mulher e sem trabalho. Vocês não têm preocupações financeiras, ao contrário, a vocês o que preocupa é como e com que irão gastar o dinheiro, enquanto eu tenho uma pensão apenas razoável de funcionário do governo, porque transferimos a indenização pelo “fogo amigo”, desde o primeiro dia, para a conta dos nossos eternos doutorandos. Então me digam com toda a sinceridade, por que não aproveitar essa oportunidade inesperada de economizar alguma coisa para a velhice, antes de começar a derrocada as debacles do corpo e da mente? Eu não mereço também ter alguém cuidando de mim, mesmo que não seja uma dupla de filipinos, como o velho Yaári, mas pelo menos um filipino calmo e dedicado que empurre a minha cadeira de rodas na praça do bairro? Aqui na África o custo de vida é muito baixo, e na expedição eu recebo alojamento e alimentação gratuitos, e me pagam um salário bem adequado por um trabalho de administração e contabilidade bastante leve. Enquanto isso, em Jerusalém, o aluguel continua a se acumular todo mês, e os inquilinos sempre fazem alguma melhoria no apartamento por conta própria. Agora mesmo trocaram o mármore manchado da cozinha, tamparam furos e rachaduras nas paredes e pintaram eles mesmos o apartamento. E ainda prometeram tirar a poeira dos livros e arrumar a biblioteca por assunto. Que pressa eu tenho, então? Às vezes me parece que vocês se esquecem de que sempre serão mais moços do que nós em alguns anos, e ainda encontrarão tempo para passear por lugares novos, mas eu já não terei muito tempo para digerir novas experiências como esta aqui na África, e, podem acreditar em mim, ainda não me sinto farto de estar aqui. Então, por favor, a quem eu devo alguma coisa aí? Não acham que seria esquisito e até vergonhoso que um homem como eu, já com um pé na soleira dos setenta, e só por tédio e falta de ocupação, ainda no primeiro ano de luto, tente estabelecer um vínculo com uma nova mulher, pela qual não sente nem vontade nem desejo? Vocês sabem muito bem que o nosso amor não era menor que o de vocês.

Por isso, meus queridos, e principalmente você, Daniela, deixe em paz a responsabilidade e a preocupação. Eu não vou me perder. E se vocês realmente insistirem em que eu lhes faço falta e não conseguirem superar a saudade por si mesmos, deem um pulo aqui para uma rápida visita, apesar de já terem vindo há três anos, nos quais coisa alguma mudou e nada foi acrescentado.

“Ele tem todo o direito”, sentenciou Yaári para a mulher, a quem a inesperada decisão do cunhado continuava a perturbar, “nenhum de nós tem autoridade para julgá-lo.”

4

O sono pesado do passageiro a seu lado sobra agora para ela. Todas as suas tentativas de encolher-se na poltrona e sacudir de cima de si a jovem cabeça que tratava de apoiar-se em seu ombro foram em vão. Esse homem, que talvez tenha caído na farra ontem à noite e contava com o sossego da viagem, vinga-se em seu sono da janela que lhe foi roubada e agora busca uma cama, e não importa se dentro desta estará também uma mulher vinte anos mais velha que ele e avó de dois netos, cujos retratos ela está prestes a sacar para aspirar conforto de sua doçura. Agora ela percebe a responsabilidade que assumiu ao decidir viajar sozinha. A potência protetora do amor do marido mimou e entorpeceu seu senso de realidade. Especialmente nas viagens, em que ele carregava consigo os documentos dela e a orientava em caminhos estranhos e situações incertas — de modo que num avião ou trem, num carro ou no hotel, ela navegava dentro de uma bolha segura tendo ao lado um homem atento e obsequioso, ao qual nunca faltavam as moedas certas e a informação necessária, e nem mesmo era preciso estar grata por sua devoção e seu cuidado, pois bem sabia ela que por sua mera existência, até quando dormia profundamente, ela lhe proporcionava a mais completa recompensa por seus préstimos.



Mas agora, a caminho da África, não há quem organize o mundo à sua volta, e nem a aeromoça que passa a seu lado e percebe a invasão impertinente do adormecido oferece ajuda, como se o passageiro, ao qual antes ela havia instado a que saísse de onde estava, agora tivesse se tornado seu protegido. Por isso Daniela não tem escolha a não ser acordar, ela mesma, o vizinho e devolvê-lo às suas fronteiras com uma bem-educada firmeza, e o rapaz se encolhe um pouco e balbucia uma desculpa aparentemente sem despertar de fato, porque imediatamente seus olhos voltam a se fechar, e sua cabeça a pender.

Ela dobra o jornal e o guarda no saquinho que recebeu na loja do free shop, ao lado do batom e do creme que, segundo a vendedora que lhe contou algumas passagens de sua história, iria produzir maravilhas na pele de seu rosto. E então ela saca da bolsa um álbum de fotos de seus dois netinhos, ainda envoltos pela admiração da nova avó. Ela examina longamente cada fotografia, como se estivesse decifrando uma escrita secreta. A neta de cinco anos dedica-se a copiar a imagem e semelhança da mãe, sua bonita nora. Mas os olhos azuis da menina emanam calor e fascínio, e não a distância e o estranhamento da mãe. Ela se ocupa mais ainda com as fotos do neto de dois anos, um menininho tempestuoso e incansável, sempre seguro tenazmente pelas mãos do pai ou da mãe, ou amarrado a uma cadeira alta ou ao carrinho. É cedo para saber a quem desejará ele se assemelhar, e segundo quem decidirá delinear as feições do rosto. Ainda que a cara redonda e as ligeiras dobras nas pálpebras lembrem vagamente alguns traços do rosto de seu filho, e talvez até do marido, ela não aceita satisfazer-se com apenas estes. Foto após foto, tenta colher desse neto também algum traço de semelhança com ela mesma. E, visto que a viagem é longa e ela não irá se permitir, a despeito do cansaço, adormecer ao lado do sono selvagem e sem limites de um passageiro desconhecido, está à sua disposição um tempo mais que suficiente para descobrir aquilo que ela deseja encontrar.

5

O elevador dá início à sua vagarosa descida do trigésimo andar, mas logo se detém, já no vigésimo nono, e abre a porta. Entra uma mulher, com roupa esportiva e fones de ouvido, espantada de ver a essa hora matutina alguém descendo do trigésimo andar. Num primeiro momento ela continua a sorver sua música, e apenas traspassa o companheiro de viagem com seus olhares. Mas, quando o elevador desacelera seu movimento ao encontro da garagem no subsolo, ela não se contém e retira os fones.



“Não me diga que a cobertura foi vendida”, ela lhe dirige a palavra com um queixume, como se, com a venda do luxuoso apartamento, pelo qual ela estaria interessada, quem sabe, houvesse alguma pequena derrota. “Cobertura?”, sorri Yaári. “Não sei. Não sou morador daqui. Vim verificar a reclamação quanto aos ventos de vocês.”

Nossos ventos?”, saltita a mulher numa jovialidade incompreensível. “Talvez você possa realmente me explicar o que está acontecendo aqui. Prometeram-nos um apartamento moderno, sofisticado e luxuoso, e pagamos uma fortuna por ele, e assim que aparece uma pontinha de inverno começa a tocar uma orquestra ensandecida. Você está ouvindo?”

“Claro.”

Eles saem para a rampa dos elevadores no estacionamento. Os rugidos ficam mais altos. Ele dá de ombros e começa a se afastar, mas a moradora esportiva não aceita despedir-se. “E você é o quê? Especialista em ventanias?”

“Não exatamente, mas sou o responsável pelo planejamento dos elevadores.”

“Então o que deu errado em seus cálculos?”

“Meus? Por que meus? Talvez de algum outro. Precisamos analisar.”

E Yaári percebe que não é exatamente a lamúria do vento que agora incomoda a mulher, mas o fato de ele, Yaári, existir. Quem é ele, exatamente? E por que ele? Assim, antes de interromper a comunicação e iniciar a busca por seu automóvel na penumbra da garagem, ele solta um comentário fortuito:

“Não se preocupe. Vamos encontrar a origem dos ventos e controlá-los. Os meus engenheiros vão cuidar muito bem disso.”

E inclina a cabeça em sinal de despedida.

Mas a curiosidade da mulher não se dá por vencida. Ela exige para si uma definição precisa desse homem robusto, recém-entrado nos sessenta, em cujo cabelo cortado de modo casual espalham-se estilhaços de cor branca. Seus olhos grandes e escuros refletem uma grande autoconfiança, enquanto o casaco de náilon antigo e desbotado, já fora de moda, aponta para certa simplicidade.

“Os meus engenheiros?”, a mulher repete num tom de mofa, que nela, aparentemente, é natural, “quantos deles você tem?”

“Dez, doze”, ele responde calmamente, “depende de como os contamos.”

E é engolido pela escuridão do estacionamento. Ele dá uma espiada no relógio. A esposa ainda nem deixou o espaço territorial de Israel e o seu amor, desocupado, já começou a atrair estranhas.

6

Apesar de o marido não se encontrar a seu lado para garantir-lhe o sono num lugar estranho e provisório, suas pálbebras desabam por si mesmas. O álbum com as fotos despenca no chão a seus pés, e o ruído dos motores vem juntar-se à intimidade daquele momento. Mas a fragrância de um pão ainda quente abre-lhe os olhos para o jovem no assento ao lado, que consome com apetite uma refeição matinal.



“Desejo verdadeiro”, ela atira para o marido de improviso, antes da despedida, e até agora não lhe é claro a que se referia ela, e o que a levou a dizer tal coisa no último minuto. Teria sido para alfinetá-lo por não ter insistido em acompanhá-la, apesar de seu desejo real de viajar sozinha? Ou para reforçar a saudade em sua ausência e deixar com ele uma esperança para o momento da volta? É verdade, ele tinha razão. É ela a responsável por sua frustração. Ele desejou e se esforçou, mas a ela, a despeito de querer proporcionar-lhe o prazer que buscava, não pareceu justo deixá-lo saciado enquanto ela, a quem o medo da despedida havia travado o desejo, ficará com sua frustração saudosa. Mesmo sendo verdade que nunca atribuiu à sexualidade uma importância especial, nem na juventude e certamente tampouco agora, ao caminhar tranquilamente para a terceira fase de sua vida, ela sabe que o amor do marido merece uma resposta mais frequente. Mas nem sempre conseguia concentrar as forças de sua alma para evitar a decepção a seu próprio desejo, e fornecer-lhe a merecida generosidade.

Ela se volta para a janela. Enquanto dormia, as nuvens se rasgaram em leves chumaços, e a luz do dia agora ilumina as extensões do deserto que beijam o golfo. Será a África? Da viagem anterior, três anos atrás, ela se lembrava da encantadora cor avermelhada do solo, e os africanos embrulhados em panos coloridos que caminhavam sobre ele com graça descalça. Contrariando as instruções do diretório em vigor, o cunhado os hospedou no escritório junto ao apartamento, não apenas para evitar as despesas do hotel mas também para ficarem permanentemente próximos, e da janela do escritório ela viu certa vez sua irmã comprando leite e queijo, de manhã bem cedo, de uma gorda africana, adornada por um turbante do qual emergia uma pena verde. O coração de Daniela anseia agora pela silhueta esguia da irmã, coberta por um velho xale de lã, do tempo de quando moravam com os pais.

O álbum com as fotografias dos netos havia migrado, enquanto dormia, para as cercanias do vizinho, que sem perceber agora pisava sobre ele. Ela lhe pede educadamente que o pegue no chão, e ele se desculpa por não tê-lo visto antes. A aeromoça que já se ocupa em recolher as bandejas vazias da refeição matinal verifica se ela ainda está interessada em sua refeição, e ela hesita por um momento, mas por fim decide não abrir mão dela. Porém, ao retirar a cobertura de alumínio do prato principal e saborear um primeiro bocado, perpassa-a uma náusea como as que lhe ocorriam no início de suas gravidezes. O marido dispunha-se sempre e com alegria a liquidar as sobras, e até mesmo esperava que ela lhe deixasse algo de suas porções, razão pela qual, mesmo quando lhe apetecia comer todo o seu quinhão, ela se continha e separava para ele alguma fatia simbólica como uma expressão concreta de lealdade. Mas agora não há quem a salve daquele alimento que sua alma rejeita. E ela nota então o olhar que acaricia o garfo e a faca abandonados. Será considerado amistoso o gesto de oferecer a um completo estranho uma refeição na qual já se mergulhou o garfo? Pois, fosse ela mais nova, um homem jovem bem poderia tentar estabelecer com ela algum contato através da refeição. Ela lhe oferece a bandeja com um movimento cordial. O rapaz enrubesce, fica confuso. Ele lhe parece bem-nascido, pouco acostumado a comer restos alheios.

“Mas por que você não come? Está uma delícia.”

“Então, tome.”

E sem lhe dar chance de hesitar, com uma firmeza maternal serena e confiante e antes que a aeromoça consiga investir contra a bandeja e enfiá-la no sumidouro de seu carrinho, ela a passa para ele.

O jovem passageiro pigarreia constrangido, mas a fome da juventude é mais forte que ele, e com um cuidado envergonhado ele limpa com o guardanapo o garfo que agora mesmo estava na boca de sua vizinha, e espeta a faca na omelete. Ela inclina a cabeça em aprovação estimuladora, mas não deseja comprometer-se com uma conversa resultante da estranha experiência que lhe impôs. Recolhe então o jornal que acaricia sua perna e passa a peregrinar entre as imagens e os textos.

7

A porta principal do escritório está aberta. Alguém se adiantou a ele. Um velho contador, com seus setenta e cinco anos, que por muitos anos trabalhou para seu pai, bebe um café e come com prazer um croissant, enquanto seu rosto resplandece com a luminosidade do noticiário que ele lê na tela do monitor. Sete anos atrás ele havia se aposentado, mas há um ano Yaári o chamou de volta ao trabalho, a fim de ajudá-lo a administrar a ampliação do escritório e a lidar com as novas leis fiscais recentemente instituídas. E, como o ex-aposentado não se dispõe a renunciar à sesta da tarde, à qual já conseguiu se acostumar, ele amanhece no escritório e desaparece por volta do meio-dia. Yaári não tem certeza se sua produtividade é compatível com o belo salário que recebe além da pensão, mas, como o homem continua fiel também a seu pai doente, indo volta e meia à casa dele para jogar xadrez e repassar as novas do escritório, é conveniente mantê-lo no quadro de funcionários e assim estabelecer mais um canal de comunicação com o pai.



“O que fez você pular da cama?”, pergunta o contador, enquanto cata os farelos que caíram sobre suas calças e os engole.

Com uma ligeira ponta de orgulho, Yaári lhe conta sobre a viagem de Daniela, aquela manhã, para visitar o cunhado na África.

“Aquele cônsul?”

“Na verdade é só um representante comercial, e agora nem isso mais. Seis meses depois que sua esposa faleceu fecharam a representação por falta de verba e o aposentaram. Mas, como o custo de vida na África é muito barato, ele decidiu ficar por lá, e agora administra uma espécie de expedição arqueológica, e com isso reforça suas economias para a velhice, já que no Ministério do Exterior nem imaginam a possibilidade de um aposentado voltar ao trabalho...”

Mas o aposentado local não se impressiona com a espetadela implícita do patrão, tão seguro está ele de ser indispensável.

“O que eles estão cavando?”, insiste o velho contador.

Yaári também não sabe o que a expedição do cunhado faz; quando sua mulher voltar dali a uma semana certamente lhe contará tudo.

O contador observa com alguma suspeita seu empregador, do qual tem a impressão de lembrar-se como aquele aluno do colegial que aparecia depois das aulas para aprender a usar o primeiro computador instalado na firma.

“Vocês sempre viajam juntos, o que aconteceu agora? Você não teve medo de deixar que sua mulher viajasse sozinha, e ainda mais para a África?”

Yaári se sente um pouco sem jeito. O tom de intimidade não parece compatível com o relacionamento entre eles, mas como o homem acaba coletando material familiar nas visitas que faz a seu pai, não há alternativa a não ser explicar pacientemente o sentido da rara separação. Daniela teve a chance de aproveitar o feriado escolar de Hanukah, mas para ele seria difícil deixar o escritório justo esta semana, quando vão ser tomadas decisões sobre as mudanças no projeto para o Ministério da Defesa. Ainda mais que talvez Morán não consiga a licença do seu tempo de serviço na reserva e, acima de tudo, e isso é o principal, sua mulher não ficará um minuto sozinha na África, o cunhado estará ao seu lado e cuidará dela em tempo integral.

“Qual a idade do seu cunhado? Uns setenta? Mais?”

“Algo assim.”

É possível deduzir que seu pai anda falando sobre ele com o contador, com afeição mas também dor, mas de fato este último só se encontrou com Yírmi uma única vez — no casamento de Yaári.

“No meu casamento?”, espanta-se Yaári, “Trinta e sete anos atrás? Você já estava aqui naquela época?”

Claro, o contador já trabalhava aqui naqueles tempos, e foi convidado para o casamento, como todos os funcionários do escritório. E daquele casamento ele se lembrava do homem alto que dançou a noite toda com as duas irmãs...

“Sim, ele tinha uma alegria natural, até levar aquela pancada...”, murmura Yaári, e entra em sua sala, cujo espaço encolheu recentemente devido à ampliação de que o escritório necessitava. Divisórias foram derrubadas, e o espaço todo foi unificado. Mas Yaári resistiu a ficar sem um espaço só para ele, tanto porque aqui se sentava seu pai quanto porque daqui se pode ver a grande árvore no quintal dos fundos, sobre cujos galhos medrou nos últimos anos uma planta desconhecida, que na primavera dá uma profusão de flores vermelhas. Ele hesita quanto a ser cedo demais para chamar o filho ao telefone e lhe pedir que dê um pulo até a Torre Pinsker, no caminho para o escritório, e preste atenção aos rugidos da ventania. Aquela sutil fronteira entre os direitos do pai e os direitos do patrão, que existia entre ele e seu pai, ainda não se estabeleceu inteiramente entre ele e o filho, e este se tornou um tanto estabanado e imprevisível depois que nasceu o segundo neto, uma criança tempestuosa e imprevisível, que exige uma vigilância constante e frequentes visitas aos hospitais. Mas, como lhe parece que o filho também ficou incomodado com a partida da mãe sozinha para a África, ele se permite ligar para ele tão cedo, no mínimo para tranquilizá-lo.

“É o seguinte, querido”, ele tateia em direção à voz sonolenta do filho, “espero não tê-lo acordado. Só queria contar que sua mãe já foi, mas prometeu esperar no terminal de Nairóbi até o voo seguinte. Podemos ficar tranquilos nesse meio-tempo e esperar que o dia termine sem problemas.”

8

Pouco antes do pouso a aeromoça lhe entregou uma pesada sacola repleta de jornais de Israel. Oh, exclama Daniela, que bom que você não esqueceu, mas como conseguiu um pacote tão grande? Afinal temos só três jornais.



“Não sei”, desculpa-se a aeromoça, “fui juntando tudo, os suplementos de economia e de esporte, de empregos e imóveis, eu não sabia o que você queria para o seu israelense e o que não queria.”

“Tudo bem... Muito obrigada... Vou arranjar um lugar para isso.”

E o jovem passageiro, seu comensal, é quem a ajuda a acomodar o pacote de jornais dentro da maleta, e a ajuda também a empurrar a bagagem até o ônibus que levará os viajantes ao terminal. Veja só, graceja ele, já paguei pela refeição que você me deu. Ela o fita com olhos risonhos. Viu? Não foi à toa que eu o fiz mais forte com aquela refeição extra. E então o jovem se permite um interesse maior pelo objetivo da viagem daquela simpática senhora, e ela lhe conta sobre o cunhado, no passado uma espécie de representante diplomático, agora não mais, mas não chega a lhe contar sobre a morte da irmã, que é o verdadeiro motivo da viagem, porque alguém trata ansiosamente de se aproximar da outra ponta do ônibus, chamando alto: “Professora! Eu não acredito! É você mesma?”.

Logo fica bem claro que a mulher nada jovem é uma antiga aluna sua, que já há muitos anos mora em Nairóbi com o marido, que representa uma grande construtora israelense. Mas os anos que se passaram desde o colegial não a fizeram esquecer da jovem professora de inglês, que conseguiu com muita delicadeza incutir nela essa língua tão importante. Você não vai acreditar, tagarela a antiga aluna, que não parece tão mais moça que Daniela, ainda não esqueci do Rei Lear que você nos ensinou com tanta paciência e tanto amor. E naquela época, tão diferente de hoje em dia, o inglês era para nós uma língua realmente estrangeira, e não foi nada fácil. Quando você parou de ensinar? Ainda não parei, Daniela sorri, cansada, continuo ensinando, e naquela mesma escola, não estou tão velha quanto você pensa. Não, Deus me livre, assusta-se a aluna, não foi isso que eu quis dizer, é que pelo que dizem o magistério desgasta muito a pessoa, mas se você ainda tem energia e entusiasmo por Shakespeare, merece os meus parabéns.

Daniela ri. Não, Shakespeare já saiu do currículo escolar, foi substituído por contos americanos mais curtos. Porém nos últimos anos ela já não leciona para turmas adiantadas, trabalha agora com turmas mais jovens. Mais jovens? Por quê? Porque ela teve alguns problemas de disciplina com os alunos mais velhos. Você? Problemas de disciplina?, espanta-se a antiga aluna, mulher ruiva e encorpada, pois se todos nós não só a amávamos, mas na verdade a temíamos. Pois é, sorri Daniela, que às vezes percebe o temor dos alunos. O que fazer? Depois que minha irmã mais velha morreu eu me tornei um pouco lenta e introvertida, e alguns alunos se aproveitam disso.

Agora é possível perceber uma verdadeira tristeza no rosto da ex-aluna. Mas é algo passageiro. Ela tenta consolar a professora, que não deseja condolências. Aposto que você vai voltar a trabalhar com as turmas mais velhas. Pode ser, responde Daniela, e faz sua maleta rolar do ônibus até o terminal, por enquanto é mais confortável do jeito que está. É mais fácil corrigir as provas dos mais novos.

Ao perceber que Daniela se dirige não ao controle de passaportes, mas à paupérrima sala dos passageiros em trânsito, onde deverá esperar pelo próximo voo por mais de seis horas, a antiga aluna tenta convencê-la a passar com ela pelo controle de passaportes e ir à sua casa para esperar lá, uma casa grande e bonita, diz ela, com um quarto de hóspedes tranquilo e confortável. É verdade que a casa fica fora da cidade, mas ela cuidará para que o marido envie seu motorista para trazê-la a tempo para o próximo voo.

Daniela hesita. Ela realmente necessita de um descanso, e a antiga aluna parece uma pessoa útil e confiável. Mas a promessa feita ao marido, de não sair do aeroporto, a paralisa. Se, Deus nos livre e guarde, ocorrer algum imprevisto, uma demora qualquer, como irá justificar a quebra da promessa que lhe foi extorquida no último momento? Desde a morte da irmã os receios dele infiltram-se em sua alma com intensidade ainda maior.

Ela observa a aluna, cujo cabelo ruivo e revolto encontra, agora, um lugar na sua memória. Realmente, por que não descansar na casa dela? O que afinal poderia acontecer? É uma mulher responsável, que mora aqui há muitos anos e certamente fará com que ela chegue ao aeroporto a tempo para o segundo voo. Ela envia um olhar distante ao corredor que leva à sala dos passageiros em trânsito, agora repleto de africanos e suas crianças negras correndo por entre cestos e embrulhos. Esperar seis horas nessa densidade populacional não será nada simples. Mas lhe é mais difícil a ideia de infringir a promessa feita ao marido. Saberia ele coisas sobre ela que a própria Daniela não sabe? Uma nova dispersão mental, uma depressão interior sonhadora que poderia levá-la a errar? A percepção de tempo perdida na loja do aeroporto ainda a perturba. Ela quis viajar sozinha desta vez, e ainda assim não imaginou que o marido não insistiria em acompanhá-la. Ainda que a promessa feita a ele lhe pareça agora irritante e sem sentido, poderia deixar de cumpri-la?

“Não se preocupe”, ela diz com pesar à antiga aluna, que já a encaminhava para o controle de passaportes. “Seis horas não é pouco, mas não é nada impossível. Melhor não incomodar seu marido. Vou acabar achando um cantinho sossegado e, se o livro novo que comprei de manhã no aeroporto for interessante, o tempo também vai passar facilmente.”

E, para grande tristeza da antiga aluna, ela se despede e se dirige ao corredor que leva à sala dos passageiros em trânsito, rolando sua maletinha entre os cestos e pacotes dos que lá esperam, à procura da lanchonete onde três anos atrás ela ficou esperando com o marido.

A lanchonete lá está no mesmo lugar e, apesar de ter conservado sua feiura, já não é mais tão miserável. O lugar foi ampliado, foram postas mais mesas e cadeiras, e as paredes foram enfeitadas com cartazes coloridos com propaganda de hotéis e restaurantes na cidade. E enquanto ela se põe a conjecturar sobre onde estaria o cantinho sossegado para passar as seis horas de espera, um garçom africano, que havia captado seus olhares, abre em sua honra uma mesinha dobrável. No canto, ela sinaliza, no canto, por favor, vou ficar aqui por muito tempo.

Agora ela se arrepende de ter recusado a refeição durante o voo, e por isso pede um sanduíche e uma xícara de café, e abre o romance. Ela o escolheu sem saber nada a respeito, somente pelo nome e pelo desenho da capa. Mas, como o romance foi escrito por uma mulher, é natural que a personagem principal também seja uma mulher. Nem sempre Daniela se sente confortável com romances escritos por mulheres, pois em geral as heroínas não gostam de si mesmas, o que torna difícil aos leitores identificar-se com elas. E sem identificação, apesar da linguagem provavelmente fluente e do enredo certamente labiríntico, o tempo de espera não escoará com tanta facilidade.

Ela lê o texto denso e longo da contracapa do livro. Nessa narrativa acontecerá uma reviravolta, assegura o editor aos leitores. Um segredo muito bem oculto, apenas sugerido no início da história, botará tudo de ponta-cabeça no final. Se assim é, a leitura não será uma tarefa das mais simples, vai ser necessário concentrar-se, e isso não é fácil quando dois meninos africanos param ao lado da mesinha e cravam os olhos nela. Na sua visita anterior, numa mesa ali perto, ela esperou com o marido por um voo ao final da tarde para levá-la de volta a Israel. Não foi uma espera muito longa, só uma hora e meia, e quando o marido está a seu lado e presta atenção a cada uma de suas palavras o tempo voa. Apesar do anseio de voltar para casa, e da satisfação proporcionada pela visita à irmã e ao cunhado, ela se lembra da tristeza que lhe acometeu, alguma coisa lhe dizia que a separação seria bem longa, mas ela não podia adivinhar que quase dois anos depois, no momento fugaz de um ataque cardíaco, sua irmã abandonaria este mundo, e seu cunhado traria a Israel não um caixão de defunto, mas um vaso de argila cheio de cinzas. E daí?, respondia aos parentes secretamente espantados, afinal ninguém aqui acredita na ressurreição dos mortos.

9

Delicadamente, Yaári desliza do lugar do pai para o do empregador, a fim de verificar se a liberação do serviço militar — um mês, como reservista — é definitiva.



“Vai dar tudo certo, papai, não se preocupe.”

“Quando começa o serviço na reserva?”

“Já começou — ontem.”

“E você foi liberado? Tem atestado?”

“Ninguém teria como me liberar oficialmente. Eu simplesmente ignorei.”

“Mas por que você não explica que vai ser uma semana crítica no trabalho, com muitas decisões importantes...”

“Eles não precisam de explicações. Todos têm uma explicação para dar até o final dos tempos. É melhor ficar calado. Mesmo que descubram que eu não compareci, o fato é que o ordenança do batalhão é meu amigo, fizemos juntos o curso de oficiais.”

“Então pelo menos a ele você avisou.”

“Não, se eu avisá-lo, ele vai ser obrigado a me convocar. É melhor ignorar e pronto. Como da outra vez. Não apareci e ninguém percebeu. Há soldados e oficiais suficientes lá.”

“E assim vai ser desta vez também?”

“Tenho certeza.”

“É que vamos ter várias reuniões no Ministério da Defesa. Se você dissesse isso, eles talvez o deixassem livre.”

“O Ministério da Defesa não impressiona ninguém ali. Cada desertor tem uma desculpa bomba. Não se preocupe, eu estou aqui com você.”

“É que, por não ter certeza de que você seria liberado, eu não pude ir junto com sua mãe.”

“E eu pensando que na verdade ela queria ir sozinha.”

“Isso também é verdade. Onde a sua unidade vai servir?”

“Em Samaria, mas não muito longe.”

“Quem sabe você arranja um outro motivo?”

“Outro como?”

“Objeção de consciência... questão de princípios... como aquele seu primo...”

“Deixe disso, papai, não vou me fazer de quem não sou. Esse Exército é muito disperso, sem um foco e sem objetivos. Sobram soldados em todos os lugares. Ninguém vai perceber que eu não compareci.”

“Mas esse ordenança, seu amigo...”

“Mesmo que ele perceba, não vai fazer nada.”

“Bem, o problema é seu. Você sabe o quanto vai ser importante contar com você nesses próximos dias. Então, no caminho para cá dê um pulo até o estacionamento da Torre Pinsker e preste atenção ao berreiro do vento. Os moradores estão furiosos, e com toda a razão. Fui até lá hoje de manhã, e a barulheira é de enlouquecer. Tenho alguma ideia sobre o que está acontecendo, mas não vou dizer nada até que você examine a situação. E você não esqueceu o encontro ao meio-dia no novo local, não é?”

“Não, não esqueci.”

“Mais uma última coisa. O Nádi. Está um pouco mais tranquilo à noite?”

“Quando, por exemplo?”

“Esta noite.”

“Médio. Talvez antes da escolinha eu o leve até o hospital. Você vem hoje à noite acender as velas com as crianças?”

“Esta noite não. De tarde pretendo acender as velas com seu avô. Já faz dois dias que não apareço lá. E depois vou para casa. Não dormi nem três horas esta noite. Mas ainda temos muitas velas para acender até sua mãe voltar.”

Através da grande porta jorram para dentro do escritório engenheiros e desenhistas, técnicos e secretárias, e os monitores em cima das mesas vão se iluminando um após o outro. As pessoas esquentam as mãos nas canecas de café e entram na sala de Yaári para perguntar como ele vai e mostrar seus rascunhos. Já faz alguns anos que o próprio Yaári perdeu o contato direto com as novas tecnologias de desenho e detalhamento dos elevadores informatizados, mas ainda é capaz de apontar para os funcionários novas direções de pensamento e avaliar os resultados de seus trabalhos.

A luz do dia alterna entre mais brilhante e mais embaçada, e a chuva silenciosa não para de cair, mas pela janela os galhos da árvore tão cara ao dono da casa já estão em repouso. Se a tormenta da manhã tiver amainado, seu filho tentará em vão ouvir o rugido dos ventos.

O telefone toca, a secretária traz a correspondência, mas o pensamento de Yaári está junto à viajante amada. Daqui a pouco terá início a espera em Nairóbi, e por mais convencido que esteja de que Daniela vai cumprir a promessa de não sair para a cidade, pesa-lhe a ideia de que ela ficará por seis longas horas sozinha no restaurante apinhado e desagradável. Teria sido melhor se ela encontrasse um canto sossegado perto do portão de embarque. E em sua imaginação ele se vê andando à frente dela no aeroporto, tentando reavivá-lo na memória a fim de ajudá-la a encontrar o lugarzinho adequado, um lugar que não seja demasiadamente isolado e solitário. E ele tem esperanças de que o temperamento agradável e o sorriso amistoso da esposa cativarão algum outro viajante que esteja esperando o mesmo voo. Homem ou mulher, israelense ou europeu, ou mesmo um africano do lugar, alguém que fique de olho na coerência interna de seus movimentos.

10

Diferentemente do que o marido imagina esperançoso, ela não procura um lugarzinho calmo para si, mas decidiu melhorar um pouco as condições do lugar em que ficará sentada na grande lanchonete. Um africano de cabelos brancos ajudou-a a transferir a mesinha para um outro canto, mais afastado, e depois que o garçom pôs à sua frente o sanduíche e a xícara de café, ela deu uma volta por entre as mesas e trouxe para junto de si duas outras cadeiras. Sobre uma delas depositou a maleta de rodinhas e a bolsa; a outra, destinou para os pés, para que seu descanso seja completo e os calcanhares recuperem a antiga forma. Ao abrir a maleta, sua mão dirigiu-se ao pacote de jornais de Israel, mas ela recuou e, com um leve suspiro e sem muitas expectativas, retirou o novo livro que havia comprado no aeroporto.



E assim, em meio aos ruídos de copos e talheres, no âmago de um burburinho de línguas recendendo a café e carne assada, começa o encontro de uma mulher já adulta, leitora veterana, com uma personagem literária, uma jovem de seus trinta anos, que já na primeira página deixa claro o quanto tem pena de si mesma. Num monólogo febril, ela solicita empatia para seu conflito um tanto confuso, ao qual falta um foco discernível. Mas por que devo me compadecer e me identificar?, rebela-se a passageira em trânsito. Se a própria autora não sente afeição por sua personagem? A veneração da palavra escrita a faz continuar, página após página, e enquanto lê examina vez por outra os pés levantados sobre a cadeira como se descansasse sobre o sofá em casa, até que de repente ela deixa cair um dos sapatos, e depois o segundo, e passa a esfregar com satisfação as solas de seus pequenos pés.

As janelas da lanchonete são estreitas e imundas, e a luz que se infiltra por elas não ilumina suficientemente a página. A agitação e os odores também dificultam a concentração, mas apesar disso ela se adapta ao pequeno território que conquistou para si e se resigna às muitas horas que terá de esperar. É verdade, ela poderia agora estar bem confortável na casa de sua antiga aluna, e certamente o marido desta iria providenciar para que ela chegasse a tempo ao aeroporto, mas ainda assim teria de ouvir sua anfitriã, agradecer-lhe, sorrir e se admirar. Sim, não lhe é difícil conversar com as pessoas, e Daniela não tem qualquer problema em deixar que cuidem dela, e mesmo que a mimem. Mas a ansiedade provocada pela quebra de sua promessa envenenaria o encontro agradável. Quando está ao lado dele, Daniela é capaz de contradizer e repelir facilmente suas preocupações amorosas, mas, sozinha, sente-se paralisada e culpada.

Não faz mal, ela tira os óculos e os limpa, as horas hão de passar. Não sou só eu, o tempo também não tem saída. Apesar do aglomerado em volta, ela é dona de si e está bem próxima ao portão de embarque do voo seguinte. Saca da bolsa o passaporte para verificar o cartão de embarque, do qual o marido normalmente se encarregaria, e, depois de tentar decifrar os sinais, usa-o para marcar a página onde estava, volta a guardar o passaporte na bolsa e fecha o livro, enfiando-o na maletinha. Depois sorri cordialmente para um jovem casal sentado a seu lado, um homem europeu e uma mulher africana, que se divertem com o pequerrucho que embaralha com uma criatividade calorosa os genes de seus pais. Ela recebe a anuência deles em vigiar por alguns minutos o pequeno território que delimitou para si, calça os sapatos, e com a carteira de dinheiro na mão sai para o corredor um tanto escuro em direção ao quiosque do qual se lembrava da espera anterior. De fato lá estava, firme em seu lugar, colorido e rico tal como era, e o vendedor, um homem de certa idade, preto a mais não poder, enche para ela uma sacola nada pequena com doces e balas variadas de todos os gostos, além de diversas barras de chocolate. Depois de hesitar ligeiramente, ela saca de um globo iluminado um confeito em forma de um grande papagaio salpicado de torrões de açúcar e empoleirado num pequeno galho. Ela já o tinha cobiçado na outra vez, mas o marido o descartara como “sujo”. Assim, coberta de tanta doçura, ela volta satisfeita à mesa, e depois de teimar que não apenas o pequenino, da idade do neto, mas também seus pais se sirvam dos doces, ela abre o romance na página que tinha marcado, e com um desejo delicado e tímido começa a lamber o confeito que havia alarmado o marido.

11

As horas se arrastam vagarosamente, a chuva não cessa e o vento voltou a soprar. Francisco telefona para Yaári, e num inglês macio pede orientação. Apesar da tempestade, seu pai teima em realizar o passeio matinal.



Volta e meia Yaári é convocado a dirimir uma discussão entre seu pai e o filipino, e geralmente seu voto é favorável ao pai, mesmo quando a vontade do velho parece excêntrica. Yaári não tem ainda prova alguma de que a doença que passou a fazer tremer as mãos e as pernas do pai nos últimos anos, tornando seus passos muito mais lentos, teria abalado também suas faculdades mentais. Embora a eclosão da doença tenha feito o velho mergulhar na tristeza e provocado grande lentidão e concisão em suas palavras, Yaári, que sempre respeitou o pai, sente que o âmago de sua alma continua inteiro e, apesar de permanecer a maior parte do tempo trancado em casa, a percepção da realidade do velho não foi prejudicada em nada.

“Não se preocupe”, diz ele tranquilizando o filipino, “vistam-lhe roupas quentes, amarrem um cachecol no pescoço, ponham sobre ele a manta preta, e principalmente não se esqueçam do chapéu.”

“Mas, senhor Yaári, o chapéu de seu pai desapareceu.”

“Encontrem um outro chapéu na casa. Só não o levem para fora com a cabeça descoberta. Da última vez vocês esqueceram do chapéu e ele se resfriou. Ponham também sobre a cadeira de rodas a cobertura especial que eu montei, e não passeiem pelas ruas, e sim no parque, porque se a chuva apertar vocês poderão se abrigar debaixo do caramanchão onde ficam os escorregadores e os balanços. E não faz mal se ele se molhar um pouco. O cheiro da chuva o deixa contente, e ele também gosta bastante do vento.”

“O senhor quer falar alguma coisa com seu pai?”

“Agora não. Digam-lhe apenas que no fim da tarde eu irei acender com ele as velas.”

“De Hanukah...”

“Muito bem, Francisco, vocês já estão a par de tudo.”

E pelo fato de o tempo de espera da esposa ainda lhe ocupar o pensamento, ele adia uma reunião para depois do almoço e adianta-se para sair ao encontro do filho. Mas, ao ver que a chuva não diminuiu, ao contrário, tornou-se mais forte, ele toma outra direção e vai até o pequeno parque perto da casa de sua infância, para observar o passeio do pai.

Em meio ao ir e vir dos limpadores do para-brisa ele vê o filipino baixinho, todo embrulhado, empurrando devagar a cadeira de rodas de seu pai entre os escorregadores e os balanços do parque vazio. O acompanhante realmente deu ouvidos a suas instruções e cobriu muito bem o velho com o cachecol, a manta, e pôs sobre sua cabeça uma boina vermelha dos tempos em que Yaári serviu o Exército.

Ele espera até que a cadeira de rodas termine de contornar os escorregadores e os balanços e passe a rolar na sua direção. E, apesar de a boina estar profundamente enterrada na cabeça do pai, quase lhe cobrindo os olhos, alcança-o o brilho da satisfação do velho por vencer o vento e a chuva.

12

Mesmo nas páginas seguintes a autora, ou a personagem criada por sua imaginação, não consegue despertar em Daniela alguma simpatia. Apesar de ler metodicamente e não pular nenhuma linha, não lhe é possível sentir o mundo interno da personagem, mesmo quando esta, à página vinte, faz uma agressiva visita aos pais, destinada a fortalecer sua autopiedade por meio de um vetusto ódio infantil. Na descrição da amarga altercação que explode entre a filha e os pais, Daniela encontra algo artificial e não confiável. Como se a autora não compreendesse que mesmo no âmago de uma briga em família subsistisse uma calorosa intimidade, que não existe no ódio entre estranhos. Suas pernas estão agora estendidas sobre a maletinha que passou para o chão, pois nesse meio-tempo o garçom roubou dela uma das cadeiras para dá-la a um grupo de turistas que inundou o local, mas, quando ele aparece para exigir também a segunda cadeira, sobre a qual repousava sua grande bolsa de mão — quem sabe por achar que em troca de um sanduíche e uma xícara de café a senhora branca de meia-idade estava exagerando em suas reivindicações —, ela calça os sapatos e faz a maletinha rolar até o portão de embarque do segundo voo.



O portão fica no fim do corredor. A porta que leva à pista de decolagem está trancada a cadeado, e no salão não há pessoa alguma com quem compartilhar a espera. As três horas que restam até a partida se fazem pesadas e pouco promissoras na deserta sala de espera. Pela primeira vez desde sua decisão de enfrentar a distância até o cunhado na África, Daniela se encrespa contra o marido que não insistiu em juntar-se a ela. É verdade, ela sabia que sua presença nem sempre seria compatível com o réquiem que ela pretende promover para a irmã. Mas agora, na sala de espera vazia em frente ao portão de embarque, ela sente falta dele. Tantos anos de dependência transformaram sua presença num elixir de tranquilidade a percorrer seu aparelho circulatório. Ele não tinha o direito de deixar que ela saísse por aí sozinha. Sim, dentro de poucas horas lá estará o cunhado para lhe dar as boas-vindas, chamando-a de “irmãzinha” como sempre, mas, ao falar pelo telefone com ele, Daniela sentiu que não lhe era muito claro o objetivo desta visita imposta por ela, e que ele até mesmo a temia um pouquinho. A ela não parecia muito compreensível a decisão tomada por ele de voltar ao continente em que sua representação diplomática havia sido extinta. Seria mesmo apenas uma forma de poupar para a velhice? Ele já estava com setenta anos, e ela sabia que a irmã, que o amava e nele confiava, ficaria contente em saber que alguém da família atentava para o que ele estaria fazendo.

A fome e o cansaço, e principalmente o tédio, a atiçam a comer uma barra inteira de chocolate, que deixará em sua boca um gosto de vazio. Ela não devia ter oferecido a refeição do primeiro voo a um jovem desconhecido como se ele fosse seu marido. O voo seguinte não é muito longo, e nele certamente não servirão uma refeição de verdade, e por essa razão talvez valesse a pena voltar por algum tempo à lanchonete a fim de saciar a fome com alguma coisa quente. E por enquanto ela pode se espichar sobre algum dos bancos em frente ao portão de embarque trancado. Não fica muito bem a uma senhora burguesa estender-se como uma nômade sobre um banco de aeroporto, mas ela está sozinha aqui, e se sua postura vier a incomodar alguém ela rapidamente se erguerá.

O banco é duro, e ela nada tem para acolchoá-lo. Decide então retomar o romance e volta a abri-lo. Depois do fracasso da autora em consolidar a aflição de sua heroína, ela trata, como era de esperar, de dirigir a narrativa para o campo mais fácil, do mundo externo, e passa a complicar e a acelerar o enredo. Um ex-agente secreto aparece como um amante rechaçado que tenta despertar interesse no lugar onde a alma ressecou-se. Os olhos da leitora estão cansados, e ela se apressa em marcar com o cartão de embarque a página à qual chegou no livro, guardando-o na maletinha antes que despenque aberto no chão a seus pés no momento em que o sono, que já se anuncia, a domine.

Uma torrente de cansaço inunda a mulher solitária diante do portão de embarque e, apesar das condições pouco propícias, seu sono é profundo e eficiente, e mesmo os viajantes que entrementes se reúnem para o voo anterior ao dela não lhe exigem que levante a âncora desse sono consolador. Por vezes ela ouve estilhaços de vozes calorosas e agradáveis em línguas europeias, e também em estranhas línguas indianas, mas não abre os olhos para ver se as pessoas em volta são brancas, pretas ou mestiças. Qualquer um tem o direito de circular à sua volta, porque estão todos interessados em seu bem-estar. Um leve sorriso desliza por seu rosto, e o marido ausente é substituído, no sono, por muitos maridos, totalmente estranhos, mas nem por isso menos afáveis.

13

De longe Yaári avista o filho à sua espera junto ao portão fechado do canteiro de obras, e o casaco curto de estilo militar que ele usa se parece, na cor e no feitio, com o que ele próprio está usando, mas um deles é de couro e o outro de pano. Já sabendo que o filho não trouxe um capacete, retira do porta-malas do carro dois capacetes amarelos, põe um deles e dá o outro ao filho, para você, ele escarnece, em vez do capacete militar. Abrem o portão e entram no grande canteiro de obras, em que ainda não se terminou a construção do esqueleto. O mestre de obras, sempre atento à preservação do caráter confidencial da construção, aperta amistosamente a mão de ambos e os convida a entrar na gaiola amarela acionada por um chinês tristonho, que os leva para cima devagar numa oscilação guinchadora até o alto dos andaimes do esqueleto cinzento, e os dois, como macacos, passam o tempo olhando através das grades a chuva fina que arranha o horizonte.



Você não vai ficar com frio lá em cima?, pergunta a Morán o mestre de obras. Se meu pai não vai ficar com frio, eu também não, sentencia o filho com um sorriso. Mas Yaári protesta, eu sou eu e você é você. E então, sem aviso, a gaiola para com um sacolejo, e eles saem para uma plataforma cinzenta, cheia de materiais de construção e buracos, sendo atraídos para espiar o abismo do poço dos elevadores, no qual despontam arames e restos de andaimes.

Yaári ajoelha-se e examina o abismo, alertando o mestre de obras sobre rachaduras e furos. Já tenho problemas suficientes com o trabalho desleixado no poço de um edifício residencial na zona oeste, e mesmo não sendo responsável pelo poço e somente pelo planejamento dos elevadores, os moradores, imagine, exigem agora que eu resolva o problema de qualquer vento que decida aparecer e se enfiar lá dentro.

Morán pega uma trena metálica dobrável e a estende sobre a boca do poço. Cuidado, diz o pai, não se aproxime demais do poço. O lampejo de uma doce lembrança o devolve trinta anos para trás, à noite de desejo em que seu filho foi semeado. O que seria aquele “desejo verdadeiro” que lhe foi jogado no momento da despedida no aeroporto? Apenas o disparate da mulher que em poucos anos chegará à linha da terceira idade, ou um queixume disfarçado contra quem não lutou por seu desejo nos dias anteriores à viagem?

Morán estica mais e mais a trena e verifica se as medidas implementadas são compatíveis com as planejadas no escritório, antes de começarem a lidar com a nova exigência por conta da qual foram chamados agora — acrescentar ao poço mais um elevador, o quinto, aparentemente um elevador privado para agentes secretos de grande valor, que não podem se expor aos olhares alheios.

Yaári adverte o mestre de obras:

“Mesmo que consigamos plantar aqui mais um elevador, em prejuízo dos outros quatro, ele será extremamente reduzido, um elevador pessoal, para uma só pessoa e de preferência não muito gorda.”

Mas ao mestre de obras não interessam as dimensões do quinto elevador, interessa-lhe apenas que funcione tão bem quanto os demais.

Uma nuvem que se esgarçou no céu envia uma luz até o crânio raspado de Morán, que não se sente satisfeito com os resultados da medição. Vocês já nos roubaram quarenta centímetros da largura que tínhamos pedido, ele reclama, e se continuarem a levantar o poço nesse mesmo ângulo vão nos faltar no final quinze centímetros, então como é que ousam nos pedir mais um elevador?

Ele devolve a fita da trena ao seu receptáculo com um silvo, guarda-a no bolso e esfrega as mãos para livrá-las da poeira da obra. Mas Yaári não está preocupado com os centímetros que faltam, vamos superar isso, ele tranquiliza o filho e faz um sinal ao chinês, fascinado pelo horizonte marinho, para que abra a gaiola amarela e os devolva ao rés do chão. E, enquanto observa a cidade branca que vai brotando nos arredores, seus devaneios se derramam sobre a viajante longínqua. Sim, ela certamente está esgotada e irritada pela longa espera que Yaári lhe impôs, mas ele confia piamente que os olhos de Daniela continuarão a cativar com seu sorriso quem quer que dela se aproxime.

14

E realmente, quando o célere crepúsculo equatorial obscurece as janelas estreitas, ela saúda com um sorriso de gratidão os novos viajantes que finalmente se agrupam para o voo dela. Um funcionário escreve a giz, num pequeno quadro negro, o nome da companhia, o número do voo e o destino, e pendura o quadro perto da porta de saída. Ela avalia seus colegas de viagem, pretos, brancos, indianos, assinalando para si mesma de quem poderá solicitar alguma ajuda caso ocorra um contratempo no caminho, ou caso o cunhado se atrase ao seu encontro em Morogoro.



Ela entra no banheiro e se maquia metodicamente, e sorri amistosa para a figura que se reflete no espelho nada limpo. Quando o embarque é anunciado ela não se demora, como sempre, até que a fila encurte ou acabe, mas se levanta e se posiciona entre os primeiros. E quando o funcionário pede para ver seu passaporte ela o estende alegremente. Só o cartão de embarque, que ele deveria rasgar, lhe falta.

Num primeiro momento a fila se detém e todos esperam pacientemente que a mulher sorridente procure o cartão em sua bolsa, mas, quando já parece evidente que ali ele também não será encontrado, pedem-lhe com cortesia que dê um passo para o lado e procure o cartão de modo mais cuidadoso. Seria ele realmente indispensável?, questiona ela em seu inglês perfeito, sem ele não é possível? Na passagem de volta há uma cópia dele em carbono que atesta sua existência. Mas em seguida torna-se evidente que esse papel encorpado é obrigatório, e, apesar de ali não haver o aparelho que engole o cartão e logo o expele de volta, apenas uma mão negra, macia e delicada, ainda assim o cartão de embarque funciona como única evidência de que ela realmente embarcou na aeronave e não se evadiu.

Passam-se alguns minutos mais de uma procura vã, até que uma aeromoça em uniforme laranja, que combina muito bem com a cor negra de sua pele, a afasta delicadamente da fila que aumenta cada vez mais e lhe sugere uma busca na maleta de rodinhas. Ele tem que aparecer, ela tranquiliza a enrubescida passageira, por que a senhora iria perdê-lo?

É verdade, por que ela iria perdê-lo?, ela sorri para a amável aeromoça, enquanto sua alma dilacera-se em desespero e humilhação, e ódio profundo do marido. Isso já era esperado. Ele bem que a avisou para manter tudo concentrado num mesmo lugar. E agora ele talvez se alegre caso sua preocupação se revele fundada e fique patente que não há como confiar nela, e que por isso seu dever e destino será o de paralisá-la com seus préstimos, anestesiá-la, acolchoar sua existência como se ela fosse uma princesa, filha de uma linhagem de reis há muitas gerações.

Mas ela se lembra muito bem desse cartão retangular. Ele estava com ela, ela o viu, não fez pouco caso dele nem o negligenciou, lembra-se de seu aspecto, de sua cor, então por que ele agora a trai, desaparece e a deixa sozinha, num terminal de passageiros em trânsito, sem nenhuma conexão com um mundo que poderia ampará-la?

Viajantes passam diante dela, uma família europeia com crianças, há alegria num curto voo de fim de tarde rumo a uma reserva natural muito esperada. O ônibus que deverá levá-los ao avião já acende as luzes, aciona o motor. Teria ela alguma outra mala que já estaria no avião?, perguntam-lhe com certa aflição. Não, ela tranquiliza os aflitos, ela está viajando somente por uma semana, para visitar o cunhado, marido de sua irmã recém-falecida, por isso traz apenas uma maletinha com rodas muito fácil de carregar. Ela pensa em acrescentar que seu anfitrião era até poucos anos atrás uma espécie de vice-embaixador ou ministro plenipotenciário na região, e talvez, graças à sua qualificação elevada, a deixem passar sem o cartão de embarque, mas uma fiança desse tipo lhe parece inútil e ela prefere se calar.

Os funcionários sentem-se aliviados por saber que não será preciso atrasar o voo a fim de procurar uma eventual mala já embarcada. Será mais fácil reter a confusa passageira e liberar o avião para seguir seu caminho. Caso houvesse uma outra mala já embarcada eles talvez se vissem obrigados a deixá-la embarcar sem o cartão, anexando-a à mala já despachada. Mas seu anfitrião a instruiu a não exagerar com as roupas, o clima está ameno, e se fizer frio ainda tenho comigo um suéter e um casaco da sua irmã.

Sua garganta se contrai. Repentinamente o sumiço do cartão de embarque se conecta à morte de sua irmã.

Mas ela se lembrará sim de onde enfiou o maldito cartão. Ela irá reunir suas energias. Conseguirá acordar. Não é apenas o marido que a entorpece, é também a morte da irmã. E ela tem a obrigação de sair dessa, caso contrário não haverá sentido em viajar até a distante África para salvar do embotamento a dor da perda. Se ela não acordar, como irá reavivar as memórias de infância que já vão empalidecendo? O cunhado não poderá fazer por ela esse trabalho. No fundo ela sabe que ele está com um pé atrás do outro quanto à sua visita, mesmo que seja apenas por uma semana. Ele não compreende o motivo da visita, e receia que seja uma vistoria, manifesta ou velada. Teme que ela venha a bisbilhotar sua vida, e se ela chegar dispersa, com os sentidos obnubilados, ele a narcotizará, como faz seu marido, acolchoará suas vivências e intensificará sua dependência, como fez com a irmã.

É esse o motivo pelo qual ela tem de encontrar o cartão por si mesma. Ela não pretende se humilhar indo, como aluna malcomportada, ao balcão dos passageiros em trânsito para pedir que lhe reservem um lugar no voo do dia seguinte. Ela se recobrará. Não deixará que o amor derramado sobre ela oblitere sua independência. Ela necessita de uma pitada de desgraça, de raiva autêntica contra si mesma, tal como aquela heroína masoquista do romance novo, do qual na verdade ainda não conseguiu gostar.

De repente uma luz a inunda. Sim, o cartão não desapareceu. Ele está dentro do livro, na maleta, marcando a página em que a leitura foi interrompida, o lugar em que a heroína exauriu sua capacidade de identificar-se.

Um momento, um momento, ela chama o funcionário, que aparentemente está prestes a fechar o portão na sua cara. E se ajoelha e abre a maleta, e ali, perto do pacote de jornais, ela encontra o romance, e o cartão de embarque para o segundo voo lá está, completo e verdadeiro, com uma pequena parte despontando por entre as páginas. Ela o tira dali, mas não fecha o livro sem antes anotar na memória o número da página, para não ter que reler trechos já lidos.

“Já estávamos atrás de alguém que cuidasse da senhora”, diz o funcionário, e arranca do cartão a parte que lhe cabe, “mas a senhora conseguiu cuidar de si mesma.”

Visto que ela é a última passageira, ele próprio leva a bagagem até o ônibus, apesar de, a essa altura, a maletinha já estar quase rolando por si mesma. Todos se alegram com sua chegada, levantam-se para lhe dar lugar, e ela sorri e se senta imediatamente, enfiando com zelo para dentro do passaporte, como lhe havia instruído o marido, a parte que lhe resta do cartão, mesmo sabendo que em poucos minutos terá que tirá-la dali e apresentá-la à aeromoça na porta do avião.

15

O lusco-fusco do crepúsculo, que não havia conseguido romper as pesadas nuvens, transforma-se em sombras acinzentas na sala de Yaári, mas ele não acende a luz; joga a cabeça para trás na confortável poltrona de diretor e fecha os olhos, procurando um pouco a si mesmo antes de completar sua última obrigação num dia que havia começado bem antes do alvorecer.



Neste momento seu pai janta, mas como para Yaári é difícil ver como Kinzi, a filipina, lhe dá a comida na boca com uma colherzinha, ele prefere chegar ao final da refeição, quando o babador foi retirado do pai e seu rosto já está limpo.

O escritório está silencioso. Devido aos feriados de Hanukah as mulheres encerraram suas atividades na hora do almoço, e nem todos os homens que saíram com elas para o intervalo voltaram para as escrivaninhas. Alguns anos antes, quando seu pai não conseguiu mais esconder o tremor nas mãos e deixou definitivamente a direção do escritório, Yaári imediatamente retirou o relógio de ponto, entregando o tempo agora invisível para a consciência pessoal de cada funcionário — e não se enganou. Às vezes, quando ele e Daniela voltavam à noite de algum concerto ou cinema, Yaári se desviava do caminho e passava em frente às janelas do escritório, para tentar mostrar a ela através das janelas iluminadas a atividade piscante dos monitores.

“Veja bem, Yaári”, telefona-lhe Gottlieb, o fabricante de elevadores, “estou percebendo que o vento está voltando, e como eu lhe disse hoje de manhã, mesmo que nem os meus elevadores nem o seu planejamento sejam culpados por aqueles rugidos, estou disposto, só para que um amigo que confiou em nosso produto tenha paz tanto profissional quanto pessoal, a mandar agora para lá a minha especialista, mas na condição de que você, ou alguém do seu escritório, vá com ela.”

“Por quê?”

“Porque assim ela poderá, no próprio local, orientar vocês para enfrentar os moradores e provar a eles que o berreiro e a choradeira não têm ligação nem com o seu planejamento nem com os meus elevadores, e sim exclusivamente com o trabalho desleixado da construtora no poço, e talvez também com algum erro do arquiteto na localização das portas corta-fogo do estacionamento. Mesmo sem ouvir a gritaria, tenho certeza de que os ventos penetram no poço por baixo, não por cima, e a minha técnica vai diagnosticar precisamente como é que acontece aquela confusão. Então, meu amigo, livre-se da preguiça, amanhã o tempo vai melhorar e a ventania vai acabar e ninguém ouvirá nada ali. Levante e vá encontrá-la daqui a meia hora, e você não vai se arrepender, ou então mande seu filho. Ela é um tipo raro, uma personalidade de grande talento, profissional, e vai amainar a culpa que você tomou para si esta manhã só para jogá-la em cima de mim à tarde.”

“Não foi culpa, foi responsabilidade.”

“Está bem, ela livrará você da responsabilidade também.”

“Mas o que há de tão especial nela?”

“Ela é capaz de, simplesmente ouvindo, diagnosticar defeitos em motores ou cabos muito antes de surgirem concretamente. Com tal ouvido absoluto ela poderia reger uma orquestra filarmônica e um grande coral em vez de trabalhar conosco no departamento de serviço...”

“Israelense?”

“Totalmente. Quando criança foi enviada a um kibutz musical lá na Galileia, e foi lá que adquiriu esse ouvido absoluto, no meio de tratores e colheitadeiras.”

“Quantos anos ela tem?”

“Trinta, quarenta, talvez mais, mas é do tipo mignon, sem idade definida, esportiva... capaz de se enfiar em qualquer buraco... uma diabreta dos infernos...”

“Então vou achar alguém que vá encontrá-la no estacionamento.”

“Seria bom que você mesmo fosse até lá.”

“Não posso, os filipinos do meu pai estão me esperando para acender as velas.”

“Como está o seu velho?”

“Estável.”

“Diga-lhe que mandei um abraço. Você sabe o quanto eu gostava dele e o respeitava.”

“Então continue a gostar dele e a respeitá-lo, porque ele está tão vivo quanto eu e você.”

“Com certeza... sem dúvida... mas mesmo assim, meu caro, no caminho dê um pulo até os ventos e vamos acabar com essa novela.”

“Não, o meu dia de trabalho já terminou. Acordei às três da manhã para acompanhar minha mulher até o aeroporto.”

“Para onde ela viajou em pleno inverno?”

“Para a África.”

“Numa excursão?”

“Não, ela viajou sozinha.”

“Foi à África sozinha? Você nunca me contou que sua mulher gostava de aventuras.”

Yaári quis explicar ao fabricante de elevadores que ela não estaria lá sozinha, que o cunhado a estaria esperando, mas sua língua travou. Aventuras? Deixe estar, ela passaria a ter uma fama que jamais desejou para si mesma, mas de repente a história lhe agrada.

16

Desta vez ela encosta a cabeça na janela, como se fosse o ombro de um cônjuge, e observa com atenção o mundo que viaja abaixo dela. O avião tem motores a hélice novos, mas não é muito grande; num sussurro agradável e confiante desliza pelas sombras da noite numa altitude não muito elevada, a ponto de ser possível distinguir não somente as curvas de um rio e o desenho de um pequeno lago, mas até mesmo as luzes das casas, e aqui e ali inclusive o fogo de uma fogueira. O orgulho pelo voo que não foi perdido a deixa alerta e focada de um modo ao qual não está acostumada. Ela pega então seu passaporte, examina os documentos dobrados dentro da capa e depois o folheia, página após página, como se fosse um pequeno livro de rezas.



No assento a seu lado está um inglês idoso, um pouco azulado, de cabelos brancos e corpo pesado, na frente do qual a aeromoça põe o que já é o terceiro uísque. Mas Daniela não o teme. O voo é curto, e o homem lhe parece sólido e lúcido, aparentemente a examina com uma amabilidade disfarçada. Sim, apesar de sua idade, ela tem plena consciência da radiação feminina que seu corpo ainda exala. Se ela dirigisse ao homem algumas perguntas em seu inglês impecável e o estimulasse a falar de si mesmo, é possível que ele se apaixonasse por ela antes de aterrissarem. Mas ela se volta para a janela, porque a extensão africana iluminada pela luz da lua é o que agora atrai sua alma.

17

O vento voltou a soprar, diz Yaári, arrancando seu filho do computador. O Gottlieb está mandando agora a sua especialista em acústica à Torre Pinsker para diagnosticar definitivamente a origem dos ventos no poço e nos deixar livres, a ele sobretudo, da responsabilidade diante dos moradores. Mas ele exige que um de nós esteja lá para entender as explicações dela. Eu não tenho mais cabeça para nenhum outro vento, e estou com pressa para acender as velas com seu avô, então me faça um favor e vá até lá, querido, encontrá-la no estacionamento para podermos encerrar logo essa questão. Não dá mais para os moradores continuarem a me ligar no celular.



Na velha casa de sua infância, no amplo salão, seu pai treme na cadeira de rodas, e perto dele está sentado o pequeno Hilario, que cursa a primeira série. O hebraico flui de sua boca naturalmente e sem nenhum sotaque, e ele tem inclusive um pequeno candelabro de Hanukah onde estão fincadas três velas de cores variadas que, junto com as três velas do grande e velho candelabro da casa, esperam a chegada de Yaári.

Quando a doença do pai de Yaári se agravou, Daniela insistiu que contratassem não um, mas dois filipinos para ajudar, um casal, que além de cuidar do doente trariam com eles também a atmosfera de estabilidade e segurança de uma pequena família. A casa é grande, ela disse, haverá espaço para todos, e com essa pequena despesa a mais compraremos tranquilidade para todos nós.

Seria a casa realmente grande?, pergunta-se Yaári ultimamente, quando vem visitar o pai e vê esse espaço em meio a um carrinho, um cercado, uma pequena banheira montada dentro da cozinha e um varal para secar roupas, depois que o casal de acompanhantes Francisco e Kinzi, que parecem dois adolescentes, teve uma filha há poucos meses, a qual exige um espaço respeitável para si própria. Além do filho Hilario, de seis anos, nascido ainda no Sudeste Asiático, que agora mora no quarto que foi dele na infância, e que depois de concluir o jardim de infância municipal, que Yaári também frequentou, estuda agora na primeira série — um aluno dedicado e leal, sentado muito atento ao lado do avô que não para de tremer, uma vela novinha na mão e um solidéu na cabeça, esperando que Yaári lhe dê licença para acender e fazer as bênçãos.

“Não exagere...”, diz Yaári, e estende a mão para tirar o solidéu da cabeça do pequeno filipino.

Mas o pai interrompe seu gesto, qual é o problema?, pergunta, ele não incomoda ninguém com o solidéu. Agora ele tem uma nova professora, que foi transferida de uma escola religiosa, e que faz questão de ensinar um pouco de religião para as crianças, mais do que o nada que ensinaram a você.

Yaári já está acostumado a ver o pai inteirado de todos os detalhes da vida de Hilario, mais do que sempre soube a respeito dele e do irmão quando eram crianças. E não seria de admirar — o inglês do pai é pouco e incerto, e ele fala com seus acompanhantes através do primogênito deles, aprendendo com isso tudo que se passa no mundo do tradutor.

“Está bem”, suspira Yaári, “estou totalmente quebrado, então vamos logo dar cabo das velas.”

O velho faz um sinal a Francisco para que apague as luzes do salão, a fim de que o fogo das velas alegre os olhos do menino, e este, então, acende a vela que está em sua mão, e sussurrando — sem cometer nenhum erro — canta as duas bênçãos tradicionais, transferindo o fogo amigo para as duas outras velas espetadas no seu pequeno candelabro de argila. Ao terminar ele estende a vela acesa a Yaári, mas este lhe sinaliza para que continue, e o menino, com o rosto ardendo de emoção, põe-se na ponta dos pés e por alguma razão repete as bênçãos, enquanto com a mãozinha trêmula acende também a vela auxiliar e as duas principais no velho candelabro do velho pai. Em seguida ele olha para a mãe, sentada a um canto com o bebê nos braços, e recebe dela licença para cantar uma canção de Hanukah. Para alívio de Yaári não se trata do “Maóz Tzur Yeshuatí”, que ele detesta, mas de uma velha canção cuja melodia é simples e agradável, e pelo fato de Francisco e Kinzi, apesar de seus não poucos anos de residência em Israel, não conhecerem a letra e nem mesmo a música, Yaári se vê obrigado a reforçar o canto do menino com um murmúrio próprio.

Terminada a cerimônia, o pai deseja saber se sua nora já chegou sã e salva ao encontro com o cunhado na África. Dois dias antes ela viera se despedir dele, contando-lhe em detalhes o objetivo da viagem, e apesar de o pai ter escutado atentamente e balançado a cabeça não apenas devido à doença, mas por aprovar a intenção dela de reavivar o luto e a tristeza que haviam esmaecido, seu espírito não ficou tranquilo diante da ideia de que sua tão amada nora viajaria sozinha para a África Oriental.

Yaári olha o relógio acreditando que não haja diferença de fuso horário entre Israel e o Leste africano, e diz que se estiver tudo bem ela agora está no ar e deverá aterrissar dentro de uma hora.

“Mas o Yirmiyáhu já não é mais embaixador...”, recorda-se o pai.

“Ele nunca foi embaixador, era apenas ministro plenipotenciário numa pequena representação comercial, fechada depois que a Shúli morreu.”

À luz das seis chamas que acariciam o salão, Yaári percebe que os olhos do pai acendem-se, um rubor cobre-lhe o rosto e o tremor de seu corpo se intensifica, balançando com força suas mãos. Seu olhar desvia-se do filho e vaga em busca do canto do salão. Yaári volta a cabeça e percebe que a filipina aproveita a penumbra para amamentar o bebê. Apesar do tom naturalmente escuro de sua pele, a penumbra não consegue ocultar o peito exposto, e o tremular das chamas das velas de Hanukah revela o seio de uma jovem mulher, cinzelado com a doçura da beleza, que pelo visto agitou a alma do idoso.

Preciso avisar o Francisco, pensa Yaári, para não deixar a mulher se expor desse modo diante do meu pai. Já que ela o veste e alimenta, não é bom que ele se torture demais ansiando por sua carne.

Mas o momento não é propício para advertências, principalmente não na frente do menino fascinado pelas chamas, e por esse motivo ele desvia ligeiramente a cadeira de rodas para um ângulo que oculta aos olhos do pai o seio exposto de sua acompanhante, e inclusive procura, como que casualmente, desviar sua atenção com a descrição dos ventos que assobiam no poço dos elevadores da nova torre, que os aspira do mundo exterior de um modo ainda misterioso.

18

A proximidade da aterrissagem é anunciada, e a aeromoça se levanta para distribuir balas aos passageiros. Mas o inglês, que engole o que restou do uísque, não tem vontade de estragar o gosto da bebida com o azedume de uma simples balinha, e a oferece com tímida gentileza à silenciosa passageira a seu lado. Nos poucos minutos que faltam até aterrissarem, ela está disposta não só a aceitar a bala, como também a perguntar-lhe sobre o clima e as paisagens que a esperam no solo.



O ancião inglês, na verdade, revela-se um apaixonado pela reserva de Morogoro, a ponto de possuir ali uma pequena fazenda particular, e devido a seu amor pelos animais vem todo ano para cá, porque tem certeza absoluta de que os bichos também sentem saudade dele. Mas nada tinha ouvido falar sobre a expedição de escavações antropológicas; para dizer a verdade, não tem o menor interesse em escavações desse tipo, e acha até um tanto estranho que uma senhora agradável e delicada como ela vá se juntar a esse grupo que procura ossos de homens macacos primitivos num momento em que o deslumbrante presente dos seres vivos ainda se encontra envolto por tantos mistérios. Por esse motivo, quando as rodas do avião já estão praticamente tocando o solo, não resta a ela nada mais a fazer senão corrigir a impressão equivocada do vizinho quanto à natureza de sua viagem, e revelar a ele a verdadeira razão de sua visita. O inglês, cuja tristeza aumentou depois que lhe tomaram o copo vazio, compadece-se com grande ternura da história do seu luto, e parece prestes a juntar uma lágrima sua à dor pelo falecimento da amada irmã e do soldado que morreu em vão, e se tivesse mais tempo disponível estaria pronto até mesmo para apaixonar-se por ela, e antes de desafivelar o cinto de segurança entrega à israelense um cartão de visitas com o nome e o endereço de sua fazenda, quem sabe ela não teria alguma oportunidade de visitá-lo. Daniela aceita prontamente o cartão, como aceitou a balinha, e, para permanecer fiel à ordem do marido de concentrar tudo num só lugar, junta o cartão de visitas ao seguro-saúde dentro da capa do seu passaporte, porque agora, ao descer na escuridão as escadas do avião, ela toma consciência não só da distância e do tempo que se passaram, mas também do desgaste provocado em sua capacidade de resistir a mais uma solidão, e põe-se a rolar sua maleta nas pegadas trôpegas do inglês, ao qual já aguardam dois homenzarrões negros que habilmente o instalam numa cadeira de rodas a fim de levá-lo para fora do pequeno aeroporto com todas as honras e toda a dignidade.

Mesmo depois do controle dos passaportes, cercada repentinamente por carregadores e recepcionistas, Daniela mantém contato visual com a cadeira de rodas, porque à primeira vista ela percebe que, entre as dezenas de recepcionistas negros que se acotovelam atrás da grade e também à frente dela, não se vê nenhum rosto branco conhecido. Mas um sentimento de amor-próprio afasta qualquer preocupação ou temor, e apenas um estranho sorriso vem assentar-se sobre seus lábios. Ela tem certeza absoluta de que, mesmo não sendo do agrado do cunhado a visita que ela lhe impôs, ele nem aventaria a possibilidade de não recepcionar aquela que, quando menina, acompanhou a corte que ele fazia à irmã e apoiou o amor deles com toda a sua jovem alma. Pois se ele próprio a chamava sempre de “minha irmãzinha”, e a ajudava nas lições de matemática e desenho geométrico, e em horas tardias da noite a buscava, no automóvel do pai, e a levava para casa depois de uma atividade do movimento juvenil ou de uma festa da sua turma num lugar distante.

E enquanto o estranho sorriso luta contra um leve receio, eleva-se e se faz visível um pequeno cartaz por entre a negra multidão, no qual estão escritos com letras conhecidas seu nome e o número de seu voo.

Entretanto, não é Yirmiyáhu quem agita o cartaz, mas uma nobre enviada dele, mais negra impossível, alta e muitíssimo ereta, uma echarpe vermelha à volta do pescoço e vestida com a roupa branca de médica ou enfermeira. E quando Daniela se identifica como a procurada, a enviada serpenteia até ela por entre a aglomeração de recepcionistas, tão numerosos que se diria serem curiosos locais que vão ao aeroporto da pequena cidade todas as noites só para ver se o avião precisará de sua ajuda para decolar ou aterrissar.

A mulher magra e muito alta inclina-se para a senhora Yaári e, num inglês simples mas correto, ainda que com um sotaque obscuro, apresenta-se: Sijin Kuang, sudanesa, enfermeira da expedição antropológica. Na hora do almoço acompanhou um doente para interná-lo, e lhe pediram que esperasse até o cair da noite pela visitante de Israel. É compreensível e natural que, depois de uma espera tão longa, ela esteja ansiosa por iniciar logo o caminho de volta. Embora a distância até o acampamento de retaguarda da expedição não seja tão grande, trinta milhas, não mais, metade dela é por estradas de terra. Depois de tomar conhecimento, com certa alegria, que a viajante não trazia outra bagagem que não a maleta, ela lhe aconselha a utilizar o sanitário, porque o caminho que as espera não passa por regiões habitadas razoáveis. Mas Daniela, também aflita por iniciar a viagem, lhe diz sem pensar duas vezes que muito obrigada, está tudo bem comigo.

No pátio do estacionamento as espera um veículo coberto de pó, dentro do qual estão jogadas pás, picaretas e grandes peneiras. Fica então claro que a enfermeira será também a motorista. Mas antes de o motor ser posto em funcionamento, chega ao regaço da visitante uma sacola na qual há uma garrafa térmica e um grande sanduíche, merenda para o caminho enviada pelo cunhado, cujo motivo de não ter vindo recebê-la pessoalmente no aeroporto ainda não ficou claro.

Com mão cansada Daniela retira o grosso papel de embrulho, que parece uma página arrancada de uma velha enciclopédia, e descobre uma espécie de pitta enorme, amarronzado e grosso, dentro do qual há ovos cozidos fatiados, cobertos por tiras de berinjela fritas e aceboladas.

Sijin Kuang manobra com perícia por entre os outros veículos parados no estacionamento, e ao mesmo tempo a viajante olha espantada para o gigantesco sanduíche.

“Jer’my disse que você ia gostar disso...”

Os olhos de Daniela resplandecem. É verdade, ele tem razão. Ela e a irmã gostam de berinjela, talvez por ter sido o primeiro legume que a mãe, imigrante mimada, aprendeu a cozinhar em Israel. Apesar da fome que se agitava dentro dela desde que abriu mão da sua refeição no primeiro voo e que o lanche e os doces do aeroporto não conseguiram abrandar, ela propõe dividir o sanduíche com a sudanesa, mas esta recusa, Não, é só para você — uma indenização simbólica do homem que receou vir pessoalmente ao aeroporto.

“Receou?”

“Que estivessem com você outras pessoas do seu país.”

“Israelenses?”

“Sim, israelenses.”

“Mas por que o receio?”

“Não sei, talvez eu esteja enganada”, corrige-se a enfermeira, “mas tenho a impressão de que agora ele não queria encontrar ninguém do seu país. Nem ver, nem sentir a sua presença, nem mesmo de longe.”

“Nem de longe?”, Daniela repete com dor e espanto as palavras da sudanesa, que apesar de esbelta e delicada revela grande competência em fazer o pesado veículo correr pela estrada totalmente escura. “Em que sentido? Aliás, no avião em que vim não havia nenhum outro israelense.”

“Isto é algo que ele não poderia saber de antemão”, sorri a motorista, cuja cabeça aprumada ameaça bater no teto do veículo.

A visitante anui com um movimento da cabeça e não acrescenta mais nada. Para dizer a verdade, ela veio de tão longe não só para voltar a ligar-se à dor e à memória, mas também para entender o que se passa atualmente com o cunhado. Eis que uma enviada como essa poderia depositar em suas mãos um primeiro fio da meada. Ela desenrosca a tampa da garrafa térmica, se serve com cuidado de um chá quente e o oferece à enfermeira, mas esta torna a esclarecer em seu inglês correto, é tudo seu, senhora Yaári, já comi e bebi a minha parte, e agora é melhor eu me concentrar na direção, porque os caminhos por aqui às vezes enganam.

O chá, doce e quente, faz bem à alma de Daniela, e ela serve para si mais um copo, e depois um terceiro. Em seguida ela começa a morder delicadamente o sanduíche que cheira tão bem, e quando a última migalha é engolida com grande prazer ela recebe da sudanesa licença — e até estímulo — para reforçar o gosto bom que restou em sua boca com o aroma agradável de um cigarro, o último dos cinco ou seis que costuma fumar todos os dias. Só então, enquanto a pequena brasa do cigarro rebrilha na escuridão, ela se volta para Sijin Kuang e inicia o interrogatório de modo educado e cuidadoso.

19

A caminho de casa, em meio à chuva e ao vento, com o rosto esmaecido pelo cansaço do dia, o pai telefona para o filho a fim de ouvir o diagnóstico da técnica sobre os ventos na torre. E afinal quem é essa especialista que Gottlieb cobre de elogios?



Morán parece alegre, entusiasmado.

“Não, o Gottlieb não exagerou. Você perdeu o encontro com uma feiticeira, uma acrobata, uma figura de circo.”

“Afinal quantos anos ela tem?”

“É difícil ter certeza. Ela parece uma criança, à primeira vista você lhe daria vinte, mas quando me despedi tive a impressão de que ela tem mais de quarenta. Cara de menino, olhos enormes, rápida e imprevisível. Trabalhou durante anos na oficina regional de Kfar Blum, no norte...”

“Que importância tem tudo isso?”, pergunta Yaári, cansado da conversa, “e qual a conclusão sobre os ventos?”

“Espere um pouco, me ouça, ela tem uma audição espantosa. Primeiro, imagine que assim que começamos a subir no elevador central ela percebeu que trocamos o burrinho original do eixo por um de outro tipo. Você se lembra?”

“Morán, eu não me lembro de nada. Acordei às três da manhã, acendi as velas na casa do seu avô, estou moído e com a cabeça oca. Me conte logo o final da história. Por onde entram os ventos?”

“Ela afirma que o poço está rachado e furado em mais de um lugar, e é isso que produz o efeito sonoro, como os furos numa flauta ou clarinete. Ela propõe que a gente vá às três da manhã para imobilizar os elevadores, e que façamos uma viagem no teto de um deles para localizar com precisão esses furos.”

“Deixe isso para lá. Flauta ou clarinete, o que isso tem a ver conosco? O problema, como eu tinha pensado, está ligado ao poço, então a responsabilidade não é nossa. Temos de dizer aos moradores que reclamem com a empresa de construção.”

“Não tenho certeza de que você esteja inteiramente certo, papai. Apesar de tudo era nossa obrigação, e do Gottlieb também, verificar com cuidado o poço antes da montagem.”

“Morán, ouça bem. O poço não é responsabilidade nossa. Ponto final. E podem surgir furos e rachaduras mesmo depois da montagem.”

“Segundo ela, a julgar pelos sons, são defeitos antigos.”

“Segundo ela... ela diz... meu filho, fique calmo. Essa tampinha ainda não foi nomeada Deus por aqui. Mas tudo bem, amanhã conversaremos no escritório.”

“E a mamãe? Já tem notícias dela?”

“Pelas minhas contas ela ainda está no ar, mas talvez eu esteja errado.”

20

Ele está errado. É surpreendente que do conhecimento de um homem prático como esse tenha desaparecido o dado de que a África Oriental está adiantada uma hora em relação a Israel, de modo que a viajante amada não está mais no ar, e sim em terra, num caminho montanhoso escuro e desértico, seu destino depositado nas mãos hábeis da inteligente motorista, que ela agora submete a um breve interrogatório.



Durante a sangrenta guerra civil no sul do Sudão, muitos de seus parentes e outros membros da tribo foram assassinados porque a pele deles era mais preta que a dos assassinos. Mas Sijin Kuang sobreviveu, a única de toda a sua extensa família. Salvou-a um observador da onu, um norueguês alto como ela, que cuidou de sua estadia e educação no país de origem dele, na condição de que, depois de terminar os estudos de enfermagem, ela voltasse para trabalhar num hospital de campanha na fronteira Sudão-Quênia, onde cuidaria dos feridos de sua tribo. Mas o hospital não foi construído, e enquanto ela errava por Nairóbi à procura de uma outra ocupação, ficou sabendo que a onu, através da unesco, iria financiar uma expedição de escavações antropológicas, composta somente de cientistas africanos, cujo objetivo seria descobrir, por meio de um método de pesquisa próprio, a verdadeira natureza do elo entre o macaco e o homem. Ela se dirigiu ao chefe da expedição, um tanzanês chamado Seloheh Abu, e se ofereceu para trabalhar como enfermeira.

“Você é obviamente cristã”, diz Daniela, impressionada com a personalidade e a história de vida da mulher. Mas Sijin Kuang não é cristã nem muçulmana, e sim animista, como dizem os adeptos, ou mushirikón, segundo os adversários, e, num linguajar mais científico, simplesmente pagã.

“Pagã?”, alvoroça-se Daniela, tão intimamente próxima, neste momento, e na escuridão, de uma idólatra. “É verdade? Em que sentido? Que interessante... Porque entre nós, pagãos só existem nas lendas...”

E a sudanesa, com um sorriso um tanto embaraçado, explica muito resumidamente os antiquíssimos princípios da fé de sua tribo.

“Espíritos?”

“Também. Espíritos sagrados das árvores e das pedras.”

“E uma crença desse tipo”, interessa-se Daniela com muito cuidado, “não conflita com a racionalidade científica dos seus estudos?”

“Nenhuma crença atrapalha cuidar de doentes”, sentencia a sudanesa, “e o animismo menos que as outras, porque cada um pode chegar aos espíritos por si mesmo e conforme o seu entendimento, sem papa nem aiatolá que o façam por ele.”

“Que maravilha...”

E agora Daniela se espanta com o fato de um homem branco como seu cunhado ter sido aceito numa expedição científica composta somente por africanos, apesar de ele não ser nem cientista nem médico, e ainda mais sendo cidadão de um país não muito apreciado de um modo geral, mas a sudanesa tem uma explicação bem simples. Para evitar conflitos em assuntos delicados entre africanos que se reuniram na expedição vindos de todo o continente negro, decidiu-se que a administração financeira e a fiscalização das despesas seriam entregues a um homem branco, estrangeiro mas com experiência, e que conhecesse a região e sua cultura. E quando um aposentado branco e viúvo, ex-diplomata na África, lhes ofereceu sua experiência com finanças e administração, os componentes da expedição viram nele um homem competente e objetivo, vacinado contra tentações estranhas.

“Tentações? Em que sentido?”

“Tentações que o impedissem de administrar as contas com honestidade e precisão. Mas dentro em pouco ele vai lhe explicar por si mesmo.”

Um vento quente de verão sopra através da janela aberta do automóvel, perfumado com os odores da densa vegetação. Trata-se de uma região montanhosa, e o veículo sobe e desce entre colinas não muito altas circundando o monte Morogoro, que se mostra e se oculta alternadamente. A lua, que a acompanhou durante o voo, desaparece por trás das nuvens, mas sua luz fora absorvida pelo capinzal suculento que beija a beira da estrada. Pouco antes, seguindo os dizeres de uma pequena placa, a motorista abandonou a estrada asfaltada e tomou um caminho de terra estreito mas bem pavimentado e livre de armadilhas, de modo que o poderoso motor não teve dificuldade em manter o ritmo de seus batimentos. Mas Daniela agora se vê um pouco apertada. O enorme sanduíche que devorou e a grande quantidade de chá que sorveu estão a exigir um alívio. Se soubesse de antemão, não teria se apressado em recusar com tanta insensatez a sugestão de usar o banheiro do aeroporto. Mas ela não tem alternativa. Pede à motorista-enfermeira que pare o veículo num lugar confortável e bom para ambas, e verifica antes de mais nada se ali há papel adequado, para que ela não tenha que abrir sua maleta.

“A senhora terá que abrir a maleta”, Sijin Kuang ri e freia o veículo.

Ela adverte a viajante para não tentar encontrar um lugar escondido entre a vegetação, porque ali ela poderá despertar o interesse de algum animalzinho. A senhora poderia simplesmente ficar na estrada, já deu para ver que aqui não há movimento, e mesmo que por acaso passe algum carro, ninguém vai ligar.

Mas Daniela não se sente à vontade em se expor à luz da lua nem mesmo para uma enfermeira diplomada, que nesse meio-tempo desligou o motor e saiu para alongar os músculos e acender uma espécie de cachimbo comprido, fino e preto, parecido com ela. Por isso ela se afasta até depois de uma curva, e mesmo ali, apesar da advertência, ela hesita em abaixar-se sobre a estradinha, e por isso abre uma brecha de alguns passos no matagal.

Aos pés de uma árvore africana de galhos sussurrantes ela abaixa suas calças muito comovida. Uma professora veterana inteiramente ajuizada, esposa, mãe de longa data e avó, vê-se acompanhada pela lembrança de um infeliz incidente de infância, um dia em que, numa festa familiar às margens do rio Yarkon, emocionada pelo amor de tios grandes e primos pequenos, perdeu de súbito o controle e suas calcinhas molhadas ameaçaram destruir-lhe o mundo feliz. Mas nem o pai nem a mãe perceberam sua aflição, apenas a irmã mais velha, que se apressou em proteger a menininha chorosa da vista alheia e levá-la, sem despertar suspeitas, até a beira do rio, até um aglomerado de moitas semelhantes a estas sobre as quais ela está abaixada agora, e com doces palavras enxugou sua vergonha, tranquilizou-a e consolou-a até que ela voltou a sorrir.

E agora, com as calças arriadas, à luz de uma lua invisível, cujo movimento no céu cobre as moitas ao redor de manchas claras e escuras, livre do domínio amoroso do marido, que jamais imaginaria onde foi parar a flecha disparada aquela manhã no aeroporto de Israel, ela se entrega à agonia de perder a amada irmã, que sempre soube consolá-la, embora não soubesse consolar a si mesma. E ela se demora em seu acocoramento, sorvendo com êxtase o luto que a inunda, e muito devagar vai se consolando, endireita-se, alinha suas vestes, mas não abandona o lugar enquanto não apanha algumas pedras para esconder o que ali deixou.

O silêncio é profundo. Na volta à estrada de terra a israelense perde por instantes a localização do carro onde estão sua maleta e seus documentos, mas não perde a cabeça, e põe-se a chamar em voz alta a enfermeira pelo nome completo, Sijin Kuang! Sijin Kuang! Sijin Kuang!, repete ela por três vezes o nome da idólatra espigada. E a animista, que nesse momento possivelmente estaria pedindo a bênção dos espíritos das árvores e das pedras à sua volta para a continuação bem-sucedida da viagem, acende os faróis e toca a buzina, sinalizando o local para a mulher branca.

21

À tardinha, Yaári recolhe o jornal jogado de madrugada na soleira da porta e acende a luz na residência limpa e varrida. Com um olhar curioso e divertido busca as inovações ali introduzidas enquanto se ausentou. Pois a empregada deles, que Daniela respeita e até admira, tem liberdade para administrar a casa conforme seu próprio julgamento, e trata-se de uma liberdade realmente grande, já que além de limpar e cozinhar ela também impõe, por caprichos pessoais, novas arrumações dos móveis e das roupas. Assim, acontece de os donos da casa, ao voltarem no fim do dia, descobrirem que certa poltrona mudou de lugar na sala, camisas e roupas de baixo e meias migraram de suas gavetas nos armários para outras gavetas, estrangeiras, e certo vaso de planta, que há muito habitava a varanda, surgiu repentinamente como ornamento no centro da mesa de jantar. Ocorre de eles aceitarem agradecidos a mudança sugerida, e ocorre de rejeitarem-na e voltarem à ordem antiga, mas devido ao prestígio da empregada nunca ocorre de lhe chamarem a atenção.



Hoje não há alteração alguma na casa. Só no candelabro de Hanukah, de que foram retirados os restos de cera da véspera, a empregada espetou antes de sair duas velas novas e uma para servir de auxiliar, a serem acesas à noitinha. Mas Yaári nem pensa em voltar a abençoar sozinho qualquer fogo adicional, e se limita a pôr nele uma vela a mais, para o dia seguinte, movendo o candelabro para o canto do aparador.

As porções de comida que aguardam sobre o mármore da cozinha, ainda quentes, deixam claro que a empregada não assimilou o fato de que nesta semana haverá no máximo uma pessoa em casa para comer. Enquanto belisca com o garfo de tigela em tigela, ele passeia entre os canais da televisão para ter certeza de que nenhum avião se espatifou hoje. O cunhado bem que o avisou de que o contato entre o acampamento de retaguarda da expedição e o grande mundo é feito através de Dar es Salaam, mas Yaári não deixou por menos — essa pode ser a realidade, mas como eu estou lhe enviando uma mulher que há muitos anos não viaja pelo mundo sozinha, e que depois da morte da irmã se tornou ainda mais distraída e sonhadora, exijo receber uma prova de vida em vinte e quatro horas, se não pela voz dela, então pela sua, e se não por sua voz, então pelo menos através do e-mail.

22

Só à meia-noite elas chegam ao acampamento de retaguarda da expedição científica, localizado numa fazenda colonial construída no início do século anterior. Depois da independência do país a fazenda foi confiscada de seus donos europeus e transformada em campo de aperfeiçoamento para oficiais do Exército e funcionários públicos benquistos do regime no poder. Mas os conflitos entre tribos e as violentas trocas de regime político não permitiram que oficiais e funcionários mantivessem a concórdia estatal no interior de um único acampamento, e o lugar foi abandonado e esquecido por vários anos, até que dois antropólogos africanos o descobriram e levaram à unesco o pedido de que a instituição os ajudasse a restaurar a fazenda para fazer dela um centro de apoio a serviço de uma nova expedição.



Agora, ao som do gerador em funcionamento, a fazenda parece escura, e as ruínas coloniais desenham imagens um tanto fantasmagóricas. Mas no primeiro andar a luz está acesa. Ali fica a cozinha, e é lá que ele deve estar esperando pela senhora, diz Sijin Kuang à viajante, que subitamente se sente sem forças para depositar a maletinha no chão. Depois de recolher um pacote do banco traseiro, a sudanesa guia a visitante em direção à luz.

Se a irmã soubesse até onde ela se dispõe a perambular sozinha para entrar em contato com sua memória, certamente ficaria contente e até orgulhosa dela, mas com certeza também ficaria preocupada, como ela própria agora, quanto ao encontro com o viúvo que deixou para trás.

“Ei-lo”, aponta a enfermeira para uma alta silhueta na entrada.

Em vez de correr em direção à cunhada, abraçá-la e ajudá-la com a maleta, Yirmiyáhu permanece na soleira, distante, esperando que as duas mulheres se aproximem dele. E só então ele abraça a cunhada com força, e dá um tapinha no ombro da enfermeira negra que a trouxe.

“O que aconteceu?”, pergunta ele em inglês, “cheguei a pensar que você teria se arrependido e cancelado a viagem na última hora.”

“Por quê? Você queria que eu a tivesse cancelado?”

“Não, eu não queria nada.”

Ele teima em continuar falando inglês, em respeito a Sijin Kuang, que permanece imóvel qual estátua a seu lado, ainda segurando o pacote nos braços como quem vai fazer uma oferenda.

E como se enterneceu pela cunhada, que veio sozinha de tão longe para vê-lo, ele a abraça novamente, e toma de sua mão a alça da maleta. E Daniela sente que o corpo dele ganhou um cheiro novo, um cheiro acre.

“A água já está quente”, diz ele, ainda aferrado ao inglês, que em seus lábios soa um pouco estranho, “mas se você quiser tomar um chá antes de dormir podemos passar antes pela cozinha.”

Os três entram num grande salão onde há uma enorme geladeira e fornos e fogões, e também algo que se parece com um antigo aquecedor para água de banho. As grandes panelas e frigideiras, conchas e colheres, raladores e facas, atestam que aqui se cozinha generosamente para muitas pessoas. Num dos cantos se eleva uma pilha de lenha grossa, e sobre as mesas estão espalhadas dezenas de caixas plásticas vazias. E enquanto a visitante observa espantada o ambiente, o anfitrião liberta a enfermeira sudanesa do pacote que ela carrega nos braços, agradece por seus préstimos e se despede dela com votos de boa-noite.

“Pedi a ela que comprasse roupas de cama novas, para que você se sinta tranquila e segura em sua cama.”

Daniela enrubesce. Era o caso de dizer “Por quê? Não precisava”, mas não lhe é possível negar a sensibilidade demonstrada por Yirmiyáhu. Ele sabe muito bem que, assim como a irmã, num alojamento pouco conhecido ela necessita de uma cama absolutamente pura.

Ele põe uma chaleira para ferver, e ela o observa. Seus cabelos brancos, dos quais ela se lembrava do encontro anterior, caíram, e o crânio já idoso, exposto no estilo dos jovens de cabeça raspada, lhe infunde um ligeiro temor.

“Eu lhe trouxe muitos jornais de Israel.”

“Jornais?”

“E também revistas, e suplementos. A aeromoça recolheu no avião e socou tudo dentro de uma sacola, você vai decidir o que lhe interessa.”

Um sorriso irônico perpassa-lhe o rosto. Em seus olhos brota uma centelha diferente.

“Onde estão?”

Apesar do cansaço, ela se ajoelha até a maleta e lhe estende a gorda sacola. Por um momento ele parece hesitar em tocá-la, como se ela estivesse lhe entregando um inseto nojento. Depois ele a pega e se aproxima rapidamente do aquecedor de água, abre a portinhola que expõe uma chama azulada e sem hesitação alguma empurra para dentro a sacola inteira, apressando-se a fechar a pequena porta.

“Um momento”, escapa dela um pequeno grito, “um momento...”

“Esse é o lugar natural para eles, ao menos a meu ver”, ele oferece à visitante um sorriso lúgubre, mas também de certa satisfação.

O rosto dela empalidece um pouco. Mas, como sempre, mantém seu sangue-frio.

“Talvez esse seja o lugar natural deles para você, mas teria sido melhor me avisar antes de queimá-los.”

“Por quê?”

“Porque havia lá um batom que comprei no aeroporto para a minha empregada.”

“Tarde demais”, diz ele em voz baixa, sem arrependimento, “esse fogo é forte.”

Agora ela o examina com raiva, ofendida. Ele sempre saltava, na casa dos pais dela, sobre qualquer jornal velho. Mas ele lhe devolve um olhar afetuoso.

“Não fique zangada, afinal são só jornais, sempre terminam indo para o lixo. Eu só os joguei ao fogo em vez de no lixo. E você pode indenizar sua empregada com um outro presente. Espero que não tenha me trazido nenhuma outra coisa desse tipo.”

“Nada”, ela se encolhe, “era só isso. Nada mais... talvez... algo... velas de Hanukah.”

“Velas? Por que velas de Hanukah?”

“Porque a festa é agora, você esqueceu? Pensei que pudéssemos acendê-las juntos esta semana. Assim, à toa... gosto muito dessa festa.”

“Agora é Hanukah? Eu realmente não sabia. Há muito tempo me desliguei do calendário judaico. Qual vela é a desta noite?”

“Se a festa começou ontem, então hoje é a segunda vela.”

“Segunda vela?” Ele parecia divertido pela ideia de a cunhada ter pensado que seria bom trazer velas de Hanukah para a África. “Onde estão? Deixe-me ver...”

Por um momento ela hesita, mas tira a caixa de velas e a estende para o cunhado, na estranha esperança de que talvez ele concorde em acendê-las aqui, no meio da noite, para acalmar a repentina saudade que ela sente do marido e dos filhos. Mas ele, com o mesmo movimento rápido, quase insano, volta a abrir a portinhola e faz a caixinha ir juntar-se aos agora fumegantes jornais de Israel.

“O que há com você?”, ela se levanta, zangada, mas ainda conservando a tranquilidade interior, como se estivesse diante de um aluno que acaba de cometer uma transgressão.

“Nada, não. Não fique zangada, Daniela, mas eu decidi há bastante tempo tirar umas férias de tudo isso.”

“De tudo o quê?”

“Dessa lambança judaica... israelense... Por favor, não vá estragar meu sossego. Afinal você veio apenas para ficar de luto.”

“Estragar em que sentido?”, diz ela de modo contido, sem raiva, e em seu íntimo sente piedade por esse homem grandalhão com o crânio exposto, vermelho e liso.

“Você ainda vai entender o que quero dizer. Eu quero paz, não quero saber de nada, quero ficar distante, não quero saber nem o nome do primeiro-ministro.”

“Mas você sabe.”

“Não sei, e não me diga. Não quero saber, exatamente como você não sabe o nome do primeiro-ministro aqui, na Tanzânia, ou na China. Deixe-me fora de tudo isso. E, pensando melhor, quem sabe teria sido melhor se eu tivesse insistido em que o Amótz viesse com você. Tenho medo de que você fique entediada aqui, numa visita tão longa.”

Agora, pela primeira vez, ela se sente ofendida.

“Não vou me entediar. Não se preocupe comigo. E a visita não é longa, e se para você for difícil ficar comigo aqui, posso encurtá-la e voltar mais cedo. Faça o que você tem de fazer. Eu inclusive trouxe um livro, e esse você não vai jogar no fogo de modo algum.”

“Se o livro é seu, não vou nem tocar nele.”

“A enfermeira que você mandou me buscar já havia me prevenido... Aliás, ela realmente ainda é pagã?”

“Por que ainda?”

“Quer dizer, ela acredita em espíritos?”

“E qual o problema?”

“Nenhum problema. É uma jovem muito impressionante... uma figura nobre...”

“Você não tem como lembrar, porque não era nascida ainda. Mas antes da criação do Estado havia nas esquinas de Jerusalém sudaneses como ela, usando essas batas, muito altos e muito negros, que torravam sobre pequenos fogões amendoins maravilhosos, saborosíssimos, e os vendiam em cones feitos de papel-jornal. Mas você ainda não era nascida.”

“Não era nascida...”

“Toda a família dela foi assassinada na guerra civil no sul do Sudão, e ela cresceu e se tornou uma mulher muito terna e humana.”

“É verdade. Ela disse que você não foi me receber porque temia encontrar israelenses. Por que haveria israelenses no avião?”

“Em cada avião voando de um lugar a outro no mundo há sempre pelo menos um israelense.”

“Mas não no avião que me trouxe para cá.”

“Você tem certeza?”

“Tenho.”


“E judeus?”

“Judeus?”

“É, não havia algum judeu no avião?”

“Como vou saber?”

“Então imagine que com este eu também não queria encontrar.”

“A coisa está assim?”

“Sim, a coisa está assim.”

“Por quê? Você tem raiva de...”

“Não, não tenho raiva nenhuma. Apenas quero sossego. Estou com setenta anos, já tenho o direito de me desligar um pouco e, se não existe o desligamento definitivo, que seja um desligamento temporário ou, digamos, uma distância. Simplesmente uma distância por algum tempo entre mim e meu povo, judeus de um modo geral e israelenses em particular.”

“E de mim também?”

“De você?” Ele examina a cunhada com afeição, verte a água fervente em seu copo de chá e aproxima um fósforo aceso do definitivamente último cigarro que ela havia espetado na boca. “De você eu não tenho como. Você vai ser sempre a minha irmãzinha, como eu lhe disse quando você tinha dez anos. E se você veio até a África para entrar em contato com a memória da Shúli e fazer o luto por ela junto comigo, você tem total direito a isso, porque ninguém sabe melhor que eu o quanto você a amava e o quanto ela amava você. Mas é isso. Estou avisando de antemão: ficar de luto, tudo bem, mas sem lições de moral.”



Baixar 349.89 Kb.

Compartilhe com seus amigos:
  1   2   3   4   5   6   7




©psicod.org 2020
enviar mensagem

    Página principal
Universidade federal
Prefeitura municipal
santa catarina
processo seletivo
concurso público
conselho nacional
reunião ordinária
prefeitura municipal
universidade federal
ensino superior
ensino fundamental
ensino médio
Processo seletivo
minas gerais
Conselho nacional
terapia intensiva
Curriculum vitae
oficial prefeitura
Boletim oficial
seletivo simplificado
Concurso público
Universidade estadual
educaçÃo infantil
saúde mental
direitos humanos
Centro universitário
Poder judiciário
educaçÃo física
saúde conselho
assistência social
santa maria
Excelentíssimo senhor
Conselho regional
Atividade estruturada
ciências humanas
políticas públicas
outras providências
catarina prefeitura
ensino aprendizagem
secretaria municipal
Dispõe sobre
Conselho municipal
recursos humanos
Colégio estadual
consentimento livre
ResoluçÃo consepe
psicologia programa
ministério público
língua portuguesa
público federal
Corte interamericana