Palestra: Educação para a cidadania



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Palestra: Educação para a cidadania
Rubem Alves
Me dá grande alegria estar com vocês. Eu quero começar fazendo um pedido bem simples. Todo mundo que está com caderno e caneta para tomar nota, guarde a caneta e guarde os cadernos. Eu vou explicar a vocês por que. Eu já tomei muita nota de conferências e nunca consultei as minhas notas e sei que vocês também não vão consultar as notas de vocês e, na verdade, tomar nota prejudica, não é? Eu tenho impressão que essa questão de tomar nota é uma espécie de tique nervoso que assola os professores. Eles têm a obrigação de tomar nota para dizer que estão levando a sério, mas isso é não levar a sério, por que a gente, quando está envolvido numa conversa afetuosa, é até indelicadeza tomar nota, não é? Eu brinco sempre: não se toma nota quando se está fazendo amor. E toda a experiência de conversa, na realidade, é uma experiência de fazer amor. Um dos educadores que eu mais amo é o Roland Barthes. Roland Barthes era um homem de uma delicadeza... todos os estudantes junto com o Roland Barthes se sentiam inteligentes porque ele tinha a capacidade de transformar qualquer coisa que o aluno falasse numa coisa bonita, ele tinha capacidade de extrair a beleza das coisas que os alunos falavam. E ele tem um texto chamado “A Aula” – é uma aula inaugural que ele deu, quando ele estava sendo inaugurado como professor de semiologia no Collège de France. E, ao final do seu texto, ele já estava se sentindo velho...
Deixa eu só fazer uma observação psicanalítica sobre os celulares. Sabe que psicanalista é um ser perverso, que fica dando interpretação para todas as coisas, não é? Diz que havia uma querela entre Freud e um discípulo dele chamado Ferenczi, porque Freud fumava um charuto e então o Ferenczi ficava fazendo interpretações fálicas do charuto que o Freud tinha na boca. Mania de psicanalista. Eu fiquei, então, pensando sobre o sentido psicanalítico dos telefones celulares e a interpretação que eu tive foi a seguinte: quando eu era menino, a diversão da gente era ir à matinê de domingo, assistir bang-bang. E a coisa que a gente mais desejava era ter um revolvão e sair para a rua com o revólver na cintura assustando todo mundo e dando tiro. Era a fantasia infantil da gente. Claro que a gente nunca teve revólver nem saiu dando tiro, nunca realizamos então esse sonho infantil. Mas agora, graças aos telefones celulares, os homens saem com seus coldres e os seus revólveres. Então eles chegam no restaurante e – pum! – põem o revólver na mesa, por que pode ser que, a qualquer momento, sejam chamados, é aquela idéia de alguma coisa urgente, eu sou super, super-herói, eu tenho de agir, eu tenho de agir imediatamente, eu tenho de estar em contato com o mundo, eu sou muito importante, muito importante – de modo que eu não posso estar nem um segundo longe do contato com o mundo. Aprenda uma coisa: nós não temos a menor importância. O mundo vai continuar do mesmo jeito, sabe? Então, guardem os celulares para serem um pouquinho mais humildes, para poderem estar mais presentes, porque uma pessoa com celular ligado nunca está presente, ela está sempre à espera de uma chamada. Isso é ruim, não é?
Bom, eu estava falando sobre o Roland Barthes, e ele estava se sentindo velho, mas ele era bem mais moço do que eu, devia ter, eu acho, uns 55 anos. E ao final da aula, ele disse uma coisa muito interessante: que a vida de um professor se divide em três fases. (Na verdade, ele falou vida de um professor por modéstia, era a vida dele que se dividia em três fases.) Na primeira fase, ele disse, a gente ensina o que sabe. E é verdade, a gente ensina o que sabe, a gente ensina a criança a dar nó no sapato, a andar de bicicleta, a somar, dividir, a escrever, a gente ensina as coisas que sabe. Esse “ensinar as coisas que sabe” é um ato de transmitir as receitas de como viver que a gente aprendeu. Parte dos nossos saberes são receitas, como receita culinária do livro da Dona Benta.
Então ele diz: mas a gente vive um pouco mais e começa a ensinar as coisas que a gente não sabe. Aí as pessoas perguntam: mas como é que a gente pode ensinar aquilo que a gente não sabe? Imagine que a minha filha me pergunte: pai, onde é que fica a Rua Sampainho? Sampainho é uma rua lá em Campinas. Então eu digo a ela: não sei onde fica a Rua Sampainho, mas na lista telefônica tem uma série de mapas, você procura o nome da rua, na lista dos endereços, e lá tem indicação do mapa e você vai achar.
Eu não sei onde é a Rua Sampainho mas, apesar de não saber, ensinei minha filha a achar a Rua Sampainho. Essa é uma das coisas mais lindas sobre a vida de um professor. Não é aquele professor que sabe o programa, isso é banal. Os programas estão em livros, os professores que sabem o programa vão desaparecer: eles serão substituídos por disquetes, programas e livros. Mas ensinar a encontrar é a coisa mais importante: isso tem o nome de “fazer pesquisa”... é isso que a gente faz, não é? Quando a gente está ensinando a fazer pesquisa, está ensinando a coisa que a gente mesmo não sabe. O orientador da pesquisa é aquele que não sabe nada, quem sabe é o aluno, o aluno vai lá, visita a coisa, vem e conta para o professor e o professor aprende. Na situação de pesquisa, o orientador se torna aluno do aluno que faz a pesquisa.
Então ele diz o seguinte: chegou agora, finalmente, o momento supremo da minha vida, eu me entrego à maior de todas as forças da vida viva. Eu me entrego ao poder do esquecimento, procuro esquecer, desaprender tudo o que eu aprendi. Vejam que coisa curiosa, dizer que ele, professor, de semiologia, estava se dedicando a desaprender tudo. Parece o contrário do ideal de aprendizagem, de educação, de que a gente vai cada vez saber mais. Ele está dizendo que queria saber menos, saber menos.
Um amigo meu, nos Estados Unidos, comprou uma casa muito velha, uma casa de mais de cem anos. E ele teve curiosidade de saber como era a cor da casa, a primeira cor da casa, no tempo do seu primeiro morador. Então, começou a tirar as demãos de tinta, pois ela tinha sido pintada com várias demãos de tinta. Ele raspou uma demão de tinta, aparecia outra cor, raspou outra demão de tinta, aparecia outra cor, raspou outras demãos... E foi raspando, raspando, até que, finalmente, ele raspou a última demão de tinta... e teve uma surpresa muito grande, porque o que estava lá no fundo, que ele não podia suspeitar, era que a casa tinha sido construída com pinho-de-riga. O pinho-de-riga é um pinho maravilhoso, cor de marfim, com estrias marrons. São lindos os pinhos-de-riga. O que aconteceu com o pinho-de-riga? Ele foi sendo sucessivamente pintado e desapareceu, foi esquecido. Foi preciso raspar para que fosse lembrado. Essa é uma metáfora para nós: é isso que acontece com a gente através da vida. A gente nasce pinho-de-riga, criança. Aí os adultos começam a falar e, à medida que vamos falando – e é inevitável que a gente fale – a criança vai sendo pintada com demãos de educação. Fala a mãe o que é certo, fala o pai o que é certo, fala o padre o que é certo, fala o pastor o que é certo, fala todo mundo, fala a televisão – e vai pintando, e vai pintando, e vai pintando, até que chega um momento em que a gente não sabe mais quem a gente é.
Vejam então que é necessário que a gente esqueça, que a gente raspe o que aprendeu, é necessário que a gente se esqueça do que aprendeu, para a gente se lembrar de uma coisa de que a gente se esqueceu.
É essa a pedagogia da psicanálise, a arte que eu tento praticar. Na psicanálise, a gente está sempre em busca de um pinho-de-riga que foi esquecido, que às vezes aparece sob a forma de lapsos, sob a forma de sonhos, sob a forma de arte, esse pinho-de-riga maravilhoso que está escondido lá debaixo.
Aí o Barthes foi raspando e finalmente chegou, segundo ele, àquilo que ele achava essencial, àquilo que estava por debaixo, soterrado pela educação. Então ele disse que aquilo que havia encontrado, ele ia dizer “na encruzilhada da etimologia” e usou a palavra latina sapientia. Sapientia quer dizer sabedoria. E o francês tem uma palavra para sabedoria, que é sagesse. Mas o Barthes não quis falar sagesse, ele quis falar sapientia. Por que ele quis falar sapientia? Porque a palavra sapientia, em latim, quer dizer saber “saboroso”. Sapio, em latim, quer dizer “eu degusto”. Então, o Barthes, depois de velho, compreendeu que a coisa maravilhosa na vida não é conhecer com os olhos, como acontece com a ciência, mas é conhecer com a boca. A vida é para ser degustada, a vida é para ser experimentada sob a forma de prazer.
E então o Barthes começou a falar sobre umas coisas interessantes... o prazer do texto, escrever como quem cozinha. Foi essa então... a importância do Barthes para mim, ele deu respeitabilidade acadêmica a algumas coisas que eu estava sentindo, que eu estava fazendo, mas não tinha coragem de dizer, porque eu era um professorzinho aqui do Brasil, mas quando o francês fala, então está tudo justificado... Escrever um texto para ser degustado.
Então, isso aconteceu comigo e, na medida em que eu fui entrando para essa linha, para essa experiência de sapientia, algumas coisas vieram à minha cabeça, fizeram parte da minha experiência, e eu aprendi algumas coisas que não sabia. Por exemplo: o Barthes disse que ele queria desaprender o que tinha aprendido. Eu desaprendi: eu desaprendi completamente o jeito acadêmico de falar. Eu não consigo mais falar academicamente. Eu comecei a falar por meio de imagens, as imagens vêm à minha cabeça e as imagens são deliciosas, e quando a gente usa uma imagem boa, a imagem é absolutamente inesquecível. As imagens têm o poder de transformar as pessoas. Nós estamos falando em transformação social, a transformação social não se consegue através da ciência, a transformação social se consegue através da sapientia.
Eu vou dar um exemplo para vocês - um exemplo que citei numa carta que escrevi ao Roberto Marinho. Não sei se vocês se lembram de um comercial que havia lá na Rede Globo, um comercial lindíssimo – o comercial era assim: florestas de pinheiros - sem uma palavra, sem uma palavra! - florestas de pinheiros... Quando eu vejo a floresta de pinheiros, eu já sinto o cheiro do pinheiro. Riachos cristalinos... Aí eu já sinto o frio da água, eu estou com o pé dentro do riacho cristalino. Eu vou entrando na cena. Campos floridos, aí a gente já sente o cheiro das flores. Cavalos selvagens... Ah!, os cavalos selvagens são lindos. O Da Vinci dizia que eram os seres animais mais bonitos depois dos seres humanos. Os cavalos simbolizam a liberdade, a força! E o cheiro de cavalo! Não sei se vocês conhecem o cheiro de cavalo. Quando o cavalo fica suado debaixo da sela, entre a sela e o pelo do cavalo, aquele cheiro é um cheiro másculo, eu até pensei uma vez em fazer um perfume masculino extraído do suor de cavalo. Eu tinha até o nome para esse perfume, “Equus”, de eqüino, não havia mulher que fosse capaz de resistir, porque um homem com cheiro de cavalo é uma coisa maravilhosa, não é esses perfuminhos adocicados, aquilo é coisa de homem. Então aquele cavalo, aquela coisa, eu já estou apaixonado, não falar nem uma palavra, mas eu já estou apaixonado, já estou dentro da cena, tomando banho, sentindo pinheiro, andando de cavalo! Aí aparece o rosto másculo de um vaqueiro... fumando um cigarro. “Venha para o mundo de Malboro”. Não há qualquer sugestão grosseira de fumar, que coisa mais brega, fume Malboro, quem falou? “Venha para o mundo de Malboro”. Este é o mundo de Malboro: se você fumar Malboro, vai estar nesse mundo. Corte. Tela azul. “O Ministério da Saúde adverte: fumar...”
Só que não conheço quem tenha parado de fumar Malboro por causa da advertência do Ministério da Saúde, mas me dá uma vontade danada de fumar Malboro lembrando desse comercial. Que coisa interessante, não é? A advertência do Ministério da Saúde, na linguagem da psicanálise, se encontra ao nível daquilo que é chamado o consciente, aquelas idéias claras e distintas: fumar produz câncer. Mas o outro não diz nada, não diz nada, são imagens. Numa você tem a verdade, na outra você tem a beleza. E nós somos seduzidos pela beleza. Então, essa é uma coisa que eu aprendi, que se a gente quer transformar as pessoas, é preciso que a gente aprenda a usar a beleza, porque as pessoas são transformadas, não pela verdade, mas são seduzidas pela beleza. E eu aprendi também uma outra coisa, que quando a gente está tentando transformar as pessoas, as verdades são inúteis. O poeta Walt Whitman falava que os argumentos não convencem, mas o silêncio da noite estrelada fala mais alto. Então, se a gente fala beleza, a gente seduz e é capaz de transformar as pessoas.
Isso mudou a minha maneira... a questão de comunicação – acho que vocês tiveram um seminário anterior sobre comunicação - então eu me comunico desse jeito, eu preciso de usar as imagens e não é uma decisão consciente, as imagens vêm em cima de mim, elas me atropelam, eu não tenho jeito de fugir delas. E uma outra coisa que eu aprendi, que para mim é muito importante, que tem a ver com a educação, tem a ver com a vida, é que a parte da sabedoria... Vocês vejam que coisa interessante, sabedoria é o que? Eu saboreio”... É conhecer com a boca. Vocês sabem, as crianças, os nenezinhos, ao mamar, eles conhecem o essencial com aboca, eles não conhecem nem com o ouvido, nem com os olhos, porque os olhos estão fechados, mas eles conhecem com a boca, eles estão com a boquinha no seio da mãe e eles sabem duas verdades essenciais: seio produz leite, sobrevivência; mas seio dá leite, mas é deleite. O seio não é só máquina de dar leite, seio é gostoso, e é por isso que a criança quer mamar mesmo quando o seio não tem mais leite. E quando a mãe recusa o seio à criança, ela quer um substituto para o seio e arranja a chupeta, e é por isso, pelo resto da vida, que o seio é o objeto de amor erótico dos homens porque, embora não tenham o menor interesse em mamar e ter leite, porque é mais fácil comprar um leite A, mas – por que? – porque beijar o seio da mulher amada é uma coisa deliciosa, é um prazer e isso faz parte da vida, então a vida é feita de duas coisas: é preciso sobreviver e é preciso ter prazer. Criança sabe isso, essa essência da sabedoria. Então, eu aprendi o seguinte, que o objetivo da educação não é aquela coisa perversa que se faz – as escolas são máquinas de transformar crianças brincantes em adultos produtivos. Isso é uma coisa horrível, é destruir a capacidade de brincar das crianças e, na minha filosofia de educação, eu digo que o objetivo da educação é permitir que a criança continue a brincar pela vida inteira sem se machucar, porque o objetivo da vida é brincar.
Eu estava olhando para vocês e para todo mundo lá fora, naquela farra da música, aquela felicidade, e a gente pergunta para que a gente vive, a gente vive para aquilo, gente, o objetivo da vida é brinquedo. Eu estou dizendo isso para vocês para dar um resumo de como é que eu estou, como é que eu estou pensando, quando eu chego neste processo de esquecimento, de todas essas coisas.
Vamos entrar direto, agora, no nosso tema. Aliás, já entrei, eu já entrei no nosso tema porque nós estamos falando em transformação social e é preciso que nós tomemos consciência, é preciso que os políticos tomem consciência disso, é preciso que os políticos tomem consciência disso, que o objetivo da política é transformar o mundo num grande parque de diversões. É preciso ter prazer, aliás, em todos os lugares que eu tenho ido e que tem prefeitura envolvida, eu falo para os políticos e para os prefeitos: olha, eu tenho lá na minha clínica, onde eu trabalho, eu mandei fazer um balanço. Balanço é uma felicidade para as crianças. E balanço, lá na minha clínica, é remédio contra a depressão. Porque é impossível que uma pessoa fique deprimida enquanto está balançando. Você pega uma pessoa deprimida, põe no balanço e põe para balançar, daí a pouco ela está rindo, acabou com a depressão, porque é impossível. Então, eu estava dizendo aos prefeitos – e sugiro à prefeitura de Santos – que haja parques de diversão para os adultos e que haja balanços em que as vovós, os vovôs, os velhos, os professores, os catedráticos, os padres, os bispos... Já imaginou que coisa maravilhosa os bispos balançando? Que coisa maravilhosa! Aí então eles estariam acreditando naquilo que Jesus falou: “A não ser que vos transformeis em crianças, não herdareis o reino de Deus”. Isso faz parte da felicidade!
Bem, vocês sabem que os samurais eram uma casta guerreira do Japão, movida por um estrito código de honra. E de vez em quando os samurais eram obrigados a cometer o suicídio ritual, chamado sepuku ou harakiri. Era um suicídio cometido por razões rituais e consistia no seguinte: o guerreiro, recebendo a ordem de cometer sepuku, se vestia com as suas vestes rituais e, com um punhal afiado, abria o ventre devagarzinho. Ao lado dele estava o seu melhor amigo, com uma espada afiadíssima e no momento em que ele terminava de abrir o seu ventre, ele se inclinava para a frente e seu amigo o decapitava, cortava a sua cabeça.

A tradição diz que os guerreiros samurai, quando tinham que cometer o sepuku, escreviam antes o seu último hai-kai. O que é um hai-kai? Hai-kai é um poema mínimo, mínimo. O (Paulo) Leminski dizia que o hai-kai é um objeto mínimo, de peso insuportável, tal a sua densidade. Eu vou dizer um hai-kai para vocês, de Mat-Suo Bashô. Não tem rima, não tem nada:


“Na velha casa
que abandonei,
as cerejeiras florescem”.
Acabou. E vocês dirão: não entendi. Que bom! Não é para ser entendido. Hai-kais são para ser vistos, são fotografias. Você ouve um hai-kai, você vê e você pensa: abandonei a casa, cresceu o mato, caiu a cerca, o jardim ficou selvagem, os vidros quebrados, as janelas podres, arruinadas. Abandono. Mas alguns dias atrás eu passei por lá e as cerejeiras florescem. É um hai-kai que fala sobre e fidelidade: as cerejeiras florescem. Esse é um hai-kai que foi feito no meio da vida, mas um hai-kai que é feito como último hai-kai tem de conter a última palavra, a última palavra, a palavra mais importante. Qual é a última palavra? A palavra mais importante. Espera-se que a última palavra de uma pessoa seja a coisa mais importante, um professor de matemática está morrendo e ele tenta falar alguma coisa, tenta falar e as pessoas vão ouvir a última palavra do professor de matemática e ele, balbuciando, - b, + ou -, raiz quadrada, b dois, - quatro, c sobre 2a. Equação de segundo grau. Nenhum professor seria tolo, por que isso não é essencial, não pode ser a última palavra de ninguém. Então, eu queria dizer para vocês aquilo que, para mim seria quase, seria o meu hai-kai final. Não é hai-kai, porque é um pouco maior do que um hai-kai, mas é um poema mínimo da Cecília Meireles:
“No mistério do sem-fim,
equilibra-se um planeta.
No planeta, um jardim.
No jardim um canteiro.
No canteiro, uma violeta.
E, na violeta, o dia inteiro,
entre o mistério do sem fim e o planeta,
a asa de uma borboleta”.
Esse poema é o resumo da história bíblica da criação. Entre o mistério do sem-fim e o planeta... a história bíblica da criação começa com o sem-fim e Deus vai afunilando as coisas do sem fim, e vai afunilando, afunilando, afunilando... até que chega a um lugar mínimo, onde ele planta um jardim. O universo foi criado por causa de um jardim. Vou repetir isso: o universo foi criado por causa de um jardim. O jardim é o sonho mais alto de Deus.
Um poeta alemão chamado Heine escreveu um poema chamado “A Canção do Criador”, que diz o seguinte: que Deus resolveu criar porque ele estava doente. E eu acho que isso é verdade, a gente sempre cria quando a gente está doente, porque, se a gente não estiver doente, a gente está bem, a gente não quer criar nada. Todas as pessoas que estão bem não querem criar nada. A criação sempre surge de uma certa infelicidade. É um momento em que Deus diz: eu posso estar mais feliz do que deste jeito aqui. Eu acho que ele deve ter ficado com um tédio imenso do céu vazio e infinito, os anjos tocando harpa, ele não agüentava mais aquilo, deixa eu criar mais alguma coisa interessante, e ele sonhou esse sonho: um jardim, que é o sonho mais alto da criação.
E foi nesse jardim que nós fomos colocados. Somos destinados ao jardim, somos destinados a ser jardineiros. O sonho do jardim apareceu entre os hebreus. Sabe por que eles sonharam o jardim? Porque eles eram nômades que moravam no deserto. Deserto é areia, é terra estéril, é escorpião, é cobra, é pedra, é secura, é sede. Quem está no deserto, sonha com jardins porque todo deserto faz com que a gente sonhe com um lugar fresco, de águas e de plantas. O Antoine de Saint-Exupéry fala, no


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