Palavras do papa joão paulo II no início da audiência geral recordando o XIX aniversário da morte do papa paulo VI



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PALAVRAS DO PAPA JOÃO PAULO II NO INÍCIO DA AUDIÊNCIA GERAL RECORDANDO O XIX ANIVERSÁRIO DA MORTE DO PAPA PAULO VI

6 de Agosto de 1997

O pensamento dirige-se, hoje, antes de tudo para o meu venerado Predecessor, o Servo de Deus Paulo VI, no décimo nono aniversário da piedosa morte ocorrida em Castel Gandolfo, no dia 6 de Agosto de 1978, Festa da Transfiguração do Senhor.

Recordamo-lo com afecto e com a admiração de sempre, considerando como foi providencial a missão pastoral por ele exercida, nos anos da celebração do Concílio Vaticano II e da sua primeira aplicação. Viveu totalmente dedicado ao serviço da Igreja, que por ele foi amada com todo o seu vigor e pela qual trabalhou sem cessar, até ao fim da sua existência terrena.

Esta manhã, ao celebrar por ele a Santa Missa na capela do Palácio Apostólico de Castel Gandolfo, pedi ao Senhor que o exemplo de um tão fiel servidor de Cristo e da Igreja sirva de encorajamento e de estímulo para todos nós, chamados pela Providência divina a testemunhar o Evangelho no limiar do novo milénio.

Interceda por nós Maria, Mãe da Igreja, da qual continuamos a falar na catequese hodierna.

PALAVRAS DO PAPA JOÃO PAULO II NO INÍCIO DA CELEBRAÇÃO EUCARÍSTICA PARA RECORDAR O 19° ANIVERSÁRIO DA MORTE DO PAPA PAULO VI

Solenidade da Transfiguração, 6 de Agosto de 1997

Hoje é o aniversário da morte do meu venerado Predecessor, o Servo de Deus Paulo VI, falecido no dia da Festa da Transfiguração do Senhor, 6 de Agosto de 1978.

«Resplandece no seu rosto a gloria do Pai» (Refrão do Salmo responsorial). A hodierna Liturgia convida-nos a contemplar Cristo no evento da Sua gloriosa Transfiguração a fim de que, escutando a Sua palavra, possamos herdar a vida imortal. O inesquecível Pontífice viveu totalmente dedicado à causa do Evangelho. Amou Cristo com todas as forças e viveu pela Igreja, empenhada no fatigoso caminho conciliar. Ofereceu tudo a Deus, em particular nos últimos anos marcados pelos grandes sofrimentos, para que a Igreja fosse renovada pelo vigor do Espírito: «Poderia dizer que sempre a amei (a Igreja) – escrevia na perspectiva do não distante fim – ... que por ela, aliás, me parece ter vivido. Mas, gostaria que a Igreja o soubesse; e que eu tivesse a força de lho dizer, como uma confidência do coração, que somente no extremo momento de vida se tem coragem de fazer» (“Pensieri alla morte”).

Hoje, recolhemos esta confidência com grata veneração. Possa a lembrança deste Pontífice encorajar cada um de nós para um serviço sempre mais generoso à Igreja e ao Evangelho, que ela continua também hoje a anunciar no cumprimento fiel do mandato de Cristo.

MENSAGEM DO PAPA JOÃO PAULO II AO BISPO DE IGLESIAS POR OCASIÃO DO ACAMPAMENTO NACIONAL DOS ESCUTEIROS CATÓLICOS ITALIANOS

Ao Venerado Irmão D. ARRIGO MIGLIO Bispo de Iglesias Assistente Eclesiástico Geral da AGESCI

1. É já iminente o «Acampamento Nacional das Comunidades Chefes» dessa Associação, que terá o seu ápice no grande «campo» nos «Piani di Verteglia », na Província de Avelino, onde se encontrarão cerca de doze mil escuteiros-chefes italianos, para reflectir sobre o tema «Estradas e pensamentos para o amanhã».

Agradeço-Te de coração e aos Responsáveis da AGESCI terdes-me convidado para este importante encontro, que traz à minha mente o encontro jubiloso tido com os «rovers» e as «sentinelas », que participaram no Acampamento Nacional nos «Piani di Pezza», a 9 de Agosto de 1986. Recordando aqueles momentos de grande entusiasmo juvenil e de ardente testemunho evangélico e não podendo, infelizmente, desta vez ir pessoalmente, desejo enviar para a circunstância a Ti e a todos os participantes uma especial mensagem.

2. Caríssimos chefes educadores da AGESCI, saúdo-vos com as palavras a vós familiares e que em tantas ocasiões apresentámos uns aos outros, quando vos encontrei nas minhas visitas às paróquias de Roma ou às dioceses italianas: Boa caminhada!

Dou graças ao Senhor pelo percurso do escutismo por vós realizado e pelo empenho e a constância que hoje demonstrais como educadores: sois colaboradores preciosos para a Igreja e para a inteira sociedade italiana, na missão educadora das crianças, dos adolescentes e dos jovens a vós confiados.

O Acampamento Nacional que estais a viver viu-vos «peregrinos» através das regiões do País, quase numa cadeia ideal que as unia entre si num comum empenho de solidariedade para com as gerações mais jovens. Agora, vê-vos reunidos numa «cidade» feita de tendas, imagem eficaz da condição do povo dos crentes, em caminho rumo «à cidade assentada sobre sólidos fundamentos, cujo arquitecto e construtor é Deus» (Hb 11, 10). Ela representa para cada um de vós e para a vossa inteira Associação uma extraordinária ocasião de estímulo e de verificação, para definirdes sempre melhor os elementos qualificantes da vossa presença e do vosso empenho na Igreja e na sociedade, para orientardes o vosso caminho e o dos jovens a vós confiados, rumo a horizontes de esperança e de renovada confiança na beleza da vida e do serviço, para vos ajudardes reciprocamente a superar as dificuldades que encontrais como educadores, bebendo na rica e já longa tradição do escutismo católico por vós herdada.

3. Pusestes-vos a caminho depois de terdes escutado as múltiplas «chamadas» que vos chegam de várias partes: dos meninos e das suas famílias, dos jovens, da sociedade, das Igrejas particulares em que estais inseridos. São outros tan

tantos desafios que advertis no desempenho dum serviço educativo que exige, em primeiro lugar de vós, um caminho de crescimento espiritual e humano, para serdes testemunhas credíveis dos valores que propondes. Todos estamos bem convictos de que — como disse o meu venerado Predecessor, o Servo de Deus Paulo VI — o mundo hoje tem necessidade mais de testemunhas que de «mestres» (cf. Evangelii nuntiandi , 41): por isso, no vosso Caminho dirigistes o olhar antes de tudo para o único Mestre, Jesus Cristo, escutando quotidianamente a sua Palavra e procurando os reflexos do Seu vulto naqueles que vivem com fidelidade o Seu ensinamento e, portanto, merecem o título de mestres: homens e mulheres que o Senhor nos faz encontrar como testemunhas no nosso caminho. «Cercados por um tão grande número de testemunhas» tende «os olhos fixos» n’Ele, Jesus, o Mestre, para não vos cansardes perdendo o ânimo (cf. Hb 12, 1-3), mas aprendendo d’Ele a reconhecer os verdadeiros mestres e não os falsos, os mestres de vida e não os de morte.

Um educador, um chefe deve continuamente saber discernir, estar vigilante. «Estai preparados!» é o vosso lema. Como uma sentinela, sabei perscrutar o horizonte para discernir de maneira oportuna as fronteiras sempre novas, para as quais o Espírito do Senhor vos chama. Que projecto de homem e de mulher, de casal e de família um educador é chamado a propor? O que significa empenhar-se de maneira concreta por um mundo mais solidário e mais justo? Como viver inserido harmoniosamente numa sociedade complexa e diversificada, sem perder a capacidade evangélica de ser sal da terra e luz do mundo?

Cada vez com mais frequência se dirigem a vós, meninos e jovens provenientes de famílias e âmbitos distantes da vida cristã, ou pertencentes a outras crenças religiosas, atraídos pela beleza e sabedoria do método do escutismo, aberto ao amor pela natureza e pelos valores humanos, impregnado de religiosidade e de fé em Deus, eficaz no educar para a responsabilidade e a liberdade. Trata-se dum desafio importante, que vos pede que concilieis a clareza e a plenitude da proposta de vida evangélica, com a capacidade de diálogo respeitoso da diversidade das culturas e das histórias pessoais, que hoje se entrelaçam também na Itália.

4. Podeis enfrentar estes desafios com confiança e vencê-los, precisamente partindo da experiência da tradição do escutismo católico, o das duas associações que vos precederam, a ASCI e a AGI, e o que a vossa associação, a AGESCI, está a viver há mais de vinte anos. O encontro do escutismo com a fé católica não colocou em segundo plano, antes, valorizou e pôs ainda mais em evidência a beleza e a importância dos valores humanos, que lhe caracterizam o método educativo, rico de consonâncias e de convergências com os valores evangélicos e com os fundamentos duma antropologia respeitosa do projecto de Deus criador e da dignidade e dos direitos fundamentais da pessoa humana.

Caríssimos chefes educadores da AGESCI, deixai-vos guiar por Aquele que é o único verdadeiro Mestre, um Mestre amoroso e exigente. Não tenhais medo de propor todo o Seu ensinamento, árduo mas que jamais decepciona, assim como não tendes medo de pedir aos vossos jovens que enfrentem empresas empenhativas, as que permitem alcançar os cumes dos montes e ?escobrir as fontes da alegria e do sentido da vida.

O vosso fundador, Baden Powell, gostava de indicar os dois grandes livros que deveis sempre saber ler: o livro da natureza e o livro da Palavra de Deus, a Bíblia. Trata-se de uma indicação segura e fecunda. Amando a natureza, vivendo nela e respeitando-a, aprendei a unir a vossa voz às milhares de vozes do bosque que louvam o Senhor; imersos nela continuai a celebrar os vossos momentos de oração e as vossas liturgias, que permanecerão no coração dos jovens como experiências inesquecíveis. Cultivando a vossa tradição de amor e de estudo da Bíblia, encontrareis veredas e estradas sempre novas para uma catequese original e eficaz, inserida no caminho da catequese da Igreja italiana e caracterizada pela riqueza dos símbolos e das ocasiões próprias do escutismo, segundo as preciosas indicações do vosso «Projecto Unitário de Catequese» e da «Vereda de Fé», subsídios que nestes anos predispusestes oportunamente para o caminho formativo dos vossos jovens, pelos quais todos vós, chefes educadores, sois responsáveis.

5. Caríssimos chefes da AGESCI, desejaria de todo o coração estar presente no meio de vós, na maravilhosa moldura natural dos «Piani di Verteglia», mas as circunstâncias não mo consentiram. Desejo encontrar cada um de vós em Paris para o Dia Mundial da Juventude, onde os Escuteiros poderão compartilhar com muitos outros «as estradas e os pensamentos para o amanhã», um amanhã de esperança e de paz, no novo milénio que verá como protagonistas também vós e os jovens a vós confiados.

Acompanhe-vos sempre Maria, Nossa Senhora dos Escuteiros, Aquela que acreditou de modo pleno na Palavra do Senhor e se pôs prontamente em caminho, para oferecer o seu serviço.

Caro Irmão, a Ti bem como a todos os sacerdotes empenhados na AGESCI, e a todos vós, chefes educadores, e aos vossos jovens, envio com afecto uma especial Bênção Apostólica.

Vaticano, 2 de Agosto de 1997.

JOÃO PAULO II

DISCURSO DO PAPA JOÃO PAULO II AOS PARTICIPANTES NO CONGRESSO INTERNACIONAL DE JOVENS CONSAGRADOS

30 de Setembro de 1997

Caríssimos jovens consagrados e consagradas

1. É-me deveras grato encontrar-me convosco, que viestes a Roma de todas as partes do mundo, por ocasião do Congresso Internacional dos Jovens Religiosos e Religiosas. Saúdo o Senhor Cardeal Eduardo Martínez Somalo, Prefeito da Congregação para os Institutos de Vida Consagrada e as Sociedades de Vida Apostólica, e agradeço-lhe as cordiais palavras que há pouco me quis dirigir em nome de todos vós. Saúdo o Rev.do Padre Camilo Maccise e a Rev.da Madre Giuseppina Fragasso, Presidentes respectivamente das Uniões dos Superiores-Gerais e das Superioras-Gerais. Eles promoveram o hodierno encontro, que vê congregados pela primeira vez jovens pertencentes a inumeráveis Famílias religiosas, em um momento significativo da história da Igreja e da vida consagrada. Dirijo a minha saudação aos Superiores-Gerais e às Superioras- Gerais dos vários Institutos aqui representados.

Saúdo especialmente vós, prezados consagrados e consagradas. Alguns de vós se fizeram intérpretes dos sentimentos de todos, manifestando-me as expectativas e as generosas aspirações que animam a vossa juventude consagrada a Deus e à Igreja. A vossa presença tão numerosa e festiva não pode deixar de evocar à memória a imagem, ainda viva na minha mente e querida ao meu coração, do XII Dia Mundial da Juventude , celebrado em Paris no passado mês de Agosto. Assim como aquela multidão entusiasta de jovens, através da consagração a Deus que «alegra a juventude », vós representais a manifestação rica e exaltante da perene vitalidade do espírito. Pode-se dizer que agora os jovens estão de moda: jovens em Paris, jovens no sábado passado, em Bolonha. Vamos ver agora, no Rio de Janeiro.

2. É com prazer que observo um motivo de continuidade entre o evento de Paris e o actual Congresso, felizmente posto em evidência pelas temáticas dos dois encontros. Com efeito, se o tema do Dia Mundial da Juventude era proposto pelas palavras do Evangelho de João: «Mestre, onde moras?». «Vinde ver!» (Jo 1, 38-39), o do vosso Congresso indica o acolhimento do convite dirigido por Jesus aos discípulos, culminado no anúncio pascal da descoberta decisiva do Ressuscitado: «Nós vimos o Senhor» (Jo 20, 25). Vós sois as testemunhas privilegiadas desta formidável verdade, perante o mundo inteiro: o Senhor ressuscitou e torna-Se companheiro de viagem do homem peregrino ao longo das veredas da vida, até que as sendas do tempo se cruzem com a via do Eterno, quando «O veremos como Ele é» (1 Jo 3, 3).

A vida consagrada reveste assim um carisma profético porque se estende entre a experiência do «ter visto o Senhor» e a esperança certa de O ver «como Ele é». Trata-se de um caminho que iniciastes e que vos levará progressivamente a adquirir os mesmos sentimentos de Jesus Cristo (cf. Fl 2, 5). Deixai que o Pai, mediante a acção do Espírito, plasme nos vossos corações e nas vossas mentes o mesmo sentir de seu Filho.

Vós sois chamados a vibrar com a Sua própria paixão pelo Reino, a oferecer como Ele as vossas energias, o tempo, a juventude e a existência pelo Pai e pelos irmãos. Desta forma havereis de aprender uma autêntica sabedoria de vida. Caros jovens, esta sabedoria é o sabor do mistério de Deus e o gosto da intimidade divina, mas é também a beleza do estar juntos em Seu nome, é a experiência de uma vida casta, pobre e obediente, despendida pela Sua glória, é o amor pelos pequeninos e pelos pobres, e a transfiguração da vida à luz das bem-aventuranças. Este é o segredo da alegria de inúmeros religiosos e religiosas, alegria desconhecida ao mundo e que vós tendes o dever de comunicar aos outros vossos irmãos e irmãs, mediante o testemunho luminoso da vossa consagração.

3. Queridos religiosos e religiosas, quanta riqueza espiritual possui a vossa história! Quão preciosa é a herança que tendes nas vossas mãos! Porém, recordai que tudo isto vos é concedido não só para a vossa perfeição, mas também para que o coloqueis à disposição da Igreja e da humanidade, a fim de que constitua motivo de sabedoria e de felicidade para todos.

Assim o fez Santa Teresa de Lisieux, com o seu «caminho da infância espiritual », que é uma autêntica teologia do amor. Jovem como vós, conseguiu transmitir a inumeráveis almas a beleza da confiança e o abandono em Deus, da simplicidade da infância evangélica, da intimidade com o Senhor, da qual brotam espontaneamente a comunhão fraterna e o serviço ao próximo. A simples e grande Teresa do Menino Jesus e da Sagrada Face será proclamada Doutora da Igreja precisamente por este motivo: porque com a «teologia do coração» soube indicar, com termos acessíveis a todos, um caminho seguro para buscar a Deus e para se deixar encontrar por Ele.

Esta é também a experiência de muitos irmãos e irmãs vossos, tanto do passado como do presente. Eles souberam encarnar, no silêncio e na vida oculta, a alma tipicamente apostólica da vida religiosa e, em particular, a extraordinária capacidade da pessoa consagrada de unir a intensidade da contemplação e do amor a Deus ao ardor da caridade para com os pobres, os necessitados e todas as pessoas que o mundo frequentemente marginaliza e rejeita.

4. O vosso Congresso não é apenas um encontro de pessoas jovens e para jovens religiosos, mas é uma proclamação e um testemunho proféticos para todos. Viestes de todos os recantos do mundo para reflectir acerca dos temas fulcrais da vida consagrada: vocação, espiritualidade, comunhão e missão. Além disso, desejais compartilhar as vossas experiências em um contexto de oração e de fraternidade jubilosa. Desta forma, a vida consagrada resplandece de vivacidade, como uma parte do espírito sempre juvenil da Igreja.

Em virtude do facto de serdes tão numerosos e jovens, ofereceis uma imagem vibrante e contemporânea da vida consagrada. Decerto, todos nós estamos cônscios dos desafios que se devem enfrentar nessa vida, especialmente em determinados países. Entre estes desafios estão incluídos a idade avançada dos religiosos e das religiosas, a reorganização dos apostolados, a presença decrescente e a diminuição numérica das vocações. Contudo, estou persuadido de que o Espírito Santo não deixará de estimular e encorajar em muitos jovens como vós a vocação à total consagração a Deus, tanto nas tradicionais formas da vida religiosa, como nas formas inovativas e originais.

5. Prezados amigos, agradeço-vos terdes vindo ver-me. Rejuvenesceis a Igreja com o entusiasmo e a alegria que demonstrais, antes ainda que através da vossa idade. Quereria que lêsseis no meu coração o afecto e a estima que nutro por todos e cada um de vós. O Papa ama-vos, tem confiança em vós, reza por vós e está convicto de que sereis capazes não somente de evocar e narrar a gloriosa história que vos precedeu, mas também de continuar a edificá-la no futuro que o Espírito Santo vos prepara (cf. Vita consecrata , 110).

Enquanto nos dispomos para entrar no ano do Espírito Santo, em preparação para o Grande Jubileu do Ano 2000, confiamos precisamente ao Espírito do Pai e do Filho a grandiosa dádiva da vida consagrada e todos aqueles que, em cada uma das partes do mundo, se colocam generosamente na sequela de Cristo casto, pobre e obediente. Invoquemos com esta intenção a intercessão dos Santos Fundadores e Fundadoras das vossas Ordens e Congregações; invoquemos sobretudo a ajuda de Maria, a Virgem consagrada por excelência.

6. Maria, jovem filha de Israel, Tu que respondeste imediatamente «sim» à proposta do Pai, torna estes jovens atentos e obedientes à vontade de Deus. Tu que viveste a virgindade como acolhimento total do amor divino, faze com que descubram a beleza e a liberdade de uma existência casta. Tu que nada possuíste a fim de seres rica somente de Deus e da sua Palavra, liberta o coração deles de todos os apegos mundanos, para que o Reino de Deus constitua o seu único tesouro, a sua única paixão.

Jovem Filha de Sião, que permaneceste sempre virgem no teu coração apaixonado por Deus, conserva neles e em todos nós a perene juventude do espírito e do amor. Virgem das dores, que permaneceste junto da Cruz do Filho, gera em cada um dos teus filhos, como o fizeste no Apóstolo João, o amor que é mais forte do que a morte. Virgem Mãe do Ressuscitado, faze de todos nós testemunhas da alegria de Cristo eternamente vivo.

De coração, abençoo todos vós.

DISCURSO DO PAPA JOÃO PAULO II AOS BISPOS ESPANHÓIS DAS PROVÍNCIAS ECLESIÁSTICAS DE SANTIAGO, BURGOS, SARAGOÇA E PAMPLONA EM VISITA «AD LIMINA APOSTOLORUM»

30 de Setembro de 1997

Queridos Irmãos no Episcopado

1. Com alegria vos recebo hoje, Pastores da Igreja de Deus em Espanha, vindos das Sedes metropolitanas de Santiago, Burgos, Saragoça e Pamplona, e das dioceses sufragâneas. São Igrejas de antiga e rica tradição espiritual e missionária, santificadas pelo sangue de muitos mártires e enriquecidas com as sólidas virtudes de numerosas famílias cristãs, que deram abundantes vocações sacerdotais e religiosas. Vindes a Roma para realizar esta visita «ad Limina», venerável instituição que contribui para manter vivos os estreitos vínculos de comunhão que unem cada Bispo com o Sucessor de Pedro. A vossa presença aqui faz-me sentir também próximos os sacerdotes, religiosos, religiosas e fiéis das Igrejas particulares a que presidis, algumas das quais tive a ventura de visitar nas minhas Viagens pastorais ao vosso País.

Agradeço a D. Elías Yanes Álvarez, Arcebispo de Saragoça e Presidente da Conferência Episcopal Espanhola, as amáveis palavras que, em nome de todos vós, me dirigiu para renovar as expressões de afecto e estima, fazendo-me ao mesmo tempo partícipe das vossas inquietudes e projectos pastorais. A tudo isto retribuo pedindo ao Senhor que, nas vossas dioceses e na Espanha inteira, progridam sempre a fé, a esperança, a caridade e o corajoso testemunho de todos os cristãos, em conformidade com a herança recebida desde os tempos dos Apóstolos.

2. Encorajados pelas promessas do Senhor e pela força que nos proporciona o seu Espírito, como Sucessores dos Apóstolos estais chamados a ser os primeiros a levar a cabo a missão que Ele confiou à sua Igreja, ainda que para isto se tenha de enfrentar e aceitar o peso da cruz que, numa sociedade como a contemporânea, se pode manifestar de múltiplas formas.

Tanto individual como colegialmente, por meio da Conferência Episcopal ou de outras instituições eclesiais, vós participais na análise das expectativas e sucessos da sociedade espanhola actual, procurando interpretá-los à luz do Evangelho e orientar a mesma sociedade a partir da fé. Deste modo, ante a transformação social e cultural que se está a verificar; ante o paradoxo de um mundo que sente a urgência da solidariedade, mas ao mesmo tempo sofre pressões e divisões de ordem política, económica, racial e ideológica (cf. Gaudium et spes, 4), no vosso ministério pastoral, procurais promover uma nova ordem social, fundada cada vez mais sobre os valores éticos e vivificada pela mensagem cristã.

Ao escutardes o que «o Espírito diz às Igrejas» (Ap 2, 7), sentis também o dever de fazer um sereno discernimento, aberto e compreensivo, das diversas circunstâncias e acontecimentos, iniciativas e projectos, sem tampouco descuidar dos graves problemas e das aspirações mais profundas da sociedade inteira.

O vosso ministério pastoral dirige-se aos homens do nosso tempo, tanto aos fiéis que participam activamente na vida da comunidade diocesana, como àqueles que se dizem não-praticantes ou indiferentes, assim como a quantos, mesmo que se chamem católicos, não são coerentes no seu comportamento moral. Por isso vos exorto a prosseguir incansavelmente e sem desânimo no múnus de ensinar e anunciar aos homens o Evangelho de Cristo (cf. Christus Dominus, 11). Ao propor os ensinamentos cristãos para iluminar a consciência dos fiéis, o Bispo deve fazê-lo com a linguagem e os meios adequados (cf. Ibid., 13), para que se compreenda o sentido das Escrituras, como fez o Senhor com os discípulos de Emaús, e assim o Magistério não fique estéril nem seja uma voz não atendida pela sociedade actual, que dá mostras tão visíveis de secularismo. Por esta razão, não se deve cair no desânimo nem deixar de elaborar e de pôr em prática os oportunos projectos pastorais. Ainda que as vossas responsabilidades sejam muito grandes, tende presente que o Espírito do Senhor vos dá as forças necessárias.

Postos como guias das Igrejas particulares, sois pais e pastores para cada um dos fiéis, procurando estar especialmente ao lado dos mais necessitados e marginalizados. A visita pastoral, prescrita na disciplina eclesiástica (cf. C.D.C., cânn. 396-398), ajudar-vos-á a estar presentes e próximos e a ser misericordiosos entre os vossos fiéis, para proclamardes constantemente e em todas as partes a verdade que torna livre (cf. Jo 8, 32), e fomentardes o incremento da vida cristã. Esta proximidade a todos deve manifestar-se duma forma visível e concreta, estando disponível àqueles que, com confiança e amor, vos buscam porque sentem necessidade de orientação, ajuda e consolo, seguindo nisto a indicação de São Paulo a Tito, de que o Bispo seja «hospitaleiro, amigo do bem, prudente, justo, piedoso, continente » (Tt 1, 8).

3. Os presbíteros e os diáconos são respectivamente colaboradores estreitos na vossa missão, para que a Palavra seja anunciada em cada lugar da própria diocese, a divina liturgia se celebre nos seus templos e capelas, a união entre todos os membros do Povo de Deus seja manifesta e a caridade, operante e vigilante. Eles participam na vossa importantíssima missão e, além disso, na celebração de todos os sacramentos, estão unidos hierarquicamente convosco de diversas maneiras. Assim vos tornam presentes, em certo sentido, em cada uma das comunidades dos fiéis (cf. Presbyterorum ordinis, 5).

O Concílio Vaticano II, seguindo a tradição da Igreja, aprofundou de modo particular as relações dos Bispos com os seus presbíteros. Aos sacerdotes deveis dedicar os vossos melhores desvelos e energias. Por isso vos exorto a estar sempre junto de cada um, a manter com eles uma relação de verdadeira amizade sacerdotal, segundo o estilo do Bom Pastor. Ajudai-os a ser homens de oração assídua, a apreciar o silêncio contemplativo ante o ruído e a dispersão das múltiplas actividades, a celebração devota e diária da Eucaristia e da Liturgia das Horas, que a Igreja lhes recomendou para o bem de todo o Corpo de Cristo. A oração do sacerdote é uma exigência do seu ministério pastoral, de modo que as comunidades cristãs se enriqueçam com o testemunho do sacerdote orante que, com a sua palavra e a sua vida, anuncia o mistério de Deus.

Preocupai-vos pela situação particular de cada sacerdote, para os ajudar a prosseguir com optimismo e esperança pelo caminho da santidade sacerdotal e lhes oferecer os meios oportunos nas situações difíceis em que se possam encontrar. Que a nenhum deles falte o necessário para viver dignamente a sua sublime vocação e ministério!

Como tive ocasião de recordar na Exortação Apostólica Pastores dabo vobis , a formação permanente do clero é de capital importância. É-me grato constatar como o meu apelo quanto a isto foi acolhido e estão a ser programadas e organizadas em diferentes dioceses actividades, orientadas para que o sacerdote responda com a preparação pastoral que exigem as circunstâncias e o momento presente. Esta formação «é uma exigência intrínseca ao dom e ao ministério [sacramental] recebido» (Ibid., 70), pois com a ordenação «tem início aquela resposta que, como escolha fundamental, deve exprimir-se e reafirmar-se [continuamente] ao longo dos anos do sacerdócio em numerosíssimas outras respostas, todas elas radicadas e vivificadas pelo “sim” da Ordem sagrada» (Ibid.). A exortação do Apóstolo Pedro: «Irmãos, cuidai cada vez mais em assegurar a vossa vocação e eleição» (2 Pd 1, 10), é um premente convite a não descuidar este aspecto.

Neste sentido, o documento «Sacerdotes dia a dia», preparado pela vossa Comissão Episcopal para o Clero e dedicado à formação permanente integral, contribuirá sem dúvida para a potenciar no vosso País, pois se trata de uma actividade que o presbítero deve assumir, por coerência consigo mesmo, e que está enraizada na caridade pastoral que deve acompanhar toda a sua vida. É responsabilidade de cada sacerdote, do seu Bispo e da própria comunidade eclesial a que serve, procurar os meios necessários para poder dedicar parte do tempo à formação nos diversos campos durante toda a vida, sem que este importante dever seja impedido pelas diversas e numerosas actividades que a vida pastoral comporta, nem pelos compromissos que configuram a missão sacerdotal.

4. Por outro lado, o seminário, onde se formam os futuros sacerdotes, há-de ser um centro de atenção privilegiada por parte do Bispo. A crise vocacional, que nos anos passados fez diminuir sensivelmente o número de seminaristas, parece que está a ser superada e há dados promissores quanto a isto. Damos graças a Deus por isso, porém deve-se continuar a orar com insistência ao Dono da messe, para que envie trabalhadores para a sua Igreja. Em tempos recentes, a crise mencionada provocou também o facto de os seminários menores desaparecerem ou sofrerem transformações nalgumas dioceses. Onde for possível, dever-se-ia programar a presença dos mesmos, tão recomendados pelo Concílio Vaticano II (cf. Optatam totius, 3), pois ajuda o discernimento vocacional dos adolescentes e jovens, proporcionando- lhes ao mesmo tempo uma formação integral e coerente, baseada na intimidade com Cristo. Deste modo, os que são chamados dispõem-se a responder com alegria e generosidade ao dom da vocação.

Ao Bispo corresponde em última instância a responsabilidade sobre o seminário, pois um dia, pela imposição das mãos, ele admitirá no presbitério diocesano aqueles que ali se formaram. Quando não há seminário numa diocese, é importante que o Bispo e os seus colaboradores mantenham relacionamentos frequentes com o centro para onde enviam os seus candidatos, e que de igual modo se dê a conhecer aos fiéis, sobretudo aos jovens, essa instituição tão vital para as dioceses.

No seminário deve-se favorecer um verdadeiro espírito de família, preâmbulo da fraternidade do presbitério diocesano, onde cada aluno, com a sua sensibilidade própria, possa maturar a sua vocação, assuma os seus compromissos e se forme na vida comunitária, espiritual e intelectual peculiar do sacerdote, sob a guia sábia e prudente de uma comissão formadora, adequada a essa missão. É fundamental iniciar os seminaristas na intimidade com Cristo, Modelo de pastores, mediante a oração e a recepção assídua dos sacramentos. Ao mesmo tempo e num contexto de formação integral, não é menos importante ensinar-lhes a ser progressivamente responsáveis pelos actos da sua vida diária e a adquirir o domínio de si mesmos, aspectos essenciais para a prática das virtudes teologais e cardeais, que no futuro terão de propor ao povo fiel com o próprio exemplo.

Embora a formação do seminário não deva ser só teórica, pois os seminaristas realizam também actividades pastorais em paróquias e movimentos apostólicos, o que favorece o seu enraizamento na comunidade diocesana, a primazia nessa etapa corresponde ao estudo em ordem a adquirir uma sólida preparação intelectual, filosófica e teológica, essencial para serem os missionários a anunciar aos seus irmãos a Boa Nova do Evangelho. Se esta preparação não se adquire nos anos do seminário, a experiência mostra que é muito difícil, se não praticamente impossível, completá-la depois. Por outro lado, é necessário prever e programar uma adequada formação académica superior aos sacerdotes jovens que têm aptidões para isso, a fim de se dedicarem à investigação e assim seja assegurada a continuidade do ensino no seminário ou em outros centros eclesiásticos. De igual modo é conveniente preparar alguns sacerdotes para o discernimento das vocações e a direcção espiritual, necessária para completar a tarefa formativa do seminário.

5. Muitos factores, entre os quais se deve destacar o relativismo imperante e o mito do progresso materialista como valores de primeira ordem, como indicastes no Plano de Acção pastoral da Conferência Episcopal Espanhola para o quadriénio 1997-2000 (cf. n. 45), assim como o temor dos jovens de assumir compromissos definitivos, influíram de maneira negativa no número das vocações. Perante essa situação deve-se confiar antes de tudo no Senhor e, ao mesmo tempo, comprometer-se seriamente em fomentar em cada comunidade eclesial um ambiente espiritual e pastoral, que favoreça positivamente a manifestação do chamado do Senhor para a vida sacerdotal ou consagrada, na diversidade de formas como há na Igreja, animando os jovens à entrega total das suas vidas ao serviço do Evangelho.

Nisto têm muita influência a vida espiritual e o exemplo diário dos próprios sacerdotes, assim como o ambiente propício das famílias cristãs, que deste modo podem contribuir para que aumentem as vocações de consagrados nas vossas Igrejas particulares, até há muito poucos anos, tão ricas e fecundas espiritualmente.

6. Algumas das vossas dioceses padecem, desde há alguns anos, o sofrimento de repetidos atentados terroristas contra a vida e a liberdade das pessoas. Acompanho com muita amargura esses trágicos acontecimentos e convosco quero expressar de novo a condenação, mais completa e sem paliativos, destas injustificadas e injustificáveis agressões. Ante elas, ensinai a via do perdão, da convivência fraterna e solidária e da justiça, que são os verdadeiros fundamentos para a paz e a prosperidade dos povos! Animo-vos, juntamente com os vossos fiéis, a colaborar do melhor modo possível na extirpação total e radical desta violência, e aos que a praticam, peço-lhes em nome de Deus, que renunciem a ela como pretexto de acção e reivindicação política.

7. «O Ano Jubilar Compostelano, pórtico do Ano Santo 2000». Com este lema a Igreja em Espanha convida a participar nesse acontecimento eclesial de profundas raízes históricas, que terá lugar no ano de 1999 e há-de ser uma boa preparação para o Grande Jubileu do Terceiro Milénio Cristão. O Ano Compostelano tem primordialmente uma finalidade religiosa, que se manifesta na peregrinação ao longo do chamado «Caminho de Santiago». São conhecidos os frutos espirituais dos Anos de São Tiago, durante os quais tantos peregrinos de Espanha, da Europa e de outras partes do mundo ali acorrem para obter a concessão do «perdão». Exorto-vos, pois, a preparar bem este acontecimento para que seja um verdadeiro «Ano de graça» no qual, por meio da conversão contínua e da pregação assídua da Palavra de Deus, sejam favorecidos a fé e o testemunho aos cristãos; a oração e a caridade promovam a santidade dos fiéis, e a esperança nos bens futuros anime a evangelização contínua da sociedade, a fim de poder ser o grande fruto espiritual e apostólico desse Ano jubilar, em consonância com a rica tradição precedente.

8. Queridos Irmãos, uma vez mais asseguro- vos a minha profunda comunhão na oração, com uma firme esperança no futuro das vossas dioceses, nas quais se manifesta uma grande vitalidade, apesar das provas. Que o Senhor Jesus Cristo vos conceda a alegria de O servir, guiando em Seu nome as Igrejas particulares que vos foram confiadas. Que a Virgem Santíssima e os santos Padroeiros de cada lugar vos acompanhem e protejam sempre. A vós, amados Irmãos no Episcopado, e aos vossos fiéis diocesanos, concedo de coração a Bênção Apostólica.

MENSAGEM DO PAPA JOÃO PAULO II POR OCASIÃO DA ABERTURA DA XXVI ASSEMBLEIA GERAL DO CONSELHO EPISCOPAL LATINO-AMERICANO (CELAM)

Queridos Irmãos no Episcopado

1. É-me muito grato dirigir uma cordial saudação aos membros do Conselho Episcopal Latino-Americano — CELAM — que se reunirão no Rio de Janeiro, de 30 de Setembro a 3 de Outubro, para celebrar a sua XXVI Assembleia Ordinária, com o objectivo de indicar algumas linhas directrizes e recomendações para os novos tempos que se aproximam.

Quando faltam poucos dias para uma nova Visita às terras americanas, a fim de presidir ao II Encontro Mundial com as Famílias nessa Cidade brasileira, desejo renovar o meu afecto aos filhos e filhas desse amado Continente. Tenho olhado sempre com muita esperança para os Povos da América Latina, nações profundamente católicas que, após cinco séculos de Evangelização, caminham com alegria e passo firme rumo ao Terceiro Milénio do cristianismo, vivendo com o olhar fixo n’Aquele que é o Senhor da História, Jesus Cristo, o único que pode encher de luz a trajectória desses povos, que têm de enfrentar os grandes desafios da hora presente.

2. Encontramo-nos numa hora decisiva para a Igreja e para a humanidade. Diante disto, urge renovar-se, preparar-se e encher-se de energias espirituais, que se traduzam depois em projectos e realidades pastorais para anunciar a Boa Nova a todos os homens e mulheres, a todos os povos, etnias e culturas, chegando assim «a toda a criação», segundo o mandato missionário do Senhor (cf. Mc 16, 15) que, fiel à Sua promessa, está connosco «todos os dias, até ao fim do mundo» (Mt 28, 20).

3. A IV Conferência Geral do Episcopado Latino-Americano, que teve lugar em Santo Domingo em 1992, por ocasião do V Centenário da Evangelização do Novo Mundo, deu um forte impulso à missão das Igrejas na América Latina, comprometendo-as na tarefa fascinante da Nova Evangelização.

Por sua parte, a próxima Assembleia Especial do Sínodo dos Bispos para a América, que convoquei para os próximos meses de Novembro e Dezembro, está chamada, a partir da perspectiva do Grande Jubileu do Ano 2000, a ser um importante evento eclesial que tem de produzir, sem dúvida, os seus frutos em todas as Igrejas locais do Continente, para que progridam com entusiasmo, generosidade e firmeza pelo caminho da conversão, da comunhão e da solidariedade.

Este caminho não é senão Jesus Cristo vivo. Ele é o «único Salvador do mundo, ontem, hoje e sempre» (cf. Hb 13, 8). Em Cristo, nosso «Salvador e Evangelizador» (Tertio millennio adveniente , 40), está centrada a atenção da Igreja em ordem a cumprir de maneira adequada a sua missão.

4. O CELAM está chamado a incentivar esse ritmo de renovação que marcou o Concílio Vaticano II e que as circunstâncias actuais fazem ainda mais premente, já que o final do século e a entrada num novo milénio são acontecimentos que interpelam fortemente a Igreja.

O Conselho, reunido em Assembleia Ordinária, propõe-se a tratar, entre outros temas, o da reforma dos seus Estatutos. É importante que, dentro da comunhão eclesial, o CELAM apresente a consciência clara da sua natureza e finalidade, expressando assim a identidade com que lhe dotou a Sé Apostólica quando, a pedido da I Conferência Geral do Episcopado Latino-Americano, celebrada nessa mesma cidade do Rio de Janeiro em 1955, o criou como organismo de comunhão, reflexão, colaboração e serviço, manifestando-se depois cada vez mais, com base no Concílio, como sinal e instrumento do afecto colegial.

Segundo as necessidades e o que ensina a experiência, as estruturas do CELAM podem ser revistas e redimensionadas (cf. Documento de Santo Domingo, 69), de modo que, adequando-se à realidade actual, resultem mais simples e ágeis. «Assim, reflectindo o autêntico rosto da América Latina, com iniciativas bem ponderadas e mediante uma maior participação de todo o Episcopado do Continente, contribuirá de maneira decisiva para a Nova Evangelização do mesmo» (cf. Mensagem por ocasião dos 40 anos do CELAM; L’Osserv. Rom., edição em português, 13/5/1995, pág. 5, n. 4).

5. São muitos e imensos os desafios que se apresentam à Igreja nas vossas nações, nesta excepcional conjuntura histórica que estamos a viver. Entre eles: a defesa da vida; a educação das crianças e dos jovens; a promoção da família; particular preocupação suscitam o crescente secularismo, a indiferença religiosa e a desorientação no campo ético (cf. Tertio millennio adveniente , 36); a rápida expansão das seitas; o fenómeno da urbanização; a violência e o narcotráfico; a corrupção e a desordem social; a pobreza e inclusive a miséria na qual se encontram muitos irmãos; a situação dos indígenas e afro-americanos.

O plano global, que o CELAM elaborou para estes anos e que tem o expressivo título de «Jesus Cristo, vida plena para todos», oferece algumas sugestões em ordem a enfrentar estes problemas, sobre os quais tratará também a Assembleia sinodal de Novembro próximo.

6. Há-de se ter presente que tudo o que se projecta no campo eclesial deve partir de Cristo e do seu Evangelho, do testemunho do Senhor Jesus, uma vez que — como dizia Paulo VI, o primeiro Papa que visitou a América Latina e que recordaremos com especial afecto nos próximos dias, celebrando o centenário do seu nascimento —, «não haverá nunca evangelização verdadeira, se o nome, a doutrina, a vida, as promessas, o reino e o mistério de Jesus de Nazaré, Filho de Deus, não forem anunciados» (Evangelii nuntiandi , 22).

Para que possa realizar a missão de anunciar a Boa Nova que Cristo lhe confiou, a Igreja faz-se presente no mundo através dos evangelizadores, sobretudo dos sacerdotes. Efectivamente, «condição indispensável para a nova evangelização, é poder contar com evangelizadores numerosos e qualificados » (Discurso inaugural na Conferência de Santo Domingo, 12 de Outubro de 1992, n. 26).

7. Daí a importância da pastoral vocacional, que deve ser hoje uma prioridade nas dioceses, como «compromisso de todo o Povo de Deus» (Ibid.). As vocações existem, pois temos a promessa de Deus, que é também uma profecia: «Dar-vos-ei pastores segundo o Meu coração » (Jr 3, 15). Deve-se buscar, fomentar e cuidar dessas vocações, de forma que a profecia se cumpra plenamente na América Latina; mas para isto deve- se ter muito em conta a recomendação do Senhor a este respeito: «Pedi, portanto, ao dono da messe que mande trabalhadores para a Sua messe» (Lc 10, 2).

A respeito disso, quero evocar aqui quanto eu disse aos fiéis reunidos na Catedral de Paris, no passado dia 21 de Agosto: «Convido todos vós a orar pelos jovens que, espalhados pelo mundo, escutam o apelo do Senhor e por aqueles que podem ter medo de Lhe responder. Oxalá encontrem ao redor de si educadores para os guiar! Possam eles perceber a grandeza da sua vocação: amar Cristo acima de tudo, como um apelo à liberdade e à felicidade! Orai para que a Igreja vos ajude no vosso caminho e realize um justo discernimento! Orai para que as comunidades cristãs saibam sempre retransmitir o chamamento do Senhor às jovens gerações!... Dai-Lhe graças pelas famílias, pelas paróquias e pelos movimentos, berços de vocações!» (Mensagem aos jovens reunidos na Catedral de Notre-Dame , n. 8).

Observo com grande satisfação pastoral o florescimento dos seminários nalgumas nações do vosso Continente, chamado a ser cada vez mais um Continente evangelizador que dirige o seu olhar rumo à África, à Ásia e à Europa.

8. Fonte de vocações são as famílias cristãs. O Encontro Mundial do Papa com as Famílias, que se realizará nessa Cidade, leva-me a recomendar-vos que vos ocupeis incansavelmente da evangelização e da santificação dos esposos, de forma que «os pais, e especialmente as mães, sejam generosos em dar ao Senhor os seus filhos, chamados ao sacerdócio, e colaborem com alegria no seu itinerário vocacional, conscientes de que, deste modo, tornam maior e mais profunda a sua fecundidade cristã e eclesial e podem experimentar, em certa medida, a bem-aventurança de Maria, a Virgem Mãe: “Bendita és tu entre as mulheres, e bendito é o fruto do teu ventre” (Lc 1, 42)» (Pastores dabo vobis , 82).

9. Com estas considerações que desejo compartilhar confiadamente com todos os Bispos da América Latina, asseguro- vos a minha oração e a minha proximidade espiritual, para que o Senhor abençoe com copiosos frutos os trabalhos dessa Assembleia. Coloco os trabalhos, as preocupações e os desejos sob o amparo de Santa Maria de Guadalupe, Estrela da primeira e nova evangelização, ao mesmo tempo que vos concedo de bom grado a vós, assim como aos sacerdotes e fiéis das vossas dioceses, a Bênção Apostólica.

Vaticano, 14 de Setembro de 1997, Festa da Exaltação da Santa Cruz.

PAPA JOÃO PAULO II

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DISCURSO DO SANTO PADRE DURANTE O ENCONTRO COM AS RELIGIOSAS CLAUSTRAIS

28 de Setembro de 1997

Caríssimas Irmãs!

1. Com grande alegria apresento a minha afectuosa saudação a todas vós, reunidas nesta magnífica Catedral de Bolonha e, através de vós, desejo dirigir-me às Religiosas claustrais dos mosteiros da Itália, unidas espiritualmente às celebrações do Congresso Eucarístico Nacional. Saúdo o caro Cardeal Eduardo Martínez Somalo, que celebrou esta manhã a Santa Missa para vós; com ele saúdo também o querido Cardeal Giacomo Biffi, Arcebispo de Bolonha, juntamente com os Bispos e os sacerdotes presentes.

O Congresso Eucarístico, que se vive nestes dias em Bolonha, é um evento espiritual extraordinário, que interessa ao inteiro povo de Deus. Interessa de modo particular a vós, cuja vocação contemplativa se situa no coração mesmo da Igreja. Com efeito, a vossa missão é alimentar e sustentar a acção pastoral da Igreja, com o precioso contributo da contemplação, da oração e do sacrifício, que continuamente ofereceis nos vossos mosteiros, cuja silenciosa presença manifesta aos homens do nosso tempo o início do Reino de Deus.

2. Assim como a Igreja, também a Comunidade monástica nasce da Eucaristia, se alimenta com o sacramento do Corpo e do Sangue do Senhor e está para Ele constantemente orientada. Cada dia a liturgia convida-vos a contemplar, através do lado trespassado de Cristo na Cruz, o mistério do Amor eterno do Pai, para depois o testemunhardes na vossa existência totalmente oferecida a Deus. A vós Jesus revela o mistério do Seu amor, para que O guardeis como Maria, no silêncio fecundo da fé, tornando-vos juntamente com Ela colaboradoras na obra da salvação.

Caríssimas Irmãs, a vossa vida, recolhida e conservada no mistério da Trindade, torna-vos partícipes do íntimo diálogo de amor que o Verbo manteve de maneira ininterrupta com o Pai, no Espírito Santo.

Deste modo, o vosso quotidiano «sacrificium laudis», unido ao cântico constituído pelas vossas existências de pessoas consagradas na vocação claustral, antecipa já sobre esta terra algo da eterna liturgia do céu. A contemplativa, afirmava a Beata Isabel da Trindade, «deve estar sempre ocupada na acção de graças. Cada um dos seus actos, dos seus movimentos, cada pensamento seu e aspiração, ao mesmo tempo que a enraízam de modo mais profundo no amor, são como um eco do Sanctus eterno» (Escritos, Retiro, 10, 2).

3. A Eucaristia é o dom que Cristo fez à sua Esposa, na hora de deixar este mundo para retornar ao Pai. Queridas Irmãs, a comunidade cristã reconhece na vossa vida «um sinal da união exclusiva da Igreja-Esposa com o seu Senhor » (Vita consecrata, 59). O mistério do carácter esponsal, que pertence à Igreja na sua integridade (cf. Ef 5, 23- 32), assume nas vocações de especial consagração um relevo particular, que atinge a sua mais eloquente expressão na mulher consagrada: com efeito, pela sua própria natureza, ela é figura da Igreja, virgem, esposa e mãe, a qual mantém íntegra a fé dada ao Esposo, gerando os homens para a vida nova no Baptismo.

Na religiosa de clausura, depois, precisamente porque está empenhada em viver em plenitude o mistério esponsal da união exclusiva com Cristo, «realiza-se o mistério celeste da Igreja» (Santo Ambrósio, De institutione virginis, 24, 255; PL 16, 325 C). Ao mistério do «corpo dado» e do «sangue derramado», que toda a Eucaristia representa e actualiza, a claustral responde com a oblação completa de si mesma, renunciando completamente «não só às coisas, mas também ao espaço, aos contactos, a tantos bens da criação» (VC, 59). A clausura constitui uma maneira particular de «estar com o Senhor», participando no Seu aniquilamento numa forma de pobreza radical, mediante a qual se escolhe Deus como «o Único Necessário» (cf. Lc 10, 42), amando-O exclusivamente como o Tudo de todas as coisas. Desse modo os espaços do mosteiro claustral alargam-se para horizontes imensos, porque são abertos ao amor de Deus que abraça todas as criaturas.

A clausura, portanto, não é só um meio de imenso valor para conseguir o recolhimento, mas um modo sublime de participar na Páscoa de Cristo. A vocação claustral introduz-vos no Mistério eucarístico, favorecendo a vossa participação no Sacrifício redentor de Jesus para a salvação de todos os homens.

4. À luz destas verdades manifesta-se o vínculo estreitíssimo que existe entre contemplação e missão. Mediante a união exclusiva com Deus na caridade, a vossa consagração torna-se fecunda de maneira misteriosa, mas real. Esta é a vossa modalidade típica de participar na vida da Igreja, o contributo insubstituível para a sua missão, que vos torna «colaboradoras do próprio Deus e apoio dos membros débeis e vacilantes do seu inefável Corpo» (Santa Clara de Assis, Terceira Carta a Inês de Praga, 8: Fontes Franciscanas, 2886).

Na vossa «forma de vida» torna-se visível, também aos homens do nosso tempo, a face orante da Igreja, o seu coração inteiramente possuído pelo amor por Cristo e repleto de gratidão pelo Pai. De cada mosteiro eleva-se incessantemente a oração de louvor e de intercessão pelo mundo inteiro, do qual sois chamadas a acolher e compartilhar sofrimentos, expectativas e esperanças.

A vossa vocação contemplativa constitui também um jubiloso anúncio da proximidade de Deus; anúncio mais que nunca importante para os homens de hoje, necessitados de redescobrir a transcendência de Deus e, ao mesmo tempo, a Sua presença amorosa ao lado de cada pessoa, especialmente se for pobre e desorientada.

A vossa vida, que com a sua separação do mundo se expressa de modo concreto e eficaz e proclama a primazia de Deus, constitui um apelo constante à preeminência da contemplação sobre a acção, daquilo que é eterno sobre o que é temporâneo. Ela propõe-se, por conseguinte, como uma representação e uma antecipação da meta, para a qual caminha a comunidade eclesial: a futura recapitulação de todas as coisas em Cristo.

5. Quanto tudo isto é verdadeiro, testemunha- o de modo significativo o exemplo de Santa Teresa de Lisieux, da qual recordamos este ano o primeiro centenário da morte, e que no próximo dia 19 de Outubro terei a alegria de proclamar Doutora da Igreja. A sua breve existência, transcorrida no escondimento, continua a falar-nos do fascínio da busca de Deus e da beleza da completa doação de si ao Seu amor.

Na sua sede ardente de cooperar na obra da redenção, ela perguntava-se, como sabeis, qual era a sua missão específica na Igreja. Nenhuma opção a satisfazia plenamente, até ao dia em que, iluminada interiormente, compreendeu que a Igreja tinha um coração, e que este coração ardia de amor: «No coração da Igreja, minha mãe — ela decidiu então — serei o amor».

Para realizar esta singular vocação ao amor, é preciso não se deixar enganar pela sabedoria mundana; só aos pequeninos, com efeito, o Pai revela os seus mistérios, entrando no coração deles que, segundo uma bonita expressão de Santa Clara de Assis, é «mansio et sedes», «morada e permanência» da Majestade divina (cf. Terceira Carta a Inês, 21-26: FF 2892-2893).

As vossas comunidades claustrais, com os seus próprios ritmos de oração e de exercício da caridade fraterna, nas quais a solidão é impregnada pela suave presença do Senhor e o silêncio dispõe a alma à escuta das Suas sugestões interiores, são o lugar onde cada dia vos formais para este conhecimento amoroso do Verbo do Pai. De coração faço votos por que a vossa vida seja penetrada por esta constante tensão para Deus, por uma incessante oblação eucarística que transforme a existência em total holocausto de amor, em união com Cristo, para a salvação do mundo.

6. Obrigado, caríssimas Irmãs claustrais, pelo dom precioso da vossa contribuição específica à vida da Igreja e, em particular, pela oração com que acompanhais este Congresso Eucarístico Nacional. Obrigado pela vossa presença como Religiosas contemplativas, que mantêm viva no coração da Igreja a chamada a um amor total por Cristo Esposo. A Comunidade cristã sente-se reconhecida a vós por esse testemunho.

Com a vossa vida de união com o Senhor sede sinais eloquentes do Seu amor pela humanidade inteira. Oferecereis assim a todos o contributo espiritual da esperança e da alegria, orientando os homens para o encontro com Cristo, nossa paz autêntica.

A vós, às vossas Comunidades claustrais e às vossas Coirmãs contemplativas da Itália concedo de coração uma especial Bênção Apostólica.

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DISCURSO DO SANTO PADRE DURANTE O ENCONTRO COM OS JOVENS

Sábado, 27 de Setembro de 1997

Caríssimos jovens

1. Estou feliz por participar nesta vigília, que se realiza num contexto de fé e de alegria, onde o canto desempenha um papel importante. É a fé e a alegria dos jovens, que já pude experimentar noutras circunstâncias, especialmente por ocasião dos grandes encontros mundiais com a juventude. Observei com interesse que depois do Dia mundial em Manila, no ano de 1995, teve lugar o encontro europeu em Loreto; após o recente Dia mundial em Paris, encontramo-nos hoje à noite em Bolonha. É um alternar-se de encontros, que vê como protagonistas os jovens em várias partes do mundo. Mas depois regressa-se sempre à Itália. Regressar significa que o Papa volta ao Vaticano ou a Castel Gandolfo. Aproveito este ensejo para vos cumprimentar com afecto, queridos jovens, tornando extensivo o meu pensamento cordial a todos os jovens e a todas as jovens da Itália.

Demos início ao nosso encontro – que acompanhei com grande atenção – com o Salmo 96, que convida a «cantar ao Senhor um cântico novo», a bendizer o Seu nome, a alegrar-se e a exultar juntamente com a inteira criação. Desta forma, o canto torna-se a resposta de um coração repleto de júbilo, que reconhece a presença de Deus ao seu lado.

«Permanecestes aqui, Mistério visível », repetis nestes dias, durante o Congresso Eucarístico Nacional. A fé exprime- se também com o canto. A fé faz-nos cantar na vida a alegria de sermos filhos de Deus. Saúdo com afecto todos vós, artistas e jovens aqui presentes que, mediante a música e o canto exprimis palavras de paz, esperança e solidariedade «nas cítaras do nosso tempo».

Hoje à noite, música e poesia deram voz aos interrogativos e aos ideais da vossa juventude. Nesta noite, Jesus Cristo vem ao vosso encontro ao longo do caminho da música.

2. Amadíssimos jovens, agradeço-vos esta festa, que quisestes organizar como uma espécie de diálogo a várias vozes, onde música e coreografia nos ajudam a reflectir e a rezar. Um dos vossos representantes acabou de dizer, em nome de todos vós, que a resposta aos interrogativos da vossa vida «está soprando no vento». É verdade! Todavia, não no vento que tudo disperde nos vórtices do nada, mas no vento que é sopro e voz do Espírito, voz que chama e diz: «Vem!» (cf. Jo 3, 8; Ap 22, 17).

Perguntastes-me: quantas estradas deve o homem percorrer para poder reconhecer- se [como] homem? Respondo-vos: uma! Uma só é a estrada do homem, e é Cristo que disse «Eu sou o Caminho! » (Jo 14, 6). Ele é a estrada da verdade, o caminho da vida.

Por isso, digo-vos: nas encruzilhadas onde se entretecem as inúmeras sendas dos vossos dias, interrogais-vos acerca do valor da verdade de cada uma das vossas opções. Às vezes, pode acontecer que a decisão seja difícil e árdua, e que a tentação à depressão se torne insistente. Já se verificou com os discípulos de Jesus, porque o mundo está repleto de veredas fáceis e sedutoras, caminhos que descem, imergindo-se na sombra do vale, onde o horizonte se torna cada vez mais angusto e sufocante. Jesus propõe-vos um caminho que sobe, que é difícil de percorrer, mas que consente ao olho do coração perscrutar horizontes sempre mais vastos. A escolha é vossa: deixar- vos transportar para baixo, rumo aos vales de um conformismo insensível, ou enfrentar o cansaço da subida rumo aos píncaros onde se respira o ar puro da verdade, da bondade e do amor.

A pouco mais de um mês do grande encontro em Paris, voltamos a encontrar- nos aqui em Bolonha e ainda está vivo em nós o eco do tema desse Dia mundial: «Mestre, onde moras? Vinde ver!». É o convite que dirijo também a vós: vinde ver onde o Mestre mora. Este Congresso em Bolonha diz-nos que Ele reside na Eucaristia.

3. Os meus votos são por que também vós possais, juntamente com Simão Pedro e os outros discípulos, encontrar Cristo para Lhe dizer: «Senhor, a quem iremos? Tu tens palavras de vida eterna » (Jo 6, 68).

Sim, Jesus tem palavras de vida eterna; n'Ele tudo se redime e se renova. Com Ele é deveras possível «cantar um cântico novo» (Sl 96, 1) nesta vigília, à espera da grande festa que concluiremos amanhã com a celebração da Eucaristia, ápice do Congresso Eucarístico Nacional.

Agora eu quereria confiar-vos um segredo. Com o passar do tempo, a coisa mais importante e bela para mim permanece o facto de ser sacerdote há mais de cinquenta anos, porque cada dia me é possível celebrar a Santa Missa! A Eucaristia é o segredo da minha jornada. Esta dá força e sentido a cada uma das minhas actividades ao serviço da Igreja e do mundo inteiro.

Daqui a pouco, quando já forem altas horas da noite, a música e o canto deixarão espaço à adoração silenciosa da Eucaristia. À música e ao canto sucederão o silêncio e a oração. Os olhos e o coração fixar-se-ão na Eucaristia.

Deixai que Jesus, presente no Sacramento, fale ao vosso coração. Ele é a verdadeira resposta da vida que buscais.

Ele permanece aqui connosco: é o Deus connosco. Procurai-O sem vos cansardes, recebei-O incondicionalmente e amai-O sem tréguas: hoje, amanhã e sempre!

Por fim, devo dizer-vos que durante esta vigília pensei em todas as riquezas que existem no mundo, especialmente no homem: as vozes, as intuições, as respostas, as sensibilidades e muitos, muitíssimos outros talentos. É necessária uma grande gratidão por todos estes talentos! E precisamente esta gratidão quer dizer Eucaristia. Agradecendo os bens do mundo, dando graças por todas estas riquezas, estando grato por todos estes talentos, tornamo-nos mais dispostos a viver tais talentos, a multiplicar todos estes talentos, assim como soube fazer o servo bom do Evangelho. Boa-noite! Louvado seja Jesus Cristo!

A todos a minha saudação afectuosa e a minha Bênção.

Então, antes de me ir embora, quereria concluir o que vos disse precedentemente. Disse-vos que é necessária a Eucaristia porque é preciso a gratidão por todos estes bens, por todas estas riquezas e por todos estes talentos. É necessário um grande agradecimento! Todavia, este agradecimento devia actuar-se através do sacrifício da Cruz, devia realizar- se mediante a morte cruenta de Cristo. Porém, se não houvesse a morte, não existiria nem sequer a ressurreição, não haveria o mistério pascal. «Mors et vita duello conflixere mirando, dux vitae mortuus regna vivus». Todos vós conheceis bem o latim. Mas alguns sacerdotes mais doutos traduzir-vo-lo-ão. Queria dizê-lo para completar um pouco a visão do significado da Eucaristia. Obrigado por este encontro!

VISITA PASTORAL DE JOÃO PAULO II A BOLONHA (ITÁLIA)

DISCURSO DO SANTO PADRE NA CERIMÓNIA DE ACOLHIMENTO NA «PIAZZA MAGGIORE»

Bolonha, 27 de Setembro de 1997

1. Nesta bonita e antiga «Piazza Maggiore » saúdo cordialmente todos vós, aqui vindos para me acolher: vós, participantes no Congresso Eucarístico Nacional, vós, fiéis da Igreja de Bolonha, e vós, cidadãos!

Saúdo, em particular, o Cardeal Giacomo Biffi, Arcebispo da Cidade, assim como o Presidente do Conselho dos Ministros e o Presidente da Câmara Municipal de Bolonha, a cada um dos quais exprimo o meu cordial agradecimento pelas sinceras e amistosas palavras de boas-vindas a mim dirigidas. A presença deles aqui está a exprimir, a diversos mas convergentes títulos, a alma de uma cidade e de uma nação, cujas histórias estão irrevogavelmente entrelaçadas com o Evangelho.

Estou grato, depois, ao Senhor Cardeal Camillo Ruini, a quem saúdo cordialmente, por me ter aqui representado como meu Legado desde o início das celebrações conclusivas do Congresso Eucarístico Nacional.

A minha saudação estende-se, por fim, aos Coirmãos Cardeais e Bispos provenientes de todas as partes da Nação, às Autoridades regionais, aos Presidentes das Câmaras Municipais das localidades desta Arquidiocese de Bolonha e de tantas Cidades da Itália, às outras Autoridades religiosas, civis, militares — nacionais e municipais — que quiseram honrar esta circunstância com a sua presença: chegue a todos o meu deferente pensamento, com o vivo encorajamento a perseverarem com generosidade nas respectivas tarefas, exercendo as responsabilidades que lhes são confiadas para a consecução do bem comum.

2. Neste momento, não posso deixar de dirigir um pensamento afectuoso às queridas populações da Úmbria e das Marcas, que ontem foram atingidas várias vezes por um grave terremoto, que causou danos incalculáveis às pessoas e aos edifícios. Exprimo sentidas condolências pelas vítimas e cordial participação na dor das suas famílias. Espiritualmente estou próximo de quantos permaneceram sem casa e daqueles que sofreram e trepidaram. Motivo de desprazer foram também as ingentes lesões infligidas ao património artístico e religioso, em particular na Basílica Superior de São Francisco, no Sagrado Convento de Assis e noutros monumentos e igrejas, em diversas localidades atingidas pelo tremor sísmico.

Ao confiar à misericórdia divina as almas dos defuntos, invoco do Senhor conforto para os familiares, encorajamento para os feridos e apoio para quantos foram danificados pelo terremoto. A graça do Senhor e a solidariedade de tantas pessoas generosas que, coordenadas de modo eficiente pelas autoridades públicas, se estão a prodigalizar para ir em ajuda dos seus irmãos em necessidade, possam tornar menos difícil este momento de sofrimento e de prova.

3. Sinto-me feliz por estar em Bolonha pela terceira vez. Com ânimo grato à divina Providência, que me deu essa oportunidade, recordo as minhas duas peregrinações anteriores: a primeira, em 1982, para a «Visita pastoral» à Igreja de Bolonha, então guiada pelo saudoso Arcebispo Cardeal António Poma; a segunda, em 1988 quando, respondendo ao convite do Reitor da Universidade, vim celebrar o nono Centenário de fundação do ilustre Ateneu.

Naquelas circunstâncias tive ocasião de constatar a incessante fidelidade ao Evangelho da comunidade cristã que vive nesta terra e pude encorajá-la à grande tarefa que, nesta passagem milenária, empenha de modo especial as antigas Igrejas do Ocidente cristão, nascidas da primeira evangelização: a tarefa de uma nova evangelização, capaz de impregnar de conteúdos evangélicos os comportamentos, a cultura e a vida inteira.

Esta minha terceira peregrinação foi idealmente preparada pelas duas primeiras, e constitui de algum modo a sua complementação. Com efeito, vim para escrever no álbum dos Beatos um filho da vossa gente: o Venerável Padre Bartolomeu Maria Dal Monte. Vim sobretudo para presidir à conclusão do Congresso Eucarístico Nacional, etapa privilegiada no caminho de preparação do povo italiano para o Grande Jubileu do Ano 2000. Uma preparação que inicia deste modo com a reflexão sobre Jesus Cristo, único Salvador do mundo: ontem, hoje e sempre.

4. Ele é o princípio, o objecto e o fim de toda a evangelização. Para Ele, portanto, devemos olhar com fé e esperança sempre renovadas, especialmente nesta terra italiana de antiga evangelização e hoje marcada por tantos desafios sociais e espirituais.

A dupla circunstância desta visita induz- me a confiar a todos vós, povo fiel e homens de boa vontade, e de modo especial a quantos de entre vós têm responsabilidades de governo do bem público, uma dúplice mensagem. Antes de tudo, a mensagem concernente à Eucaristia: «Síntese e compêndio da generosidade divina», como está escrito no Documento doutrinal para o Congresso, o Sacramento eucarístico é o verdadeiro dom de Deus a cada coração que, na fé, se abre ao anúncio evangélico. Na participação no único Pão eucarístico é dada aos crentes a possibilidade de se abrirem à comunhão com os irmãos. A Eucaristia torna-se, assim, factor de ordem fecunda e de colaboração pacificadora em todas as sociedades humanas.

A segunda mensagem é a da santidade: com o revérbero das suas riquezas humanas, a santidade não é de modo algum inútil à sociedade. Um povo que quisesse confinar dentro dos muros das igrejas este quotidiano «dom de Deus» (cf. Jo 4, 10), seria certamente mais pobre. Provam-no os exemplos fúlgidos que, no decurso do tempo, vieram da resposta humana à iniciativa divina. A história desta vossa Igreja bolonhesa pode oferecer amplos testemunhos a respeito disto.

5. Na jornada hodierna o Congresso Eucarístico Nacional, em realização aqui há cerca de uma semana, concentra a sua atenção sobre a família. Ao reflectirem sobre a vocação à santidade, que é própria dos esposos, os participantes no Congresso uniram-se aos jovens em vigília, à espera da grande festa eucarística de amanhã.

A família é a «primordial comunidade humana». Não é porventura através de uma família que o Filho unigénito do Pai entrou na nossa história? Por esta razão o núcleo familiar permanece sempre e em toda a parte a via da Igreja. Num certo sentido, torna-se-o mais ainda lá onde sofre crises internas ou está submetido a influências culturais, sociais e económicas prejudiciais, que minam a sua consistência interior, quando não lhe impedem até mesmo o próprio formar-se.

Eis por que a Igreja considera como uma das suas tarefas essenciais o serviço à família. Ela não se cansa de pedir que lhe sejam reconhecidos os direitos originários e conaturais. Ao mesmo tempo, porém, a Igreja continua a cuidar da promoção de ajudas concretas nas inúmeras situações de dificuldade material e espiritual, nas quais os cônjuges, especialmente se jovens, vêm a encontrar-se.

6. Caros pais aqui vindos de todas as regiões da Itália, dirijo a cada um de vós a minha saudação mais cordial. Viestes com os vossos filhos para adorar Cristo Jesus no sacramento da Eucaristia. Vós gostais de O honrar com o nome de Esposo da Igreja-Esposa.

Conheço a vossa generosidade, o vosso empenho e a vossa paciência nas dificuldades e nas fadigas com que cada dia deveis confrontar-vos. Não tenhais medo! Abristes a porta da vossa casa a Cristo, antes, quisestes construir o vosso lar sobre a rocha da sua Palavra. Cristo salvará as vossas famílias de toda a insídia do maligno.

Tende a peito transmitir às novas gerações aquilo em que acreditais e esperais, acompanhando o seu crescimento para que se tornem pessoas amadurecidas, capazes de despender a vida pelos irmãos e fazer da própria existência um dom sincero ao próximo. Serão assim artífices daquele «humanismo familiar», do qual a sociedade italiana tem urgente necessidade.

Nesse contexto, saúdo também os membros do Movimento Pró-Vida, os quais sei que estão presentes em grande número nesta jornada dedicada à família. Enquanto agradeço de coração a quantos trabalharam com generosidade para o bom êxito deste grande Congresso Eucarístico, invoco sobre o povo de Bolonha, e sobre aqueles que guiam os seus destinos, a constante protecção de Deus e de Nossa Senhora de São Lucas.

A todos a minha saudação e a minha Bênção.

DISCURSO DO PAPA JOÃO PAULO II POR OCASIÃO DA DESPEDIDA DE CASTEL GANDOLFO

26 de Setembro de 1997

Senhor Presidente da Câmara Municipal Senhores Membros da Junta e do Conselho Municipal!

No momento em que me preparo para deixar Castel Gandolfo, retornando ao Vaticano, é-me grato este encontro convosco, que já se tornou tradicional. Ele permite exprimir-vos sentida gratidão por tudo o que a vossa Administração faz por mim e pelos meus colaboradores.

Agradeço-lhe, Senhor Presidente da Câmara Municipal, as amáveis expressões que há pouco quis dirigir-me, interpretando também os sentimentos da inteira Administração Municipal e de todos os habitantes de Castel Gandolfo. Saúdo cordialmente todos os Membros do Conselho Municipal.

Quereria, além disso, fazer chegar, por vosso intermédio, aos vossos concidadãos o meu vivo apreço pela bem conhecida cortesia e a atenção solícita com que me circundam e acompanham a minha actividade ao serviço da Igreja universal.

O Senhor concedeu-me poder transcorrer, também neste ano, dias serenos neste lugar ameno e tranquilo; dias que me consentiram revigorar as forças a fim de prosseguir com maior energia o meu ministério pastoral. Apraz-me também, nesta circunstância, acrescentar uma palavra de reconhecimento pela solicitude com que vos esforçastes por ir ao encontro das múltiplas exigências de quantos, durante os meses estivos, vieram a Castel Gandolfo para me visitar. Agradeço a Deus e sou grato a todos vós, porque tudo se desenvolveu sempre na ordem e na tranquilidade.

Ao despedir-me de vós, é-me grato confiar à vossa consideração a minha iminente peregrinação a Bolonha, para o encerramento do Congresso Eucarístico Nacional, assim como a próxima viagem ao Rio de Janeiro para o Encontro Mundial das Famílias.

Trata-se de momentos de grande relevo para a vida da Igreja, eventos que, sem dúvida, têm repercussão na opinião pública. Os meus ardentes votos são por que eles assinalem etapas de renovado entusiasmo espiritual, não só para os crentes mas para a humanidade inteira. Enquanto caminhamos rumo ao Grande Jubileu do Ano 2000, é mais do que nunca importante que o Evangelho se torne sempre mais farol luminoso de esperança e de amor para o homem contemporâneo e em particular para as famílias.

De coração desejo que em cada uma das vossas famílias cresçam o amor e a concórdia, e nela reine um clima de entendimento e de solidariedade, de maneira que os esforços de cadaum cooperem para a edificação do bem comum. Acompanho estes votos cordiais com a certeza da minha recordação junto do Senhor, para que vos assista com a Sua graça e vos cumule de abundantes consolações.

Com estes sentimentos, concedo-vos de coração, a vós e à inteira população de Castel Gandolfo, a minha Bênção. Ainda neste mesmo dia, o Santo Padre foi saudado pelo Bispo de Albano, pelos sacerdotes e religiosos da comunidade de Castel Gandolfo e pelos Funcionários do Inspectorado de Segurança Pública, que prestaram o serviço de vigilância e de ordem junto da residência estiva do Papa.

MENSAGEM DO PAPA JOÃO PAULO II AOS PARTICIPANTES NA II ASSEMBLEIA PLENÁRIA DA PONTIFÍCIA COMISSÃO PARA OS BENS CULTURAIS DA IGREJA

Senhores Cardeais Venerados Irmãos no Episcopado e no Sacerdócio Ilustres Senhores e Senhoras

1. É-me grato fazer chegar a vós a minha saudação, por ocasião da Segunda Assembleia Plenária da Pontifícia Comissão para os Bens Culturais da Igreja. Agradeço-vos o trabalho que realizais com empenho e dirijo um particular pensamento ao vosso Presidente, D. Francesco Marchisano, com ânimo grato por se ter feito intérprete dos vossos comuns sentimentos. O vosso grupo enriqueceu- se recentemente de novos e qualificados membros, a fim de representar ainda mais a universalidade da Igreja e a diversidade das culturas, através de cujas expressões artísticas se pode bem elevar um multiforme hino de louvor a Deus, que Se revelou em Jesus Cristo. A todos, afectuosas boas-vindas!

O tema do vosso encontro é de grande interesse: «Os bens culturais da Igreja em referência à preparação para o Jubileu». Como eu escrevia na Tertio millennio adveniente , a Igreja, em vista do Jubileu, é convidada a reflectir sobre o caminho percorrido nestes dois milénios de história. Os bens culturais representam uma porção relevante do património, que ela foi progressivamente constituindo em benefício da evangelização, da instrução e da caridade. Enorme, com efeito, foi a incidência do Cristianismo tanto no campo da arte nas suas várias expressões, como no da cultura em todo o seu depósito sapiencial.

A presente Sessão oferece-vos a ocasião propícia para um intercâmbio de experiências sobre quanto se está a organizar, em vista do Jubileu, nas diversas realidades eclesiais, das quais sois autorizados porta-vozes. Ela, além disso, permite-vos recolher sugestões, que poderão ser indicadas aos competentes organismos de cada um dos Países, para o uso que parecer oportuno no contexto das suas peculiares tradições.

Neste primeiro ano de preparação para a histórica ocorrência do Ano 2000, é em particular a contemplação do ícone de Cristo que deve revigorar as forças espirituais dos crentes, para que amem o Senhor e O testemunhem no hoje da Igreja e das culturas, com a coragem da santidade e o génio da arte. As diversas manifestações artísticas, juntamente com as múltiplas expressões das culturas, que constituíram um veículo privilegiado da semeadura evangélica, exigem neste final de milénio uma verificação atenta e uma crítica clarividente, para que se tornem capazes de nova força criativa e ofereçam o seu contributo à realização da «civilização do amor».

2. Os «bens culturais» são destinados à promoção do homem e, no contexto eclesial, assumem um significado específico uma vez que estão ordenados à evangelização, ao culto e à caridade. A sua tipologia é diversificada: pintura, escultura, arquitectura, mosaico, música, obras literárias, teatrais e cinematográficas. Nestas várias formas artísticas se exprime a força criativa do génio humano que, mediante figurações simbólicas, se faz intérprete de uma mensagem que transcende a realidade. Se forem animadas pelo respiro espiritual, essas obras podem ajudar a alma na busca das coisas divinas e podem chegar também a constituir páginas interessantes de catequese e de ascese.

As bibliotecas eclesiásticas, por exemplo, não são o templo de um saber estéril, mas o lugar privilegiado da verdadeira sabedoria que narra a história do homem, glória do Deus vivo, através da labuta de quantos procuraram, nos fragmentos da criação e no íntimo das almas, a marca da substância divina.

Os museus de arte sacra não são depósitos de achados inanimados, mas viveiros perenes, nos quais se transmitem no tempo o génio e a espiritualidade da comunidade dos crentes.

Os arquivos, especialmente os eclesiásticos, não só conservam vestígios de vicissitudes humanas, mas levam também à meditação sobre a acção da Providência divina na história, de maneira que os documentos neles conservados se tornam memória da evangelização operada no tempo e autêntico instrumento pastoral.

Caríssimos, empenhais-vos activamente pela salvaguarda do tesouro inestimável dos bens culturais da Igreja, assim como por conservar a memória histórica de quanto a Igreja fez ao longo dos séculos, e por abri-la a ulteriores desenvolvimentos no campo das artes liberais.

Assumistes o empenho, neste «tempo oportuno» de vigília jubilar, de propor com discrição aos nossos contemporâneos quanto a Igreja realizou no decurso dos séculos na obra de inculturação da fé, e também de estimular com sabedoria os homens da arte e da cultura, a procurarem constantemente o rosto de Deus e do homem com as suas obras .

As inúmeras iniciativas, que estão a ser projectadas em vista do Ano Santo, têm como objectivo ressaltar, graças à contribuição de cada um dos aspectos da arte e da cultura, o anúncio fundamental: «Cristo ontem, hoje e sempre»; Ele é o único Salvador do homem e do homem todo. Deve-se elogiar, por isso, o esforço que a vossa Comissão está a fazer para coordenar o sector artísticocultural, através de um apropriado organismo que avalia as múltiplas propostas de eventos artísticos.

Aos antigos vestígios acrescentam-se os novos areópagos da cultura e da arte, com frequência instrumentos idóneos a estimular os crentes a crescerem na sua fé e a testemunharem-na, com renovado vigor. Dos lugares arqueológicos às mais modernas expressões da arte cristã, o homem contemporâneo deve poder reler a história da Igreja, para ser assim ajudado a reconhecer o fascínio misterioso do desígnio salvífico de Deus.

3. O trabalho confiado à vossa Comissão consiste na animação cultural e pastoral das comunidades eclesiais, valorizando as multíplices formas expressivas que a Igreja produziu e continua a produzir, ao serviço da nova evangelização dos povos.

Trata-se de conservar a memória do passado e de tutelar os monumentos visíveis do espírito, com um trabalho capilar e contínuo de catalogação, de manutenção, de restauração, de custódia e de defesa. É preciso solicitar todos os responsáveis do sector a este empenho de primária importância, para que seja assumido, com a atenção que merece a salvaguarda dos bens da comunidade dos fiéis e da inteira colectividade humana. São bens de todos, e portanto devem tornar-se queridos e familiares a todos.

Trata-se, também, de favorecer novas produções, através de um contacto interpessoal mais atento e disponível com os agentes do sector, de maneira que também a nossa época possa registar obras, que documentam a fé e o génio da presença da Igreja na história. Por isso, as instâncias eclesiásticas locais e as múltiplas associações devem ser encorajadas a fim de se favorecer a colaboração constante e estreita entre Igreja, cultura e arte.

Trata-se, além disso, de pôr em maior evidência o sentido pastoral deste empenho, para que seja percebido pelo mundo contemporâneo, pelos crentes e pelos não-crentes. Para isto, é oportuno favorecer nas Comunidades diocesanas momentos de formação do clero, dos artistas e de todos os interessados nos bens culturais, para que o património da arte seja valorizado inteiramente no campo cultual e catequético.

Louvo, por isso, o vosso esforço de apresentar o contributo dado pelo Cristianismo à cultura dos vários povos, mediante a acção evangelizadora de sacerdotes, religiosos e leigos empenhados. Mesmo poucos séculos de evangelização produziram quase sempre expressões artísticas, destinadas a permanecer determinantes na história dos vários povos.

É oportuno pôr em relevo as mais genuínas formas de piedade popular, com as próprias raízes culturais. É necessário reafirmar a importância dos museus eclesiásticos paroquiais, diocesanos, regionais e das obras literárias, musicais, teatrais ou culturais em geral, de inspiração religiosa, para dar uma feição concreta e desfrutável à memória histórica do cristianismo.

Será útil para este objectivo organizar encontros a nível nacional ou diocesano, em colaboração com centros culturais (Universidades, Escolas, Seminários, etc.), a fim de pôr em evidência o património dos bens culturais da Igreja. Será também útil promover localmente o estudo de personalidades religiosas ou leigas, que deixaram uma marca significativa na vida da nação ou da comunidade cristã; assim como ressaltar os eventos da história nacional, na qual o Cristianismo foi determinante sob vários aspectos e, de maneira marcante, no campo das artes.

4. A animação do Ano Santo através dos bens culturais, efectua-se portanto ad intra, através da valorização do património que a Igreja produziu nestes dois milénios de presença no mundo, e ad extra, através da sensibilização dos artistas, dos cultores e dos responsáveis.

Caríssimos Irmãos e Irmãs, mestra de vida, a Igreja não pode deixar de assumir também o ministério de ajudar o homem contemporâneo a reencontrar a admiração religiosa diante do fascínio da beleza e da sabedoria, que deriva de quanto a história nos transmitiu. Essa tarefa exige um trabalho diuturno e assíduo de orientação, encorajamento e intercâmbio. Reitero-vos, portanto, o meu mais sentido agradecimento por tudo o que fazeis nesse âmbito, e encorajo- vos a prosseguir com entusiasmo e competência neste apreciado serviço à cultura, à arte e à fé. Esta é a vossa contribuição específica para a preparação do Grande Jubileu do Ano 2000, a fim de que a Igreja possa continuar a estar presente no mundo contemporâneo, promovendo toda a válida expressão artística e inspirando com a mensagem evangélica o desenvolvimento das diferentes culturas.

Invoco sobre os trabalhos da vossa Assembleia a assistência divina, enquanto de coração abençoo cada um de vós,assim como todos aqueles que convosco colaboram num sector tão significativo para a vida da Igreja.

Castel Gandolfo, 25 de Setembro de 1997.

JOÃO PAULO II

MENSAGEM DO PAPA JOÃO PAULO II AOS PARTICIPANTES NO XV CAPÍTULO GERAL DOS MISSIONÁRIOS COMBONIANOS DO CORAÇÃO DE JESUS

Ao Reverendíssimo Padre Manuel Augusto Lopes Ferreira Superior-Geral dos Missionários Combonianos do Coração de Jesus

1. Com alegria me dirijo a Vossa Reverência por ocasião do Capítulo Geral, que constitui um momento privilegiado de aprofundamento e crescimento da vida dessa Família religiosa, e de bom grado aproveito o ensejo para lhe exprimir felicitações e bons votos para a tarefa empenhativa a que foi chamado pela confiança dos Coirmãos. O Senhor o assista no desempenho do novo cargo, no qual o acompanha a minha oração.

Saúdo, além disso, os Membros do Conselho Geral e os participantes na assembleia capitular. De coração faço votos por que os intensos trabalhos destes dias produzam abundantes frutos de bem na Comunidade comboniana, a favor da actividade missionária da Igreja. Estendo a minha afectuosa saudação a todos os Missionários combonianos que trabalham, muitas vezes em condições difíceis, em quatro continentes, e encorajo- os a prosseguir com generosa fidelidade no seu empenho de missão «ad gentes».

O XV Capítulo Geral realiza-se entre dois momentos significativos da vida do vosso Instituto: o primeiro é a beatificação do Fundador, D. Daniel Comboni, que tive a alegria de elevar à glória dos altares no ano passado; o segundo é a celebração do Grande Jubileu do Ano 2000, cuja preparação envolve todos os componentes do Povo de Deus. Estes dois eventos estimulam a vossa Congregação religiosa a aprofundar o próprio carisma, para se projectar com renovado impulso na obra da evangelização, na perspectiva do terceiro milénio cristão.

2. Enquanto com alegria louvo o Senhor pelo bem que vós, Missionários combonianos, estais a realizar no mundo, quereria exortar-vos a efectuar um atento discernimento acerca da situação dos povos, no meio dos quais realizais a vossa acção pastoral. Deus chama- vos a levar conforto a populações que muitas vezes estão marcadas por grande pobreza e por sofrimento prolongado e intenso, como por exemplo no Sudão, em Uganda, no Congo-Quinxassa, na República Centro-Africana e em diversas outras partes do globo. Deixaivos continuamente interrogar pelas difíceis situações com que entrais em contacto, e procurai oferecer, de modos adequados, o testemunho da caridade que o Espírito infunde nos vossos corações (cf. Rm 5, 5).

A vida dos Missionários combonianos, repleta de alegrias e sofrimentos, de luzes e sombras, foi marcada e tornou- se fecunda também nestes últimos anos pela Cruz de Cristo. Como não recordar aqui os Coirmãos que coroaram o serviço missionário com o supremo sacrifício da vida?

A sua opção evangélica radical ilumine o vosso empenho missionário e sirva de encorajamento para prosseguirdes, com renovada generosidade, na vossa típica missão na Igreja.

3. Para levar avante esta não fácil missão, é preciso uma sólida e qualificada formação, quer na fase inicial da maturação vocacional dos candidatos, quer nos anos sucessivos.

Para esse objectivo, é necessário ter presente que cresce o número das Nações de onde provêm os jovens Missionários e, ao mesmo tempo, não deve ser subestimada a urgência de uma adequada preparação destas novas gerações, para que sejam capazes de enfrentar as passagens interculturais características da missão comboniana. Deve-se considerar, além disso, a necessidade de um acompanhamento deles nos primeiros anos de serviço no campo missionário, baseando-se no apoio que vem do exemplo e do testemunho de Combonianos experimentados.

Revela-se assim a importância de uma formação permanente, que se dirija indistintamente a todos os membros do Instituto e seja sempre mais vivida como responsabilidade, que cabe em primeiro lugar ao religioso individualmente e à comunidade local.

4. A partir da situação actual do vosso Instituto, considerada «em puro contexto da fé», segundo o ensinamento do Beato Daniel Comboni, será possível propor algumas linhas programáticas, que vos guiem a encarminhar-vos para o futuro com confiança e com impulso apostólico sempre vivo.

Antes de tudo, sabei acolher com alegria os contínuos estímulos à renovação e ao empenho que provêm do contacto real com o Senhor Jesus, presente e operante na missão através do Espírito Santo. Seguindo uma fundamental intuição de D. Comboni, tereis assim a peito o aprofundamento e a reafirmação do carisma específico do vosso Instituto. Isto não deixará de vos impelir a abrir a alma, com disponibilidade e reconhecimento, à graça da vossa missão específica na Igreja, que se caracteriza como uma vocação ad gentes e ad vitam.

A consagração à missão deverá, depois, exprimir-se numa crescente mobilidade apostólica, que vos permita responder com prontidão e de modo adequado às necessidades actuais. Isto vos consentirá estar operosamente presentes nos novos areópagos da evangelização, privilegiando, ainda que isto devesse comportar sacrifícios, a abertura a situações que, com a sua realidade de extrema necessidade, se revelam simbólicas para o nosso tempo.

5. A exemplo do beato Fundador, é urgente imprimir novo impulso à animação missionária. Será sobretudo o fervor apostólico dos próprios Missionários que há-de sustentar as Comunidades cristãs que lhes são confiadas, em particular as de fundação recente. Elas deverão ser por vós encorajadas a realizar a vocação missionária universal, como parte essencial da sua identidade, empenhando-se naquela «solidariedade pastoral orgânica », que indiquei na Exortação Apostólica Ecclesia in Africa (cf. n. 131).

No esforço de requalificação do estilo do serviço missionário, será necessário privilegiar alguns elementos hoje significativos, tais como a sensibilidade à inculturação do Evangelho, o espaço dado à co-responsabilidade dos agentes pastorais, a escolha de formas de presença simples e pobres entre o povo. Atenção especial merecem o diálogo com o Islão, o empenho pela promoção da dignidade da mulher e dos valores da família, a sensibilidade pelos temas da justiça e da paz.

6. O esforço de renovação do Instituto abraça necessariamente a solicitude amorosa pela situação de cada um dos religiosos, a fim de que a sua consagração missionária possa ser cada vez mais fonte de encontro vivificante e santificante com Jesus, cujo Coração trespassado é fonte de consolação, paz e salvação para todos os homens.

Nessa perspectiva, é decisivo aprofundar as raízes místicas da vocação comboniana. Podereis assim nutrir-vos da vossa específica espiritualidade e oferecê-la como dom precioso a todos aqueles de quem vos aproximais no serviço pastoral. Como recordei por ocasião da beatificação de Daniel Comboni, «da contemplação da Cruz e da devoção ao Sagrado Coração de Jesus, o vosso beato Fundador soube haurir apoio e força para enfrentar todas as provas... A sua indefessa obra missionária era sustentada pela oração, na qual ele indicava o primeiro meio de evangelização e de animação missionária» (L’Osservatore Romano, ed. quot. de 18-19 de Março de 1996, pág. 8).

Faço votos por que as orientações elaboradas pelo Capítulo Geral guiem o inteiro Instituto a continuar, com generosidade e determinação, na via traçada pelo Fundador e seguida com coragem heróica por tantos Coirmãos. Com estes sentimentos, enquanto invoco a protecção celeste de Maria, Rainha das Missões, e do Beato Daniel Comboni, de coração concedo aos Delegados capitulares e à inteira Família comboniana uma especial Bênção Apostólica.

Castel Gandolfo, 25 de Setembro de 1997.

JOÃO PAULO II

MENSAGEM DO PAPA JOÃO PAULO II AOS PARTICIPANTES NO XXII CAPÍTULO GERAL DOS MISSIONÁRIOS «CLARETIANOS»

Ao Superior-Geral e aos Padres Capitulares dos Missionários Filhos do Imaculado Coração de Maria

1. É-me muito grato ter este encontro convosco, que estais a concluir o XXII Capítulo Geral, no qual estudastes a vossa participação na missão evangelizadora da Igreja, olhando para o futuro com grande esperança, a fim de viverdes o vosso carisma para o bem das comunidades eclesiais e da humanidade.

Antes de tudo, saúdo com afecto o Padre Aquilino Bocos, reeleito Superior-Geral, aos novos Conselheiros e também a vós, religiosos, que representais todas as Províncias da Congregação, actualmente presente na Europa, na América, na Ásia e em África. Através de vós quero fazer chegar o meu apreço e estima aos demais religiosos que, com as suas orações, pedem pelo feliz e frutuoso resultado dos trabalhos capitulares.

2. A vossa Congregação, mais do que centenária, nasceu por inspiração de Santo António Maria Claret, o qual, depois de ter percorrido durante anos a Catalunha pregando missões populares, foi nomeado Arcebispo de Santiago de Cuba, ministério ao qual se entregou plenamente para a salvação das almas. Quando regressou à Espanha, teve de enfrentar muitos sofrimentos pelo bem da Igreja, até morrer no exílio de Fontfroide (França), em 1870. Apesar disto, a sua vida esteve sempre marcada pela peremptória exortação paulina «O amor de Cristo é que nos impulsiona » (2 Cor 5, 14).

A Igreja tem em grande estima o serviço da Palavra que realizais na missão «ad gentes», em sectores populares e entre marginalizados; na formação de novos evangelizadores, tanto religiosos como seculares; na promoção da vida religiosa; nas tarefas educativas e na renovação de comunidades cristãs; fomentando o diálogo de fé com aqueles que buscam a Deus.

Com isto procurais ser fiéis ao vosso Fundador e Pai, o qual, sentindo que devia doar-se inteiramente aos demais, vos propunha utilizar todos os meios possíveis ao vosso alcance — pastoral, paroquial, publicações, missões populares, pregação de exercícios e retiros espirituais —, no anúncio do Evangelho a todos os povos (cf. Const. CMF, nn. 6 e 48).

Deste modo, com espírito de entrega a Deus, à Igreja e à humanidade, desenvolveis a vossa vocação, dando testemunho de amor a Cristo através da proclamação da Boa Nova e da solidariedade sincera e eficaz, especialmente com os mais pobres, os doentes, as pessoas idosas e os marginalizados.

3. Nestes anos, a proximidade à experiência espiritual de Claret missionário levou-vos a pôr a Palavra de Deus no centro da vossa vida pessoal e comunitária. Como Maria, desejais acolher esta Palavra salvífica no vosso coração, para a meditar e comunicar depois aos ou outros. Certamente, queridos missionários, esta Palavra, viva e eficaz (cf. Hb 4, 12). vos confirmará na vossa vocação, vos consolará e vos dará esperança nas fadigas e sofrimentos (cf. Rm 15, 4) e, ao mesmo tempo, fará frutificar o vosso trabalho pastoral. Ante as dificuldades do vosso ministério, recordai o que vos dizia o Fundador: «Não sereis vós que falareis, mas o Espírito do vosso Pai e da vossa Mãe é que falará em vós» (Aut. 687).

4. É para mim motivo de especial satisfação constatar que, no limiar do Terceiro Milénio, o vosso Capítulo se propôs aprofundar na dimensão profética do Serviço da Palavra. Com isto, ao mesmo tempo que reflectis sobre as orientações e linhas directrizes dos Capítulos anteriores, tendo como centro a figura de Jesus, ungido e enviado pelo Pai para anunciar a Boa Nova aos pobres (cf. Lc 4, 18; Aut. 687), quisestes responder ao apelo que dirigi a todos os consagrados na Exortação Apostólica Vita consecrata (cf. nn. 84-95). O que se espera da Igreja, nesta hora de profundas transformações sociais e culturais, é que a palavra clara e oportuna do enviado seja acompanhada da transparência de vida do «homem de Deus». Quando o sofrimento, a solidão e as exclusões assediam o coração humano, espera-se dos consagrados uma nova e luminosa proposta de amor, através de uma castidade que engrandece o coração, de uma pobreza que elimina barreiras e de uma obediência que constrói comunhão na comunidade, na Igreja e no mundo. Desta maneira a atitude profética levará esperança a todos, porque por meio de vós Deus continuará a visitar o seu povo (cf. Lc 7, 16).

Estais chamados também a ser — em comunhão com os Bispos de cada lugar — «fermento evangélico e evangelizador das culturas do terceiro milénio e dos ordenamentos sociais dos povos» (Homilia na festa da Apresentação do Senhor, 2-II-1992, n. 5). Para isto deveis cultivar uma profunda intimidade com Cristo, mediante a oração, a assídua escuta da sua Palavra e a Eucaristia. Fomentai a formação permanente com o estudo e o discernimento dos desafios da hora presente, e fazei com que o vosso coração seja cada vez mais generoso, para irdes ao encontro do próximo que necessita de amor e de esperança.

O vosso exemplo e a vossa entrega hão-de ser igualmente um convite e estímulo para outros, sobretudo os jovens que, apesar da actual escassez de vocações nalgumas partes, queiram unir-se à comunidade fraterna e missionária, que sois chamados a formar, para deste modo seguirem a Jesus e serem enviados a pregar (cf. Mc 3, 14). Os vossos irmãos, os 51 Beatos Mártires de Barbastro, como tantos outros mártires, «neste mesmo século deram testemunho de Cristo, o Senhor, com a entrega da própria vida» (cf. Vita consecrata , 86). Por isso, peço ao Senhor que o sangue derramado faça germinar a semente de muitas vocações missionárias para a vossa Congregação, as quais deverão contar com bons e santos formadores.

5. Recomendo o vosso Capítulo e a Congregação inteira à Virgem Maria, Mãe de Cristo e da Igreja. Que o seu Coração materno seja para todos escola de íntima adesão a Jesus, de escuta da sua Palavra e de cordial amor a todos os homens. Neste mesmo Coração deveis continuar a inspirar-vos, para anunciardes ao mundo a misericórdia do Senhor e O amardes como Ela O amou. Que a sua intercessão vos sustente também nas diversas obras de apostolado, nas quais estais empenhados. Com estes vivos sentimentos, concedo-vos com afecto, a vós e a todos os Missionários Claretianos, Filhos do Imaculado Coração de Maria, a Bênção Apostólica.

Vaticano, 22 de Setembro de 1997.

JOÃO PAULO II

SAUDAÇÃO DO PAPA JOÃO PAULO II AOS MEMBROS DA «PALESTINIAN AUTHORITY»

22 de Setembro de1997

Distintos Membros da «Palestinian Authority»

É para mim uma alegria particular receber- vos neste dia e saudar, por meio de vós, as vossas Autoridades e o inteiro Povo palestino.

Pensar neste querido povo é sempre, infelizmente, pensar numa triste realidade: a injustiça, a violência e o medo do futuro ainda constituem o pão quotidiano dos vossos irmãos e irmãs.

A Santa Sé e o Papa jamais deixaram de elevar a própria voz a fim de que ninguém se esqueça das tragédias, que marcaram a vossa história e os vossos sofrimentos. Ninguém pode desinteressar- se do destino de tantos irmãos e irmãs em humanidade, cujos direitos com muita frequência não são reconhecidos, antes, tantas vezes são violados. A Santa Sé em várias ocasiões invocou também a segurança para o Estado de Israel, profundamente convicta de que segurança, justiça e paz caminham a par e passo.

Quereria, mais uma vez, recordar a todos os que vivem no Médio Oriente e a todos os que ali exercem qualquer responsabilidade política, social ou religiosa, que um processo de paz foi posto em acto, que a via da reconciliação foi traçada, que povos expressaram o seu desejo de justiça e que famílias inteiras esperam um futuro de paz para os seus filhos.

Mais do que a simples razão humana ou os interesses políticos, é Deus mesmo que pede a cada um a coragem da fraternidade, do diálogo, da perseverança e da paz!

A Ele imploro que abençoe todos aqueles que vós representais e a todos os que vivem sobre aquela terra que, para nós, continua a ser «Terra Santa».

DISCURSO DO PAPA JOÃO PAULO II AOS OFICIAIS E SUBOFICIAIS DO 31° ESQUADRÃO DA AERONÁUTICA MILITAR ITALIANA

Domingo, 21 de Setembro de 1997

Caríssimos Oficiais e Suboficiais do 31° Esquadrão da Aeronáutica Militar!

1. Sinto-me particularmente feliz de vos acolher neste dia, juntamente com os vossos familiares. A tradicional e cordial saudação, que nesta circunstância costumais apresentar-me, oferece-me o ensejo para vos manifestar gratidão pelo atento e pontual serviço que garantis ao Papa, nos seus deslocamentos aéreos em todo o território italiano.

Em particular agradeço-lhe, Senhor Coronel, o significativo dom e as amáveis expressões com que quis fazer-se intérprete dos sentimentos dos presentes. Pelas suas palavras tomo conhecimento que é iminente a conclusão do seu serviço de Comandante do 31° Esquadrão. Enquanto lhe manifesto vivo apreço pela obra realizada e pela cortês disponibilidade constantemente demonstrada, formulo ardentes votos para as novas responsabilidades que lhe serão confiadas.

2. Como gesto de reconhecimento para com o inteiro Esquadrão, desejo agora condecorar alguns de vós com Honorificências Pontifícias, em sinal de apreço e de estima.

A delicada tarefa que sois chamados a exercer oferece-vos muitas vezes a possibilidade de vos afastardes fisicamente da terra e de voardes nos céus abertos, onde o olhar vagueia longe e onde é dado imergir-se numa atmosfera límpida e pura. Essa experiência ajuda a olhar as coisas com olhos diferentes e a libertar-se de uma visão estreita das vicissitudes quotidianas. Ela convida, além disso, a considerar a grandeza de Deus, que a fé localiza simbolicamente no céu, ainda que afirme que o universo inteiro é incapaz de conter a Sua imensidade.

Indicando o céu, a Igreja exorta cada homem a considerar com respeitoso desprendimento, embora no cuidado amoroso, as coisas do mundo que passa, tendo sempre presente, na mente e no coração, a comum e definitiva pátria celeste, onde se encontra Cristo, sentado à direita do Pai.

Caríssimos, ao abraçardes os amplos horizontes do céu, cultivai em vós estes sentimentos de fé que sugerem a atitude justa, com que devem ser enfrentadas as realidades terrenas. Deus vos ilumine sempre e vos proteja em todas as vossas intervenções.

Ao confiar-vos e aos vossos entes queridos à materna protecção da Bem-aventurada Virgem de Loreto, Padroeira dos Aviadores, de coração concedo a vós e às vossas famílias a Bênção Apostólica.

DISCURSO DO PAPA JOÃO PAULO II AOS PARTICIPANTES DE UM SEMINÁRIO PROMOVIDO PELA CONGREGAÇÃO PARA A EVANGELIZAÇÃO DOS POVOS

Sexta-feira, 19 de Setembro de 1997

Senhor Cardeal Estimados Irmãos no Episcopado

1. No termo de uma sessão intensa, destinada à informação e à reflexão sobre os múltiplos aspectos do vosso múnus episcopal, estou feliz por vos receber. A minha gratidão dirige-se ao Senhor Cardeal Jozef Tomko e aos colaboradores da Congregação para a Evangelização dos Povos que organizaram estas semanas de reflexão. Saúdo cordialmente todos vós, na maioria Bispos da África, mas de igual modo da América Latina e da Oceânia. O meu pensamento dirige-se também aos vossos coirmãos do Vietnã que esperávamos, mas que infelizmente não puderam reunir-se connosco.

2. Sinto-me feliz por este encontro, pois manifesta o affectus collegialis que une os Pastores da Igreja universal à volta do Bispo de Roma. Durante as vossas jornadas de estudo, pudestes renovar a vossa consideração acerca dos diversificados aspectos do ministério que vos é próprio. É verdade que às vezes ele pode parecer-vos árduo de suportar na sua complexidade. Quereria encorajar-vos a enfrentá-lo, em nome do Espírito Santo que vos foi concedido aquando da vossa Ordenação episcopal. O Bispo que vos conferiu a plenitude do sacramento da Ordem rezou ao Senhor da seguinte forma: «Derramai sobre aquele que escolhestes a força que provém de Vós, Espírito soberano que Vós destes ao Vosso Filho bem-amado» (Ritual das Ordenações, n. 47).

A missão episcopal possui uma grande amplitude; sob o ponto de vista humano, é praticamente impossível. Todavia, se requer um investimento total da vossa pessoa, vós não sois deixados sem apoio. É no Espírito de Cristo que vos tornais servos do seu Corpo que é a Igreja, a Igreja particular confiada a cada um, e a Igreja universal, com o Sucessor de Pedro, «fundamento perpétuo e visível da unidade de fé e de comunhão » (Lumen gentium, 18).

3. Convido-vos a meditar com frequência a mensagem do Novo Testamento sobre o Espírito Santo, particularmente o que os Apóstolos João e Paulo dizem acerca d'Ele. Servir-vos-á sempre de conforto voltar a descobrir a riqueza das dádivas do Espírito. É de bom grado que vos dirijo as palavras de São Paulo: «Mantende entre vós laços de paz, para conservar a unidade do Espírito. Há um só corpo e um só Espírito » (Ef 4, 3-4). Com efeito, é graças ao Espírito que constituís o fundamento da unidade na comunidade diocesana, da unidade do presbitério e da unidade de todos os baptizados: «Há um só Senhor, uma só fé, um só baptismo» (Ibid. 4, 5). Discernindo a presença do Espírito na diversidade das pessoas e das situações, procurai sempre confirmar a unidade da diocese, começando por mostrar uma solicitude constante para com os sacerdotes, vossos imediatos colaboradores. Disponíveis à acção de Deus neles (cf. Fl 2, 13), todos se consagrem inteiramente à missão comum, cada um no seu papel de ministro, de pessoa consagrada ou de fiel leigo!

4. No diálogo de Jesus com os Apóstolos após a Ceia, é grande a insistência sobre a promessa do Espírito: «Quando vier o Espírito da Verdade, Ele vos encaminhará para toda a verdade» (Jo 16, 13). É n'Ele que se funda o seu ministério de anúncio da Boa Nova, de ensinamento da doutrina da salvação. Como sucessores dos Apóstolos, vós deveis promover, e às vezes defender, a autenticidade da mensagem cristã. Na realidade, a verdadeira referência, através de toda a Tradição da Igreja e do seu Magistério, é o Espírito que nos abre à compreensão da verdade revelada de modo integral no Filho encarnado. Ao pordes-vos pessoalmente à Sua escuta, tanto na oração como mediante o estudo, estareis ainda mais certos e convencidos de ser dóceis ao Espírito

5. «O amor de Deus — é o que nos diz São Paulo — foi derramado em nossos corações pelo Espírito Santo que nos foi dado» (Rm 5, 5). Habitados pelo Espírito, consagrai todo o vosso ministério à prática do mandamento novo que coroa o ensinamento do Senhor (cf. Jo 13, 34). Arrebatados pelo amor indissolúvel por Deus e pelos homens, animai incansavelmente o serviço da caridade, a partilha em favor dos mais desvantajados, o socorro aos marginalizados ou aos desesperados, o apoio aos lares que devem amadurecer o próprio amor reconhecendo nele o dom de Deus, uma pastoral repleta de afecto pelos jovens a educar, os progressos de reconciliação quando se manifestam oposições, bem como o diálogo com os irmãos e as irmãs de outras tradições religiosas. Assim a presença do Espírito, manancial de esperança, tornar-se-á evidente através da vossa acção.

6. Estimados Irmãos que viveis os primeiros anos do vosso episcopado, mediante estas breves reflexões, desejo antes de mais encorajar-vos a servir «sob o regime novo do Espírito» (Rm 7, 6) o povo de Deus que tendes o encargo de guiar e ensinar, e que conta convosco «como bons administradores da graça que Deus vos concedeu» (1 Pd 4, 10). Apoiai-vos incessantemente no Paráclito, consolador e defensor. Ele há-de vos sustentar, transmitindo todo o seu dinamismo à vossa missão de evangelizadores. Nas vossas Igrejas particulares, no meio das vossas greis, a tarefa é imensa. O Papa confia em vós para continuardes com o vigor do Espírito de verdade e de amor.

Invocando para vós e para todos os fiéis das vossas dioceses a intercessão da Virgem Maria e dos Santos Apóstolos, concedo-vos do íntimo do coração a Bênção Apostólica.

DISCURSO DO PAPA JOÃO PAULO II AOS BISPOS DO SUDÃO POR OCASIÃO DA VISITA «AD LIMINA APOSTOLORUM»

18 de Setembro de 1997

Caros Irmãos no Episcopado

1. Ao dar-vos as boas-vindas, Bispos do Sudão, por ocasião da vossa visita ad limina Apostolorum, recordo a minha visita ao vosso País há quatro anos. Com grande alegria e satisfação fui a Cartum, ainda que não fosse possível visitar outras áreas, pois para mim era importante dirigir a mensagem de reconciliação e de esperança, a mensagem que está no centro do Evangelho, ao inteiro povo sudanês, sem distinções de religião ou de origem étnica. Senti-me particularmente feliz pela oportunidade de oferecer encorajamento aos habitantes do vosso país, que são filhos e filhas da Igreja, e cuja mais profunda aspiração é viver em paz e trabalhar juntamente com os seus concidadãos, para edificar uma sociedade melhor para todos. Ao dar graças a Deus por me ter permitido aquela visita, estou grato também «pela graça que Ele vos concedeu em Jesus Cristo..., o Qual vos confirmará até ao fim» (1 Cor 1, 4.8).

2. Infelizmente, o Sudão ainda se encontra em estado de grande agitação. O tormento de uma guerra civil que causou indizível miséria, sofrimento e morte, sobretudo no Sul, continua a afligir a terra e a tirar a vida e as energias do vosso povo. As vossas comunidades são profundamente atingidas pela ruptura das boas relações que deveriam existir entre cristãos e muçulmanos. Apesar da pobreza do vosso povo e da sua consequente debilidade em relação aos padrões mundiais, o Senhor não vos abandonará. Através do Profeta Isaías, Ele continua a dizer-vos: «Eu nunca vos esquecerei » (Is 49, 15).

O Senhor ouve a voz das vítimas inocentes, dos fracos e dos indefesos que O invocam para receber auxílio, justiça e respeito pela dignidade de seres humanos, que Deus lhes conferiu, pelos seus direitos humanos fundamentais, pela liberdade de professarem e praticarem a sua religião, sem temor nem discriminação. A fé cristã ensina-nos que as nossas orações e os nossos sofrimentos se unem aos do próprio Cristo que, como Sumo Sacerdote do povo santo de Deus, entrou no Santuário para interceder por nós (cf. Hb 9, 11-12). Como fez certa vez sobre a terra, assim agora da casa do Pai Ele nos diz: «Vinde a Mim, todos os que estais cansados e oprimidos e aliviar-vos-ei» (Mt 11, 28). Enquanto as palavras do Seu convite ressoam nos nossos ouvidos, Ele acrescenta: «Aprendei de Mim, que sou manso e humilde de coração, e achareis alívio para as vossas almas» (Mt 11, 29).

Estas são as palavras de Cristo, o único que conhece o Pai e o único a ser conhecido pelo Pai como Filho Unigénito. Repito hoje estas palavras a vós, Bispos do Sudão, e por meio de vós a todos os fiéis confiados à vossa solicitude. Como escrevi no ano passado às Dioceses do Sudão Meridional: «Sabei que o Sucessor de Pedro está próximo de vós e pede a Deus por vós, para que tenhais a força de prosseguir o caminho “enraizados e edificados sobre Jesus Cristo” (cf. Cl 2, 7)» (Mensagem aos católicos do Sudão Meridional, 24 de Outubro de 1996, em: ed. port. de L'Osservatore Romano de 7 de Dezembro de 1997, pág. 4). Renovo estes sentimentos e encorajo- vos a permanecer firmes e a não desanimar. O Senhor está ao vosso lado! Jamais vos abandonará. A Igreja inteira ora por vós!

3. Apesar das graves dificuldades e sofrimentos que a comunidade cristã está a enfrentar, a Igreja no Sudão continua a crescer, com muitos sinais de vitalidade. Com o salmista exclamamos: «Isto se fez por obra do Senhor, e é um prodígio aos nossos olhos» (Sl 118, 23). É verdadeiramente como disse o Senhor: «Basta-te a Minha graça, porque é na fraqueza que a Minha força se revela totalmente» (2 Cor 12, 9). Por esta razão, com São Paulo, vós sois capazes de aceitar as fraquezas, os insultos, as dificuldades, as perseguições e as calamidades, pois quando nos sentimos fracos, então é que somos fortes (cf. 2 Cor 12, 10).

Na actual situação política e social podeis facilmente permanecer isolados uns dos outros. Por este motivo deveis aproveitar todas as ocasiões para dar expressão à responsabilidade colegial e à comunhão que vos unem no serviço da única «família de Deus» (Ef 2, 19). Exorto- vos a fazer todo o possível para promover entre vós um autêntico espírito de confiança recíproca e de cooperação, a fim de poderdes desenvolver — conforme permitirem as difíceis circunstâncias — um plano comum de iniciativas pastorais para enfrentar os graves desafios presentes. Essas iniciativas incluem a solicitude pastoral em áreas sem sacerdotes, a evangelização e a oferta de uma catequese e de uma formação cristã adequadas, a promoção da celebração do Sacramento do Matrimónio entre os fiéis e o revigoramento da vida familiar. Quanto mais conseguirdes identificar as necessidades comuns nas vossas Dioceses e coordenar programas conjuntos para satisfazer essas necessidades, tanto mais os vossos ministros, individualmente, como guias e Pastores de almas, se tornarão eficazes. É de igual modo urgente que a Conferência garanta a responsável administração dos recursos, quer internos quer provenientes de doadores ou de benfeitores do estrangeiro.

Não posso deixar de exprimir o meu apreço por tudo o que estais a fazer, para defender e fortalecer a fé dos vossos irmãos e irmãs católicos; em particular desejo encorajar os diversos esforços e programas em vista de satisfazer as necessidades dos muitos refugiados e das pessoas deslocadas. O «Sudanaid», fundo assistencial administrado pela vossa Conferência Episcopal, fornece ajuda e alívio aos que sofrem e já obteve ampla estima. Não obstante os severos limites encontrados, a Igreja, contudo, é capaz de prosseguir de modo corajoso a sua missão de serviço.

4. Os vossos colaboradores imediatos na edificação do Corpo de Cristo são os sacerdotes, tanto diocesanos como religiosos, sudaneses e missionários. Eles consagraram-se a este serviço e por Deus vos foram dados. Todos os sacerdotes receberam um chamado, submetido à prova e discernimento durante os anos de preparação que precedem a ordenação sacerdotal. Depois de terem orado com confiança na graça infalível de Deus, decidiram renunciar à possibilidade de ter uma casa, uma esposa, filhos, uma posição social e riquezas (cf. Mt 19, 29). E não o fizeram de má vontade, mas com alegria, para servirem o Reino e se dedicarem aos seus irmãos e irmãs em Cristo. Uno-me a vós ao pedir a Jesus, Sumo Sacerdote, que conceda aos vossos sacerdotes a graça e a perseverança — e a alegria íntima — que provêm da fidelidade às exigências da sua vocação.

Visto que a configuração sacramental a Cristo, Pastor e Cabeça da Igreja, não pode estar separada do seguimento quotidiano do Seu exemplo de amoroso dom de Si, todos os sacerdotes são chamados a cultivar um autêntico ascetismo. Para permanecerem fiéis ao dom do celibato em perfeita continência, é essencial — como afirma o Concílio Vaticano II — que orem com humildade, recorram constantemente a todas as ajudas de que dispõem para este fim e observem as prudentes normas de autodisciplina recomendadas pela longa experiência da Igreja (cf. Presbyterorum ordinis, 16). A respeito da solidão que às vezes pode acompanhar o ministério pastoral, os vossos sacerdotes deveriam ser encorajados, na medida em que consente a situação local, a viver em comum e a dirigir os seus esforços inteiramente ao sagrado ministério. Deveriam reunir-se, o mais frequentemente possível, para um intercâmbio fraterno de ideias, conselhos e experiências (cf. Pastores dabo vobis, 74).

Também os seminaristas continuam a ser uma das vossas principais prioridades. É fundamental que os futuros ministros do Evangelho sejam não só bem instruídos academicamente, mas também, a nível mais profundo, totalmente dedicados ao cuidado das almas, desejosos de guiar os próprios irmãos e irmãs ao longo das vias da salvação. Aqueles que se empenham na formação devem ser capazes de assistir os candidatos no seu crescimento para a nova «identidade », conferida no momento da Ordenação. Eles mesmos deveriam ser modelos exemplares de conduta sacerdotal. Devem ser claros acerca do comportamento que se espera dos candidatos ao sacerdócio, uma vez que seria uma injustiça permitir aos seminaristas encaminhar- se para a Ordenação se não tivessem, interior e conscientemente, assimilado as exigências objectivas do múnus que deverão exercer.

5. Na obra de edificação do Reino de Deus, as religiosas e os religiosos desempenham um papel vital nas vossas Igrejas locais. Os sacerdotes missionários, as religiosas e os religiosos que compartilham convosco o peso da obra pastoral das vossas Dioceses, são contemporaneamente servidores corajosos do Evangelho e, com a sua presença e generosa dedicação, são uma grande fonte de encorajamento para os fiéis. Neles se percebem efectivamente a universalidade da Igreja e a solidariedade que caracteriza a comunhão entre as Igrejas particulares.

No Sudão, onde simplesmente não há bastantes sacerdotes para anunciar o Evangelho e exercer o ministério pastoral, os catequistas desempenham um papel essencial para satisfazer as necessidades espirituais das vossas comunidades. Portanto, eles têm necessidade de uma profunda consciência da própria função e deveriam ser ajudados de todos os modos, a fim de assumirem a própria responsabilidade e as obrigações para com as suas famílias.

6. Não obstante as numerosas dificuldades que deve enfrentar, a Igreja no Sudão empenha-se de maneira activa no sector da educação. As escolas católicas gozam de uma boa reputação e oferecem um alto nível de ensino, razão por que muitos procuram matricular nelas os próprios filhos. A solicitude da Igreja pela formação moral e cívica dos jovens e dos adultos, ministrada durante cursos nocturnos organizados em muitas das vossas escolas paroquiais, constitui um contributo ainda mais importante para o futuro da comunidade cristã e da sociedade em geral. Esta actividade educativa pode contribuir de maneira determinante para superar as tensões étnicas, pois reúne pessoas de diferentes formações tribal e social.

Dado que a lei local torna obrigatória a educação nas escolas públicas, a Igreja do Sudão tem necessidade de assegurar que os estudantes católicos possam valer-se desta oportunidade e, portanto, deve designar professores católicos adequadamente formados para apresentar a fé aos estudantes católicos. Os vossos Sacerdotes e membros das Comunidades religiosas são particularmente idóneos para esta tarefa e deveriam receber o encorajamento e a preparação necessária para empreender este importante apostolado.

Durante a minha visita a Cartum, em 1993, expressei a esperança de que chegue uma nova era de diálogo construtivo e de boa vontade entre os cristãos e os muçulmanos. O diálogo inter-religioso não é uma tarefa fácil nem sequer nos melhores períodos. No vosso País ele é um acto corajoso de esperança para um Sudão melhor e para um futuro melhor para os seus povos. Como fiz notar na minha Exortação Apostólica pós-sinodal Ecclesia in Africa , um conceito essencial do diálogo entre cristãos e muçulmanos deveria ser o princípio da liberdade religiosa, com tudo aquilo que ela implica, inclusive as manifestações exteriores e públicas de fé (cf. n. 66). Exorto-vos a continuar os vossos esforços para instaurar e desenvolver esse diálogo a todos os níveis.

7. Caros Irmãos no Episcopado, sem dúvida as circunstâncias em que vos encontrais a exercer o vosso ministério pastoral são extremamente difíceis. Os pensamentos que compartilho convosco hoje querem ser uma fonte de encorajamento, enquanto procurais «confirmar muitos na fé, fortalecer os que vacilam e chamar de novo aqueles que se desviaram no caminho» (Carta Pastoral dos Bispos sudaneses, He Should Be Supreme in Every Way, Outubro de 1995). Os cristãos do Sudão estão todos os dias nos meus pensamentos e nas minhas orações. A Igreja inteira sente uma profunda solidariedade com as vítimas da injustiça, do conflito e da carestia, com o flagelo dos refugiados e das pessoas deslocadas, com os sofrimentos dos doentes e dos feridos. Cada um de nós, Bispos, sacerdotes, religiosos, religiosas e leigos, é chamado a ser um só com o mistério pascal da Morte e da Ressurreição de Nosso Senhor, a passar da morte à vida, a aceitar os sofrimentos que nos purificam e nos ajudam a viver aquilo que é deveras essencial: a mensagem evangélica de Jesus Cristo que nos assegura: «Eu venci o mundo» (Jo 16, 33).

Confio-vos, assim como a Igreja no Sudão, à intercessão da Beata Josefina Bakhita e do Beato Daniel Comboni, Padroeiros celestes, cuja vida e testemunho do Evangelho estão de modo tão íntimo ligados à vossa terra, e invoco sobre todos vós os dons divinos de esperança e de fé. Em penhor de paz e de força no Senhor, concedo de coração a minha Bênção Apostólica.

SAUDAÇÃO DO PAPA JOÃO PAULO II A UM GRUPO DE PARTICIPANTES NA PEREGRINAÇÃO DO SENEGAL

Sábado, 13 de Setembro de 1997

Caros peregrinos do Senegal

É com prazer que vos acolho, no termo da vossa peregrinação nacional. Saúdo cordialmente D. T.-A. Sarr, Bispo de Kaolack e Presidente da Conferência Episcopal, que guia a vossa caminhada.

O vosso itinerário conduziu-vos a três lugares importantes. A etapa central do vosso périplo foi a visita à Terra Santa, que permanece uma fonte e uma referência essencial, a terra do povo eleito, a terra onde Se encarnou o Filho de Deus, na qual Ele anunciou o Evangelho e cumpriu o acto fundamental da nossa Redenção. Espero que, ao retorno desta peregrinação seguindo os passos de Jesus, vos apresenteis de novo revigorados na fé no único Mediador entre Deus e os homens, e no Espírito do Pentecostes que, a partir do Cenáculo de Jerusalém, lançou o grande movimento da evangelização.

Em Fátima, honrastes a Mãe do Senhor, Ela que esteve presente nos momentos essenciais da missão messiânica de Cristo e nos acompanha ao longo da história da Igreja. Nela nos é proposto o mais belo modelo da fé e da oração. Oxalá a vossa meditação do rosário seja enriquecida pela vossa peregrinação!

A oração junto dos túmulos de Pedro e de Paulo dá todo o seu alcance da vossa vinda a Roma. O martírio dos Príncipes dos Apóstolos fez desta Cidade o centro da Igreja universal, centro da unidade da fé e da missão. Que a intercessão dos Santos Pedro e Paulo vos ajude a tomar toda a vossa parte na vida das vossas dioceses, em comunhão com a Igreja inteira!

Ao agradecer-vos a vossa visita, uno-me à vossa oração pela Igreja no Senegal, pelas vossas famílias e por todo o vosso povo. De todo o coração, dou-vos a Bênção Apostólica.

DISCURSO DO PAPA JOÃO PAULO II AOS BISPOS DA ETIÓPIA E DA ERITREIA POR OCASIÃO DA VISITA «AD LIMINA APOSTOLORUM»

12 de Setembro de 1997

Senhor Cardeal Caros Irmãos Bispos

1. É para mim motivo de grande alegria dar as boas-vindas a vós, Bispos da Igreja da Etiópia e da Eritreia, por ocasião da vossa visita «ad limina Apostolorum »: «Graça e paz vos sejam dadas da parte de Deus, nosso Pai, e do Senhor Jesus Cristo» (Rm 1, 7). A antiga prática de «vir consultar Pedro» é uma reminiscência da visita que o apóstolo Paulo fez a Jerusalém, para passar ali algum tempo com Pedro (cf. Gl 1, 18), que o Senhor tinha constituído em «Rocha» sobre a qual construir a sua Igreja. No abraço fraterno de Pedro e Paulo, a primeira comunidade cristã leu o dever de tratar os pagãos convertidos por Paulo, como verdadeiros irmãos e irmãs na fé. Ao mesmo tempo, na narração de Paulo acerca da abundante efusão de graça sobre estes novos irmãos, a inteira comunidade encontrou razões cada vez mais claras para louvar a infinita misericórdia de Deus (cf. Act 15, 16 ss.). De modo análogo, este nosso encontro colectivo de hoje reafirma a comunhão das vossas Igrejas particulares com o Sucessor de Pedro e com a Igreja universal. Assim, reunidos em íntima comunhão de coração, podemos unir as nossas vozes ao cântico do salmista: «Do Egipto virão os grandes e a Etiópia estenderá as mãos para o Senhor. Reinos da terra, louvai o Senhor, cantai salmos a Javé» (Sl 68, 32-33).

2. Caros Irmãos no Episcopado, ambos os vossos Países nestes últimos tempos foram submetidos a amplas transformações políticas e culturais. Entre as mais significativas, quero recordar o desenvolvimento de formas democráticas de governo e o empenho de favorecer o crescimento económico e o progresso tecnológico nas vossas sociedades tradicionais. Compartilho convosco a preocupação pastoral pelo desenvolvimento pacífico dos vossos povos, não só em termos de progresso material, mas sobretudo em relação à genuína liberdade política, à harmonia étnica e ao respeito pelos direitos de todos os cidadãos, com particular atenção às situações das minorias e às necessidades dos pobres. A questão que está diante de vós neste momento, à luz da situação que tomais em consideração na vossa Carta Pastoral Thy Kingdom Come, publicada no início deste ano, pode ser assim formulada: como pode o Evangelho ser encarnado nas circunstâncias actuais? Como podem a Igreja e os cristãos individualmente enfrentar do melhor modo os problemas decisivos que encontram, se querem construir um futuro melhor para si mesmos?

Uma resposta a estas perguntas pode ser encontrada nos próprios objectivos que, como Pastores das Igrejas locais da Etiópia e da Eritreia, vos propusestes: transformar a humanidade a partir de dentro, renovar a inocência do coração do homem e, como foi recomendado pela Assembleia Especial do Sínodo dos Bispos para a África, construir a Igreja como família (cf. Thy Kingdom Come, Carta Pastoral dos Bispos católicos da Etiópia e da Eritreia, n. 6). Precisamente este último empenho oferece uma chave importante para a realização dos dois primeiros, pois como os Padres sinodais reconhecem, a Igreja como família de Deus é «uma expressão da natureza da Igreja particularmente apropriada para a África. Com efeito, a imagem acentua a atenção pelo outro, a solidariedade, as calorosas relações de acolhimento, de diálogo e de mútua confiança» (Ecclesia in Africa , 63). De facto, quando a evangelização consegue construir a Igreja como família, torna-se possível uma autêntica harmonia entre diferentes grupos étnicos, é evitado o etnocentrismo e a reconciliação é encorajada, uma solidariedade maior e a partilha dos recursos entre o povo e entre as Igrejas particulares tornam-se uma realidade.

3. A Exortação Apostólica pós-sinodal Ecclesia in Africa , que constitui uma espécie de plano pastoral geral para o vosso continente, ressalta a importância de envolver de maneira efectiva os leigos na vida da paróquia e da diocese, na pastoral e nas estruturas administrativas (cf. n. 90). Com efeito, os leigos «por força da sua condição baptismal e da sua vocação específica, na medida própria a cada um, participam no múnus sacerdotal, profético e real de Cristo » (Christifideles laici , 23). É necessário, portanto, assegurar aos leigos uma adequada formação, que os torne capazes de responder de maneira eficaz aos enormes desafios que devem enfrentar, como seguidores de Cristo e como cidadãos de países que lutam pelo desenvolvimento.

O Catecismo da Igreja Católica é um instrumento muito precioso para esta formação e evangelização em geral. Agora que possuís a sua tradução em amárico, e enquanto estais a trabalhar na tradução em triguínia, encorajo-vos a fazer com que o maior número possível de pessoas possa aproximar-se do texto: é preciso favorecer uma suficiente disponibilidade de casais especialmente para as pequenas comunidades cristãs, que tanto contribuem para o revigoramento da vida eclesial. Os Padres sinodais reconheceram que «a Igreja-Família só poderá oferecer plenamente a sua medida de Igreja, se se ramificar em comunidades suficientemente pequenas para permitir estreitas relações humanas » (Ecclesia in Africa , 89). Na tradição etíope, as associações «Mehaber» são uma expressão muito válida destas comunidades e, como vós mesmos reconheceis na vossa Carta Pastoral, o valor e o dinamismo destes grupos «pode ter uma influência muito positiva na evangelização de (...) famílias, aldeias e comunidades paroquiais» (Thy Kingdom Come, n. 32).

4. No contexto de uma abertura aos desafios do futuro, a atenção aos jovens permanece de importância primordial e deve continuar a ocupar um lugar preeminente no vosso ministério pastoral. «O futuro do mundo e da Igreja pertence às gerações jovens (...), Cristo espera grandes coisas dos jovens» (cf. Tertio millennio adveniente , 58). A recente celebração da XII Jornada Mundial da Juventude em Paris foi uma clara confirmação da capacidade dos jovens de empenhar as próprias energias e o próprio entusiasmo, em função das exigências da solidariedade com os outros e também da procura de uma autêntica santidade cristã. A inteira comunidade católica deve preocupar-se por assegurar que as jovens gerações sejam treinadas de modo eficaz e preparadas adequadamente, para cumprir as responsabilidades que um dia pesarão sobre si e que, em alguma medida, desde já lhes são próprias. Estais a fazer tudo isto através de um forte empenho pela formação dos jovens, em particular mediante o notável esforço a que vos submeteis nas vossas escolas católicas, e noutras formas de serviço social e de assistência médica. Sei que o apoio às escolas requer da vossa parte um grande sacrifício. Mas é tarefa que se revela essencial para a vida da Igreja e assegura uma vantagem capital, tanto para as famílias como para a própria sociedade. É também importante continuar a procurar modos adequados para proporcionar o benefício de uma moral sã e do ensino religioso às escolas públicas, como já se faz na Eritreia, promovendo na opinião pública o consenso sobre a importância dessa formação. Este serviço, que pode derivar duma cooperação mais estreita com os respectivos governos, é uma forma significativa de activa participação católica na vida social dos vossos países, especialmente porque é oferecida sem discriminação religiosa ou étnica e no respeito pelos direitos de todos.

Com efeito, a universalidade, que é uma característica essencial da Igreja (cf. Catecismo da Igreja Católica, nn. 881 e 830 ss.), e que impele a uma partilha de bens, tanto materiais como espirituais, é também uma condição de eficácia do vosso ministério. A universalidade e a compartilha manifestam-se de modo muito claro no intercâmbio de pessoal religioso: sacerdotes e religiosos etíopes e eritreus que prestam serviço pastoral aos seus irmãos e irmãs em terras estrangeiras, e sacerdotes e religiosos de países estrangeiros, que oferecem os seus talentos e a sua solidariedade à Etiópia e à Eritreia, sintonizando-se com uma Igreja que é justamente orgulhosa das suas antigas tradições e da sua cultura. As Constituições de ambos os países reconhecem o direito fundamental à liberdade de religião e à prática religiosa. Espero que um ulterior diálogo com as autoridades civis, para esclarecer as bases jurídicas da presença e da actividade da Igreja, traga grande benefício a cada um, e ouso esperar que a cooperação dos missionários, que contribuem de modo tão eficaz para o bem-estar e o progresso dos vossos povos, seja assim facilitada.

5. As comunidades católicas, das quais sois pastores, vivem lado a lado e em estreita relação com os irmãos e as irmãs da Comunidade Ortodoxa Etíope, que são a maioria. Ambas as comunidades compartilham raízes comuns e uma mesma espiritualidade que deriva da antiquíssima e rica tradição cristã presente nas vossas terras. A perspectiva do aniversário do segundo milénio do Nascimento do Salvador deve constituir um convite para todos a fazerem da reflexão sobre esse comum património cristão, que por si mesmo é fonte de respeito e de compreensão recíproca, a ocasião para um diálogo mais vasto e uma cooperação mais ampla. Como irmãos e irmãs que aderem a um único Senhor, deveis constantemente procurar construir entre vós a comunhão, para oferecerdes um concorde testemunho do mistério de Cristo e da sua Igreja. Uma sábia e ordenada inculturação da liturgia «deverá ser prosseguida..., a fim de que o povo fiel possa melhor compreender e viver as celebrações litúrgicas» (Ecclesia in Africa , 64). Além disso, deverão continuar os esforços para adquirir uma compreensão mais profunda da história e do desenvolvimento do rito alexandrino, de maneira que a comum tradição cristã da região possa contribuir no caminho rumo à unidade, tanto no interior da Comunidade católica, como com as outras Igrejas.

Ao mesmo tempo, o aspecto missionário da Igreja, que não é uma questão de rito mas está directamente arraigada no Evangelho, deverá ser renovado sob o impulso que provém do desejo de anunciar Cristo àqueles que ainda não crêem n’Ele. O dever de evangelizar é parte integrante da identidade católica e não deve ser comprometido por uma incompleta compreensão da inculturação ou do ecumenismo. O Sínodo reconhece a urgência de levar a Boa Nova a milhões de africanos, que ainda não foram evangelizados. A Igreja certamente respeita e estima as Religiões não cristãs professadas por muitos africanos, mas, segundo quanto dizia o meu Predecessor Papa Paulo VI, «a Igreja pensa que essas multidões têm o direito de conhecer as riquezas do mistério de Cristo (cf. Ef 3, 8), nas quais nós acreditamos que toda a humanidade pode encontrar, numa plenitude inimaginável, tudo aquilo que procura às apalpadelas a respeito de Deus, do homem, do seu destino, da vida, da morte e da verdade» (Evangelii nuntiandi , 53).

6. Dado que as vossas Igrejas locais procuram cumprir o mandato missionário que lhes foi dado pelo próprio Senhor (cf. Mt 28, 19), não podemos deixar de dar graças pelas muitas vocações com que sois abençoados. Exorto-vos a assegurar que os vossos programas vocacionais promovam e protejam com solicitude este dom de Deus. Os jovens candidatos deverão receber uma formação espiritual e teológica apropriada, que os enraíze firmemente na tradição espiritual etíope e os prepare para enfrentar os complexos problemas pastorais, sociais e éticos que a modernização da sociedade apresenta. Encorajo-vos a continuar no vosso esforço para assegurar um pessoal qualificado ao grupo dos educadores dos três Seminários Maiores. Desse modo, estes tornar-se-ão autênticos centros de estudo e de investigação teológica, capazes de iluminar a missão pastoral e evangelizadora da Igreja em ambos os países. Também as comunidades de religiosos e de religiosas deram vida na vossa terra a cursos sistemáticos de formação. Eles esperam de vós, Pastores do rebanho que Cristo vos confiou, apoio e orientação, porque também os religiosos são objecto do vosso cuidado e preocupação pastoral (cf. Lumen gentium, 45; Christus Dominus, 15 e 35).

Bem sabeis que entre os muitos deveres do ministério episcopal, a formação permanente — humana, espiritual e intelectual — dos sacerdotes é uma das tarefas principais. Para realizarem a sua sublime missão de mestres e doutores do espírito humano, os vossos sacerdotes têm necessidade do vosso apoio paterno e fraterno (cf. Christus Dominus, 16); precisam de contar com a vossa amizade e a dos seus irmãos sacerdotes (cf. Lumen gentium, 28). Quanto mais apreciarem o privilégio único de agir in persona Christi, tanto mais se dedicarão completamente ao ministério em castidade e simplicidade de vida, e o trabalho pastoral será para eles uma fonte inexaurível de alegria e de paz.

7. Noto com prazer que a vossa Conferência Episcopal, movida pela recomendação da Assembleia Especial do Sínodo dos Bispos para a África, instituiu a Comissão Justiça e Paz para tratar as questões fundamentais concernentes ao desenvolvimento das vossas democracias, compreendidos os direitos humanos, a honestidade na administração pública e o papel das mulheres na sociedade. Certamente a Igreja tem uma tarefa especial a realizar neste sector e pode oferecer uma ajuda no processo de construção duma sociedade em que todos os cidadãos, independentemente da sua pertença étnica, cultural e religiosa, possam sentir-se à vontade e ser tratados de maneira justa. Por este motivo a Igreja na Etiópia e na Eritreia é chamada a mostrar coragem e clarividente sabedoria ao levar avante uma grande missão que deriva da sua própria natureza de sacramento da união com Deus e da unidade entre todos os membros da família humana (cf. Lumen gentium, 1). A busca da paz e da harmonia deverá ser também prosseguida dentro da Igreja, onde as diferenças não são vistas como razão de conflito e de tensão, mas como fonte de força e de unidade na legítima diversidade. Harmonia e cooperação generosa entre os fiéis, especialmente entre os sacerdotes e entre vós, Bispos, será um poderoso incentivo para promover a boa vontade e a solidariedade no conjunto da sociedade. «Brilhe a vossa luz diante dos homens de modo que, vendo as vossas boas obras, glorifiquem vosso Pai, que está nos Céus...» (Mt 5, 16).

8. Caros Irmãos, estes são alguns dos pensamentos que a vossa visita aos Túmulos dos Apóstolos Pedro e Paulo sugeriu à minha mente. Oro para que a vossa peregrinação vos fortaleça no ministério, de maneira que jamais possais sentir-vos cansados de anunciar a Palavra de Deus, de celebrar os sacramentos, de apascentar o rebanho confiado aos vossos cuidados e de procurar a ovelha tresmalhada. Convido-vos a dirigir resolutamente o vosso olhar para o Grande Jubileu que, por causa do sublime Mistério que comemora, constitui um vibrante apelo à alegria cristã (cf. Ecclesia in Africa , 142). Possa esta alegria, fruto do revigoramento da fé e da santidade de vida, tornar-se realidade para os vossos povos. Uno-me a vós na oração pela Igreja na Etiópia e na Eritreia e confio-vos, assim como o vosso clero, os religiosos e os leigos à amorosa protecção de Maria, Estrela da Evangelização e Rainha da África. Como penhor de graça e de comunhão com o seu Filho divino, concedo-vos de coração uma especial Bênção Apostólica.

DISCURSO DO PAPA JOÃO PAULO II POR OCASIÃO DA APRESENTAÇÃO OFICIAL DA EDIÇÃO TÍPICA LATINA DO CATECISMO DA IGREJA CATÓLICA

8 de Setembro de 1997

Senhores Cardeais Venerados Irmãos no Episcopado e no Sacerdócio Caríssimos Irmãos e Irmãs!

1. Com esta solene cerimónia, desejo hoje apresentar oficialmente à Igreja e ao mundo a edição típica latina do Catecismo da Igreja Católica, que no dia 15 de Agosto passado, solenidade da Assunção da Bem-aventurada Virgem Maria ao céu, aprovei e promulguei com a Carta Apostólica Laetamur magnopere .

Exprimo, antes de tudo, um profundo sentimento de gratidão a Deus Omnipotente que, com a assistência iluminante e corroborante do seu Espírito, guiou e sustentou o caminho de elaboração do Catecismo, iniciado há mais de dez anos, e que agora chegou finalmente à sua conclusão.

Agradeço vivamente aos Senhores Cardeais, aos Arcebispos e Bispos Membros das várias Comissões que trabalharam para este empreendimento, e que hoje juntamente comigo recolhem o fruto desse intenso e profícuo trabalho. De todo o coração dirijo um agradecimento particular ao caríssimo Senhor Cardeal Joseph Ratzinger, que há pouco interpretou o sentimento de todos os presentes e, no decurso destes anos, presidiu aos trabalhos, guiando-os e coordenando-os com sabedoria digna de encómio, até à sua feliz conclusão.

Confio agora este texto definitivo e normativo à Igreja inteira, em particular aos Pastores das várias Dioceses espalhadas pelo mundo: com efeito, são eles os principais destinatários deste Catecismo. Num certo sentido, poder-se-ia com razão aplicar a esta circunstância a expressão paulina: «Eu recebi do Senhor o que também vos transmiti» (1 Cor 11, 23). A cerimónia hodierna constitui, de facto, um ponto de chegada mas, ao mesmo tempo, assinala um novo «ponto de partida», uma vez que o Catecismo, já ultimado, deve ser melhor e mais amplamente conhecido, acolhido, difundido e, sobretudo, tornado precioso instrumento de trabalho quotidiano na pastoral e na evangelização.

2. Multíplice e complementar é o uso, que se pode e se deve fazer deste texto, para que se torne cada vez mais «ponto de referência» para a inteira acção profética da Igreja, sobretudo neste tempo em que se adverte, de maneira forte e urgente, a necessidade de um novo impulso missionário e de um relançamento da catequese.

Com efeito, o Catecismo ajuda «a aprofundar o conhecimento da fé... orienta-se no sentido do amadurecimento da mesma fé, do seu enraizamento na vida e da sua irradiação no testemunho » (Catecismo da Igreja Católica [CIC], n. 23) de todos os membros da Igreja. Ele representa um válido e seguro instrumento para os presbíteros na sua formação permanente e na pregação; para os catequistas na sua preparação remota e próxima para o serviço da Palavra; para as famílias no seu caminho de crescimento rumo ao pleno exercício das potencialidades ínsitas no sacramento do matrimónio.

Os teólogos poderão encontrar no Catecismo uma autorizada referência doutrinal para a sua incansável investigação. Eles são chamados a prestar-lhe um precioso serviço, quer aprofundando o conhecimento dos conteúdos nele expostos de modo essencial e sintético, quer desenvolvendo com mais clareza as motivações subjacentes às afirmações doutrinais, quer ainda evidenciando os profundos nexos que ligam entre si as várias verdades, de maneira a fazer ressaltar sempre mais «a maravilhosa unidade do mistério de Deus, do seu desígnio de salvação, bem como a centralidade de Jesus Cristo, o Filho Unigénito de Deus, enviado pelo Pai, feito homem no seio da santíssima Virgem Maria por obra do Espírito Santo, para ser o nosso Salvador» (Const. Apost. Fidei depositum , 3).

O Catecismo apresenta-se, além disso, como precioso subsídio para a actualização sistemática daqueles que trabalham nos múltiplos campos da acção eclesial. De modo geral, será mais do que nunca útil para a formação permanente de todo o cristão que, consultando-o tanto de maneira contínua como ocasional, poderá redescobrir a profundidade e a beleza da fé cristã, e será conduzido a exclamar com as palavras da Liturgia baptismal: «Esta é a nossa fé. Esta é a fé da Igreja. E gloriamo-nos de a professar, em Cristo Jesus nosso Senhor» (Rito da celebração do Baptismo).

Não são poucas, depois, as pessoas que já encontraram neste Catecismo também um precioso instrumento para a oração pessoal e comunitária, para promover e qualificar os diversos e complementares itinerários de espiritualidade, para dar novo vigor à sua vida de fé. Além disso, não se deve esquecer o valor ecuménico do Catecismo. Como já atestam numerosos e positivos testemunhos de Igrejas e Comunidades eclesiais, ele é capaz de «dar um apoio aos esforços ecuménicos, animados pelo santo desejo da unidade de todos os cristãos, mostrando com exactidão o conteúdo e a harmoniosa coerência da fé católica» (cf. Const. Apost. Fidei depositum , 4). Mas também àqueles que se interrogam e se encontram em dificuldade na sua fé, ou a quantos não acreditam absolutamente ou já não crêem, o Catecismo pode oferecer uma ajuda válida, ilustrando aquilo em que a Igreja católica crê e procura viver, e fornecendo estímulos esclarecedores na busca da Verdade.

3. O Catecismo da Igreja Católica deve, em particular, constituir um texto de referência seguro e um guia autorizado para a elaboração dos vários Catecismos locais (cf. ibid., n. 4). Louvável foi, a respeito disto, o empenho de Bispos e de inteiras Conferências Episcopais ao prepararem Catecismos locais, tendo como «ponto de referência» o Catecismo da Igreja Católica. É necessário prosseguir neste caminho com atenção vigilante e perseverança incansável.

Como tive ocasião de fazer noutras circunstâncias, renovo aqui um ardente encorajamento às Conferências Episcopais, para que empreendam, com prudente paciência mas também com corajosa determinação, este importante trabalho, que deve ser realizado em entendimento com a Sé Apostólica. Trata-se de redigir Catecismos fiéis aos conteúdos essenciais da Revelação e actualizados no que se refere à metodologia, capazes de educar para uma fé sólida as gerações cristãs dos tempos novos.

Ainda que, em particular, o Catecismo da Igreja Católica possa ser utilizado como texto catequético nacional e local, torna-se contudo necessário, onde isto ainda não ocorreu, proceder à elaboração de Catecismos novos que, enquanto apresentam com fidelidade e de modo integral o conteúdo doutrinal do Catecismo da Igreja Católica, privilegiem percursos educativos diferenciados e articulados, segundo as expectativas dos destinatários. Estes Catecismos, valendo-se também das preciosas indicações oferecidas pelo novo «Directório Geral para a Catequese», que será publicado proximamente, são chamados a realizar aquelas «adaptações da exposição e dos métodos catequéticos, exigidas pelas diferenças de culturas, idades, espiritualidades, situações sociais e eclesiais daqueles a quem a catequese se dirige» (CIC, n. 24). Repetir-se-á assim, de algum modo, a estupenda experiência do tempo apostólico, quando cada crente ouvia anunciar na própria língua as grandes obras de Deus (cf. Act 2, 11) e, ao mesmo tempo, tornar-se-á ainda mais tangível a catolicidade da Igreja, através do anúncio da Palavra nas múltiplas línguas do mundo, formando «como um coro harmonioso, composto das vozes de inumeráveis multidões de homens, que se eleva de todos os pontos da terra em todos os momentos da história, em modulações, timbres e combinações sem número, para o louvor de Deus» (Enc. Slavorum apostoli, 17). Longe, portanto, de desencorajar ou até mesmo de substituir os Catecismos locais, o Catecismo da Igreja Católica requer, promove e guia a sua elaboração.

4. Convido o clero e os fiéis a um contacto frequente e intenso com este Catecismo, que confio de modo especial a Maria Santíssima, cuja festa da Natividade celebramos hoje. E oro para que, assim como o nascimento da Virgem constituiu, no início da nova era, um momento fundamental no plano predisposto por Deus para a Encarnação do Seu Filho, assim este Catecismo, preparado no limiar do terceiro milénio, possa tornar-se um instrumento útil para introduzir a Igreja e cada um dos fiéis na contemplação sempre mais profunda do mistério do Verbo de Deus, que Se fez Homem.

Com esses sentimentos, ao agradecer a quantos participaram na redacção e tradução do Catecismo da Igreja Católica, concedo uma especial Bênção Apostólica a cada um de vós e a todas as pessoas a quem este texto é destinado.

DISCURSO DO PAPA JOÃO PAULO II NO ENCONTRO COM OS SÓCIOS DO «CENTRO DOS VOLUNTÁRIOS DO SOFRIMENTO» FUNDADO PELO MONS. LUIGI NOVARESE

6 de Setembro de 1997

Caríssimos Irmãos e Irmãs! Irmãos no Episcopado

1. Sinto-me particularmente feliz por este nosso encontro e apresento a cada um de vós a minha mais cordial saudação, com um especial e afectuoso pensamento a quantos, enfrentando os incómodos da viagem, não quiseram faltar a esta reunião, embora vindos de muito longe.

Recordais neste ano o 50° aniversário da vossa benemérita Associação, nascida em Roma por obra do Servo de Deus, Mons. Luigi Novarese, coadjuvado pela Senhora Elvira Myriam Psorulla, a quem agradeço as palavras com que se fez hoje intérprete dos sentimentos de todos os presentes. Ela quis reafirmar o propósito da inteira Associação de servir a Cristo nos que sofrem, mediante uma singular obra de evangelização e de catequese, que vê em primeiro plano a acção pessoal e directa dos próprios deficientes.

Está espiritualmente presente entre nós o Mons. Novarese, que com certeza continua, do Céu, a acompanhar esta obra, brotada do seu coração sacerdotal. E com ele estão espiritualmente próximos todos os «voluntários do sofrimento » que, no arco deste meio século, deixaram este mundo, levando consigo o viático da participação no mistério da Cruz de Jesus.

2. A vossa Associação teve, como primeiro núcleo, a Liga Sacerdotal Mariana, fundada em 1943. Com essa iniciativa o Mons. Novarese queria corresponder a quanto a Virgem tinha pedido nas aparições em Lourdes e em Fátima. Ele quis, além disso, seguir o convite do meu venerado Predecessor, Pio XII, acerca da consagração do mundo ao Coração Imaculado de Maria.

Era consciente de que Maria mesma, unida ao divino Filho aos pés da cruz, nos ensina a viver o sofrimento com Cristo e em Cristo, na força do amor do Espírito Santo. Maria é a primeira e perfeita «voluntária do sofrimento», que une a própria dor ao sacrifício do Filho, para que adquira significado de redenção.

Desta matriz mariana nascestes vós, caros «Voluntários do Sofrimento», que realizais um apostolado mais que nunca precioso na Comunidade cristã. Inserisvos naquele grande movimento de renovação eclesial que, fiel ao Concílio Vaticano II e atento aos sinais dos tempos, encontrou novas energias para trabalhar, com coragem, no campo da evangelização num âmbito, o do sofrimento, certamente não fácil e cheio de interrogativos.

Esta vossa orientação pastoral encontrou uma explícita confirmação na Exortação Apostólica Christifideles laici , a qual, a propósito da «acção pastoral em favor dos doentes e dos que sofrem », diz: «O doente, o diminuído físico, o que sofre, não [deve ser considerado] simplesmente objecto do amor e do serviço da Igreja, mas sim sujeito activo e responsável da obra de evangelização e de salvação» (n. 54).

Por ocasião do Ano Santo da Redenção, eu mesmo quis oferecer à Igreja, com a Carta Apostólica Salvifici doloris, uma meditação sobre o valor salvífico do sofrimento humano (cf. AAS 76, 1984), e estou-vos reconhecido porque contribuístes para difundir esta mensagem, não só com as palavras, mas também com o silencioso testemunho da vossa existência.

3. Caríssimos Irmãos e Irmãs, a vossa Responsável, ao interpretar a atitude que teria hoje o Fundador, expressou a promessa de colaborar intensamente com a oração e o sacrifício na preparação do Grande Jubileu do Ano 2000. Obrigado por esta vossa contribuição. Mais que nunca ela é útil e preciosa.

A palavra Jubileu sugere a ideia de alegria, de exultação, e portanto poderia, à primeira vista, parecer em contraste com a condição de quem sofre. Na realidade seria assim, se nos limitássemos a uma consideração puramente humana. Mas, na óptica da fé, compreende- se que não há Ressurreição sem a Cruz. Compreende-se, então, não só que o sofrimento pode conciliar-se com a alegria, mas antes, que só no sinal da Cruz se pode chegar à verdadeira e consoladora alegria cristã. Não pode haver autêntica preparação para o Jubileu se não se assume no itinerário espiritual também a experiência do sofrer, nas suas várias formas.

4. Os grandes objectivos que a Igreja nos propõe nestes três anos de caminho rumo ao grande evento jubilar não podem ser alcançados sem o sacrifício pessoal e comunitário dos cristãos, em união com o único Sacrifício redentor de Cristo. A propósito disso, a vossa Associação pode oferecer uma contribuição específica, ajudando os fiéis que se encontram na prova a não se sentirem excluídos da peregrinação espiritual rumo ao Ano 2000 mas, ao contrário, a caminharem em primeira linha, levando a Cruz gloriosa de Cristo, única esperança de vida para a humanidade de todos os tempos.

Exemplo extraordinário desta silenciosa missão de caridade, que nasce da constante contemplação de Jesus na cruz, é a Madre Teresa de Calcutá, que retornou à Casa do Pai precisamente ontem. Esta manhã celebrei com íntima comoção a santa Missa por ela, inesquecível testemunha de um amor feito serviço concreto e incessante aos irmãos mais pobres e marginalizados. No rosto dos miseráveis ela reconheceu o de Jesus que, do alto da Cruz, implora: «Tenho sede». E acolheu este brado, com generosa dedicação, dos lábios e do coração dos moribundos, dos pequeninos abandonados, dos homens e das mulheres oprimidos pelo peso do sofrimento e da solidão.

Percorrendo incansável as estradas do mundo inteiro, a Madre Teresa marcou a história do nosso século: com coragem defendeu a vida; serviu cada ser humano promovendo sempre a sua dignidade e o seu respeito; fez sentir aos «derrotados da vida» a ternura de Deus, Pai amoroso de todas as Suas criaturas. Testemunhou o evangelho da caridade, que se nutre do dom gratuito de si até à morte. Assim a recordamos, invocando para ela o prémio que todo o fiel servidor do Reino de Deus espera. Possa o seu luminoso exemplo de caridade servir de conforto e de estímulo para a sua família espiritual, para a Igreja e a humanidade inteira.

Caríssimos Irmãos e Irmãs, agradeçovos mais uma vez este encontro festivo e faço votos por que a vossa actividade associativa possa beneficiar da celebração cinquentenária. Ao implorar a protecção materna da Virgem Maria, de coração concedo uma especial Bênção Apostólica a vós aqui presentes e a todos os Voluntários do Sofrimento, assim como aos Silenciosos Operários da Cruz e aos membros da Liga Sacerdotal Mariana.

DISCURSO DO PAPA JOÃO PAULO II AO SENHOR ALBERTO LEONCINI BARTOLI NOVO EMBAIXADOR DA ITÁLIA JUNTO DA SANTA SÉ POR OCASIÃO DA APRESENTAÇÃO DAS CARTAS CREDENCIAIS

4 de Setembro de 1997

Senhor Embaixador

Ao receber as Cartas que o acreditam como Embaixador Extraordinário e Plenipotenciário da República Italiana junto da Santa Sé, é-me grato dirigir um deferente e cordial pensamento ao Presidente da República, Sua Excelência o Senhor Oscar Luigi Scalfaro, e à inteira Nação. Já são muitos os Estados representados junto desta Sé Apostólica, mas especialíssima é a relação com o País que, desde há dois mil anos, está tão próximo da sede originária do Sucessor de Pedro. Na verdade, o Papa jamais é estranho ao «bel paese che Appennin parte, il mar circonda e l’Alpe»; não foi nem o é devido ao múnus de Bispo de Roma, que especifica e encarna aqui o seu papel de Pastor da Igreja universal.

Também — e sobretudo — nas horas mais difíceis, nas situações obscuras e complicadas, jamais diminuíram o amor do Sumo Pontífice por este caríssimo povo e o empenho pela sua salvaguarda e o seu bem-estar. Desde a época das invasões e das migrações de povos até aos bombardeamentos e às devastações da última guerra mundial, os Sucessores de Pedro — no variar das condições temporais — prodigalizaram em favor do povo que natureza e história colocaram à volta da sua Cátedra. Também nos nossos dias, com uma extraordinária «grande oração pela Itália», eu quis chamar a atenção de todos para os problemas que as vicissitudes destes anos 90 suscitaram neste amadíssimo País, com a finalidade de suscitar renovadas energias e fidelidade criativa, à luz duma antiga e ainda hoje frutuosa tradição de empenho e de sacrifício pelo bem comum, no acolhimento da verdade cristã.

Em particular, o século que está para terminar constituiu um caminho de encontro entre a Itália e a Santa Sé. As incompreensões e dificuldades do século precedente foram imediatamente superadas. A Constituição de 11 de Fevereiro de 1929 realizou o sonho dos espíritos melhores, que queriam «restituir a Itália a Deus e Deus à Itália», demonstrando além disso que nada de irreparável jamais ocorrera entre o País e os Sucessores de Pedro. Parece já claro a todos que as reservas da Santa Sé a algumas páginas da unificação não eram ditadas por ambições de posse nem sequer de poder terreno, mas pela necessária defesa da independência absoluta da soberania territorial circunstante.

Depois, quando ainda estavam abertas as chagas do totalitarismo e da guerra, a sabedoria de muitos quis que fosse inserido, na Constituição da nascente e livre República, o princípio da independência e da soberania de ambos os ordenamentos, enquanto já ninguém colocava em discussão o exíguo e quase simbólico espaço, necessário à Sé Apostólica para o exercício da sua missão no mundo inteiro.

E mais, com o Acordo de Revisão de 1984, o mesmo espírito presidia à actualização consensual dos Pactos Lateranenses, manifestando claramente, como já se expressara o Concílio Ecuménico Vaticano II, que entre Igreja e Estado não há oposição, mas concurso e colaboração para salvaguardar a pessoa humana, nas suas manifestações individuais e sociais.

As relações entre Santa Sé e República Italiana, podemos dizê-lo com base numa já consolidada experiência histórica, coroam de facto um tecido de relações, um inconversível modo de se posicionar, rico de frutos e de potencialidades. A Igreja, da sua parte, tem um tesouro de verdades que incansavelmente propõe ao homem, no articulado desenvolver- se das suas estruturas sociais. É antes de tudo na família que a doutrina e a moral cristã reconhecem o âmbito primeiro e natural de acolhimento da vida, desde a sua concepção. A família, nascida do amor de um homem e de uma mulher, que as tradições e a lei consagram como célula base da sociedade, espera que seja plenamente actuado o conteúdo da lei fundamental da República, lá onde «reconhece os direitos da família como sociedade natural fundada sobre o matrimónio» (art. 29). A família, portanto, tem uma função basilar na organização social, e deve ser incentivada e protegida, também no terreno económico e fiscal. Ela não pode estar abandonada à corrosão do relativismo, porque a vida e o futuro mesmo do País estão contidos no seu seio.

A respeito disso, muitas vozes já se levantaram com desalento, ao ver a Itália relegada a níveis muito baixos de natalidade. Nisto pode-se ver um sentimento de fechamento, um acto de desconfiança quanto ao destino da sociedade nacional e, talvez também, um cedimento egoísta. Todos esperam que a vida seja ajudada a crescer e a florescer com todas as providências que se puderem dar.

A escola, em perspectiva semelhante, assume um papel essencial na construção da Itália de amanhã. Antigas barreiras, também de ordem psicológica, estão a ceder, mas o mesmo princípio, que chama todos os cidadãos a dar o seu contributo ao bem comum, através de uma participação mais ampla e eficaz, exige plena e madura liberdade da escola e na escola. A cultura exige diálogo e confronto, os cidadãos e as famílias esperam do Estado aquela ajuda razoável que permite tornar efectivo e indiscutível o direito a escolher o horizonte cultural, sem discriminações nem ónus, mesmo só economicamente insustentáveis.

Mas tudo seria vão se faltasse o trabalho. Já o Concílio Ecuménico Vaticano II avançara o conceito de participação na criação ínsita no trabalho quotidiano, e isto foi por mim reafirmado nalgumas Encíclicas. Agora a juventude teme sobretudo a falta de emprego estável e motivante. Às Autoridades públicas, às forças económicas, aos sindicatos, a todos os indivíduos compete a severa tarefa de predispor as condições para as actividades de trabalho não fictícias, e tais que dissuadam os jovens das tentações do ócio, do lucro fácil ou até mesmo de actividades criminosas.

Nestas emergências a Comunidade católica tem o seu contributo a dar, e muito está a ser feito pelo voluntariado ao «projecto cultural», que a Conferência Episcopal Italiana está a pôr em prática. Tudo isto reafirma uma verdade que não pode ser desmentida: os crentes e a Igreja não são estrangeiros neste País. Eles fazem parte dele a pleno título. Da sua longuíssima, e talvez única tradição, do ensinamento do Magistério, da Revelação mesma tiram argumentos para curar tanto os males como as necessidades do País, e a busca contínua para oferecer novos contributos. Não é deveras um caso o facto de a identidade verdadeira e profunda do País se revelar de modo inequivocável no Cristianismo.

Com a queda de tantas fronteiras e o nascimento de uma nova Europa, tornase cada vez mais presente o dever de enriquecer o continente com o carisma específico que caracteriza a Itália. Às glórias do passado, às criativas iniciativas do presente, ajunta-se a fisionomia fundante da sua identidade católica, que tantas provas deu e continua a dar na arte, nas actividades sociais e também em tantos itinerários de fé e de cultura. A alma da Itália é alma católica, e grandes são neste sentido as expectativas, por tudo o que ela pode exprimir entre as Nações irmãs, finalmente pacificadas. Expectativas destinadas ulteriormente a encaminhar-se na perspectiva exaltante, repleta de esperança, da celebração do Grande Jubileu do Ano 2000, à qual Vossa Excelência fez oportuna referência. Esse evento é destinado a representar um momento de crescimento humano, civil e espiritual também para a dilecta Nação italiana. Oxalá a colaboração em acto entre a Santa Sé e a Itália contribua para favorecer o seu pleno bom êxito.

É com estes sentimentos repletos de esperança que apresento a Vossa Excelência, Senhor Embaixador, os votos mais ardentes para o feliz cumprimento da sua alta missão, e de coração concedo- lhe a Bênção Apostólica, que desejo estender às pessoas que o acompanham, aos seus familiares e à querida Nação italiana.

DISCURSO DO PAPA JOÃO PAULO II AOS BISPOS DA SUÍÇA POR OCASIÃO DA VISITA «AD LIMINA APOSTOLORUM»

4 de Setembro de 1997

Caros Irmãos no Episcopado

1. É com grande alegria que vos acolho por ocasião da vossa visita ad Limina à sede do Sucessor de Pedro. Antes de tudo, agradeço ao vosso Presidente, D. Henri Salina, que me ilustrou alguns aspectos da vida eclesial nas vossas Dioceses e também algumas questões que vós, como seus Pastores, deveis enfrentar. Oro ao Senhor para que vos acompanhe e para que os nossos diálogos e os vossos encontros com os meus colaboradores da Cúria Romana, e entre vós, ofereçam a oportunidade de aprofundar e revigorar o affectus collegialis, e possam estes encontros, além disso, ajudar-vos a prosseguir o vosso serviço apostólico em colaboração confiante no seio da vossa Conferência Episcopal.

A tarefa do Bispo é hoje particularmente difícil. O Bispo deve exercer o seu múnus e a sua autoridade como um serviço à unidade e à comunidade; ao fazê-lo deve preocupar-se de preservar a fé na sua integridade, tal como nos foi transmitida pelos apóstolos, e também a doutrina da Igreja, que foi definida ao longo da história. Isto comporta aspectos fundamentais que não podem ser postos em discussão, nem pela opinião pública nem pelas posições assumidas por determinados grupos particulares. É preciso ajudar os fiéis a aderirem à continuidade secular da Igreja e, contemporaneamente, ter em conta os aspectos positivos do mundo moderno, sem porém fazer-se influenciar pelas modas dos tempos. A comunidade local deve preocupar- se da catolicidade, ou seja, deve viver a sua fé no seio da Igreja e em comunhão com ela. A Igreja local é parte integrante da Igreja universal; deve portanto ser uma só com o Corpo.

Compete-vos guiar o povo de Deus com inexaurível e paciente ensinamento (cf. 2 Tm 4, 2), sabendo ouvir os fiéis e, em particular, os sacerdotes que, como observa o Concílio Vaticano II, deveis tratar «com especial caridade [...] como aqueles que compartilham das suas funções e solicitude, e tão zelosamente satisfazem esses deveres com o trabalho de cada dia» (Christus Dominus, 16). Os sacerdotes devem muitas vezes enfrentar uma grande quantidade de trabalho; na realidade, o seu serviço é mais um onus que uma honor. Já São João Crisóstomo escrevia: «Ele deve acolher-nos a todos na Igreja como numa casa comum; devemos estar unidos no afecto recíproco, como se formássemos todos um só corpo» (Sermão sobre a Segunda Carta aos Coríntios, 18, 3). Os vossos relatórios quinquenais demonstram a vossa solicitude por estardes próximos dos sacerdotes, que para vós são «filhos e amigos» (Christus Dominus, 16; cf. Jo 15, 15). Preocupai-vos, também no futuro, das suas exigências espirituais. Os sacerdotes diocesanos ocupam um lugar especial nos vossos corações, pois em virtude de estarem incardinados na Igreja local «a fim de pastorearem uma parte do rebanho [...], constituem, por isso, um só presbitério e uma só família, de que o Bispo é o pai» (ibidem, 28).

Deveis também preocupar-vos de promover a colaboração harmoniosa nas múltiplas obras da Igreja. Esta colaboração entre todos os membros da Igreja, se for bem organizada, pode ajudá-la a fortalecer o seu particular dinamismo. As comunidades suíças devem, porém, ter em conta também as realidades vividas pelas outras comunidades. Devem estar dispostas a aceitar, no espírito da fé, as normas estabelecidas pelo Sucessor de Pedro, Pastor da Igreja universal. A vida das comunidades locais deve inserir- se nas estruturas próprias à Igreja, que são articuladas de modo diverso das instituições civis.

2. Os leigos, alguns dos quais são muito activos na vida pastoral, desempenham a sua missão juntamente com os pastores da Igreja, os Bispos, sacerdotes e diáconos que, enquanto ministros consagrados, têm a tarefa de ensinar, de santificar e de governar o povo de Deus no nome de Cristo Cabeça (cf. CDC, cânn. 1008-1009). No âmbito da única missão da Igreja, as respectivas tarefas são distintas entre si e, ao mesmo tempo, integram-se. É importante, em particular, colaborar para uma pastoral juvenil activa, promovendo o desenvolvimento dos movimentos e das associações que podem ajudar muito a Igreja a adquirir um novo dinamismo. Sinto-me, portanto, feliz pelo facto que homens e mulheres se esforcem por exercer tarefas importantes na catequese e no acompanhamento dos grupos juvenis. Eles têm a responsabilidade, em relação aos jovens, de ensinar os valores cristãos e a fé católica. Devem colaborar com os pais, que desses são as primeiras testemunhas ao lado dos próprios filhos. Exorto aqueles que exercem um papel de responsabilidade no âmbito da consulta matrimonial e da assistência aos cônjuges e às famílias, a serem fiéis aos ensinamentos da Igreja.

Seria bom reflectir sobre o que o Concílio Vaticano II explicou com ênfase no capítulo IV da Constituição Lumen gentium (cf. nn. 30-38), sobre as tarefas particulares dos leigos na Igreja. A união deles com Cristo no Corpo da Igreja comporta a obrigação de orientar as próprias actividades para a proclamação do Evangelho e o crescimento do povo de Deus. Isto acontece, em particular, quando desempenham a função que lhes corresponde de impregnar os acontecimentos do mundo temporal com o espírito cristão (cf. ibidem, 31; Apostolicam actuositatem, 7). Uma das tarefas que, a respeito disso, compete aos pastores é oferecer aos leigos uma preparação séria, em vista das suas actividades.

3. Convido os fiéis a acolherem o ensinamento da Igreja na fé. O ser cristão pressupõe uma constante conversão interior. A obediência à Igreja é indispensável para aceitar a Revelação, da qual a Igreja é depositária, para obter a comunhão na verdade que nos torna livres (cf. Jo 8, 32) e no Espírito Santo, que derrama o amor de Deus nos nossos corações (cf. Rm 5, 5). Esta obediência à Igreja comporta também a aceitação da ordem estabelecida com base nas normas vigentes para os diferentes níveis da sua actividade. Sobretudo no âmbito litúrgico essa fidelidade resulta mais necessária que nunca; a respeito disso, convém recordar o que afirma o Concílio Vaticano II: «Regular a sagrada Liturgia compete unicamente à autoridade da Igreja, a qual reside na Sé Apostólica e, segundo as normas de direito, no Bispo [...]. Por isso, ninguém mais, mesmo que seja sacerdote, ouse, por sua iniciativa, acrescentar, suprimir ou mudar seja seja o que for em matéria litúrgica» (Constituição sobre a Sagrada Liturgia Sacrosanctum concilium, 22).

Considerando tudo isto, é-me grato constatar que cada dia aumentam os fiéis que se empenham por conhecer melhor a doutrina católica. Desejo ressaltar a missão particular dos teólogos, que têm a tarefa de esclarecer os seus irmãos e irmãs na profundidade dos mistérios divinos. Isto ocorre porque o seu ensinamento está baseado sobre a revelação e é sustentado por uma intensa vida espiritual e pela oração. O ensinamento teológico está ao serviço da verdade e da comunidade. Não pode permanecer uma simples reflexão privada. Por isso, o âmbito natural da investigação teológica é a própria Igreja. A ciência sagrada não pode estar separada da Palavra de Deus, que é viva e ilumina. Ela é acolhida e transmitida pela Igreja, cujo ensinamento é exercido em nome de Jesus Cristo (cf. Concílio Vaticano II, Dei Verbum, 10; Congregação para a Doutrina da Fé, Instrução sobre a vocação eclesial do teólogo, 24/5/1990).

4. Como pondes claramente em evidência nos vossos relatórios quinquenais, preocupa-vos o problema das vocações. Ele refere-se, no seu conjunto, às comunidades cristãs, no seio das quais podem desabrochar as vocações, sustentadas pela oração de todos e favorecidas pela globalidade da pastoral juvenil. Compete em particular aos pais e aos educadores ser os instrumentos do chamado do Senhor. Nos últimos anos, nalgumas das vossas Dioceses, poucos jovens aceitaram empenhar-se na via do sacerdócio ou da vida consagrada. Justamente, portanto, esforçais-vos por imprimir um novo impulso à pastoral das vocações nas comunidades cristãs e nas famílias, pondo em evidência a grandeza e a beleza do dom de si no celibato, livremente escolhido por amor do Senhor, sem contudo que resulte diminuído o valor da vida laical e do matrimónio. Como recordei na Exortação Apostólica pós-sinodal Pastores dabo vobis , fazendo meus os pedidos dos Padres sinodais, é necessário «instruir e educar os fiéis leigos acerca das motivações evangélicas, espirituais e pastorais próprias do celibato sacerdotal de modo que ajudem os presbíteros com a amizade, a compreensão e a colaboração» (n. 50). Isto é tanto mais importante porque, numa sociedade onde a vida cristã e o celibato parecem muitas vezes ser considerados como obstáculos à realização da pessoa, algumas famílias podem preocupar-se por ver os próprios filhos ou filhas deixar tudo para seguir Cristo.

A questão diz respeito à globalidade da educação; em geral, é para desejar que os pais, à luz da fé da Igreja, acompanhem com confiança e coragem os jovens para que estes assumam plenamente o seu papel na comunidade cristã, participem de maneira activa na vida paroquial e se empenhem nas associações e nos movimentos. Assim, um autêntico amadurecimento pessoal, social e espiritual conduzirá os jovens, chamados pelo Senhor, a realizarem livremente a sua vocação; é só sob esta condição que serão felizes na sua vida. Para que, depois, aceitem responder de modo positivo ao chamado de Cristo, é essencial que as comunidades cristãs reconheçam o papel e a missão específica dos sacerdotes e da vida consagrada. Com efeito, como podem os jovens perceber a grandeza dessas vocações, se permanecem equívocos acerca do papel específico daqueles que receberam o mandato da parte da Igreja?

5. Os Bispos devem hoje estar particularmente atentos à formação dos seminaristas. Continuai a dar grande importância à qualidade da formação espiritual e dos programas de formação intelectual. Todos os aspectos da formação devem equilibrar-se, a fim de contribuírem para a maturidade dos vossos futuros colaboradores. Neste contexto, convém ter em consideração as exigências do mundo actual, para preparar um exercício do ministério bem adaptado à nossa época; mas é preciso cuidar de centrar a formação no essencial do conteúdo da fé, a fim de permitir aos jovens sacerdotes responder de maneira pertinente às questões incessantemente renovadas, que são debatidas pela opinião pública. As regras sábias, dadas pela Ratio institutionis sacerdotalis, servos-ão particularmente úteis.

6. Quereria aqui pedir que transmitísseis aos sacerdotes das vossas Dioceses a saudação confiante do Sucessor de Pedro. Ao viverem o seu sacerdócio de maneira exemplar, eles são as primeiras testemunhas da vocação ao ministério. Ao verem a vida deles, os jovens podem sentir o desejo de os imitar no seu empenho sacerdotal. Que o presbitério seja uma coroa espiritual à volta do Bispo! Conheço a responsabilidade cada vez mais difícil dos sacerdotes do vosso País, em particular daqueles que exercem o ministério paroquial. Exprimi-lhes os encorajamentos calorosos do Papa, que os convida a não desanimar e a continuar a ser pastores zelosos para o povo que lhes foi confiado. A sua missão deve arraigar-se numa vida espiritual e sacramental intensa, que unifica a sua personalidade e os torna disponíveis a receber as graças necessárias para o seu serviço evangélico. Com efeito, é o Senhor que, pelo seu Espírito, ajuda e acompanha aqueles que por Ele foram chamados a segui-l’O no sacerdócio. Os sacerdotes devem empenhar-se em ser testemunhas jubilosas de Cristo, através da sua vida recta, em harmonia com o compromisso assumido no dia da sua ordenação.

Na Suíça, a vida religiosa conheceu uma notável tradição na sua história. Confio-vos o cuidado de dizer aos religiosos e às religiosas que, ainda hoje, a Igreja conta de modo particular com eles para prosseguir os seus empenhos nos sectores essenciais da vida pastoral: a educação, a saúde, a assistência às pessoas idosas e aos pobres, e de maneira muito especial o atendimento a numerosos fiéis nas suas casas de acolhimento e de retiros espirituais, ou ainda no quadro das peregrinações que eles animam. Aprecio a sua coragem e a sua discreta disponibilidade. Num tempo em que diminui o número das vocações, importa que o conjunto da Igreja reconheça melhor o valor e o sentido da vida consagrada.

7. As dioceses da Suíça têm uma tradição missionária solidamente enraizada. Agradeço-lhes a sua atenção e a sua ajuda generosa às jovens Igrejas, tanto para a missão que lhes é própria como para a sua contribuição ao desenvolvimento. Exprimis de maneira apreciável a vossa atenção à vida da Igreja universal; isto manifesta também o vosso sentido profundo da justiça e da solidariedade com os mais desprovidos. Nalguns aspectos concretos, os católicos suíços estão assim em comunhão com toda a Igreja, cuja solicitude compete em primeiro lugar aos Bispos, como foi ressaltado claramente pelo Concílio Vaticano II: «Os Bispos, como legítimos sucessores dos Apóstolos e membros do colégio episcopal, considerem-se unidos sempre mais entre si e mostrem-se solícitos por todas as Igrejas» (Christus Dominus, 6).

8. Quereria também evocar brevemente a importância do movimento ecuménico no vosso país. Juntamente com os vossos diocesanos, prossegui a oração comum e o diálogo com o conjunto dos nossos irmãos cristãos, tendo em conta, de modo inequivocável, questões doutrinais e pastorais ainda não resolvidas, assim como as diferentes sensibilidades. O caminho a percorrer pode ser ainda longo. É aplicando com fidelidade os princípios e as normas elaboradas pelo Directório para o ecumenismo, que se há-de progredir realmente no caminho da plena unidade (Pontifício Conselho para a Promoção da Unidade dos Cristãos, 25/3/1993).

9. Apresentastes oportunamente ao povo cristão a figura de São Pedro Canísio, que morreu há 400 anos em Friburgo. O seu ensinamento, o seu sentido pedagógico e o seu empenho apostólico ao serviço do Evangelho são outros tantos aspectos da sua vida, que podem inspirar hoje o comportamento dos Pastores e das comunidades cristãs. É também um modelo de diálogo ecuménico, respeitoso das pessoas, repleto duma caridade cordial e desejoso de testemunhar a sua fé em Cristo e o seu amor à Igreja, unida à volta dos Bispos e do Sucessor de Pedro. As recentes beatificações têm de igual modo um efeito positivo na vida espiritual e apostólica do povo cristão: os Santos duma nação estão próximos dos seus compatriotas. São testemunhas privilegiadas, modelos de vida cristã.

Ao confiar-vos à intercessão dos Santos da vossa terra, aos quais os fiéis continuam profundamente ligados, concedo- vos de todo o coração a minha Bênção, assim como aos sacerdotes, aos religiosos, às religiosas e aos leigos das vossas Dioceses.

DISCURSO DO PAPA JOÃO PAULO II AO SENHOR J. FERNAND TANGUAY NOVO EMBAIXADOR DO CANADÁ JUNTO DA SANTA SÉ POR OCASIÃO DA APRESENTAÇÃO DAS CARTAS CREDENCIAIS

31 de Outubro de 1997

Senhor Embaixador

1. Ao receber as Cartas que acreditam Vossa Excelência junto da Sé Apostólica, como Embaixador Extraordinário e Plenipotenciário do Canadá, é-me grato apresentar-lhe as boas-vindas à Cidade eterna. Agradeço vivamente as palavras que acaba de me dirigir, e que manifestam interesse e compreensão para com a vida e a acção da Igreja católica.

Sensibilizado pelas mensagens que transmitiu da parte de Sua Excelência o Senhor Primeiro-Ministro e de outras personalidade governamentais, ficar-lhe-ia reconhecido se lhes exprimisse toda a minha gratidão.

Vossa Excelência fez-se intérprete da adesão à Sé de Pedro dos católicos das Primeiras Nações da sua terra, que tive a felicidade de saudar por ocasião das minhas visitas ao Canadá, assim como dos vários encontros aqui realizados; peço- lhe que se digne exprimir-lhes a minha grata recordação e os meus agradecimentos cordiais por estes sinais de atenção para comigo. Muito me sensibilizaram os bons votos que Vossa Excelência me transmitiu da parte dos seus compatriotas de origem polaca e estou-lhes grato pela fidelidade à Igreja, assim como à terra e à cultura que nos são tão caras.

2. Vossa Excelência houve por bem evocar diversos aspectos da acção da Igreja e, de modo particular, da Santa Sé em favor da paz; e ressaltou que o espírito que a orienta está de acordo com o papel do seu país na vida internacional e com os seus princípios. É-me grato constatar também, mais uma vez, a sintonia entre as preocupações da Igreja católica e as do seu país, no que se refere à obra sempre inacabada da consolidação da paz no mundo e do desenvolvimento, que deveria assegurar de modo duradouro o bem-estar dos povos. O Canadá participa nos debates das instâncias internacionais e os seus compatriotas não hesitam em se empenhar com generosidade nas frentes da ajuda humanitária e da manutenção da paz, por vezes muito distantes dos seus países e à custa de reais sacrifícios. O seu devotamento pelas grandes causas da humanidade é muito apreciado e, esperamo-lo, estimulará muitos outros a perseguirem eficazmente os mesmos objectivos.

No importante e delicado âmbito do desarmamento, cuja necessidade deveria ser melhor compreendida pela humanidade, Vossa Excelência chamou oportunamente a atenção para o processo enfim empreendido para eliminar a arma terrível das minas anti-homem. Otava, capital do seu país, receberá em breve os signatários de um acordo destinado a evitar a morte ou a mutilação de inúmeros inocentes em muitas regiões do mundo. Formulo ardentes votos por que todos os países adiram a esse pacto e que não se tarde em livrar multidões de homens, mulheres e crianças destes engenhos destruidores, insidiosamente colocados nos seus passos.

Quando se consideram os conflitos que continuam a devastar os povos nos diferentes continentes, posso compreender a sua triste constatação de que em muitos lugares se transmite «de geração em geração uma herança de ódio e de vingança». Ninguém pode resignar-se ao prosseguimento destes confrontos. O esforço dos artífices de paz não deve restringir- se a limitar os efeitos dos conflitos, a cuidar dos feridos, a sanar as carências alimentares ou a acolher da melhor forma possível os refugiados, ainda que os esforços neste sentido devam ser mantidos e intensificados. No nome da mensagem evangélica, a Igreja não cessa de chamar os nossos contemporâneos a aceitarem-se e a respeitarem-se mutuamente, a considerarem com lucidez as origens históricas das oposições, a fim de melhor as superar, a desenvolverem a convivência a que é chamada a única família humana, em virtude da sua profunda identidade de destino. É neste espírito que a intensificação das relações entre pessoas e povos de boa vontade tem a sua maior razão de ser; estou certo de que os seus compatriotas e os seus dirigentes encontram aqui as preocupações da Igreja católica para o bem comum da humanidade.

3. Vossa Excelência, Senhor Embaixador, ressaltou que uma parte importante dos seus concidadãos é constituída por membros da Igreja católica, solidamente arraigada na sua terra desde as primeiras gerações de pioneiros do Evangelho que lá chegaram da Europa no século XVII. Por seu intermédio, quereria dirigir a todos os católicos do Canadá as saudações cordiais do Bispo de Roma. Conheço os frutos de santidade e de dinamismo missionário que foram produzidos pelos seus antecessores. Eles são-lhes afeiçoados como é testemunhado pelo fervor com que celebram os aniversários das fundações, que aos poucos estruturaram as suas dioceses e comunidades. Hoje, encorajo-os a prosseguir esta construção, menos evidente que no passado, mas fundada nos corações pela adesão à verdade do Evangelho e que se tornou firme e radiante pela comunhão fraterna.

A história da sua terra é tal que, no seu país, a própria Igreja conhece uma diversidade sensível: as origens culturais são múltiplas e as tradições de rito oriental permanecem vivas ali. Esta situação representa uma verdadeira riqueza e, sem dúvida, ajuda os católicos a tomar consciência da unidade na diversidade, que caracteriza os discípulos de Cristo.

4. Hoje, o meu pensamento dirige-se também para os seus compatriotas que pertencem a outras Igrejas ou comunidades eclesiais; saúdo-os como irmãos, no desejo de que os intercâmbios continuem entre eles e os católicos, a fim de procurarem a verdade, condição essencial para progredir rumo à plena comunhão tão desejada e para fundar a vida social sobre uma sólida base humana.

Com aqueles que pertencem a outras tradições religiosas, os católicos estão empenhados em aprofundar o diálogo, não só da convivência quotidiana nas mesmas cidades, mas também dum conhecimento mútuo mais elaborado; deste modo torna-se possível a todas as pessoas de convicções religiosas diferentes trabalhar juntas, em vista de tornar a vida social cada vez mais humana. No Canadá, estou certo de que os católicos desejam progredir em profundidade no caminho destas diferentes relações e diálogos, que não podem deixar de ser benéficos para todos.

5. A sua missão, Senhor Embaixador, tem início pouco tempo antes de se realizar em Roma a Assembleia Especial do Sínodo dos Bispos para a América. Preparado pela sua experiência da vida internacional e pelo seu conhecimento da vida eclesial, Vossa Excelência poderá acompanhar os intercâmbios desta reunião excepcional dos Pastores da Igreja católica na América do Norte, do Centro e do Sul. Certamente, Vossa Excelência contribuirá para fazer com que os seus compatriotas captem o carácter próprio da investigação de ordem pastoral, que será conduzida pelos membros desta Assembleia, juntamente com o Bispo de Roma e os seus colaboradores, e também em ligação com os representantes do episcopado dos outros continentes. Através das consultações aprofundadas deste tipo, a Igreja católica deseja tornar-se cada vez mais fiel à sua missão ao serviço dos seus irmãos e irmãs deste tempo, sobretudo neste caso, fortalecendo a solidariedade que une as diversas comunidades do seu continente.

6. No momento em que tem início a sua função, Excelência, desejo-lhe um feliz desempenho das suas tarefas, para que se consolidem sempre mais as relações da Santa Sé com o Canadá. Tenho a certeza de que obterá as satisfações que Vossa Excelência espera durante a permanência em Roma, junto da Sé de Pedro.

Da parte dos meus colaboradores, esteja certo de que haverá de encontrar um acolhimento atencioso e a assistência de que precisar.

Na sua pessoa, saúdo o Excelentíssimo Governador-Geral, as Autoridades e o inteiro povo do Canadá, apresentando a todos os meus melhores votos de felicidade e de prosperidade.

Deus lhe conceda todos os benefícios das suas Bênçãos, assim como aos seus familiares, aos membros da sua Embaixada, às Autoridades do seu país e aos seus compatriotas.

DISCURSO DO PAPA JOÃO PAULO II AOS PARTICIPANTES NO ENCONTRO SOBRE O ANTIJUDAÍSMO PROMOVIDO PELA COMISSÃO TEOLÓGICO-HISTÓRICA DO GRANDE JUBILEU DO ANO 2000

31 de Outubro de 1997

Senhores Cardeais Prezados Irmãos no Episcopado Queridos Amigos

1. Sinto-me feliz por vos receber durante o vosso Simpósio sobre as raízes do antijudaísmo. Saúdo de modo particular o Senhor Cardeal Roger Etchegaray, Presidente do Comité Central para o Grande Jubileu do Ano 2000, que preside aos vossos trabalhos. Agradeço a todos terem consagrado estes dias a um estudo teológico de grande relevância.

O vosso Colóquio inscreve-se na preparação do Grande Jubileu, mediante a qual exorto os filhos da Igreja a fazerem o balanço do milénio transcorrido e especialmente do nosso século, no espírito de um necessário «exame de consciência », no limiar do tempo que deverá constituir um período de conversão e reconciliação (cf. Tertio millennio adveniente , 27-35).

A finalidade do vosso Simpósio é a interpretação teológica correcta das relações da Igreja de Cristo com o povo judeu, cujas bases foram lançadas pela declaração conciliar Nostra aetate e sobre as quais, no exercício do meu magistério, eu mesmo tive a ocasião de intervir várias vezes. Com efeito, no mundo cristão — não digo da parte da Igreja enquanto tal — circularam por demasiado tempo interpretações erróneas e injustas do Novo Testamento sobre o povo judeu e a sua presumível culpabilidade, gerando sentimentos de hostilidade no que se refere a esse povo. Estes contribuíram para amortecer muitas consciências, de maneira que, quando se desferiu sobre a Europa a onda das perseguições inspiradas por um anti-semitismo pagão que, na sua essência, era igualmente um anticristianismo, ao lado de cristãos que fizeram tudo para salvar os perseguidos, até ao perigo da própria vida, a resistência espiritual de muitas pessoas não foi aquela que a humanidade tinha o direito de esperar da parte dos discípulos de Cristo. O vosso olhar lúcido no passado, em vista de uma purificação da memória, é deveras oportuno para demonstrar de modo clarividente que o anti-semitismo não tem qualquer justificação e é absolutamente condenável.

Os vossos trabalhos completam a reflexão levada a cabo de forma especial pela Comissão para as Relações Religiosas com o Judaísmo, traduzida entre outras, nas Orientações de 1 de Dezembro de 1974 e nas Notas para uma correcta apresentação dos judeus e do Judaísmo na pregação da catequese da Igreja católica, de 24 de Junho de 1985. Aprecio o facto de se desejar levar a cabo com grande rigor a investigação de natureza teológica realizada pelo vosso Simpósio, na convicção de que servir a verdade é servir ao próprio Cristo e à sua Igreja.

2. O Apóstolo Paulo, na conclusão dos capítulos da Carta aos Romanos (cf. capp. 9-11), nos quais nos oferece luzes decisivas sobre o destino de Israel em conformidade com o desígnio de Deus, faz ressoar um cântico de adoração. «Ó abismo da riqueza, da sabedoria e da ciência de Deus!» (Rm 11, 33). Na alma ardente de Paulo, este hino constitui um eco do princípio que ele acaba de enunciar e é como que o tema central de toda a epístola: «Deus encerrou a todos na desobediência, para ser misericordioso com todos» (Ibid., 11, 32). A história da salvação, mesmo quando as suas peripécias não parecem desconcertantes, é guiada pela misericórdia d’Aquele que veio salvar o que estava perdido. Uma atitude de adoração diante das insondáveis profundezas da Providência amorosa de Deus só permite entrever algo daquilo que é um mistério de fé.

3. Na origem desse pequeno povo situado entre grandes impérios de religião pagã, que o fascinam com a riqueza da sua cultura, está o facto da eleição divina. Esse povo é convocado e guiado por Deus, Criador do céu e da terra. A sua existência não é, por conseguinte, um mero facto de natureza nem de cultura, no sentido em que mediante a cultura o homem emprega os recursos da sua própria natureza. Trata-se de um facto sobrenatural. Esse povo persevera perante e contra tudo, porque é o povo da Aliança e, não obstante as infidelidades dos homens, o Senhor é fiel à sua Aliança. Ignorar esta dádiva primordial é aventurar-se pelo caminho de um marcionismo contra o qual a Igreja reagira imediatamente com vigor, consciente do seu vínculo vital com o Antigo Testamento, sem o qual o próprio Novo Testamento é desvirtuado do seu sentido. As Escrituras são inseparáveis desse povo e da sua história, a qual conduz a Cristo, o Messias prometido e esperado, o Filho de Deus que Se fez homem. A Igreja não cessa de confessá-l'O quando, na sua liturgia, repete quotidianamente os salmos, assim como os cânticos de Zacarias, da Virgem Maria e de Simeão (cf. Sl 132, 17; Lc 1, 46-55; 1, 68-79; 2, 29-32).

Eis o motivo por que aqueles que consideram o facto de Jesus e o seu ambiente terem sido judeus como um simples dado cultural contingente, que seria possível substituir por uma outra tradição religiosa, da qual a pessoa do Senhor poderia ser separada sem perder a sua identidade, não só desconhecem o sentido da história da salvação, mas mais radicalmente apropriam-se da verdade mesma da Encarnação e tornam impossível uma concepção autêntica da inculturação.

4. A partir do que se disse, podemos tirar conclusões susceptíveis de orientar a atitude do cristão e do trabalho do teólogo. A Igreja condena com determinação todas as formas de genocídio, bem como as teorias racistas que as inspiraram e que pretenderam justificá-las. Poder-se-iam evocar as Encíclicas de Pio XI Mit brennender Sorge (1937) e de Pio XII Summi Pontificatus (1939); esta última recordava a lei da solidariedade humana e da caridade para com todos os homens, independentemente do povo a que pertençam. Portanto, o racismo é uma negação da identidade mais profunda do ser humano, que é uma pessoa criada à imagem e semelhança de Deus. À malícia moral de todo o genocídio acrescenta-se, juntamente com o shoah, a malícia de um ódio que se apropria do plano salvífico de Deus para a história. A Igreja mesma tem sido directamente atingida por este ódio.

O ensinamento de Paulo na Carta aos Romanos indica-nos quais são os sentimentos fraternais, arraigados na fé, que devemos ter para com os filhos de Israel (cf. Rm 9, 4-5). O Apóstolo salienta-o: «Por causa dos Patriarcas» são amados por Deus, cujos dons e eleição são irrevogáveis (cf. Rm 11, 28-29).

5. Estai persuadidos da minha gratidão pelos trabalhos que realizais sobre um tema de grande alcance e que tenho muito a peito. Assim, contribuís para o aprofundamento do diálogo entre os católicos e os judeus, e congratulamo-nos por este se ter renovado positivamente durante os últimos decénios.

Formulo os melhores votos para vós e os vossos entes queridos, e de bom grado concedo-vos a Bênção Apostólica.

DISCURSO DO PAPA JOÃO PAULO II À CONFERÊNCIA EPISCOPAL REGIONAL DO NORTE DA ÁFRICA (CERNA) EM VISITA «AD LIMINA APOSTOLORUM»

30 de Outubro de 1997

Caros Irmãos no Episcopado

1. É para mim uma grande alegria acolher-vos nesta casa, a vós que sois os pastores da Igreja de Cristo na Região do Norte da África. Viestes em peregrinação aos túmulos dos Apóstolos para renovar a vossa esperança e o vosso dinamismo apostólico, a fim de viverdes o vosso ministério episcopal de maneira cada vez mais intensa no meio dos povos da vossa região. Agradeço a D. Teissier, Arcebispo de Argel e Presidente da vossa Conferência Episcopal, as palavras tão fortes que fizeram ressaltar os sofrimentos e os dramas dos vossos povos, mas também as alegrias e as luzes que ali manifestam a obra de Deus. Ao receber- vos, devo antes de tudo recordar a memória do Cardeal Duval que, durante longos anos, foi Presidente da vossa Conferência e cujo ministério episcopal tanto marcou a vida da Igreja no Norte da África. Como Sucessor de Pedro, quereria hoje encorajar-vos no vosso serviço pastoral. Transmiti também a minha saudação afectuosa aos fiéis de cada uma das vossas dioceses e, através deles, a todos os habitantes dos países do Magrebe.

2. A vossa presença em Roma dá-me o ensejo de voltar o meu olhar para cada uma das vossas comunidades. No decorrer dos últimos meses, a Igreja na Líbia teve a alegria de acolher um novo pastor, no Vicariato Apostólico de Benghazi. Sinto-me feliz por o receber e lhe desejar um fecundo ministério episcopal. Espero também que terminem quanto antes as dificuldades do povo líbio, devidas ao embargo aéreo imposto ao seu país há muitos anos.

Tenho o prazer de me recordar da visita que efectuei no ano passado a Túnis, e do acolhimento caloroso que me foi reservado pelos fiéis católicos e pelo povo tunisino. Durante essa jornada memorável nas pegadas dos Santos e Santas que marcaram a história do país, pude encontrar-me com todos vós, Bispos do Magrebe, pela primeira vez no solo da vossa região.

A comunidade católica de Marrocos continua presente na minha memória, após o feliz dia do meu encontro com ela e com a juventude marroquina em Casablanca, o qual deu um novo impulso às relações e ao diálogo entre cristãos e muçulmanos. Desejo-lhe que prossiga com ardor o seu testemunho de fraternidade evangélica no meio dos habitantes desse país.

Quereria saudar e encorajar, com particular afecto, os católicos da Argélia. Conheço os seus sofrimentos e os de todo o povo argelino. Estou-lhes reconhecido por compartilharem com coragem, no nome de Cristo, as provas dessa nação tão tragicamente tocada na sua carne e na sua alma. Dezanove religiosos e religiosas verteram o próprio sangue durante estes últimos anos, aceitando irem até ao extremo dom de si mesmos pelos seus irmãos. Entre eles, devo nomear em particular D. Pierre Claverie, Bispo de Orã, e os sete monges trapistas de «Notre-Dame de l’Atlas». Visto que continua a desencadear- se uma violência inaceitável para toda a consciência humana, peço a Deus que dê, enfim, a paz à terra da Argélia e conduza cada um pelos caminhos do respeito por toda a vida humana, em vista duma verdadeira reconciliação e da cura de inúmeras feridas, causadas ao coração de tantas pessoas. Da minha parte, tenho muitas vezes feito apelo a todos os homens de boa vontade para que colaborem para o restabelecimento da paz na Argélia. Conheço o calvário doloroso que padece essa terra e estou próximo de todos os que choram o desaparecimento de entes queridos. Mais uma vez, quereria dar a certeza de que a Santa Sé não negligenciará esforço algum a fim de contribuir para o retorno da paz à Argélia.

3. A Igreja na vossa região exprime de maneira particular o mistério da Encarnação de Deus entre os homens, especialmente o mistério de Nazaré. Com efeito, ela torna manifesta a presença discreta mas muito viva de Cristo, respeitosa tanto das pessoas como das diferentes comunidades humanas e religiosas, a fim de comunicar a todos a plenitude do amor do Pai celeste. A vocação das vossas comunidades é também uma vocação à esperança, fundada em Cristo. Como pequeno rebanho, que na vida social não possui poder nem pretensão senão do amor, vós sois conduzidos a depositar totalmente a vossa confiança em Deus, certos de que é Ele que vos guia nos caminhos do encontro com os vossos irmãos. Santa Teresa do Menino Jesus e da Santa Face, cujo centenário da «entrada na vida» celebramos este ano e que foi proclamada Doutora da Igreja universal há alguns dias, escrevia: «Desde quando compreendi que me era impossível fazer algo por mim mesma, [...] senti que a única escolha necessária era unir-me cada vez mais a Jesus e que o resto me seria concedido por acréscimo. Com efeito, jamais a minha esperança foi frustrada» (Manuscrito C, 22 v). Que o Senhor vos ajude a perseverar na fé e no amor, mesmo quando os resultados das vossas obras se fizer esperar!

Queridos Irmãos no Episcopado, tendes o pesado encargo de sustentar o povo que vos foi confiado no seu caminho rumo ao Reino e no seu testemunho no meio dos homens. Ao fazer-vos um só coração no seio da vossa Conferência Episcopal, tornais cada vez mais forte a unidade das vossas comunidades, no reconhecimento das diversidades legítimas! Sede guias atentos, sabendo escutar e encorajar cada um na sua vida cristã, para que possa crescer na fé e na caridade.

4. Na missão da Igreja, os sacerdotes ocupam um lugar particular. Como homens da comunhão na comunidade cristã, eles estão ao serviço da existência e do crescimento do povo de Deus, anunciando- lhe a Palavra de Vida e proporcionando- lhe os sacramentos da Igreja. Convido-os a dar à Eucaristia um lugar central na sua própria existência e a estimar o seu ministério, descobrindo nele, de maneira cada vez mais profunda, o acontecimento em que Cristo, vindo ao encontro da humanidade, Se oferece inteiramente pela salvação do mundo.

O sacerdote é também «chamado a encetar um relacionamento de fraternidade, de serviço, de procura comum da verdade, de promoção da justiça e da paz» (Pastores dabo vobis , 18). Na vossa Região, com muita generosidade e coragem, através duma presença atenciosa a cada um, os vossos sacerdotes testemunham no meio dos seus irmãos e irmãs, com frequência entre os mais pobres, a universalidade e a gratuidade do amor de Deus. Encorajo-os a consolidar o seu testemunho, caminhando com segurança na via da santidade. Estejam certos de que a autenticidade da vida, que vem de Deus, se exprime antes de tudo mediante a qualidade do próprio ser espiritual, fundada sobre a sua disponibilidade à obra do Espírito Santo entre eles.

5. Quereria saudar de maneira especial os religiosos e as religiosas do Magrebe, que oferecem à vida da Igreja a riqueza dos seus carismas. A Igreja está-lhes reconhecida pelo testemunho evangélico que dão no meio dos seus irmãos e irmãs.

Nas vossas situações particulares, nas quais os membros dos Institutos de vida consagrada formam muitas vezes um núcleo importante dos membros permanentes das vossas comunidades, é necessário que um diálogo confiante entre os Bispos e os responsáveis destes Institutos permita examinar em conjunto as exigências da vida pastoral, ligadas à presença dos seus membros. Desejo vivamente que os Superiores e as Superioras das Congregações manifestem com generosidade a sua solidariedade com as vossas Igrejas particulares, sobretudo suscitando vocações para o testemunho eclesial na vossa região.

As evoluções das situações humanas exigem das pessoas consagradas um grande espírito de fé, para se adaptarem às circunstâncias novas e às diferentes necessidades que se manifestam. Encorajo- as a permanecer fiéis ao próprio carisma, tendo a audácia da criatividade. É antes de tudo de autênticas testemunhas do amor de Deus que o mundo tem necessidade. A todos os consagrados repito com firmeza: «vivei plenamente a vossa dedicação a Deus, para não deixar faltar a este mundo um raio da beleza divina que ilumine o caminho da existência humana» (Vita consecrata , 109).

6. O papel dos fiéis leigos, alguns dos quais estão ligados muito intimamente aos destinos do povo dos vossos países, reveste um grande significado para exprimir a profunda realidade da Igreja. Com efeito, «já no nível do ser, ainda antes do nível do agir, os cristãos são ramos da única fecunda videira que é Cristo, são membros vivos do único Corpo do Senhor, edificado na força do Espírito» (Christifideles laici , 55). Com os sacerdotes, os religiosos e as religiosas, em comunhão com os seus Bispos, os leigos formam esta Igreja-família que a Assembleia especial do Sínodo dos Bispos para a África quis promover. Convido-os a participar de maneira cada vez mais activa na vida e no testemunho das suas comunidades, a fim de constituírem uma Igreja local radiante, acolhedora de todos.

Por ocasião da Jornada Mundial da Juventude em Paris, apreciei a presença de jovens que vieram da vossa região, sobretudo estudantes. Nas vossas comunidades eles têm um lugar importante e dão um bonito testemunho de vida evangélica no meio dos seus irmãos e irmãs nas universidades e nas escolas, muitas vezes em condições difíceis. De igual modo, repito-lhes ainda, por vosso intermédio: «Continuai a contemplar a glória de Deus, o amor de Deus; e sereis iluminados para construir a civilização do amor, para ajudar o homem a ver o mundo transfigurado pela sabedoria e amor eternos» (Homilia em Longchamp , n. 6).

Caros Irmãos no Episcopado, permiti-me pedir-vos que transmitais uma saudação afectuosa do Papa aos discípulos do Evangelho, que estão nas situações mais difíceis ou que vivem na prova. Conheço a sua coragem e o seu apego a Cristo e à sua Igreja. Que eles depositem toda a sua confiança no Senhor, que jamais os abandonará!

7. Por ocasião das assembleias sinodais que se realizaram em muitas das vossas dioceses, o desejo duma formação espiritual e doutrinal sólida foi muitas vezes expresso pelos fiéis. O Catecismo da Igreja Católica constitui já uma referência comum, que convém fazer conhecer. É para desejar que o aprofundamento da fé contribua para a unidade de vida de cada um, a fim de «crescer incessantemente na intimidade com Jesus Cristo, na conformidade com a vontade do Pai, na dedicação aos irmãos, na caridade e na justiça» (Christifideles laici , 60). Um lugar privilegiado deve também ser dado ao conhecimento da cultura do povo, no qual os cristãos são chamados a viver, a fim de que, numa atitude de escuta e de diálogo, sejam mais capazes de testemunhar o Evangelho diante das questões e dos problemas novos que interpelam o homem e a sociedade de hoje.

8. O serviço aos mais pobres é um sinal profético do empenhamento dos cristãos no seguimento de Cristo. Conheço e aprecio o trabalho realizado nas vossas dioceses para manifestar, assim, a gratuidade do amor de Deus para com todos os homens. Como já tive ocasião de ressaltar aquando da beatificação de Frederico Ozanam, «o próximo é todo o ser humano, sem excepção. É inútil perguntar sobre a sua nacionalidade, a sua pertença social ou religiosa. Se está em necessidade, é preciso ir ajudá-lo. É isto que pede a primeira e a maior Lei divina, a lei do amor de Deus e do próximo» (Homilia, Paris , 22/8/1997, n. 1). Através dos diversos organismos diocesanos de ajuda mútua, como a Cáritas, com frequência em colaboração com outras associações, e também pela partilha pessoal, não só contribuís para oferecer aos desprotegidos os meios de existência, mas sobretudo ajudai-os a reencontrar a sua dignidade de homens e de mulheres, criados à imagem de Deus. As vossas actividades ao serviço da saúde, da educação e da promoção da pessoa humana, que muitas vezes se devem adaptar às novas necessidades, permanecem instrumentos privilegiados para manifestar a caridade de Cristo e lugares de encontro e de partilha, onde os corações se podem abrir na confiança mútua.

9. As vossas comunidades são entre os crentes do Islão um sinal da estima que a Igreja católica lhes tributa e do seu desejo de prosseguir com eles a caminhada dum diálogo verdadeiro, no respeito mútuo. Num período muitas vezes conturbado pelos sentimentos de desconfiança ou até de animosidade, as vossas comunidades dão um abnegado testemunho de amizade e de convivência, que por vezes se revelou heróico nas situações trágicas vividas por algumas delas. E é uma felicidade constatar que a participação nas mesmas provas favorece um novo olhar de confiança e de compreensão recíprocas. Apesar das dificuldades, continuai firmes na convicção de que o diálogo é «um caminho que conduz ao Reino e seguramente dará frutos, mesmo se os tempos e os momentos estão reservados ao Pai» (Redemptoris missio , 57).

10. Caros Irmãos no Episcopado, preparamo-nos para o Grande Jubileu do Ano 2000; o próximo ano será consagrado ao Espírito Santo e à redescoberta da Sua presença e da Sua acção na Igreja e no mundo. Para os católicos será a ocasião de renovarem a sua esperança, virtude fundamental que «por um lado impele o cristão a não perder de vista a meta final que dá sentido e valor à sua existência inteira, e por outro lhe oferece motivações sólidas e profundas para o empenhamento quotidiano na transformação da realidade, a fim de a tornar conforme ao projecto de Deus» (Tertio millennio adveniente , 46).

Nas vossas condições particulares, por vezes tão dramáticas, convido-vos então a procurar e a valorizar os sinais de esperança que nos revelam a obra do Espírito de Deus no coração dos homens. Peço à Mãe de Cristo, a Virgem Santíssima, que em toda a sua vida se deixou conduzir pelo Espírito, que vos guie nos caminhos da confiança e da paz para o encontro de seu divino Filho. De todo o coração, concedo a Bênção Apostólica a cada um de vós, aos vossos sacerdotes, aos diáconos, aos religiosos e às religiosas, assim como a todos os fiéis das vossas dioceses.

DISCURSO DO PAPA JOÃO PAULO II AOS PARTICIPANTES NA XVII ASSEMBLEIA PLENÁRIA DO PONTIFÍCIO CONSELHO PARA OS LEIGOS

30 de Outubro de 1997

Prezados Irmãos no Episcopado Queridos Amigos

1. Estou feliz por vos receber, a vós que participais na XVII Assembleia Plenária do Pontifício Conselho para os Leigos. Saúdo de maneira muito especial os novos membros e os novos consultores do Conselho, reunidos pela primeira vez depois do início do seu mandato quinquenal. Esta é também a primeira Assembleia Plenária guiada pelo vosso Presidente, D. James Francis Stafford, tendo como Secretário D. Stanisław Ryłko. Agradeço a todos vós a preciosa colaboração; exprimo também a minha gratidão àqueles que trabalham ao serviço deste Conselho em Roma. Apraz-me dizer aqui que, mediante o afecto fraterno e a oração, me sinto próximo do Senhor Cardeal Eduardo Pironio, que por longos anos presidiu ao vosso Dicastério com competência e dedicação.

Queridos Irmãos e Irmãs, tendes uma particular responsabilidade: as nomeações que recebestes fazem de vós colaboradores do Sucessor de Pedro no seu ministério pastoral, para servir a vasta e diversificada realidade do laicado católico. Estou-vos reconhecido por terdes aceite este encargo com generosa disponibilidade. Fostes chamados a título especial; consequentemente, o Conselho conta com a vossa experiência cristã, com o vosso sensus Ecclesiae, com a vossa capacidade de compreender e de fazer conhecer a riqueza da vida cristã na diversidade dos povos e das culturas, as experiências de pedagogia, de vida associativa e de entreajuda, vividas em todos os ambientes. A vossa Assembleia constitui um tempo forte de escuta e de discernimento das necessidades e das expectativas dos fiéis leigos, a fim de encorajar os seus testemunhos e as suas acções e de definir melhor as tarefas do Conselho que está ao seu serviço, à luz do Magistério doutrinal e pastoral da Igreja.

2. Transcorreram trinta anos desde que o Papa Paulo VI, respondendo a um desejo dos Padres do Concílio Vaticano II, fundava este Conselho. No passado fui um dos seus consultores e posso testemunhar tanto a continuidade do trabalho levado a cabo no decurso destes três decénios, como a sua constante renovação; por isto dou graças juntamente convosco.

O Pontifício Conselho para os Leigos inspira-se nos ensinamentos essenciais do Concílio Vaticano II: a Igreja tomou mais vivamente consciência de ser mistério de comunhão e de possuir uma natureza missionária; a dignidade, a coresponsabilidade e o papel activo dos leigos foram melhor reconhecidos e valorizados. Estes trinta anos dão-nos muitos motivos de esperança: hoje, a maturidade dos fiéis leigos manifesta-se mediante as suas actividades nas comunidades, as instituições e os serviços eclesiais mais variegados. Eles participam mais intensamente na vida litúrgica e sacramental da Igreja, nascente e ápice da vida cristã. Aspiram a uma formação metódica e completa. Tendo em consideração a pluralidade dos carismas, dos métodos e dos compromissos, vê-se desenvolver uma nova geração de associações de fiéis, que produzem abundantes frutos de santidade e de apostolado, dando um impulso renovado à comunhão e à missão do povo cristão.

Os Dias Mundiais da Juventude — pensamos na recentíssima e impressionante Jornada de Paris — demonstraram que os jovens são precisamente a esperança da Igreja que vai entrar no terceiro milénio. Os jovens exprimem com vigor a sua necessidade de sentido e de ideal, a sua aspiração a uma vida mais humana e mais verdadeira: trata-se de sentimentos radicados no coração dos homens e na cultura dos povos, mais profundos e mais vivos do que o conformismo niilista que parece impregnar numerosos espíritos.

Nestes últimos anos, o processo de afirmação da verdadeira dignidade da mulher encontrou a simpatia activa da Igreja, dado que o «génio feminino» enriquece cada vez mais a comunidade cristã e a sociedade. Além disso, é preciso admirar o compromisso de inumeráveis cristãos nas obras mais diversificadas, tendo em vista a entreajuda humana e social, demonstrando a criatividade construtiva da caridade e colocando-se ao serviço do bem comum nas instituições políticas, culturais e económicas. A Exortação apostólica Christifideles laici analisou estes sinais de esperança no itinerário pós-conciliar do laicado católico. Agora, cabe a vós dar continuidade a este caminho. A Igreja inteira conta com um empenhamento ainda mais activo dos fiéis, em todos os lugares de vanguarda do mundo.

3. No contexto da preparação para o Grande Jubileu, a vossa Assembleia realiza- se durante o ano consagrado a Jesus Cristo (cf. Tertio millennio adveniente , 40-43). O Jubileu convida a fazer memória, na acção de graças, da presença do Verbo encarnado: trata-se da memória vivente da sua Presença, aqui e agora, tão verdadeira e tão nova como há dois mil anos. Aprofundar o mistério da Encarnação leva a insistir durante este ano «sobre a redescoberta do Baptismo como fundamento da existência cristã» (Ibid., 41). Em Paris, durante a vigília do Dia Mundial da Juventude, a celebração do baptismo de dez jovens convidou vigorosamente centenas de milhares de jovens congregados, mas também todos os cristãos, a retomarem consciência do dom que é o seu baptismo e das responsabilidades que daí derivam.

Hoje em dia, o principal desafio é representado por uma difundida descristianização. Por conseguinte, o Jubileu exorta a um sério compromisso catequético e missionário. É necessário que todos os homens possam descobrir a presença de Cristo e o olhar amoroso do Senhor sobre cada pessoa, que voltem a escutar as suas Palavras, «Vem, segue-Me!». Eis o motivo por que o mundo espera um testemunho mais evidente da parte de homens e mulheres livres, reunidos na unidade que, mediante o seu estilo de vida, demonstram que Jesus Cristo oferece de forma totalmente gratuita uma resposta que exaure as suas aspirações de verdade, felicidade e amadurecimento humano. Portanto, para os fiéis é essencial, como diz o tema da vossa Assembleia, «ser cristãos no limiar do terceiro milénio», viver o seu baptismo, a sua vocação e a sua responsabilidade cristã.

Infelizmente, vê-se aumentar o número dos não-baptizados, mesmo nas regiões de tradição cristã secular. Além disso, muitos baptizados tendem a esquecer- se daquilo que se tornaram pela graça recebida, ou seja, «novas criaturas » (Gl 6, 15) que se revestiram de Cristo. Tais situações exigem mais do que nunca um exame atento. Há que reavivar o impulso missionário mediante a proposta de itinerários de iniciação cristã para os numerosos jovens e adultos que pedem para ser baptizados, e de uma renovação da formação cristã para aqueles que se afastaram da fé recebida.

Com efeito, trata-se da questão fundamental da educação para a fé e na fé, numa época em que a capacidade de transmitir a fé na continuidade da tradição parece ter perdido o seu vigor. Sinto- me feliz pela escolha do tema do vosso Conselho; não há dúvida de que as vossas reflexões e recomendações finais serão de grande utilidade.

A vossa Assembleia tem também a tarefa de definir os programas de trabalho do Dicastério para os anos vindouros. Sei que se está a preparar o Congresso Mundial dos Movimentos e as suas peregrinações a Roma; trata-se de iniciativas de grande alcance. Os dois acontecimentos que programastes para o Grande Jubileu terão também particular importância: o Congresso Mundial do Apostolado dos Leigos, retomando a tradição de encontros periódicos, iniciada ainda antes do Concílio Vaticano II, e o Jubileu dos Jovens na via de uma Igreja jovem em caminho.

Obrigado por terdes vindo aqui hoje. Na oração confio ao Senhor, por intercessão de Maria Mãe da Igreja, os trabalhos do Pontifício Conselho para os Leigos. E a todos vós aqui presentes, aos vossos entes queridos e aos vossos irmãos e irmãs das diferentes Igrejas particulares, concedo do íntimo do coração a Bênção Apostólica.

MENSAGEM DE SUA SANTIDADE JOÃO PAULO II AOS CHEFES DE ESTADO E DE GOVERNO PARTICIPANTES NA VII REUNIÃO DE CÚPULA ÍBERO-AMERICANA

Aos Excelentíssimos Senhores Chefes de Estado e de Governo das Nações Ibero-Americanas, da Espanha e de Portugal

Por ocasião da VII Reunião de Cúpula Ibero-Americana, que se celebra na ilha venezuelana de Margarida e que tem como tema central «Os Valores Éticos da Democracia», é-me grato fazer chegar a minha mais cordial e deferente saudação aos Supremos Mandatários desses Países, desejosos de dialogar acerca de alguns princípios e cooperar sobre determinados fundamentos comuns que regem o destino dos seus próprios Povos.

1. A Santa Sé seguiu com vivo interesse o desenvolvimento das anteriores Reuniões de Cúpula Ibero-Americanas e testemunhou com satisfação os compromissos assumidos publicamente nas mesmas, de modo especial as Declarações de São Carlos de Bariloche, na Argentina, e de Viña del Mar, no Chile. Aos benefícios que tais reuniões podem trazer a esses Países, nos quais a Igreja católica está muito presente, deve-se acrescentar o valor mesmo do caminho empreendido, de diálogo e de livre cooperação, que a própria Igreja encoraja com insistência como o método mais idóneo, justo e frutífero para resolver os conflitos e promover o progresso e a paz entre os povos.

O tema escolhido para a VII Reunião de Cúpula toca o coração mesmo de toda a democracia que, antes ainda de se plasmar numa organização política concreta, é uma opção fundamentalmente ética em favor da dignidade da pessoa, com os seus direitos e liberdades, os seus deveres e responsabilidades, na qual encontram sustento e legitimidade todas as formas de convivência humana e de estruturação social. A Igreja, que não possui uma fórmula própria de constituição política para as nações, nem pretende impor determinados critérios de governo, encontra aqui o âmbito específico da sua missão de iluminar, a partir da fé, a realidade social em que está imersa.

Com efeito, a Igreja ensina que as estruturas político-jurídicas devem dar «a todos os cidadãos a possibilidade efectiva de participar livre e activamente, dum modo cada vez mais perfeito e sem qualquer discriminação, tanto no estabelecimento das bases jurídicas da comunidade política, como na gestão da administração pública e na determinação do campo e fim das várias instituições e na escolha dos governantes» (Conc. Ecum. Vat. II, Const. past. Gaudium et spes, sobre a Igreja no mundo contemporâneo, 75), o que comporta para os mesmos cidadãos «o direito e simultaneamente o dever que têm de fazer uso do seu voto livre em vista da promoção do bem comum» (Ibid.). Por isso, é necessário que cada pessoa tenha não só direito a pensar e propagar as suas ideias, e a associar-se com liberdade para a acção política, mas também direito a viver segundo a sua consciência rectamente formada, sem prejudicar os outros nem a si mesmo, e tudo isto em virtude da plena dignidade da pessoa humana.

O primeiro valor ético da democracia, que coincide com o pressuposto que a sustém e alimenta, é o reconhecimento de que a pessoa humana foi dotada por Deus de uma dignidade, que nada e ninguém pode violar. Trata-se de uma rejeição de toda a forma de submissão do homem por parte do homem e, portanto, de toda a forma de tirania, absolutismo ou totalitarismo.

2. A estes princípios fundamentais deve- se voltar sempre que as instituições políticas das nações sintam a tentação de esquecer as suas raízes como Estado de Direito, tergiversando os seus compromissos morais ou contentando-se com ordenamentos que, só nominalmente, se podem chamar democráticos.

A participação efectiva, consciente e responsável dos cidadãos na vida pública não pode deter-se em declarações formais, mas exige uma acção contínua para que os direitos proclamados possam ser exercidos realmente. Isto comporta um decidido compromisso em favor dos fundamentais direitos civis, sociais, culturais e políticos da pessoa, e «a promoção dos indivíduos, através da educação e da formação nos verdadeiros ideais» (Enc. Centesimus annus , 46). Uma vida digna e uma sadia formação ética e moral são condições indispensáveis para que os cidadãos possam desempenhar bem as suas funções políticas. Só se as pessoas viverem profundamente os valores da justiça, da solidariedade e do respeito pelo próximo, as suas decisões poderão contribuir melhor e de maneira responsável para o bem comum.

Esta formação é o melhor antídoto ante tantos episódios de deformação, e às vezes de corrupção, que afectam alguns sistemas democráticos. Por outro lado, deve haver uma classe dirigente «com a consciência da própria responsabilidade, com a imparcialidade, sem as quais um governo democrático dificilmente conseguiria obter o respeito, a confiança e a adesão da parte melhor do povo» (Discurso à Cúria Romana, 22 de Dezembro de 1994; L’Osserv. Rom., ed. port. de 24/12/94, pág. 7).

3. No exercício democrático da responsabilidade política, têm certamente importância as orientações das maiorias, ainda que estas não se devam considerar sempre como o último e exclusivo critério de acção. Existem alguns fundamentos éticos e jurídicos anteriores, que justificam precisamente a participação de todos os cidadãos, e que não podem ser violados sem renegar a própria estrutura democrática.

Com efeito, às vezes acontece que, em nome do direito à liberdade, se pretenda conculcar a liberdade das pessoas, quer porque as maiorias negam os legítimos direitos das minorias, quer porque atentam contra direitos da pessoa que nenhum poder humano está autorizado a violar: «de modo especial o direito à vida em todos os estádios da existência; os direitos da família, enquanto comunidade social de base ou «célula da sociedade »; a justiça nas relações de trabalho; os direitos inerentes à vida da comunidade política como tal; os direitos fundados na vocação transcendente do ser humano, a começar pelo direito à liberdade de professar e de praticar o próprio credo religioso» (Enc. Sollicitudo rei socialis , 33).

De facto, como é que um sistema que se autodefine justificado no respeito de cada ser humano, pode negar este mesmo respeito a outras pessoas? Por isso, a Igreja ensina que «uma autêntica democracia só é possível num Estado de Direito e sobre a base de uma recta concepção da pessoa humana» (Enc. Centesimus annus , 46). Entretanto, assistimos a um deterioramento deste sistema quando, através do mesmo, só se buscam situações de poder em vez do autêntico serviço do povo; quando as maiorias esquecem a presença e os direitos das minorias, impondo-se sobre elas e provocando atitudes de ressentimento e rejeição. Por isso, se não houver plena liberdade para todos, muitos se sentirão como que escravizados. Isto é, enquanto não se produzir o desenvolvimento da autêntica liberdade, é impossível obter uma cultura da paz verdadeiramente eficaz. Por outro lado, esta cultura da paz não se promove pela ausência de guerras, mas mediante uma opção jubilosa em prol da vida, o que sem dúvida ajudará a criar um forte vínculo de fraternidade na existência humana e a preservar e favorecer uma convivência social em mútua igualdade e liberdade.

4. Os Estados que querem promover os valores da democracia, os direitos humanos, os direitos das minorias, a luta contra a pobreza, o racismo, a xenofobia e a intolerância, sentem-se também no dever de os levar para além da própria nação, a fim de se enriquecerem mutuamente com as intuições e experiências de outros povos, e procurar difundir também no âmbito internacional um modelo a que, nos seus mais íntimos fundamentos éticos, se pode chamar património da humanidade e factor de unidade, de colaboração e de paz entre as nações.

Neste sentido, estou plenamente consciente de que nessa Reunião de Cúpula Ibero-Americana os seus Altos Representantes quiseram dar novos passos, para reafirmar mais uma vez a sua unidade, que tem as mesmas raízes na língua, história, cultura e fé. Estou certo de que poderão contar com o contributo sincero e solícito dos católicos de cada lugar, para trabalharem unidos em prol dos seus concidadãos, do próprio País e de toda a Comunidade internacional.

Antes de concluir esta mensagem, e recordando a exortação do Apóstolo São Paulo, quero elevar súplicas ao Senhor com toda a Igreja, «por todas as autoridades, para que tenhamos vida tranquila e sossegada... levantando as mãos puras, sem ressentimento e sem contenda» (1 Tm 2, 2.8). Ao mesmo tempo, é-me grato formular os meus sinceros bons votos por que esta VII Reunião de Cúpula abra novas perspectivas e encontre as oportunas convergências de diálogo e de fecunda e solidária colaboração entre os membros participantes, para bem da grande família ibero-americana.

Vaticano, 28 de Outubro de 1997.

JOÃO PAULO II

DISCURSO DO PAPA JOÃO PAULO II AO SENHOR TEODOR BACONSKY NOVO EMBAIXADOR DA ROMÉNIA JUNTO DA SANTA SÉ POR OCASIÃO DA APRESENTAÇÃO DAS CARTAS CREDENCIAIS

27 de Outubro de 1997

Senhor Embaixador

1. É-me grato acolher Vossa Excelência por ocasião da apresentação das Cartas que o acreditam como Embaixador Extraordinário e Plenipotenciário da Roménia junto da Sé Apostólica. Este encontro constitui um novo passo nas relações entre a Santa Sé e a nobre nação romena, passo que abre a via a um diálogo cada vez mais desenvolvido e confiante.

2. Sinto-me particularmente sensibilizado pelos sentimentos com que Vossa Excelência inicia a sua nova missão, pelas convicções contidas nas palavras que acaba de me dirigir, assim como pela sua atenção à acção do Sucessor de Pedro e da Sé Apostólica na vida internacional e nas relações ecuménicas. Ficar-lhe-ia grato se transmitisse a Sua Excelência o Senhor Emil Constantinescu, Presidente da Roménia, as minhas deferentes saudações. Formulo os melhores votos para os que têm a alta missão de servir a nação romena e para todos os habitantes do país.

3. Desde o mês de Dezembro de 1989, a Roménia reencontrou a sua autonomia e dedica-se a desenvolver todos os sectores de actividade, a fim de que as riquezas nacionais sejam postas à disposição de todos os cidadãos. Alegro-me com os esforços feitos pelas Autoridades para consolidar as instituições democráticas e para ajudar o conjunto do povo a tomar uma parte activa na vida pública, com os justos sentimentos patrióticos. Como todos os nossos contemporâneos, os seus compatriotas, em particular os jovens, têm necessidade de receber uma profunda educação moral. Esta formação fornece os princípios capazes de os guiar nas suas opções pessoais, nos seus empenhamentos ao serviço do próprio país e nas relações fraternas e solidárias, que por eles devem ser desenvolvidas com todas as pessoas que residem no território da Roménia. Tal como Vossa Excelência acaba de ressaltar, eles devem adquirir um sentido profundo da responsabilidade pessoal e colectiva. Além disso, isto não deixará de fazer aumentar o diálogo e o entendimento entre todas as componentes da nação, para a sua unidade interna e a sua participação activa na edificação da grande Europa.

4. Vossa Excelência conhece a atenção que a Santa Sé dedica à dignidade e à promoção das pessoas e dos povos, assim como o seu desejo que cada um tenha o próprio lugar na vida nacional e internacional, e possa oferecer-lhe a sua contribuição. No seu país, como noutras regiões do continente, existem minorias culturais e étnicas, e comunidades humanas provenientes da imigração. Elas são uma riqueza destinada a beneficiar todos, pois oferecem as suas especificidades e a sua habilidade, participando no crescimento nacional e no entrelaçamento dos vínculos entre os homens. No seio duma sociedade, toda a oposição entre grupos de pessoas, toda a veleidade de pensar que uma comunidade particular, vinda do estrangeiro e desejosa de se integrar, representa um perigo, não pode senão debilitar o país e as suas instituições, tanto no interior da nação como fora das suas fronteiras.

5. Na Roménia, apesar dos ortodoxos serem a maioria, os católicos constituem uma comunidade viva. Eles desejam pôr-se ao serviço dos seus irmãos, através dos seus envolvimentos em todos os campos da vida social. Em particular, através das suas organizações caritativas, sinais do amor que Cristo manifestou aos homens do Seu tempo, as comunidades católicas têm a peito ir em ajuda dos mais desprotegidos, sem distinção de cultura ou de religião. Não têm outro desejo senão aliviar a miséria e, ao mesmo tempo, contribuir para a solidariedade e a entre-ajuda fraterna entre todos os habitantes do país, o que favorece a unidade nacional.

Por outro lado, as diferentes entidades católicas locais dedicam-se a formar intelectual, moral e espiritualmente os jovens da Roménia, para que amanhã sejam actores e parceiros na vida pública, respeitosos da sua pátria, e dêem um sentido à sua vida pessoal e comunitária. Para cumprir esta tarefa de utilidade pública, segundo os princípios enunciados pelo Concílio Ecuménico Vaticano II (cf. Dignitatis humanae, 1- 2.13), a Igreja tem necessidade de que se desenvolvam uma prática autêntica da liberdade religiosa e uma verdadeira vida democrática, oferecendo a todos as mesmas possibilidades de iniciativas e as mesmas oportunidades, assim como a liberdade de acção dos seus ministros do culto. Pois, «a liberdade da Igreja é um princípio fundamental nas relações da Igreja com os Poderes públicos e com toda a ordem civil» (Ibid., n.13). Em particular, considerada a sua longa experiência de ensino escolar e universitário, convém que a Igreja possa manter e desenvolver as suas propostas educativas junto da juventude da Roménia, e oferecer às crianças e aos adolescentes católicos o ensino catequético a que têm direito, e de igual modo aos seus compatriotas das outras confissões religiosas. Neste espírito, faço ardentes votos por que sejam eliminados os obstáculos à restituição dos bens necessários à liberdade de culto e de religião, bens que pertenciam à Igreja católica antes de 1948 e que lhe foram subtraídos injustamente. Num futuro próximo, graças à busca dum diálogo construtivo com as Autoridades civis, faço votos por que as comunidades católicas possam perceber sinais concretos e positivos neste sentido.

6. Em vista do Ano 2000, retomando o apelo lançado pelo Concílio Ecuménico Vaticano II, desejei ardentemente exortar todos os discípulos de Cristo ao diálogo, para se chegar à plena unidade que será um testemunho para o mundo (cf. Encíclica Ut unum sint , 1). Por isso, convidei os membros da Igreja católica a intensificar as suas colaborações com as outras Igrejas e comunidades cristãs, empenhando-se num ecumenismo que aproxime da plena comunhão, no respeito pelas sensibilidades e tradições próprias, e com a preocupação de nos basearmos naquilo que já nos une. É do conhecimento de Vossa Excelência que os fiéis católicos dos diferentes ritos estão sempre prontos a prosseguir nesta via. Nesta perspectiva, alegro-me vivamente com as disposições espirituais com que Vossa Excelência aborda a sua missão, e com o seu desejo de oferecer uma contribuição significativa ao progresso ecuménico.

7. As suas competências em antropologia, em história cristã e em patrística permitem-lhe conhecer as culturas filosóficas e espirituais orientais e latinas. Senhor Embaixador, Vossa Excelência saberá contribuir melhor que ninguém para multiplicar as pontes entre as diferentes tradições cristãs do Oriente e do Ocidente, e para intensificar as confiantes relações diplomáticas entre a Santa Sé e o seu país, fundadas sobre o desejo de defender o homem e os povos. Com efeito, o serviço primordial que as Autoridades devem prestar aos seus povos é ajudá-los a fazer crescer a paz e a ajuda mútua, fontes de alegria profunda e de crescimento para as pessoas, e de desenvolvimento para as comunidades nacionais.

8. No momento em que inicia a sua missão de Representante da Roménia junto da Santa Sé, permita-me apresentar- lhe os meus votos cordiais. Esteja certo, Senhor Embaixador, de que encontrará sempre junto dos meus colaboradores o apoio atento e a compreensão cordial, de que poderá ter necessidade para que a sua actividade seja frutuosa e lhe dê todas as satisfações que Vossa Excelência dela possa esperar.

Sobre Vossa Excelência, sobre o povo romeno e os seus dirigentes, invoco de todo o coração a abundância das Bênçãos divinas.

DISCURSO DO PAPA JOÃO PAULO II AO SENHOR ABDELOUHAB MAALMI NOVO EMBAIXADOR DO MARROCOS JUNTO DA SANTA SÉ POR OCASIÃO DA APRESENTAÇÃO DAS CARTAS CREDENCIAIS

25 de Outubro de 1997

Senhor Embaixador!

1. Tenho o prazer de acolher Vossa Excelência no Vaticano, nesta circunstância solene da apresentação das Cartas que o acreditam como Embaixador Extraordinário e Plenipotenciário do Reino de Marrocos junto da Santa Sé.

Agradeço-lhe vivamente as saudações que me transmitiu da parte de Sua Majestade o Rei Hassan II. Da minha parte, ficar-lhe-ia grato se se dignasse exprimir- Lhe os meus ardentes votos para a sua pessoa, assim como para a felicidade e prosperidade do povo marroquino. Peço ao Altíssimo que acompanhe os esforços de cada um na obra de edificação duma nação cada vez mais fraterna e solidária.

2. Ao estabelecer já em Roma a residência do seu Representante junto da Santa Sé, Sua Majestade o Rei dá testemunho da importância que atribui à consolidação dos vínculos, já antigos, entre o Reino de Marrocos e a Sé Apostólica, para favorecer relações sempre mais confiantes. Num tempo em que numerosas regiões conhecem a violência e a intolerância, é com efeito necessário que os responsáveis das nações, assim como as autoridades espirituais, desenvolvam os seus esforços a fim de contribuir para edificar sociedades, onde toda a vida humana seja plenamente respeitada e a pessoa tenha o primeiro lugar e seja reconhecida em toda a sua dignidade.

3. Vossa Excelência, Senhor Embaixador, ressaltou a longa tradição de abertura e de tolerância de Marrocos. É-me grato recordar aqui a visita que fiz a Casablanca há mais de dez anos, e que me permitiu falar à juventude marroquina. No seu país, católicos e muçulmanos têm inúmeras ocasiões de se encontrar, para juntos procurarem melhorar a qualidade das relações, deixando assim esperar que os relacionamentos de estima recíproca entre os crentes continuem a ser aprofundados para um melhor conhecimento; isto não pode senão favorecer uma colaboração sempre maior ao serviço do homem e das necessidades do seu desenvolvimento. Com efeito, como Vossa Excelência sublinhou no seu discurso, cristãos e muçulmanos são chamados a trabalhar juntos na edificação dum mundo de justiça e de paz, na consideração mútua e no reconhecimento dos seus pontos de vista. Ao prestarmos ao Altíssimo a adoração e a obediência que Lhe são devidas, devemos também testemunhar juntos o respeito que deve ser dado a todo o homem, criado à imagem de Deus.

4. Por sua parte, após o Concílio Vaticano II, a Igreja católica empenhou-se de maneira resoluta nos caminhos do encontro fraterno e da colaboração com todos os homens de boa vontade, de modo particular com os muçulmanos. O diálogo que almejamos entre os crentes deve levar também a assegurar a cada uma das comunidades a possibilidade de exprimir livremente a sua fé. Para a Igreja católica, com efeito, «o respeito e o diálogo requerem, portanto, a reciprocidade em todos os campos, sobretudo no que diz respeito às liberdades fundamentais e, mais particularmente, à liberdade religiosa» (Discurso em Casablanca, 19 de Agosto de 1985, n. 5; ed. port. L'Osservatore Romano de 15.9.1985, pág. 10). Sinto-me feliz por saber que em Marrocos os católicos gozam da estima e da confiança de todos, testemunhando assim de maneira clara que é possível a crentes de tradições religiosas diferentes, viver em paz e no respeito mútuo.

5. No seu discurso, Senhor Embaixador, Vossa Excelência fez alusão à situação em Jerusalém. De facto, ela continua a ser uma fonte de viva preocupação para os crentes que vivem nessa Cidade, símbolo da Paz que vem de Deus. Desejo ardentemente que os esforços da Comunidade internacional, para encontrar uma solução equitativa e adequada ao problema delicado da Cidade santa, cheguem enfim a um feliz resultado, dado que nos preparamos para entrar no terceiro milénio da era cristã. Um diálogo leal deve permitir progredir nesta via, no respeito da justiça e dos direitos legítimos de todas as comunidades interessadas. É também necessário que as comunidades, que circundam os Lugares santos das três religiões monoteístas, possam ali viver na concórdia e desenvolver as suas actividades religiosas, educativas e sociais com toda a liberdade, num espírito de real fraternidade, fazendo assim dessa cidade singular a verdadeira «Cidade da Paz». Oro a Deus Todo-poderoso para que essa terra, tão cara ao coração dos crentes, conheça por fim o tempo da reconciliação entre irmãos e da paz definitiva.

6. Nesta feliz circunstância, por seu intermédio, quereria dirigir à comunidade católica de Marrocos e aos seus pastores os meus votos mais calorosos. Encorajo todos os seus membros a serem sempre mais, junto dos seus irmãos e das suas irmãs, numa colaboração fraterna, as testemunhas ardorosas do amor infinito que Deus tem para com os homens. No tempo em que a Igreja se prepara para celebrar o Grande Jubileu do Ano 2000, convido-os a crescer na fé e a viver na unidade.

7. No momento em que Vossa Excelência inicia oficialmente a sua missão junto da Santa Sé, apresento-lhe os meus melhores votos para o seu feliz cumprimento. Vossa Excelência encontrará sempre aqui um acolhimento atento e uma compreensão cordial da parte dos meus colaboradores.

Sobre Vossa Excelência, sobre a sua família, assim como sobre o inteiro povo marroquino e seus dirigentes, invoco de todo o coração a abundância das Bênçãos do Altíssimo.

DISCURSO DO PAPA JOÃO PAULO II À PLENÁRIA DA CONGREGAÇÃO PARA A DOUTRINA DA FÉ

24 de Outubro de 1997

Senhores Cardeais Venerados Irmãos no Episcopado e no Sacerdócio Caríssimos Irmãos e Irmãs!

1. É para mim motivo de grande alegria encontrar-vos no final da vossa Reunião Plenária. Tenho assim a oportunidade de vos manifestar sentimentos de profundo reconhecimento e de vivo apreço pelo trabalho que o vosso Dicastério realiza ao serviço do ministério de unidade, confiado de modo especial ao Romano Pontífice, e que se exprime primariamente como unidade de fé, sustentada e constituída pelo depósito sagrado, do qual o Sucessor de Pedro é o primeiro guardião e defensor (cf. Const. Apost. Pastor bonus, 11).

Agradeço ao Senhor Cardeal Joseph Ratzinger as amáveis palavras que me dirigiu, também em vosso nome, e a exposição dos temas que foram objecto de exame durante a Plenária. Esta foi dedicada, em particular, ao aprofundamento das categorias de verdade mencionadas na conclusão da Nova Fórmula da Profissão de Fé, publicada por essa Congregação em 1989, e à reflexão sobre o fundamento antropológico e cristológico da moral, à luz dos princípios confirmados na Encíclica Veritatis splendor .

Desejo, além disso, exprimir a minha satisfação pela positiva conclusão do trabalho de revisão do texto da «Agendi ratio in doctrinarum examine», que constitui um instrumento certamente válido a fim de oferecer uma estruturação cada vez mais adequada ao modo de proceder no exame dos escritos contrários à fé.

2. Quereria agora deter-me brevemente nos principais argumentos discutidos nesta vossa reunião. O aprofundamento da ordem das categorias de verdade da doutrina cristã, do tipo de assentimento devido, das fórmulas para propor a sua adesão, está em continuidade com o tema que foi objecto de consideração na precedente Plenária: o valor e a autoridade dos ensinamentos do Magistério da Igreja, ao serviço da verdade da fé e como fundamento estável da investigação teológica.

Naquela ocasião, tive a oportunidade de recordar que «para uma comunidade que se funda essencialmente sobre a adesão compartilhada à Palavra de Deus e a consequente certeza na verdade, a autoridade na determinação dos conteúdos que se devem crer e professar é algo a que não se pode renunciar. É dito claramente que a autoridade inclui diferentes graus de ensinamento nos dois recentes Documentos da Congregação para a Doutrina da Fé: a Professio fidei e a Instrução Donum veritatis. Esta hierarquia de graus deveria ser considerada não um impedimento, mas um estímulo para a teologia» (L’Osserv. Rom., ed. port. de 16/12/1995, pág. 14, n. 5).

A retomada, com especial atenção, deste tema contribui para a explicação mais aprofundada dos diversos graus de adesão dos fiéis às doutrinas ensinadas pelo Magistério, para que o seu significado e alcance originários sejam sempre recebidos e conservados de maneira íntegra. Ao mesmo tempo, ajuda a fazer com que se torne cada vez mais clara a conexão das diversas verdades da doutrina católica com o fundamento da fé cristã.

Graças também à elaboração de um esclarecimento nesse sentido, na qual se empenhou nestes dias a vossa Congregação, os Bispos, que dos Apóstolos recebem como herança a tarefa de «magistério e governo pastoral», a ser exercida sempre em comunhão com o Romano Pontífice (cf. Lumen gentium, 22), poderão no futuro dispor de um ulterior instrumento, para conservarem e promoverem o depósito da fé em benefício do inteiro povo de Deus.

3. Relevo singular, além disso, foi por vós reservado às questões morais, cujo horizonte se abre ao longo do inteiro arco da existência do homem.

A respeito disso, já na minha primeira Carta Encíclica Redemptor hominis , afirmei que «a Igreja não pode abandonar o homem, cuja “sorte”, ou seja, a escolha, o chamamento, o nascimento e a morte, a salvação ou a perdição, estão de maneira tão íntima e indissolúvel unidos a Cristo» (n. 14).

Os graves problemas que, com urgência cada vez mais premente, requerem uma resposta segundo a verdade e o bem, só podem encontrar uma solução autêntica se for recuperado o fundamento antropológico e cristológico da vida moral cristã. Com efeito, o Filho de Deus encarnado é a norma universal e concreta do agir cristão: «Ele mesmo Se torna Lei viva e pessoal que convida ao seu seguimento, dá, mediante o Espírito a graça de partilhar a sua própria vida e amor, e oferece a força para O testemunhar nas opções e nas obras (cf. Jo 13, 34-35)» (Veritatis splendor , 15). Cada homem, portanto, se torna por graça partícipe da verdade e do bem n’Aquele que é a imagem do Deus invisível (cf. Cl 1, 15), e na adesão ao Seu seguimento é habilitado a agir segundo a liberdade de filho.

No serviço que o vosso Dicastério oferece ao Sucessor de Pedro e ao Magistério da Igreja, vós contribuís para fazer com que a liberdade permaneça sempre e só «na verdade», ajudando a consciência de todos os homens, e dos discípulos de Cristo em particular, a não se desviar da via que conduz ao autêntico bem do homem.

O bem da pessoa é estar na verdade e praticar a verdade na caridade. Este ligame essencial de «verdade-bem-liberdade » parece ter sido perdido em boa parte da cultura contemporânea e, portanto, reconduzir o homem a descobri-lo é hoje uma das exigências próprias da missão da Igreja, chamada a trabalhar para a salvação do mundo.

Ao empenhardes-vos em esclarecer sempre melhor o originário fundamento antropológico e cristológico da vida moral, contribuireis certamente para promover a formação da consciência de muitos dos nossos irmãos, segundo quanto afirmam as palavras do Concílio Vaticano II na Declaração Dignitatis humanae: «Os fiéis... para formarem a sua própria consciência, devem atender diligentemente à doutrina sagrada e certa da Igreja. Pois, por vontade de Cristo, a Igreja Católica é mestra da verdade, e tem por encargo dar a conhecer e ensinar autenticamente a Verdade que é Cristo, e ao mesmo tempo declara e confirma, com a sua autoridade, os princípios de ordem moral que dimanam da natureza humana» (n. 14).

4. Hoje, é-me particularmente grato concluir este encontro convosco, recordando Santa Teresa do Menino Jesus e da Santa Face, que tive a alegria de proclamar solenemente, no domingo passado, Doutora da Igreja.

O testemunho e o exemplo desta jovem Santa, Padroeira das Missões e Doutora da Igreja, ajudam a entender como existe uma íntima unidade entre a tarefa da inteligência e da compreensão da fé e a tarefa, propriamente missionária, de anúncio do Evangelho da salvação. A fé por si mesma quer fazer-se compreensível e acessível a todos. A missão cristã tende, portanto, sempre a fazer conhecer a verdade, e o verdadeiro amor pelo próximo manifesta-se na sua forma mais completa e profunda quando quer dar ao próximo aquilo de que o homem tem mais radicalmente necessidade: o conhecimento da verdade e a comunhão com ela. E a verdade suprema é o mistério de Deus Uno e Trino, revelado em Cristo de maneira definitiva e insuperável. Quando o anélito missionário corre o perigo de se esmorecer, é sobretudo a fé cristã que pode fazer reencontrar a paixão e o amor pela verdade que se perderam.

Por outro lado, o conhecimento da verdade cristã evoca intimamente e exige interiormente o amor Àquele ao Qual deu o próprio assentimento. A teologia sapiencial de Santa Teresa do Menino Jesus mostra a via-mestra de toda a reflexão teológica e investigação doutrinal: o amor do qual «dependem a Lei e os Profetas» é amor que tende à verdade e, deste modo, se conserva como autêntico ágape com Deus e com o homem. Hoje é importante para a teologia recuperar a dimensão sapiencial, que integra o aspecto intelectual e científico com a santidade da vida e a experiência contemplativa do Mistério cristão. Deste modo, Santa Teresa de Lisieux, Doutora da Igreja, com a sua sábia reflexão alimentada nas fontes da Sagrada Escritura e da divina Tradição, plenamente fiel aos ensinamentos do Magistério, indica à teologia hodierna o caminho a percorrer para chegar ao coração da fé cristã. Ao congratular-me convosco, caríssimos Irmãos e Irmãs, pelo empenho e pelo ministério precioso que exerceis ao serviço da Sé Apostólica e em favor da Igreja inteira, invoco sobre cada um a especial protecção de Maria, Sede da Sabedoria, e de Santa Teresa do Menino Jesus e da Santa Face. Acompanhe-vos também a minha Bênção, que de coração concedo a todos vós, em penhor de afecto e de gratidão.

DISCURSO DO PAPA JOÃO PAULO II AOS MEMBROS DA CONFERÊNCIA EPISCOPAL DA INGLATERRA E DO PAÍS DE GALES EM VISITA «AD LIMINA APOSTOLORUM»

Eminência Queridos Irmãos Bispos

1. É no amor do Senhor Jesus que vos dou as boas-vindas — Bispos da Inglaterra e do País de Gales — por ocasião da vossa visita ad limina Apostolorum, e faço extensivas as minhas cordiais saudações aos sacerdotes, diáconos, religiosos e fiéis leigos das Igrejas particulares a que presidis no amor. Neste ano celebra-se o 1.400° aniversário da chegada à Bretanha de Santo Agostinho, o Apóstolo dos Ingleses, cuja obra no meio dos anglo-saxões lançou o fundamento para o sucessivo crescimento do Cristianismo na vossa terra. O nosso presente encontro está ligado de maneira muito real àqueles eventos que ocorreram há 14 séculos. Os vínculos de comunhão eclesial, que naquela época foram entretecidos entre a Sé Apostólica e essa parte da Igreja universal confiada ao vosso cuidado, sobreviveram às vicissitudes da história e são vivamente expressos e renovados mediante a vossa visita, que tem um dos seus momentos de maior relevância na vossa profissão de fé junto dos túmulos dos Príncipes dos Apóstolos, Pedro e Paulo. Viestes para «visitar Pedro» (cf. Gl 1, 18) na pessoa do seu Sucessor na Sé de Roma, «a maior e mais antiga Igreja» (Santo Ireneu, Adv. Haer., III.3.2). Desta forma, a vossa visita dá testemunho do singular ministério de unidade, que o Bispo de Roma desempenha em benefício de toda a grei de Cristo (cf. Jo 21, 15- 17), evocando também a comum responsabilidade que nós, Bispos, temos «por todas as Igrejas» (2 Cor 11, 28).

A imagem da primeira Comunidade cristã, como é descrita no Actos dos Apóstolos — «era perseverante em ouvir o ensinamento dos Apóstolos, na comunhão fraterna, na fracção do pão e nas orações» (2, 42) — constitui uma recordação de que a Igreja é uma amorosa comunhão de crentes congregados à volta dos Apóstolos e dos seus Sucessores, e está constantemente a formar-se numa unidade de fé, disciplina e vida, no poder do Espírito Santo. O Senhor confiou ao Colégio Episcopal de maneira particular a tarefa de edificar a koinonia e, por conseguinte, jamais devemos cessar de encorajar o Povo de Deus a ter «um só coração e uma só alma» (Act 4, 32). É importante que aos olhos da Igreja e do mundo nós, Pastores, nos mostremos «reunidos pelos vínculos da unidade, da caridade e da paz» (Lumen gentium 22), conduzindo os fiéis a uma união cada vez maior com Deus Trindade (cf. 1 Jo 1, 3) e à comunhão recíproca no Corpo de Cristo (cf. 1 Cor 10, 16). Num espírito de confiança evangélica, devemos esforçar-nos por tornar a nossa comunhão cada vez mais profunda e cordial.

2. A aproximação do Grande Jubileu constitui um premente convite aos Pastores da Igreja a guiarem as comunidades que lhes são confiadas, numa peregrinação espiritual rumo ao cerne mesmo do Evangelho. O nosso caminho rumo ao Ano 2000 deveria adquirir a forma de uma busca genuína de conversão e de reconciliação, purificando-nos dos erros do passado e das instâncias de infidelidade, de incoerência e de atraso na acção (cf. Tertio millennio adveniente , 33). Certamente, não basta fazer declarações públicas de arrependimento pelos erros cometidos no passado. Devemos recordar-nos — a nós mesmos e aos fiéis — da natureza radicalmente pessoal do arrependimento e da conversão exigida. A alegria do Jubileu é «de modo particular a alegria pela remissão das culpas, a alegria da conversão» (Ibid., 32). Neste sentido, constitui uma ocasião para ajudar os fiéis a recuperarem o verdadeiro «sentido do pecado» (cf. 1 Jo 1, 18), levando a um renovado apreço da beleza e do júbilo do Sacramento da Penitência (cf. Pastores dabo vobis , 48). Só haverá uma renovação da prática sacramental se existir um interesse determinado pelo Sacramento da Reconciliação na pregação, na catequese, nos programas e nos projectos pastorais das dioceses. O melhor catequista da Reconciliação é o sacerdote que recorre regularmente a este Sacramento. Os sacerdotes, que se dedicam ao ministério da reconciliação, sabem que se trata de uma tarefa exigente e com frequência exaustiva, e contudo de «um dos mais belos e consoladores ministérios » da sua vida (Reconciliatio et paenitentia , 29). Por outro lado, num certo sentido os fiéis têm o direito de dispor de horários estabelecidos para a confissão na própria paróquia e de encontrar os seus sacerdotes sempre prontos a receber as pessoas que estiverem em busca da confissão.

3. A paróquia permanece o lugar em que normalmente os fiéis se reúnem como uma única família para ouvir a palavra salvífica de Deus, para celebrar os sacramentos com dignidade e reverência, e para ser inspirados e revigorados na sua missão de consagrar o mundo na santidade, na justiça e na paz. A paróquia torna presente o mistério da Igreja como uma comunidade orgânica em que «o pároco — que representa o Bispo diocesano — é o vínculo hierárquico com toda a Igreja particular» (Christifideles laici , 26). Outras instituições, organizações e associações são sinais de vitalidade, instrumentos de evangelização e fermento de vida cristã, enquanto contribuem para a edificação da comunidade local na unidade da fé e da vida eclesial. Cada comunidade em que os fiéis se congregam para receber o alimento espiritual e trabalhar no serviço eclesial, deve estar plenamente aberta à «unidade do Espírito no vínculo da paz» (Ef 4, 3) — unidade que exige uma conexão orgânica com a Igreja particular, garantindo o carácter eclesial de tal comunidade e pondo em prática os seus carismas.

Os pastores têm o dever de promover «os carismas, os ministérios, as várias formas de participação do Povo de Deus, embora sem decair num democratismo e num sociologismo, que não reflectem a visão católica da Igreja e o autêntico espírito do Vaticano II» (Tertio millennio adveniente , 36). No documento The Sign We Give («O sinal que nós damos»), aprovado pela vossa Conferência Episcopal em 1995, reconheceis a necessidade de fortalecer «o ministério de colaboração» entre os Bispos, os sacerdotes, os religiosos e os leigos, de forma que uma comunhão genuína na missão seja cada vez mais evidente na vida diocesana e paroquial. Trabalhar em conjunto, num autêntico «anúncio do Evangelho» (Fl 1, 5), exige muito mais do que uma distribuição das tarefas orientada segundo a necessidade prática. Tal trabalho tem o seu fundamento nos Sacramentos da iniciação cristã (cf. Christifideles laici , 23) e requer uma consciência dos diferentes dons que o Espírito confia ao inteiro Corpo de Cristo (cf. 1 Cor 12, 4-13). Precisamente por este motivo, exige também uma clarividência teológica e prática no que concerne à especificidade do sacerdócio ministerial. Não é porventura verdade que, quanto mais se aprofunda o sentido de vocação dos leigos, tanto mais eles reconhecem a consagração sacramental do sacerdote e o papel específico deste na promoção «do sacerdócio baptismal de todo o Povo de Deus, conduzindo- o à sua plena actuação eclesial» (Pastores dabo vobis , 17)?

4. Os sacerdotes constituem a grande obra do vosso ministério episcopal. Em cada aspecto e fase das suas vidas sacerdotais, devem ser o sujeito da vossa oração e o objecto da vossa amorosa solicitude. Desde a vossa última visita ad Limina, completou-se a visita canónica aos seminários da Inglaterra e do País de Gales, confirmando que actualmente, talvez mais do que no passado, os candidatos precisam de ser orientados nas áreas do desenvolvimento humano e da formação, de maneira especial no que se refere aos relacionamentos interpessoais em geral, à castidade, ao celibato e a toda a gama de atitudes e qualidades que os hão-de levar a tornar-se seres humanos amadurecidos e equilibrados, dotados nas relações com os outros e psicologicamente preparados para as exigências da vida e do trabalho sacerdotais. Eles têm necessidade de uma formação humana, espiritual, académica e pastoral profundamente assimilada, se quiserem preparar-se para o sacerdócio em conformidade com o espírito de Cristo e da Igreja. É significativo que a vossa Conferência Episcopal esteja a rever a Carta para a formação sacerdotal, uma revisão que há-de levar em consideração a Exortação Apostólica pós-sinodal Pastores dabo vobis e os principais Documentos da Santa Sé, no seu desejo de apresentar a compreensão da Igreja acerca do ministério sagrado como uma configuração sacramental com Jesus Cristo, tornando os sacerdotes capazes de agir in persona Christi Capitis e no nome da Igreja.

A visita canónica teve em consideração a cooperação específica dos membros dos leigos, tanto homens como mulheres, na formação dos sacerdotes. Esta cooperação dará os almejados frutos se for «oportunamente coordenada e integrada» no trabalho das pessoas responsáveis, em primeira linha, pela formação dos seminaristas (Pastores dabo vobis , 66). É sempre necessário distinguir entre a formação específica dos seminaristas que se preparam para as Ordens sagradas e os cursos oferecidos àqueles que são destinados a exercer outros ministérios no seio da Igreja. A formação sacerdotal não é apenas e principalmente uma questão de desenvolver as capacidades pastorais, mas de forjar os sentimentos — o verdadeiro coração e a verdadeira mente — de Jesus Cristo (cf. Fl 2, 5) nas pessoas que haverão de representar o Sumo e Eterno Sacerdote.

Como podemos deixar de mencionar a importância da oração fervorosa e constante, de forma especial nas famílias e nas paróquias, para um incremento das vocações ao sacerdócio e à vida religiosa? O apostolado das vocações depende enormemente do apostolado da oração. Assim como o discípulo André, que conduziu o seu irmão Simão a Jesus (cf. Jo 1, 40-42), também o Bispo tem uma responsabilidade pessoal na promoção de novas vocações ao serviço do Senhor. Enquanto o Bispo deveria encorajar os sacerdotes e os religiosos a fazer tudo o que lhes é possível neste campo, deve inclusivamente apoiar programas específicos, destinados a levar os jovens a entrar em contacto com o seminário e com as diferentes formas de vida consagrada. Nisto, é essencial contar com a cooperação de sacerdotes e de pessoas consagradas, que efectivamente projectem uma imagem positiva da própria vocação. A moral cristã e a investigação científica

5. Os fiéis esperam que vós, quer individualmente como Bispos, quer como Conferência, lhes dediqueis a orientação espiritual e moral que os há-de ajudar a responder às complexas problemáticas que se apresentam a eles mesmos e às suas famílias, na sociedade contemporânea. Esperam que os seus directores espirituais sejam capazes de compartilhar com eles as «razões da esperança» (cf. 1 Pd 3, 14), a esperança que deriva da verdade acerca do homem como criatura amada por Deus, remida mediante o sangue de Cristo e destinada à comunhão eterna com Ele no Céu; a verdade sobre a dignidade do homem e, consequentemente, sobre a sua responsabilidade pela vida e pelo mundo em que vive.

Hoje em dia, tende-se a considerar a própria vida humana em conformidade com uma «mentalidade consumista». A vida só é valorizada se for útil de alguma forma ou se puder oferecer satisfação e prazer. O sofrimento é rejeitado como um mal insignificante, a ser evitado custe o que custar. As elites influentes procuram convencer a opinião pública a autorizar o aborto e a eutanásia, como soluções moralmente aceitáveis para os problemas da vida. Àqueles que actualmente procuram salvaguardar o chamado «direito a morrer com dignidade », a Igreja não pode deixar de responder que os cristãos têm a clara obrigação de se oporem à legislação que ameaça a vida humana ou nega a sua dignidade (cf. Evangelium vitae , 72). Como Bispos, devemos ensinar que o cuidado da vida exige que todos respeitem a diferença médica, moral e ética entre curar — utilizando todos os instrumentos disponíveis para cuidar da vida, desde a sua concepção segundo a natureza até ao seu termo natural — e matar. Perante os recentes progressos na biotecnologia, com implicações morais extremamente delicadas, a Igreja inteira, guiada pelo Colégio Episcopal em união com o Papa, deve proclamar categórica e claramente que a investigação científica só é verídica em si mesma como actividade humana, se respeitar a ordem ética inscrita pelo Criador no coração do homem (cf. Rm 2, 15).

6. De igual modo, quando vos pronunciais contra a injustiça e encorajais os fiéis leigos a serem o «sal da terra» (cf. Mt 5, 13), dizeis que a autêntica renovação da vida social e política se fundamenta sobre a ordem moral revelada na criação (cf. Rm 2, 15) e iluminada pelo mistério de Cristo, em quem «subsistem todas as coisas» (Cl 1, 17). Com efeito, a difusão da doutrina social da Igreja faz «parte da missão evangelizadora da Igreja» (Sollicitudo rei socialis , 41). O Grande Jubileu do Ano 2000 traz consigo o desafio de «se fazer voz de todos os pobres do mundo» (Tertio millennio adveniente, 51), e oferece à Igreja, que está na Inglaterra e no País de Gales, a ocasião para estabelecer uma nova aliança com os pobres — com os necessitados, os sofredores, os abandonados e especialmente as pessoas, cujas vidas são ameaçadas no seio materno ou negligenciadas e levadas a sentir-se incómodas nos anos da própria senilidade. Exorto-vos a insistir para que os fiéis e a sociedade em geral cumpram o dever que consiste em ver em cada pessoa a «manifestação de Deus, sinal da sua Presença, vestígio da sua Glória» (Evangelium vitae , 34).

7. O vosso serviço de comunhão eclesial leva-vos necessariamente a um leal e respeitoso diálogo com as pessoas que não vivem em plena comunhão com a Igreja católica. Acolhestes o urgente apelo da Carta Encíclica Ut unum sint , na qual eu disse que o restabelecimento da plena unidade visível de todos os cristãos «pertence organicamente à vida e à acção da Igreja, devendo, por conseguinte, permeá-la no seu todo» (n. 20). O caminho ecuménico não é isento de dificuldades, nem de aparentes retrocessos, entre os quais se deve incluir a decisão da Igreja da Inglaterra de admitir as mulheres ao ministério ordenado. Enquanto continuais a buscar, juntamente com os membros de outros Organismos cristãos, uma mais profunda compreensão da natureza do ministério e da autoridade magisterial da Igreja, sois chamados a explicar os motivos por que a Igreja católica afirma que não possui a autoridade para mudar algo tão fundamental no corpo da Tradição cristã (cf. Ordinatio sacerdotalis , 4). Os fiéis deveriam ser ajudados a compreender que tal ensinamento não constitui uma discriminação contra as mulheres, uma vez que o sacerdócio não é um «direito» ou um «privilégio», mas uma vocação que não se escolhe, mas à qual se é «chamado por Deus, à maneira de Aarão» (Hb 5, 4). Por outro lado, incumbe sobre a comunidade eclesial promover um maior apreço dos dons específicos das mulheres e torná-las capazes de se empenharem mais activamente em funções de responsabilidade no seio da Igreja (cf. Carta às Mulheres , 11-12). Todos nós devemos esforçar-nos neste sentido, confiantes de que a Igreja no Terceiro Milénio suscitará novos modos de «o génio feminino» edificar o Corpo de Cristo.

8. Estimados Irmãos no Episcopado, rezo ardentemente para que a vossa visita aos túmulos dos Santos Apóstolos Pedro e Paulo vos encoraje a perseverar na obra de Cristo, eterno Sacerdote, Pastor e Guardião das nossas almas (cf. 1 Pd 2, 25). «Vós estais no meu coração. De facto, participais comigo da graça que recebi... na defesa e na confirmação do Evangelho» (Fl 1, 7). Como Bispos, em obediência à única verdade que nos há-de libertar (cf. Jo 8, 32), somos frequentemente chamados a repetir as «duras admoestações» (cf. Jo 6, 60) e indicar a «porta estreita e o caminho difícil que levam à vida» (cf. Mt 7, 14). Procuramos fazê-lo com compaixão e respeito por todas as pessoas. Devemos caminhar juntamente com os nossos irmãos e irmãs, abraçando com amor todas as pessoas aflitas pela debilidade humana e reconhecendo nos pobres e nos sofredores a semelhança do nosso Senhor e Mestre, pobre e sofredor (cf. Lumen gentium, 8). A nossa esperança e confiança estão sempre fundadas no poder do Senhor ressuscitado. Invocando abundantes bênçãos do Espírito Santo sobre vós e sobre as pessoas confiadas ao vosso cuidado pastoral, recomendovos à intercessão de Maria, Mãe da Igreja e, do íntimo do coração, concedo- vos a minha Bênção Apostólica.

MENSAGEM DO PAPA JOÃO PAULO II AO PRIOR-GERAL DA ORDEM HOSPITALEIRA DE SÃO JOÃO DE DEUS NO PRIMEIRO CENTENÁRIO DO NASCIMENTO DE SÃO RICARDO PAMPURI

Ao Reverendíssimo FR. PASCUAL PILES FERRANDO Prior-Geral da Ordem Hospitaleira de São João de Deus

1. No centenário do nascimento de São Ricardo Pampuri, desejo dar graças ao Senhor por este Santo que honra essa Família religiosa. A presença das suas Relíquias no hospital dos Fatebenefratelli, na Ilha Tiberina, constitui a ocasião oportuna para repropor, a quantos trabalham no âmbito dessa estrutura hospitalar, o testemunho eloquente da sua vida, inteiramente impregnada do programa ascético do «ama nesciri et pro nihilo reputari». Tive a alegria de proclamar Beato em 1981, e Santo em 1989, esta límpida figura de homem do nosso tempo. Nele refulgem os traços da espiritualidade laical delineada pelo Concílio Ecuménico Vaticano II.

A sua existência terrena, contida no arco de apenas 33 anos, mostra como em breve tempo este jovem religioso soube alcançar o ápice da santidade. Nos primeiros anos de vida em Trivolzio e Torrino, durante os estudos secundários e universitários em Milão e Pavia, na frente ítalo-austríaca durante a primeira guerra mundial, e depois em Morimondo, como médico municipal, deixou em toda a parte vestígios de piedade e de amor pelos pobres. Sustentado pelo exemplo dos seus entes queridos e pelo convívio com piedosos e zelosos sacerdotes, empenhou-se em múltiplos campos de apostolado: foi sócio assíduo e generoso do Círculo Universitário e das Conferências de São Vicente de Paulo, presidente da Associação juvenil da Acção Católica, Terciário franciscano e animador incansável de iniciativas de formação espiritual e de caridade. Com a idade de 30 anos, entrou na Ordem dos Fatebenefratelli, de cujo carisma se tornou um dos intérpretes mais significativos.

2. «Bom Mestre, que devo fazer para alcançar a vida eterna?» (Mc 10, 17). Parece ser esta a pergunta que atravessa os pensamentos deste jovem, sempre em busca da perfeição cristã. «Falta-te apenas uma coisa: Vai, vende tudo o que tens, dá o dinheiro aos pobres e segue- Me» (Mc 10, 21). Ao convite do Senhor ele, dotado de fé e caridade profunda, respondeu com alegria, doando-se completamente a Cristo pobre, humilde e casto e entrando na Ordem dos Fatebenefratelli. Vítima de uma doença contraída em zona de guerra, ao abraçar o carisma de São João de Deus, conseguiu dar plenitude ao seu desejo de anunciar e testemunhar aos doentes o Evangelho de Cristo crucificado e ressuscitado.

Como o divino Mestre, sentiu a urgência do «deserto» e da oração (cf. Mc 1, 35) para depois poder servir os irmãos, especialmente os doentes e os sofredores. «Tenho necessidade de me recolher um pouco em mim mesmo na presença do Senhor, para que a minha alma não se torne insensível nem se perca em estéreis e prejudiciais preocupações externas», escrevia numa sua carta. Essa necessidade levava-o a viver constantemente unido ao Senhor, a deter-se por longo tempo diante do tabernáculo e a nutrir uma terna devoção pela Virgem. Na escola do Evangelho, tornou-se para quantos o conheceram e, sobretudo, para os seus assistidos um sinal vivo da misericórdia de Deus, sempre disponível a ver nos doentes o Cristo que sofre, a ajoelhar-se na soleira das casas onde reinava a dor e a partir apressado sem esperar nenhuma recompensa.

Tendo escolhido cumprir profundamente a vontade do Pai, à imitação do seu Senhor, viveu como acto supremo de obediência e de amor também a doença e a morte.

3. Como não acolher a mensagem contida no maravilhoso caminho de santidade de São Ricardo Pampuri, que essas celebrações centenárias repropõem de modo eloquente?

Aos Coirmãos da Ordem à qual pertencia, chamados a servir Cristo nos doentes, o testemunho deste jovem médico- cirurgião indica que a união com Deus deve alimentar constantemente a vida religiosa e a actividade apostólica. Aos leigos que trabalham nas estruturas hospitalares, São Ricardo Pampuri, médico apaixonado pela sua missão entre os doentes, propõe que amem a própria profissão e a vivam como vocação. Ele, que no cuidado dos que sofriam jamais separou ciência e fé, empenho civil e espírito apostólico, convida todos os agentes de saúde a terem sempre em conta a dignidade da pessoa humana, para exercerem o «dever quotidiano» com o espírito do bom Samaritano. O testemunho que deu na doença, que o levou à morte, encoraja todos os que sofrem a não perderem a confiança em Deus; antes, exorta-os a acolher também na prova o projecto de amor do Senhor.

Enquanto invoco a especial protecção de São Ricardo Pampuri, oro para que as celebrações jubilares do seu nascimento e o inteiro programa espiritual e cultural preparado para essa festividade, constituam para todos uma ocasião de renovado empenho na vida cristã, nas relações interpessoais e no serviço aos doentes.

Possam aqueles que visitam as Relíquias de São Ricardo Pampuri, com a radicalidade e generosidade por ele testemunhadas até à morte, seguir o exemplo de São João de Deus, Fundador dessa Ordem Hospitaleira.

Com estes bons votos, concedo-lhe, bem como aos Coirmãos, às Religiosas colaboradoras, aos Agentes de saúde e aos doentes uma especial Bênção Apostólica.

Vaticano, 22 de Outubro de 1997.

JOÃO PAULO II

DISCURSO DO PAPA JOÃO PAULO II AOS PEREGRINOS VINDOS PARA A CERIMÓNIA DE ATRIBUIÇÃO DO TÍTULO DE DOUTORA DA IGREJA A SANTA TERESINHA

Segunda-feira, 20 de Outubro de 1997

Caros Irmãos no Episcopado Queridos amigos!

1. O dia de ontem permitiu-vos participar numa cerimónia rara na vida da Igreja, mas rica de significado: a proclamação de uma Doutora da Igreja. Saúdo cordialmente todos os peregrinos aqui presentes esta manhã, em particular D. Pierre Pican, Bispo de Bayeux e Lisieux, assim como D. Guy Gaucher, seu Auxiliar, e D. Georges Gilson, Arcebispo de Sens e Prelado da Missão da França. Vós quisestes vir escutar aquela que encarna para nós a «pequena via», a via real do amor. Santa Teresa do Menino Jesus e da Santa Face faz parte daquele grupo de Santos, que a Igreja reconhece como mestres de vida espiritual. Como Doutora, Teresa ensina, pois, embora os seus escritos não tenham a mesma natureza dos escritos dos teólogos, são para cada um de nós uma válida ajuda para a compreensão da fé e da vida cristãs.

2. Dirijo-me agora aos representantes da Ordem dos Carmelitas e saúdo-os com muito afecto, pois esta proclamação do Doutoramento a Teresa de Lisieux é para eles, de modo particular, motivo de festa. Saúdo de coração todas as pessoas consagradas e os membros dos movimentos espirituais que se põem sob o patrocínio de Santa Teresa de Lisieux. Encorajo-vos a permanecer fiéis à mensagem que ela dá à Igreja: dá-lhe graças a vós, testemunhas vivas do seu ensinamento. Tende a peito colocar-vos incessantemente na escuta da sua mensagem, e difundi-la à vossa volta, com a palavra e o exemplo.

3. Para o nosso tempo, Teresa é uma testemunha eficaz e próxima de uma experiência de fé em Deus fiel e misericordioso, em Deus justo mediante o Seu próprio amor. Ela vivia profundamente a sua pertença à Igreja, Corpo de Cristo. Creio que os jovens encontrem efectivamente nela uma inspiradora para os guiar na fé e na vida eclesial, numa época em que o caminho pode ser dificultado por provas e dúvidas. Teresa conheceu muitos tipos de provas, mas foi-lhe concedido permanecer fiel e confiante, e disto dá testemunho. Teresa sustém os seus irmãos e as suas irmãs ao longo de todos os caminhos do mundo.

4. Teresa, na sua simplicidade, é modelo de vida oferecida ao Senhor, desde os gestos mais pequenos. De facto, escrevia: «Quero santificar as pulsações do meu coração, os pensamentos, as acções mais simples, unindo-os aos Seus méritos infinitos» (Oração n. 10). Foi com tais disposições de espírito que certo dia se dirigiu ao seu Mestre e Senhor, dizendo: «Peço-Vos que sejais a minha santidade» (Oferta ao Amor misericordioso, Oração n. 6).

Da união com Cristo derivam os frutos de caridade que devemos deixar maturar também em nós. Teresa tinha compreendido bem que precisamente aqui está a origem do amor aberto aos outros: «Quando sou caridosa, é só Jesus que age em mim; quanto mais estou unida a Ele, tanto mais amo todas as minhas Irmãs» (Manuscrito C, 12 v). Nas dificuldades que a vida quotidiana necessariamente apresenta, ela jamais procurava fazer valer os seus direitos, mas estava sempre pronta a ceder diante de uma Coirmã, mesmo que interiormente custasse muito. Eis uma atitude que, em cada época da vida da Igreja, deve ser imitada pelos baptizados de qualquer idade e condição. Só a virtude da humildade, que Teresa pediu a Cristo com insistência, torna possível uma autêntica atenção para com os outros.

5. Unida a Cristo e dedicada aos outros, Teresa sente-se inclinada naturalmente a estender o seu amor ao mundo inteiro. O meu predecessor, o Papa Pio XI, ressaltou este aspecto da sua doutrina espiritual ao proclamá-la, em 1927, «Padroeira das Missões». Partindo do amor que a une a Cristo, começa a identificar-se com o Bem-amado do Cântico dos Cânticos: «Leva-me atrás de ti» (Ct 1, 4). Depois compreende que, com ela, o Senhor atrai a multidão dos homens, visto que a sua alma tem um intenso amor por eles. «Todas as almas que ela ama são atraídas a segui-l'O» (Manuscrito C, 34 r). Com uma maravilhosa audácia e fineza espiritual, Teresa apropria-se das palavras de Jesus depois da Ceia, para dizer que também ela começa a fazer parte do grande movimento, pelo qual o Senhor atrai todos os homens e os conduz ao Pai: «As Vossas palavras, ó Jesus, são portanto minhas e posso servir-me delas para atrair sobre as almas, que estão unidas a mim, os favores do Pai celeste » (Manuscrito C, 34 v).

6. Caros Irmãos, queridos amigos, compete-vos viver todos os dias esta doutrina oferecida agora publicamente à Igreja inteira. Tende a peito fazê-la vossa e fazê-la conhecer melhor. Como a Escritura Sagrada — que Teresa citava com predilecção — esta nunca é muito difícil de desencorajar, nem muito fácil de ser exaurida: «Não é nem fechada a ponto de ser desencorajadora, nem acessível a ponto de se tornar banal. Quanto mais se a frequenta, tanto menos se a deixa, quanto mais se a medita, tanto mais é amada» (S. Gregório Magno, Moralia in Job, XX, 1, 1).

Ao desejar-vos muitas descobertas e alegrias na escola de Santa Teresa do Menino Jesus e da Santa Face, Doutora da Igreja universal, concedo-vos de todo o coração a Bênção Apostólica, que faço extensiva a todos os que representais e que vos acompanham espiritualmente.

DISCURSO DO PAPA JOÃO PAULO II AOS MENINOS DA AÇÃO CATÓLICA ITALIANA

18 de Outubro de 1997

Caríssimos meninos e meninas da Acção Católica Italiana!

1. Bem-vindos à Praça de São Pedro! Quisestes vir visitar o Papa, na conclusão da vossa Assembleia Nacional. Obrigado pela vossa presença, portadora de alegria e de entusiasmo.

Passei no meio de vós para vos saudar e abençoar todos. Sei que vindes de todas as partes da Itália: envio uma saudação também aos vossos familiares, que neste momento estão espiritualmente unidos a nós.

Um agradecimento particular dirige-se ao vosso Presidente nacional, o Advogado Giuseppe Gervásio, ao Assistente-Geral, D. Agostino Superbo, à Responsável e ao Assistente da ACR (Acção Católica dos Jovens) a nível nacional. Eles organizaram esta bonita manifestação e, juntamente com os vossos dois representantes, quiseram exprimir-me os sentimentos de todos.

Saúdo os vossos educadores, generosos colaboradores da maturação humana e cristã, eclesial e missionária dos meninos e dos jovens que a Providência divina dá à Igreja na experiência apostólica da ACR. Saúdo os Sacerdotes assistentes e as Religiosas presentes, formadores de vida evangélica no acompanhamento do caminho de fé, tanto dos meninos como dos educadores.

Dirijo uma cordial saudação também ao Ministro Rosi Bindi, ao Presidente da Câmara Municipal de Roma e ao Presidente da Região do Lácio, agradecendo-lhes a sua presença.

2. Caros meninos, estais a viver este encontro preparado e desde há longo tempo esperado, marcado pela alegria e pela festa. «Juntos há mais festa»: é este o mote que escolhestes e que bem sintentiza a mensagem do vosso encontro nacional. Nele exprimis de maneira visível o caminho da Igreja inteira rumo ao Grande Jubileu do Ano 2000 e antecipais, de algum modo, um seu aspecto significativo, dizendo a todos que a festa só é autêntica se for vivida «juntos».

Trata-se da festa cristã, aquela que nasce sempre do encontro pessoal com Jesus Cristo, acolhido como amigo e Senhor na experiência concreta da Igreja. Fazeis isto nos vossos grupos e nas vossas paróquias.

É Ele, o Senhor Jesus, que cumula o coração de alegria, da Sua alegria plena e duradoura, e permite assim a festa do encontro fraterno e solidário com os outros.

Seguindo Jesus, único e verdadeiro Salvador do mundo, vós, crianças, sois convidadas a crescer no conhecimento e no amor do Pai celeste e a manifestar gestos concretos de amor e de esperança nos sulcos da vida de cada dia. Assim poderá continuar o vosso empenho para tornar possível a paz, a começar pelos lugares onde viveis as vossas jornadas: a casa, a escola, a paróquia, a aldeia, a cidade, a Itália.

Este vosso empenho de paz alarga-se depois aos vossos coetâneos que vivem situações menos favoráveis noutras Nações da Europa e do mundo. Penso, por exemplo, em Sarajevo e na belíssima ponte de amizade que construístes com os meninos e as meninas da Bósnia-Herzegovina.

Na amizade sempre mais intensa com Cristo Jesus, aumentais a comunhão da Igreja e, com os vossos talentos e segundo as vossas preciosas capacidades, pondes- vos ao serviço das comunidades cristãs, para que sejam cada vez mais fiéis ao Evangelho.

3. Meninos e meninas da Acção Católica Italiana, o Papa tem confiança em vós! Eis por que não hesita em proporvos que sigais a Jesus, imitando o exemplo dos Santos. Hoje, a Igreja celebra a festa litúrgica de São Lucas evangelista. Certamente, já conheceis bem o Evangelho e os Actos dos Apóstolos. Aprofundai a palavra de Deus pessoalmente e juntos. Ela ajudar-vos-á a compreender sempre melhor a vossa vocação e a tornar-vos testemunhas intrépidas de Jesus.

Há alguns dias recordámos São Francisco de Assis, Padroeiro da Itália e da Acção Católica Italiana. Que mestre de vida evangélica e que concreto modelo de apóstolo de Cristo é este grande Santo, conhecido e venerado no mundo inteiro!

Ao lado dele, que deixou tudo por amor do Senhor, quereria neste dia apresentar-vos outra Santa, que morreu com apenas vinte e quatro anos, exactamente há cem anos: Santa Teresa do Menino Jesus, que amanhã proclamarei Doutora da Igreja. Certamente, a pequenina Teresa teria sido uma óptima menina da ACR! Pelo menos antes de entrar no Carmelo! Era plena de vitalidade, de fé e de entusiasmo por Jesus e pelo Evangelho. Quis ser toda de Deus e escolheu tornar-se religiosa carmelitana. A sua breve existência foi inteiramente consumada pelo amor a Deus e pelo desejo de fazer com que fosse amado pelo mundo inteiro. Teresa deixou-nos como testamento a via simples e segura do amor repleto de confiança em Deus. Ela chamava-lhe a «pequena via», porque está aberta àqueles que, como diz Jesus, sabem fazer-se «pequeninos», isto é, humildes e simples. É, de facto, a via do abandono confiante nas mãos de Deus, contando mais com Ele do que com as próprias forças. Também vós, crianças, desenvolvei a vossa personalidade tornando-vos fortes e maduras, mas fazei com que o vosso coração continue a ser humilde, puro, «pequenino» diante de Deus e sempre pronto a amar os irmãos: só assim se entra no Reino dos céus, onde o maior é o mais pequeno, e o mais importante é o servo de todos.

4. Agora, quereria pedir-vos que manifestásseis publicamente e repetísseis juntos, formando como que um coro, os compromissos da vida cristã e da missão, que assumis cada ano aderindo à ACR.

Queridas crianças, sabeis que com o Baptismo vos tornastes filhos de Deus e pedras vivas da Igreja:

– quereis cultivar na oração e na vida sacramental a intimidade e a amizade com Jesus Cristo?

Vós sabeis que sois chamadas pelo Senhor Jesus a tornar-vos apóstolos de alegria e construtores de esperança na comunidade cristã:

– quereis oferecer a vossa contribuição, pessoal e de grupo, à edificação da Igreja nas comunidades a que pertenceis?

Vós sabeis que sois chamadas, embora na vossa jovem idade, a fazer-vos testemunhas generosas da novidade cristã:

– quereis contagiar, com a alegria do Evangelho e com o amor de Cristo, os vossos coetâneos, os vossos amigos, as vossas famílias, as vossas pequenas e grandes cidades?

5. Queridos meninos e meninas, o Espírito Santo, dom do Pai celeste e de Cristo seu Filho, vos ajude a permanecer fiéis a estes compromissos e a crescer na alegria da amizade cristã, permitindo ao Senhor realizar em vós grandes coisas. Ele quer fazer também de vós um dom para a Igreja e para a humanidade inteira.

Por este motivo, confio-vos a Maria, a doce Menina de Nazaré, a Mãe do Senhor e de todos nós, para que seja Ela a velar todos os dias sobre o vosso caminho, ao longo das estradas da verdade e da paz.

Juntamente com Cristo, com Maria, com os Santos e com a ACR há verdadeiramente mais festa! A todos vós e às vossas famílias, uma especial Bênção.

No termo deste encontro festivo, o Papa pronunciou ainda as seguintes palavras:

Caríssimos adolescentes, enchestes a Praça de São Pedro como raramente o fizestes. Agradeço-vos e desejo-vos um bom domingo!

DISCURSO DO PAPA JOÃO PAULO II AOS ADMINISTRADORES DA «COVENANT HEALTH SYSTEMS» DA ARQUIDIOCESE DE BOSTON (E.U.A.)

18 de Outubro de 1997

Senhoras e Senhores

Estou feliz por vos dar as boas-vindas, Administradores da «Covenant Health Systems», dos Estados Unidos da América. O facto de terdes importantes responsabilidades no campo do cuidado médico oferece-me a oportunidade de reafirmar não só a constante e infalível solicitude da Igreja pelos enfermos e pelas pessoas que se encontram em dificuldade, mas também o seu empenhamento na defesa e salvaguarda da dignidade divina de cada pessoa humana, no modo de se tratar e curar os doentes.

Isto verifica-se de modo particular nos hospitais e nos institutos médicos católicos. A identidade católica desses centros consiste sobretudo na qualidade evangélica do amor com que servem os enfermos e nos princípios morais que efectivamente sustentam as suas práticas. Encorajo-vos nos vossos esforços por estardes sempre atentos ao ensinamento da Igreja acerca das problemáticas médico-morais.

A vossa visita a Roma aumente a determinação em respeitar a imagem do Criador em todas as pessoas que beneficiam das vossas capacidades profissionais! Invoco sobre vós as bênçãos divinas de paz e bem-estar!

DISCURSO DO PAPA JOÃO PAULO II AOS PARTICIPANTES NO CONGRESSO CATEQUÉTICO INTERNACIONAL

17 de Outubro de 1997

Senhores Cardeais Venerados Coirmãos no episcopado e no sacerdócio Caros Irmãos e Irmãs!

1. É-me grato acolher-vos por ocasião deste Congresso Catequético Internacional, promovido para sublinhar a apresentação da editio typica do Catecismo da Igreja Católica e a renovada edição do Directório Geral para a Catequese. O número dos participantes, a actualidade dos temas postos em debate, a competência dos relatores fazem do encontro um evento de relevo na vida da Igreja.

Apresento a minha afectuosa saudação aos Senhores Cardeais, aos Presidentes das Comissões para a Catequese das Conferências Episcopais, aos Directores dos Departamentos Catequéticos Nacionais, aos Sacerdotes, aos Religiosos, às Religiosas, aos leigos empenhados, que de várias partes do mundo vieram aqui para colocar em comum proveito o fruto da sua experiência e preparação.

De coração agradeço a cada um o precioso serviço que presta à Igreja. De modo particular exprimo a minha gratidão ao Senhor Cardeal Joseph Ratzinger e ao Arcebispo D. Darío Castrillón Hoyos, os quais — com a ajuda dos seus colaboradores das Congregações para a Doutrina da Fé e para o Clero — organizaram e realizaram este importante encontro. Este constitui um sinal eloquente do lugar que ocupa na Igreja o cuidado de anunciar a Palavra de Deus aos homens do nosso tempo de maneira adequada. É a partir dos seus interrogativos que se deve ajudá-los a descobrir, através das palavras humanas, a mensagem de salvação trazida por Jesus Cristo. É este o complexo e delicado trabalho que hoje a Igreja está a realizar, empenhada em impregnar as diferentes culturas com a perene verdade do Evangelho.

2. O lema escolhido para este Congresso Catequético Internacional — «Tradidi vobis quod accepi» (1 Cor 5, 3) — ilustra de maneira eficaz a natureza da fé e a missão evangelizadora da Igreja. A respeito disso, lemos no Catecismo da Igreja Católica: «A fé é um acto pessoal: resposta livre do homem à proposta de Deus que Se revela. Mas não é um acto isolado. Ninguém acredita só, como ninguém vive só. Ninguém se deu a fé a si mesmo, como ninguém a si mesmo deu a vida. Foi de outrem que o crente recebeu a fé; a outrem a deve transmitir. O nosso amor a Jesus (...) impele-nos a falar aos outros, da nossa fé. Cada crente é, assim, um elo na grande cadeia dos crentes. Não posso crer sem ser motivado pela fé dos outros, e pela minha fé contribuo também para guiar os outros na fé» (CIC, n. 166).

Nesta tarefa de transmissão da fé o Catecismo da Igreja Católica propõe-se como instrumento particularmente autorizado. Nestes dias, reflectistes sobre ele para conhecer melhor as suas características e as finalidades. O Catecismo apresenta a Verdade revelada mostrando, à luz do Concílio Vaticano II, como é acreditada, celebrada, vivida e anunciada na Igreja. Bebendo abundantemente no precioso património do passado — sobretudo bíblico, litúrgico, patrístico, conciliar e magisterial — e tirando dele coisas novas e coisas antigas (cf. Mt 13, 52), exprime no hoje da nossa sociedade o imutável vigor da Verdade cristã. Torna-se assim eloquente testemunho do grau de conhecimento e de autoconsciência que a Igreja, no seu conjunto, possui em relação ao seu perene depósito de verdade. Como tal, o Catecismo propõe-se qual norma segura para o ensinamento da fé, e ao mesmo tempo como texto de referência, certo e autêntico, para a elaboração dos Catecismos locais.

3. Vigilante na esperança a Igreja, entre a Páscoa e a Parusia, deve cumprir o seu mandato escatológico proclamando o Reino de Deus e recolhendo de todo o universo o bom trigo do Senhor. O que ela deve absolutamente fazer, antes do retorno do Senhor, é proclamar o «evento Cristo», a sua Páscoa de morte e de ressurreição. Ser sacramento primeiro e universal de salvação é a sua missão essencial.

O ministério da Palavra coloca-se assim no centro mesmo da acção apostólica da Igreja, quer quando celebra a Eucaristia ou canta os louvores de Deus, quer quando instrui os fiéis sobre o modo de viver no quotidiano a própria fé. Bem longe de permanecer neutral, a Igreja está ao lado do cristão nos vários momentos da sua vida, a fim de o orientar para opções coerentes com as exigências inscritas na ontologia sobrenatural do seu Baptismo. É graças a esta acção «mistagógica» que a fé, desabrochada no Baptismo, se pode desenvolver e chegar àquela plena maturação, que é própria do cristão adulto e responsável.

É precisamente esta a tarefa da catequese. Tarefa não fácil! Devendo tomar em consideração o conjunto da vida do homem — tanto o aspecto profano como o religioso — a catequese deve arraigar- se no inteiro contexto da vida. Por outras palavras, deve ter em consideração não só os catequizandos, a realidade cultural e religiosa, mas também as suas condições sociais, económicas e políticas. É a vida inteira, nos seus aspectos concretos, que deve ser lida e interpretada à luz do Evangelho.

4. Isto supõe a atenta avaliação dos problemas que hoje o crente encontra, justamente desejoso de progredir ainda mais na inteligência da sua fé. Destes problemas certamente fazem parte os grandes interrogativos, que ao homem se apresentam acerca das suas origens, do significado da vida, da felicidade a que aspira, do destino da família humana.

Isto quer dizer que será sempre necessário um dúplice movimento para anunciar aos homens do nosso tempo, a Palavra de Deus, na sua integridade e na sua pureza, de maneira que se lhes torne inteligível e também fascinante. A descoberta do mistério integral da salvação supõe, por um lado, o encontro com o testemunho, oferecido pela comunidade eclesial, de uma vida inspirada no Evangelho. A catequese fala com maior eficácia daquilo que se manifesta realmente na vida concreta da comunidade. O catequista é, por assim dizer, o intérprete da Igreja perante aqueles que por ele são catequizados. Ele lê e ensina a ler os sinais da fé, dos quais o principal é a própria Igreja.

Ao mesmo tempo, o catequista deve saber discernir e valorizar as conexões espirituais já presentes na vida dos homens, segundo o método fecundo do diálogo salvífico. É uma tarefa que se repropõe continuamente: a catequese deve saber recolher os interrogativos que se elevam do coração do homem, a fim de os orientar para as respostas oferecidas pelo Amor, que cria e salva. A meditação orante da Sagrada Escritura, o aprofundamento fiel das «maravilhas de Deus» ao longo de todo o arco da história da salvação, a escuta da Tradição viva da Igreja e a atenção dirigida à história dos homens, ligando-se entre si, podem ajudar os homens a descobrir aquele Deus que já actua no segredo do seu coração e da sua inteligência, para os atrair a Si e os cumular do Seu amor, fazendo-os seus filhos no Filho unigénito.

5. Caros Irmãos e Irmãs, possa este Congresso Catequético Internacional fortalecer a colaboração fecunda do ministério sacerdotal, da vida religiosa e do apostolado dos leigos para um renovado anúncio da Palavra da salvação, missão essencial da Igreja e, ao mesmo tempo, fonte perene da sua alegria ao gerar novos filhos. Com um só coração, todos nós devemos ocupar-nos incansavelmente desta tarefa fundamental que Cristo confiou à sua Igreja: levar ao mundo a Palavra viva, para o libertar do pecado e fazer resplandecer nele as virtudes e as capacidades da vida nova em Cristo.

Com estes votos invoco sobre todos vós a abundância das graças divinas e, em penhor de consolo e conforto, concedo-vos com afecto a minha Bênção.

DISCURSO DO PAPA JOÃO PAULO II AOS PEREGRINOS POLACOS OUVINTES DA «RÁDIO MARIA» REUNIDOS NA PRAÇA DE SÃO PEDRO

16 de Outubro de 1997

1. Sinto-me feliz por que os ouvintes da Rádio Maria vieram em peregrinação à Cidade Eterna, para visitar os túmulos dos Apóstolos e encontrar-se com o Papa, desta vez no aniversário da sua eleição à Sede de São Pedro. Saúdo-vos cordialmente. Saúdo também D. Andrzej Suski que, como representante da Conferência Episcopal Polaca, vos acompanha nesta peregrinação. No território da sua Diocese, em Toruñ, tem sede a redacção da Rádio Maria. A sua presença neste dia constitui a expressão da solicitude do Episcopado pelos meios de comunicação social na Polónia. Saúdo o Padre Director da Rádio Maria e os seus Colaboradores. Agradeço a fadiga desta peregrinação e este encontro, as vossas orações e, de modo especial, os dons espirituais que são um eficaz apoio ao Papa no seu ministerium petrinum. Estou grato, de modo particular, àquelas nossas irmãs e irmãos que oferecem os seus sofrimentos pela Igreja. Deus lhes recompense! Transmiti, além disso, o meu agradecimento àqueles que não puderam vir hoje à Praça de São Pedro: saudai as vossas famílias, os vossos entes queridos, os doentes e as pessoas anciãs. Saudai todos os ouvintes da Rádio Maria na Polónia e no estrangeiro.

2. O Concílio Ecuménico Vaticano II, no Decreto sobre os meios de comunicação social, ensina: «A Igreja católica, fundada por Nosso Senhor Jesus Cristo para levar a salvação a todos os homens, e por isso mesmo obrigada a evangelizar, considera seu dever pregar a mensagem de salvação, servindo-se dos meios de comunicação social, e ensina os homens a usar rectamente estes meios» (n. 3).

A Igreja não teme os meios de comunicação social, ao contrário, tem necessidade deles para a sua missão salvífica, isto é, para a evangelização. E o que é a evangelização É anunciar à humanidade a Boa Nova de Cristo que, com a Sua morte e a Sua ressurreição, redimiu todos os homens. Os meios de comunicação usados de modo correcto prestam um grande serviço aos homens. Devem, todavia, transmitir uma informação precisa e honesta, de acordo com a verdade, e devem também enriquecer o espírito, cuidando da formação religiosa e moral dos seus destinatários. Ao aperfeiçoarem as consciências humanas, contribuem desse modo para o bem comum, para o desenvolvimento de toda a sociedade e da nação inteira.

A rádio é um dos meios de comunicação social de mais larga difusão. É motivo de alegria, portanto, o facto que na Polónia, nos últimos anos, tenham surgido numerosos centros de radiodifusão católica dirigidos pelas Dioceses, Paróquias, Ordens religiosas e Associações. Desejo exprimir o meu grande reconhecimento aos leigos e aos membros do clero que põem à disposição muitos talentos, muita fadiga e muito tempo a fim de criarem os programas para a rádio e os transmitirem.

Entre estas emissoras na Polónia, a Rádio Maria é muito popular. É grande a contribuição que a vossa emissora oferece à obra evangelizadora. Graças às suas transmissões o pensamento sobre Deus atinge muitas pessoas e muitos ambientes na Polónia, e também fora dos seus confins e noutros continentes.

Oração e catequese são os dois elementos essenciais que distinguem uma rádio católica das outras. Alegro-me pela sua presença na Rádio Maria. Hoje, quereria pôr em evidência de modo particular a oração. A oração, com efeito, está no início da evangelização. É uma silenciosa mas eficaz fonte, da qual brota a força para dar testemunho. A vossa presença tão numerosa aqui é, entre outras coisas, fruto desse apostolado. Através das ondas da Rádio Maria são transmitidas a Santa Missa e também muitas orações profundamente arraigadas na nossa piedade polaca. Poder-se-iam mencionar aqui a recitação do Rosário, a pequena coroa em honra da Misericórdia divina, o «Angelus», o Pequeno Ofício em honra da Imaculada Conceição de Maria Santíssima, assim como a oração litúrgica das horas. É louvável que na Rádio Maria se ore e se ensine a oração aos ouvintes, mostrando como é grande a necessidade que dela têm o homem contemporâneo, a família, a Igreja e o mundo. Na vida de piedade, na vida moral e no apostolado, a oração é insubstituível. São Paulo escreve: «Orai incessantemente» (1 Ts 5, 17), «Perseverai na oração» (Cl 4, 2).

Alguns dias após a eleição à sede de São Pedro, fui ao Santuário mariano de Mentorella, nos arredores de Roma, e ali falei aos peregrinos sobre a necessidade da oração na vida cristã. Disse, então, que «a Igreja ora, a Igreja quer orar, deseja estar ao serviço do dom mais simples e ao mesmo tempo esplêndido do espírito humano, que se exprime na oração. A oração é, de facto, a primeira expressão da verdade interior do homem, a primeira condição da autêntica liberdade do espírito... A oração dá sentido à vida inteira, em cada momento seu e em qualquer circunstância» (29 de Outubro de 1978, L’Osserv. Rom., ed. port. de 5/11/1978, pág. 12).

Estou contente porque hoje, após dezanove anos de serviço — no ministério petrino — à Igreja e ao mundo, posso compartilhar convosco esta recordação. Exorto-vos a perseverar na oração e no apostolado animado pela oração.

Hoje, na vida de piedade e na vida social, na vida de muitas pessoas e nações há uma particular necessidade deste apostolado. A oração torna sensível a consciência do homem aos essenciais valores da verdade, da justiça, do amor e da paz. Estes valores estão nas vicissitudes de uma nação, como o sal e a luz: só eles podem dar sabor à «terra» dos corações e iluminar a mente, tornando o mundo mais humano e mais divino. Agradeço à Rádio Maria este apostolado da oração, e também a oração segundo as intenções do Papa. Ao mesmo tempo peço: alimentai este espírito de oração. Por isto estou grato também a todas as outras emissoras de rádio católicas da Polónia.

Vós cumpris a grande missão de anunciar o Evangelho «a todas as criaturas ». Sede semelhantes ao semeador evangélico, que saiu para semear. E enquanto semeava, uma parte caiu ao longo do caminho, uma outra entre as pedras, outra ainda entre os espinhos, e outra, por fim, caiu na terra boa e deu fruto (cf. Mc 4, 2-8). Esta semente é a Palavra de Deus, anunciada também através das ondas da rádio a todos aqueles que a querem escutar e haurir dela a força. A catequese que realizais é um serviço à Igreja e à sociedade.

3. Meus caros, a vossa actividade é um serviço à Igreja. Este comporta para vós a grande responsabilidade de colaborar fielmente com os Bispos, em espírito de comunhão eclesial e de amor cristão, para fazer com que cresça o Corpo de Cristo, isto é, a Igreja. Possa o Evangelho na Polónia ser anunciado, em uníssono com a voz da Igreja, edificada sobre o fundamento dos Apóstolos, e esta unidade de acção seja ao mesmo tempo o testemunho da vossa dedicação e fidelidade a Cristo.

Suplico ao Espírito Santo, por intercessão da Santíssima Mãe, as graças necessárias para esta grande obra de evangelização. De todo o coração abençoo- vos, a vós aqui presentes, às vossas famílias e aos vossos entes queridos, aos colaboradores sacerdotes e leigos da Rádio Maria, aos voluntários e a todos os que anunciam através das ondas da rádio, «até aos confins do mundo» (Act 1, 8), a mensagem evangélica da verdade e do amor.

MENSAGEM DO PAPA JOÃO PAULO II AO ARCEBISPO DE MINSK-MOHILEV (BIELO-RÚSSIA) POR OCASIÃO DA RECONSAGRAÇÃO DA CATEDRAL

Ao Venerado Irmão Senhor Cardeal KAZIMIERZ •WI•TEK Arcebispo de Minsk-Mohilev

É-me grato poder estar presente, mediante o Senhor Cardeal Edmund C. Szoka, na cerimónia de reconsagração da Catedral de Minsk e participar assim na alegria dos fiéis da Bielo-Rússia. Este templo, dedicado a Jesus, Maria e Santa Bárbara, cuja construção foi iniciada em 1700 por obra dos Padres Jesuítas, após a dissolução da Companhia de Jesus tornou-se igreja paroquial e foi escolhida, em 1798, com a erecção da diocese de Minsk, como Catedral da nova circunscrição, cujo primeiro Bispo foi D. Jakub Daderka.

Em 1951, o regime comunista fechou-a, confiscou-a e transformou-a, entre outras coisas, em Centro de educação física. Ela conheceu, como tantos outros templos dessa amada Nação, um período de profanação, durante o qual, segundo os misteriosos desígnios da Providência, não cessou de ser apelo simbólico para o povo de Deus nos longos anos de perseguição.

Finalmente, em 1994 a antiga Catedral foi restituída à Comunidade católica, e Vossa Eminência, Senhor Cardeal, deu imediatamente início aos trabalhos de restauração. Foram necessárias intervenções profundas e onerosas, para restituir a obra, na medida do possível, ao primitivo esplendor. O cuidado apaixonado que Vossa Eminência lhe dedicou, com o apoio dos fiéis e dos benfeitores, fez com que o intento fosse felizmente alcançado. Como não pensar, recordando tais vicissitudes, nas provas dos nossos Pais da Antiga Aliança: exilados de Sião, privados do culto do templo, depois com muita alegria regressaram à cidade santa e edificaram ali o santuário? Ressoaram mais que nunca actuais, também para as componentes dessa Comunidade, as palavras do profeta: «Coragem, povo todo do país! Mãos à obra! Porque Eu estou convosco — diz o Senhor... O esplendor futuro deste Templo será maior do que o primeiro... e neste lugar Eu darei a paz» (Ag 2, 4.9).

A glória da Igreja, Venerado Irmão, é Cristo Senhor: Sacerdote, Sacrifício e Templo da Nova Aliança. Possa este evento constituir para os fiéis desse amado País, encaminhados para o terceiro milénio cristão, uma providencial ocasião para renovarem o empenho de ser «pedras vivas para a construção dum edifício espiritual, por meio dum sacerdócio santo, cujo fim é oferecer sacrifícios espirituais que serão agradáveis a Deus, por Jesus Cristo» (1 Pd 2, 5).

A nova dedicação da Catedral de Santa Maria em Minsk recorde a todos esta vocação e missão, e a Virgem Mãe de Deus, imagem e modelo da Igreja, estrela da evangelização, seja guia para o povo fiel, para que possa corresponder aos desígnios divinos com fervor de fé, esperança e caridade, para a edificação e o conforto de todas as pessoas de boa vontade.

A Vossa Eminência, Venerado Irmão, que nessa solene circunstância recordará também o seu 83° aniversário de nascimento, chegue a expressão das minhas vivas felicitações e dos mais sentidos bons votos. Acompanhoos de coração com uma especial Bênção Apostólica, que faço extensiva aos sacerdotes, aos religiosos e aos fiéis da inteira arquidiocese.

Vaticano, 15 de Outubro de 1997.

IOANNES PAULUS PP. II

DISCURSO DO PAPA JOÃO PAULO II AOS MEMBROS DA CONFERÊNCIA EPISCOPAL DE UGANDA EM VISITA «AD LIMINA APOSTOLORUM»

Segunda-feira, 13 de Outubro de 1997

Eminência Prezados Irmãos Bispos

1. É com afecto fraternal que vos dou as boas-vindas, Bispos de Uganda, rezando para que «o próprio Senhor da paz vos conceda a paz sempre e de todos os modos» (2 Ts 3, 16). As saudações que hoje vos transmito dirigem-se também aos queridos sacerdotes, religiosos e fiéis leigos das vossas Dioceses. Há quatro anos tive a imensa alegria de visitar Uganda, e as recordações permanecem vivamente conservadas na minha mente, de forma especial a cordialidade da vossa hospitalidade, o ardor das vossas orações e a firmeza da vossa determinação em ser fiéis filhos e filhas da Igreja. Peço-vos que assegureis o vosso povo da minha proximidade, no momento em que se esforça por crescer em Cristo e por se revestir do «novo homem, criado à imagem de Deus na justiça e na santidade que provêm da verdade » (Ef 4, 24).

Desde a vossa última visita ad Limina, a Comunidade católica em Uganda, no meio de contínuas provações e desafios, tem experimentado muitas bênçãos. Uma ulterior dádiva do amor de Deus foi a criação de três novas Jurisdições Eclesiásticas: as Dioceses de Kasana-Luweero, de Lugazi e de Nebbi. Trata-se de um agradável sinal da vitalidade da Igreja na vossa terra, e uno-me a vós em acção de graças ao Senhor que dá este crescimento (cf. 1 Cor 3, 7).

2. Cristo jamais cessa de suscitar Pastores fiéis ao seu povo, e vós fostes chamados a ser sucessores dos Apóstolos no oneroso múnus de ensinar, governar e santificar a porção da Igreja confiada ao vosso cuidado. Foi-vos confiado «o ministério da reconciliação» (2 Cor 5, 18), um elemento extremamente essencial no serviço pastoral que prestais às vossas Igrejas locais. «A Igreja em África pressente a exigência de se tornar lugar de autêntica reconciliação para todos, graças ao testemunho dado pelos seus filhos e filhas. Deste modo, mutuamente perdoados e reconciliados, eles poderão levar ao mundo o perdão e a reconciliação que Cristo, nossa Paz (cf. Ef 2, 14), oferece à humanidade, através da sua Igreja» (Ecclesia in Africa , 79).

Nos vossos relatórios quinquenais, demonstrais uma acentuada consciência desta necessidade de reconciliação. Enquanto justamente salientais que foi alcançado muito progresso no avanço da paz e da segurança da vossa nação em geral, não subestimais o trágico facto de a violência continuar a atingir determinadas partes do vosso país, com novas e frequentes irrupções de agressão. Trata-se de um clarividente sinal de que, não obstante Uganda esteja emergindo da sombra de um passado maculado pelo conflito, pela tensão e pelo derrama

derramamento de sangue, nem todas as ameaças contra a paz passaram, e ainda é forte a tentação de manter vivos e alimentar antigos ressentimentos. Por este motivo, neste momento da história de Uganda cabe à Igreja corresponder, com determinação cada vez maior, à injunção de Deus a que seja uma comunidade reconciliadora.

3. Os fiéis leigos católicos têm um especial papel a desempenhar neste sector, pois é em particular a eles que estão confiadas as questões da ordem temporal: a política, a economia e a liderança na sociedade (cf. Lumen gentium, 31; cf. também Christifideles laici, 15). Nestes sectores, são chamados a «empenhar-se directamente no diálogo em vista da reconciliação» (Reconciliatio et paenitentia , 25). Por esta razão, é deveras importante que vós — como Pastores de almas e guias do Povo de Deus — assegureis que os programas diocesanos e paroquiais possam prover à formação adequada dos leigos. Agora que foi publicado o Directório Catequético Geral, um Directório Catequético Nacional poderia ser extremamente útil para assegurar que o vosso povo assimile cada vez mais o ensinamento da Igreja.

A catequese é uma parte tão importante da missão da Igreja, que exige a constante e concertada acção da vossa Conferência Episcopal no acto de corresponder às necessidades de formação dos fiéis, com especial atenção aos jovens e às crianças desprovidas de qualquer educação formal. Os catequistas deveriam ser o objecto da vossa particular solicitude pastoral. Graças à sua profunda fé e devoção, eles têm desempenhado um papel preeminente desde o nascimento da Igreja em Uganda, e ainda hoje são chamados a oferecer uma contribuição exemplar e abnegada à educação religiosa das suas comunidades. Os vários Centros de Formação Catequética deveriam fazer crescer e enriquecer os programas oferecidos, de forma que os catequistas adquiram cada vez mais as capacidades de que têm necessidade para corresponder efectivamente às exigências que se lhes apresentam.

4. Em geral, os leigos ugandenses estão a assumir uma parte cada vez mais activa e responsável na vida das suas Igrejas locais. Nas pequenas comunidades cristãs e nas associações e movimentos, crescem na fé e na santidade cristãs. Através dos Conselhos pastorais paroquiais e diocesanos e de outros Organismos no seio da comunidade, ajudam a edificar a Igreja como comunhão de todos os seus membros. Esta riqueza de empenho e entusiasmo está confiada à vossa liderança pastoral como uma graça e um dever. Esta constitui a base sobre a qual podeis preparar o inteiro Povo de Deus em Uganda para a celebração do Grande Jubileu do Ano 2000, já iminente, como uma alegre e transformadora renovação da fé em Jesus Cristo, «o único Salvador do mundo ontem, hoje e sempre» (cf. Hb 13, 8).

Naturalmente, em tudo isto a paróquia permanece no próprio âmago da Comunidade cristã e de todas as actividades pastorais. Pois é a paróquia que «tem um papel essencial na formação mais imediata e pessoal dos leigos... permitindo uma maior compreensão e vivência das imensas e extraordinárias riquezas e da responsabilidade do Baptismo recebido» (Christifideles laici, 61). Por este motivo, devem-se fazer esforços no sentido de criar novas paróquias, de modo especial lá onde as já existentes são extremamente vastas em termos de população, ou demasiado extensas sob o ponto de vista do território. Aumentar o número das paróquias e reduzir o tamanho e a área das maiores de entre elas ajudará a dedicar maior atenção às necessidades pastorais das pessoas em geral e das famílias, facilitando o ministério efectivo dos párocos.

5. Mediante os vossos esforços, tanto individuais como conjuntos, a Igreja que está em Uganda desempenha um papel muito activo na criação e no sustento de estruturas e de instituições, que tornam a sociedade capaz de corresponder às necessidades e às aspirações do povo. Há uma acentuada presença católica nos campos da educação, da assistência médica e dos serviços sociais, e a vossa liderança revigora os fiéis no acto de enfrentarem alguns problemas muito difíceis. Entre estes, conta-se o flagelo da Sida, que tem atingido arduamente o vosso país. Na vossa Carta pastoral Let Your Light Shine («Brilhe a Tua luz»), pusestes em evidência o facto de esta trágica situação «precisar de ser enfrentada na solidariedade, com muito amor e cuidado das vítimas, com grande generosidade para com os órfãos e com profundo empenhamento num renovado estilo de vida moral cristã» (n. 28). Assim, lançastes um apelo a que se reflicta sobre as problemáticas morais e sociais mais profundas, associadas a esta enfermidade, e convidastes todos a permanecerem firmes perante uma insidiosa crise de valores, que já está induzindo muitas pessoas ao esmorecimento espiritual, indiferentes à virtude e ao que constitui o genuíno progresso da sociedade.

Uma resposta adequada a este desafio exige a inculturação efectiva da mensagem cristã, uma tarefa delicada e difícil que põe «em causa a fidelidade da Igreja ao Evangelho e à Tradição apostólica, na evolução constante das culturas» ((Ecclesia in Africa , 62). A esta inculturação apresenta-se um determinado número de desafios específicos em Uganda, especialmente nas áreas do matrimónio e da vida familiar. Os incansáveis esforços, em vista de orientar os casais rumo à descoberta da verdade e da beleza das exigências da sua nova vida comum em Cristo, constituem uma parte indispensável do vosso ministério. A célula da vida eclesial, conhecida como «igreja doméstica», deve ocupar sempre um lugar singular na solicitude pastoral da Igreja. A Exortação Apostólica Familiaris consortio oferece um contexto para a catequese prática, em particular na área vital da preparação para o matrimónio. Os fiéis devem ser auxiliados a compreender o significado e a dignidade sacramental do matrimónio, e receber um vigoroso apoio da parte de toda a Comunidade católica para a plena vivência do seu compromisso.

No processo da transformação da vida familiar mediante a graça do Evangelho, o conceito da paternidade e maternidade responsáveis exige uma atenção especial (cf. Familiaris consortio , 22 ss.). Ser pai ou mãe significa participar na obra de Deus como Autor da vida. O contexto adequado para a procriação é a união permanente e exclusiva que os cônjuges estabelecem através do dom completo, constante e recíproco de si mesmos. A insistência da Igreja acerca do matrimónio monógamo não constitui a imposição de um ideal alheio, em desvantagem das tradições locais. Pelo contrário, em fidelidade ao seu Senhor, a Igreja proclama que «Cristo renova o desígnio primitivo que o Criador inscreveu no coração do homem e da mulher... os cônjuges cristãos são chamados a uma participação na indissolubilidade irrevogável que liga Cristo à Igreja, sua Esposa, por Ele amada até ao fim» (Ibidem, 20). O mesmo documento exorta cada Bispo a «fazer com que a sua diocese se torne sempre mais uma verdadeira “família diocesana”, modelo e fonte de esperança para tantas famílias que a integram» (Ibidem, 73).

6. Um auxílio inestimável aos fiéis leigos que se esforçam por viver em conformidade com a vontade de Deus, é a fidelidade dos sacerdotes e dos religiosos ao seu compromisso no celibato e na virgindade: «O matrimónio e a virgindade [ou o celibato] são dois modos de exprimir e de viver o único mistério da Aliança de Deus com o seu Povo» (Ibidem, 16). O que se requer em qualquer aliança é a fidelidade. Na nossa época, que tem muita necessidade de uma profunda mudança do coração no que concerne à moralidade sexual e ao amor esponsal, devemos confiar em que o Senhor ainda chama muitos dos seus seguidores ao celibato, «por amor do Reino do Céu» (Mt 19, 12). Devemos estar também convencidos de que Ele é ainda mais generoso no revigoramento dos eleitos que procuram responder a esta chamada, com todos os sacrifícios que comporta uma resposta sincera à vocação ao celibato ou à virgindade. O exemplo de sacerdotes e religiosos, que verdadeiramente vivem segundo a própria vocação, ajudará os leigos a suportarem a abnegação exigida pela obediência ao desígnio de Deus para a sexualidade humana. Desta forma, todo o povo santo de Deus há-de levar uma vida deveras fecunda e encontrar a felicidade duradoura (cf. Familiaris consortio , 16).

A formação sacerdotal deve constituir sempre uma das vossas mais eminentes prioridades. Encorajo-vos a assegurar que os vossos seminários continuem a exigir um alto grau académico e que se pretenda e alcance uma qualidade igualmente elevada na formação espiritual e pastoral dos vossos seminaristas. É essencial que a formação sacerdotal consolide com firmeza os candidatos em um relacionamento de profunda comunhão e amizade com Jesus, o Bom Pastor (cf. Pastores dabo vobis , 42). Os sacerdotes e os religiosos exigem o vosso apoio e guia paternais, e podem beneficiar enormemente de programas de formação permanente que, com efeito, «reanimam a dádiva de Deus que neles reside» (cf. 2 Tm 1, 6). É particularmente importante que as religiosas disponham de directores e confessores em número suficiente e bem preparados, sacerdotes que tenham familiaridade com a vida consagrada e sejam capazes de fortalecê-las no seu empenhamento.

7. Em Cristo tudo se renova; no Baptismo, os fiéis abandonaram a velha natureza que pertencia ao seu antigo estilo de vida (cf. Ef 4, 22), e assim já não são «judeus ou gregos, escravos ou libertos, homens ou mulheres, mas todos são um só em Jesus Cristo» (Gl 3, 28). As rivalidades tribais e a hostilidade étnica não podem ocupar um lugar na Igreja de Deus, nem no meio do Seu povo santo. Pelo contrário, a Igreja que está em Uganda tem a importante tarefa de ajudar o vosso país a edificar um futuro cada vez mais promissor, no qual a sociedade civil há-de crescer em maturidade no contexto do respeito e da harmonia. Esta é a vossa mensagem, ao anunciardes o Reino de Deus e convidardes homens e mulheres ao esplendor daquela verdade que «brilha em todas as obras do Criador e (...) ilumina a inteligência [do homem] e modela a [sua] liberdade que, deste modo, é levado a conhecer e a amar o Senhor» (Veritatis splendor , Proémio).

Queridos Irmãos no Episcopado, é minha esperança de que estes pensamentos, sugeridos pela vossa visita, vos revigorem no ministério de serviço às pessoas confiadas ao vosso cuidado. Evocando o exemplo heróico de São Carlos Lwanga e dos seus Companheiros, rezo para que os Santos Mártires de Uganda constituam sempre um manancial de inspiração e de renovação, enquanto vós e o vosso Povo procurais crescer na santidade, na verdade e na liberdade genuínas dos filhos de Deus (cf. Rm 8, 21). Ao confiar a Igreja de Uganda à protecção de Maria, Mãe de todos os fiéis e Rainha da África, concedo-vos do íntimo do coração a minha Bênção Apostólica.

DISCURSO DO PAPA JOÃO PAULO II AO SENHOR STEFAN FALEZ NOVO EMBAIXADOR DA SOBERANA ORDEM MILITAR DE MALTA JUNTO DA SANTA SÉ POR OCASIÃO DA APRESENTAÇÃO DAS CARTAS CREDENCIAIS

13 de Outubro de 1997

Senhor Embaixador

É com muita alegria que o acolho e saúdo na sua qualidade de Embaixador Extraordinário e Plenipotenciário da Soberana Ordem Militar de Malta junto da Santa Sé. O meu deferente pensamento dirige-se ao Príncipe e Grão-Mestre da Ordem, Fra Andrew Bertie, e peço que lhe transmita a minha cordial saudação, juntamente com a expressão do meu reconhecimento pelos devotos sentimentos de que Vossa Excelência se fez intérprete. De igual modo, estou grato aos Membros do Conselho Soberano e da inteira Ordem, que nesta significativa circunstância quiseram manifestar, por seu intermédio, sentimentos de renovada fidelidade ao Sucessor de Pedro.

Vossa Excelência é bem consciente da fisionomia peculiar própria da Soberana Ordem de Malta. Ela, com efeito, distingue- se pelo seu carácter supranacional, religioso e caritativo. Como Vossa Excelência há pouco recordou, ser sujeito de direito internacional consente à Ordem estabelecer relações diplomáticas com numerosos Estados e Organizações, entre os quais a Santa Sé. Esta, aliás, tem com a Ordem vínculos profundos que remontam aos inícios do segundo milénio, quando nasceu em Jerusalém como Ordem Hospitaleira de São João. São vínculos que haurem alimento quer do religioso afecto da Sé Apostólica como da inteira cristandade pela Terra Santa, quer da própria finalidade da Ordem, que é definida de modo expressivo no lema: «Tuitio fidei, obsequium pauperum».

Finalidade verdadeiramente nobre, que encontra admirável confirmação na inteira história da Ordem, que no decurso dos séculos se qualificou pela defesa da fé, impelida não raro até ao supremo testemunho do sangue, e pelo serviço caritativo para com os peregrinos, os doentes e qualquer outra forma de necessidade humana.

Hoje, a defesa da fé exprime-se sobretudo no testemunho das verdades cristãs, dado com a palavra e com a vida. Isto supõe, como condição preliminar, que se seja bem instruído naquelas verdades e bem convicto do dever de professá-las com coragem e firmeza, como é requerido a um «cavaleiro» que honra a palavra dada. Nesta perspectiva, é-me grato confiar idealmente a todos os Membros da Ordem de Malta o «Catecismo da Igreja Católica», do qual há pouco foi publicada a edição típica em língua latina. Defender a fé significa muitas vezes, especialmente no nosso tempo, defender os grandes valores que a razão humana, sem a luz da Revelação, corre o risco de não captar na sua integridade e radicalidade. Tais são, por exemplo, a dignidade do homem, a natureza da família, o fundamental direito da vida.

Encorajo, Senhor Embaixador, a Ordem inteira a continuar a sustentar com generosidade estas batalhas ideais, das quais depende a civilização do terceiro milénio. Estou certo que a secular Instituição que Vossa Excelência aqui representa, não deixará de perseverar em oferecer o seu precioso contributo a todas aquelas iniciativas que a Igreja, fiel ao desígnio de Deus para a humanidade, está a empreender na salvaguarda dos direitos de todos, a partir dos mais débeis.

O típico campo de serviço da Ordem de Malta é o cuidado dos doentes e dos peregrinos, honrados pelos seus Membros como «senhores» aos quais se deve prestar assistência, em atitude de «servos ». «Dei-vos o exemplo, para que, como Eu vos fiz, façais vós também» (Jo 13, 15) — disse Jesus aos Seus discípulos, depois de lhes ter lavado os pés. Possa este ícone evangélico do serviço animar sempre a acção de quantos militam na Ordem de Malta!

Escutei com satisfação, Senhor Embaixador, o balanço sintético exposto por Vossa Excelência acerca das múltiplas obras que a Ordem dirige no mundo. Elas constituem, sem dúvida, um válido serviço aos necessitados e um eficaz testemunho de Cristo, Bom Samaritano da humanidade. A Santa Sé apoia estas iniciativas e, da minha parte, oro para que elas correspondam sempre melhor ao espírito evangélico e humanitário do qual têm origem.

Com interesse acolhi a sua referência ao particular empenho, que a Ordem de Malta pretende dedicar por ocasião do Grande Jubileu do Ano 2000. A respeito disso, quereria antes de tudo pôr em evidência a feliz coincidência entre o nono centenário da Ordem, que acontecerá em 1999, e a vigília do Ano Santo. Não são muitas, considerando bem, as Instituições que se podem gloriar de uma origem tão antiga: a sua duração estende-se quase pelo inteiro arco do segundo milénio. Que circunstância mais favorável para mostrar aos homens de hoje que, através das profundas transformações da história, a Ordem de Malta, fiel à originária inspiração evangélica, conserva bem vivos os seus bens mais preciosos: a fé e a caridade

A vossa escolha de estardes presentes e activos nos dois centros focais do Jubileu, Roma e Jerusalém, é bastante apropriada e merece todo o bom êxito. Como Bispo de Roma, enquanto exprimo grato apreço por tudo o que a Ordem fez, apresento os mais ardentes votos para aquilo que ela pretende fazer ao serviço dos peregrinos, sempre mais numerosos na visita aos lugares santos da «Cidade eterna».

Senhor Embaixador, enquanto recebo as Cartas que o acreditam para esta nova missão, faço votos de que seja profícua e rica de satisfações e, ao mesmo tempo, asseguro a Vossa Excelência uma constante lembrança na oração. Com estes sentimentos invoco a protecção materna de Maria Santíssima sobre a Soberana Ordem Militar de Malta, que a venera com o título de Virgem de Filéremo, e de coração concedo ao Príncipe e Grão-Mestre, a Vossa Excelência, aos Capelães e a todos os Membros da Ordem, assim como aos seus familiares a Bênção Apostólica.

DISCURSO DO PAPA JOÃO PAULO II A UM GRUPO DE PEREGRINOS VINDOS A ROMA PARA A BEATIFICAÇÃO DE CINCO SERVOS DE DEUS

Sexta-feira, 13 de Outubro de 1997

Venerados Irmãos no Episcopado e no Sacerdócio Caríssimos Religiosos e Religiosas Irmãos e Irmãs

1. Estou feliz por renovar a cada um de vós a minha cordial saudação, no dia seguinte à proclamação dos cinco novos Beatos, aos quais viestes honrar. Ainda está vivo em nós o eco da celebração de ontem e, com o ânimo agradecido, damos glória ao Senhor pelas grandes obras que realizou neles e através das suas pessoas.

Sentimo-los próximos de nós na comunhão dos Santos. Com o seu exemplo e a sua intercessão, somos encorajados a uma fidelidade mais perseverante no seguimento de Jesus Cristo, tornando-nos como eles corajosas testemunhas do Seu Evangelho.

2. O Padre Elias do Socorro Nieves, mártir agostiniano mexicano, fala-nos hoje a partir do exemplo da sua vida, do seu ministério e da sua entrega até à morte por amor de Deus e dos irmãos. Ele respondeu às dificuldades que encontrou na própria vida, com a sua inquebrantável fé na divina Providência. No seu ministério sacerdotal, serviu com humildade as pessoas simples, compartilhando as suas preocupações e a sua sorte, em vez de sonhar com grandes obras. Durante a perseguição não abandonou os seus paroquianos porque — dizia ele — «cada sacerdote que anuncia a Palavra de Deus em tempos de perseguição, não tem escapatória: morrerá como Cristo!»; à semelhança de Jesus, morreu perdoando e abençoando os próprios algozes.

O seu exemplo e a sua intercessão impelem hoje a Igreja que está no México a continuar a proclamar o Evangelho a todos com humildade, constância, fidelidade e espírito de sacrifício. A Ordem de Santo Agostinho, que na Madre Fasce, igualmente beatificada ontem, conta com um novo modelo de vida contemplativa, possui no Padre Nieves uma testemunha de fecundidade apostólica, nascida de uma profunda vida espiritual.

3. E um testemunho de singular eficácia evangélica tendes também vós, queridos peregrinos da Diocese de Bréscia, que sentis próximo de vós o Beato João Baptista Piamarta, filho da vossa terra. Ele pertence ao número daqueles servos bons e fiéis que, no século passado, souberam animar a caridade social com autêntico espírito de fé. O projecto divino manifestou-se-lhe gradualmente e o vasto ministério pastoral, por ele levado a cabo, encontrou a sua plena realização na fundação da Congregação masculina da Sagrada Família de Nazaré e na determinante contribuição para o nascimento da família feminina das Humildes Servas do Senhor.

João Baptista Piamarta pôde realizar obras tão exigentes, graças a uma intensa e perseverante oração e a uma inabalável confiança na Providência. Oxalá ressoe inclusivamente no vosso coração quanto ele gostava de repetir: a oração será sempre atendida, se tiver estas duas qualidades, que são a glória de Deus e a salvação das almas.

4. E vós, prezados fiéis da Diocese de Tursi-Lagonegro, exultais justamente pelo Beato Domingos Lentini, oriundo da vossa região. Pregador itinerante, ele foi um exemplar ministro do perdão de Deus, atento educador da juventude e incansável testemunha da caridade para com os pobres. O vosso povo recorda-o como pastor solidário com as almas a ele confiadas nas vicissitudes tanto felizes como tristes da sua época.

O fulcro vital da sua espiritualidade foi a Cruz, considerada como o caminho do amor que se dá e se sacrifica pelos irmãos, à imitação de Jesus, que Se ofereceu a Si mesmo pela salvação do mundo.

Com o seu exemplo e a sua intercessão, ele continua ainda hoje a indicar a via da Cruz como itinerário espiritual para vencer o pecado, acolher os sinais da misericórdia de Deus e proceder com decisão cada vez maior no caminho da santidade, ao qual cada um dos baptizados é chamado.

5. No dia seguinte à beatificação da Madre Maria de Jesus, sinto-me feliz por vos receber, estimados peregrinos, para meditar convosco sobre a sua mensagem. A oração e a adoração diante do Santíssimo Sacramento tiveram um lugar importante na sua existência. Estas ajudaram-na a forjar e a suavizar a sua personalidade.

Segundo o exemplo da Madre Maria de Jesus, encorajo-vos a desenvolver o culto eucarístico. A Eucaristia constitui o âmago da vida cristã e o manancial de todo o impulso missionário. No espírito de Santa Juliana de Cornillon, exorto as religiosas de Maria Reparadora e todos os fiéis a darem continuidade aos seus esforços a fim de que os jovens descubram o valor da adoração, que os há-de introduzir nos mistérios divinos, ajudando- os na sua maturação espiritual e dando- lhes a força do testemunho quotidiano. Assim terão, como dizia a Madre Maria de Jesus, «uma grande generosidade de alma e de coração, bem como um espírito apostólico».

O amor pelo Senhor impeliu a Beata Maria de Jesus a servir os seus irmãos, em primeiro lugar na família e, sucessivamente, mediante a fundação da Sociedade de Maria Reparadora. A sua intensa vida espiritual abriu o seu coração às dimensões do mundo, através da atenção aos pobres e aos pequeninos. Por vossa vez, empenhai-vos em prol da solidariedade e da justiça; e, assim como ela, também vós vos prodigalizai para que Cristo seja anunciado em todas as culturas e em cada um dos continentes!

6. O nosso olhar dirige-se agora para a Beata Maria Teresa Fasce que vós, queridos fiéis da Diocese de Espoleto-Núrsia, bem conheceis e admirais. Com efeito, é-vos conhecido o seu exemplo de austera e radical vida monástica, em conformidade com o estilo da Ordem de Santo Agostinho. Na contemplação do mistério de Cristo e no aprofundamento do conhecimento de Deus, a sua vida encontrou o impulso de uma singular irradiação apostólica.

Do claustro do vosso mosteiro, esta fiel serva de Deus construiu uma grandiosa variedade de obras animadas pelo amor a Deus e ao homem. O lema que muitas vezes repetia — «Desejo-O não obstante custe, desejo-O porque custa, desejo-O custe o que custar» — constitui a síntese mais significativa dos seus dias transcorridos na operosidade, no sofrimento oferecido ao Senhor e na experiência mística.

Caríssimas, possam as suas palavras guiar as opções de vida de cada uma de vós, de tal forma que, a seu exemplo, vos apresenteis perante Deus com as mãos cheias de inúmeros gestos de amor.

7. Estes novos Beatos constituem uma dádiva para todos os crentes. O seu testemunho representa um premente convite a trabalhar incansavelmente pelo Evangelho.

Caríssimos Irmãos e Irmãs! Faço votos por que, após esta peregrinação a Roma, cada um de vós regresse às próprias actividades reforçado na fé e na comunhão eclesial. Sustentem-vos a materna protecção de Maria, Rainha do Rosário, e a intercessão dos novos Beatos. Acompanhe-vos também a minha Bênção que, com afecto, concedo a vós aqui presentes, às vossas famílias e a todas as vossas Comunidades.

DISCURSO DO PAPA JOÃO PAULO II AOS PARTICIPANTES NO COLÓQUIO INTERNACIONAL SOBRE TOXICOMANIA PROMOVIDO PELO PONTIFÍCIO CONSELHO PARA A PASTORAL NO CAMPO DA SAÚDE

Sábado, 11 de Outubro de 1997

Estimados Irmãos no Episcopado e no Sacerdócio Queridos Amigos

1. Estou feliz de vos receber por ocasião do Colóquio internacional sobre a toxicomania. Agradeço a D. Javier Lozano Barragán, Presidente do Pontifício Conselho para a Pastoral no Campo da Saúde, as suas palavras de boas-vindas e a organização deste encontro de trabalho. Com efeito, é particularmente oportuno reflectir sobre a gravidade das problemáticas apresentadas pelo fenómeno da droga e sobre a urgência das investigações que ajudam os responsáveis políticos e económicos, os educadores e as famílias provadas pelo drama da toxicomania.

2. Há vários anos, a Santa Sé teve ocasião de se expressar a este respeito, apresentando propostas pastorais educativas e sociais. Infelizmente, devemos constatar que hoje em dia este fenómeno atinge todos os ambientes e todas as regiões do mundo. Cada vez mais crianças e adolescentes se tornam consumidores de produtos tóxicos, com frequência em virtude de uma primeira experiência realizada com leviandade ou por desafio. Os pais e os educadores são frequentemente despreparados e desencorajados. Os médicos e os serviços sanitários e sociais encontram graves dificuldades quando se trata de ajudar quem neles buscam auxílio para sair do círculo da droga. Deve-se reconhecer que a repressão contra os consumidores de produtos ilícitos não é suficiente para conter o flagelo; com efeito, uma importante delinquência mercantil e financeira organizou-se a nível internacional. Na maioria das vezes, o poder económico vinculado à produção e à comercialização destes produtos escapa à lei e à justiça.

Por conseguinte, não se deve surpreender com o facto de uma grande confusão e um sentimento de impotência invadirem a sociedade. Determinadas correntes de opinião propõem legalizar a produção e o comércio de certas drogas. Algumas autoridades estão prontas a deixar que isto se faça, procurando simplesmente enquadrar o consumo da droga para tentar controlar os seus efeitos. O resultado disto é que desde o período escolar se banaliza o uso de determinadas drogas; tal situação é favorecida pela proposta que procura minimizar os seus perigos, especialmente graças à distinção entre drogas leves e pesadas, o que conduz a propostas de liberalização do uso de certas substâncias. Tal distinção negligencia e atenua os riscos inerentes a qualquer uso de produtos tóxicos, em especial os comportamentos de dependência, que tem como base as mesmas estruturas psíquicas, a atenuação da consciência e a alienação da vontade e da liberdade pessoais, qualquer que seja a droga em questão.

3. O fenómeno da droga constitui um mal de particular gravidade. Por causa desta, numerosos jovens e adultos morrem ou hão-de morrer, enquanto outros se encontram diminuídos no seu íntimo e nas suas capacidades. O recurso à droga por parte dos jovens reveste-se de multíplices significados. Nos momentos delicados do seu crescimento, a toxicomania deve considerar-se como sintoma de um mal existencial, de uma dificuldade em encontrar o próprio lugar na sociedade, de um medo do futuro e de uma fuga na vida ilusória e fictícia. O tempo da juventude é um período de provações e interrogações, de busca de um sentido para a existência e de opção que compromete o porvir. O crescimento do mercado e do consumo de drogas manifesta que vivemos em um mundo necessitado de esperança, ao qual faltam propostas humanas e espirituais sólidas. Desta forma, numerosos jovens pensam que todos os comportamentos são equivalentes, sem conseguirem diferenciar o bem do mal, nem possuirem o sentido dos limites morais.

Entretanto, penso nos esforços dos pais e dos educadores para inculcar nos seus filhos os valores espirituais e morais, a fim de que se tornem pessoas responsáveis. Fazem-no frequentemente com coragem, mas nem sempre se sentem sustentados, sobretudo quando os mass media difundem mensagens moralmente inaceitáveis, que servem de referências culturais no conjunto dos países do mundo, preconizando como exemplo a multiplicidade dos modelos familiares que destroem a imagem normal do casal e depreciam os valores da família, ou ainda consideram a violência e às vezes a própria droga como sinais de libertação pessoal.

4. O medo do futuro e do compromisso na vida adulta, observável nos jovens, torna-os particularmente frágeis. Com frequência, não são encorajados a lutar por uma existência recta e bela, e tendem a fechar-se em si mesmos. Não se deveria também minimizar o efeito devastador exercido pelo desemprego, do qual os jovens são vítimas em proporções indignas de uma sociedade que pretende respeitar a dignidade humana. Então, forças de morte impelem-nos a abandonar-se à droga e à violência, e por vezes a ir até mesmo ao suicídio. Por detrás daquilo que se pode manifestar como fascínio por um género de autodestruição, temos que perceber nos jovens um apelo à ajuda e uma profunda sede de viver, que é necessário ter em consideração para que o mundo saiba modificar radicalmente as suas propostas e os seus estilos de vida. Muitos jovens são abandonados a si próprios e não beneficiam de uma presença atenta, de um lar estável, de uma escolarização normal, nem sequer de um contexto sócio- educativo que os desperte para o esforço intelectual e moral, auxiliando-os a forjar a sua vontade e a dominar a própria afectividade.

5. A luta contra o flagelo da toxicomania é a problemática de todos os homens, cada qual segundo a responsabilidade que lhe compete. Exorto em primeiro lugar os casais a desenvolverem relacionamentos conjugais e familiares estáveis, fundamentados sobre um amor único, duradouro e fiel. Assim, hão-de criar melhores condições para uma vida serena no próprio lar, oferecendo aos seus filhos a segurança afectiva e a confiança em si mesmos, das quais têm necessidade para o seu crescimento espiritual e psicológico. É também importante que os pais, que têm a responsabilidade primordial no que concerne aos seus filhos e, juntamente com esses, o conjunto da comunidade adulta tenham o cuidado constante da educação da juventude. Portanto, convido todos aqueles que desempenham um papel educativo a intensificarem os seus esforços a favor dos jovens, que têm necessidade de formar a própria consciência, desenvolver a sua vida interior e entretecer com os seus irmãos relacionamentos positivos e um diálogo construtivo; eles ajudá-los-ão a tornar-se os fautores livres e responsáveis da sua própria existência. Os jovens que possuem uma personalidade estruturada, uma sólida formação humana e moral, vivendo relações harmoniosas e confiantes com os seus coetâneos e com os adultos, serão mais capazes de resistir às tentações de quem difunde a droga.

6. Exorto as Autoridades civis, os responsáveis pela economia e todas as pessoas que têm uma responsabilidade social, a perseguirem e a intensificarem os próprios esforços, a fim de aperfeiçoarem a todos os níveis as legislações de combate contra a toxicomania e de se oporem a todas as formas de cultura da droga e de tráfico, mananciais de riqueza escandalosamente adquirida, mediante a exploração da fragilidade de pessoas inermes. Encorajo os poderes públicos, os pais, os educadores, os profissionais da saúde e as comunidades cristãs a empenharem- se cada vez mais e de maneira concertada em favor dos jovens e dos adultos, em um trabalho de prevenção. É importante que se dêem informações médicas inteligentes e exactas, em particular aos jovens, sublinhando os efeitos perniciosos da droga nos planos tanto somático, como intelectual, psicológico, social e moral. São do meu conhecimento o devotamento e a paciência indefessos daqueles que cuidam e acompanham tanto as pessoas aprisionadas pelas redes da droga como as suas famílias. Convido os pais que tem um filho toxicómano a jamais se desesperarem, a manterem diálogo com ele, a prodigalizarem-lhe o seu afecto e a favorecerem contactos com estruturas capazes de se ocupar dele. A atenção calorosa de uma família constitui um grande apoio para o combate interior e para o progresso de um tratamento de desintoxicação.

7. Elogio o incansável e paciente empenhamento pastoral de sacerdotes, religiosos, religiosas e leigos nos ambientes da droga; eles auxiliam os pais, dedicando- se a acolher e a escutar os jovens para responder às suas interrogações radicais, a fim de os ajudar a sair da espiral da droga e a tornar-se adultos livres e felizes. A Igreja tem como missão transmitir a palavra do Evangelho que abre à vida de Deus, e de fazer descobrir Cristo, Verbo de Vida que oferece um caminho de crescimento humano e espiritual. A exemplo do seu Senhor e solidária com os seus irmãos em humanidade, a Igreja vai em socorro dos mais pequeninos e dos mais frágeis, cuidando de quem está ferido, revigorando quem está doente e buscando a promoção pessoal de cada um.

No termo do nosso encontro, elogio a missão que o Pontifício Conselho para a Pastoral no Campo da Saúde está a realizar, seguindo com cuidado todas as problemáticas médicas e sociais a fim de propor soluções a situações que ferem gravemente os homens, nossos irmãos. Ao mesmo tempo, em relação com os pastores das Igrejas particulares, com os fiéis e os serviços competentes, empenhados no apoio aos toxicómanos e às suas famílias, o Conselho é chamado a oferecer a sua contribuição para as iniciativas locais.

Confio as vossas pessoas e a vossa acção à intercessão da Virgem Maria; imploro- a também para os jovens que dependem da droga e para os seus entes queridos. Que Ela os envolva com a sua solicitude maternal! Guie os jovens do mundo rumo a uma vida cada vez mais harmoniosa! O Espírito Santo vos acompanhe e dê a coragem necessária para a vossa obra em favor da juventude! A todos vós, aos vossos colaboradores e aos membros das vossas famílias, concedo a Bênção Apostólica!

MENSAGEM DO PAPA JOÃO PAULO II AOS FILHOS DA DIVINA PROVIDÊNCIA (ORIONITAS)

Ao Reverendíssimo Padre ROBERTO SIMIONATO Director-Geral dos Filhos da Divina Providência

1. «Queríamos ver a Jesus» (Jo 12, 21). Com estas palavras um grupo de gregos, atraído pelo fascínio do divino Mestre, dirigiu-se certa vez a alguns discípulos, exprimindo o desejo de encontrar o Senhor. No decurso dos séculos muitas outras pessoas, por toda a parte da terra, continuaram a manifestar este mesmo desejo que aproxima homens e mulheres, marcados por uma particular relação com a pessoa de Jesus.

Entre as testemunhas de Cristo do nosso século, ocupa um lugar privilegiado o Beato Luís Orione, Fundador dessa Família religiosa. O seu fascínio espiritual sensibilizou tanta gente durante a sua vida e continua ainda agora a suscitar admiração e interesse. Assim aconteceu que, entre os leigos próximos da Pequena Obra da Divina Providência, se veio a afirmar o desejo de conhecer em profundidade o Beato Fundador, para seguir com mais fidelidade os seus passos. Deste modo nasceu o Movimento Laical Orionita, com a finalidade de oferecer às diversificadas componentes do associacionismo laical nascido à volta das instituições da Obra a possibilidade de viver o seguimento de Cristo, compartilhando o carisma orionita com os Filhos da Divina Providência e com as Pequenas Irmãs Missionárias da Caridade.

2. Após os primeiros anos do Movimento, percebeu-se a oportunidade de proceder a uma verificação do caminho percorrido, em vista dos seus ulteriores desenvolvimentos. Para isto foi promovido esse Congresso internacional, que tem o lema paulino: «Instaurare omnia in Christo», escolhido pelo Beato para a Família religiosa por ele fundada. Querse deste modo oferecer aos leigos a oportunidade de aprofundar o conhecimento do carisma orionita, para elaborar uma peculiar «carta de comunhão» e projectar ulteriores metas de empenho e de partilha, ao serviço da nova evangelização em vista do Grande Jubileu do Ano 2000.

Ao dirigir a minha saudação aos participantes no encontro, não posso deixar de lhes recordar as apaixonadas palavras do Beato Orione: «Instaurare omnia in Christo! Renovar-nos-emos, a nós e ao mundo inteiro em Cristo, quando formos realmente transformados em Jesus Cristo». Era, pois, clara convicção do Fundador de que a alma de toda a renovação autêntica é a novidade de Cristo, que Se torna presente em cada pessoa, nas famílias, nas estruturas civis e nas relações entre os povos. O seu anélito era fazer de Cristo o coração do mundo e servir Cristo em cada homem, especialmente nos pobres. Para dar conveniente actuação a esta sua intuição, ele queria envolver cada vez mais os leigos na actividade apostólica, chamando-os a sintonizar-se com o seu coração sem confins, porque era dilatado pela caridade de Cristo crucificado. Com efeito, de Buenos Aires escrevia a alguns amigos da Obra, em 1935: «Todos vós, certamente, sentireis comigo vivíssimo o desejo de cooperar, na medida em que vos for possível, naquela renovação de vida cristã — em «instaurare omnia in Christo» — do Qual o indivíduo, a família e a sociedade podem esperar a restauração social. Tende a coragem do bem!» (Cartas II, 291).

Conscientes deste projecto já presente no coração do Beato Fundador, os responsáveis da Família orionita promoveram há alguns anos o Movimento laical, que neste Congresso se quer ulteriormente definir e fortalecer, a fim de cooperar validamente, como ele gostava de repetir, para «fazer o bem sempre, o bem a todos, e jamais o mal a ninguém».

3. É-me grato aproveitar esta significativa circunstância para o encorajar, Venerado Irmão no sacerdócio, assim como os Religiosos e as Religiosas orionitas a tornardes-vos «guias experientes de vida espiritual, a cultivardes nos leigos “o talento mais precioso: o espírito!” » (Vita consecrata , 55). E convido os leigos, que escolheram compartilhar o carisma orionita vivendo no mundo, a serem zelosos e generosos a fim de oferecer à Pequena Obra da Divina Providência «o precioso contributo» da sua secularidade e do seu serviço específico. O Movimento Laical Orionita favorecerá assim a irradiação espiritual da vossa Família religiosa para além das fronteiras do próprio Instituto, aprofundando os seus traços carismáticos para uma actuação, cada vez mais eficaz, da sua missão específica na Igreja e no mundo.

Dirijo um pensamento particular aos membros do Instituto Secular Orionita, ao qual foi recentemente concedida a aprovação canónica como Instituto de vida consagrada. Bem sabendo que nestes dias eles realizam a sua Assembleia geral para a eleição das próprias Autoridades, exorto-os a viver com fidelidade e alegria a própria consagração no mundo e com os meios do mundo. Saibam tornar-se agentes de novas sínteses entre o máximo possível de adesão a Deus e à Sua vontade, e a máxima participação possível nas alegrias e nas esperanças, nas angústias e nos sofrimentos dos irmãos, a fim de os orientar para o projecto de salvação integral, manifestado pelo Pai em Cristo. A sua laicidade consagrada os ajude a viver com coerência o Evangelho, no empenho quotidiano de tornar operativo, na esteira do testemunho e dos ensinamentos do Beato Orione, o programa paulino «Instaurare omnia in Christo».

Invoco, para isto, a protecção de Maria, «Mãe e celeste Fundadora» da Pequena Obra da Divina Providência, e a intercessão do Beato Luís Orione, enquanto, em penhor dos favores celestes, lhe concedo uma especial Bênção Apostólica, assim como aos membros do Movimento Laical e do Instituto Secular, e também a quantos fazem parte, a vários títulos, da Família orionita.

Vaticano, 7 de Outubro de 1997.

JOÃO PAULO II

JOÃO PAULO II

Discurso na Cerimónia de Despedida (Rio de Janeiro - Aeroporto da Base Aérea do Galeão: 5 de Outubro de 1997)

Senhor Vice-Presidente:

Ao deixar esta terra abençoada do Brasil, eleva-se na minha alma um hino de ação de graças ao Altíssimo, que me permitiu viver aqui horas intensas e inesquecíveis, com o olhar fixo no Cristo Redentor, que domina a Baía de Guanabara, e na certeza do amparo maternal de Nossa Senhora da Penha, a proteger esta cidade querida desde o seu Santuário situado não longe daqui.

Na minha memória ficarão para sempre gravadas as manifes- tações de entusiasmo e de profunda piedade deste povo generoso da Terra da Santa Cruz que, junto à multidão de peregrinos provindos dos quatro cantos do mundo, soube dar uma pujante demonstração de fé em Cristo e de amor pelo Sucessor de Pedro. Peço a Deus que proteja e abençoe todas as nações do globo, com abundantes graças de conforto espiritual, e ajude a dar passo seguro àquelas iniciativas, que todos esperam, pelo bem comum da grande Família humana e de cada povo que a compõe.

A minha saudação final, repassada de gratidão, vai para o Senhor Presidente da República, para o Governo da Nação e do Estado do Rio de Janeiro, e todas as demais Autoridades brasileiras que tantas provas de delicadeza quiseram-me dispensar nestes dias.

Estou também agradecido aos Membros do Corpo Diplomático, cuja diligente atuação facilitou sobremaneira a participação das próprias Nações nestes dias de reflexão, oração e compromisso pela Família.

Um particular pensamento de estima fraterna dirijo-o, com profundo reconhecimento, aos Senhores Cardeais, aos meus Irmãos no Episcopado, aos Sacerdotes e Diáconos, Religiosos e Religiosas, aos Organizadores do Congresso. Todos contribuíram para abrilhantar estas jornadas do Segundo Encontro Mundial com as Famílias, deixando a quantos nelas tomaram parte cheios de consolação e de esperança - gaudium et spes! - na família cristã e na sua missão no meio da sociedade.

Tende a certeza de que levo a todos no meu coração, donde brota a Bênção que vos concedo e que faço extensiva a todos os Povos da América Latina e do Mundo.

JOÃO PAULO II

Saudação às Comissões Organizadoras da Visita Pastoral e aos Bispos da "Rede Vida" de televisão (Rio de Janeiro - Residência do Sumaré: 5 de Outubro de 1997)

Senhores Cardeais, Diletos Irmãos no episcopado, Caríssimos Irmãos e Irmãs,

Antes de regressar a Roma, quis ter este encontro de despedida para agradecer aos membros da Comissão Organizadora eclesiástica e do Governo do Estado do Rio de Janeiro, que com tanta diligência prepararam a celebração da Jornada Mundial das Famílias. Minhas felicitações e gratidão, vão também dirigidas a todos amigos e benfeitores que colaboraram generosamente com o próprio tempo e meios, para o pleno êxito deste grande acontecimento, de modo particular, o pessoal que esteve de serviço na Residência do Sumaré. Que Deus lhes pague!

Faço votos que se perpetuem os ideais e os frutos do Congresso Teológico-Pastoral sobre a Família. Peço a Deus que a vivência responsável deste «santuário da vida» (EV, 6), que é precisamente a família, do dinamismo que dele deriva e das exigências que impõe de "totalidade, unicidade, fidelidade e fecundidade" (Enc. Humanae Vitae, 9), constitua um estímulo e uma força constante que façam eclodir uma nova aurora de santidade no âmbito da família cristã.

Desejo saudar também aos senhores Bispos aqui presentes, representantes da «REDE VIDA de TELEVISÃO» e encorajá-los a prosseguir nesta obra de apostolado a serviço da vida e do homem. Congratulo-me com o senhor Arcebispo de Botucatu, D. Antônio Maria Mucciolo, por esta arrojada iniciativa, conhecida como o «canal da família», já no segundo ano de vida, e com os seus mais diretos colaboradores, fazendo votos de que essa emissora católica de televisão sirva como um válido instrumento de evangelização, e um testemunho eficaz da presença da Igreja no Brasil. Que Deus abençôe a todos, os dirigentes e funcionários do Instituto Brasileiro para a Comunicação Cristã.

A todos, enfim, desejo encorajar a prosseguir com empenho no esforço pela evangelização da sociedade e da família, e que vos alentem os resultados até hoje obtidos a Bênção Apostólica que de todo o coração vos concedo.

JOÃO PAULO II

Discurso na Festa-Testemunho das Famílias (Rio de Janeiro - Estádio do Maracanã: 4 de Outubro de 1997)

1. Amadas famílias que vos reunis aqui no Rio de Janeiro, vindas de todos os povos e nações!

Amadas famílias de todo o mundo, que através do Rádio e da Televisão seguis este Encontro! Saúdo a todas com especial carinho e a todos vos abençôo.

Muito obrigado por esta calorosa manifestação de fé e de alegria que nos quisestes dar hoje, para ajudar-nos a refletir que a família é realmente dom e compromisso pela pessoa e pela vida, e esperança da humanidade. Também a arte foi colocada como instrumento a serviço da mensagem do amor comprometido e da vida, maravilhoso dom de Deus. Fizestes-nos participar daquilo que o Senhor, Autor do matrimônio e Senhor da vida, realizou em vós. E também testemunhastes o que conseguistes com sua graça. Não é verdade que o Senhor, nas mais distintas situações, inclusive no meio das tribulações e das dificuldades, sempre vos acompanhou? Sim! o Senhor da Aliança, que veio à vossa procura e vos encontrou, sempre vos acompanhou no vosso caminho. Deus Nosso Senhor, o Autor do matrimônio que vos uniu, derramou abundantemente, para vossa felicidade, a riqueza do seu amor.

Eu gostaria de recolher aqui, em breve síntese, aquilo que haveis refletido, após uma intensa preparação catequética conforme o Magistério da Igreja, nas Assembléias Familiares, nas Dioceses, Paró- quias, Movimentos e Associações. Foi, sem dúvida, uma formosa preparação, cujos frutos trazeis hoje aqui para proveito e alegria de todos.

2. A família é patrimônio da humanidade, porque é mediante a família que, conforme o desígnio de Deus, deve-se prolongar a presença do homem sobre a terra. Nas famílias cristãs, fundadas no sacramento do matrimônio, a fé nos vislumbra maravilhosamente o rosto de Cristo, esplendor da verdade, que enche de luz e de alegria os lares que inspiram a sua vida no Evangelho.

Hoje, infelizmente, vai-se difundindo pelo mundo uma men- sagem enganosa de felicidade impossível e inconsistente, que só arrasta consigo desolação e amargura. A felicidade não se consegue pela via da liberdade sem a verdade, porque esta é a via do egoísmo irresponsável, que divide e corrói a família e a sociedade.

Não é verdade que os esposos, como se fossem escravos condenados à sua própria fragilidade, não possam permanecer fiéis à sua entrega total até à morte! O Senhor, que vos chama a viver na unidade de "uma só carne", unidade de corpo e alma, unidade da vida toda, dá- vos força para uma fidelidade que enobrece e que faz com que a vossa união não corra o risco da traição que rouba a dignidade e a felicidade e introduz, no seio do lar, divisão e amargura cujas maiores vítimas são os filhos. A melhor defesa do lar está na fidelidade que é uma dádiva do Deus fiel e misericordioso, num amor por Ele redimido.

(Spagnolo)

3. Quisiera, una vez más, lanzar aquí un clamor de esperanza y de liberación.

Familias de América Latina y del mundo entero: no os dejéis seducir por ese mensaje de mentira que degrada a los pueblos, atenta contra sus mejores tradiciones y valores, y hace caer sobre los hijos un cúmulo de sufrimientos y de infelicidad. La causa de la familia dignifica al mundo y lo libera en la auténtica verdad del ser humano, del misterio de la vida, don de Dios, del hombre y la mujer, imagenes de Dios. Hay que luchar por esa causa para asegurar vuestra felicidad y el futuro de la familia humana.

Desde aquí, en esta tarde, en que familias de todas las partes del mundo estrechan sus manos, como en una inmensa corona de amor y de fidelidad, lanzo esta invitación a cuantos trabajan en la edificación de una nueva sociedad en la que reine la civilización del amor: defended, como don precioso e insustituible, vuestras familias; protegedlas con leyes justas que combatan la miseria y el azote del desempleo, y que, a la vez, permitan a los padres cumplir con su misión. ¿Cómo pueden los jóvenes crear una familia si no tienen con qué mantenerla? La miseria destruye la familia, impide el acceso a la cultura y a la educación básica, corrompe las costumbres, daña en su propia raíz la salud de los jóvenes y los adultos. ¡Ayudadlas! En esto se juega vuestro futuro.

Existen en la historia moderna numerosos fenómenos sociales que nos invitan a hacer un examen de conciencia sobre la familia. En muchos casos hay que reconocer con vergüenza que se han producido errores y desvaríos. ¿Cómo no denunciar aquellos comportamientos, motivados por el desenfreno y la irresponsabilidad, que conducen a tratar a los seres humanos como a simples cosas o instrumentos del placer pasajero y vacío? ¿Cómo no reaccionar ante la falta de respeto, la pornografía y toda clase de explotación, de las que en muchos casos los niños pagan el precio más caro?

(Portoghese)

As sociedades que se despreocupam da infância são desumanas e irresponsáveis. Os lares que não educam integralmente seus filhos, que os abandonam, cometem uma gravíssima injustiça de que deverão prestar contas diante do tribunal de Deus. Sei que não poucas famílias são, por vezes, vítimas de situações maiores que elas próprias. Em tais casos, ocorre fazer apelo à solidariedade de todos, porque as crianças acabam sofrendo todas as formas de pobreza: a da miséria econômica e, sobre- tudo, da miséria moral que produz o fenômeno a que aludia na Carta às Famílias: Há muitos órfãos de pais vivos! (n. 14).

Como foi lembrado pelo Cardeal Presidente do Pontifício Conselho para a Família, para servir de símbolo de uma caridade efetiva e fruto do Primeiro Encontro Mundial com as Famílias em Roma, foi concluída uma "Cidade das Crianças" em Ruanda, tendo sido construída com a ajuda de muitas pessoas e algumas generosas instituições; e começam a construir outra em Salvador da Bahia, naqueles mesmos Alagados que visitei e aos quais deixei um apelo à esperança e à promoção humana durante a minha primeira Visita Apostólica ao Brasil em julho de (mil novecentos e oitenta) 1980. Este esforço leva em si uma mensagem e um convite que dirijo ao mundo, através de vós famílias de todo o mundo: acolhei vossos filhos com um amor responsável; defendei-os como um dom de Deus, desde o momento em que são concebidos, em que a vida humana surge no ventre das mães; que o crime abominável do aborto, vergonha para a humanidade, não condene os concebidos à mais injusta das execuções: a dos seres humanos mais inocentes! Esta proclamação sobre o inestimável valor da vida desde o ventre materno e contra qualquer manobra de supressão da vida, quantas vezes a ouvimos dos lábios da Madre Teresa de Calcutá!? Ouvimo-la todos durante o Ato Testemunhal do Primeiro Encontro, em Roma. Aqueles lábios estão agora mudos pela morte. Mas a mensagem de Madre Teresa em favor da vida continua vibrante e convincente como nunca.

4. Neste Estádio, convertido agora pelo jogo de luzes como em vitrais de uma imensa Catedral, a celebração de hoje quer chamar a todos a um grande e nobre compromisso, sobre o qual invocamos a ajuda de Deus Onipotente:

Pelas famílias, para que unidas no amor de Cristo, organizadas pastoralmente, presentes ativamente na sociedade, comprometidas na sua missão de humanização, de libertação, de construção de um mundo segundo o coração de Cristo, sejam realmente a esperança da humanidade!

Pelos filhos, para que cresçam como Jesus, no lar de Nazaré. No seio das mães, dorme a semente da nova humanidade. No rosto das crianças, brilha o futuro, o futuro milênio, o porvir que está nas mãos de Deus.

Pelos jovens, para que se empenhem, com grande entusiasmo, a preparar sua família de amanhã, educando-se a si mesmos para o amor verdadeiro que é abertura ao outro, capacidade de escuta e de resposta, compromisso de doação generosa, inclusive a custo de sacrifício pessoal, e disponibilidade à compreensão recíproca e ao perdão.

5. Famílias de todo o mundo, quero concluir renovando um apelo:Sede testemunhos vivos de Cristo, que é «o caminho, a verdade e a vida» (cf. Carta às Famílias, 23)! Deixai que entrem no próprio coração os frutos do Congresso Teológico-Pastoral recém concluído. E que a graça e a paz da parte de Deus, nosso Pai, e da parte do Senhor Jesus Cristo, estejam convosco! (c. 2 Cor 1,2)

Maria, Rainha da Família, Sede da Sabedoria, Serva do Senhor, rogai por nós. Amém.

JOÃO PAULO II

Mensagem para os presos do Presídio Frei Caneca

4 de outubro de 1997

Caros Irmãos:

Durante o II Encontro Mundial com as Famílias, meu pensamento se dirige hoje a vós, que vos encontrais no Presídio "Frei Caneca". Não escondo que sofro convosco pela privação da liberdade. Posso imaginar o que isto significa. Sofro ainda mais, porque compreendo que muitas das vossas famílias não pode contar com a vossa presença de pais e de filhos, às vezes os únicos que poderiam tirá-las do desamparo. Desejo, porém, assegurar-vos que a Igreja permanece junto a vós neste tempo de provação. Cristo quer estar convosco com o apoio da sua palavra e a certeza da sua amizade.

Hoje, o Papa se dirige a vós com esta Carta, para vos testemunhar o amor de Cristo e a atenção da Comunidade eclesial. Cristo e os Apóstolos experimentaram a realidade do «cárcere», e São Paulo foi diversas vezes aprisionado. Jesus no Evangelho afirma: «Estive na prisão e fostes ter comigo» (Mt 25,36). Ele se solidariza com a vossa condição, e estimula a todos os que compartilham vossos problemas.

Também a sua morte na Cruz exprime um supremo testemunho de amor e de acolhimento. Crucificado entre dois condenados à mesma pena, Ele assegura a salvação ao bom ladrão arrependido: «Em verdade te digo: Hoje estarás comigo no Paraíso» (Lc 23,43). Ato de extrema misericórdia, de extrema doação capaz de dar confiança também a quem se sente totalmente perdido. Com este gesto de perdão, o Senhor fala à humanidade de todos os tempos.

O projeto de salvação é para todos. Ninguém deve sentir-se excluído. Cristo conhece o íntimo da pessoa, e com a sua justiça supera toda injustiça humana, com a sua misericórdia vence o mal e o pecado. Deixai, então, que o Senhor habite nos vossos corações! Confiai-lhe a vossa provação! Ele há de ajudar-vos a suportá-la. No segredo e no silêncio, podeis participar no Encontro que atualmente as famílias vivem no Rio de Janeiro. Com efeito, mediante a vossa oração, os vossos sacrifícios e a vossa renovação pessoal, participais no sucesso desta grande Festa das Famílias e na conversão dos vossos irmãos.

Desejo aproveitar para encorajar a Direção e os funcionários deste Presídio, a sustentar no melhor dos modos a convivência humana, que deverá estar sempre marcada pelo respeito à dignidade humana e ao bem-comum da sociedade.

Permiti-me, enfim, manifestar o meu apreço pela Pastoral carcerária do Rio de Janeiro, com os votos de que este serviço da Arquidiocese prossiga oferecendo conforto humano e orientação religiosa a quem passa por momentos difíceis na própria vida.

Caros amigos, deixai-me dizer-vos hoje: «Coragem! O Senhor está convosco. Não desespereis. Fazei deste tempo de dor, um tempo de reparação e de purificação pessoal. Reconciliai-vos com Deus e com o vosso próximo». Com a ajuda das vossas famílias, dos vossos amigos e da Igreja, que hoje está especialmente convosco, faço votos de que possais encontrar um lugar na sociedade, continuando a servi- la como bons cidadãos e homens responsáveis pelo bem comum.

Pela intercessão de Maria nossa Mãe, a Consoladora dos Aflitos, abençoo de todo o coração a vós e a todas as vossas famílias.

JOÃO PAULO II

Mensagem Para os enfermos do Instituto Nacional do Câncer

Caríssimos Irmãos e Irmãs:

O programa da minha Visita Pastoral ao Rio de Janeiro leva- me a passar perto do vosso Hospital. Não podendo prolongar o meu itinerário, por falta de tempo, para estar convosco, desejo pelo menos fazer ato de presença entre vós enviando por escrito a minha saudação. O meu pensamento se dirige, com cordial simpatia e viva participação, a cada um de vós, enfermos, médicos e demais funcionários do Instituto Nacional do Câncer.

Desejo assegurar-vos que as famílias que participam deste II Encontro Mundial, e todos os fiéis que se solidarizam conosco, abraçam com afeto toda a família humana tocada pelo sofrimento. Abraçam, hoje, especialmente a vós que passais pela provação intensa da dor, que só o misterioso desígnio da Providência divina pode ajudar-vos a compreender.

A Igreja não pode deixar de sentir no coração o dever da proximidade e da participação neste mistério doloroso, que associa tantos homens e mulheres de todos os tempos ao estado de Jesus Cristo durante a sua Paixão. Quando o mal bate às portas de um ser humano, ela convida sempre cada qual a reconhecer na própria existência o reflexo de Cristo, o «Homem das Dores». À vista do seu Senhor («estive doente - diz Jesus - e vieste visitar-Me»), a Igreja redobra os seus cuidados e presença materna junto aos doentes, para que o amor divino neles penetre mais profundamente, frutificando em sentimentos de filial confiança e abandono nas mãos do Pai celeste para salvação do mundo.

No plano salvífico de Deus, «o sofrimento, mais do que qualquer outra coisa, torna presentes na história da humanidade as forças da Redenção» (Salvifici doloris, 27). Precisamente como o Senhor Jesus salvou o seu povo, amando-o «até o extremo» (Jo 13,1), «até a morte de cruz» (Fil 2,8), também continua a convidar de algum modo todos os discípulos a sofrerem pelo Reino de Deus. Quando é unido à Paixão redentora de Cristo, o sofrimento humano torna-se um instrumento de maturidade espiritual e uma escola magnífica de amor evangélico.

A vós doentes convido olhar sempre com fé e esperança para o Redentor dos homens. A misericórdia divina saberá acolher vossas preces e súplicas para, se for do agrado do Pai e para o vosso bem, curá-los dos males que vos afligem. Ele, porém, enxugará sempre vossas lágrimas, se souberdes olhar para a sua Cruz e anticipar na esperança a recompensa destes padecimentos. Tende confiança, ele não vos abandona!

Desejo exprimir, também, a todos os que trabalhais no Hospital do Câncer - médicos, enfermeiros, farmacêuticos, amigos voluntários, acompanhantes, sacerdotes, religiosos - o reconhecimento da Igreja pelo exemplo que ofereceis e pela caridade com que desempenhais vosso serviço à sociedade. «Tal serviço é uma via de santificação como a própria doença. No decurso dos séculos, ele foi uma manifestação da caridade de Cristo, que é precisamente a fonte da santidade» (Alocução, 15 de Junho de 1994). Deus vos chama a serdes exímios defensores da vida, em todos os seus instantes e até o seu termo natural. A ciência, que o Criador pôs em vossas mãos, seja sempre instrumento de respeito absoluto da vida humana e da sua sacralidade, como já reconhecia o antigo e sempre atual juramento de Hipócrates.

«Juntamente com Maria, Mãe de Cristo, que estava aos pés da cruz (cf. Jo 19,25), detemo-nos ao lado de todas as cruzes do homem de hoje» (Salvifici doloris, 31), como também hoje desejo fazê-lo ao lado deste Hospital, para declarar abertamente que a Igreja tem necessidade dos doentes e da sua oblação ao Senhor, a fim de obter graças mais abundantes para a humanidade inteira (cf. Alocução, ib.). Com estes auspícios, invoco do Todo-Poderoso os dons da paz e da consolação espiritual para todos os enfermos e para os Dirigentes e funcionários do Instituto Nacional do Câncer, e vos concedo de coração, extensiva aos vossos familiares, uma propiciadora Bênção Apostólica.

Vaticano, 30 de Setembro de 1997

JOÃO PAULO II

Discurso aos Bispos e Delegados do Congresso Teológico-Pastoral sobre a Família (Rio de Janeiro - Centro de Congressos "Riocentro": 3 de Outubro de 1997).

Veneráveis Irmãos no Episcopado, Queridos Congressistas:

1. É grande a alegria que sinto por me encontrar com as famílias que participaram, em representação de várias nações, neste Congresso Teológico-Pastoral realizado em vista do Segundo Encontro Mundial das Famílias. Saúdo a vós, veneráveis Irmãos no Episcopado do Brasil, da América Latina e de todo o mundo, e saúdo igualmente as famílias presentes e todas quantas nelas estão representadas. Ao invocar do Todo- Poderoso abundantes graças de sabedoria e de fortaleza, que sirvam de estímulo para reafirmar com fé o lema: «Família: Dom e compromisso, esperança da humanidade», eu gostaria de refletir convosco algumas pistas e exigências do trabalho apostólico e pastoral com as famílias que tendes por diante.

Algumas das considerações, que de modo especial proponho a vós Bispos, Mestres da fé e Pastores do rebanho - chamados a imprimir um renovado dinamismo à Pastoral Familiar -, já foram objeto de atento estudo no Congresso Teológico-Pastoral. Agradeço as saudações do Senhor Cardeal Alfonso López Trujillo, Presidente do Pontifício Conselho para a Família, e convido os participantes - Delegados das Conferências Episcopais, dos Movimentos, das Associações e Grupos -, vindos de todo o mundo, a aprofundar e difundir com entusiasmo os frutos deste trabalho, empreendido com plena fidelidade ao Magistério da Igreja.

2. O homem é a via da Igreja. E a família é a expressão primordial desta via. Como escrevia na Carta às Famílias, «o mistério da Encarnação do Verbo está (...) em estreita relação com a família humana. Não apenas com uma, a de Nazaré, mas de certa forma com cada família, analogamente a quanto afirma o Concílio Vaticano II do Filho de Deus que, na Encarnação, "Se uniu de certo modo com cada homem" (GS, 22). Seguindo a Cristo que "veio" ao mundo "para servir" (Mt 20,28), a Igreja considera o serviço à família uma das suas obrigações essenciais. Neste sentido, tanto o homem como a família constituem "a via da Igreja"» (Gratissimam sane, 2).

O Evangelho ilumina, portanto, a dignidade do homem, e redime tudo o que pode empobrecer a visão do homem e da sua verdade. É em Cristo onde o homem percebe a grandeza da sua chamada como imagem e filho de Deus; é nEle onde se manifesta em todo o seu esplendor, o projeto original de Deus-Pai sobre o homem, e é em Cristo onde tal projeto alcançará sua plena realização. É em Cristo, igualmente, onde essa primeira e privilegiada expressão da sociedade humana que é a família, encontra a luz e a plena capacidade de realização conforme os planos amorosos do Pai.

«Se é certo que Cristo "revela plenamente o homem a si mesmo", fá-lo a começar da família onde Ele escolheu nascer e crescer» (Gratissimam sane, 2). Cristo lumen gentium, luz dos povos, ilumina os caminhos dos homens. Entre eles fica iluminada, sobretudo, a íntima comunhão de vida e de amor dos esposos, que é a encruzilhada necessária na vida dos homens e dos povos, em que Deus sempre veio- lhes ao encontro.

Este é o sentido sagrado do matrimônio, de algum modo presente em todas as culturas, embora com as sombras devidas ao pecado origi- nal, e que adquire uma altura e um valor eminentes com a revelação: «Assim como Deus outrora tomou a iniciativa duma aliança de amor e fidelidade com o seu povo, assim agora o Salvador dos homens e Esposo da Igreja vem ao encontro dos esposos cristãos através do sacramento do Matrimônio. Além disso, permanece com eles, para que assim como Ele amou a Igreja e Se entregou por ela, assim os esposos, com sua mútua entrega, se amem em perpétua fidelidade» (GS, 48).

3. A família não é para o homem uma estrutura acessória e extrínseca, que impede seu desenvolvimento e sua dinâmica interior. «O homem, por sua própria natureza, é um ser social, que não pode viver nem desenvolver as suas qualidades sem entrar em relação com os outros» (GS,12). A família, longe de ser um obstáculo para o desen- volvimento e o crescimento da pessoa, é o âmbito privilegiado para fazer crescer todas as pontencialidades pessoais e sociais que o homem leva inscritas no seu ser.

A família, fundamentada e vivificada pelo amor, é o lugar próprio onde cada pessoa está chamada a experimentar, fazer próprio e participar daquele amor sem o qual o homem não pode viver, e toda a sua vida fica destituída de sentido (cf. Redemptor hominis, 10; Familiaris consortio, 18).

As trevas que afetam, hoje em dia, a mesma concepção do homem atacam primeira e diretamente a realidade e as expressões que lhe são conaturais. Pessoa e família correm paralelas na estima e no reconhecimento da própria dignidade, como também nos ataques e tentativas de decomposição. A grandeza e a sabedoria de Deus mani- festam-se em suas obras. Hoje em dia, porém, parece que os inimigos de Deus, mais que atacar frontalmente o Autor da criação, preferem defrontá-Lo em suas obras. E o homem é o cume, o auge das suas criaturas visíveis. «Gloria enim Dei vivens homo, vita autem hominis visio Dei» (S. Ireneu, Adv. haer. 4, 20, 7).

Entre as verdades obscurecidas no coração do homem, por causa da crescente secularização e do hedonismo reinantes, ficam especial- mente afetadas todas aquelas relacionadas com a família. Em torno à família e à vida se trava hoje o combate fundamental da dignidade do homem. Em primeiro lugar, a comunhão conjugal não é reconhecida nem respeitada nos seus elementos de igualdade na dignidade dos esposos, e de necessária diferença e complementaridade sexual. A mesma fidelidade conjugal e o respeito pela vida, em todas as fases da sua existência, estão subvertidos por uma cultura que não admite a transcendência do homem criado à imagem e semelhança de Deus. Quando as forças desagre- gadoras do mal conseguem separar o matrimônio da sua missão respeito à vida humana, atentam contra a humanidade, furtando-lhe uma das garantias essenciais do próprio futuro.

4. O Papa quis vir até ao Rio de Janeiro para saudar-vos de braços abertos, à semelhança do Cristo Redentor, que domina esta Cidade maravilhosa do alto do Corcovado. E veio para confirmar-vos na fé, para sustentar vosso esforço em testemunhar os valores evangélicos. Por isso, diante dos problemas centrais da pessoa e da sua vocação, a atividade pastoral da Igreja não pode responder com uma ação setorial do seu apostolado. É necessário empreender uma ação pastoral nas quais as verdades centrais da fé irradiem sua força evangelizadora nos vários setores da existência, especialmente sobre os temas da família. Trata-se de uma tarefa prioritária fundada na «certeza de que a evangelização, no futuro, depende em grande parte da Igreja doméstica» (Familiaris consortio, 65). É preciso despertar e apresentar uma frente comum, inspirada e apoiada nas verdades centrais da Revelação, que tenha como interlocutor a pessoa, e como agente a família.

Por isso, os Pastores se conscientizam cada vez mais de que a Pastoral Familiar exige agentes com uma esmerada preparação e, por sua vez, estruturas ágeis e adequadas nas Conferências Episcopais e nas dioceses, que sirvam de centros dinâmicos de evangelização, de diálogo e de ações organizadas em conjunto, com projetos bem elaborados e planos pastorais.

Ao mesmo tempo, quero encorajar todo esforço dirigido a promover adequadas estruturas organizativas, tanto no âmbito nacional como no internacional, que assumam a tarefa de tecer um diálogo construtivo com as instâncias políticas, das quais depende em boa medida a sorte da família e da sua missão a serviço da vida. Encontrar os caminhos oportunos para continuar propondo eficazmente ao mundo os valores básicos do plano de Deus, significa comprometer-se para salva- guardar o futuro da humanidade.

(Spagnolo)

5. Además de iluminar y reforzar la presencia de la Iglesia como levadura, luz y sal de la tierra para que no se descomponga la vida de los hombres, es necesario dar prioridad a programas de pastoral que promuevan la formación de hogares plenamente cristianos, y acrecienten en los esposos la generosidad de encarnar en sus propias vidas las verdades que la Iglesia propone para la familia cristiana.

La concepción cristiana del matrimonio y de la familia no modifica la realidad creatural, sino que eleva aquellos componentes esenciales de la sociedad conyugal: comunión de los esposos que generan nuevas vidas, las educan e integran en la sociedad, y comunión de las personas como vínculo firme entre los miembros de la familia.

(Portoghese)

6. Hoje, ao vir a este Centro de Congressos - o Riocentro -, invoco sobre vós, Cardeais, Arcebispos, Bispos, representantes das diversas Conferências Episcopais do mundo inteiro e sobre os delegados do Congresso Teológico Pastoral e suas famílias, a luz e o calor do Espírito Santo. A Ele se volta a Igreja, para que infunda sobre todos sua presença santificadora, e renove na Esposa de Cristo «o ardor missionário para que todos cheguem a conhecer a Cristo, verdadeiro Filho de Deus e verda- deiro Filho do homem» (cf. Oração para o Primeiro Ano em preparação ao Jubileu do Ano 2000). Amanhã celebraremos no Estádio do Maracanã o Ato Testemunhal, com todos vós que trouxestes aqui a imensa riqueza, as preocupações e as esperanças de vossas Igrejas e povos, e que servirá de moldura para a Eucaristia do domingo, no Aterro do Flamengo, no qual viveremos, à luz da fé, o mistério do Pão vivo, descido dos Céus, o Maná das famílias que peregrinam em direção a Deus!

Faço votos de que, pela mediação da Santíssima Virgem Maria, os frutos deste nosso encontro possam encontrar corações bem dispostos para acolher, com renovado ardor missionário, as luzes do Altíssimo, em vista de uma nova evangelização da família e de toda a sociedade humana. Que o Espírito do Pai e do Filho, que é também o Espírito- Amor, nos conceda a todos a bênção e a graça que desejo transmitir aos filhos e filhas da Igreja e a toda a família humana.

JOÃO PAULO II

Discurso na Cerimónia de Chegada (Rio de Janeiro - Aeroporto da Base Aérea do Galeão: 2 de Outubro de 1997).

Senhor Presidente:

1. Tenho a grata satisfação de apresentar a Vossa Excelência, na sua qualidade de Chefe e representante supremo da grande Nação brasileira, as minhas respeitosas saudações. Agradeço de coração pela delicadeza que teve em acolher-me. Para mim é uma honra e um prazer encontrar- me novamente no Brasil, entre este Povo, cuja hospitalidade admirável e cuja alegria contagiante me são bem conhecidas.

Saúdo também a vós, veneráveis Irmãos no Episcopado. Em primeiro lugar, ao Senhor Cardeal Arcebispo de São Sebastião do Rio de Janeiro e seus Bispos Auxiliares, cuja Arquidiocese me oferece acolhida no marco do Segundo Encontro Mundial do Sucessor de Pedro com as Famílias; meus afetuosos cumprimentos vão, igualmente, ao Presidente do Pontifício Conselho para a Família e a todo o Conselho Episcopal Latino-Americano, bem como à Presidência da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil que, em gesto de fraterna solidariedade, aqui vieram para colaborar e recolher os frutos destes dias de confraternização e, com a ajuda de Deus, levá-los de volta aos países em que realizam seu ministério. Dirijo, também, minha afetuosa saudação aos membros representantes da Pastoral Familiar, que vieram para acolher-me com este simpático grupo de crianças e de jovens. Na verdade, deixai-me dizê-lo..., aqui estou para vós, vim para estar convosco, e convosco desejo estar!

Aos representantes do Povo brasileiro, membros do Governo, personalidades civis e militares, e a todos os que aqui se encontram reunidos, saúdo com imenso afeto. Muito obrigado por terem querido receber-me tão amavelmente à minha chegada, nesta peregrinação apostólica, que considero como parte do meu ministério universal. O dinamismo da nossa fé desperte sempre mais o sentido de fraternidade e de colaboração harmoniosa, para uma convivência pacífica a impul- sionar e consolidar os esforços por um progresso ordenado, que alcance todas as famílias e categorias sociais, em conformidade com os princípios da justiça e caridade cristãs.

2. Hoje venho novamente ao Brasil, para celebrar o Segundo Encontro Mundial das Famílias. Agradeço a Providência por estar aqui neste País de dimensões continentais, colocado pelas riquezas do seu solo e subsolo e pelo gênio empreendedor do seu povo na vanguarda entre as maiores Potências do mundo. A própria tradição cultural e a fé da sua gente têm marcado a evolução da sua história, que promete um futuro alvissareiro às vésperas do Terceiro Milênio. Certamente, os desequilíbrios sociais, a distribuição desigual e injusta dos meios econô- micos, geradora de conflitos na cidade e no campo; a necessidade de uma ampla difusão dos meios básicos de saúde e de cultura; os problemas da infância desprotegida das grandes cidades, para não citar outros, constituem para os seus governantes um desafio de enormes proporções. Faço votos de que os valores do patrimônio cultural e religioso da Nação brasileira sirvam de base para estimular decisões justas em defesa dos valores familiares e da Pátria.

Neste contexto, desejo estender também a expressão da minha estima e afeto a duas componentes do País. Em primeiro lugar, aos povos indígenas descendentes dos primeiros habitantes desta terra antes que aqui chegassem os descobridores e colonizadores. Eles contribuíram, com sua cultura, a injetar na cultura brasileira um profundo senso da família, de respeito aos antepassados, de intimidade e de afeto doméstico. Eles merecem toda a atenção para que vivam com dignidade esta sua cultura. Exprimo os mesmos sentimentos à porção afro-brasileira - numerosa e altamente significativa - da população desta terra. Pela sua presença notável na história e na formação cultural deste País, estes brasileiros de origem africana merecem, têm direito e podem, com razão, pedir e esperar o máximo respeito aos traços fundamentais da sua cultura a fim de que, com esses traços, continuem a enriquecer a cultura da Nação, na qual estão perfeitamente integrados como cidadãos a pleno título.

Irmãos e Irmãs do Brasil, da América e do mundo inteiro! Invoco sobre todos a abundância da graça divina: que Deus os abençoe e derrame sobre as Nações de todos os Continentes, paz e prosperidade! O Cristo Redentor, que do alto do Corcovado abre os seus braços em forma de cruz, ilumine as famílias, as Comunidades eclesiais e toda a sociedade temporal com a Luz do Alto, e conceda a todos, pela intercessão de Nossa Senhora de Guadalupe, Padroeira da América Latina, tudo quanto de bom seu coração deseja. Muito obrigado!

MENSAGEM DO PAPA JOÃO PAULO II AOS PARTICIPANTES DO ENCONTRO INTERNACIONAL «HOMENS E RELIGIÕES» REALIZADO EM PÁDUA E VENEZA

Ao venerado Irmão ROGER Cardeal ETCHEGARAY Presidente do Pontifício Conselho «Justiça e Paz»

1. É-me particularmente grato fazer chegar, por seu intermédio, a minha saudação cordial e a expressão da minha estima aos ilustres Representantes das Igrejas e Comunidades cristãs e das grandes Religiões mundiais, reunidos por ocasião do Encontro Internacional de Oração, que tem como tema: «A paz é o nome de Deus». Passaram-se doze anos desde que se realizou em Assis, no final do mês de Outubro, a histórica Jornada de Oração pela Paz. Desejei muito aquele encontro. Diante do drama de um mundo dividido e sujeito à terrível ameaça da guerra, não podia deixar de brotar do coração de cada crente um coral brado ao Deus da paz! Reunidos no monte de Assis, orámos todos por um futuro melhor em benefício da humanidade inteira. No dia seguinte àquela significativa jornada, exortei todos a perseverarem na difusão da mensagem de paz e no empenho a viver o «espírito de Assis», de maneira que constituísse o início de um caminho de reconciliação sempre mais vasto e participado.

2. Hoje sinto-me feliz por constatar como a dinâmica de paz, que em Assis recebeu um impulso singular, se tenha enriquecido em amplitude e profundidade. Agradeço de coração à Comunidade de Santo Egídio que, com entusiasmo e fidelidade, acolheu o «espírito de Assis» e, em torno dele, continuou a fazer convergir crentes de todas as Religiões e de todos os continentes, convidando-os a reflectir e a orar pela paz. Deste modo, formou-se e consolidou-se uma peregrinação de pessoas de boa vontade, desejosas de mostrar aos próprios irmãos o nome pacífico de Deus, o Qual quer salvaguardar e promover a vida de cada criatura racional. Esta simbólica marcha da paz faz paragem, este ano, antes em Pádua e depois em Veneza. Uno-me espiritualmente a ela e dirijo, antes de tudo, um afectuoso pensamento ao Cardeal Marco Cé, Patriarca de Veneza, e a D. António Mattiazzo, Arcebispo-Bispo de Pádua, que hospedam tão importante iniciativa. Saúdo, de igual modo, as Comunidades cristãs da Região Véneta, que no decurso dos séculos exerceram uma importante função de ponte entre o Oriente e o Ocidente. A história ensina como é precioso e profícuo o encontro entre os povos, e como é importante eliminar com vontade decidida conflitos, divisões e contrastes, para dar lugar à cultura da tolerância, do acolhimento e da solidariedade. Este processo de paz deve conhecer uma aceleração, agora que faltam apenas dois anos para o alvorecer do novo Milénio. Na perspectiva dessa data histórica, a expectativa é repleta de reflexão e esperança. Se considerarmos os séculos passados e, sobretudo, estes últimos cem anos, não é difícil vislumbrar, juntamente com as luzes, muitas sombras. Como não recordar as imensas tragédias que se abateram sobre a humanidade durante o século que está para terminar Ainda é viva a memória das duas guerras mundiais, com os atrozes extermínios por elas provocados. E persistem infelizmente, ainda hoje, violentos e cruéis massacres de homens, mulheres e crianças inermes. Para o crente, assim como para todos os homens de boa vontade, tudo isto é inaceitável! Pode-se talvez permanecer indiferente diante desses dramas? Eles constituem, para cada homem e para cada mulher de recto sentir, um premente apelo ao empenho de oração e de testemunho em favor da paz.

3. Eu tinha bem presentes no espírito estas preocupantes situações quando, na mensagem para o Dia Mundial da Paz deste ano, escrevia: «É tempo de nos decidirmos a empreender, juntos e com ânimo firme, uma verdadeira peregrinação de paz, cada qual a partir da situação concreta em que se encontra. As dificuldades são, por vezes, demasiado grandes: a proveniência étnica, a língua, a cultura, a crença religiosa constituem frequentemente uma série de obstáculos. Caminhar juntos, quando sobre os ombros pesam experiências traumatizantes ou mesmo divisões seculares, não é uma empresa fácil» (n. 1). A fé, dom de Deus, certamente não torna os crentes estranhos às dificuldades da história. Ao contrário, impele-os a agir com todos os meios, para que cresça a consciência da comum responsabilidade em construir a paz. Mais que nunca é necessário abandonar a «cultura da guerra», a fim de desenvolver uma sólida e duradoura «cultura da paz». A esta empresa os crentes são chamados a oferecer a sua peculiar contribuição. Entretanto, jamais se deve esquecer que as guerras são tragédias que deixam atrás de si vítimas e destruições, ódios e vinganças, mesmo quando pretendem sufocar as controvérsias e resolver os conflitos.

4. Quanto a isto, os responsáveis das diferentes Religiões podem oferecer uma contribuição determinante. Elevando a voz contra as guerras e enfrentando com coragem os riscos que delas derivam. Além disso, eles podem deter os excessos de violência que periodicamente se manifestam, não favorecendo quantos prefiguram conflitos entre os que pertencem a crenças diferentes e actuando para extirpar as raízes amargas da desconfiança, do ódio e da inimizade. São precisamente estes sentimentos que estão na origem de muitos conflitos. Eles nascem e prosperam no terreno da estraneidade e é neste âmbito que se torna necessário intervir com decisão e coragem.

Vencer as inúmeras incompreensões que separam e opõem os homens entre si: eis a tarefa urgente a que são chamadas todas as Religiões! A reconciliação sincera e duradoura é a via a seguir, a fim de dar vida a uma paz autêntica, fundada sobre o respeito e a compreensão recíproca. Ser artífice solerte da paz: este é o empenho de cada crente, sobretudo na fase histórica que a humanidade está a viver já no limiar do Terceiro Milénio.

Veneza representa nestes dias um singular fragmento de esperança na obra de construção da paz. O Deus da justiça e da paz abençoe e proteja todos os que nestes dias se empenham em testemunhar entre as queridas populações da Região véneta o «espírito de Assis», fazendo- se construtores de solidariedade para um mundo mais justo e fraterno.

Enquanto confio a Vossa Eminência, Senhor Cardeal, o encargo de exprimir aos ilustres Representantes provenientes das várias partes do mundo e a todos os Participantes neste importante encontro a minha mais sentida solidariedade, asseguro uma particular lembrança na oração e a todos saúdo cordialmente.

Vaticano, 1 de Outubro de 1997.

JOÃO PAULO II

MENSAGEM DO PAPA JOÃO PAULO II POR OCASIÃO DO 80° ANIVERSÁRIO DAS APARIÇÕES MILAGROSAS DE NOSSA SENHORA DE FÁTIMA

Venerável Irmão Serafim de Sousa Ferreira e Silva Bispo de Leiria-Fátima

Fraternas saudações em Cristo Senhor

O octogésimo aniversário daquele dia 13 de Outubro de 1917, quando houve no céu a prodigiosa «dança do sol», torna-se ocasião propícia para me dirigir em espírito, dada a impossibilidade de o fazer fisicamente, até esse Santuário com uma prece à Mãe de Deus pela preparação do povo cristão — e de algum modo da humanidade inteira — para o Grande Jubileu do Ano 2000, e com um apelo às famílias e comunidades eclesiais para a reza diária do Terço.

Às portas do Terceiro Milénio, olhando os sinais dos tempos neste século XX, Fátima conta-se certamente entre os maiores, até porque anuncia na sua Mensagem e condiciona à vivência dos seus apelos muitos dos restantes que lhe sobrevieram; sinais como as duas guerras mundiais, mas também grandes assembleias de Nações e povos sob o signo do diálogo e da paz; a opressão e convulsões sofridas por diversas Nações e povos, mas também a voz e a vez dadas a populações e gentes que entretanto se levantaram na Arena internacional; as crises, deserções e tantos sofrimentos nos membros da Igreja mas também uma renovada e intensa sensação de solidariedade e mútua dependência no Corpo Místico de Cristo, que se vai consolidando em todos os baptizados, segundo as respectivas vocação e missão; o afastamento e abandono de Deus da parte de indivíduos e sociedades, mas também uma irrupção do Espírito da Verdade nos corações e nas comunidades, tendo-se chegado à imolação e ao martírio para salvar «a imagem e semelhança de Deus no homem» (cf. Gn 1, 27), para salvar o homem do homem. De entre estes e outros sinais dos tempos, como dizia, sobressai Fátima, que nos ajuda a ver a mão de Deus, Guia providente e Pai paciente e compassivo também deste século XX.

Lendo, a partir de Fátima, o afastamento humano de Deus, convém recordar que não é esta a primeira vez que Ele, sentindo-Se rejeitado e repelido pelo homem, deixa a sensação, no respeito da liberdade dos homens, de afastar-Se com o consequente obscurecimento da Vida, que faz cair a noite sobre a História, mas depois de providenciar um abrigo. Já assim aconteceu no Calvário, quando Deus humanado, pela mão dos homens, foi crucificado e morreu. E que fez Ele? Depois de ter invocado a clemência do Céu com as palavras «perdoa-lhes, ó Pai, porque não sabem o que fazem» (Lc 23, 34), entregou a humanidade a Maria, sua Mãe: «Mulher, eis aí o teu Filho» (Jo 19, 26). Uma leitura simbólica deste quadro evangélico permitiria ver espelhada nele a cena final da experiência, conhecida e frequente, do filho que, sentindo- se incompreendido, confuso ou revoltado, abandona a casa paterna para se adentrar na noite... E é o xale da mãe que o vem cobrir no sono frio, pondo remédio ao desespero e à solidão. Sob o Manto maternal que, de Fátima, se estende a toda a terra, a humanidade sente voltar-lhe a saudade da Casa do Pai e do seu Pão (cf. Lc 15, 17). Amados peregrinos, como se pudésseis abraçar toda a humanidade, peço-vos que, em seu nome e por ela, digais: «À vossa protecção nos acolhemos, Santa Mãe de Deus. Não desprezeis as nossas súplicas em nossas necessidades; mas livrai-nos de todos os perigos, ó Virgem gloriosa e bendita».

«Mulher, eis aí o teu filho!». Assim falou Jesus à sua Mãe, pensando em João, o discípulo amado que se achava, ele também, ao pé da cruz. A cruz, quem a não tem?! Carregá-la dia a dia, seguindo os passos do Mestre, é a condição que o Evangelho nos impõe (cf. Lc 9, 23), certamente como uma bênção de salvação (cf. 1 Cor 1, 23-24). O segredo está em não perder de vista o Primeiro Crucificado, a Quem o Pai respondeu com a glória da ressurreição, e que abriu esta peregrinação de bem-aventurados. Essa contemplação tomou a forma simples e eficaz da meditação dos mistérios do Terço, consagrada popularmente e recomendada com grande insistência pelo Magistério da Igreja. Caríssimos irmãos e irmãs, rezai o Terço todos os dias! Peço encarecidamente aos Pastores que rezem e ensinem a rezar o Terço nas suas comunidades cristãs. Para o fiel e corajoso cumprimento dos deveres humanos e cristãos próprios do estado de cada um, ajudai o Povo de Deus a voltar à recitação diária do Terço, esse doce colóquio de filhos com a Mãe que «receberam em sua casa» (cf. Jo 19, 27).

Associando-me a esse colóquio e fazendo minhas as alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias de cada um, saúdo fraternalmente quantos tomam parte, física ou espiritualmente, nesta peregrinação de Outubro, invocando para todos, mas de modo especial para os doentes, o conforto e a fortaleza de Deus, para aceitarem «completar na sua carne o que falta aos sofrimentos de Cristo» (cf. Cl 1, 24), recordados daquele «mistério tremendo e nunca suficientemente meditado» de que «a salvação de um grande número de almas depende das orações e mortificações voluntárias, suportadas com essa intenção, dos membros do Corpo Místico de Jesus Cristo, e da obra de colaboração que os Pastores e os fiéis, especialmente os pais e mães de família, devem prestar ao nosso divino Salvador» (PIO XII, Enc. Mystici Corporis , 1ª parte, II § 26). A todos, Pastores e fiéis, sirva de encorajamento a minha Bênção Apostólica.

Vaticano, 1 de Outubro de 1997.

JOÃO PAULO II

MENSAGEM DO PAPA JOÃO PAULO II AO PATRIARCA ECUMÉNICO BARTOLOMEU I

A Sua Santidade Bartolomeu I Arcebispo de Constantinopla Patriarca ecuménico

A festividade do Apóstolo que foi o primeiro a ser chamado (cf. Jo 1, 40), propicia à Igreja de Roma o ensejo de manifestar os vínculos profundos que a unem à Igreja de Constantinopla.

André encontrou-se com o Messias e foi avisar Simão, seu irmão. Conduziu-o a Jesus, que dá a Simão o nome de Pedro (cf. Jo 1, 41-42).

A comunhão dos dois irmãos no acolhimento da Palavra de Deus permanece um exemplo e um modelo para as Igrejas que estão sob o seu patrocínio. A palavra recebida que nos transforma, deve ser anunciada de maneira que possa ser transmitida depois às gerações humanas, chamadas a ser vivificadas por ela. O vínculo directo da sucessão apostólica garante-lhes a autenticidade da missão.

É nesta perspectiva que a nossa participação recíproca nas festividades de Pedro e de André assume todo o seu significado. A celebração daqueles que estão na origem das nossas Igrejas, permite tomar uma consciência renovada da unidade, que já existe e que se deve realizar completamente. Diante de Deus, associados na acção de graças, no louvor e na súplica, renovamos a nossa resolução de caminhar juntos rumo ao termo, ao qual somos chamados e esperados.

A presença da Delegação guiada pelo Senhor Cardeal Edward I. Cassidy, Presidente do Pontifício Conselho para a Promoção da Unidades dos Cristãos, será a expressão concreta destes sentimentos, desta determinação e desta esperança

Expresso-lhe, Santidade, toda a minha profunda caridade.

Vaticano, 25 de Novembro de 1997.

JOÃO PAULO II

DISCURSO DO PAPA JOÃO PAULO II NO ACTO COMEMORATIVO DO CENTENÁRIO DO NASCIMENTO DO SERVO DE DEUS PAPA PAULO VI

Sábado, 22 de Novembro de 1997

Senhores Cardeais Venerados Irmãos no Episcopado e no Sacerdócio Ilustres Senhores e Senhoras do Corpo Diplomático Caríssimos Irmãos e Irmãs!

Na memória e no coração da Igreja e do mundo, como bem afirmou o Cardeal Casaroli na sua comovente recordação, o Servo de Deus Papa Paulo VI tem já um monumento, que ninguém poderá destruir. A celebração solene desta noite constitui-lhe uma ulterior confirmação. A sua figura, mais que nunca viva em todos nós foi, nesta Sala que dele tem o nome, reevocada de maneira tão eficaz graças ao generoso empenho de tantas pessoas, às quais desejo agora dirigir uma palavra de saudação e de reconhecimento.

A minha gratidão dirige-se, antes de tudo, aos professores da Orquestra do Festival Internacional de Bréscia e Bérgamo, ao Coro de Câmara de Praga, e ao Maestro Agostino Orizio, que os dirigiu de modo tão válido. A sua magnífica execução elevou o espírito de todos nós àquela dimensão de harmoniosa beleza, que Paulo VI várias vezes indicou como via para o conhecimento e a comunicação da Verdade.

Exprimo gratidão cordial, em particular, ao caríssimo Cardeal Agostino Casaroli, durante longos anos meu apreciado e estreitíssimo colaborador, que iluminou este acto comemorativo com o seu amplo e profundo relatório, que em certas passagens teve o tom de um comovente testemunho, corroborado pela plurianual partilha das solicitudes pastorais do grande Pontífice.

A veneração e o afecto filial para com o Papa Paulo VI reuniram aqui, esta noite, tantas pessoas. Muitas delas o conheceram pessoalmente; algumas, as mais afortunadas, beneficiaram também da sua amizade. A cada uma dirijo o meu pensamento fraterno.

A minha deferente saudação dirige-se, antes de mais, ao Senhor Presidente da República Óscar Luigi Scalfaro e a todas as outras Autoridades e Personalidades presentes. Saúdo, depois, os Senhores Cardeais entre os quais um particular pensamento dirige-se ao Senhor Cardeal Carlo Maria Martini, sucessor do então Cardeal Montini na Cátedra de Santo Ambrósio. Saúdo, além disso, D. Pasquale Macchi, D. John Magee e D. Vigílio Mário Olmi, Auxiliar de Bréscia, que aqui veio juntamente com o Presidente do Instituto Paulo VI de Bréscia, o Presidente da Câmara Municipal de Bréscia, e o Presidente da Câmara Municipal e o Pároco de Concesio. Por fim, saúdo com particular intensidade todos os familiares e parentes, que estão aqui connosco nesta noite.

Ao nomear Concesio, cidade natal de Giovanni Battista Montini, o pensamento corre espontaneamente à casa paterna e à fonte baptismal, onde ele recebeu o Sacramento do novo nascimento, no dia mesmo em que — como não o recordar? — partia deste mundo a alma eleita de Teresa de Lisieux. À espiritualidade da Santa carmelita podemos bem unir o ardente desejo religioso do Papa Paulo VI, que expressou o seu grande amor por Cristo, com o longo e sábio serviço à Igreja.

Nestes cem anos o evento eclesial mais relevante foi, sem dúvida, o Concílio Ecuménico Vaticano II. O Senhor quis que um franzino filho da terra bresciana se tornasse o robusto timoneiro da barca de Pedro, precisamente durante a celebração da Assembleia conciliar e nos anos da sua primeira actuação. Estamos todos profundamente gratos a Deus pelo dom deste grande Papa, que soube guiar a Igreja num momento histórico de vastas, repentinas e imprevisíveis mudanças. Pela inestimável herança de magistério e de virtudes, que Paulo VI deixou aos crentes e à humanidade inteira, louvamos o Senhor com sincero reconhecimento. A nós cabe agora aproveitar herança tão sábia. Deus nos ajude a continuar a sua obra apostólica e missionária, por intercessão de Maria, que o meu venerado Predecessor honrou de modo particular com o título de «Mãe da Igreja».

A todos renovo os meus sentimentos de gratidão, com a minha Bênção.

MENSAGEM DO PAPA JOÃO PAULO II AO REITOR DO CAMPO SANTO TEUTÓNICO POR OCASIÃO DOS 1200 ANOS DE FUNDAÇÃO

Reverendíssimo Mons. ERWIN GATZ Reitor do Colégio no Campo Santo Teutónico

À sombra da Basílica de São Pedro se encontra o Campo Santo Teutónico, o cemitério dos Alemães e dos Flamengos, que é circundado pelo Colégio e pela igreja de Santa Maria da Piedade. Nestes dias chegaram a Roma visitantes de longe e de perto, para recordarem com alegria as raízes do lugar em que se formaram, o qual se encontra naquela que, como é documentado, há 1200 anos era a Schola Francorum.

Ciente da riqueza histórica deste lugar, uno-me espiritualmente a esta assembleia festiva, que na celebração da Eucaristia dá graças a Deus, Criador de todas as coisas, por ter fielmente guiado este Instituto ao longo do decorrer do tempo.

Esta ocasião suscita em mim recordações pessoais, ligadas ao meu tempo de estudo em Roma, que remonta a cinquenta anos, o qual no ano passado inseri no meu livro Dono e Mistero, por ocasião do 50° aniversário do meu sacerdócio. Como os membros do Colégio no Campo Santo Teutónico, também eu então «na Cidade Eterna» aprendi «intensamente Roma: a Roma das catacumbas, a Roma dos mártires, a Roma de Pedro e de Paulo, a Roma dos confessores. (...) Ao partir», levei «comigo não só uma grande bagagem de cultura teológica, mas também a consolidação do meu sacerdócio e o aprofundamento da minha visão da Igreja» (Dono e Mistero, pág. 67 da versão italiana).

Ao exprimir a todos vós responsáveis do Colégio Teutónico o meu sincero apreço pelo vosso serviço, faço votos por que esta valiosa fundação seja terreno fértil devido ao espírito que ali reina. Conheço a relação que existe entre a Igreja na Alemanha e o Sucessor de Pedro. Conheço as capacidades formativas desta instituição, que transmitiu a inúmeras personalidades a competência e a formação necessárias, a fim de plasmarem em sentido cristão a vida da sua nação, sob o ponto de vista científico, eclesial e social. Que a proximidade ao túmulo de Pedro seja símbolo de fidelidade e possa representar um estímulo para todos aqueles que hoje saem deste lugar de formação, ou que o farão no futuro. Eles são formados num lugar privilegiado, que é capaz de ampliar a sua visão, conferindo- lhe uma dimensão europeia e universal.

Visto que a igreja de Santa Maria da Piedade representa, de certo modo, o centro do Colégio, confio o Campo Santo Teutónico à particular intercessão da Virgem Maria. Guie ela a vida de todos os que vão e vêm; dos sacerdotes e dos leigos, dos professores e dos alunos, dos residentes e dos empregados, dos membros da Arquiconfraria e, não por último, das Irmãs da Caridade Cristã, que trabalham ao serviço do Colégio! Sobre vós e sobre todos aqueles que participam na celebração deste 1.200° aniversário, concedo de coração a Bênção Apostólica.

Vaticano 21 de Novembro de 1997.

JOÃO PAULO II

DISCURSO DO PAPA JOÃO PAULO II AOS MEMBROS DA COMISSÃO DO ENCONTRO DE SARAJEVO REALIZADO EM ABRIL

Sábado, 15 de Novembro de 1997

Senhor Cardeal Venerados Irmãos no Episcopado Estimados Sacerdotes Ilustres Senhores

1. Acolho-vos com alegria e apresento-vos as minhas cordiais boas-vindas a este encontro com que, de certa maneira, quereis retribuir-me a inolvidável Visita que pude fazer a Sarajevo nos dias 12 e 13 do passado mês de Abril. Ainda está viva na minha alma a recordação da cidade com as profundas feridas das destruições causadas pela guerra e os sofrimentos da população. Ao mesmo tempo, permanece arraigada em mim a impressão do povo e das autoridades que participaram na minha visita.

Saúdo-o, Senhor Cardeal Vinko Pulji• que, juntamente com os queridos Prelados da Bósnia-Herzegovina, desejou acompanhar os membros da Comissão organizadora do encontro de Sarajevo, apresentando-me a cordial saudação de todos.

A cada um, desejo expressar a minha gratidão pelos generosos esforços despendidos em prol do bom êxito da minha peregrinação na vossa Pátria; e peço que transmita o meu agradecimento aos Excelentíssimos Membros da Presidência da Bósnia-Herzegovina.

Ao apresentar-vos a minha saudação, desejo renovar às populações da Bósnia-Herzegovina os meus sentimentos de afecto, assegurando que todos estão presentes nas minhas orações e próximos do meu coração.

2. Essa Visita, que preparastes tão bem, proporcionou conforto aos católicos, consolidando a sua fé e os seus propósitos de compromisso na reconstrução civil e moral, tão necessária depois dos danos causados pela guerra. Com efeito, é legítimo o desejo dos católicos de ver necessariamente reconhecidas e consideradas as suas aspirações civis, culturais e religiosas. A elas devem garantir-se os direitos de que gozam cada pessoa e cada comunidade do vosso País, a fim de que com a sua oferta específica, possam contribuir activamente para tornar cada vez mais humana e pacífica a vida nos lugares onde se encontram e trabalham.

3. Espero que a minha Visita tenha contribuído também para reacender nos habitantes de toda a Bósnia-Herzegovina a confiança no diálogo, na justiça, na compreensão recíproca, bem como numa paz justa e duradoura.

Numa sociedade que vive em busca da paz, cada cidadão tem o direito e o dever de oferecer o próprio contributo à ordenada consecução de tão nobre causa.

Quando trabalhamos com plena confiança em Deus e no homem, não devemos desencorajar-nos diante das dificuldades que inevitavelmente encontramos. Mesmo perante eventuais intimidações, quem crê em Deus sabe que é portador de uma cultura nova que luta com as armas do amor, a fim de que se consolidem o respeito e a dignidade do homem e dos povos. Além disso, está consciente de que deve promover com todos os meios legítimos os valores positivos que podem criar laços de compreensão e colaboração entre todos.

4. Venerados Pastores da Bósnia-Herzegovina, é vossa tarefa salvaguardar os direitos genuínos das vossas comunidades, perseverando em anunciar o Evangelho de Cristo com mansidão em todas as situações, «oportuna e inoportunamente » (2 Tm 4, 2). Continuai a actuar a fim de que os fiéis da inteira Igreja que está na Bósnia-Herzegovina façam todos sentir, com a palavra e o exemplo, a caridade de Cristo, Redentor do homem. Esta missão é ainda mais urgente na perspectiva do Terceiro Milénio, no qual queremos ingressar com um coração novo, reconciliados connosco mesmos e com os nossos irmãos.

5. Às ilustríssimas Personalidades da Comissão governamental aqui presentes, quereria transmitir uma palavra de encorajamento a continuarem os esforços em vista da retomada e da reconstrução do País, bem como do bom funcionamento das Instituições comuns, com paciência, abnegação e espírito de colaboração entre os três povos. A Santa Sé não deixará de contribuir, como até agora procurou fazer, nas formas apropriadas e também nas instâncias internacionais, em favor do desenvolvimento civil e social da Bósnia-Herzegovina.

Com estes sentimentos invoco sobre todos vós, as vossas famílias e a vossa Pátria inteira as Bênçãos de Deus Todo-poderoso.

DISCURSO DO PAPA JOÃO PAULO II AO SENHOR LUÍS SOLARI TUDELA NOVO EMBAIXADOR DO PERU JUNTO DA SANTA SÉ POR OCASIÃO DA APRESENTAÇÃO DAS CARTAS CREDENCIAIS

Sábado, 15 de Novembro de 1997

Senhor Embaixador

1. É-me grato acolhê-lo neste solene acto, no qual Vossa Excelência me apresenta as Cartas que o acreditam como Embaixador Extraordinário e Plenipotenciário da República do Peru junto da Santa Sé. Ao dar-lhe as minhas cordiais boas-vindas, quero agradecer as suas amáveis palavras, assim como a atenciosa saudação que o Senhor Presidente, Eng. Alberto Fujimori, quis fazer-me chegar por seu intermédio, a quem retribuo pedindo que se digne transmitir-lhe os meus melhores votos de paz e bem-estar para todo o nobre povo peruano.

2. É a segunda vez que Vossa Excelência exerce este honroso cargo de representar junto da Sé Apostólica a sua Nação, que gozou e goza ampla e profundamente da presença da fé católica na vida dos seus cidadãos e ofereceu à Igreja e à humanidade alguns admiráveis exemplos de santidade: Santa Rosa de Lima e São Martinho de Porres, São Toríbio de Mogrovejo, São João Macias e São Francisco Solano, a Beata Ana de Monteagudo e outros.

3. A Igreja no seu País, sob a guia solícita e prudente dos Bispos, trabalha com generosidade e entusiasmo no cumprimento da sua missão, fazendo assim que os valores morais e a concepção cristã da vida, tão arraigada ali, continuem a inspirar a vida dos cidadãos e quantos, duma ou doutra forma, desempenham responsabilidades de diverso grau, tenham em conta esses valores para construir dia após dia uma Pátria cada vez melhor, mais próspera, e na qual cada um veja plenamente respeitados os seus direitos inalienáveis.

A Igreja exerce a missão que lhe foi confiada pelo seu divino Fundador em diversos campos como, entre outros, a defesa da vida e da instituição familiar. Ao mesmo tempo, procura promover, baseando-se na sua Doutrina Social, a pacífica e ordenada convivência entre os cidadãos e entre as Nações. A mesma Igreja, que nunca pretende impor critérios concretos de governo, tem contudo o dever iniludível de iluminar a partir da fé o desenvolvimento da realidade social em que está imersa.

Nas suas palavras Vossa Excelência referiu-se ao facto de que a Nação peruana considera como uma riqueza os seus componentes multirraciais. Este facto exige uma atenção especial por parte dos governantes, para evitar que daí surjam injustas desigualdades e todos os cidadãos possam ter acesso às instituições e serviços públicos, como reconhecimento de que cada pessoa é dotada por Deus de uma dignidade, que nada nem ninguém pode violar.

A este respeito, a Igreja ensina que as estruturas institucionais devem dar «a todos os cidadãos a possibilidade efectiva de participar livre e activamente, dum modo cada vez mais perfeito e sem qualquer discriminação, tanto no estabelecimento das bases jurídicas da comunidade política, como na gestão da coisa pública e na determinação do campo e fim das várias instituições e na escolha dos governantes» (Conc. Ecum. Vat. II, Const. past. Gaudium et spes, sobre a Igreja no mundo actual, 75), o que comporta para os mesmos cidadãos «o direito e simultaneamente o dever que têm de fazer uso do seu voto livre em vista da promoção do bem comum» (Ibid.), e de aceder aos diversos serviços públicos, tais como a educação e a saúde. Neste sentido, exorto a continuar a trabalhar pela integração de todas as populações na vida nacional, sob algumas condições dignas para todos e respeitosas das tradições e culturas que formam esse rico tecido, o que ajudará, sem dúvida, a evitar o perigo de divisões entre o povo peruano e a superar possíveis tensões.

4. Vossa Excelência referiu-se também à luta que o seu Governo tem empreendido contra a pobreza. Com efeito, esta jamais pode ser considerada como um mal endémico, mas como a carência dos bens essenciais para o desenvolvimento da pessoa, imposta por diversas circunstâncias. A respeito disso, a Igreja sente como própria a difícil situação que atravessam tantos irmãos imersos nas redes da pobreza, e reafirma sempre, por fidelidade evangélica, o seu compromisso com eles como expressão do amor misericordioso de Jesus Cristo. Por isso, a Igreja mesma está junto daqueles que trabalham com seriedade para que a promoção humana seja um compromisso eficazmente assumido também pelas instituições sociais, em ordem a aliviar as precárias situações em que se encontram tantas pessoas e famílias.

A chaga moral e social da pobreza requer, sem dúvida, soluções de carácter técnico e político, fazendo com que as actividades económicas e os benefícios, que legitimamente geram, redundem de maneira eficaz no bem comum. Como escrevi na Mensagem para o Dia Mundial da Paz de 1993 , «Um Estado — seja qual for a sua organização política e o seu sistema económico — permanece em si mesmo frágil e instável, se não demonstra uma contínua atenção pelos seus membros mais débeis, e não faz tudo o que pode para garantir uma solução pelo menos às suas necessidades mais elementares» (n. 3). Contudo, não se deve esquecer que todas estas medidas seriam insuficientes se não fossem animadas pelos valores éticos e espirituais autênticos. Por isso, a erradicação da pobreza é também um compromisso moral, no qual a justiça e a solidariedade cristã desempenham um papel imprescindível.

5. No seu discurso, Vossa Excelência sublinhou que um dos objectivos da política exterior do seu País é a contribuição à paz e à segurança internacionais, assim como a promoção de vínculos de cooperação com todos os povos, em especial a inter-relação vicinal. Neste sentido, é-me grato recordar o valor do diálogo como veículo privilegiado para instaurar e manter relações pacíficas com as outras Nações, superando assim as possíveis controvérsias que possam surgir e tendo presente a importância da solidariedade e da cooperação internacional. Faço votos por que o processo que se desenvolve em Brasília possa chegar a bom termo, com a ajuda eficaz dos Países garantes, para pôr fim à controvérsia com a irmã Nação do Equador.

Por outro lado, a paz na ordem internacional exige actualmente numerosos contactos nos diversos foros. Com a participação activa no concerto das Nações e nas organizações que o configuram, consegue-se vencer a tentação do isolamento nacional, o que permite resgatar os povos da marginalização internacional e do seu empobrecimento (cf. Enc. Centesimus annus , 33). Isto não se limita aos aspectos económicos, mas deve aplicar-se também ao mundo das ideias, dos direitos fundamentais e dos valores. Não se deve esquecer, além disso, que a concórdia entre os povos será alcançada mais facilmente se as iniciativas diplomáticas forem acompanhadas por uma autêntica pedagogia da paz, que contribua para incrementar uma atitude de colaboração e harmonia entre todos.

6. Senhor Embaixador, no final deste encontro quero formular-lhe os meus cordiais votos pelo desempenho da sua missão junto da Sé Apostólica, sempre desejosa de manter e consolidar cada vez mais as boas relações já existentes com a República do Peru, e de ajudar a superar com boa vontade as dificuldades que possam surgir entre a Igreja e o Estado no seu País. Asseguro-lhe a minha oração ao Todo-poderoso para que, por intercessão de Nossa Senhora da Evangelização, tão venerada na Catedral de Lima, assista sempre com os seus dons Vossa Excelência e a sua ilustre família, os seus colaboradores, os Governantes e os cidadãos do seu nobre País, que recordo com grande afecto e sobre o qual invoco copiosas bênçãos do Altíssimo.

DISCURSO DO PAPA JOÃO PAULO II AO SEGUNDO GRUPO DE BISPOS DA CONFERÊNCIA EPISCOPAL DA ESPANHA EM VISITA «AD LIMINA APOSTOLORUM»

Sábado, 15 de Novembro de 1997

Queridos Irmãos no Episcopado

1. É para mim motivo de alegria receber- vos hoje, Arcebispos e Bispos das Províncias eclesiásticas de Valhadolid, Toledo, Mérida-Badajoz e Madrid, e do Ordinariato Militar, que viestes a Roma para renovar a vossa fé diante do túmulo dos Apóstolos. Esta é a primeira vez que a Arquidiocese de Mérida-Badajoz, erigida no último quinquénio, efectua a visita «ad Limina», com a qual todos os Bispos reafirmam o seu vínculo de comunhão com o Sucessor de Pedro.

Agradeço de coração a D. José Delicado Baeza, Arcebispo de Valhadolid, a saudação que me dirigiu em nome de todos e, a cada um de vós, agradeço a oportunidade que me proporcionou, nas entrevistas particulares, de conhecer o sentir dos povos a quem servis como Pastores, participando assim no anelo de que o vosso rebanho cresça «em todas as coisas [...] n’Aquele que é a Cabeça, o Cristo» (Ef 4, 15).

Com o objectivo de encorajar a vossa solicitude pastoral desejo agora compartilhar convosco algumas reflexões, sugeridas pela situação concreta em que exerceis o ministério de dar a conhecer e «anunciar o Mistério de Cristo» (Cl 4, 3).

2. Constato com satisfação o esforço que estais a realizar, tanto de maneira conjunta como nas diversas dioceses, por forjar uma comunidade eclesial repleta de vitalidade e evangelizadora, que viva uma profunda experiência cristã alimentada pela Palavra de Deus, pela oração e pelos sacramentos, coerente com os valores evangélicos na sua existência pessoal, familiar e social, e que saiba manifestar a sua fé no mundo, diante da tentação de relegar unicamente à esfera privada a dimensão transcendente, ética e religiosa do ser humano.

A isto dedicastes vários documentos da Conferência Episcopal e, de modo especial, os «Planos de Acção Pastoral», que nos últimos anos se sucederam com regularidade e rigor de método. A vossa preocupação continua centrada no impacto que as profundas e rápidas transformações sociais, económicas e políticas tiveram na concepção global da vida e, em particular, no mundo dos valores éticos e religiosos. Ainda que a tarefa seja sem dúvida ingente, pois abrange praticamente todos os sectores da vida eclesial, convido-vos a prosseguir no vosso propósito de fomentar, com fidelidade criativa ao Evangelho, um estilo de vida cristã à altura da vossa rica herança e em conformidade com as exigências dos novos tempos. Nos momentos de dificuldade ou incerteza, recordai a exclamação de Pedro: «Senhor, para quem havemos nós de ir? Tu tens palavras de vida eterna» (Jo 6, 68). Só a adesão inquebrantável a Cristo permitirá manter firme a esperança n’Ele, «único Salvador do mundo» (Tertio millennio adveniente , 40), e anunciá-l’O com alegria no limiar do terceiro milénio.

3. Na missão de levar o Evangelho aos homens de hoje, contais com o apoio de uma tradição cristã antiquíssima e muito arraigada. A vossa terra tem sido fecunda em modelos de santidade e de destacadas figuras do saber teológico, em missionários audazes e numerosas formas de vida consagrada e de movimentos apostólicos, assim como em expressivas manifestações de piedade, e tudo isto marca de glória a vossa história.

Contais também com os exemplos de arte, que constituem um esplêndido património religioso e cultural. É-me grato comprovar, pois, que a Igreja em Espanha valoriza este legado histórico que, com razão, muitos admiram, e demonstra de maneira palpável como a fé em Cristo enobrece o homem, inspirando o seu génio e levando-o a plasmar o reflexo da inesgotável beleza de Deus em obras de incomparável valor artístico.

A respeito disto, é importante que os bens culturais e artísticos das Igrejas, especialmente os lugares e objectos sagrados, não permaneçam unicamente como relíquias do passado que se contemplam de maneira passiva. Deve-se recordar e manter, quanto for possível, a sua especificidade original, para não diminuir o seu próprio valor cultural. Trata-se de templos erigidos como lugares de oração e de celebrações religiosas; de escritos e melodias compostas para louvar o Senhor e acompanhar o Povo de Deus no seu peregrinar; de imagens dos modelos de santidade propostos aos crentes, que representam os mistérios da salvação para que possam alimentar a sua fé e a sua esperança.

A Igreja tem também neste rico património um precioso instrumento para a catequese e a evangelização. Hoje como ontem, é uma proposta válida para toda a pessoa que busca sinceramente a Deus ou que deseja reencontrar-se com Ele. Por isso não é suficiente conservar e proteger estes bens, mas «é necessário [...] introduzi-los nos circuitos vitais da acção cultural e pastoral da Igreja» (Discurso à Comissão para os Bens Culturais, 12/10/1995). Quanto a isto, deve-se assinalar o grande acolhimento que teve o ciclo de exposições realizadas nos últimos anos, com o título de «As idades do homem», o que contribuiu, sem dúvida, para que o mencionado património favorecesse a evangelização das gerações actuais.

4. O vosso património compreende também as numerosas formas de piedade popular, tão arraigadas especialmente nos povoados e aldeias espanholas. Ante o racionalismo imperante em certos momentos da nossa história recente, esta piedade popular reflecte uma «sede de Deus, que somente os pobres e os simples podem experimentar» (Paulo VI, Enc. Evangelii nuntiandi , 48), e tem sabido mostrar que Deus fala com singeleza ao coração do ser humano, o qual tem direito a manifestar-Lhe a devida veneração da maneira que lhe é mais congenial.

Assim o entendeu o Concílio Vaticano II ao recomendar «os exercícios piedosos do povo cristão, desde que estejam em conformidade com as leis e as normas da Igreja» (Sacrosanctum Concilium, 13). É certo que nalguns casos os costumes podem transmitir elementos alheios a uma autêntica expressão religiosa cristã. Mas a Igreja, fixando-se mais nas disposições profundas da alma que no formalismo ritual, manifesta compreensão e paciência, segundo aquela advertência de Santo Agostinho: «uma coisa é o que ensinamos e outra o que podemos admitir» (cf. Contra Faustum, 20, 21). Por isso, «considera com benevolência tudo o que nos seus costumes não está indissoluvelmente ligado a superstições e erros» (Sacrosanctum Concilium, 37).

Animo-vos, pois, a manter e promover com afecto paterno e prudência pastoral as formas de piedade em que se torna concreta e intensa a adoração à Eucaristia, a devoção à Virgem Maria ou a veneração devida aos Santos, evitando deformações espúrias e exagerações impróprias, mediante uma catequese adequada e, sobretudo, integrando a devoção com a participação activa nos sacramentos e na celebração litúrgica, cujo centro é o Mistério pascal de Cristo.

5. Quereria chamar a atenção também sobre um aspecto que afecta muitas das vossas dioceses, e que certamente tivestes ocasião de comprovar nas visitas pastorais às vilas e aldeias, nas quais só ficam os pais e os avós daqueles que se transferiram para a cidade. Com efeito, em pouco tempo passou-se de uma sociedade predominantemente camponesa e rural às grandes concentrações urbanas.

Esta situação requer, antes de mais, um esforço especial para que todos os que já se sentem relegados na nova sociedade possam experimentar, com maior intensidade possível, a proximidade da Igreja e o amor de Deus, que jamais esquece algum dos seus filhos. Em muitos casos será preciso dedicar uma ajuda especial aos sacerdotes que, apesar das dificuldades, permanecem nas pequenas paróquias rurais, compartilhando a sorte dos seus fiéis e semeando a esperança cristã entre eles. E onde não for possível uma presença estável, os planos de pastoral devem assegurar a necessária atenção religiosa e uma digna celebração dos sacramentos. Deve-se poder dizer com Jesus: «Velei por eles e nenhum deles se perdeu» (cf. Jo 17, 12).

Além disso, muitos desses povoados, agora empobrecidos, possuem na realidade uma grande riqueza espiritual, plasmada na arte, nos costumes e, sobretudo, na fé robusta dos seus habitantes. De modo algum se pode considerar inútil a sua existência, que permite àqueles que retornam, mesmo que seja temporariamente, reencontrar a fé dos mais velhos e as manifestações religiosas das quais talvez ainda tenham saudades.

6. Não estais sozinhos na vossa missão de levar o Evangelho aos homens de hoje. Colabora estreitamente convosco cada um dos sacerdotes que, na celebração eucarística e na dos outros sacramentos, estão unidos ao seu Bispo e «assim o tornam presente, em certo sentido, em cada uma das comunidades dos fiéis» (Presbyterorum ordinis, 5).

É motivo de particular satisfação o número notável de seminaristas em várias das vossas dioceses e o sensível incremento registado nalgumas delas. É um sinal de vitalidade cristã e de esperança no futuro, especialmente em dioceses de recente criação.

Outra grande riqueza das Igrejas a que presidis, são as numerosas comunidades religiosas, de vida tanto contemplativa como activa. Cada uma delas é um dom para a diocese, que contribui para edificar, oferecendo a experiência do Espírito própria do seu carisma e a actividade evangelizadora característica da sua missão. Precisamente por ser um dom inestimável para toda a Igreja, recomenda- se ao Bispo «apoiar e ajudar as pessoas consagradas, para que, em comunhão com a Igreja, se abram a perspectivas espirituais e pastorais que correspondam às exigências do nosso tempo » (Vita consecrata , 49). Nesta importante tarefa, o diálogo respeitoso e fraterno será o caminho privilegiado para unir esforços e assegurar a indispensável coerência da actividade pastoral em cada diocese, sob a guia do seu Pastor.

7. A tudo isto não pode faltar a decisiva contribuição dos leigos, os quais devem ser encorajados a cumprir plenamente a sua missão específica, animando- os a participar com assiduidade na liturgia e a colaborar na catequese, ou então a assumir um compromisso responsável nos movimentos e nas diferentes associações eclesiais, sempre em perfeita comunhão com o próprio Bispo.

Com efeito, para que o Evangelho ilumine a vida dos homens é necessário o testemunho de vida dos crentes, coerente com a fé professada, assim como a preparação suficiente para levar uma «alma cristã» ao mundo da educação ou do trabalho, da cultura ou da informação, da economia ou da política. Isto requer uma sólida formação, que compreende antes de tudo uma firme espiritualidade, baseada na consagração baptismal e um conhecimento doutrinal sistemático e bem fundado, que permita «“dar razão da esperança” que está dentro deles, perante o mundo e os seus problemas graves e complexos» (Christifideles laici , 60).

Uma sólida formação só poderá ser alcançada por meio de uma acção catequética renovada e criativa, incisiva e constante, tanto entre os jovens como entre os adultos. Nisto os Pastores têm um dever primordial, pois são chamados a exercer com esmero a sua função de ensinar, como «doutores autênticos, ao povo a eles confiado a fé que se deve crer e aplicar na vida prática» (Lumen gentium, 25). A respeito disso servir-vos-á de grande ajuda o Catecismo da Igreja Católica, cujo valor quero reafirmar recordando que é o «instrumento mais idóneo para a nova evangelização» (Discurso aos Presidentes das Comissões nacionais para a catequese, 29/4/1993, n. 4). A sua riqueza dogmática, litúrgica, moral e espiritual deve chegar a todos, especialmente às crianças e aos jovens, através de catecismos diversificados para o uso paroquial, familiar, escolar ou para a formação no seio de diversos movimentos ou associações de fiéis. Não vos faltam, queridos Irmãos, nem aos vossos sacerdotes, ilustres exemplos de pregadores que, preparando- se com a oração e o estudo assíduo, com a sua palavra têm sido capazes de mover o coração das pessoas, mantendo-as na pureza da fé e guiando-as no seu compromisso cristão.

8. Ao terminar este encontro, peço-vos encarecidamente que sejais portadores da minha cordial saudação aos vossos diocesanos: sacerdotes, comunidades religiosas e fiéis leigos. Tenho especialmente presentes as comunidades eclesiais da Extremadura, que nestes dias passados sofreram a árdua prova de calamidades naturais, com tantas vítimas e imensos danos. Tornai-os partícipes da experiência que vivestes nestes dias e animai-os a viver com alegria a fé em Cristo, nosso Salvador.

Confio os vossos anelos e projectos pastorais à protecção materna da Virgem Maria, que com tanto fervor é invocada nessas queridas terras, e ao mesmo tempo concedo-vos de bom grado a Bênção Apostólica, extensiva a quantos colaboram no vosso ministério episcopal.

DISCURSO DO PAPA JOÃO PAULO II A UM GRUPO DE BISPOS AMIGOS DO MOVIMENTO DOS FOCOLARES

13 de Novembro de 1997

Senhor Cardeal Venerados Irmãos no Episcopado Caríssimos Irmãos e Irmãs em Cristo!

1. Acolho-vos com alegria na conclusão da Assembleia ecuménica por vós celebrada nestes dias no «Centro Mariápolis» de Castel Gandolfo. A todos a minha saudação afectuosa e o meu cordial reconhecimento por esta visita.

Agradeço, em particular, ao Cardeal Miloslav Vlk as amáveis palavras que me dirigiu em nome de todos e a interessante descrição que quis fazer-me a respeito dos vossos trabalhos e do impulso evangélico e ecuménico que os animou. É-me grato saudar os Bispos e os Responsáveis de Igrejas e de outras Comunhões cristãs, provenientes de várias partes do mundo, enquanto dirijo um pensamento cordial a Chiara Lubich e aos outros representantes do Movimento dos Focolares.

2. No centro do vosso encontro deste ano, como o Cardeal Arcebispo de Praga quis pôr em evidência, colocastes o aprofundamento da espiritualidade do Movimento dos Focolares como espiritualidade ecuménica, para viverdes profundamente a eclesiologia de comunhão, como pressuposto indispensável para um itinerário cada vez mais convicto e concorde, rumo à plena unidade. A respeito disso, serviram-vos, sem dúvida, de particular ajuda os singulares testemunhos ligados aos recentes desenvolvimentos do vosso Movimento, no que se refere ao diálogo ecuménico e inter-religioso.

Estes encontros anuais, que oferecem a oportunidade a Bispos e Responsáveis de várias Igrejas e Comunhões cristãs, amigos do Movimento dos Focolares, para transcorrerem juntos alguns dias de profícuo trabalho comum, apesar do seu carácter informal e privado, contribuem certamente para aprofundar os ideais e a espiritualidade evangélica, que estão na base do caminho dos cristãos rumo à plena unidade querida por Cristo.

A oração em comum e as celebrações da Palavra, o intercâmbio de testemunhos do Evangelho vivido e a partilha fraterna representam, com efeito, não só um inegável enriquecimento recíproco, mas ajudam a fazer crescer e a difundir uma intensa união espiritual na caridade e na verdade, que alimenta a esperança da completa superação, com a ajuda da graça de Deus, das barreiras que infelizmente ainda dividem os cristãos.

3. Como há pouco foi recordado oportunamente pelo Cardeal Miloslav Vlk, este vosso encontro pretende oferecer uma contribuição específica à grande causa ecuménica, no momento histórico e eclesial que estamos a viver, já no limiar do terceiro milénio cristão. Por ocasião do Consistório extraordinário por mim convocado em 1994, para a preparação do Grande Jubileu do Ano 2000, eu quis ressaltar o ardente desejo de unidade que é sempre mais vivo e sentido em todos os discípulos de Cristo. É quanto depois reafirmei também na Carta Apostólica Orientale lumen : «Não podemos apresentar-nos diante de Cristo, Senhor da história, tão divididos como infelizmente nos temos encontrado ao longo do segundo milénio. Estas divisões devem ceder o lugar à recomposição e à concórdia, devem ser cicatrizadas as feridas no caminho da unidade dos cristãos» (n. 4).

O vosso cuidado, durante os dias passados, foi contribuir para infundir renovada coragem e esperança ao caminho ecuménico, a fim de que se realize plenamente o desejo de Cristo na Última Ceia, de que todos sejam um só para que o mundo creia (cf. Jo 17, 21).

Com esta esperança, que se torna ainda mais viva com o aproximar-se do histórico encontro do Jubileu, renovo a cada um de vós, caríssimos Irmãos e Irmãs, a minha saudação cordial, invocando sobre todos a abundância dos dons do Espírito Santo e das bênçãos divinas.

DISCURSO DO PAPA JOÃO PAULO II AOS PEREGRINOS DA DIOCESE DE ZIELONA GORA-GORZÓW (POLÓNIA)

12 de Novembro de 1997

Caríssimos Irmãos e Irmãs

1. «A graça e a paz d’Aquele que é, que era e que há-de vir, estejam com todos vós». Com esta saudação litúrgica quero dar-vos as boas-vindas à Cidade Eterna e aos túmulos dos Apóstolos. Estou feliz porque, com a vossa presença hodierna, desejais unir-vos à minha contínua acção de graças a Deus pelo grande dom que foi concedido, a mim e à Igreja, durante a minha sexta peregrinação ao meu País de origem.

A vossa participação no meu agradecimento ao Senhor é preciosa especialmente porque, de algum modo, representais a inteira Diocese de Zielona Góra-Gorzów, e também todos os que, embora nutrindo os mesmos sentimentos de gratidão para com a Divina Providência, não puderam vir. A minha saudação dirige-se também a eles. Em primeiro lugar, ao vosso Bispo, a quem saúdo de modo cordial, apresentando-lhe as boas-vindas, juntamente com o seu Bispo Auxiliar aqui presente. O meu pensamento dirige-se depois aos Representantes das Autoridades de Zielona Góra, de Gorzów e da Província.

Tenho viva diante de mim a recordação da multidão entusiasta de fiéis, reunidos a 2 de Junho passado na praça diante da igreja dos Irmãos polacos. Jovens, adultos, crianças juntamente com os pais, ex-combatentes e ex-deportados para a Sibéria, bispos, sacerdotes, religiosos — todos estavam unidos pelo mesmo espírito de amor a Cristo e pelo desejo de se encontrarem com o Sucessor de Pedro, que fora até vós para confirmar na fé os seus irmãos (cf. Lc 22, 32). Ao mesmo tempo, eles tinham vindo para haurir da fé a força para cumprirem as tarefas que a Divina Providência lhes confiara.

Recordo o diálogo cordial, no final da Liturgia da Palavra, e a vossa promessa de me sustentar no meu Ministério petrino. Tenho a certeza de que sabereis cumprir com fidelidade este voto e agradeço-vos as preces e a oferta dos vossos sacrifícios.

2. A saudação litúrgica reevocada no início repete, num certo sentido, a verdade que nos acompanhou durante os encontros na Polónia: a verdade sobre Jesus Cristo, o Qual é «[o mesmo] ontem, hoje e sempre » (cf. Hb 13, 8). Precisamente graças à fé neste mistério inefável, em Gorzów pudemos perguntar-nos: «Quem nos poderá separar do amor de Cristo?» (Rm 8, 35). Hoje desejo repetir estas palavras: é necessário recordá-las sempre. É preciso recordá-las de modo especial agora, enquanto a Igreja inteira está a preparar-se para o Grande Jubileu do Ano 2000. Elas deveriam tornar-se programa de vida para cada crente e para a inteira comunidade dos discípulos de Cristo.

Hoje, mais que nunca, o mundo tem necessidade desta verdade sobre o amor de Cristo, um amor que dura desde sempre e jamais passará. Somente ele pode transformar o rosto deste mundo. Por isso, recordando hoje o nosso encontro de Gorzów, renovo o meu apelo, caríssimos Irmãos e Irmãs, a dar testemunho deste amor. Impregne ele as labutas quotidianas das famílias, o empenho do estudo e do trabalho, a vida social e política. O amor de Cristo reavive a vossa sensibilidade às necessidades dos outros e aumente as energias, a fim de lhes dar uma ajuda eficaz. Nada nos pode separar do amor de Cristo, «que é, que era e que há-de vir».

Juntos, em Zielona Góra e em Gorzów, aprendemos tudo isto. Na vigília do milénio do martírio dos Irmãos polacos, na soleira da igreja dedicada à sua memória, procurámos pôr-nos à escuta do seu ensinamento sobre o dom total a Cristo no amor. É necessário que esta lição se imprima profundamente nas nossas mentes e nos nossos corações. Vós, que estais a preparar-vos de modo particular para as solenes celebrações do milénio da morte dos monges de Miedzyrzec, sois chamados a transmitir às futuras gerações a sua lição de fidelidade e de amor a Cristo.

3. Agradeço-vos cordialmente a vossa visita, as vossas orações e os vossos sentimentos. Peço-vos que transmitais a minha saudação aos vossos entes queridos e àqueles que não puderam vir aqui. Levai- lhes a certeza da minha proximidade espiritual, de modo especial àqueles que sofreram por causa da aluvião que no Verão passado atingiu as vossas terras.

De coração vos abençoo, a vós aqui presentes e ao inteiro Povo de Deus da Diocese de Zielona Góra-Gorzów.

Estão aqui presentes também os Padres Bernardinos, com o Provincial e o Governo da sua Província, e também os peregrinos de Kalwaria. Saúdo-vos cordialmente. A vossa presença recorda-me Dukla e Krosno e a extraordinária personagem de São João. Estou contente e dou graças a Deus por ter podido canonizar esse grande religioso e sacerdote.

Abençoo-vos de coração.

SAUDAÇÃO DO PAPA JOÃO PAULO II AOS PEREGRINOS VINDOS PARA A BEATIFICAÇÃO DE TRÊS SERVOS DE DEUS

Segunda-feira, 10 de Novembro de 1997

Venerados Irmãos no Episcopado e no Sacerdócio Caríssimos Irmãos e caríssimas Irmãs no Senhor

1. O hino de alegria e de acção de graças a Deus, pela solene liturgia de Beatificação de ontem, renova-se neste nosso encontro, no qual queremos deter- nos mais uma vez para meditar sobre os exemplos e ensinamentos dos três novos Beatos. Saúdo com afecto todos vós que, com a vossa presença, lhes prestais homenagem. Faço extensiva a minha saudação às vossas famílias, às vossas comunidades e às nações de onde provindes. Chegue a todos o meu pensamento cordial. Estes novos Beatos são para nós faróis luminosos de esperança que, na comunhão dos Santos, iluminam o nosso caminho quotidiano sobre a terra.

2. «A cruz fortalece o débil e torna manso o forte». O lema escolhido pelo Bispo e mártir húngaro, Vilmos Apor, constitui uma admirável síntese do seu itinerário espiritual e do seu ministério pastoral. Fortalecido pela verdade do Evangelho e pelo amor a Cristo, ele ergueu sempre com coragem a própria voz para defender os mais débeis das violências e injustiças.

Durante os anos difíceis da segunda guerra mundial prodigalizou-se incansavelmente para aliviar a pobreza e os sofrimentos do seu povo. O amor efectivo pelo rebanho a ele confiado levou-o a pôr à disposição dos desalojados por causa da guerra também a residência episcopal, defendendo os mais expostos aos perigos, mesmo com o risco da própria vida.

O seu martírio, ocorrido na Sexta- Feira Santa de 1945, foi digno coroamento de uma existência inteiramente marcada pela íntima participação na Cruz de Cristo. O seu testemunho evangélico seja para vós, caríssimos Irmãos e Irmãs da Hungria, um estímulo constante à dedicação sempre maior no serviço de Cristo e dos irmãos.

3. O Beato João Baptista Scalabrini resplandece hoje como exemplo de pastor de coração sensível e aberto. Através da sua obra admirável a favor do povo de Deus, D. Scalabrini propôs curar as feridas materiais e espirituais de tantos irmãos, constrangidos a viver longe da própria pátria. Sustentou-os na defesa dos direitos fundamentais da pessoa humana e quis ajudá-los a viver os compromissos da sua fé cristã. Como autêntico «Pai dos migrantes», trabalhou para sensibilizar as comunidades a um acolhimento respeitoso, aberto e solidário. De facto estava convicto de que com a própria presença, os migrantes são um sinal visível da catolicidade da família de Deus e podem contribuir para criar as premissas indispensáveis para aquele encontro autêntico entre os povos, que é fruto do Espírito de Pentecostes.

Faço votos de coração por que o seu exemplo seja de constante encorajamento para todos vós, caros peregrinos, vindos para lhe prestar homenagem. Saúdo- vos com grande cordialidade. Saúdo em particular a vós, peregrinos da Diocese de Placência-Bobbio, presentes com o vosso Pastor, D. Luciano Monari, e com os Senhores Cardeais Ersílio Tonini e Luigi Poggi, oriundos da vossa terra. O serviço apostólico levado a cabo durante longos anos pelo novo Beato na vossa Diocese continue a inspirar o vosso actual empenho de vida cristã, a fim de que o Evangelho possa iluminar os passos de todos os fiéis.

Uma recordação especial aos Missionários e às Missionárias de São Carlos, religiosos e leigos que pertencem à família espiritual fundada pelo novo Beato. Eles, com a sua presença na Igreja e o seu apostolado entre os migrantes, prosseguem a obra do seu Pai e Mestre para o bem de muitos irmãos migrantes e refugiados nas várias partes do mundo.

4. Saúdo agora cordialmente o numeroso grupo de fiéis provenientes da Diocese de Como que, juntamente com o seu Bispo, D. Alessandro Maggiolini, hoje se alegram pela beatificação do seu conterrâneo, D. Scalabrini. Caríssimos, a vossa presença renova em mim a recordação da Visita pastoral, que tive a alegria de realizar na vossa Comunidade diocesana no ano passado. Durante os dias transcorridos na terra comasca pude constatar que na Cidade de Como, na zona do lago e na «Valtellina», ainda está presente uma sólida tradição de valores religiosos e de santidade. Penso em particular nos primeiros Mártires Carpóforo e Companheiros, nos primeiros Bispos Felice e Abbondio, no Papa Inocêncio XI, no Beato Cardeal André Carlos Ferrari, no Beato Luís Guanella, na Beata Clara Bosatta, sem esquecer, por fim, o venerável Nicolau Rusca. A essa plêiade de generosas testemunhas de Cristo une-se hoje este novo Beato, que foi Reitor do Seminário comasco de Santo Abbondio e Prior da paróquia de São Bartolomeu.

Possa esta vossa rica tradição cristã prosseguir e enriquecer-se de sempre novos fiéis servidores de Cristo. Para isto, deixai-vos formar pelo Espírito Santo, a Quem a Igreja dedica especial atenção durante 1998, segundo ano de imediata preparação para o Grande Jubileu do Ano 2000. As vossas Comunidades paroquiais e sectoriais poderão assim pôr em prática, com coerente fervor apostólico, o empenho da evangelização. Sustentem-vos os Santos Padroeiros da vossa Diocese e, de modo especial, Nossa Senhora, por vós venerada particularmente na Catedral e nos Santuários do Socorro, de Gallivaggio e de Tirano.

5. Com prazer acolho hoje os peregrinos mexicanos que, acompanhados pelos seus Bispos, vieram a Roma de Guadalajara, berço da obra da nova Beata Maria Vicenta de Santa Doroteia Chávez Orozco, e de outras dioceses desse querido País, para compartilharem juntos o rico património espiritual desta intrépida mulher, nascida em terras mexicanas e chamada a dar glória à Igreja universal.

«Caritas Christi urget nos» (2 Cor 5, 14). O amor de Cristo nos constrange. Este foi sempre o lema e a insígnia da Madre Vicenta. O seu grande amor a Cristo crucificado impeliu-a a dar o melhor de si aos que sofrem, vivendo uma autêntica opção preferencial pelos doentes, os anciãos e os pobres. Exigente consigo mesma e extremamente amável com o próximo, soube encarnar o rosto materno e evangelizador da Igreja entre os leitos dos hospitais, ensinando aos enfermos que no sofrimento se esconde uma força especial, que aproxima interiormente o homem a Cristo e se converte em fonte de paz e de alegria espiritual (cf. Carta Apost. Salvifici doloris , 26).

Queridos Irmãos e Irmãs, o testemunho extraordinário desta alma consagrada completamente a Deus, Uno e Trino, é um convite a todos, e de modo especial às Servas da Santíssima Trindade e dos Pobres, a viverem com abnegação e simplicidade a própria vocação cristã, tornando presente no mundo o espírito das bem-aventuranças.

Que a nova Beata interceda pelos trabalhos da próxima Assembleia do Sínodo dos Bispos para a América! E o seu santo exemplo anime o grande desafio da nova evangelização, para a qual está convocada toda a Igreja no limiar do Terceiro Milénio cristão!

6. Caríssimos Irmãos e Irmãs! Retornando às vossas Comunidades de proveniência, levai convosco a recordação destas singulares jornadas transcorridas em Roma. Sobre as pegadas dos novos Beatos, seja vivo em cada um o desejo de responder sempre, de modo cada vez mais generoso, à graça do Senhor e à vocação universal à santidade. Para isto invoco a protecção celeste de Nossa Senhora e dos Beatos Vilmos Apor, João Baptista Scalabrini, Maria Vicenta de Santa Doroteia Chávez Orozco, e de coração concedo-vos, a vós, às vossas famílias, às vossas comunidades e a quantos vos são queridos, uma especial Bênção Apostólica.

DISCURSO DO CARDEAL ANGELO SODANO EM NOME DO PAPA JOÃO PAULO II NA ABERTURA DA XXIX CONFERÊNCIA DA FAO

8 de Novembro de 1997

Senhor Presidente Senhor Director-Geral Ilustres Delegados e Observadores Senhoras e Senhores

Em primeiro lugar, desejo agradecer-lhe, Senhor Presidente, ter-me concedido falar diante desta qualificada assembleia, que vê reunidos os Representantes de todos os países do mundo, sinal de uma concreta universalidade como também de efectiva adesão aos ideais que desde a instituição animam a FAO.

A vossa Excelência, Senhor Director- Geral, dirige-se o meu sentido agradecimento pela recepção que me foi reservada, mas sobretudo por me ter consentido este encontro, no momento da solene inauguração da XXIX sessão da Conferência da FAO.

As palavras que Vossa Excelência acaba de proferir, ilustrando à Conferência as linhas de acção da Organização no próximo biénio, constituem uma garantia de continuidade numa obra meritória e uma vigorosa exortação às tarefas e às responsabilidades de cada um.

1. A saudação do Papa

Esta minha presença coloca-se na consolidada tradição que, desde 1951, ano da chegada da FAO a Roma, testemunha em cada Conferência um encontro com o Sucessor de Pedro.

Neste ano, circunstâncias particulares não consentem ao Papa renovar pessoalmente o encontro e apoiar com a sua palavra e o seu encorajamento os esforços que estais a despender. Assim, o Santo Padre encarregou-me de vos transmitir a sua saudação e de vos renovar a sua estima.

Em nome do Sumo Pontífice, quereria depois apresentar alguns pontos de reflexão, à luz do Magistério da Igreja.

2. O compromisso da FAO

Não há dúvida de que através da criação da FAO a Comunidade internacional põe em evidência o dever de uma acção a realizar em vista de alcançar o importante objectivo de libertar tantos seres humanos da subalimentação, da ameaça do sofrimento devido à fome.

Ao mesmo tempo, a acção também recente empreendida pela Organização assinalou uma notável evolução, não só conceitual, para a cultura das relações internacionais. Esta foi ignorada com demasiada frequência, para deixar espaço a um pragmatismo isento de um sólido fundamento ético-moral.

Com efeito, nas conclusões do Encontro Mundial sobre a Alimentação salienta- se que a fome e a subalimentação não são fenómenos apenas naturais ou até mesmo um mal endémico de determinadas áreas. Na realidade, é antes o resultado de uma complexa condição de subdesenvolvimento, pobreza e degradação. Portanto, a fome é parte de uma situação estrutural — económica, social e cultural — fortemente negativa para a plena realização da dignidade humana.

De resto, tal perspectiva sintetiza-se no Preâmbulo da Constituição da FAO, que proclama o compromisso de cada país em aumentar o próprio nível de alimentação, em melhorar as condições da actividade agrícola e das populações rurais, assim como em incrementar a produção e activar uma eficaz distribuição dos alimentos em cada parte do planeta.

3. O direito à alimentação

Entre os primeiros direitos fundamentais do homem, encontra- se justamente o direito à alimentação, que não só é parte integrante do direito à vida, próprio de cada ser humano, mas ousaria dizer que constitui uma das suas condições essenciais.

Como esquecer esta realidade no momento em que a Comunidade internacional se prepara para prestar o devido tributo à Declaração Universal dos Direitos do Homem, a cinquenta anos da sua proclamação Depois, os compromissos há pouco subscritos nas conclusões do Encontro sobre a Alimentação justamente identificaram no direito à segurança alimentar de povos, grupos e nações a dimensão comunitária de tal direito fundamental.

Assim, o da FAO constitui um objectivo primordial que hoje se tornou mais do que nunca necessário alcançar. Com efeito, é um facto tangível que o subdesenvolvimento, a pobreza e portanto a fome, debilitando na raiz a comum convivência de povos e nações, podem tornar- se outras tantas causas de tensões e, consequentemente, ameaçar a paz e a segurança internacional.

Saltam aos nossos olhos tristes situações em que se morre de fome porque se ignora a paz e não se garante a segurança, ou realidades em que para saciar a própria fome os homens chegam a combater, a ponto de se esquecerem da sua humanidade.

Também o pão quotidiano para cada homem da terra, aquele «Fiat panis» que a FAO quis como seu mote, é instrumento de paz e garantia de segurança. Este é o objectivo a alcançar e aos trabalhos desta Conferência apresentase a tarefa de identificar os caminhos a percorrer.

4. A exigência da solidariedade

Da documentação predisposta para os vossos trabalhos emerge um significativo elemento ao qual me parece imperioso dirigir a atenção: a realidade mundial deve modificar-se se se quiser salvaguardar uma equilibrada actividade agrícola e portanto uma eficaz luta contra a fome. A situação contemporânea, na perspectiva económico-social, torna todos nós conscientes do modo como a fome e a subalimentação de milhões de seres humanos são o fruto de iníquos mecanismos da estrutura económica, de critérios desiguais da distribuição dos recursos e da produção de políticas actuadas exclusivamente para salvaguardar interesses partidários ou de diferentes formas de proteccionismo, limitados a determinadas áreas.

Uma realidade que, se for interpretada através de categorias de ordem moral, faz emergir a referência a certas abordagens, como o utilitarismo ou ainda mais radicalmente o egoísmo, e depois à negação concreta do princípio de solidariedade.

Com efeito, a solidariedade é uma opção de vida que se concretiza na plena liberdade de quem dá e de quem recebe. Mas de uma liberdade autêntica, isto é, capaz de se realizar espontaneamente porque está pronta a compreender as necessidades, a manifestar as carências e a mostrar genuínas possibilidades de partilha.

Realizar de modo concreto a solidariedade nas relações internacionais exige a superação dos angustos confins estabelecidos por uma limitada afirmação do princípio de reciprocidade que, custe o que custar, deseja considerar no mesmo nível países que, pelo contrário, se tornaram desiguais devido a um diferente grau de desenvolvimento humano, social e económico.

5. Existe alimento para todos

De um contexto tão complexo, é necessário compreendermos as razões para depois modificarmos a atitude de cada um de nós, sobretudo a interior. Se quisermos que o mundo seja livre da fome e da subalimentação, devemos interrogar-nos acerca das nossas convicções mais profundas, sobre aquilo que inspira a nossa acção, acerca do modo como o nosso talento beneficia o presente e o futuro da família humana.

De facto, muitos são os paradoxos subjacentes às causas da fome, a começar pela «abundância» (cf. João Paulo II, Discurso à Conferência Internacional sobre a Alimentação, 5 de Dezembro de 1992). Julgo interpretar aqui também os sentimentos das pessoas que recorrem à vossa documentação, na qual continua a provocar não pouca surpresa o dado segundo o qual actualmente a terra com os seus frutos é capaz de alimentar os habitantes do planeta. Não obstante em determinadas regiões se verifiquem níveis oscilantes da produção e, consequentemente, dos parâmetros de segurança alimentar, a produção a nível global é suficiente. Então, por que diante de uma potencial disponibilidade, muitos passam fome?

As causas que bem conheceis, embora sejam diversificadas, apresentam na raiz uma cultura do homem, isenta de razões éticas e de fundamento moral, que se reflecte na abordagem das relações internacionais e nos valores que deveriam orientá-los. Na recente Mensagem para o Dia Mundial da Alimentação , no dia 16 do passado mês de Outubro, João Paulo II quis frisar a prioridade de construir relacionamentos entre os povos, tendo como base um contínuo «intercâmbio de dons». Esta atitude é salvaguardada por uma concepção que põe a pessoa como fundamento e finalidade de todas as actividades, a supremacia do dar sobre o ter, uma disponibilidade à ajuda ou a políticas de assistência, uma partilha da realidade de cada um dos nossos «próximos»: pessoa, comunidade, nação. Somente estas diferentes componentes podem inspirar uma verídica e efectiva «cultura do dar», que torne cada país pronto a compartilhar as necessidades do outro (cf. João Paulo II, Discurso por ocasião do 50° aniversário da FAO, 23 de Outubro de 1995).

6. A salvaguarda dos recursos

Por conseguinte, para uma eficaz luta contra a fome, não basta ter em vista uma correcta abordagem dos mecanismos de mercado ou alcançar níveis de produção cada vez mais elevados e práticos. Sem dúvida, é necessário atribuir um lugar adequado ao trabalho agrícola, valorizando sempre mais os recursos humanos que de tal actividade são os protagonistas, mas é preciso recuperar o verdadeiro sentido da pessoa humana, a sua centralidade como fundamento e objectivo prioritário de cada acção.

Um exemplo concreto nesta perspectiva encontra-se na ordem do dia dos trabalhos desta Conferência, pela atenção que se dedica à problemática ambiental, entendida como salvaguarda do «ambiente humano». Uma acção que vê a FAO empenhada em conter os prejuízos do ecossistema agrícola, salvaguardando-o contra fenómenos como a desertificação e a erosão ou contra uma actividade humana irreflectida, consentindo também uma utilização mais racional e reduzida de substâncias fortemente poluidoras, através de específicos «Códigos de conduta», que são um eficaz instrumento contido nas políticas dos Estados membros.

O desafio do futuro neste delicado sector manifesta-se sobretudo nos compromissos assumidos no plano internacional em defesa do meio ambiente natural, que põem em evidência o papel central da FAO na actuação de muitos dos programas da «Action 21» do Rio de Janeiro e na conservação das diferentes espécies biológicas.

Este último aspecto exige um ulterior esforço, para assumir a necessária abordagem de ordem ética e conceitual, considerando que a questão da disponibilidade comum do património genético natural é um problema de justiça internacional.

A disponibilidade dos recursos biológicos é da humanidade, enquanto faz parte do seu património comum, como a FAO ressaltou em 1983, adoptando o específico «International Undertaking on Plant Genetic Resources».

Realizar uma justiça efectiva nas relações entre os povos significa estar consciente da destinação universal dos bens e que o critério para o qual orientar a vida económica e internacional é uma comunhão dos mesmos bens.

7. A colaboração da Igreja

Neste vosso esforço, a Igreja católica está-vos próxima. É o que testemunham inclusivamente a atenção e o empenhamento com que a Santa Sé, por sua vez, acompanha desde 1947 — há 50 anos — a acção da FAO, primeira das Organizações intergovernamentais do Sistema das Nações Unidas com que estabeleceu relações formais.

Ao dar continuidade à própria missão de transmissão da Boa Nova a todos os povos, a Igreja não deixa de recordar o convite de Cristo a pedir o «pão quotidiano » ao Pai que está nos céus. Por isso, está próxima da realidade dos últimos, dos esquecidos; também conhece a vida de quantos trabalham na terra, com cansaço e trepidação, e está pronta a apoiar a iniciativa daqueles que se prodigalizam por oferecer o pão quotidiano a todos os homens. Esses colaboram numa acção que no significado da mensagem cristã se torna a primeira de entre as obras de misericórdia, porque o parâmetro do agir humano permanece a pronta correspondência ao «tive fome» (Mt 25, 42).

Trata-se de uma reflexão que parece acompanhar toda a acção da FAO, com um esforço deveras realista e ao mesmo tempo serenamente optimista. Como demonstram a vossa presença e o vosso compromisso, a FAO não parece desencorajar-se quando tem em consideração os numerosos obstáculos no seu caminho, nem se detém diante de dificuldades objectivas, preferindo antes enfrentá-las.

Fiel à própria mensagem, a Igreja não pode senão pôr em grande relevo este espírito positivo de serviço abnegado, de desafio racional, sustentado pela confiança na possibilidade de resolver um dos maiores problemas da família humana.

Deus Omnipotente e rico de misericórdia faça descer as graças da sua Bênção sobre as vossas pessoas e os vossos trabalhos. Estes são os votos que me foram confiados para vos transmitir da parte de Sua Santidade João Paulo II.

DISCURSO DO PAPA JOÃO PAULO II AOS PARTICIPANTES NA CONFERÊNCIA INTERNACIONAL PROMOVIDA PELO PONTIFÍCIO CONSELHO PARA A PASTORAL NO CAMPO DA SAÚDE

8 de Novembro de 1997

Venerados Irmãos no Episcopado e no Sacerdócio Caríssimos Irmãos e Irmãs!

1. É-me grato dirigir cordiais boas-vindas a cada um de vós, que participais na XII Conferência Internacional promovida pelo Pontifício Conselho para a Pastoral no Campo da Saúde, sobre o tema «Igreja e saúde no mundo. Expectativas e esperanças no limiar do Ano 2000». Desejo manifestar particular gratidão a D. Javier Lozano Berragán pelo empenho despendido ao organizar este Simpósio e pelas amáveis palavras que me dirigiu em nome dos presentes. Com ele saúdo e agradeço a todos os colaboradores.

Nestas intensas jornadas de estudo e de confronto, as várias relações ressaltaram quanto os problemas da saúde são complexos e requerem intervenções coordenadas e harmonizadas, para envolver de maneira eficaz não só os agentes sanitários, chamados a oferecer uma resposta terapêutica e assistencial cada vez mais «competente», mas também todos os que trabalham no campo da educação, no mundo do trabalho, na defesa do ambiente e no âmbito da economia e da política.

«Salvaguardar, recuperar e melhorar o estado de saúde significa servir a vida na sua totalidade», afirma a Carta dos Agentes Sanitários, redigida pelo vosso Pontifício Conselho. Delineia-se, nesta perspectiva, a alta dignidade da actividade médico-sanitária, que se configura como colaboração com o Deus que na Escritura é apresentado como «Aquele que ama a vida» (Sb 11, 26). A Igreja aprova-vos e encoraja-vos no trabalho que enfrentais com generosa disponibilidade ao serviço da vida vulnerável, débil e doente, deixando às vezes a vossa pátria e chegando também a pôr em perigo a vida no cumprimento do vosso dever.

2. São muitos os sinais de esperança presentes neste último período de século. Basta recordar «os progressos realizados pela ciência, pela técnica e sobretudo pela medicina ao serviço da vida humana, o sentido mais vivo de responsabilidade pelo ambiente, os esforços para restabelecer a paz e a justiça em todo o lado onde foram violadas, a vontade de reconciliação e solidariedade entre os vários povos...» (Tertio millennio adveniente , 46).

A Igreja alegra-se por estas metas importantes, que fizeram crescer as esperanças de vida no mundo. Todavia, ela não pode calar diante dos 800 milhões de pessoas reduzidas a sobreviver em condições de miséria, subalimentação, fome e saúde precária. Ainda muitas pessoas, sobretudo nos Países pobres, sofrem de doenças que podem ser prevenidas e curadas. Diante dessas graves situações, as organizações mundiais estão a pôr em prática um esforço notável para promover um desenvolvimento sanitário fundado sobre a equidade. Elas estão convictas de que «a luta contra a desigualdade é ao mesmo tempo um imperativo ético e uma necessidade prática, e desta dependerá a realização duma saúde para todos no mundo inteiro» (OMS, Projet de document de consultation pour l’actualisation de la strategie mondiale de la santé pour tous, 1996, pág. 8). Enquanto exprimo vivo apreço por essa benemérita acção em favor dos irmãos mais pobres, desejo dirigir um premente convite a vigiar para que os recursos humanos, económicos e tecnológicos sejam cada vez mais distribuídos de maneira equitativa nas várias partes do mundo.

Exorto, além disso, os organismos internacionais competentes a empenharem- se de modo eficaz em predispor garantias jurídicas adequadas, para que seja promovida na sua integridade também a saúde de quantos não têm voz e para que o mundo sanitário, não se deixando constranger pelas dinâmicas do lucro, seja ao contrário impregnado da lógica da solidariedade e da caridade. Em preparação para o Jubileu do Ano 2000, ano de graça do Senhor, a Igreja reafirma que as riquezas devem ser consideradas como um bem comum da humanidade inteira (cf. Tertio millennio adveniente , 13), que devem ser utilizadas a fim de promover, sem discriminação alguma de pessoas, uma vida mais sadia e digna.

3. A saúde é um bem precioso, ainda hoje insidiado pelo pecado de muitos e posto a risco por comportamentos privados de referências éticas apropriadas. O cristão sabe que a morte entrou no mundo com o pecado (cf. Rm 5, 12) e que a vulnerabilidade marcou, desde o início, a história humana. Contudo, a doença e o sofrimento, que acompanham o caminho da vida, tornam-se muitas vezes ocasiões de solidariedade fraterna e de angustiada invocação a Deus, para que assegure a sua consoladora presença de amor.

«Realizando a Redenção mediante o sofrimento, Cristo elevou ao mesmo tempo o sofrimento humano ao nível de Redenção. Por isso, todos os homens, com o seu sofrimento, se podem tornar também participantes do sofrimento redentor de Cristo» (Salvifici doloris , 19). O sofrimento vivido na fé conduz o doente a descobrir, como Job, o autêntico rosto de Deus: «Os meus ouvidos tinham ouvido falar de Ti, mas, agora, viram-Te os meus próprios olhos» (Jb 42, 5). Não só: através do seu paciente testemunho, o doente pode ajudar aqueles mesmos que cuidam dele, a descobrirem-se como imagens de Jesus que passou fazendo o bem e curando.

A respeito disso, quereria sublinhar, como recorda a Carta dos Agentes Sanitários, que a actividade médico-sanitária é, ao mesmo tempo, «ministério terapêutico » e «serviço à vida». Senti-vos colaboradores de Deus, que em Jesus Se manifestou como «médico das almas e dos corpos», de maneira a tornar-vos anunciadores concretos do Evangelho da vida.

4. Jesus Cristo, único Salvador do mundo, é a Palavra definitiva de salvação. O Amor do Pai, que Ele nos deu, cura as mais profundas feridas do coração do homem e satisfaz as suas inquietudes. Para os crentes empenhados no âmbito da saúde o exemplo de Jesus constitui a motivação e o modelo do empenho quotidiano ao serviço de quantos estão chagados no corpo e no espírito, para os ajudar a reencontrar saúde e cura, à espera da salvação definitiva.

Olhando para o Mistério trinitário, o agente de saúde, com as suas opções respeitosas do estatuto ontológico da pessoa, criada à imagem de Deus, da sua dignidade e das regras inscritas na criação, continua a narrar a história do amor de Deus pela humanidade. De igual modo, o estudioso crente, obedecendo ao projecto divino na sua investigação, faz exprimir pouco a pouco à criação todas as potencialidades de que Deus a enriqueceu. Os estudos, as pesquisas e as técnicas aplicadas à vida e à saúde devem ser, de facto, factores de crescimento de toda a humanidade, na solidariedade e no respeito pela dignidade de cada pessoa humana, sobretudo daquela débil e indefesa (cf. Evangelium vitae , 81). De modo algum elas podem tornar-se expressão do desejo da criatura de se substituir ao Criador.

5. O cuidado da saúde do corpo não pode prescindir da relação constitutiva e vivificante com a interioridade. É necessário, portanto, cultivar um olhar contemplativo que «não se deixa cair em desânimo à vista daquele que se encontra enfermo, atribulado, marginalizado, ou às portas da morte; mas deixa-se interpelar por todas estas situações procurando nelas um sentido, sendo, precisamente em tais circunstâncias, que se apresenta disponível para ler de novo no rosto de cada pessoa um apelo ao entendimento, ao diálogo, à solidariedade» (Evangelium vitae , 83). Na história da Igreja, a contemplação da presença de Deus em criaturas humanas débeis e enfermas sempre suscitou pessoas e obras, que expressaram com inventiva empreendedora os infinitos recursos da caridade, como no nosso tempo testemunhou a Madre Teresa de Calcutá. Ela fez-se bom samaritano de toda a pessoa que sofre e é desprezada e, como eu fazia notar por ocasião da sua partida deste mundo, «deixa-nos o testemunho da contemplação que se torna amor, e do amor que se faz contemplação» (Angelus de 7 de Setembro de 1997 ).

6. A Virgem Maria, Mãe da Saúde e Ícone da Salvação que, na fé se abriu à plenitude do Amor, é o exemplo mais alto de contemplação e de acolhimento da Vida. A Igreja que, «com a sua pregação e o baptismo, gera para a vida nova e imortal os filhos, concebidos por acção do Espírito Santo e nascidos de Deus», olha para Ela como para um modelo e uma mãe (Lumen gentium, 63-64). A Ela, Salus infirmorum, os doentes dirigem-se para receber ajuda, acorrendo aos seus santuários. Maria, seio acolhedor da Vida, vos torne atentos a captar nos pedidos de tantos doentes e sofredores a necessidade de solidariedade e «o pedido de ajuda para continuar a esperar, quando falham todas as esperanças humanas» (Evangelium vitae , 67). Esteja ela junto de vós para fazer de cada gesto terapêutico um «sinal» do Reino.

Com estes bons votos, concedo-vos uma especial Bênção Apostólica, a vós, aos colaboradores e aos doentes a quem prestais com amor os vossos cuidados.

DISCURSO DO PAPA JOÃO PAULO II A UM GRUPO DE JORNALISTAS CATÓLICOS PROVENIENTES DA BÉLGICA

7 de Novembro de 1997

Senhor Presidente Minhas Senhoras e meus Senhores

É com grande alegria que hoje acolho todos vós, que fazeis parte da delegação da Associação dos jornalistas católicos e da União dos jornais católicos da Bélgica. Representais também todos os leitores da imprensa católica belga. Agradeço ao vosso Presidente, Sr. Philippe Vandevoorde, as palavras cordiais.

Neste ano em que festejais o centenário da vossa Associação, juntamente convosco dou graças por todo o trabalho realizado pelos jornalistas católicos do vosso país. Por vezes arriscando a própria vida, tiveram e têm a preocupação de informar os seus leitores, para dar a cada um a possibilidade de avaliar as situações e de orientar o seu comportamento pessoal. Devemos reconhecer também que os jornalistas católicos normalmente sabem ir além dos aspectos mais espectaculares de certas situações, para respeitar a verdade e promover a dignidade das pessoas, sobretudo das crianças, com frequência injuriadas no seu ser espiritual e corporal. De facto, o jornalista católico é ciente do seu dever de educar as consciências; a leitura dos acontecimentos proporciona-lhes a ocasião de dar a conhecer os valores evangélicos e morais fundamentais e de recordar que todos os comportamentos individuais e sociais não são equivalentes.

Queridos jornalistas católicos, tendes a tarefa de fazer descobrir aos nossos contemporâneos o caminho da Igreja e do mundo. Criais, de igual modo, pontes entre os homens e as comunidades cristãs, pois seria bom que todos rejubilassem com os acontecimentos e situações nos quais se vê realizada a promoção das pessoas e dos povos; de igual modo, seria bom que os nossos contemporâneos fossem solidários com os seus irmãos que vivem na pobreza, atingidos por catástrofes naturais ou conflitos.

Ao visitardes o Sucessor de Pedro, manifestais o vosso apego à Igreja e à sua missão espiritual e caritativa. Em relação com o Pontifício Conselho Cor Unum e com a Fundação Populorum Progressio, apoiais projectos de desenvolvimento profissional e social na América Latina e nas Caraíbas. Agradeço a oferta que fazeis juntamente com os vossos compatriotas e agradeço profundamente o vosso gesto. A partilha e a ajuda recíproca fazem parte da vida cristã; com efeito, os discípulos de Cristo não se podem desviar da face dos pobres, que Deus ama com solicitude. Como dizia São João Crisóstomo, «a esmola é a rainha das virtudes» (De Davide, n. 4). Ela ensina-nos a desapegar-nos das realidades deste mundo; abre o nosso coração aos irmãos, a fim de realizar uma era de justiça e de paz e aproximanos do Senhor, pois «a esmola é, aos olhos do Altíssimo, uma dádiva sagrada de grande valor, que aproveita a todos os que a oferecem» (Tb 4, 11).

Ao confiar-vos à intercessão de São Francisco de Sales, Padroeiro dos jornalistas, e dos Santos da Bélgica, concedovos de todo o coração a minha Bênção Apostólica, bem como aos vossos familiares, aos colaboradores dos vossos jornais e aos vossos leitores.

DISCURSO DO PAPA JOÃO PAULO II AOS MEMBROS DA CONFERÊNCIA EPISCOPAL DA BÉLGICA EM VISITA «AD LIMINA APOSTOLORUM»

7 de Novembro de 1997

Senhor Cardeal Estimados Irmãos no Episcopado

1. É com grande alegria que vos acolho na casa do Sucessor de Pedro, a vós que recebestes a missão de guiar o povo de Deus que está na Bélgica. A vossa presença faz-me recordar a minha viagem ao vosso país, em Junho de 1995, por ocasião da beatificação de um dos vossos compatriotas, o Padre Damião de Veuster, figura espiritual marcante e testemunha exemplar da caridade para com os doentes. Agradeço ao Cardeal Godfried Danneels, Presidente da vossa Conferência Episcopal, as suas palavras calorosas e quero expressar-lhe todos os meus votos cordiais no momento da sua festa. Viestes realizar em Roma a vossa visita ao túmulo dos Apóstolos, a fim de encontrardes luz e sustento na vossa missão episcopal «para a edificação do Corpo de Cristo» (Ef 4, 12), em comunhão com a Igreja universal, e retomardes coragem para guiar, reconfortar e afirmar a esperança dos vossos colaboradores, os sacerdotes e os diáconos, assim como a de todo o povo de Deus.

2. Nos vossos relatórios quinquenais, fizestes-me partícipe das diferentes iniciativas que as vossas dioceses tomam na perspectiva do Grande Jubileu, novo Advento para a Igreja; alegro-me pelo acolhimento que elas encontraram junto dos vossos diocesanos e pelo dinamismo que suscitam no seio das comunidades cristãs. É um sinal tangível do desejo espiritual dos fiéis, da sua sede de descobrirem de maneira renovada o mistério trinitário, para dele viverem e serem as suas testemunhas na vida quotidiana.

Na vigília do segundo ano de preparação para o Grande Jubileu, peço ao Espírito Santo que vos ilumine e vos sustente no ministério que estais a exercer. Como pastores, deveis confortar os sacerdotes na sua missão, estando perto deles, encorajando-os e sustentando-os, a fim de prosseguirem o anúncio do Evangelho nas tarefas que lhes competem e continuarem a dar, de maneira infatigável, o exemplo duma vida de oração autêntica e duma existência conforme ao próprio compromisso. No respeito pelas pessoas e segundo a discrição requerida, compete-vos também corrigir mediante advertências insistentes e emendar situações morais erradas, para que nada seja objecto de escândalo para os seus irmãos e ninguém se perca, como já ressaltei numa carta de 11 de Junho de 1993, enviada ao Episcopado americano, diante dos problemas sociais semelhantes aos vossos (cf. La Documentation catholique 90 [1993], pp. 702-703; 1 Cor 10, 32; 2 Cor 6, 3; Código de Direito Canónico, cân. 1044 § 2 e cân. 1395).

3. Louvo os esforços importantes feitos nas vossas dioceses para intensificar a catequese das crianças e dos jovens, a qual considerais como uma das prioridades pastorais. A atitude de numerosos jovens no decorrer das recentes Jornadas mundiais da Juventude poderia oferecer- vos a ocasião para intensificar esta pastoral, em particular através duma formação espiritual e religiosa mais aprofundada. Esta última é, com efeito, um dos sectores essenciais e uma pedra angular da missão evangelizadora da Igreja, como foi ressaltado pelo recente Directório geral para a Catequese, realizado pela Congregação para o Clero. Este documento é um instrumento precioso e uma guia que recorda oportunamente que Cristo e a sua mensagem são o centro de todo o ensinamento da fé. O ministério da catequese deve, então, ocupar um lugar primordial na missão de toda a comunidade cristã. Sob a responsabilidade do Bispo, ele requer a participação dos pais, dos sacerdotes, das pessoas consagradas e de fiéis que, aceitando tornar-se catequistas, receberão a formação apropriada.

Além disso, aprecio a atenção que dedicais à formação teológica e moral dos leigos, mediante as publicações e os diferentes ensinamentos organizados nas vossas dioceses. Vós acompanhais esta formação duma iniciação na oração e na liturgia, a fim de que a descoberta de Cristo não seja apenas na ordem do conhecimento, mas envolva também a vontade e os sentimentos, até transformar a vida quotidiana. Na vossa recente declaração Au souffle de l’Esprit vers l’An 2000, oportunamente recordastes aos fiéis que a esperança é um dom do Espírito, que se baseia na fidelidade de Deus e deve ser pedido sem cessar. É através da vida sacramental e da participação na comunidade eclesial que os cristãos recebem os seus numerosos frutos. O aprofundamento do mistério cristão e uma vida espiritual autêntica permitem encontrar o incentivo para cooperar de modo activo na missão evangelizadora da Igreja e, de maneira específica, no desenvolvimento da sociedade civil. À luz do Evangelho e da doutrina social da Igreja, os leigos são chamados a concorrer para o bem comum mediante um empenhamento na ordem temporal, com todos os seus compatriotas, promovendo os princípios fundamentais que dizem respeito à finalidade da criação e à maneira de viver no mundo, assim como aos valores morais (cf. Apostolicam actuositatem, 7).

Encorajo-vos de modo particular a desenvolver a pastoral dos jovens, cuidando de nomear sacerdotes capazes de os acompanhar com a delicadeza requerida por pessoas, cuja personalidade está a construir-se. Isto é importante para que os jovens possam descobrir Cristo e enfrentar com serenidade os problemas ligados à sociedade moderna. E alegro-me pelo empenho renovado dos catequistas, dos pais, dos professores de religião e doutros mestres, que cuidam da educação religiosa nas escolas e nas paróquias; é preciso elogiar também a vitalidade manifestada pelos diferentes movimentos, que propõem à juventude actividades, graças às quais os valores cristãos e um progresso espiritual podem ser descobertos e vividos.

4. Exprimistes-me os vossos temores concernentes à diminuição crescente do número de sacerdotes e às pesadas tarefas que devem cumprir actualmente, por vezes até ao extremo limite das suas forças e em idade avançada. Conhecendo as condições difíceis em que vivem, louvo o seu devotamento, a sua perseverança e fidelidade, convidando-os a permanecer na esperança e a haurir na oração pessoal e litúrgica, e de modo particular na celebração da Eucaristia, a força para viver em conformidade com Cristo, de Quem eles são um ícone vivo, para serem servidores do Evangelho e manifestarem aos homens que uma vida consagrada a Deus no celibato, é fonte de alegria profunda e de equilíbrio interior. Como já fazeis, deveis preocupar-vos pela qualidade da sua vida material, torná-los atentos em conservar uma justa harmonia entre a vida espiritual, a vida pastoral, os seus entretenimentos e as relações de amizade.

Por outro lado, é conveniente favorecer tudo o que pode consolidar a unidade e o sentido fraterno no seio do «presbitério, que é atribuído ao Bispo como as cordas à cítara» (Santo Inácio de Antioquia, Carta aos Efésios). Os sacerdotes estão unidos aos seus coirmãos «por vínculo de caridade, oração e cooperação » (Presbyterorum ordinis, 8). Por isso, as relações devem ser impregnadas de amizade e de atenção de uns para com os outros, os mais jovens pedindo ajuda no início do seu ministério e nas suas primeiras responsabilidade, e os mais idosos podendo oferecer toda a sua experiência. Tudo isto é favorecido pelos momentos de retiro e pelos tempos de formação teológica propostos a todo o clero, a fim de que o seu ensino seja fortificado e se torne capaz de responder, de modo mais preciso, aos interrogativos dos nossos contemporâneos. Transmiti aos sacerdotes e aos diáconos os meus encorajamentos calorosos e a certeza da minha oração, em particular àqueles que estão doentes e aos que conhecem dificuldades no ministério. Exprimi as minhas mais calorosas saudações aos membros dos Institutos de vida consagrada que, apesar da falta de vocações, continuam as suas missões à custa de duros esforços, por amor a Cristo e à Igreja. Faço votos por que encontrem os meios eventuais de reunir as suas forças e de transmitir as suas espiritualidades aos leigos que trabalham com eles, como já o fazem.

5. Tomastes a decisão de manter em cada diocese um Seminário Maior, instituição essencial e central que participa na visibilidade da Igreja e no seu dinamismo apostólico. Trata-se de uma opção corajosa que demonstra a atenção notável que atribuís à formação dos futuros sacerdotes e ao cuidado de um bom discernimento. Graças a esta proximidade, os jovens consolidam a sua relação de confiança e de obediência filial com o seu Bispo e tomam consciência das realidades diocesanas, que viverão ulteriormente. No que concerne à formação, convém em primeiro lugar verificar a intenção recta dos candidatos ao sacerdócio e o seu suficiente grau de maturidade, assim como ajudá-los a estruturar a própria personalidade (cf. Pastores dabo vobis , 62). A respeito disso, seria prejudicial aos jovens escolher por si mesmos o lugar de formação, em função de critérios ligados à sua subjectividade, sensibilidade e própria história. Isto pode limitar o discernimento e enfraquecer a dimensão de serviço, que é requerida pelo ministério sacerdotal. Aprecio a atenção que dedicais ao ensino filosófico e teológico, assim como ao progresso espiritual dos futuros sacerdotes, ao escolherdes professores e directores particularmente preparados para este ministério delicado.

A presença dum Seminário é também ocasião para o conjunto dos fiéis estarem próximos e sustentarem, pela sua oração fraterna, aqueles que se tornarão os seus pastores. Todos os cristãos, e entre eles os pais, devem empenhar-se em despertar vocações nas famílias e em encorajar os jovens que se sentem chamados a seguir Cristo na vida sacerdotal ou religiosa. Neste espírito, alegro- me com o novo impulso que desejastes dar aos diferentes Serviços das Vocações.

6. Por causa da situação presente, estais determinados a reorganizar e a estruturar as paróquias, tendo em conta as possibilidades que vos são oferecidas e as necessidades pastorais. A paróquia não é uma simples associação. É um sinal da visibilidade da Igreja e um centro onde se exprime a comunhão entre todos os membros da comunidade. Ela é a unidade de base que deve assegurar as grandes funções da missão eclesial, mas que, para isto, deve ter uma certa capacidade de forças vivas. Portanto, é importante que estas reorganizações tenham em conta o número de fiéis, a possibilidade de assegurar os diferentes serviços pastorais indispensáveis, e o tecido humano que encontra uma parte da sua vitalidade nas assembleias dominicais e nas actividades paroquiais.

7. Nos vossos relatórios, exprimis as vossas inquietudes e as duma parte importante dos belgas, diante das evoluções da sociedade. Sublinhais o crescimento dos fenómenos de pobreza, que estão ligados à conjuntura económica e ao crescimento do desemprego, e geram um aumento da delinquência sob todas as suas formas e a tentação de desesperar quanto ao futuro. Constatais também a erosão dos valores morais que fundam a recta vida pessoal, as relações entre os vossos concidadãos, a necessária solidariedade no seio da comunidade nacional e a conduta da administração pública. A Igreja deve dedicar atenção a todos os homens, em particular àqueles que são marginalizados. Exorto, pois, os cristãos a porem-se sempre mais ao serviço dos seus irmãos e a estarem atentos à necessidade duma justa assistência a cada um, mediante um empenhamento em todos os sectores da vida social, com um sentido acrescentado da probidade, que deve impregnar toda a pessoa chamada a tomar parte na gestão do bem comum. Essa atitude não deixará de contribuir para consolidar ainda mais a confiança dos vossos compatriotas nas instituições nacionais. A Igreja deve também recordar, sem cessar, que toda a pessoa tem o direito de ser protegida, de modo particular as crianças que, porque são débeis e indefesas, são muitas vezes o alvo de adultos pervertidos que, gravemente e de maneira duradoura, ferem os jovens para dar livre curso às suas paixões. Neste momento, penso de modo especial nas famílias recentemente atingidas pelos comportamentos criminais, dos quais os seus filhos foram vítimas. Assegurai-as de que o Papa está unido a elas pela oração e se sente sensibilizado pela grande coragem que souberam demonstrar na dor, convidando o conjunto dos seus compatriotas a uma profunda consciência moral e ao perdão.

8. O futuro da sociedade apresenta a todos os nossos contemporâneos um grande desafio ético; eis por que convém empreender uma reflexão moral renovada, que dê a cada um elementos para o discernimento, para o juízo da bondade moral dum acto e para atitudes correctas. Neste sentido, aprecio a tomada de posição forte e corajosa dos Bispos, que chamaram a atenção dos fiéis e de todo o povo belga sobre a necessidade do respeito pela dignidade intrínseca do ser humano, desde a concepção até à sua morte natural. Em cada país, a Igreja tem o dever de fazer ouvir a voz dos mais débeis e de ensinar, oportuna e inoportunamente, os valores morais que nenhuma lei pode injuriar impunemente. Por outro lado, mesmo que a Igreja não se confunda de modo algum com a comunidade política, que ela respeita, compete-lhe recordar, aos que exercem um serviço legítimo do povo e a todos os nossos contemporâneos, aquilo que funda o agir pessoal e comunitário, e o que, ao contrário, fere gravemente o homem e a humanidade. Com efeito, «o exercício da autoridade tem em vista tornar manifesta uma justa hierarquia de valores, a fim de facilitar o exercício da liberdade e da responsabilidade de todos», e em ordem ao bem comum (Catecismo da Igreja Católica, n. 2236).

9. Ao concluir o nosso encontro, caros Irmãos no Episcopado, peço-vos que leveis aos sacerdotes, aos diáconos, aos religiosos, às religiosas e aos leigos das vossas comunidades a minha saudação afectuosa. Assegurai-lhes a minha oração para que, nas dificuldades presentes, não percam a esperança e para que o Espírito inspire em todos gestos corajosos e proféticos, que serão para os seus irmãos um sinal incontestável da salvação trazida por Cristo e da conversão que actua nos corações. Ao confiar-vos à intercessão dos Santos da vossa terra, concedo-vos de bom grado a minha Bênção Apostólica, assim como aos membros do povo de Deus confiado à vossa solicitude pastoral.

DISCURSO DO PAPA JOÃO PAULO II AOS PEREGRINOS DA DIOCESE DE KALISZ (POLÓNIA)

6 de Novembro de 1997

Caríssimos Irmãos e Irmãs!

1. Dou-vos as cordiais boas-vindas, queridos peregrinos da Diocese de Kalisz, que viestes aos túmulos dos Apóstolos para dar graças a Deus, juntamente com o Papa, por todos os bens que experimentámos durante os dias da minha última peregrinação na Polónia. Saúdo de modo particular o Bispo ordinário e agradeço-lhe as palavras que me dirigiu. Desejo saudar, juntamente com ele, também o Bispo Auxiliar da Diocese. Dirijo depois o meu cordial pensamento aos Representantes das autoridades da Cidade de Kalisz, de Ostrón e da Província. Desejo abraçar com estes sentimentos toda a comunidade da Igreja de Kalisz: os presbíteros, as pessoas consagradas e todos os fiéis.

Está sempre presente em mim a recordação daquele dia em que me foi concedido visitar a vossa terra, e sobretudo a cidade de Kalisz, que — como já disse várias vezes — é a cidade mais antiga da Polónia. Agradeço-vos mais uma vez o convite que me fizestes, o caloroso acolhimento e o encontro com o Povo de Deus da comunidade de Kalisz. Graças à vossa fé e à vossa oração pudemos viver um tempo de particular unidade de toda a Igreja universal, em redor de Cristo no mistério da Eucaristia. A grande statio orbis do Congresso Eucarístico Internacional que celebrámos em Wrocław continuou, de facto, nas etapas sucessivas da peregrinação. Com a ajuda de Deus, aprofundámos as várias dimensões da vida quotidiana, cuja força religiosa encontra na Eucaristia a sua fonte e o seu ápice (cf. PO, 5). Com efeito, a Eucaristia é o centro vivo da Igreja e de toda a vida cristã, como, segundo as palavras de Santo Agostinho, «sacramento da misericórdia, sinal de unidade e vínculo de caridade».

Naquele percurso não podia faltar uma etapa dedicada à família. E qual é o lugar mais apropriado para reflectir sobre a realidade da família, senão Kalisz, cujo padroeiro particular é S. José, pai da Sagrada Família, representado na efígie milagrosa? Confiámos à sua protecção a família na Polónia, a qual — como em todo o mundo — se encontra a enfrentar vários perigos da civilização contemporânea. Aquela oração — que pode ser qualificada familiar — ao fiel esposo de Maria e solícito guardião do Filho de Deus — foi uma grande graça para toda a Igreja. Com efeito, se a família é o elemento fundamental da comunidade dos discípulos de Cristo, uma oração centrada na família diz respeito, ao mesmo tempo, a toda a Igreja. A Igreja tem sempre necessidade da intercessão de S. José. A sua protecção é uma eficaz defesa contra os perigos que se apresentam e, mais ainda, um grande apoio para assumir as próprias tarefas da nova evangelização. Hoje, no período da preparação directa para o Grande Jubileu do Ano 2000, quando a tarefa da evangelização adquire uma particular actualidade, exorto todos a confiar com perseverança esta obra à intercessão de S. José.

2. A incessante oração e o olhar fixo no modelo altíssimo de santidade do pobre carpinteiro de Nazaré, chamado pelo Evangelho homem justo (cf. Mt 1, 19), pode ser para nós fonte de profunda espiritualidade. «O sacrifício total, que José fez da sua existência inteira, às exigências da vinda do Messias à sua própria casa, encontra a motivação adequada na “sua insondável vida interior, da qual lhe provêm ordens e consolações singularíssimas; dela lhe decorrem também a lógica e a força, própria das almas simples e límpidas, das grandes decisões, como foi a de colocar imediatamente à disposição dos desígnios divinos a própria liberdade, a sua legítima vocação humana e a felicidade conjugal, aceitando a condição, a responsabilidade e o peso da família e renunciando, por um incomparável amor virgínio, ao natural amor conjugal que constitui e alimenta a mesma família”. Esta submissão a Deus, que é prontidão de vontade para se dedicar às coisas que dizem respeito ao seu serviço, não é mais do que o exercício da devoção, que constitui uma das expressões da virtude da religião » (Redemptoris custos , 26).

No mundo de hoje, cheio de contradições e de tensões, o crente encontra-se todos os dias perante a necessidade de fazer opções. Então interroga a sua consciência acerca do que é justo, a favor do que se deve pronunciar e a que se deve opor. É a pergunta referente àquele desígnio divino que pode ser perscrutado apenas em quem é dotado de uma profunda vida interior. E são necessárias, depois, não pouca ponderação e força, um grande amor a Deus e ao homem, a fim de assumir o peso da responsabilidade, que brota da resposta a essa pergunta. É necessária também a disponibilidade da vontade de se dedicar ao serviço de Deus. São José ensina-nos tudo isto. Seguindo o seu exemplo, quem se oferece a Deus, sustentado pelo poder do Espírito Santo, está em condições de transformar o mundo, de forma que ele se torne uma morada cada vez mais digna de Cristo. No limiar do Terceiro Milénio, é necessário este testemunho de dedicação. Dele precisa o homem, com frequência desorientado entre falsas promessas de uma felicidade fácil. É necessária esta dedicação na vida familiar, social, política e cultural, para que todos os homens possam reencontrar no Filho de Deus a fonte da verdadeira esperança.

3. Oxalá São José, que venerais no Santuário de Kalisz, seja para cada um de vós mestre e guia espiritual. Obtenha para todos a graça desta disponibilidade a cumprir a vontade de Deus, que foi a razão da sua particular eleição. Mais uma vez vos agradeço terdes vindo aqui. Peço que leveis a minha saudação aos vossos entes queridos na Pátria, a quantos não puderam vir, sobretudo aos enfermos. São José acompanhe todos vós e interceda pela jovem Igreja de Kalisz, no limiar do novo Milénio.

Abençoo-vos de coração.

DISCURSO DO PAPA JOÃO PAULO II POR OCASIÃO DA SEGUNDA SESSÃO PÚBLICA DAS PONTIFÍCIAS ACADEMIAS

3 de Novembro de 1997

Senhores Cardeais Excelentíssimos Embaixadores Ilustres Académicos Pontifícios Excelentíssimos Senhores e Senhoras

1. É-me particularmente grato encontrar- vos, por ocasião da segunda Sessão pública das Pontifícias Academias. Agradeço ao Senhor Cardeal Paul Poupard, Presidente do Conselho de Coordenação entre as Pontifícias Academias, que em nome de todos vós quis ilustrar os objectivos, os propósitos e as finalidades que vos propondes em vista do Grande Jubileu do Ano 2000. Saúdo os Senhores Cardeais, os venerados Irmãos no Episcopado, os Excelentíssimos Embaixadores junto da Santa Sé, os sacerdotes, os religiosos e as religiosas e todos os membros das várias Pontifícias Academias.

Há doze meses, encontrámo-nos pela primeira vez neste mesmo local para celebrar a ocorrida reforma das Pontifícias Academias e para dar novo impulso às Instituições culturais da Santa Sé. Desse modo é dado reconhecimento público à obra científica e artística realizada pelas vossas Pontifícias Academias, ao serviço da nova evangelização nos vários campos da cultura e da arte, da teologia e da acção apostólica.

2. O vosso plano de trabalho académico, embora na variedade das disciplinas que de modo autorizado representais, tem em vista concretizar-se num peculiar «contributo ao humanismo cristão, no limiar do Terceiro Milénio». Enquanto exprimo o meu apreço por este interessante e sempre actual programa, exorto-vos a prosseguir com coragem nesse caminho, para que o vosso contributo a uma mais exacta, ampla e profunda compreensão do humanismo cristão seja útil à causa da pessoa humana e ao reconhecimento do seu valor específico e da sua inalienável dignidade.

Na variedade das culturas hodiernas manifesta-se cada vez mais o desafio que a Igreja é chamada a enfrentar, uma vez que é seu preciso dever «investigar os sinais dos tempos e interpretálos à luz do Evangelho, para que assim possa responder, de modo adaptado em cada geração, às eternas perguntas dos homens acerca do sentido da vida presente e da futura, e da relação entre ambas» (Gaudium et spes, 4).

Os cristãos devem ser capazes de propor a verdade sobre o homem, revelada por Jesus Cristo, «Caminho, Verdade e Vida» (Jo 14, 6) e «primogénito entre muitos irmãos» (Rm 8, 29), porque só n’Ele pode resplandecer em plenitude a dignidade do ser humano, criado à imagem e semelhança de Deus (cf. Gn 1, 26).

3. Estou grato aos representantes da «Pontifícia Academia Romana de S. Tomás de Aquino e da Religião Católica» e da «Academia Teológica Romana» pelas sábias reflexões sobre os delineamentos do humanismo cristão, inspiradas no pensamento do «Aquinate». É à eminente doutrina do Doutor Angélico que podemos oportunamente referir-nos, para definir o humanismo autêntico, capaz de reconhecer e dar conveniente expressão a todas as dimensões da pessoa humana.

No actual contexto cultural, marcado muitas vezes por incertezas e dúvidas que mortificam os fundamentais valores espirituais, o humanismo cristão — perene na sua substância, mas sempre novo na sua abordagem e na sua apresentação — oferece uma resposta válida à sede de valores e de vida verdadeiramente humana, ardente na alma de cada pessoa que reflecte sobre o próprio destino.

4. A actividade dos Académicos Pontifícios põe-se em íntimo ligame com a missão dos Sucessores de Pedro. Enquanto confirmo esta vossa tarefa generosa, faço votos por que, graças aos estudos, às publicações, às obras artísticas por vós realizadas e promovidas, os homens de todas as culturas descubram o humanismo autêntico, verdadeiro espelho em que se revelam o rosto de Deus e o rosto do homem.

Além disso, desejo que, sob o impulso do vosso exemplo e da seriedade dos vossos trabalhos académicos, um novo impulso seja impresso à investigação filosófica e teológica e ao ensino destas disciplinas, de maneira que a razão humana, iluminada pela Revelação divina, possa descobrir vias novas para exprimir na linguagem das várias culturas «a insondável riqueza de Cristo» (Ef 3, 8).

Muitos contemporâneos, especialmente jovens, se sentem desiludidos, porque promessas mesmo atraentes, que marcaram a segunda metade do vigésimo século, não raro se revelaram meras utopias, incapazes de aliviar o homem da sua angústia existencial. Não são poucos aqueles que têm hoje a sensação de caminhar por um beco sem saída. Tarefa dos cristãos, e em particular vossa, membros das Pontifícias Academias, é difundir o conhecimento do humanismo cristão, sobretudo quando a verdade acerca do homem é obscurecida ou negada por posições conceituais, que não respeitam a sua dignidade específica.

Com a humildade dos discípulos e a fortaleza das testemunhas, vós, ilustres Académicos, tendes a exaltante missão património filosófico, teológico e cultural da Igreja, a fim de fazer partícipes dele quantos estão em busca de uma resposta satisfatória.

5. E agora, acolhendo a indicação do Conselho de Coordenação, é-me grato entregar o prémio das Pontifícias Academias ao Pontifício Instituto «Regina Mundi», que em Roma realiza actividades universitárias para a formação filosófica, teológica, espiritual e pastoral das religiosas provenientes de todas as partes do mundo. O Pontifício Instituto apresentou os trabalhos de três religiosas: Eufrásia Beya Malumbi, congolesa, que soube traduzir, com linguagem moderna e com categorias culturais do seu País de origem, alguns aspectos significativos da teologia da salvação em S. Tomás de Aquino; Cecília Phan Thi Tien, vietnamita, que estudou a eficácia evangelizadora do cântico, com particular referência à música da sua Terra; Maria Mónica Rungruang-Kanokkul, tailandesa, que fez um estudo teológico-pastoral sobre a preparação para o sacramento da Eucaristia, dos filhos de casais com matrimónio misto na sua Região.

Com a entrega do prémio, quero também exprimir o meu apreço à Reverenda Presidente, Madre Fernanda Barbiero, e aos Professores do Instituto «Regina Mundi» pelo trabalho desenvolvido em favor da promoção do humanismo cristão, nas múltiplas culturas a que pertencem as religiosas estudantes.

Confio todos os presentes e a sua missão a Maria Santíssima, Sede da Sabedoria, e de coração concedo-vos uma especial Bênção Apostólica, a vós, às vossas famílias e a todos os que vos são queridos.

DISCURSO DO SANTO PADRE JOÃO PAULO II AOS JOVENS DA ACÇÃO CATÓLICA ITALIANA

Segunda-feira, 22 de Dezembro de 1997

Caríssimos

Também neste ano, como de costume, em representação da Acção Católica dos Jovens de toda a Itália, viestes para apresentar ao Papa os bons votos de Natal. São votos particularmente alegres, que quisestes acompanhar com lindas flores e produtos típicos das vossas regiões de proveniência. Obrigado de coração!

Estou-vos grato também porque nesta feliz circunstância me «actualizastes» acerca das vossas actividades e iniciativas. A este propósito, quero dizer-vos que a vossa Assembleia nacional do passado mês de Outubro suscitou grande admiração em mim e nos meus colaboradores: enchestes a Praça de São Pedro com a vossa presença alegre e empenhada, suscitando esperança para o futuro da Igreja na Itália.

Para aprofundar o tema da festa, como faz parte dos vossos programas, é mais do que nunca indicado o Natal, porque este está certamente entre as festividades mais sentidas a nível universal, e é riquíssimo de tradições populares. Vós, jovens da A.C.R., sois chamados a compreender o profundo significado desta solene celebração, para ajudar também os vossos amigos a vivê-la plenamente, haurindo dessa os bons frutos para um autêntico crescimento humano e cristão.

Nisto vos são de grande ajuda, além dos vossos pais, também os educadores da Acção Católica, aos quais dirijo o meu reconhecido encorajamento.

Prezados jovens, obrigado mais uma vez pela vossa visita! De coração, abençoo cada um de vós, os vossos entes queridos e todos os grupos da A.C.R.

DISCURSO DO PAPA JOÃO PAULO II NO ENCONTRO DE NATAL COM OS CARDEAIS, A FAMÍLIA PONTIFÍCIA, A CÚRIA E A PRELAZIA ROMANA

22 de Dezembro de 1997

1. «A vida de Cristo não é a demonstração de uma força omnipotente. A sua glória é para aqueles que são capazes de compreendê-la, não é para o mundo. O seu poder consiste no facto de Ele renunciar à força. Esta vida possui o poder decisivo do mais sublime ideal ético e por isso Cristo é o ponto que divide a história do mundo» (Alfred North Whitehead, Religion in Making).

Estas palavras de Whitehead, pensador moderno não católico e sem aparentes ligames formais com qualquer Igreja cristã, podem esclarecer de modo excelente o sentido do hodierno encontro que tem lugar na vigília da Festa de Natal, enquanto nos encaminhamos a largos passos rumo ao termo do segundo Milénio cristão.

Referindo-nos às palavras do filósofo, não podemos porventura definir-nos homens que se esforçam por compreender o verdadeiro sentido da glória de Cristo? Não estamos acaso convencidos de que a sua vicissitude «não é a demonstração de uma força omnipotente... não é para o mundo», mas que «o seu poder consiste no facto de Ele renunciar à força»? Com efeito, podemos dizer de nós mesmos que nos rendemos precisamente a este «poder» de Cristo e O seguimos em nome «do mais sublime ideal ético», procurando realizar na Igreja a nossa vocação de Bispos, Sacerdotes, Religiosos e Leigos, ilustrada de maneira tão admirável pelo Concílio Vaticano II.

Venerados Irmãos no Episcopado, caríssimos Irmãos e Irmãs! A divina Providência chamou-vos para este extraordinário serviço à Sé Apostólica, que reveste uma grande importância para a Igreja universal, pois vos coloca em intimíssima relação com o «ministerium Petrinum » do Bispo de Roma. Hoje desejo formular de todo o coração o meu obrigado mais sentido a Vossa Eminência, Senhor Cardeal Decano, pelas amáveis e afectuosas palavras de devoção e de bons votos que me quis dirigir, em nome da grande família da Cúria Romana. O meu reconhecimento torna-se extensivo a vós, Senhores Cardeais, Arcebispos, Bispos, Presbíteros, Religiosos, Religiosas e Leigos, preciosos colaboradores da Sé Apostólica: faço votos por que todos vós sintais como uma honra e um prémio o facto de serdes chamados a servir, no coração da Igreja, Cristo mesmo e a Sua obra de redenção.

2. Cristo é «o ponto que divide a história do mundo». Com estas palavras Whitehead como que sugere por que a Igreja se está a preparar para celebrar o Ano 2000 com particular solenidade. Esta acabou de dar início à segunda etapa do itinerário trienal, que está a levá-la rumo ao Grande Jubileu, no qual deseja recordar o evento que há dois mil anos transformou a história. Nesta perspectiva, cada fiel se dispõe a renovar com alegria a sua profissão de fé no mistério da Encarnação do Verbo.

Graças ao compromisso do Comité Central do Grande Jubileu, dos Comités nacionais e das Comunidades diocesanas, no mundo inteiro foram empreendidas numerosas e louváveis iniciativas, para que o próximo Ano Santo seja um tempo de graça e de reconciliação. Na Diocese de Roma, depois da celebração do Sínodo, para preparar o Jubileu está em acto a Missão da Cidade, que empenha as Comunidades cristãs no compromisso de levar o anúncio evangélico às famílias e aos ambientes de trabalho e de vida.

Renovando o meu apreço por esta iniciativa, desejo dirigir um comovente pensamento ao Cardeal Ugo Poletti, chamado ao prémio eterno no passado mês de Fevereiro. Tendo inaugurado o Sínodo diocesano de Roma, ele esteve ao meu lado quando se deu início a este novo ardor missionário na Urbe.

Os multíplices compromissos que nos esperam para preparar dignamente as celebrações do Ano Santo não devem fazer- nos esquecer que o Jubileu é sobretudo um grande dom que o Senhor faz, através da Igreja, à inteira comunidade: uma graça que os fiéis devem acolher com fé e conversão interior. Trata-se de um evento altamente espiritual, para o qual se devem orientar os sempre necessários aspectos organizativos. Queira o Espírito Santo, a Quem é dedicado este segundo ano de preparação, dispor as Igrejas e os cristãos à docilidade diante dos convites do Senhor, de modo a acolherem plenamente a graça do evento jubilar.

3. «Ide e fazei com que todos os povos se tornem Meus discípulos!» (Mt 28, 19). O ardor missionário, que a proximidade do terceiro milénio reaviva na inteira Família de Deus, conheceu momentos significativos nas Viagens Apostólicas que o Senhor me concedeu realizar também no decurso deste ano.

Como deixar de recordar a viagem, tão longamente almejada, a Sarajevo, cidade- símbolo das contradições e das esperanças do século que está para terminar? Ou à República Tcheca, onde tive a alegria de participar nas celebrações do Milénio de Santo Adalberto, grande evangelizador dos povos da Europa Central?

Outra visita esperada por muito tempo foi ao Líbano, aonde fui com alegria para concluir a Assembleia Especial do Sínodo dos Bispos, levando uma palavra de encorajamento e de esperança a quantos buscam com sinceridade um futuro de diálogo e de paz. Depois, pude voltar à minha Pátria para participar no Congresso Eucarístico Internacional de Wrocław e dar graças ao Senhor pelo dom da fé cristã anunciada há mil anos ao povo da Polónia, bem como ao da vizinha Boémia, pelo grande Bispo Santo Adalberto. Além disso, por ocasião dessa visita tive a alegria de celebrar os seiscentos anos de fundação da «Alma Mater», que me viu estudante e professor, a Universidade Jagelónica de Cracóvia, autêntico farol de civilização e de cultura para a inteira Polónia.

Na segunda metade do ano participei, em Paris, no XII Dia Mundial da Juventude e depois no Rio de Janeiro, no II Encontro Mundial das Famílias: dois acontecimentos distantes no espaço, mas tornados comuns pela única fé e pelo mesmo compromisso missionário.

Repenso com intensa emoção nos jovens, provenientes dos cinco continentes, que em Longchamp expressaram com entusiasmo o seu amor a Cristo e a sua alegria em anunciá-l’O pelas sendas do mundo. Sucessivamente, pude reviver uma experiência semelhante em Bolonha, juntamente com milhares de jovens, ali congregados para celebrar o Congresso Eucarístico Nacional italiano.

Depois, o que dizer das inesquecíveis jornadas vividas no Brasil, por ocasião do II Encontro Mundial das Famílias? Graças ao generoso empenho do Pontifício Conselho para a Família e da Arquidiocese do Rio de Janeiro, esse evento ofereceu um renovado impulso à pastoral familiar e constituiu a ocasião para proclamar os valores da família e da vida como caminhos privilegiados para construir a esperança da humanidade.

Confio ao Senhor as peregrinações apostólicas que, se Deus quiser, terei a alegria de realizar em 1998. Em primeiro lugar, a Visita pastoral a Cuba, no próximo mês de Janeiro.

4. «Anuncio-vos a Boa Notícia... hoje... nasceu-vos um Salvador, que é o Messias, o Senhor» (Lc 2, 10-11). O clima sugestivo das Festas de Natal recorda- nos que a tarefa prioritária da Igreja é levar aos homens o alegre anúncio do Salvador. A Igreja cumpre esta tarefa, proclamando em todos os tempos e circunstâncias a Verdade que liberta e salva: Jesus Cristo, o Filho de Deus que Se fez homem.

Neste ano, um momento particular deste serviço à Verdade foi a publicação em língua latina da «editio typica» do Catecismo da Igreja Católica, instrumento privilegiado para transmitir de maneira completa e sistemática a mensagem da salvação. Mas um serviço à verdade evangélica foi também o que teve lugar no passado mês de Outubro, quando inscrevi entre os Doutores da Igreja a jovem carmelita de Lisieux, Santa Teresa do Menino Jesus e do Santa Face. Com a sua «pequena via», ela abriu a inúmeras almas um percurso simples, embora exigente, rumo à perfeição, recordando a um mundo exposto cada vez mais à tentação do desempenho que a vida cristã é convergência entre doutrina e praxe, entre verdade e vida; que esta é sobretudo encontro com um Deus próximo e misericordioso, que nos impele a amar a todos sem reservas nem cálculos.

5. A Igreja é chamada a colocar-se ao serviço do Evangelho de formas múltiplas e atentas às transformações da história. Compreendera-o muito bem o Apóstolo Paulo, que afirmava: «Tornei-me tudo para todos, a fim de salvar alguns a qualuer custo» (1 Cor 9, 22). A missão evangelizadora impele a Igreja a fazer-se solícita e atenta aos dramas e aos problemas da humanidade para colaborar na realização de uma paz justa e defender o direito dos mais frágeis, frequentemente vítimas inocentes das grandes contradições do nosso tempo. O seu programa constante é dar voz a quem não a tem, acompanhando a sua acção com sinais concretos de solidariedade e de amor fraterno.

O compromisso da Igreja em prol dos pobres em todas as latitudes da Terra torna-se presente de modo particular através do trabalho quotidiano e da generosidade dos missionários. Também neste ano, alguns destes foram chamados a fazer-se testemunhas do maior amor, padecendo o martírio pela causa do Evangelho. Neste contexto de amor preferencial pelos «pequeninos», recordo aqui com afecto e reconhecimento Madre Teresa de Calcutá, que o Senhor chamou para junto de Si depois de uma vida despendida totalmente ao serviço dos «mais pobres de entre os pobres». O seu singular testemunho de oração, de total dedicação aos últimos e de amor à Igreja permanece para os crentes e os não-crentes um património a acolher e valorizar.

6. O nascimento do Redentor, que veio «para reunir os filhos de Deus que estavam dispersos» (Jo 11, 52), solicita quantos Lhe pertencem, em virtude do único Baptismo, a prosseguirem ao longo do caminho da plena unidade. Com os olhos voltados para o mistério da manifestação da «bondade de Deus, nosso Salvador» e do «Seu amor pelos homens » (cf. Tt 3, 4-7), também neste ano a Igreja continuou a progredir nas pegadas do ecumenismo. A preparação para o Grande Jubileu e o desejo, difundido entre muitos cristãos, de superar os motivos de divisão acumulados no curso do segundo Milénio, proporcionaram numerosos encontros e iniciativas ecuménicas.

Em particular, desejo recordar o encontro com Sua Santidade Aram I Keshishian, Catholicos da Cilícia dos Arménios, com quem foi reconfirmada a comum fé em Jesus Cristo, verdadeiro Deus e verdadeiro homem, para além das seculares incompreensões, e o comum empenhamento em colocar-se ao serviço da unidade cristã nos campos teológico, cultural e pastoral. Outro momento do caminho ecuménico foi o encontro com o Cabido da Catedral de Cantuária, por ocasião do XIV centenário da missão confiada a Santo Agostinho e aos seus companheiros pelo Papa São Gregório, o Grande.

Além disso, a Santa Sé esteve presente na II Assembleia Ecuménica Europeia, realizada em Graz de 23 a 29 de Junho, que viu 700 delegados das várias Igrejas cristãs da Europa reflectirem juntos sobre o tema: «Reconciliação, dom de Deus e fonte de vida nova», para reconfirmarem a vontade de oferecer uma contribuição comum à dimensão espiritual da Europa e de chegar, após séculos de divisão, à tão almejada unidade entre os cristãos.

7. Acaba de se concluir a Assembleia Especial do Sínodo dos Bispos para a América que, pela primeira vez, viu reunidos Representantes dos Episcopados do inteiro Continente e da Cúria Romana. A comum reflexão sobre as grandes riquezas humanas e espirituais e sobre as contradições, às vezes dramáticas, presentes no «Novo Mundo», levou os Padres sinodais a identificar as actuais vias de evangelização e de reconciliação, para responder aos desafios do Continente. A fidelidade ao ensinamento autêntico da Igreja, a redescoberta das várias vocações e ministérios, bem como o empenho na sua interacção, a defesa da vida humana desde a concepção até ao seu termo natural, o papel primário da família na sociedade, o compromisso em tornar a sociedade compatível com os ensinamentos de Cristo, o valor do trabalho humano e o anúncio do Evangelho no mundo da cultura foram indicados como outros tantos itinerários fundamentais para uma renovada missão eclesial no inteiro Continente. Faço votos por que, de tão grande graça espiritual e pastoral, nasça uma nova solidariedade e uma nova compreensão entre os fiéis e os Povos da América.

A redescoberta do ecumenismo e da dimensão sinodal da Igreja é fruto do maior evento eclesial do nosso século: o Concílio Vaticano II, que se manifesta sempre mais como a ideal «porta santa» do Grande Jubileu do Ano Santo 2000.

Na grandiosa obra de «actualização» da Igreja no sinal da dúplice fidelidade a Deus e ao homem, promovida por essa histórica Assembleia, desempenhou um papel de grande protagonista o meu venerado predecessor Paulo VI, cujo centenário de nascimento se comemora neste ano. Quisemos celebrar solenemente esta grandiosa figura de Pontífice e de homem do nosso século, evocando com reconhecimento a sua profunda fé, o seu amor pela Igreja e a paixão pelo anúncio do Evangelho, que o levaram a uma relação atenta e difícil, mas sem compromissos, com o mundo contemporâneo.

8. Senhores Cardeais, venerados Irmãos no Episcopado e no Sacerdócio, religiosos, religiosas e prezados colaboradores leigos, eu quis recordar alguns aspectos da acção realizada pela Santa Sé durante este ano, em vista de traduzir na quotidianidade concreta a mensagem de salvação trazida pelo Natal do Senhor.

É do meu conhecimento a generosidade e a competência com que colaborais neste insubstituível serviço que a Sé Apostólica presta à Igreja universal. Além disso, conheço as profundas motivações de fé e o sincero amor pela Igreja e pelo Papa que vos animam. O vosso compromisso, com frequência silencioso e escondido, é sumamente precioso porque favorece a comunhão de todos os crentes em Cristo e permite ao Sucessor de Pedro exercer de maneira concreta a tarefa de «confirmar os irmãos na fé» (cf. Lc 22, 31).

Faço votos por que cada um de vós encontre nessas motivações espirituais a força para desempenhar de modo jubiloso e evangélico as importantes tarefas que a Providência vos confia. Desejo exprimir a todos o meu reconhecimento por esta inteligente, afectuosa e discreta colaboração que acompanha continuamente e sustém o exercício do meu ministério.

Com o coração voltado para a Gruta de Belém, acolhamos com alegria a mensagem de salvação e de paz que os anjos nos trazem, enquanto nos anunciam que essa brota da ternura paterna de Deus para com cada um de nós. Na Noite Santa, queira a Virgem mostrar o «bendito Fruto do seu ventre», ensinando- nos a reconhecer na pobreza evangélica, na obediência ao projecto do Pai e na pureza do coração as vias-mestras para «vislumbrar a sua glória», O adorar como Senhor da nossa vida e confessar com toda a Igreja: «Incarnatus est de Spiritu Sancto ex Maria Virgine et homo factus est».

Com estes bons votos, implorando todo o bem sobre cada um de vós, a todos concedo de coração a minha Bênção.

Feliz Natal!

DISCURSO DO PAPA JOÃO PAULO II À COMUNIDADE POLACA NA APRESENTAÇÃO DOS VOTOS DE BOAS-FESTAS

20 de Dezembro de 1997

«Glória a Deus no mais alto dos céus e paz na terra aos homens por Ele amados» (Lc 2, 14).

1. Com estas palavras, mediante as quais os coros dos anjos anunciaram o nascimento do Salvador do mundo, quero saudar todos os presentes. O nosso encontro natalino já se tornou uma tradição. Todavia, neste ano reveste uma dimensão particular. Efectivamente, com a mente e o coração, regresso à peregrinação na minha Pátria e aos eventos históricos a ela ligados: o 46º Congresso Eucarístico Internacional em Wroclaw, o milénio do martírio de Santo Adalberto, o 600° Aniversário de fundação da Universidade Jagelónica de Cracóvia e, de maneira especial, a canonização da Beata Rainha Edviges, que Cracóvia e a Polónia inteira esperavam desde há séculos com muita nostalgia e também com muita esperança. Não posso deixar de recordar ainda a canonização do Beato João de Dukla e aquele comovente encontro em Krosno, na linda terra de Bieszczady, sempre querida ao meu coração. Hoje, enquanto olho para vós, tudo isto se reaviva com grande vigor na minha memória. Com efeito, sois uma pequena parte da Pátria, e este encontro hodierno é como que um prolongamento daqueles momentos da minha permanência na terra natal.

2. Desejo saudar cordialmente o Senhor Cardeal Franciszek, Arcebispo Metropolitano de Cracóvia, a quem agradeço as emocionantes palavras que me dirigiu. Saúdo também o Senhor Cardeal Edmund, o Arcebispo Szczepan e o Núncio Apostólico na Polónia, vindo especialmente para o hodierno encontro. Depois, dirijo a minha saudação ao Senhor Presidente do Parlamento da República e aos Senhores Embaixadores junto da Sé Apostólica e do Quirinal. Dou as boas-vindas inclusive aos Representantes das Autoridades locais de Malopolska e ao Presidente da Câmara Municipal de Varsóvia. Cumprimento de modo especial os peregrinos de Zakopane e da inteira região de Podhale. Viestes aqui, como nos anos passados, juntamente com os vossos Sacerdotes, o Presidente da Câmara Municipal de Zakopane e os Representantes das Autoridades municipais e regionais. Agradeço ao Presidente da Câmara Municipal as palavras que pronunciou em nome dos habitantes das áreas montanhosas. Caríssimos, saúdo-vos muito cordialmente e desejo dizer-vos que esta visita muito me alegra. Na homilia durante a Santa Missa, celebrada sob a «Wielka Krokiew», aos pés da cruz no monte «Giewont», entre outras coisas eu disse: «Pode-se sempre contar convosco!»; Podhale é «sempre fiel à Igreja e à Pátria». Hoje confirmo de modo particular essa minha convicção. Efectivamente, trouxestes ao Papa dons preciosos. Um destes é a magnífica árvore de Natal que neste ano adorna a Praça diante da Basílica de São Pedro. Esta árvore, que em condições naturais resiste ao período de letargia invernal, faz vir à mente o pensamento do Filho de Deus, que nasceu na noite de Belém para vencer a morte e nos dar a vida nova. São João escreve: «Nisto se tornou visível o amor de Deus entre nós: Deus enviou o seu Filho único a este mundo, para nos dar a vida por meio d'Ele» (1 Jo 4, 9). Enquanto apreciamos a vista da árvore de Natal enfeitada, não devemos esquecer a profunda eloquência espiritual deste símbolo. Não podemos deixar de dar graças a Deus pela vida – temporal e eterna – que nos concede no seu Filho unigénito.

Ao lado da árvore de Natal, aos pés do tradicional presépio, serão colocadas quatro estátuas, que também foram doadas pela região de Podhale. Simbolizam todas as famílias polacas e, num certo sentido, cada uma das famílias do mundo inteiro. Pode-se também dizer que representam a inteira família humana – porque de facto a alegre notícia, que o anjo anunciou aos pastores, foi dirigida a cada um dos homens de todos os tempos: «Não tenhais medo! Anuncio-vos a Boa Notícia, que será uma grande alegria para todo o povo: hoje, na cidade de David, nasceu para vós um Salvador, que é o Messias, o Senhor. Isto vos servirá de sinal: encontrareis um recém-nascido, envolvido em faixas, deitado numa manjedoura» (Lc 2, 10-12). Tal anúncio despertou nos pastores o desejo de conhecer o Salvador recém-nascido: «Vamos a Belém para ver...» (Lc 2, 15). Foram, pois, e – como cantamos num cântico de Natal – «na manjedoura encontraram o Menino com todos os sinais que O tinham prenunciado. Adoraram-n'O como Deus e, cumprimentando-O, exclamaram com grande júbilo: saudamos-Te, Salvador...». É precisamente isto que representam as quatro figuras ao pé do presépio – homens à escuta da alegre notícia sobre o nascimento do Salvador e a peregrinação humana, a busca d'Ele ao longo das sendas da vida, juntamente com a alegria de O ter encontrado e a honra que todas as gerações Lhe prestam como Deus. Agradeço-vos de todo o coração estes dons, pois demonstram e aproximam a riqueza da tradição espiritual polaca, vinculada ao mistério da Encarnação.

3. Na nossa celebração das festividades do Natal do Senhor, ocupa um lugar particular a mesa à volta da qual a família se reúne para rezar, partir o pão branco do Natal, trocar os bons votos e consumar a ceia da vigília. Segundo uma linda tradição, à mesa deixa-se um lugar livre para alguém que possa vir da rua, para um desconhecido. Estes gestos simples significam muito. Simbolizam a bondade do coração humano, que vê nos outros homens – especialmente no necessitado – a presença de Cristo e exorta a introduzir um irmão ou uma irmã no clima do calor familiar, em harmonia com um antigo convite: «Com um hóspede, é Deus que entra em casa». Num certo sentido, a mesa da ceia forja e edifica a comunidade humana. Este significado da mesa torna-se ainda mais claro se nela houver o pão, que cada um toma e compartilha com os outros. O amor, o perdão, a paz com Deus e com os homens encontram neste gesto da vigília a expressão mais significativa.

Penso neste momento não só na nossa mesa na casa de família, mas tenho também presente a grande mesa da nossa casa comum – da mãe-pátria. Assim, sinto-me feliz por estarem aqui presentes também os Representantes das Autoridades locais de Malopolska. A vós é confiado um papel muito importante e de responsabilidade na vida social. A força de um Estado e o seu desenvolvimento em sentido positivo depende em grande medida de um trabalho inteligente e eficaz dos organismos territoriais de governo, a fim de que na casa da Pátria haja o pão para todos e ninguém se sinta esquecido.

Caríssimos, tomo na mão o pão branco do Natal, e espiritualmente, compartilho-o com cada um de vós, com todos os meus compatriotas que se encontram na Pátria e no estrangeiro, com a Igreja na Polónia e com aqueles que governam o nosso País. A todos formulo cordiais bons votos para as festividades do Natal do Senhor e para o Ano Novo. Este grande Amor de Deus, que se revelou na terra na noite de Belém, guie o nosso coração rumo a Jesus, como orientou o dos pastores, dos reis magos, de José e de Maria. O espírito de solidariedade permeie toda a nossa vida pessoal e social, tornando-se inspiração ao serviço do bem comum na nossa única Pátria.

Retorno mais uma vez com o pensamento ao encontro de Zakopane. No termo da Santa Missa, pronunciei as palavras que hoje – vigília do Natal do Senhor – me apraz repetir: Sursum corda»! «Corações ao alto»!

MENSAGEM DO SANTO PADRE JOÃO PAULO II AOS FIÉIS DE CUBA EM PREPARAÇÃO PARA A VIAGEM APOSTÓLICA

Caros Irmãos no Episcopado Estimados sacerdotes, religiosos, religiosas e fiéis Queridos cubanos

1. «Anuncio-vos uma grande alegria, que o será para todo o povo: nasceu-vos um Salvador, que é o Messias, Senhor» (Lc 2, 10-11).

A festa do Natal, que vamos viver dentro de poucos dias, é uma solenidade intensamente sentida por todos os cristãos, na qual participam também homens e mulheres de boa vontade no mundo inteiro. Nela se celebra o maior acontecimento da história: Deus fez-Se homem. Diante desse grande dia, e na proximidade da minha Viagem apostólica a Cuba, aonde chegarei como mensageiro da verdade e da esperança, desejo enviar a todos os filhos e filhas dessa Nação a minha cordial saudação, renovando-vos o meu profundo afecto em Cristo.

É motivo de grande alegria que no vosso País este luminoso dia tenha voltado a ser festivo também no âmbito civil, dando assim a todos a possibilidade de participar activamente nas celebrações natalinas e recuperando, desse modo, uma tradição muito arraigada no coração dos cubanos.

O Natal, festa do mistério de Deus que nos ama a ponto de vir ao mundo e compartilhar a nossa peregrinação terrena, é festa de todos os homens, chamados a participar da vida divina. Comemora-se um grande mistério: «O Verbo fez-Se homem e habitou entre nós» (Jo 1, 14) e, «a todos os que O receberam, deu-lhes o poder de se tornarem filhos de Deus» (ibid., 1, 12). Na simplicidade e na humildade de Belém, manifestou-se a mudança mais radical e profunda que a humanidade conheceu, pela qual o tempo dos homens começou a contar-se de novo na nossa era a partir do Nascimento de Jesus.

2. Desde o momento da Encarnação do Filho de Deus o homem já não está só, porque Deus está connosco, compartilhando as alegrias e as tristezas. Ele é o «Emanuel» anunciado desde antigamente (Mt 1, 23). O Natal é um dos momentos mais belos e intensos do ano, no qual se manifestam os mais nobres sentimentos que existem no coração humano, criando esse ambiente de alegria e serenidade, de bondade e solidariedade, que é tradicional destas datas.

A festa do Natal, com as suas múltiplas expressões repletas de sentido cristão e de sabor popular, faz parte do património cultural e religioso de Cuba. Nesta data, a Missa da Meia-noite e os «nascimentos», com o seu particular encanto, voltarão a reunir em torno da figura do Menino Jesus, famílias inteiras, alegres por acolher a luz e a paz que descem do céu e querem iluminar o porvir de todo um povo.

Desejaria que todos os cubanos pudessem viver este dia tão íntimo animados pela esperança, pois sem esta esmorece o entusiasmo, decresce a criatividade e diminui a aspiração aos mais altos e nobres valores.

3. Queridos cubanos, ao aproximar-se o momento de beijar a vossa terra, o meu apelo dirige-se a todos, sem distinção de credo, ideologia, raça, opinião política ou situação económica. Desejaria que a minha palavra chegasse tanto aos que têm a grave responsabilidade de dirigir os destinos da Nação, como aos cidadãos mais simples, desejando a cada um prosperidade, felicidade e paz.

Neste Natal do Senhor de 1997 desejo animar-vos à esperança, vivendo na verdade de Cristo, e com o Apóstolo Paulo digo-vos: «Se alguém está em Cristo, é uma criação nova: passou o que era velho; eis que tudo se fez novo... Apresentamo-nos, pois, como mensageiros de Cristo, e é Deus que vos exorta por nosso intermédio. Reconciliai-vos com Deus... não recebais em vão a graça de Deus... É este o tempo favorável; este é o dia da salvação» (2 Cor 5, 17.20; 6, 1-2).

Os católicos cubanos sabem bem que irei para os confirmar na fé, essa fé que às vezes foi tão provada, e para juntos sa amada Nação, e de novo confio-vos à materna intercessão da Virgem da Caridade do Cobre, Rainha e Padroeira de Cuba. Vaticano, 20 de Dezembro de 1997. A célebre imagem de Nossa Senhora da Caridade do Cobre 81ª Viagem Apostólica de João Paulo II Cuba: 21-25 de Janeiro de 1998 proclamarmos, como São Pedro diante de Jesus: «Tu és o Cristo, o Filho de Deus vivo» (Mt 16, 16). Desejo percorrer caminhos de paz por diversas dioceses de Cuba, chegando até ao coração mesmo da Nação, aos pés da sua Rainha, Mãe e Padroeira, a Virgem da Caridade do Cobre. Sobre a sua excelsa fronte colocarei a coroa que os seus filhos lhe oferecem, a coroa de ouro purificado no crisol dos anos da fé conservada e com as pérolas preciosas das boas obras dos seus filhos.

Aproxima-se o momento em que, com a graça de Deus, me encontrarei convosco na vossa terra para juntos louvarmos e bendizermos a Deus e proclamarmos a sua Palavra de vida, que exorta cada um a abrir de par em par as portas do seu coração a Cristo, o Senhor.

Espero que depois da minha visita a Igreja, que terá podido dar público testemunho da sua fé em Cristo e da sua dedicação à causa do homem ao redor do Sucessor do Apóstolo Pedro, possa continuar a dispor, cada vez mais, da liberdade necessária para a sua missão e dos espaços adequados para a levar a cabo plenamente e continuar a prestar o seu serviço ao povo cubano.

4. A todos os cubanos desejo um Feliz Natal e um próspero Ano Novo, pondo no umbral de Belém, diante dos olhos de Jesus Cristo, o Salvador dos homens, as esperanças legítimas que a minha peregrinação à sua Ilha suscitou, certo de que Deus, que começou esta obra, a levará Ele mesmo ao seu termo.

À espera de vos conceder pessoalmente a Bênção Apostólica nas celebrações que em breve nos dispomos a viver, invoco ao Senhor todos os géneros de dons sobre os filhos e filhas dessa amada Nação, e de novo confio-vos à materna intercessão da Virgem da Caridade do Cobre, Rainha e Padroeira de Cuba.

Vaticano, 20 de Dezembro de 1997.

JOÃO PAULO II

DISCURSO DO SANTO PADRE AO NOVO EMBAIXADOR DA BOLÍVIA JUNTO DA SANTA SÉ POR OCASIÃO DA APRESENTAÇÃO DAS CARTAS CREDENCIAIS

20 de Dezembro de 1997

Senhor Embaixador

1. É-me grato receber Vossa Excelência nesta Audiência, durante a qual me apresenta as Cartas que o acreditam como Embaixador Extraordinário e Plenipotenciário da República da Bolívia junto da Santa Sé. É com prazer que lhe dou as boas-vindas, no momento em que assume a nobre responsabilidade que o seu Governo, tendo em consideração a sua experiência pessoal nos campos da cultura e da diplomacia, lhe quis confiar, com o desejo de continuar e fortalecer as boas relações existentes entre o seu País e esta Sé Apostólica.

Agradeço-lhe as amáveis palavras que me dirigiu, e de modo especial a saudação do General Hugo Bánzer Suárez, que recentemente assumiu o cargo de Presidente da República. Aprecio não só o desejo duma colaboração leal e construtiva, mas também a proximidade e o afecto do povo boliviano para com a Santa Sé e a pessoa do Papa. Hoje, tendo transcorrido quase dez anos após a minha visita ao seu amado País, correspondo a esses nobres sentimentos dos bolivianos, repetindo as palavras que proferi ao sobrevoar o Santuário de Copacabana: «contudo, sinto-me entre vós» (Radiomensagem, 14 de Maio de 1988; ed. port. de l'Osserv. Rom. de 29.5.1988).

2. Ao terminar a minha Visita pastoral ao seu País em 1988, ressaltava que «o povo da Bolívia vai conseguindo sucessos positivos no desenvolvimento civil e institucional» (Despedida em Santa Cruz, 14 de Maio de 1988, 4). Alegro-me por este percurso ter continuado durante os últimos anos, porque a estabilidade na organização dos povos é uma premissa indispensável para poder abordar com mais expectativa de bom êxito o grande desafio de progredir no bem comum, de modo que todos os cidadãos possam viver plenamente de acordo com a sua dignidade.

É importante lançar bases firmes para os grandes projectos, tal como o propósito de construir um País melhor, no qual os seus cidadãos possam alcançar as condições de vida que lhes consintam um pleno desenvolvimento material e espiritual. Neste sentido, deve-se considerar que a luta contra a marginalização e a pobreza extrema de uma parte dos habitantes requer uma política económica adequada, aplicando os princípios da equidade e da solidariedade. Encorajo, portanto, os governantes do seu País a empenharem-se por alcançar estes objectivos tão importantes para toda a sociedade boliviana.

3. As boas relações existentes entre a República da Bolívia e a Santa Sé reflectem o apreço duma Nação majoritariamente católica pelo Sucessor de Pedro, bem como a solicitude pastoral que ele, como Pastor de toda a Igreja, sente por todos os Povos. Elas são também uma garantia para o exercício da missão da Igreja no seu País, no sinal duma colaboração cordial e, ao mesmo tempo, de um autêntico respeito das respectivas competências.

A Igreja, na sua missão de iluminar a realidade humana à luz da fé, contribui para a construção duma sociedade melhor, ensinando e promovendo os valores aos quais nem a pessoa nem a sociedade podem renunciar sem renegar a sua própria identidade: o valor da vida humana, fonte de todo o direito; o reconhecimento da família como célula fundamental da sociedade; a liberdade religiosa, a educação e a solidariedade, sobretudo com os mais necessitados.

4. A Igreja na Bolívia possui uma grande história, desde os tempos em que os primeiros missionários chegaram aos mais longínquos lugares da sua geografia, para levar a luz do Evangelho e anunciar a grandeza da vocação cristã, que é ser filho de Deus.

Esta história implica também uma grande responsabilidade perante um povo de profunda tradição cristã, como o seu País. Tenho a certeza de que os fiéis bolivianos, sob a guia espiritual dos seus Pastores, não deixarão de trabalhar intrepidamente pelo progresso da Nação, esforçando-se por superar os problemas existentes, graças à esperança que não desfalece perante as dificuldades e os obstáculos.

5. Faço votos por que o caminho do diálogo para resolver os principais problemas, internos e externos, obtenha os frutos desejados para o bem de todo o povo boliviano. Desejo-o de todo o coração, porque o diálogo conduz à concórdia e à colaboração entre todos, tão necessárias para superar os grandes desafios que essa Nação deve enfrentar. De facto, a participação activa num plano comum torna os projectos mais convincentes, a capacidade de colaborar neles mais generosa e o empenho por alcançar os objectivos mais forte.

Senhor Embaixador, ao terminar este encontro, renovo a minha saudação e as boas-vindas tanto a Vossa Excelência como à sua distinta família, e desejo-lhe um frutuoso trabalho, juntamente com os seus colaboradores, em favor do seu País. Ao confiar todos estes sentimentos e esperanças a Nossa Senhora de Copacabana, invoco sobre o querido povo boliviano abundantes bênçãos do Altíssimo.

DISCURSO DO SANTO PADRE JOÃO PAULO II AO ARCEBISPO DE LUXEMBURGO EM VISITA "AD LIMINA APOSTOLORUM"

1. No momento em que Vossa Excelência efectua a sua Visita ad Limina, tenho a alegria de o acolher na Casa do Sucessor de Pedro. Para cada Bispo, trata-se de uma ocasião incomparável para confirmar o próprio ministério, orando junto dos túmulos dos Santos Pedro e Paulo, e viver tempos fortes de comunhão eclesial, graças aos diferentes encontros com os membros dos Dicastérios da Cúria. Que os Apóstolos lhe concedam a graça de continuar a sua missão pastoral na alegria, com a força e a luz dadas pelo Espírito Santo!

2. No seu relatório quinquenal, Vossa Excelência fez-me partícipe da vitalidade espiritual da Arquidiocese de Luxemburgo. Na perspectiva do Grande Jubileu e da nova evangelização que a Igreja tem de cumprir no decurso do terceiro milénio, Vossa Excelência empenhou a comunidade diocesana num caminho sinodal, intitulado Igreja 2005: a caminho com Jesus Cristo, juntos em favor dos homens. Assim, de modo oportuno, os pastores e os fiéis foram convidados a contemplar Cristo e o mistério cristão, através de propostas de formação, de um acolhimento constantemente renovado da Palavra de Deus, de um aprofundamento da liturgia e de uma vida comunitária mais intensa. Com efeito, é através de um caminho espiritual e intelectual, que todos os membros do povo de Deus fazem aumentar a sua fé e se empenham mais deliberadamente na missão, cada um segundo o próprio carisma e o serviço que lhe compete na Igreja e na sociedade.

3. Quero prestar homenagem ao trabalho realizado pelos sacerdotes, que se dedicam a transmitir de maneira fiel o Evangelho, o ensinamento da Igreja, em particular a mensagem conciliar, a guiar e santificar o povo cristão, a fim de que todos os homens se tornem discípulos de Cristo. Tenho conhecimento da importância e da multiplicidade das suas tarefas, em especial numa época em que a falta de sacerdotes começa a fazer-se sentir duramente. Exorto-os a não desanimar, a permanecer vigilantes na oração e na vida espiritual. Eles reavivarão assim o dom que Deus neles depositou pela imposição das mãos (cf. 2 Tm 1, 6), para exercerem plenamente o ministério que lhes é confiado.

4. Os pastores são chamados a realizar a sua missão juntamente com os leigos, de maneira coordenada e sem confusão entre o que compete ao ministério ordenado e o que pertence ao sacerdócio universal dos baptizados. «Cada um, na sua unicidade e irrepetibilidade», deve oferecer-se «para o crescimento da comunhão eclesial como, por sua vez, recebe singularmente e faz sua a riqueza comum de toda a Igreja» (Exort. Apost. Christifideles laici , 28). Nesta perspectiva em que a riqueza e a diversidade devem ser postas ao serviço de todos, os sacerdotes são convidados «a reconhecer e promover sinceramente a dignidade e a participação própria dos leigos na missão da Igreja» (Conc. Ecum. Vaticano II, Presbyterorum ordinis, 9). Nas tarefas eclesiais que lhes podem ser confiadas em virtude do seu Baptismo e da sua Confirmação, ou nas associações de leigos em que participam, tendo-se em consideração os critérios de eclesialidade que tive ocasião de recordar (cf. Exort. Apost. Christifideles laici , 30), os fiéis sabem que não substituem o sacerdote ou o diácono, mas colaboram numa obra comum, a edificação do Corpo de Cristo, que é a Igreja, «a evangelização e a santificação dos homens» (Conc. Ecum. Vaticano II, Decreto sobre o apostolado dos leigos, Apostolicam actuositatem, 20).

5. Graças ao concurso harmonioso dos diferentes serviços diocesanos, Vossa Excelência intensificou a formação cristã dos adultos. Alegro-me com os esforços feitos neste sector. Estou certo de que já recolhe os frutos disto no seio da Igreja local, em particular na qualidade da liturgia e na colaboração dos fiéis nas diferentes tarefas eclesiais. Encorajo os leigos a perseverarem na sua participação activa na comunidade paroquial a que pertencem, pois é especialmente no seio da paróquia que se exprime o legítimo pluralismo das sensibilidades e dos modos de acção, e que se realizam úteis colaborações. Na Igreja, são-nos dados irmãos e irmãs para que tudo concorra em benefício do Corpo inteiro.

É também para enfrentar as questões morais do nosso tempo e renovar a ordem temporal que os leigos têm necessidade de aprofundar a mensagem evangélica sem cessar. Estarão, assim, melhor preparados para assumir compromissos e responsabilidades ao serviço dos seus irmãos, no contexto da sociedade civil, que se constrói sobre a base das normas objectivas da moralidade (cf. Conc. Ecum. Vaticano II, Gaudium et spes, 16). No mundo moderno marcado pelo materialismo e pelo poder do dinheiro, o ensinamento da doutrina social da Igreja é particularmente útil para recordar que o homem é o centro da vida social e que o desenvolvimento da solidariedade e da vida fraterna supõe «uma tomada de consciência mais viva das desigualdades» entre as pessoas e «uma conversão das mentalidades e das atitudes» (Ibid., 63). Sob este ponto de vista, a sua Arquidiocese tem também um papel específico no seio da grande Europa. Ao reconhecer os esforços importantes envidados pelos seus diocesanos no decorrer destes últimos anos no sector caritativo, exorto-os a continuar e intensificar o seu apoio aos homens e aos povos que têm necessidade da sua competência e da sua ajuda. Eles manifestarão assim, de maneira palpável, o sentido da catolicidade que é a abertura à universalidade, segundo o exemplo dado pelas primeiras comunidades cristãs (cf. Rm 16, 25-27).

6. Quereria exprimir os meus agradecimentos cordiais aos Institutos de Vida consagrada, cujo apostolado é muito apreciado. Em particular, convém sublinhar a importância da presença deles no ensino, onde numerosos jovens podem tomar consciência da própria vocação, e nos serviços à saúde. As instituições de formação da juventude devem merecer toda a atenção das comunidades cristãs e mobilizar muitos adultos, pais, professores, educadores, sacerdotes e religiosos. Os jovens têm necessidade de receber uma educação moral e espiritual apropriada e de ser acompanhados na maturação da sua personalidade, na preparação do seu futuro e na realização da sua vocação específica, tanto no matrimónio, como no sacerdócio ou na vida consagrada. A respeito disso, alegro-me com a nova vitalidade dos movimentos de jovens, como me foi relatado por Vossa Excelência. Eles têm um papel essencial a desempenhar no apostolado junto da juventude do seu país.

7. Por seu intermédio, dirijo também as minhas saudações afectuosas às comunidades melquita e ucraniano-católicas da sua Arquidiocese. Transmita os meus encorajamentos calorosos aos sacerdotes, aos diáconos, aos religiosos, às religiosas e a todos os fiéis, que são chamados a trabalhar em comunhão com Vossa Excelência na missão da Igreja. Invoco sobre a sua pessoa e a sua comunidade diocesana a intercessão materna de Nossa Senhora de Luxemburgo, Consoladora dos Aflitos, e de São Willibrord, e concedo-lhe de todo o coração a Bênção Apostólica.

PALAVRAS DO PAPA JOÃO PAULO II AOS PROMOTORES DO CONCERTO "NATAL NO VATICANO"

18 de Dezembro de 1997

Ilustres Senhores e Senhoras

Sinto-me feliz por vos receber neste encontro, que me permite manifestar-vos o meu apreço pela participação no tradicional Concerto «Natal no Vaticano», que já se realiza há cinco anos.

Saúdo e agradeço a todos de coração: aos membros da Orquestra Filarmónica de Montecarlo e aos maestros que a dirigirão, aos coros e aos grupos musicais que se exibirão, bem como a quantos organizaram a noite de gala. Desejo a todos satisfação e alegria, tanto nesta exibição como em qualquer outra iniciativa de carácter artístico e cultural.

Com a vossa participação no concerto de amanhã, manifestais sensibilidade por uma exigência muito sentida pela comunidade cristã de Roma: todos sabem que a iniciativa à qual aderistes generosamente está destinada a sensibilizar a opinião pública para o projecto de construir, até ao ano 2000, cinquenta igrejas para as comunidades paroquiais que ainda não dispõem de uma igreja. Trata-se de realizar, sobretudo nos bairros periféricos, onde recentemente se verificaram novas construções residenciais, lugares acolhedores para o culto, a catequese e as várias actividades sociais, culturais e desportivas. Tudo isto se insere no caminho da nova evangelização, na qual está empenhada de modo activo a Comunidade eclesial de Roma, em vista do Grande Jubileu do Ano 2000.

Ao fazer votos por que a manifestação tenha pleno bom êxito, desejo a cada um de vós serenas festas de Natal, ricas de alegria e paz. Corroboro estes votos com uma especial Bênção Apostólica que, de bom grado, torno extensiva às vossas famílias e entes queridos.

DISCURSO DO SANTO PADRE AO NOVO EMBAIXADOR DO TOGO JUNTO DA SANTA SÉ POR OCASIÃO DA APRESENTAÇÃO DAS CARTAS CREDENCIAIS

18 de Dezembro de 1997

Senhor Embaixador

1. Seja bem-vindo a esta casa na qual tenho a honra de receber Vossa Excelência, por ocasião da apresentação das Cartas que o acreditam como Embaixador extraordinário e plenipotenciário do Togo junto da Santa Sé.

Agradeço-lhe as saudações que me dirigiu em nome de Sua Excelência o Senhor Gnassingbé Eyadéma, Presidente da República do Togo. Ficar-lhe-ia grato se se dignasse transmitir-lhe as minhas deferentes saudações. Faço votos por que todo o povo togolês, sempre presente nos meus pensamentos e no meu coração, conheça a prosperidade e a felicidade, numa sociedade cada vez mais fraterna, fundada na justiça e na solidariedade.

2. Alegro-me com o que Vossa Excelência acaba de dizer acerca do empenho do Togo pelo fortalecimento das relações de cooperação e amizade entre os povos. Dado que a África ainda conhece muitos focos de tensão e de graves conflitos fratricidas, é necessário perseverar com convicção nos esforços comuns já empreendidos, a fim de que se estabeleça tanto no interior das nações como entre elas mesmas, uma verdadeira cultura da solidariedade. A busca de soluções apropriadas para os problemas vitais das populações, para que cada uma possa usufruir de condições de vida serenas e decentes, é uma prioridade para estabelecer uma paz duradoura.

3. No seu discurso, Vossa Excelência ressaltou também o objectivo perseguido pelo seu país para estabelecer um Estado de direito. De facto, a sua instauração é indispensável para permitir o afirmar-se duma democracia autêntica. Por conseguinte, a fim de trabalhar de maneira eficaz pelo progresso e desenvolvimento da nação, é dever dos responsáveis do Estado vigiar por que, na vida política e social, todos os cidadãos possam exercer os seus legítimos direitos e, mediante eles, beneficiar das liberdades indispensáveis. Dar a todos a possibilidade de eleger livremente os seus dirigentes e participar nas decisões políticas que orientam a vida comum, é uma prerrogativa essencial que permite conceder não apenas a alguns o que é direito de todos.

A própria liberdade está ordenada para a verdade, de modo particular quando diz respeito à compreensão do que é o homem e à percepção correcta do seu papel na vida social. Com efeito, a dignidade transcendente da pessoa humana deve guiar a acção política para garantir o futuro da liberdade. Como ressaltei em várias ocasiões, «a liberdade só é plenamente valorizada pela aceitação da verdade: num mundo sem verdade, a li- berdade perde a sua consistência e o homem acaba exposto à violência das paixões e a condicionalismos visíveis ou ocultos» (Centesimus annus , 46).

4. A Igreja católica, no que lhe diz respeito, deseja colaborar com lealdade na busca do interesse comum. Sem dúvida, a sua vocação não é gerir os assuntos públicos. Ela reconhece a legítima autonomia das instituições políticas, bem como a própria liberdade a seu respeito, a fim de poder anunciar sem impedimentos a Boa Nova do Evangelho e recordar as suas exigências. Ela dá um contributo específico à promoção do bem da comunidade nacional, ao discernir e encorajar tudo quanto permite ao homem viver e crescer em conformidade com a sua vocação, bem como combater tudo o que é contrário aos valores evangélicos e o que, por conseguinte em certas circunstâncias, se torna inaceitável.

De facto, para ser fiel à sua missão de serviço do Evangelho, a Igreja não pode deixar de se interessar pelos problemas concretos dos homens. Ao participar através dos seus membros na vida da sociedade, ela não é indiferente ao destino das pessoas e das comunidades humanas nem aos perigos que as ameaçam. É seu dever, então, propor de modo claro os valores que deveriam ser garantidos para que a dignidade e os direitos individuais e colectivos das pessoas sejam respeitados. Em numerosas situações, ela deve fazer-se a voz dos que não se podem exprimir. Pois a sua vocação é contribuir para a edificação duma sociedade justa e reconciliada, na qual todos possam encontrar o seu pleno desenvolvimento humano e espiritual.

Senhor Embaixador, aproveito esta ocasião solene para saudar com afecto todos os Bispos e os membros da comunidade católica do Togo, dos quais conheço o dinamismo evangélico. Encorajo-os vivamente a trabalhar, em união com todos os homens de boa vontade do seu país, para a edificação duma sociedade renovada e fraterna, na qual cada um encontre o seu lugar e possa fazer frutificar os dons que recebeu de Deus. Ao prepararmo-nos para celebrar o grande Jubileu do Ano 2000, convido- os a reanimar a sua esperança e a dar testemunho dela entre os seus irmãos.

5. Senhor Embaixador, no momento em que inicia a sua missão, apresento-lhe os meus melhores votos pela nobre tarefa que o aguarda. Tenha a certeza de que encontrará sempre aqui, junto dos meus colaboradores, o acolhimento atento e compreensivo do qual poderá ter necessidade.

Sobre Vossa Excelência, o povo togolês e quantos presidem ao seu destino, invoco de coração a abundância das Bênçãos divinas.

DISCURSO DO SANTO PADRE AO NOVO EMBAIXADOR DO SRI LANKA JUNTO DA SANTA SÉ POR OCASIÃO DA APRESENTAÇÃO DA CARTAS CREDENCIAIS

18 de Dezembro de 1997

Senhor Embaixador

É com prazer que hoje lhe dou as boas-vindas ao Vaticano e recebo as Cartas Credenciais com que Sua Excelência o Presidente Chandrika Bandaranaike Kumaratunga o nomeia Embaixador Extraordinário e Plenipotenciário da República Socialista Democrática do Sri Lanka junto da Santa Sé. Estou-lhe grato pelas saudações que me transmitiu da parte do Senhor Presidente e peço-lhe que comunique a Sua Excelência a certeza das minhas orações pela paz e prosperidade da nação inteira. Aproveito esta ocasião para afirma mais uma vez o meu profundo respeito pelo povo do Sri Lanka e pela rica herança espiritual e cultural do seu país.

A presença simultânea do Budismo, Hinduísmo, Islão e Cristianismo tem constituído uma fonte de enriquecimento para a sociedade cingalesa. A contribuição dos vários grupos religiosos no Sri Lanka é um valor inestimável para o desenvolvimento da nação no seu sentido mais pleno. Nos seus relacionamentos com outras nações, a Igreja católica segue o caminho do diálogo, e por ocasião da minha visita ao seu país em 1995, Senhor Embaixador, tive a alegria de experimentar pessoalmente a atmosfera de harmonia religiosa que o seu povo forjou ao longo dos séculos. Ao cumprir a sua missão espiritual, a Igreja trabalha no seio da sociedade civil para promover a justiça, a compaixão e o respeito pelo próximo. Uma sociedade que ignora ou negligencia a dimensão espiritual da vida torna-se demasiadamente condicionada pelas considerações materiais, enquanto diminui o seu respeito pelos valores superiores que derivam da dignidade da pessoa humana. Isto leva inevitavelmente à injustiça contra os mais vulneráveis: os pobres, os idosos e as pessoas frágeis. Por este motivo, o tradicional respeito cingalês pela religião é uma dádiva a valorizar e tutelar. Os líderes espirituais devem enfrentar o desafio de assegurar que a religião permaneça uma força em benefício da compreensão e da paz. A sociedade civil deve garantir e assegurar a liberdade religiosa necessária para a coexistência harmoniosa dos vários grupos que formam a nação.

A Santa Sé tem consciência de que o Governo do Sri Lanka se está a empenhar num projecto de Reforma constitucional e aprecia a solicitude do Governo em salvaguardar a longa tradição nacional de liberdade religiosa e de cooperação. Deve desejar que a nova Constituição ajude de maneira concreta a resolver o conflito étnico que tem deteriorado de forma tão grave o tecido da sociedade cingalesa, causando inúmeras vítimas. Vossa Excelência mencionou a complexa estratégia de paz do seu Governo, que inclui a «caravana da paz», destinada a familiarizar o povo com o problema. Qualquer estratégia semelhante só pode esperar no bom êxito se tornar possível um diálogo entre todas as pessoas em conflito. É essencial que todas as partes tenham uma atitude de abertura e, se for necessário, desejem assumir os compromissos que são precisos para equilibrar os interesses opostos. Uma paz justa deve promover a garantia do respeito pelos direitos legítimos de cada um, independentemente da origem étnica, da convicção política ou do credo religioso. Hoje, inúmeras ameaças à paz mundial derivam do contraste estridente entre a riqueza de alguns e a pobreza de muitos. Em inumeráveis ocasiões, a Santa Sé exortou a uma distribuição mais equitativa dos recursos, encorajando as nações mais abastadas a ser mais sensíveis às verdadeiras necessidades das nações em vias de desenvolvimento. As tentativas de resolver as principais dificuldades que se apresentam ao mundo na área do desenvolvimento devem inspirar-se no apreço do mistério transcendente da pessoa humana. Por este motivo, são inaceitáveis os programas de assistência que impõem condições degradantes para a dignidade e a liberdade humanas, ou destróem os valores importantes na cultura de uma nação.

Vossa Excelência mencionou a contribuição da Igreja católica para o progresso social do seu país. No campo da educação, é importante ter em mente a importância crucial da formação integral dos jovens, que são o futuro da nação. Os valores que eles aprendem hoje serão os mesmos que hão-de forjar o tecido social do seu país amanhã. É essencial que eles se tornem conscientes da dimensão espiritual da vida humana e sejam auxiliados a superar as tentações que a cultura materialista lhes pode apresentar. O apreço dos valores morais e a atitude de respeito pelo próximo são tão importantes quanto qualquer habilidade técnica que eles possam adquirir.

Quando os Bispos católicos do Sri Lanka vieram a Roma no ano passado, para a sua Visita ad Limina, falei sobre o facto de que «a contribuição da Igreja para o desenvolvimento integral da sociedade do Sri Lanka consiste em propor uma visão, na qual o progresso económico, político e social caminhe a par e passo com o desenvolvimento religioso, cultural e moral» (Ed. port. de L'Osservatore Romano de 7 de Setembro de 1996, n. 5, pág. 6). No mais íntimo da pessoa existe a sede de algo que a prosperidade material não pode satisfazer. A presença da Igreja em vários tipos de actividade social e na área da saúde fundamenta-se em primeiro lugar e sobretudo no mandamento do seu divino Fundador, que consiste em amarmos o nosso próximo como a nós mesmos. Ela possui uma missão diferente daquela das Autoridades políticas mas, no serviço da família humana, procura a cooperação activa com todos os homens e mulheres de boa vontade, e com as instituições sociais que mantêm uma justa hierarquia de valores e um entendimento genuíno do bem comum.

Sob a guia dos seus Bispos, os membros da Igreja católica no Sri Lanka estão sempre prontos a cooperar com os seus concidadãos budistas, hindus e muçulmanos no serviço do bem comum. Alguns deles sofreram muito devido ao conflito étnico, mas a sua esperança consiste em ajudar e cooperar nas iniciativas destinadas a garantir uma paz justa e duradoura. Eles continuarão a oferecer o seu contributo específico nas várias áreas do desenvolvimento social, da salvaguarda da vida e do progresso moral e religioso da nação.

Senhor Embaixador, no momento em que assume as suas responsabilidades, faço votos por que os vínculos de amizade existentes entre a Santa Sé e o Sri Lanka sejam fortalecidos ulteriormente. Asseguro-lhe que pode contar com a assistência dos diversos departamentos da Cúria Romana no cumprimento da sua missão. Torno extensivos os meus sinceros bons votos a Vossa Excelência, à sua família e aos seus colegas, e invoco sobre o Senhor Embaixador e sobre o povo cingalês abundantes bênçãos divinas.

DISCURSO DO SANTO PADRE AO NOVO EMBAIXADOR DA NORUEGA JUNTO DA SANTA SÉ POR OCASIÃO DA APRESENTAÇÃO DAS CARTAS CREDENCIAIS

18 de Dezembro de 1997

Excelência

É-me grato dar-lhe hoje as boas-vindas ao Vaticano e receber as Cartas Credenciais mediante as quais Sua Majestade o Rei Harald V o nomeia seu Embaixador Extraordinário e Plenipotenciário junto da Santa Sé. Aprecio enormemente a amável mensagem da parte de Sua Majestade e pediria que lhe transmitisse as minhas saudações, assegurando-lhe as minhas orações pela Família real e pelo povo da Noruega.

Durante a minha Visita pastoral de 1989, entrei em contacto com a rica herança cristã do seu país. As celebrações de há dois anos, por ocasião do Milénio da presença do Cristianismo na Noruega, recordou-nos o modo como os valores cristãos deixaram uma marca indelével. Essas celebrações convidaram o povo a reflectir sobre o próprio passado, sobre a tradição cristã que remonta ao regresso do neófito Rei Olavo I à Noruega no ano 995. O povo norueguês permitiu que a sua fé forjasse as suas atitudes recíprocas e manifestou esse património religioso na sua solicitude para com os compatriotas menos afortunados e os pobres de outras terras. Abrindo as próprias portas aos refugiados de várias nações, o seu país chama continuamente a atenção do mundo para o problema daquelas pessoas a quem falta os meios básicos de subsistência ou cujos direitos são espezinhados.

Neste compromisso nos assuntos internacionais, a Santa Sé orienta-se segundo o reconhecimento do valor intrínseco e dos direitos inalienáveis de cada pessoa humana. Esta é a mesma visão em que se encontra assente o compromisso da Igreja em todas as formas de autêntico desenvolvimento humano. Uma interpretação demasiadamente limitada do desenvolvimento, em termos de prosperidade material e económica, levaria a negligenciar uma das questões essenciais no que concerne à natureza e ao destino do homem, uma vez que a mera acumulação de bens não é suficiente para a felicidade humana (cf. Sollicitudo rei socialis , 28). Da mesma forma, o autêntico desenvolvimento humano exige uma compreensão do ser humano, não como um indivíduo isolado, mas como uma pessoa que vive e cresce dentro de uma comunidade. É importante que as pessoas gozem da liberdade de se expressar e de exprimir as suas convicções sociais e religiosas no seio da comunidade a que pertencem. Merecem particular atenção as instituições que, na sociedade, transmitem aos próprios membros um sentido do lugar reservado aos verdadeiros valores da vida e daquilo que conduz ao pleno desenvolvimento pessoal. Refiro-me em especial ao papel primordial da família e à importância do sector educativo. Mediante a sua participação nessas realidades e nas respectivas instituições sociais, os cidadãos desenvolvem um sentido de respeito e solicitude pelo próximo, que se exprime na firme e perseverante determinação de se empenhar em benefício do bem comum, por nós denominado solidariedade (cf. Ibid., 38).

No campo internacional, a solidariedade conduz à cooperação com as outras nações, consideradas como vizinhos a ajudar, e não como instrumentos destinados ao uso dos mais poderosos (cf. Ibid., 39). A atenção às exigências da solidariedade tem levado o seu país a ser particularmente generoso na partilha dos próprios recursos com os menos afortunados. Nesta área, a Igreja procura chamar a atenção para os valores que precisam de ser respeitados a fim de se obter um desenvolvimento genuíno. Ela procura recordar de modo constante à comunidade internacional que acima e além da assistência económica e técnica, a solicitude pelo desenvolvimento autêntico das outras nações exige o respeito pelos seus valores culturais e espirituais.

Tais valores e tradições representam um manancial do qual jorra a vida da nação. Eles indicam a direcção que se deve tomar a fim de assegurar o progresso harmonioso da sociedade. Contudo, hoje existe a tentação de relegar a dimensão espiritual à área particular. Se a referência ao espiritual e transcendental for eliminada da vida pública, torna-se muito fácil definir a pessoa humana em termos meramente biológicos ou sociológicos. Em tal situação, as pessoas correm o perigo de se renderem às forças que desejam e dispõem dos meios para impor os próprios pontos de vista. A experiência do século XX tornou-nos tristemente conscientes daquilo que pode acontecer a grupos e até mesmo a inteiras nações, quando se rejeita qualquer referência a uma lei superior. As nações tradicionalmente cristãs têm a particular responsabilidade de salvaguardar os valores que as tornaram aquilo que são e de haurir desses valores nos seus esforços por defender os direitos fundamentais, inclusive a liberdade religiosa e a liberdade de as minorias seguirem as próprias tradições dentro dos limites daquilo que serve o bem comum.

Embora conte um exíguo número de fiéis, a Igreja católica na Noruega, juntamente com as outras Comunidades cristãs, procura fortalecer os valores que forjaram a Noruega ao longo do último Milénio. O respeito pelos pobres e marginalizados, pelos idosos e portadores de deficiência, a defesa dos direitos das minorias e a promoção da família são importantes elementos da cooperação ecuménica. De igual modo a Igreja, que tem a peito a vocação transcendente e o bem integral da pessoa humana, não pode deixar de ser forte na sua tutela do carácter sagrado de toda a vida humana. Ela está persuadida de que o bem de cada sociedade humana e da própria comunidade política se funda no reconhecimento deste mesmo direito fundamental.

Senhor Embaixador, no momento em que assume as suas responsabilidades como Representante do Reino da Noruega, formulo-lhe cordiais bons votos. Os vários departamentos da Cúria Romana estarão sempre prontos a assisti-lo no cumprimento do seus deveres. Ao renovar a expressão da minha estima por Sua Majestade o Rei e pelo povo do seu país, invoco sobre Vossa Excelência as abundantes bênçãos de Deus Omnipotente.

DISCURSO DO SANTO PADRE AO NOVO EMBAIXADOR DA ERITREIA JUNTO DA SANTA SÉ POR OCASIÃO DA APRESENTAÇÃO DAS CARTAS CREDENCIAIS

Senhor Embaixador

É-me grato aceitar as Cartas Credenciais mediante as quais Vossa Excelência é designado Embaixador Extraordinário e Plenipotenciário do Estado da Eritreia junto da Santa Sé. É igualmente com alegria que recebo as saudações que Vossa Excelência me transmitiu da parte do Presidente, Sua Excelência o Senhor Isaías Afwerki, e pediria a amabilidade de lhe comunicar os meus sinceros bons votos pelo país e pelo bem-estar do seu povo.

Vossa Excelência referiu-se ao compromisso da Eritreia em assegurar a paz e a harmonia dentro das suas próprias fronteiras e em trabalhar com outras nações no processo de fazer da paz uma realidade na sua região. Neste empreendimento, o seu país há-de encontrar um parceiro disponível na Igreja católica que proclama em toda a parte a mensagem evangélica de verdade, justiça e paz. A Igreja e a comunidade política, cada qual no campo que lhe pertence, são independentes e autónomas. Contudo, cada uma delas serve a vocação pessoal e social dos mesmos seres humanos. Embora vivam num determinado período da história, os homens e as mulheres não se limitam ao sector temporal, pois são chamados à transcendência. Esta exaltante vocação e este sublime destino da pessoa humana deveriam constituir um importante elemento nas iniciativas sociais, económicas e políticas das pessoas, dos povos e também das nações.

É por fidelidade ao Evangelho e por solicitude pela pessoa humana que a Igreja na Eritreia se empenha nos campos da educação, na assistência à saúde e nos serviços sociais. Desta forma, ela procura contribuir para o desenvolvimento constante do seu povo, de maneira especial durante este período de reconstrução e de democratização, depois de uma guerra devastadora. A este propósito, é com gratidão que observo as amáveis palavras de reconhecimento de Vossa Excelência por tudo aquilo que a Igreja tem feito e continua a fazer em vista de edificar a sociedade eritreia.

Como Vossa Excelência sabe, no ano passado a Organização das Nações Unidas para a Agricultura e a Alimentação promoveu aqui em Roma um Encontro Mundial sobre a Alimentação. O tema em debate era a necessidade de garantir a segurança alimentar no mundo inteiro, especialmente diante das trágicas consequências da seca e da penúria em várias partes do planeta. Durante a última década, misérias terríveis provocaram enormes calamidades aos povos nessa região da África, e a carência de alimentos que se tem verificado nos passados anos continua a causar dificuldades e a semear mortes. No mundo inteiro ainda existem milhares de milhões de pessoas que sofrem devido à subalimentação e para isto ainda não se entrevê uma solução imediata. Por este motivo, como eu disse aos participantes no Encontro Mundial sobre a Alimentação, é ainda mais urgente e necessário que todas as pessoas trabalhem juntas para encontrar um modo de resolver esta situação, «a fim de que não haja mais, lado a lado, pessoas famintas e outras que vivem na opulência, pessoas muito pobres e outras muito ricas, pessoas às quais falta o necessário e outras que esbanjam em grande medida» (Discurso dirigido aos participantes no Encontro Mundial sobre a Alimentação, 13 de Novembro de 1996, ed. port. de L'Osservatore Romano de 23.XI.1996, n. 2, pág. 1).

Qualquer esforço despendido no sentido de resolver este problema exige decisões económicas e políticas da parte dos organismos governamentais, tanto nacionais como internacionais, destinados a encorajar e fortalecer a produção agrícola local e, ao mesmo tempo, salvaguardar a vida rural e preservar os recursos naturais. A assistência aos países em vias de desenvolvimento e as decisões que visam estabelecer os termos para o comércio justo e os acordos de crédito deveriam caminhar a par e passo com a estratégia para a partilha efectiva dos progressos tecnológicos e a formação apropriada das pessoas, de forma que os mesmos países sejam os agentes do seu próprio progresso.

É precisamente a promoção de tal cooperação entre os Estados que constitui um dos principais objectivos da actividade da Santa Sé no campo da diplomacia internacional, uma colaboração fundamentada no extremo respeito pela dignidade humana e pela solicitude para com as necessidades dos menos afortunados. É preciso um esforço conjunto da parte de todos os povos e nações. Quanto a isto, o mundo desenvolvido tem uma clarividente responsabilidade pela África, não só por motivos históricos, mas também porque não se pode obter genuinamente a paz se esta não for compartilhada por todos. É necessário um novo sentido de solidariedade para com a África, de maneira especial no cuidado do grande número de pessoas deslocadas e de refugiados, e na luta contra a epidemia da Sida. Todavia, esta assistência deveria respeitar plenamente as específicas estruturas e tradições sociais e culturais da África, uma vez que os africanos devem ser os construtores do próprio futuro.

Senhor Embaixador, ao assumir as suas responsabilidades na comunidade diplomática acreditada junto da Santa Sé, ofereço-lhe os meus bons votos pelo bom êxito da sua sublime missão. Asseguro-lhe que os vários departamentos da Santa Sé estarão sempre prontos a assisti-lo no cumprimento dos seus deveres. Invoco cordialmente sobre Vossa Excelência e sobre o querido povo da Eritreia as abundantes bênçãos de Deus Todo-poderoso.

DISCURSO DO SANTO PADRE AO NOVO EMBAIXADOR DO BENIM JUNTO DA SANTA SÉ POR OCASIÃO DA APRESENTAÇÃO DAS CARTAS CREDENCIAIS

18 de Dezembro de 1997

Senhor Embaixador

1. É-me grato acolher Vossa Excelência nesta casa em que lhe dou as boas-vindas, por ocasião da apresentação das suas Credenciais como Embaixador Extraordinário e Plenipotenciário do Benim junto da Santa Sé.

Sensibilizaram-me as palavras que Vossa Excelência me dirigiu. Elas testemunham a estima que o seu país tem para com as motivações de ordem espiritual e religiosa na vida nacional. Agradeço-lhe a deferente saudação que me transmitiu da parte de Sua Excelência o Senhor Mathieu Kérékou, Presidente da República do Benim. Peço que se digne transmitir-lhe os meus cordiais votos. Os meus desejos afectuosos cheguem também ao inteiro povo do Benim, nos seus esforços corajosos em vista do crescimento duma nação cada vez mais unida e mais justa. Deus conceda prosperidade e felicidades a todos!

2. No seu discurso, Vossa Excelência sublinhou que o seu país está resolutamente empenhado no processo de edificação duma sociedade democrática. Neste caminho difícil, o estabelecimento dum Estado de direito é uma prioridade que deve permitir a cada um gozar de todas as suas prerrogativas de cidadão, livremente e no respeito dum pluralismo legítimo. Uma das preocupações essenciais é também satisfazer as necessidades fundamentais de cada um e favorecer uma partilha honesta e equitativa dos benefícios e dos ónus. Para isto, é importante que a justiça presida à exploração e distribuição dos recursos nacionais.

3. Sinto-me feliz por saber que no Benim as relações entre a comunidade católica e os crentes do Islão são em geral serenas. Com efeito, «Deus quer que Lhe prestemos testemunho no respeito dos valores e das tradições religiosas próprias de cada um, trabalhando juntos pela promoção humana e pelo desenvolvimento a todos os níveis» (Ecclesia in Africa, 66). A edificação da nação exige que os crentes e, de modo mais amplo, todos os homens de boa vontade unam os seus esforços em prol do serviço do bem comum, manifestando assim que Deus os criou como membros duma mesma família humana e os selou com igual dignidade. Faço votos vivamente por que estas boas relações contribuam para manter a unidade da nação, que é indispensável para a manutenção e o fortalecimento da paz e da concórdia entre os cidadãos.

4. Num espírito de diálogo e de colaboração fraterna, a Igreja católica no seu país, através do empenhamento dos seus membros, toma uma justa parte na vida da nação. Com efeito, quer participar activamente, no lugar que lhe compete e segundo a sua própria vocação, no desenvolvimento humano e espiritual das pessoas. Ao colocar-se ao serviço de todos nos inúmeros sectores, como a educação, a saúde, a acção social e caritativa, ela contribui para o melhoramento das condições de vida da população e favorece o progresso da justiça e da convivência. Pelo testemunho que dá do Evangelho com palavras e acções, no respeito da liberdade e das convicções de cada um e também das comunidades humanas e religiosas, a Igreja cumpre a missão que recebeu de Cristo e que tem o dever imperioso de realizar. Ao rejeitar todas as divisões e oposições que põem em perigo a perseguição do bem comum, ela sabe que é chamada a trabalhar com ardor pelo estabelecimento duma verdadeira «civilização do amor».

5. Permita-me, Senhor Embaixador, saudar calorosamente por seu intermédio a comunidade católica do Benim e os seus Bispos. A recente erecção de novas dioceses e a constituição duma segunda Província eclesiástica no país atestam o dinamismo evangélico da Igreja no Benim. Convido os fiéis, em profunda união com os Pastores, a viverem com os seus compatriotas o amor universal de Cristo, numa atitude de respeito mútuo e de diálogo com todos. Assim, visto que nos aproximamos do terceiro milénio, eles contribuirão para a realização duma nação solidária e fraterna!

6. No momento em que tem início a sua missão, apresento-lhe os meus votos cordiais para a nobre tarefa que o espera. Esteja certo de que encontrará aqui, junto dos meus colaboradores, o acolhimento atento e compreensivo de que poderá ter necessidade. Sobre Vossa Excelência, o povo do Benim e os responsáveis da nação, invoco de todo o coração a abundância das Bênçãos divinas.

DISCURSO DO PAPA JOÃO PAULO II A CINCO NOVOS EMBAIXADORES JUNTO DA SANTA SÉ POR OCASIÃO DA APRESENTAÇÃO DAS CARTAS CREDENCIAIS

Quinta-feira, 18 de Dezembro de 1997

Excelências

1. É-me grato apresentar-vos as boas-vindas à Cidade eterna, por ocasião da entrega das Cartas que vos acreditam junto da Santa Sé como Embaixadores Extraordinários e Plenipotenciários dos vossos respectivos Países: Benim, Eritreia, Noruega, Sri Lanka e Togo. Nesta circunstância, renovo de bom grado a expressão da minha estima e amizade às Autoridades das vossas nações e a todos os vossos compatriotas. Sensibilizado pelas mensagens cordiais que Vossas Excelências me transmitiram da parte dos vossos Chefes de Estado, ficar-vos-ia grato se vos dignasseis retribuir as minhas deferentes saudações e os meus calorosos votos para as suas pessoas e para a sua sublime missão ao serviço dos seus concidadãos.

2. A fim de responder às esperanças e às aspirações legítimas dos povos à paz e ao bem-estar material e espiritual, convém evocar a importância do diálogo no seio das comunidades nacionais e também entre os países, diálogo que é a via da razão e um aspecto essencial da vida diplomática. Neste espírito, é necessário apoiar as nações que ainda devem desenvolver a sua vida democrática, a fim de permitir a participação do maior número de pessoas na vida pública. De igual modo, convido aqueles que exercem um papel no concerto das nações a fazerem tudo para favorecer a comunicação entre os povos e exortar os responsáveis da vida política e económica a prosseguirem na via da cooperação internacional. É óbvio – e a história tem demonstrado com frequência – que a violência ou a força jamais resolvem a longo termo as situações de conflito. Ao contrário, elas não fazem senão reforçar os particularismos de todos os tipos.

3. Na conclusão da Assembleia Especial do Sínodo dos Bispos para a América, que acaba de se realizar em Roma, os Pastores fizeram-se eco da voz dos pobres em numerosas ocasiões; com eles, não posso deixar de formular os meus votos por um empenhamento renovado da Comunidade internacional em favor dos países que ainda devem lutar de maneira mais intensa contra a pobreza, fonte de muitos males para as pessoas e os povos, em particular contra os flagelos da droga e da delinquência, sob todas as suas formas. Ao aproximar-se o terceiro milénio, é preciso desejar também uma tomada de consciência mais forte em favor do respeito de toda a pessoa, especialmente das crianças, que nem sempre podem receber a educação à qual têm direito, e que são objecto de múltiplas explorações, obrigadas a trabalhar por vezes em condições degradantes. Como diplomatas, estou certo de que Vossas Excelências são particularmente sensíveis a estes aspectos da vida na sociedade.

4. No momento em que iniciais a vossa missão, que vos permitirá conhecer ainda mais a vida e a acção da Sé Apostólica, apresento-vos os meus melhores votos e invoco a abundância das Bênçãos divinas sobre as vossas pessoas, famílias e colaboradores, bem como sobre as nações que representais.

DISCURSO DO SANTO PADRE À NOVA EMBAIXADORA DOS ESTADOS UNIDOS DA AMÉRICA JUNTO DA SANTA SÉ POR OCASIÃO DA APRESENTAÇÃO DAS CARTAS CREDENCIAIS

16 de Dezembro de 1997

À Sua Excelência Senhora Corinne Clairborne

É-me imensamente grato dar-lhe as boas-vindas ao Vaticano para a apresentação das Cartas Credenciais mediante as quais Vossa Excelência é designada Embaixadora Extraordinária e Plenipotenciária dos Estados Unidos da América junto da Santa Sé. Estou reconhecido pelas saudações que Vossa Excelência me transmitiu da parte de Sua Excelência o Senhor Presidente Clinton, e retribuo-lhe com bons votos tanto para ele como para o povo estadunidense.

Vossa Excelência representa uma nação que actualmente desempenha um papel crucial nos eventos mundiais. Os Estados Unidos da América têm uma onerosa e clarividente responsabilidade, não só pelo bem-estar do seu próprio povo, mas também pelo desenvolvimento e destino das populações do mundo inteiro. Com um profundo sentido de participação nas alegrias, esperanças, sofrimentos, ansiedades e aspirações de toda a família humana, a Santa Sé participa de boa vontade em todos os empreendimentos destinados à construção da paz e da justiça genuínas para todos. Estou persuadido de que, ao dar continuidade ao louvável trabalho dos seus predecessores, Vossa Excelência dedicará os seus inumeráveis talentos pessoais e a sua prolongada experiência na vida pública para revigorar a compreensão e a cooperação entre nós.

Os Fundadores dos Estados Unidos da América afirmaram a sua reivindicação à liberdade e independência, tendo como fundamento determinadas verdades – «evidentes por si sós» – acerca da pessoa humana: verdades que poderiam discernir-se na natureza humana, edificadas sobre esta pelo «Deus da natureza». Desta forma, quiseram dar origem não só a um território independente, mas a uma grande experiência daquilo que Jorge Washington denominou «liberdade ordenada»: uma experiência em que homens e mulheres pudessem gozar equitativamente de direitos e oportunidades, na busca da felicidade e no serviço do bem comum. Quando se lêem os documentos da fundação dos Estados Unidos da América, surpreende-se pelo conceito de liberdade neles contido: uma liberdade destinada a tornar as pessoas capazes de cumprir os próprios deveres e responsabilidades para com a família e o bem geral da comunidade. Os seus autores compreenderam claramente que não pode haver verdadeira liberdade sem a responsabilidade e a credibilidade morais, e que não pode existir felicidade sem o respeito e o apoio às unidades ou comunidades naturais em que as pessoas vivem, se desenvolvem e aspiram a melhores padrões de vida, em harmonia com os outros.

A experiência democrática estadunidense obteve bom êxito de muitas formas. Milhões de pessoas do mundo inteiro consideram os Estados Unidos da América como um modelo na sua busca de liberdade, dignidade e prosperidade. Todavia, o sucesso constante da democracia estadunidense depende da medida em que a nova geração, autóctone e imigrante, tornar sua as verdades morais a partir das quais os Fundadores traçaram o futuro da própria República. O seu compromisso em edificar uma sociedade aberta, com liberdade e justiça para todos, deve ser constantemente renovado se os Estados Unidos da América quiserem concretizar o destino ao qual os Fundadores consagraram a sua própria «vida... riquezas... e honra sagrada».

Estou feliz por observar que as suas palavras, Senhora Embaixadora, confirmam a importância que o Governo, nas suas relações com os países do mundo inteiro, atribui à promoção dos direitos do homem e especialmente do fundamental direito humano à liberdade religiosa, que constitui a salvaguarda de todos os outros direitos humanos. O respeito pela convicção religiosa desempenhou um papel essencial no nascimento e no primeiro período de desenvolvimento dos Estados Unidos da América. Em 1776 John Dickinson, Presidente da Comissão para a Declaração da Independência, fez a seguinte declaração: «As nossas liberdades não derivam das nossas Cartas, pois estas são apenas a declaração de direitos que já existem precedentemente. Não dependem de documentos nem de selos, pois provêm do Rei dos Reis e do Senhor da terra inteira» (cf. C. Herman Pritchett, The American Constitution, McGraw-Hill, 1977, pág. 2). Com efeito, pode-se perguntar se a experiência democrática dos Estados Unidos da América teria sido possível, ou qual seria o seu êxito no futuro, sem uma visão profundamente arraigada da providência divina, no que concerne às pessoas e ao destino das nações.

Enquanto se aproxima o Ano 2000 e os cristãos se preparam para celebrar o bimilenário do nascimento de Cristo, tenho exortado a um sério exame de consciência no que diz respeito às sombras que obscurecem o nosso tempo (cf. Carta Apostólica Tertio millennio adveniente , 36). Também as Nações e os Estados podem fazer deste tempo um período de reflexão sobre as condições espirituais e morais do seu bom êxito na promoção do bem integral do próprio povo. Seria verdadeiramente triste se agora as convicções religiosas e morais, sobre as quais a experiência estadunidense lançou as próprias bases, fossem consideradas como que um perigo para a sociedade livre, de maneira a negar às pessoas que com tais convicções sustentam a vida pública da nação, uma voz activa na resolução das questões políticas. Sem dúvida, a separação original da Igreja e do Estado nos Estados Unidos da América não constituiu uma tentativa de banir todas as convicções religiosas da área pública, como se Deus fosse expulso da sociedade civil. Com efeito, a vasta maioria dos estadunidenses, independentemente da sua persuasão religiosa, estão convencidos de que a profissão religiosa e a temática moral fundamentada na religião têm um papel vital a desempenhar na vida pública.

Nenhuma expressão do compromisso da sociedade em favor da liberdade e da justiça de todos pode ser mais elementar que a salvaguarda oferecida aos membros mais vulneráveis da sociedade. Os Estados Unidos da América fundaram-se sobre a convicção de que o direito inalienável à vida é uma verdade moral «evidente por si só», cuja fidelidade constitui um critério primário da justiça social. A história moral do seu país é a história dos esforços do seu povo por alargar o círculo de inclusão na sociedade, de tal forma que todos os cidadãos dos Estados Unidos da América possam gozar da tutela da lei, participar nas responsabilidades da cidadania e ter a oportunidade de oferecer a própria contribuição ao bem comum. Quando se exclui uma determinada categoria de pessoas – os nascituros, os enfermos ou os idosos – desta tutela, uma anarquia mortal subverte a compreensão originária da justiça. A credibilidade dos Estados Unidos da América dependerá cada vez mais da promoção de uma genuína cultura da vida e de um renovado empenhamento na edificação de um mundo em que os mais frágeis e vulneráveis são acolhidos e protegidos.

Assim como têm feito ao longo da história do seu próprio país, os católicos dos Estados Unidos da América continuarão a dar uma importante contribuição ao desenvolvimento da cultura e da sociedade estadunidenses. A Assembleia Especial do Sínodo dos Bispos para a América, que há pouco se concluiu, pôs em evidência a diversificação e variedade de actividades que os católicos, em virtude do compromisso em prol de Cristo, empreendem em vista do aperfeiçoamento da sociedade. Este trabalho de formação e promoção continue a florescer para o bem das pessoas, o fortalecimento das famílias e o benefício do povo estadunidense como comunidade.

Excelência, estes são alguns dos pensamentos suscitados pela sua presença aqui, como Representante diplomática do seu país. Estas reflexões evocam uma oração: que o seu país experimente um renascimento da liberdade, uma liberdade assente na verdade orientada para o bem. Assim, o povo dos Estados Unidos da América há-de consagrar a sua ilimitável energia espiritual ao serviço do bem genuíno de toda a humanidade. Tenha a certeza, Senhora Embaixadora, de que os vários Departamentos da Santa Sé estarão prontos a auxiliá-la no cumprimento da sua missão. Sobre Vossa Excelência e o povo dos Estados Unidos da América, invoco cordialmente as abundantes bênçãos divinas.

SAUDAÇÃO DO SANTO PADRE AOS DIRECTORES DA COMPANHIA AÉREA "ALITALIA"

16 de Dezembro de 1997

Senhor Presidente da Alitália Ilustres Senhores

É-me grato dar-vos as cordiais boas-vindas na circunstância desta visita, que ocorre tão próxima do Natal do Senhor depois de termos celebrado, há uma semana, a festa de Nossa Senhora de Loreto, padroeira dos Aviadores. A ocasião oferece-me portanto a grata oportunidade de vos apresentar para essas festividades uma dúplice felicitação, que desejo fazer extensiva a quantos, a vários títulos, colaboram nas actividades e no bom funcionamento do vosso trabalho, e às respectivas famílias. Saúdo o Presidente, Engenheiro Fausto Cereti, o Administrador Delegado, o Director-Geral, o Responsável das Relações com a Santa Sé e quantos se uniram a este encontro.

A minha gratidão para com a Alitália está ligada à cortesia e às gentilezas que sempre demonstrou para com o Papa, quando se aprestava como peregrino para visitar Países e Nações, a fim de confirmar os irmãos na fé e ali levar uma palavra de conforto e de esperança. Exprimo, pois, a todos os trabalhadores da vossa companhia o meu vivo apreço pela actividade que exercem, bem consciente de quanto é delicada e cansativa. Eles são um recurso indispensável, com o qual a vossa Sociedade enfrenta cada dia as tarefas para as quais foi instituída.

Ao desejar que as vossas fadigas sejam coroadas pelos sucessos esperados, invoco a protecção da Virgem de Loreto e concedo a cada um a Bênção Apostólica, que de bom grado faço extensiva às pessoas que vos são caras.

DISCURSO DO PAPA JOÃO PAULO II AOS MEMBROS DO DEFINITÓRIO GERAL DOS FRADES MENORES FRANCISCANOS

16 de Dezembro de 1997

Caríssimos Frades Menores!

1. É-me grato acolher-vos neste dia e apresento a todos uma saudação cordial, com as palavras familiares a São Francisco: «O Senhor vos dê a paz». Agradeço-vos a vossa visita: viestes para renovar aqueles vínculos de íntima comunhão com o Sucessor de Pedro, que o Pai Seráfico, na sua regra, quis que fossem o carácter distintivo da vossa Ordem.

Saúdo de modo particular o neo-eleito Ministro-Geral, Frei Giacomo Bini, e apresento-lhe os meus bons votos para a tarefa empenhativa que lhe foi confiada. O meu pensamento dirige-se, além disso, ao Frei Hermann Schalück que, com espírito de serviço, exerceu o seu mandato como guia da Ordem.

A vossa presença oferece-me, nesta manhã, a grata ocasião para fazer chegar aos vossos Confrades espalhados pelo mundo os sentimentos do meu reconhecimento pelo generoso e profícuo empenho de fidelidade a Cristo e de activa evangelização. O vosso trabalho apostólico, bastante apreciado, está orientado de vários modos para o cuidado especial dos pobres e dos menos afortunados, seguindo as pegadas do vosso santo Fundador.

2. Em Maio passado celebrastes o Capítulo Geral junto do Santuário da Porciúncula, lugar tão caro a Francisco, no qual ele foi iluminado acerca da sua vocação e onde teve início a sua fecunda obra espiritual e missionária, que assinalou uma grande renovação na Igreja e na sociedade de então. O gesto de vos reunirdes lá, para um acto de fundamental importância na vida de um Instituto religioso, assume um significado especial como expressão da vontade de remontardes às raízes do carisma que vos é próprio. A Porciúncula, esse lugar sagrado conhecido no mundo inteiro, voltou às crónicas por causa dos trágicos eventos do recente terremoto, que abalou a Úmbria e as Marcas, deixando no povo e nas estruturas profundas feridas que ainda devem ser curadas.

Ao falar da Porciúncula, como não recordar o famoso convite ali dirigido a Francisco: «Vai e repara a minha Igreja»? Atentos aos sinais dos tempos, quisestes apreender todos os apelos para intensificar o entusiasmo e a generosidade do vosso serviço à Igreja, com grande e imutável fidelidade ao espírito das origens. Acolhendo as sugestões do Espírito do Senhor quisestes abrir-vos, numa linha de dinâmica continuidade com a vossa autêntica tradição, às expectativas e aos desafios do presente, a fim de cooperardes na guia dos homens ao encontro com o Senhor que vem.

Se graves são os terremotos que atingem as estruturas materiais, não devem ser esquecidos outros fenómenos, talvez ainda mais preocupantes, que transtornam a existência das pessoas e põem em evidência a ausência e o vazio de humanidade e do sentido de Deus. Quero referir-me aqui à diminuição do respeito pela dignidade do homem e pela intangibilidade da sua vida, à indiferença religiosa e ao ateísmo prático, que afastam o pensamento de Deus do horizonte da vida, abrindo a via a um perigoso vazio de valores e de ideais.

São os desafios do nosso tempo que, se por um lado induzem a olhar com preocupação para o futuro, por outro, interpelam com vigor a comunidade dos crentes para que os recolha e os enfrente com urgência. O tempo é breve, adverte-nos a liturgia do Advento, e é necessário preparar o caminho para o Senhor que vem. Este espírito, típico do tempo litúrgico que estamos a viver, deve animar a inteira actividade de qualquer Instituto religioso.

Os meus mais ardentes votos são por que ele penetre sempre mais intensamente também a vossa Família religiosa, chamada a levar o Evangelho da alegria e do amor aos homens do nosso tempo. A missão que vos compete, portanto, em vista do terceiro milénio, é partir de novo das origens para intensificar a atenção aos irmãos, promovendo uma acção pastoral actualizada segundo o vosso carisma. No centro desta empenhativa renovação apostólica está a escuta de Deus, no estilo de vida contemplativa típica de São Francisco. Ele gostava de repetir que «o pregador deve antes haurir no segredo da oração aquilo que depois efundirá nos discursos». Ao desejar-vos que sigais com fidelidade os passos do vosso Pai Seráfico, invoco sobre vós e sobre a Ordem inteira a renovada efusão dos dons do Espírito Santo, para que vos sustentem e vos guiem no vosso serviço a Cristo e à Igreja.

Desejo a todos um santo Natal, com os bons votos de um novo ano repleto de paz e de alegria. Com estes sentimentos, abençoo-vos a todos.

DISCURSO DO SANTO PADRE AOS REDENTORISTAS POR OCASIÃO DO TERCEIRO CENTENÁRIO DO SANTO FUNDADOR

15 de dezembro de 1997

Caros Padres da Congregação do Santíssimo Redentor!

1. Com alegria apresento as minhas boas-vindas a vós que representais a inteira família espiritual, fundada por Santo Afonso de Ligório, e que, após o recente Capítulo Geral, quisestes encontrar-vos com o Sucessor de Pedro para lhe renovar a expressão da vossa adesão e dos vossos sentimentos de plena comunhão.

Saúdo o Padre Joseph William Tobin, novo Superior-Geral, e apresento-lhe os meus bons votos para a empenhativa missão a que foi chamado. Agradeço ao Padre Juan Maria Lasso de la Vega, que durante os anos de serviço como Moderador Supremo dos Redentoristas se prodigalizou por conduzir o Instituto para uma sempre mais consciente adesão ao carisma do Fundador, do qual recentemente comemorastes o terceiro centenário do nascimento.

Ao saudar com afecto cada um de vós, desejo fazer chegar o meu pensamento cordial a todos os Redentoristas que trabalham na Igreja com generosidade, competência e fiel adesão ao Evangelho.

2. A celebração do aniversário do nascimento de Santo Afonso foi para o vosso Instituto uma ocasião propícia para fazer ressaltar como a opção radical pelo Evangelho, a fidelidade à Palavra de Deus, a comunhão profunda e sincera com a Igreja e a solidária proximidade aos pobres levaram o grande Doutor da Igreja a criar, na sua época, um novo estilo de evangelização. Ao mesmo tempo, o seu exemplo e o seu ensinamento confirmam a original actualidade da sua mensagem na comunidade cristã contemporânea, iluminando a via a seguir também hoje, enquanto estamos a caminho rumo ao terceiro milénio.

Ele não cessou de sublinhar como era necessário ser fiel às opções, às palavras e ao estilo com que o Redentor foi entre os homens o evangelho de Deus. Com efeito, na sua Regra sempre recomendou «seguir o exemplo de Jesus Cristo, pregando a Palavra de Deus aos pobres» e tornando-se, ele mesmo, exemplo e modelo de quantos se encontravam a exercer um ministério apostólico ou pastoral.

O «zelo pela casa do Senhor» (cf. Sl 68, 10) tornou-o mestre e testemunha para tantos dos seus contemporâneos e o seu ensinamento continua, ainda hoje, a alimentar o pensamento e a acção da Igreja.

O empenho pastoral despendido com generosidade e competência tirava a linfa vital da ardente e constante oração, que caracterizaram a sua existência. Do íntimo diálogo com a Fonte da Sabedoria hauria as respostas com que ilumi- nar, encorajar e confortar quantos a ele se dirigiam em busca de orientação e apoio.

3. Caríssimos Irmãos, a figura do vosso Fundador, sempre tão actual, constitui um dom para a Igreja e um precioso estímulo para a vossa Congregação, chamada a uma renovada e entusiasmante adesão a Cristo. Olhando para Ele, podeis trabalhar com maior generosidade ao serviço da nova evangelização, na qual a Igreja inteira está hoje empenhada. Sem dúvida, as formas do anúncio do Evangelho devem ser corajosa e constantemente adequadas às situações concretas dos diferentes contextos em que a Igreja vive, mas isto comporta ainda um maior esforço de fidelidade às origens, a fim de que o estilo apostólico, que é próprio da vossa família, possa continuar a responder às expectativas do povo de Deus. Sei que este é o empenho que vos anima e exorto-vos a caminhar com coragem nessa direcção.

Estai prontos, caríssimos, a cumprir com renovado vigor a vossa missão entre os pobres de Cristo, anunciando- lhes o Evangelho da esperança e da caridade.

A Virgem Santa, Mãe do Redentor, que vós amais com afecto particular, vos sustente sempre e obtenha para vós abundantes frutos apostólicos.

Com estes sentimentos e renovando, em nome da Igreja, o agradecimento mais profundo pela vossa acção ao serviço do Evangelho, de coração concedo-vos a minha Bênção e de bom grado faço-a extensiva ao vosso inteiro Instituto.

DISCURSO DO PAPA JOÃO PAULO II AOS MEMBROS DA LIGA ITALIANA PARA A LUTA CONTRA OS TUMORES

Sábado, 13 de Dezembro de 1997

Excelentíssimas Senhoras e Senhores!

1. Tenho o prazer de apresentar as minhas cordiais boas-vindas a vós que, de diversas regiões da Itália, viestes a Roma para ressaltar, com uma peregrinação aos túmulos dos Apóstolos, o septuagésimo aniversário de fundação da vossa Associação. Saúdo, em particular, o Presidente da «Liga italiana para a luta contra os tumores» e agradeço-lhe os sentimentos manifestados no seu nobre discurso.

Saúdo os Membros do Conselho directivo central, os Presidentes das Secções provinciais e o Comité científico. Desejo, ao mesmo tempo, estender a minha afectuosa recordação a todos aqueles que se reconhecem nos altos ideais e nas actividades que a vossa Associação promove, ao serviço de quantos são atingidos por este mal, hoje infelizmente bastante difundido.

A vossa obra de pesquisa científica e de sensibilização da opinião pública acerca do «mal do século» é particular- mente meritória, porque se faz acompanhar de uma presença concreta ao lado de quem se encontra, de vários modos, atingido pelas dificuldades, sofrimentos e distúrbios causados por esta enfermidade.

Na experiência de cada dia, vós sentis concretamente como são complexas as situações que se criam quando a doença, em especial este tipo de doença, bate à porta de uma pessoa ou de uma família. Além das consultas médicas, é preciso um suporte psicológico e espiritual, pronto e fraterno: é necessário um apoio de solidariedade concreta. Neste âmbito muito já faz e pode fazer ainda mais a vossa benemérita Associação.

2. No decurso dos últimos anos, numerosos estudos epidemiológicos consentiram delinear uma ampla panorâmica sobre a incidência dos tumores no mundo e sobre os melhoramentos que se verificaram no campo da assistência médico-sanitária, graças aos progressos alcançados na pesquisa biomédica e nos cuidados sanitários. Isto levou a um considerável prolongamento da expectativa de vida destes doentes, e a um melhoramento da sua qualidade de vida. É necessário potenciar ulteriormente, com o contributo de todas as instituições interessadas, os vários tipos de cuidado que se demonstraram particularmente eficazes. Isto oferece a possibilidade de administrar de maneira válida as intervenções médico-assistenciais, em ordem ao maior bem do paciente. Em todo o caso, é preciso evitar intervenções inadequadas à real situação ou desproporcionadas aos resultados médicos, bem como acções ou omissões destinadas a provocar a morte, a fim de eliminar a dor.

3. Nunca como no caso dos doentes de tumor a medicina é chamada à sua tarefa mais difícil e delicada: ajudar o doente a viver a doença de modo humano e, para os crentes, a vivê-la segundo os recursos e as exigências próprias da fé cristã.

Nesta importante obra, que não se pode limitar apenas ao aspecto médico, mas deve necessariamente dilatar-se à consideração da inteira pessoa humana, a Igreja, sempre atenta a esta, de maneira especial quando está em dificuldade, oferece a sua contribuição. Precisamente porque considera o homem como a sua via privilegiada, ela olha de modo especial para quantos experimentam na sua carne as dores da doença. Iluminado pela fé, o sofrimento pode tornar-se participação no mistério da redenção (cf. Cl 1, 24): em Cristo o sofrimento recebe uma nova luz, que o eleva de simples e negativa passividade à colaboração positiva na obra da salvação, realizada pelo Filho de Deus, que para isto Se fez homem e veio habitar no meio de nós (cf. Jo 1, 4). À luz do Evangelho o sofrer adquire assim um sentido e um valor peculiar: não é energia desperdiçada, porque é transformado pelo amor divino e, como tal, oferecido em comunhão com os sofrimentos de Cristo.

4. Excelentíssimas Senhoras e Senhores! Nesta perspectiva, grande importância reveste a dimensão ética e religiosa da vossa profissão, que não é arriscado qualificar como uma verdadeira missão. Dirigis-vos a pacientes que, afligidos pela angústia acerca do seu futuro, sentem esmorecer a esperança. Oferecendo a vossa contribuição para restabelecer a saúde física do ser humano, jamais deveis perder de vista a pessoa e o seu desejo de reencontrar a paz interior e a dimensão espiritual, que a podem revigorar no quotidiano caminho da vida. O vosso serviço não poderá, então, deixar de ser caracterizado por um amor autêntico a cada criatura humana, isto é, por aquele amor que o Verbo encarnado nos revelou e comunicou, de maneira extraordinária, no mistério da sua Encarnação.

Ao convidar-vos a perseverar, unindo as vossas energias no serviço de quem sofre, invoco a abundância dos favores celestes sobre vós e sobre as pessoas com as quais a vossa Associação entra em contacto, e apresento a cada um os melhores votos para o próximo Natal.

A todos concedo de coração a Bênção Apostólica.

DISCURSO DO PAPA JOÃO PAULO II NO ENCERRAMENTO DA ASSEMBLEIA ESPECIAL DO SÍNODO DOS BISPOS PARA A AMÉRICA

11 de Dezembro de 1997

Senhores Cardeais Caros Irmãos no Episcopado Caros Irmãos e Irmãs

1. Eis-nos no término da Assembléia Especial do Sínodo dos Bispos para a América. Neste momento a minha alma abre-se, antes de tudo, para a ação de graças a Deus, que está na origem «de todo dom precioso e toda dádiva perfeita » (Tg 1, 17). Provo um grande reconhecimento por todos aqueles que foram instrumentos de Deus, que fizeram parte desta riqueza espiritual para a sua Igreja, por ocasião da presente Assembléia sinodal.

A minha viva gratidão vai aos Padres, primeiros responsáveis pelo Sínodo, que trouxeram o peso do trabalho e agora têm o mérito e o resultado. Todos os dias os Presidentes Delegados conduziram a Assembléia de forma eficaz; os Relatores-Gerais e os dois Secretários Especiais ajudaram a desenvolver o tema sinodal com competência; o Secretário-Geral guiou com segurança o desenvolvimento complexo do Sínodo.

Os Delegados Fraternos de algumas confissões cristãs da América e um bom número de homens e mulheres vindos na qualidade de Assistentes e de Auditores, ofereceram um apoio rico de sentido.

Como podemos esquecer que a Assembléia foi preparada com a oração, a reflexão e a consulta a todas as Igrejas particulares e outros organismos escolhidos com este propósito, e também todos os diversos encontros do Conselho pré-sinodal? A cooperação harmoniosa dos numerosos componentes eclesiais e também aqueles dos diversos organismos e serviços da Sé Apostólica, certamente contribuiu para o bom êxito dos trabalhos.

Nós ainda temos presentes na memória as numerosas pessoas que acompanharam os trabalhos sinodais, com a oferta dos seus sofrimentos e das suas contínuas orações. A todos e a cada um vai a minha gratidão pessoal.

2. Assim, chegamos ao final desta interessante experiência eclesial, na qual verdadeiramente «caminhamos juntos» (syn-odos). O encontro de hoje nos oferece a possibilidade de fazer um primeiro balanço. Amanhã de manhã, durante a Celebração eucarística que terei a alegria de presidir na Basílica Vaticana, poderemos agradecer ao Senhor os frutos apostólicos obtidos nesta semana em favor do Continente americano, desde o Alasca até a Terra do Fogo, desde o Pacífico até o Atlântico.

No futuro, como se costuma fazer depois de cada Sínodo, tenho a intenção de emanar um Exortação Apostólica, que considerará as Proposições aprovadas pela Assembléia e toda a riqueza das intervenções e das diversas relações, com o objetivo de tornar eficazes as sugestões pastorais surgidas no decorrer dos trabalhos sinodais.

Estas jornadas que passamos juntos foram uma autêntica graça do Senhor. Vivemos um encontro especial com Jesus Cristo vivo, e percorremos unidos um caminho de conversão, comunhão e solidariedade. Sentimo-nos reunidos no nome de Jesus (cf. Mt 18, 19-20) graças à ação do Espírito Santo, que ilumina o presente e o futuro do Continente americano com a alegria da esperança que nunca defrauda (cf. Rm 5, 5). Através dos numerosos pronunciamentos, que recordaram a grandeza e a beleza da vocação cristã, todos fomos animados a seguir Cristo Pastor, Sacerdote e Profeta, cada qual na sua própria vocação.

O comum chamado para seguir Cristo nos fez sentir a situação preocupante na qual vivem muitos dos nossos irmãos e irmãs. Não poucos deles se encontram em situações contrárias à dignidade de filhos de Deus: pobreza extrema; falta de um mínimo de assistência no caso de enfermidade; analfabetismo ainda difuso; exploração; violência e dependência de droga. E o que dizer das pressões psicológicas exercidas sobre a população nas sociedades desenvolvidas que impedem, de diversas maneiras, seu acesso às fontes vivas do Evangelho: clima de desconfiança em relação à Igreja; campanhas anti-religiosas nos meios de comunicação social; influência perniciosa da permissividade; fascinação pela riqueza fácil, até mesmo aquela de origem ilegal. A denúncia destas lamentáveis situações apareceram em muitos pronunciamentos dos Padres Sinodais.

3. Por fim, junto a estas corajosas tendências, não deixastes de pôr em evidência motivos de esperança e de conforto. Um número sempre maior de jovens optam pela vida sacerdotal e religiosa, e oferecem seu dinamismo e sua criatividade na tarefa da nova evangelização. Muitos e beneméritos sacerdotes e tantas pessoas consagradas, fiéis ao carisma dos seus diversos Institutos, vos acompanham, Veneráveis Irmãos, no vosso apostolado. E como não lembrar tantos milhares de leigos que, em resposta ao vosso apelo, se fazem vossos íntimos colaboradores na ação apostólica? Eles cooperam dos modos mais distintos na obra da evangelização, especialmente no interior das pequenas comunidades de fiéis que, tanto no coração das grandes cidades como no campo e nos centros mais longínquos, se unem para orar e escutar a Palavra de Deus.

Há também leigos — homens e mulheres — que, na esteira da sua vocação laical específica, se esforçam com competência nos diversos campos da vida política, social e econômica para que ali penetre o fermento do Evangelho, a fim de construírem um mundo mais justo, mais fraterno e solidário. Sua ação intrépida e insubstituível é uma componente essencial da evangelização, tornando mais crível o anúncio explícito de Jesus Cristo, num mundo que necessita mais de gestos concretos que de palavras.

Durante este Sínodo, foi-nos dado refletir juntos acerca dos caminhos da nova evangelização, na busca de respostas de vida, de reconciliação e de paz a serem oferecidas a todo o Continente americano. A rica experiência de fraternidade, vivida nestas semanas, deve continuar como testemunho permanente de unidade para um Continente chamado, em seus vários setores, à integração e à solidariedade. Esta é uma prioridade pastoral que convida todos a oferecer a própria colaboração.

Várias vezes nesta Sala foi recordado como é importante dar hoje não só o que é supérfluo, mas o que é necessário, a exemplo da viúva citada no Evangelho (cf. Mc 12, 42-44). Se é verdade que no Continente americano, como em outras partes do mundo, os desafios são muitos e complexos, e as tarefas parecem superar as energias humanas, eu vos repito hoje a cada um: «Não tenhais medo! Ao contrário, apoiai toda vossa vida sobre a esperança que jamais engana».

4. Veneráveis Irmãos no Episcopado, caros Irmãos e Irmãs! Na medida em que o meu programa diário me permitiu, tive o prazer de acompanhar os trabalhos do Sínodo. Fiquei impressionado pelo chamado constante que emergiu das intervenções e dos intercâmbios: refiro- me ao convite à solidariedade. Sim, a solidariedade deve ser profeticamente encorajada e testemunhada na prática.

A solidariedade, unindo os esforços de cada pessoa e de todos os povos, contribuirá para a superação dos efeitos deletérios de algumas situações submetidas à nossa atenção durante o Sínodo: uma globalização que, não obstante os potenciais benefícios, produziu também formas de injustiça social, o pesadelo da dívida externa de alguns países para a qual urge encontrar soluções adequadas e equilibradas, a praga do desemprego devida, pelo menos em parte, aos desequilíbrios existentes entre os países, os difíceis desafios suscitados pela imigração e pela mobilidade humana, juntamente com os sofrimentos que estão na sua origem.

O processo sinodal nos levou a experimentar quanto são verdadeiras as palavras do Salmo: «Ecce quam bonum et quam iucundum habitare fratres in unum» (Sl 133, 1). A solidariedade nasce do amor fraterno que, quanto mais está radicado na caridade divina, mais é efetivo.

Possa Deus conceder, como fruto melhor deste Sínodo, um aumento da compreensão e do amor entre os povos da América. Recordo, como foi observado, o oposto do amor não é necessariamente o ódio; pode ser também a indiferença, o desinteresse, a falta de atenção. Nós desejamos entrar no novo milênio seguindo o caminho do amor.

Caros amigos, dentro de poucos dias retornareis às vossas Igrejas particulares para unir-vos aos vossos irmãos e às vossas irmãs na fé e levar adiante o trabalho deste Sínodo. Levai a eles a saudação do Papa e o seu abraço.

Eu continuarei a estar junto de vós na oração. Confio-vos à Providência de Deus e invoco sobre vós a luz e a força do Espírito Santo. Iniciamos juntos o ano dedicado especificamente a Ele, um outro significativo passo rumo à celebração do Grande Jubileu do Ano 2000. O Espírito opera a nossa conversão e nos coloca em comunhão com os nossos irmãos e irmãs. É Ele que nos leva a viver o maior dos dons: o amor cristão que hoje se exprime na solidariedade.

Nossa Senhora de Guadalupe, Padroeira de toda a América e Estrela da primeira e da nova evangelização, obtenha para nós a graça de experimentarmos e de vermos crescer os frutos abundantes da Assembléia Especial do Sínodo dos Bispos!

Concedo a todos vós a minha Bênção!

DISCURSO DO PAPA JOÃO PAULO II AOS MEMBROS DA PRESIDÊNCIA DOS CAVALEIROS DE COLOMBO

11 de Dezembro de 1997

Excelência Queridos Amigos

É-me grato saudar o Cavaleiro Supremo, Sua Excelência o Senhor Virgil Dechant, e os membros da Presidência dos Cavaleiros de Colombo. A vossa visita a Roma oferece-me o agradável ensejo para expressar a minha gratidão pelo enorme apoio espiritual e material que os Cavaleiros continuam a dar à missão da Igreja universal. Asseguro-vos o meu pessoal agradecimento pela vossa proximidade ao Papa no seu ministério de serviço ao Evangelho e de edificação de todos os discípulos de Cristo na fé e no amor.

O nosso encontro tem lugar durante a celebração da Assembleia Especial do Sínodo dos Bispos para a América, na qual os Pastores das Igrejas particulares do Continente americano estão reunidos para analisar os desafios da nova evangelização. Durante o Sínodo, testemunhamos a obra de um espírito de solidariedade cada vez maior entre os povos católicos da América do Norte e do Sul. Um papel essencial nesta grande tarefa de renovação eclesial cabe aos leigos e leigas, e estou persuadido de que os Cavaleiros, fiéis aos sublimes ideais do seu Fundador, hão-de contribuir para a transformação da sociedade mediante a sua constante fidelidade ao Evangelho.

Ao assegurar as minhas orações a todos os Cavaleiros e às suas famílias, concedo de coração a minha Bênção Apostólica, como penhor de júbilo e fortaleza em nosso Salvador Jesus Cristo.

MENSAGEM DE JOÃO PAULO II ÀS CELEBRAÇÕES DO 50° ANIVERSÁRIO DA PROMULGAÇÃO DA CARTA CONSTITUTIVA DAS "EQUIPAS DE NOSSA SENHORA"

Ao Senhor e à Senhora GÉRARD DE ROBERTY Responsáveis nacionais das Equipas de Nossa Senhora

1. No próximo dia 8 de Dezembro, as Equipas de Nossa Senhora, fundadas em 1937 pelo Padre Henri Caffarel, festejarão o quinquagésimo aniversário da promulgação da sua Carta. Nesta feliz circunstância, ao recordar-me da insigne figura do fundador do vosso movimento, uno-me de bom grado, com o pensamento e a oração, à acção de graças dos casais e das famílias provenientes da França, de Luxemburgo e da Suíça, unidos aos delegados de cinquenta e três países, para participarem nas celebrações que terão lugar em Paris. Alegro-me vivamente por esta reunião, que demonstra a vitalidade das Equipas de Nossa Senhora e a sua presença em todos os continentes.

2. O caminho do vosso movimento é uma escola de vida pessoal, conjugal e familiar. O sacramento do matrimónio, sinal da aliança entre Deus e o Seu povo, entre Cristo e a Sua Igreja, é ao mesmo tempo um caminho de santidade (cf. Lumen gentium, 11; cf. ibid., n. 41), um serviço à vida (cf. Evangelium vitae, 93) e o lugar do testemunho essencial dos cônjuges. A missão primordial do casal cristão consiste em viver plenamente as exigências da união: «a indissolubilidade e a fidelidade da doação recíproca definitiva» (Catecismo da Igreja Católica, n. 1643) e a abertura à fecundidade, para serem «as testemunhas daquele mistério de amor, que Deus revelou ao mundo com a Sua morte e ressurreição (cf. Ef 5, 25-27)» (Gaudium et spes, 52). Os «equipistas» tomam «consciência da sua missão de iipaternidade responsávelle», que comporta sobretudo uma «profunda relação com a ordem moral objectiva, estabelecida por Deus, e da qual a consciência recta é a fiel intérprete» (Paulo VI, Humanae vitae, 10). Os esposos descobrem, por fim, que no seu matrimónio «é o mistério pascal de morte e de ressurreição que se realiza» (Paulo VI, Discurso às Equipas de Nossa Senhora, 4/5/1970, n. 16); pois, através dos progressos da vida moral, cada um é aos poucos purificado e, no dom e no sacrifício de si mesmo, como nas inevitáveis dificuldades que podem experimentar o amor conjugal, o casal e a família edificam-se e consolidam-se. Na Igreja, a comunidade familiar compreende que é uma pequena igreja, composta de pecadores perdoados, que caminham pela vida da santidade, graças ao apoio daqueles que o Senhor reuniu num mesmo lar.

3. Os casais que participam num movimento, como as Equipas de Nossa Senhora, têm a peito usar os meios particulares, para afirmarem o «sim» do seu compromisso e viverem o seu amor, com a ajuda de outros casais. Durante os encontros, «equipistas» têm a possibilidade de aperfeiçoar a sua formação humana e cristã, e de partilhar aquilo que constitui a sua vida conjugal e familiar, no respeito da intimidade de cada lar. Eles dão graças pelo caminho percorrido e suplicam a assistência do Senhor. Recebem um novo impulso para o futuro e são sustentados para superar as dificuldades e as inevitáveis tensões da vida quotidiana. Os casais cristãos têm também um dever missionário e um dever de ajuda para com os outros casais, aos quais desejam legitimamente comunicar a sua experiência e manifestar que Cristo é a fonte de toda a vida conjugal. «Deste modo inserem no vasto contexto da vocação dos leigos uma nova e muito marcante forma do apostolado do igual para o igual; são os próprios lares que se fazem apóstolos e guias doutros lares» (Paulo VI, Humanae vitae , 26).

4. Os encontros regulares duma equipa conduzem cada um a assumir compromissos pessoais e conjugais, para a plena realização da sua própria vocação e para a consolidação do lar. Ao favorecer o sentido da escuta e do acolhimento, a fim de sustentar e fazer aumentar o amor no seio do casal, o movimento propõe oportunamente aos casais o «dever de se sentarem». No seu diálogo confiante, os esposos podem dar-se conta do seu amor, sem quererem julgar o outro e sem o temor de serem julgados, numa solicitude legítima de transparência interior e num espírito de ternura afectuosa e de perdão, propícios para o intercâmbio e o desenvolvimento das pessoas, e fonte de felicidade. Manifesta-se assim de maneira concreta a responsabilidade conjugal, que cada um recebe no sacramento: cuidar do outro e «ser um para o outro e para os filhos as testemunhas da fé e do amor de Cristo» (Lumen gentium, 35). A comunicação que se abre à comunhão profunda favorece a promoção das pessoas.

5. Constantemente renovados pelo diálogo do amor, que permite relações de qualidade, os casais são levados a viver na paz e na alegria, e a exercer plenamente as suas responsabilidades de esposos e de pais (cf. Evangelium vitae , 92). Isto constitui um testemunho eloquente, antes de tudo para os filhos. A educação dos jovens passa ao mesmo tempo pelo exemplo de um amor sereno que supera as dificuldades, e pelos inúmeros ensinamentos que podem ser dispensados quotidianamente. Em um mundo que tem a tendência a esquecer o papel da família, é preciso recordar sem cessar a importância do lar para os filhos. Através de uma vida familiar calorosa e aberta a cada um, os jovens podem superar as diferentes etapas do seu amadurecimento humano e espiritual. Como lugar importante do apostolado, «para que o poder do Evangelho resplandeça na vida familiar» (Lumen gentium, 35) e por ela no mundo, as famílias devem estar também conscientes da sua especial parte de responsabilidade no despertar das vocações e na formação dos jovens, que pensam no sacerdócio ou na vida religiosa (cf. Pastores dabo vobis , 107).

6. A minha oração une-se de igual modo a todos os lares e às famílias que conhecem a prova e fazem múltiplos esforços para salvar o vínculo que os une e para educar os próprios filhos. Possam encontrar na Igreja casais próximos deles para os ajudar! De igual modo, confio ao Senhor aqueles que estão separados, os divorciados e os divorciados novamente casados. Ao acolherem na fé a concepção autêntica do matrimónio, ensinada pela Igreja, que eles aceitem continuar a sua vida cristã no seio da comunidade, para o seu crescimento espiritual, cultivando um espírito de perdão e de penitência, e exercer juntos as responsabilidades familiares, em particular a educação dos filhos (cf. Familiaris consortio , 84)!

Encorajo os sacerdotes a tornarem-se disponíveis para serem os conselheiros espirituais das Equipas de Nossa Senhora. Eles cumprem uma missão sacerdotal eminente e, na amizade partilhada, encontram um dinamismo renovado para o seu ministério. Alegro-me também pelo facto de homens casados do vosso movimento terem aceite ouvir o apelo da Igreja, tornando-se diáconos permanentes. Devo ainda evocar o movimento das Equipas Jovens de Nossa Senhora, nascido há pouco mais de vinte anos. É um fruto do empenhamento de pais que transmitiram aos seus filhos o gosto da vida espiritual, da partilha fraterna e da busca da sua vocação autêntica, graças à ajuda de outros cristãos.

Possam os membros das Equipas de Nossa Senhora continuar com confiança e humildade os seus esforços, a fim de tenderem à perfeição cristã na vida conjugal e familiar! Neste espírito, ao confiar todas as Equipas e as suas famílias à intercessão de Nossa Senhora, concedo-lhes de todo o coração uma afectuosa Bênção Apostólica.

Vaticano, 28 de Novembro de 1997.

SAUDAÇÃO DO PAPA JOÃO PAULO II DURANTE A VISITA À BASÍLICA DE SANTA MARIA MAIOR

8 de Dezembro de 1997

Caríssimos Irmãos e Irmãs!

1. Depois da habitual homenagem à Virgem na «Piazza di Spagna», a minha breve peregrinação mariana do dia 8 de Dezembro conduz-me agora a esta antiquíssima Basílica, dedicada à Mãe de Deus, para me deter em oração diante do ícone da Salus Populi Romani, tão venerada pelos cidadãos e peregrinos.

Saúdo-vos, ó cheia de graça, Salvação do Povo Romano!

Venho a vós como Bispo de Roma e como vosso devoto. Venho como Pastor da Igreja universal, que em vós reconhece a própria Mãe e o próprio modelo.

Ao vir hoje a Santa Maria Maior, tenho a feliz oportunidade de dirigir uma saudação cordial a quantos estão ao serviço das exigências pastorais e administrativas da Basílica, ao Cabido Liberiano, aos fiéis presentes e aos peregrinos que, de todas as partes do mundo, aqui chegam em grande número.

Maria, com a sua materna protecção, ajude e conforte todos.

2. Tenho a alegria, além disso, de iniciar com esta minha visita à Virgem, santuário do Espírito, o segundo ano preparatório para o Grande Jubileu do Ano 2000, ano dedicado ao Espírito Santo.

A Maria confio o caminho da Igreja rumo à porta santa do terceiro milénio. Ela, Esposa do Espírito Santo e sua perfeita cooperadora, ensine a Comunidade cristã de hoje a deixar-se guiar e como que penetrar pelo Espírito divino, para que se revigorem nela os vínculos de caridade e de comunhão, e a todos chegue crível a mensagem de Cristo Salvador do mundo.

De modo particular, oro pela Assembleia Especial do Sínodo dos Bispos para a América, que se encaminha já para a sua conclusão. Obtenha a Virgem, venerada em tantos santuários daquele Continente, o dom de uma autêntica renovação para as Comunidades cristãs da América.

Dirijo-me, depois, à Salus Populi Romani, pedindo- Lhe que vele sobre a Missão desta Cidade, que agora entra no vivo do seu desenvolvimento. A intercessão de Maria sustente o empenho do Cardeal Vigário, dos Bispos Auxiliares, dos párocos e vice-párocos e de todos os sacerdotes, dos religiosos e das religiosas, dos missionários e das missionárias.

3. Deste coração mariano de Roma, oro por quantos vivem na nossa Cidade. Oro por todos, segundo a particular intenção sugerida por este lugar e pelo tempo litúrgico do Advento, invocando para cada homem e mulher, para cada família e ambiente de vida o dom da esperança.

Quantas são as expectativas desta cidade! Digne-se o Senhor fazer com que elas não permaneçam desiludidas, gerando desânimo e resignação.

Queira o Espírito Santo acender em todos a virtude da esperança, para construírem juntos a Roma do Ano 2000, uma cidade que seja sinal de esperança para o mundo inteiro.

Virgem Imaculada, Salus Populi Romani, rogai por nós!

HOMENAGEM JUNTO DO MONUMENTO À IMACULADA NA «PIAZZA SPAGNA»

ORAÇÃO DE JOÃO PAULO II

8 de Dezembro de 1997

1. Nós Vos saudamos, ó Filha de Deus Pai! Saudamo-Vos, ó Mãe do Filho de Deus! Saudamo-Vos, ó Esposa do Espírito Santo! Saudamo-Vos, morada da Santíssima Trindade! Apresentamo-nos diante de Vós com esta saudação, no dia da Vossa Festa, com confiança filial, e detemo-nos, como é tradição, aos pés desta histórica coluna, no encontro anual na Praça de Espanha. Deste lugar Vós, amada e venerada Mãe de todos, vigiais sobre a Cidade de Roma.

2. Permanecei connosco, Mãe Imaculada, no centro da nossa preparação para o grande Jubileu do Ano 2000. Pedimo-Vos que vigieis em particular sobre o tríduo, formado pelos últimos três anos do segundo milénio, 1997, 1998 e 1999, dedicados à contemplação do mistério trinitário de Deus. Desejamos que este nosso século, rico de eventos, e o segundo milénio cristão se encerrem com o selo trinitário. É no nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo que todos os dias iniciamos o trabalho e a oração. É ainda dirigindo-nos ao Pai celeste que terminamos cada uma das nossas actividades dizendo: «Por nosso Senhor Jesus Cristo, Vosso Filho, que vive e reina Convosco, na unidade do Espírito Santo». Deste modo, no sinal do mistério trinitário, a Igreja que está em Roma, juntamente com os crentes de todo o mundo, prossegue rezando rumo à conclusão do vigésimo século, para entrar com o coração renovado no terceiro milénio.

3. Nós Vos saudamos, ó Filha de Deus Pai! Saudamo-Vos, ó Mãe do Filho de Deus! Saudamo-Vos, ó Esposa do Espírito Santo! Saudamo-Vos, ó morada da Santíssima Trindade! Esta saudação ressalta quanto estais repleta da própria vida de Deus, do seu profundo e inefável mistério. Deste mistério Vós estais totalmente repleta, desde o primeiro instante da vossa concepção. Vós sois a cheia de graça, Vós sois a Imaculada!

4. Saudamo-Vos, ó Imaculada Mãe de Deus! Aceitai a nossa oração e dignai-Vos introduzir maternalmente a Igreja, que está em Roma e no mundo inteiro, naquela plenitude dos tempos, para a qual o universo tende desde o dia em que veio ao mundo o Vosso divino Filho e nosso Senhor Jesus Cristo. Ele é o Início e o Fim, o Alfa e o Ómega, o Rei dos séculos, o Primogénito de toda a criação, o Primeiro e o Último. N'Ele tudo tem o seu cumprimento definitivo; n'Ele todas as realidades amadurecem até à medida querida por Deus, no seu arcano desígnio de amor.

5. Nós Vos saudamos, ó Virgem prudentíssima! Saudamo-Vos, ó Mãe clementíssima! Rogai por nós, intercedei por nós, Ó Virgem Imaculada, nossa Mãe misericordiosa e poderosa, Maria!

DISCURSO DO PAPA JOÃO PAULO II AOS DIRIGENTES E ATLETA DO CLUBE DE FUTEBOL «ATALANTA»

6 de Dezembro de 1997

Caros Dirigentes e Atletas do «Atalanta»!

1. É-me grato acolher-vos, juntamente com os vossos familiares, e agradeço-vos esta vossa visita. Vindes de uma terra, a bergamasca, rica de tradições cristãs. É a terra onde nasceram o meu venerado predecessor, o Papa João XXIII, e numerosos Bispos e sacerdotes, missionários e missionárias, que trabalharam e continuam a trabalhar activamente pelo Reino de Deus, assim como muitos leigos empenhados com seriedade no serviço do próximo.

Desta tradição fazem parte também os «oratórios», nos quais uma componente importante da educação dos jovens é constituída pelo desporto. Penso que também alguns de vós, caros atletas, cresceram no ambiente dos oratórios, e que isto vos ajude a conservar uma visão equilibrada e completa do papel do desporto na formação e na vida pessoal e familiar.

2. O empenho desportivo pode ser um útil treinamento para a fortaleza, uma base para construir nos jovens uma personalidade harmónica, solidária e generosa, aberta à compreensão e à colaboração com os outros. O apóstolo Paulo, que conhecia o agonismo das competições desportivas, comparava o esforço do cristão, nalguns aspectos, àquele que um atleta consciencioso deve enfrentar. Faço votos por que também para vós seja assim: todo o encontro agonístico seja uma competição para o bem e para promover os autênticos valores da existência, com a tenacidade e o espírito de sacrifício que de vós são requeridos para os treinamentos e as «partidas».

E jamais esqueçais, caros atletas, que os outros, especialmente os jovens, olham para vós, visto que para eles sois modelos e muitas vezes importantes pontos de referência. Se o vosso testemunho for positivo, servireis de exemplo para os vossos numerosos «torcedores », que verão em vós não só óptimos jogadores, mas sobretudo jovens e homens amadurecidos e responsáveis.

3. Caríssimos, estamos a viver o tempo do Advento, tempo de preparação para o Natal, que mantém viva nos crentes a espera do Senhor que vem. A cada um de vós faço votos por que saiba encontrar Cristo que vem nos acontecimentos de cada dia.

Formulo votos por que as vossas famílias e a vossa sociedade sejam sempre mais lugares de serena partilha dos ideais evangélicos da solidariedade e da paz.

Além disso, aproveito a ocasião para apresentar a todos vós e aos vossos entes queridos os melhores votos para o próximo Natal, e de coração vos abençoo.

DISCURSO DO PAPA JOÃO PAULO II ÀS PARTICIPANTES NO XXIV CONGRESSO DO CENTRO ITALIANO FEMININO

Sábado, 6 de Dezembro de 1997

Caríssimas Irmãs!

1. Por ocasião do vigésimo quarto Congresso dessa Associação, é-me grato acolher-vos nesta especial Audiência. Saúdo cordialmente a vossa Presidente, Senhora Maria Chiaia, a quem agradeço as amáveis palavras, e saúdo igualmente as participantes no Congresso e todas as mulheres que aderem ao Centro Italiano Feminino.

A todas dirijo um vivo augúrio, acompanhado dos ardentes votos por que o vosso encontro — que tem por tema «Mulheres e cultura europeia rumo ao Terceiro Milénio» — possa favorecer a valorização da insubstituível contribuição da reflexão e da sensibilidade femininas nos rápidos processos que estão a atravessar a Itália e a Europa, neste último período do segundo milénio.

Iluminado pela fé, arraigado na inexaurível fonte da Revelação e inserido na vida da Igreja, o empenho feminino ao serviço da sociedade e da comunidade cristã pode validamente fazer ressaltar, nas formas apropriadas e em benefício de todos, aquele «génio» com o qual Deus Criador quis enriquecer a mulher.

2. As narrações evangélicas mostramnos que a atitude de Cristo para com as mulheres sempre se inspirou na afirmação da verdade sobre o seu ser e a sua missão. Com as palavras e as acções, Cristo opôs-Se a tudo o que ofendia a dignidade delas. A mensagem do Redentor, portanto, é obra de libertação, verdade que, uma vez conhecida, liberta (cf. Jo 8, 32) de maneira que quem nela vive se aproxima da luz (cf. Jo 3, 21).

Isto foi bem compreendido pela Mãe de Jesus e pelas discípulas que jamais abandonaram o Mestre, nem sequer quando parecia que a Sua vicissitude terrena devesse concluir-se com a tragédia da cruz. Para premiar esta fidelidade delas, Cristo quis escolhê-las como as primeiras testemunhas da Ressurreição (cf. Mt 28, 1-10; Lc 24, 8-11; Jo 20, 18).

A sensibilidade característica da feminilidade tornou as discípulas anunciadoras privilegiadas das grandes obras realizadas por Deus em Cristo (cf. Act 2, 11), manifestando assim a vocação profética que compete à mulher na Igreja e no mundo. «Na vocação assim entendida, a personalidade da mulher atinge nova medida: a medida das “grandes obras de Deus”, da quais a mulher se torna sujeito vivo e testemunha insubstituível » (Carta Apost. Mulieris dignitatem , 16). A sensibilidade feminina tornou- se riqueza para a comunidade dos crentes e instrumento insubstituível na edificação do humanismo cristão, que serve de fundamento para a «civilização do amor».

3. Caríssimas Irmãs, em virtude desta vocação específica, a mulher é chamada a ser sujeito activo nos processos que interessam sobretudo a ela mesma, tais como o respeito da sua dignidade pessoal, a efectiva igualdade de trabalhadora, a valorização dos contributos culturais e políticos que ela é capaz de oferecer à vida civil, o seu papel no anúncio do Evangelho, a promoção das riquezas da feminilidade nos âmbitos social e eclesial.

Mas a ela deve ser reconhecido, além disso, um maior espaço nos esforços que a sociedade realiza para resolver os problemas que a afligem. Em particular, o papel da mulher é mais que nunca importante naquilo que concerne à qualidade da vida e ao necessário cuidado do ambiente, à oferta de serviços sociais com atenção às autênticas necessidades da especificidade da pessoa, à humanização das providências legislativas a respeito dos fenómenos migratórios, à organização do tempo livre, à protecção da maternidade e da família, à afirmação da preeminência da dignidade humana sobre os processos produtivos e económicos, à educação das jovens gerações.

4. Esta obra de atenta promoção das especificidades humanas, espirituais, morais e intelectuais, que o génio feminino pode oferecer à sociedade contemporânea, torna-se ainda mais urgente na perspectiva do próximo milénio. Trata-se de valorizar as potencialidades típicas da mulher, complementares aos dons com que Deus enriqueceu a sensibilidade masculina. Ambas constituem um complemento recíproco e, graças a esta dualidade, o «humano» realiza-se plenamente.

Caríssimas Irmãs, deixai-vos guiar e sustentar pelo poder de Cristo Redentor; vivereis assim mais em profundidade a missão, a vós confiada por Deus, de servir a vida no amor, à imagem de Maria, «a escrava do Senhor» (Lc 1, 38). Esta missão impele-vos, mulheres, a ser protagonistas na humanização das complexas dinâmicas que interrogam ou afligem a humanidade do nosso tempo. Vós sois chamadas a ser construtoras de eficaz esperança, uma esperança que para os crentes se tornou firme pela graça do Espírito Santo, o Qual guia e sustenta as fadigas para a edificação de uma civilização e de uma história cada vez mais inspiradas nos valores evangélicos da justiça, do amor e da paz. No segundo ano, há pouco iniciado, de preparação para o evento jubilar do Ano 2000, o exemplo e a intercessão da Virgem, mulher dócil que, «esperando contra toda a esperança» (Rm 4, 18), deu ao mundo o Salvador, sirvam de apoio à vossa obra e à de tantas mulheres que, com a ajuda de Deus, querem e podem contribuir para a edificação de um mundo melhor.

Com estes bons votos e invocando a abundância dos favores celestes sobre vós e sobre as caríssimas irmãs que se reconhecem nos ideais do Centro Italiano Feminino, concedo a todas a minha cordial Bênção.

DISCURSO DO PAPA JOÃO PAULO II AO SENHOR ALTAN GÜVEN NOVO EMBAIXADOR DA TURQUIA JUNTO DA SANTA SÉ POR OCASIÃO DA APRESENTAÇÃO DAS CARTAS CREDENCIAIS

6 de Dezembro de 1997

Senhor Embaixador

É-me grato dar-lhe as boas-vindas ao Vaticano e receber as Cartas Credenciais que o designam Embaixador Extraordinário e Plenipotenciário da República da Turquia junto da Santa Sé. Estou- lhe reconhecido pelas cordiais saudações que me transmitiu da parte de Sua Excelência o Senhor Presidente Süleyman Demirel. Aproveito esta oportunidade para reconfirmar o meu profundo respeito pelo povo da Turquia, e peço- lhe que transmita a Sua Excelência a certeza das minhas orações e dos meus melhores votos pela paz e o bem-estar da nação.

Vossa Excelência referiu-se à amizade que desde há muitos anos tem caracterizado os relacionamentos entre o seu país e a Santa Sé. Compartilho a esperança de que se entreteçam formas de cooperação cada vez mais activas entre a Santa Sé e a Turquia. Quando ambas estão preocupadas em encontrar modos de refortalecer a paz mundial, existem muitas áreas abertas à compreensão recíproca e à entreajuda.

Dois princípios gerais constituem a base de todas as organizações sociais e o fundamento da paz no mundo. O primeiro é a dignidade inalienável de cada pessoa humana, independentemente da origem étnica, das características culturais ou nacionais ou ainda da crença religiosa. O segundo é a unidade fundamental da raça humana, que haure a sua origem do único Deus Criador (cf. Mensagem para a Celebração do Dia Mundial da Paz de 1989 , n. 3). O trabalho da Santa Sé em favor da promoção da paz está assente sobre o compromisso em salvaguardar a dignidade de cada ser humano. A dignidade humana diz respeito não só à existência individual da pessoa, mas também a fundamentais dimensões culturais e religiosas dos seus relacionamentos com os outros. Portanto, a harmonia genuína no seio de uma nação e entre os países só se pode manter se as diferenças naturais e legítimas entre os povos forem consideradas como uma realidade enriquecedora, em vez de serem reprimidas como causa de divisão. Vossa Excelência referiu-se ao problema da discriminação contra as pessoas que são obrigadas a procurar um trabalho fora do próprio país. À luz dos princípios mencionados, trata-se sem dúvida de uma problemática que deve ser abordada num espírito de diálogo e abertura à contribuição que, na diversidade das suas experiências e costumes, os imigrantes podem oferecer à sociedade que os acolhe. A harmonia genuína constitui o resultado do paciente e difícil diálogo entre as partes interessadas, um diálogo em que cada um busca o bem do outro enquanto salvaguarda o bem que lhe é próprio.

A rica herança histórica e cultural da Turquia inspira muitos dos seus compatriotas a terem em vista uma integração mais completa na Família europeia das nações. A interdependência sempre crescente entre as nações, em termos de relações comerciais e políticas, constitui um dado de facto da actual situação mundial. Contudo, é imperativo que esta interdependência progrida, transformando- se em efectiva solidariedade internacional. A solidariedade é uma firme e perseverante determinação em empenhar-se a favor do bem comum, isto é, do bem geral de cada um e de todas as pessoas, porque todos nós somos verdadeiramente responsáveis por todos (cf. Sollicitudo rei socialis , 38). Isto vale também para os países: jamais haverá paz genuína se um país prosperar enquanto o seu vizinho continuar a viver em necessidade. As nações mais abastadas e poderosas têm o dever de ajudar os países em vias de desenvolvimento, não só financeiramente, mas também nos campos da educação e da ciência, tendo em vista a sua promoção e progresso verdadeiros (cf. Populorum progressio , 48). Como uma ponte entre a Europa e a Ásia, o seu país recorda que as nações mais prósperas deste continente deveriam estar cada vez mais disponíveis a corresponder às necessidades dos povos, mesmo para além das suas fronteiras.

O desenvolvimento humano integral exige mais do que uma prosperidade material. O respeito rigoroso pelas necessidades culturais, morais e espirituais das pessoas e das comunidades, assente na dignidade da pessoa e na identidade específica de cada uma das comunidades, constitui uma condição essencial para o bem-estar de cada sociedade (cf. Sollicitudo rei socialis , 33). A este propósito, apraz-me tomar conhecimento, através das suas palavras, da contribuição que os católicos oferecem à sociedade turca e da segurança que lhes é garantida no que concerne à liberdade de praticar a própria fé. A liberdade religiosa, que inclui a liberdade do rito e da educação das futuras gerações na fé, é de importância fundamental para a harmonia cívica. Trata-se de uma condição para os grupos religiosos minoritários poderem considerar-se cidadãos do Estado a pleno título, encorajando-os a participar inteiramente no desenvolvimento da nação. Os membros da Igreja católica no seu país, embora sejam poucos, são orgulhosos da própria herança nacional e têm muito a peito o bem da sua pátria.

É importante que os vários grupos religiosos presentes em uma nação se relacionem uns com os outros, com respeito e tolerância recíprocos. O diálogo inter- religioso contribuirá sobremaneira para promover tais relações. A existência de diferentes grupos religiosos e étnicos no seio de uma determinada nação representa tanto um desafio como uma oportunidade, especialmente para os líderes políticos e os legisladores. As autoridades civis têm necessidade de estar muito conscientes das reivindicações legítimas dos vários grupos, correspondendo-lhes de maneira apropriada. O respeito pelas diversas tradições culturais e espirituais das pessoas que vivem dentro das fronteiras de um Estado permite que o próprio país em questão se apresente no seio da comunidade internacional como um exemplo da paz e da harmonia que deveriam triunfar no mundo inteiro.

Vossa Excelência falou sobre a importante ocasião do Grande Jubileu do Ano 2000. A terra da Turquia é rica de memórias das viagens missionárias do grande Apóstolo Paulo. Os primeiros sete Concílios ecuménicos tiveram lugar na região que hoje é o seu país. Nestes anos de preparação, os cristãos estão a reflectir sobre os mistérios da fé, muitos dos quais foram abordados pelos nossos antepassados na fé, durante os grandiosos Concílios realizados em Niceia, Constantinopla, Éfeso e Calcedónia. Para os cristãos, estes constituem pontos de referência fundamentais para a nossa fé em Deus e na Encarnação. O Jubileu é um evento acima de tudo espiritual. Os cristãos que viajarem aos lugares relacionados com a sua própria fé, fá-lo-ão sobretudo como peregrinos, para quem as celebrações religiosas nos inumeráveis lugares associados ao início da vida da Igreja hão-de constituir o ponto central da sua visita. Vossa Excelência pôs em evidência a boa vontade do Governo turco em cooperar na organização das celebrações do Jubileu, e estou grato pela sua disponibilidade em receber as inúmeras pessoas que visitarão esses lugares sagrados, tão queridos a todos os cristãos.

Excelência, apresento-lhe os meus melhores votos pelo bom êxito da sua missão como Embaixador do seu país. Os vários departamentos e secções da Santa Sé estarão sempre prontos a assisti- lo no cumprimento dos seus sublimes deveres. Invoco as abundantes bênçãos divinas sobre Vossa Excelência e sobre o Governo e o Povo da Turquia.

DISCURSO DO PAPA JOÃO PAULO II AOS SUPERIORES E ALUNOS PRESBÍTEROS DO PONTIFÍCIO COLÉGIO MEXICANO DE ROMA

5 de Dezembro de 1997

Queridos Irmãos no Episcopado Estimados Superiores e Alunos presbíteros do Pontifício Colégio Mexicano de Roma

1. É-me grato dar-vos as boas-vindas a este encontro com a Comunidade dessa instituição e com o pessoal colaborador, acompanhados pelo Senhor Cardeal Juan Sandoval Íñiguez, Arcebispo de Guadalajara, e por outros Pastores diocesanos da vossa nação, que participam actualmente na Assembleia Especial do Sínodo dos Bispos para a América.

A vossa presença aqui, com a qual desejais renovar o afecto e a adesão ao Sucessor de Pedro, coincide com o XXX aniversário de fundação do vosso Colégio, na qual intervieram de maneira muito directa o Papa Paulo VI — cujo centenário de nascimento celebrámos recentemente — e o primeiro Cardeal mexicano, José Garibi Rivera, Arcebispo de Guadalajara. De igual modo quero recordar as duas visitas que fiz à vossa casa, a primeira em Dezembro de 1979 e a segunda em Novembro de 1992, por ocasião do XXV aniversário. Estar convosco faz-me sentir perto das vossas dioceses e lugares de origem e, ao mesmo tempo, faz-me reviver as inesquecíveis viagens pastorais efectuadas ao vosso querido País.

2. Durante estes anos o Colégio favoreceu um ambiente adequado, que permite aprofundar e ampliar a formação académica e espiritual, tão necessária para o ministério sacerdotal no futuro, que é o objectivo concreto da vossa permanência aqui. Ao mesmo tempo, estar alguns anos em Roma facilita perceber de perto a dimensão universal da Igreja, ao mesmo tempo que se vive a comunhão eclesial que ajuda a acolher melhor os ensinamentos do seu Magistério; também vos proporciona conhecer outras realidades eclesiais e culturais, graças à convivência com sacerdotes de diversos países, o que é, sem dúvida, um enriquecimento para o vasto campo da pastoral.

3. Embora distantes fisicamente, sei que no vosso coração tendes presentes as pessoas que atendíeis no vosso ministério; o verdadeiro pastor não pode esquecer os seus fiéis, impelido pela caridade pastoral ao estilo de Cristo. A respeito disso, «a mesma caridade pastoral impele o presbítero a conhecer cada vez mais as esperanças, as necessidades, os problemas, as sensibilidades dos destinatários do seu ministério: destinatários envolvidos nas suas concretas situações pessoais, familiares e sociais» (Pastores dabo vobis , 70).

No domingo passado iniciámos o segundo ano de preparação para o grande Jubileu do Ano 2000, dedicado ao Espírito Santo. Ele deve estar presente na nossa vida, já que é a alma da verdadeira caridade pastoral e da santificação pessoal. O Espírito de Cristo, que recebemos na ordenação sacerdotal, configura- nos com Ele, modelo de pastores, para que possamos actuar no Seu nome e viver intimamente os Seus mesmos sentimentos. Imitando a Cristo, pobre, casto e humilde, é o modo como o sacerdote se pode entregar sem reservas aos demais, amando a Igreja que é santa e que nos quer santos, para podermos ajudar assim a santificação das pessoas que nos foram confiadas.

4. Antes de terminar, desejo expressar o meu reconhecimento à Comissão Episcopal para o Colégio Mexicano, por seguir de perto a programação de iniciativas e o seu desenvolvimento. De igual modo, quero agradecer aos padres Superiores o seu trabalho de orientação e guia espiritual dos presbíteros estudantes, assim como às religiosas Irmãs dos Pobres, Servas do Sagrado Coração de Jesus, as quais, de maneira silenciosa, juntamente com o pessoal leigo, fazem com que esta comunidade sacerdotal viva como em família e a sua convivência esteja presidida por um sadio e alegre clima de fraternidade.

Dentro de poucos dias, precisamente na festa de Nossa Senhora de Guadalupe, concluir-se-á a Assembleia Especial do Sínodo dos Bispos para a América. A Ela, a primeira evangelizadora da América, confio a nova ocasião de graça que foi este novo Encontro eclesial, onde os seus Pastores assumiram com todas as suas forças e esperanças os desafios da nova evangelização para aquele vasto continente.

À Virgem de Guadalupe, Rainha da vossa amada Nação e Mãe de todos os mexicanos, que na sua Basílica do Tepeyac recebe as demonstrações de amor dos seus filhos, peço que interceda por vós diante do seu divino Filho, sumo e eterno Sacerdote, e vos acompanhe sempre com a sua solícita presença e ternura materna. Como confirmação destes ardentes votos, é-me grato conceder- vos a Bênção Apostólica, que de bom grado faço extensiva aos vossos familiares e aos benfeitores do Colégio.

MENSAGEM DO PAPA JOÃO PAULO II AO BISPO DE BÉRGAMO POR OCASIÃO DO XVII CENTENÁRIO DO MARTÍRIO DE SANTO ALEXANDRE

1. Com alegria tomei conhecimento que essa Comunidade diocesana se prepara para recordar o XVII centenário do Martírio de Santo Alexandre. Desejo unir-me espiritualmente às celebrações do «Ano alexandrino», com as quais a Diocese de Bérgamo faz solene memória do seu celeste Padroeiro e dá graças pelos dons com que o Senhor a enriqueceu, desde o início da sua história.

Os testemunhos históricos de Santo Alexandre que nos chegaram, limitam-se quase exclusivamente a confirmar o seu martírio. Contudo, a antiga liturgia do Santo, recordando o simbólico florescimento de rosas e de lírios das gotas do seu sangue e traduzindo com surpreendente eficácia a convicção arraigada nos Padres da Igreja, segundo a qual «o sangue dos mártires é semente de cristãos», convida a considerar a fecundidade daquele gesto de amor, que faz de Santo Alexandre uma «coluna no templo de Deus» (cf. Liturgia das Horas, Comum de um mártir). Com efeito, através do martírio deste valoroso soldado de Cristo, a força da Páscoa pôde irromper na história dessas populações para transformar os costumes, os ordenamentos, as instituições e o próprio tecido urbanístico que, tendo-se constituído ao redor das igrejas edificadas sobre a memória do mártir, levou às vezes a definir os cidadãos de Bérgamo «homines sancti Alexandri», herdeiros e émulos do mártir. Celebrar Santo Alexandre é recordar os inícios da Igreja que está em Bérgamo.

2. A herança daquele heróico testemunho evangélico, com efeito, deu origem na terra bergamasca a uma sequência ininterrupta de cristãos, conhecidos ou desconhecidos, que fizeram de Cristo o centro da própria vida: de Santa Grata que, segundo a tradição, tomou o corpo do mártir Alexandre e lhe deu sepultura digna, a Narno, Viator e João, Fermo e Rústico, Alberto e Vito, Gregório Barbarigo, Luís Maria Palazzolo, Teresa Eustóquio Verzeri, Paula Isabel Cerioli, Gertrudes Comensoli, Francisco Spinelli e Pierina Morosini. Sem falar depois do Papa João XXIII, que comoveu o mundo pela sua bondade, e de muitas outras figuras luminosas que enriqueceram a comunidade bergamasca com o tesouro dos seus exemplos de fé vivida.

As numerosas igrejas dedicadas ao Santo, as antigas fórmulas litúrgicas e a devoção popular, as instituições educativas e caritativas, o fervor de muitas paróquias e comunidades provam que o martírio de Alexandre ainda produz os seus frutos nos filhos dessa Igreja. O cristão bergamasco, como afirmava o então Núncio Apostólico D. Roncalli, «mesmo longe, além-mar, aonde o conduzir a busca de trabalho ou de sorte, ao serviço da Igreja ou da Pátria, gosta de o recordar, e como que de haurir protecção para as suas peripécias e propósitos de seriedade, de sabedoria e de disciplina, daquele aspecto vigoroso e simpático do seu Santo Alexandre, soldado e mártir, expressão de dignidade e de sacrifício, da linha decisiva que dá fisionomia ao seu povo e o honra» (D. Angelo G. Roncalli, Homilia na festa de Santo Alexandre, 25/8/1950).

Verdadeiramente a semente caída na terra produziu muito fruto (cf. Jo 12, 24) e, pelas gestas gloriosas de Alexandre, essa «Igreja floresce em toda a parte »! (Santo Agostinho, Discurso 329 para a comemoração do nascimento dos mártires, PL 38, 1454). Os filhos da diocese bergamasca semearam tão bem ao longo dos séculos, quer na terra italiana quer em muitas nações do mundo, com generoso espírito missionário.

3. «Ninguém tem maior amor do que aquele que dá a vida pelos seus amigos» (Jo 15, 13). A Palavra do Mestre, acolhida com seriedade e coragem, levou Alexandre a doar a própria existência a Cristo e aos irmãos, até à efusão do sangue.

Unindo-se misticamente à cruz do Senhor e completando na sua carne «aquilo que falta aos sofrimentos de Cristo» (Cl 1, 24), ele testemunhou a força do Ressuscitado que vence a morte, e mostrou o poder do Espírito que sustenta o Corpo místico, na luta contra as potências das trevas.

Com o seu gesto heróico, o Mártir afirma que Cristo é o sentido último da vida do homem e a verdade definitiva da história, e que só n’Ele a humanidade se torna capaz de responder plenamente ao projecto divino.

Na esteira do Concílio Ecuménico Vaticano II, que recorda como o martírio, «pelo qual o discípulo se torna semelhante ao Mestre, que livremente aceitou a morte para a salvação do mundo, e a Ele se conformou no derramamento do sangue, é considerado pela Igreja como um dom insigne e prova suprema de amor» (Lumen gentium, 42), os bergamascos de hoje são convidados a dar graças pelo seu celeste Padroeiro e a assumir o seu testemunho, como referência segura para viverem a fidelidade a Cristo no nosso tempo.

4. Sob a sua iluminada guia pastoral, Venerado Irmão, os fiéis dessa amada Diocese, testemunhas e protagonistas de grandes transformações culturais e de um bem-estar económico amplamente difundido, poderão contrastar de maneira eficaz o subtil secularismo da sociedade actual, que insidia a vida moral e ameaça a sólida relação com a fé cristã, traço característico da identidade bergamasca.

Diante da possibilidade de uma religiosidade motivada por referências culturais, mais do que pela adesão pessoal a Cristo, o glorioso martírio de Santo Alexandre exorta todos a reafirmarem a centralidade da Cruz e da Ressurreição na experiência cristã e a defenderem-se do perigo de empobrecer o Evangelho, adequando-o à lógica do mundo.

No limiar do novo Milénio, como no decurso da primeira evangelização, também para os cristãos dessa terra se renova a urgência de testemunharem com coragem Jesus Cristo, único Salvador do mundo!

5. Essa urgência requer dos indivíduos e das comunidades que se deixem conduzir pelo Espírito do Senhor. Ele reavivará em cada um a consciência de ser amado pelo Pai e dará, com a força de seguir Cristo, a alegria de redescobrir n’Ele o tesouro que dá sentido à vida. Sustentará a fé nos momentos difíceis e, infundindo confiante espera no cumprimento do Reino, guiará o caminho de conversão.

Através da escuta da Palavra de Deus, da obediência aos Pastores, da celebração dos Sacramentos e, de modo especial, da «fracção do pão» eucarístico, o Espírito conduzirá os cristãos bergamascos a projectarem a convivência civil, à luz das Bem-aventuranças, para construírem a civilização do amor.

Também as comunidades cristãs, dóceis à voz do Espírito, se empenharão em proclamar com novo entusiasmo o Evangelho e em elaborar itinerários de fé, que consintam aos próximos e aos distantes, aos jovens e aos adultos encontrar pessoalmente Jesus Cristo e assumi-l’O como referência essencial da existência.

Olhando para Santo Alexandre, dom insigne do Senhor para as populações bergamascas, as diversas comunidades eclesiais, confiadas aos seus cuidados pastorais, são chamadas a valorizar os inúmeros e preciosos carismas com que foram enriquecidas, para continuarem a pô-los ao serviço do crescimento da Igreja local e da Igreja universal. Serão, além disso, solicitadas a viver com dedicação evangélica as actividades educativas e caritativas e a transformar as inúmeras tradições populares em modernas fronteiras de evangelização, dotando-as com novo impulso e motivações mais profundas.

Com estes bons votos, enquanto peço ao Senhor, por intercessão de Santo Alexandre, o dom de uma fé viva, de uma esperança firme e de uma caridade operosa para os fiéis da dilecta Diocese de Bérgamo, de coração concedo-lhe, Venerado Irmão, assim como aos Presbíteros, aos Religiosos, às Religiosas, às Famílias e ao inteiro Povo de Deus uma especial Bênção Apostólica.

Vaticano, 7 de Novembro de 1997.

JOÃO PAULO II

DISCURSO DO PAPA JOÃO PAULO II AO SENHOR JUL BUSHATI NOVO EMBAIXADOR DA ALBÂNIA JUNTO DA SANTA SÉ POR OCASIÃO DA APRESENTAÇÃO DAS CARTAS CREDENCIAIS

5 de Dezembro de 1997

Senhor Embaixador

Tenho a alegria de o acolher como novo Embaixador da República da Albânia junto da Santa Sé. O meu deferente pensamento dirige-se, em primeiro lugar, ao Presidente da República do seu País, Professor Rexhep Mejdani. Peço que lhe transmita a minha cordial saudação, juntamente com a expressão do meu reconhecimento pelos devotos sentimentos dos quais Vossa Excelência se fez intérprete.

Como Vossa Excelência há pouco recordou, a Albânia está há alguns anos a viver uma profunda fase de transformações sociais. Depois do fim do duro regime comunista, o País que Vossa Excelência representa está a abrir-se, através de acontecimentos às vezes dramáticos, a uma nova era de democracia e de integração na grande família dos povos da Europa, à qual pertence não só por causa da sua posição geográfica, mas sobretudo pela sua história milenária e pela sua cultura.

Nos meses passados acompanhei com particular atenção e participação espiritual os eventos que levaram à presente fase política. Estão-me presentes continuamente os sofrimentos e as esperanças dos numerosos cidadãos albaneses que, impelidos pela necessidade e o desejo de um futuro melhor, para si e para os seus entes queridos, deixam a própria Terra com meios muitas vezes inadequados e em condições precárias. Enquanto faço votos por que a Comunidade internacional se ocupe de um problema tão urgente, através de providências inspiradas na solidariedade e equidade, desejo assegurar a eficaz colaboração da Igreja Católica para encontrar adequadas soluções às suas precárias condições na Pátria ou noutros lugares. É importante que a todos sejam asseguradas condições de vida dignas e justas. A respeito disso, desejo fazer meu o apelo dirigido pelos Bispos albaneses à Europa «para que possa considerar a questão da Albânia com maior e mais eficaz empenho».

A crise recente, que transtornou a República da Albânia e teve consequências preocupantes também no Parlamento, deve tornar tanto o Governo como a oposição particularmente solícitos em empreender a via do diálogo e da colaboração. É preciso evitar a tentação de visar o confronto com o adversário político, em primeiro lugar porque é moralmente inaceitável, mas também porque essa atitude se revela sempre prejudicial para a consolidação duma correcta dialéctica democrática e para o desenvolvimento integral de todos os cidadãos do País.

Com muita razão os Bispos, intervindo várias vezes durante o corrente ano, indicavam na rejeição ao ódio e na reconciliação com Deus e com o próximo a via-mestra para um real futuro de paz e de prosperidade. Por isso, eles convidaram os Albaneses a fazer o possível para restaurarem uma ordem pública eficiente com meios legais, e para restituírem aos cidadãos a segurança na vida quotidiana, graças também à reencontrada confiança nas instituições legítimas do Estado. Para alcançar esse objectivo, é preciso promover todos os esforços, a fim de que quantos possuem as armas de modo ilegítimo, sejam quanto antes desarmados e ulteriormente se organizem as forças de polícia local e do exército.

Ao propor estas sugestões a Igreja católica «não é movida por nenhuma ambição terrena, mas unicamente por este objectivo: continuar, sob a direcção do Espírito Consolador, a obra de Cristo que veio ao mundo para dar testemunho da verdade, para salvar e não para julgar, para servir e não para ser servido» (Gaudium et spes, 3). Ela participa de maneira activa na vida social do País, esforçandose por que ele possa caminhar rumo a horizontes de paz e de prosperidade. Essa compartilha sincera da sorte do povo albanês foi testemunhada por inúmeros missionários católicos, que na recente crise política optaram por permanecer no seu lugar, apesar dos perigos e dificuldades. A obra deles obteve um significativo reconhecimento não só dos católicos, mas também de numerosos muçulmanos e ortodoxos.

O novo clima instaurado na República albanesa após o final da trágica ditadura comunista, permitiu à Igreja católica iniciar uma significativa obra de evangelização e de promoção humana, através da reabertura das igrejas, da instituição de novos centros pastorais, da fundação de escolas e de dispensários, e de uma rede de serviços promovidos pela Cáritas.

Para que essa acção a favor do Povo albanês possa continuar e ser incrementada faço votos por que, com o consenso de todas as forças políticas, se chegue a redigir uma nova Constituição e uma legislação adequada, na qual seja oferecida uma base jurídica sólida às liberdades humanas fundamentais, entre as quais a liberdade religiosa.

Além disso, é conhecido o clima de tolerância que desde sempre caracteriza a convivência no único Povo albanês de cidadãos de fé diferente. Esse clima afunda as raízes numa longa tradição de respeito recíproco entre os muçulmanos, os ortodoxos e os católicos, que constituem as três religiões históricas da Albânia. Possa esta preciosa herança, ciosamente conservada, representar uma premissa importante para a reconstrução material e espiritual da Albânia.

Com estes sentimentos, ao receber com prazer as Cartas Credenciais, façolhe votos por que a alta missão que lhe foi confiada seja rica de satisfações, as quais o Senhor não deixa faltar a quem serve com generosidade os irmãos. Asseguro- lhe, ao mesmo tempo, uma constante lembrança na oração, enquanto invoco a bênção de Deus Omnipotente sobre Vossa Excelência, Senhor Embaixador, sobre os Governantes do seu nobre País e sobre o inteiro Povo albanês.

DISCURSO DO PAPA JOÃO PAULO II AOS PARTICIPANTES NO CONGRESSO SOBRE «CINEMA, VEÍCULO DE ESPIRITUALIDADE E DE CULTURA»

1 de Dezembro de 1997

Senhor Cardeal Senhores e Senhoras

1. Estou feliz por poder encontrar-me convosco, que participais no Congresso internacional sobre: «Cinema, veículo de espiritualidade e cultura». Exprimo o meu apreço ao Pontifício Conselho para a Cultura e ao Pontifício Conselho para as Comunicações Sociais que, em colaboração com a Revista do Cinematógrafo, da Organização do Espectáculo, promoveram este Congresso.

Ao dirigir-vos as minhas cordiais boas-vindas, desejo fazer chegar os bons votos de um trabalho cada vez mais profícuo também àqueles que trabalham convosco no mundo da cultura, da comunicação e do cinema.

2. Há pouco o cinema completou o seu primeiro século de vida e continua a atrair o interesse do público, que o compreende como uma ocasião de espectáculo. Todavia, quando leva o homem à exaltação estética e espiritual, o cinema tem inclusive a capacidade de promover o crescimento pessoal. Por este motivo, a Igreja tem a intenção de oferecer a própria contribuição à reflexão sobre os valores espirituais e culturais que o cinema pode transmitir, no contexto deste primeiro Festival denominado «Tertio Millennio».

Desde a sua nascente, a Igreja reconheceu a importância dos meios de comunicação social, como instrumentos úteis para fazer conhecer e apreciar os valores humanos e religiosos que promovem o amadurecimento da pessoa, exortando a um elevado sentido de responsabilidade aqueles que trabalham neste delicado sector. O cinema colocase ao nível destes meios, valendo-se de uma linguagem própria, que lhe permite chegar a pessoas de diferentes culturas.

Nos primeiros cem anos de existência, o cinema caminhou ao lado de outras artes que o haviam precedido, unindo- as de maneira nova e original, produzindo assim obras-primas que já se tornaram parte integrante do património cultural comum. Trata-se de um progresso que se manifestou a nível tanto técnico como artístico e humano. No primeiro século de vida do cinema, verificaram- se progressos relevantes, que lhe ofereceram enormes possibilidades de expressão, embora nalguns casos a tecnologia tenha contado mais com os efeitos que com os conteúdos.

3. O verdadeiro progresso desta forma de comunicação mede-se a partir da capacidade que esta tem de transmitir conteúdos e propor modelos de vida. Quem frequenta o cinema, nas diversificadas formas em que se apresenta, compreende a força que dele promana, pois este é capaz de orientar reflexões e comportamentos de inteiras gerações. Por isso, é importante que o cinema saiba apresentar valores positivos, no respeito da dignidade da pessoa humana.

Juntamente com filmes que possuem um carácter mais acentuado de entretenimento, existe um movimento cinematográfico mais sensível às problemáticas existenciais. Talvez o seu sucesso seja menos evidente, mas nele se reflecte o trabalho de grandes mestres que, com a sua obra, contribuíram para enriquecer o património cultural e artístico da humanidade. Diante destes filmes, o espectador é orientado para a reflexão e para aspectos de uma realidade por vezes desconhecida, e enquanto a sua alma se interroga, reflectindo-se nas imagens, confronta-se com perspectivas diversas e não pode ficar insensível à mensagem de que a obra cinematográfica se faz portadora.

O cinema é capaz de criar momentos de particular intensidade, fixando nas imagens um instante da vida e detendose neste com uma linguagem que pode dar lugar a uma expressão de autêntica poesia. Assim, esta nova forma de arte pode contribuir de forma muito válida para o inexaurível caminho de investigação que o homem percorre, alargando o conhecimento quer do mundo que o circunda, quer do seu universo interior. Naturalmente, é preciso ajudar o público, sobretudo o mais jovem, a adquirir uma capacidade de leitura crítica das mensagens propostas, para que o cinema favoreça o crescimento global e harmonioso das pessoas.

4. O cinema abordou, e ainda hoje aborda, argumentos inspirados na fé. Neste contexto, a Escritura, a vida de Jesus, de Nossa Senhora e dos Santos, assim como as problemáticas da Igreja, são mananciais inesgotáveis para quem se põe à procura do significado espiritual e religioso da existência.

Assim, com frequência a arte cinematográfica soube transmitir uma mensagem sublime, contribuindo para difundir o respeito pelos valores que enriquecem a alma humana e sem os quais é muito difícil levar uma vida plena e completa. Desta forma, o cinema pode oferecer uma contribuição válida para a cultura e uma cooperação específica à Igreja. Isto torna-se particularmente positivo no momento em que nos preparamos para cruzar o limiar de um novo milénio cristão. Formulo votos por que os temas ligados à fé sejam sempre abordados com competência e o devido respeito.

Mesmo nos filmes cujo tema não é explicitamente religioso, é possível encontrar autênticos valores humanos, uma concepção da vida e uma visão do mundo abertas à transcendência. Assim, torna-se possível o intercâmbio entre as várias culturas que se debruçam da janela aberta, oferecida pelo cinema: deste modo, abreviam-se as distâncias do mundo e favorece-se a compreensão recíproca no respeito mútuo.

5. Consequentemente, este instrumento de comunicação pode assumir também uma função pedagógica, que auxilia o homem no conhecimento dos valores universais nas várias culturas, levando- o a compreender as diferenças legítimas como uma ocasião de recíproco intercâmbio de dons.

O cinema é um meio particularmente adequado para narrar o mistério inefável que circunda o mundo e o homem. Através das imagens, o cineasta dialoga com o espectador e transmite-lhe o seu pensamento, impelindo-o a colocar-se perante situações que não podem deixar a sua alma insensível. Se ele souber expressar- se com a arte e, além disso, com responsabilidade e inteligência, poderá oferecer o seu contributo específico ao grande diálogo que existe entre as pessoas, os povos e as civilizações. Assim, de certa forma torna-se um pedagogo não só para os seus contemporâneos, mas também para as gerações futuras, como acontece com qualquer outro agente cultural.

Por conseguinte, o cinema é um instrumento sensibilíssimo, capaz de ler no tempo aqueles sinais que às vezes podem subtrair-se ao olhar de um observador apressado. Quando é bem utilizado, o cinema pode contribuir para o crescimento de um humanismo genuíno e, em última análise, para o louvor que da criação se eleva ao Criador. Estes são os bons votos que formulo para a vossa actividade e, enquanto invoco a luz do Espírito sobre os vossos esforços ao serviço da cultura, da paz e do diálogo, concedo de coração a todos vós e às pessoas que vos são queridas a Bênção Apostólica.

DISCURSO DO PAPA JOÃO PAULO II À COMUNIDADE DO PONTIFÍCIO COLÉGIO PIO LATINO-AMERICANO

1° de Dezembro de 1997

Senhores Cardeais e Irmãos no Episcopado Querido Padre Reitor, Superiores e Alunos do Pontifício Colégio Pio Latino-Americano de Roma

1. A celebração da Assembleia Especial do Sínodo dos Bispos para a América oferece-me a oportunidade de receber este numeroso grupo de antigos alunos, que dela participam, juntamente com os superiores e sacerdotes que residem actualmente nessa venerável instituição, fundada pelo Papa Pio IX a 21 de Novembro de 1858. Com prazer dou-vos as boas-vindas e agradeço-vos esta visita, com a qual quisestes renovar o vosso afecto e proximidade à pessoa do Sucessor de Pedro.

A vossa presença aqui traz à minha memória a visita que realizei ao vosso Colégio, a 10 de Janeiro de 1982, quando, na festividade do Baptismo do Senhor, celebrei a Eucaristia na vossa Capela e tive a oportunidade de vos dirigir a palavra e visitar algumas instalações do centro.

2. Desde a sua fundação, a história do vosso Colégio está intimamente unida à evangelização da América. Com efeito, ao longo desse tempo uma numerosa plêiade de sacerdotes residiu nele, durante os anos da sua formação académica em diversas Universidades e Ateneus romanos, e, depois dessa privilegiada oportunidade, eles levaram a cabo como pastores do Povo de Deus, por todas as partes das terras latino-americanas, o anúncio do Evangelho e a celebração dos Sacramentos. É de justiça, pois, recordar com satisfação a obra do Pontifício Colégio Pio Latino- Americano em Roma durante estes quase cento e quarenta anos.

3. Nestas semanas, o nome da América foi pronunciado tantas vezes pelos Padres Sinodais, os quais vão apresentando as alegrias e esperanças dessa numerosa porção da Igreja que peregrina no querido Continente da esperança. Para vos ajudar a responder aos novos desafios que tem a vida eclesial e poder guiar os vossos irmãos para o «encontro com Jesus Cristo vivo, caminho para a conversão, a comunhão e a solidariedade na América», o Colégio acolhe-vos e facilita um ambiente propício para uma mais ampla formação académica e espiritual, necessária na vossa futura missão sacerdotal. O facto de residirdes por alguns anos aqui, oferece-vos grandes possibilidades de vos abrirdes à dimensão universal da Igreja, fomentardes a comunhão eclesial e a boa disposição a acolher os ensinamentos do seu Magistério, o intercâmbio com outras realidades culturais e o contacto com as memórias históricas dos primeiros séculos do cristianismo. É toda uma bagagem de fé e cultura que depois devereis difundir na América Latina, como fruto da vossa passagem por Roma.

Exorto-vos, pois, queridos sacerdotes, a assimilar tudo o que este período da vossa vida vos oferece, a recebê-lo com um forte espírito de fé, que oriente as vossas bem fundadas opções pastorais futuras, sob a guia e as disposições do próprio Bispo, sendo juntamente com ele autênticos pastores das almas (cf. PO, 4), mestres do espírito, formadores das novas gerações de católicos americanos, famintos de Deus, como todo o ser humano, necessitados de Cristo.

4. Não posso concluir estas palavras sem agradecer a obra que é realizada pela Comissão Episcopal para o Colégio, assim como o testemunho de estima e afecto para com o mesmo, manifestados por inúmeros antigos alunos, alguns dos quais se associaram hoje a esta Audiência.

Desejo, de igual modo, agradecer os esforços da Comunidade da Companhia de Jesus, e em particular do Padre Luís Palomera, na direcção e guia espiritual dos residentes, assim como os dos demais que, com o seu trabalho silencioso e oculto, contribuem para o bom encaminhamento dessa comunidade sacerdotal.

Que a Virgem Maria de Guadalupe, primeira evangelizadora da América e tão amada pelos vossos povos, interceda por todos diante do Senhor e vos acompanhe sempre com a sua presença materna.

DISCURSO DO SANTO PADRE AO NOVO EMBAIXADOR DA GRÃ-BRETANHA JUNTO DA SANTA SÉ POR OCASIÃO DA APRESENTAÇÃO DAS CARTAS CREDENCIAIS

Sábado, 31 de Janeiro de 1998

Excelência

É-me grato dar-lhe cordiais boas-vindas, no momento em que Vossa Excelência apresenta as Cartas Credenciais mediante as quais Sua Majestade a Rainha Isabel II o nomeia seu Embaixador Extraordinário e Plenipotenciário junto da Santa Sé. Muito obrigado pelas saudações que me transmite da parte de Sua Majestade e peço que lhe comunique a certeza das minhas orações e dos meus bons votos.

Vossa Excelência faz referência à solicitude do seu governo pela promoção de uma política estrangeira assente no respeito dos direitos humanos. A celebração do quinquagésimo aniversário da promulgação da Declaração Universal dos Direitos Humanos constitui uma ocasião propícia para os líderes mundiais renovarem o próprio compromisso de salvaguarda dos direitos fundamentais da pessoa humana. O preâmbulo desse documento declara que o «reconhecimento da dignidade inerente e dos direitos iguais e inalienáveis de todos os membros da família humana é o fundamento da liberdade, da justiça e da paz no mundo». A declaração coloca em evidência o facto de os mesmos direitos pertencerem a cada indivíduo e a todos os povos. Na minha recente Mensagem para o Dia Mundial da Paz, chamei a atenção para a tendência que existe nalguns sectores, de debilitar o carácter universal e indivisível dos direitos humanos. Por conseguinte, é vital que a Comunidade internacional se sinta obrigada a assegurar que os basilares direitos sociais, económicos e culturais tenham em vista todas as pessoas.

O compromisso de defender e proteger os direitos humanos está intimamente ligado à missão da Igreja no mundo contemporâneo, persuadida como está de que a promoção da paz, da justiça e da solidariedade constitui um testemunho verdadeiramente prático e efectivo da mensagem evangélica no que concerne ao carácter sagrado da vida humana. Portanto, a Santa Sé insiste com determinação sobre o direito fundamental de cada indivíduo à vida, bem como sobre o direito a viver numa família unida, a desenvolver as próprias inteligência e liberdade na busca e no conhecimento da verdade, o direito a participar no trabalho que se serve dos recursos da terra e o direito a obter desse mesmo trabalho os meios para a subsistência própria e dos seus familiares (cf. Centesimus annus , 47).

Entre estes direitos básicos, a liberdade religiosa «entendida como direito a viver na verdade da própria fé e em conformidade com a dignidade transcendente da pessoa» (Centesimus annus , 47), constitui um requisito essencial da dignidade de cada pessoa e uma pedra miliar da estrutura dos direitos humanos. A liberdade religiosa inclui a liberdade de praticar a própria fé no seio de uma comunidade religiosa organizada. Todos deveriam poder fazê-lo livres de coerção (cf. Dignitatis humanae, 1) e consequentemente o Estado, que não pode reivindicar uma autoridade, directa ou indirecta, sobre as convicções religiosas das pessoas, deveria encontrar o modo de assegurar que os direitos de todos os indivíduos e de cada uma das comunidades sejam garantidos a nível de igualdade, ao mesmo tempo que se salvaguarda a ordem pública. É importante que os governos trabalhem juntos para garantir que o direito fundamental à liberdade religiosa seja respeitado em toda a parte, e sinto-me encorajado pela solicitude do seu governo neste sentido.

Como a experiência demonstra, os esforços por promover a paz entre os povos só podem obter bom êxito se houver a disponibilidade para o compromisso num diálogo que respeite os direitos de todas as partes interessadas e sem que se faça recurso a instrumentos contrários à natureza mesma do processo de negociação. Sabe-se que este diálogo é difícil e requer paciência, boa vontade e abertura genuína, se quiser ser fecundo. A este propósito, não posso deixar de encorajar o actual diálogo entre as várias facções na Irlanda do Norte, na esperança de que prevaleça o desejo de reconciliação e confiança, apesar das enormes dificuldades envolvidas e dos recorrentes momentos de crise.

No meu recente discurso ao Corpo Diplomático, referi-me às várias provas que afligem os povos da região dos Grandes Lagos da África: «Os combates, os deslocamentos de pessoas, o drama dos refugiados, as condições sanitárias deficientes, a administração defeituosa da justiça» (Discurso ao Corpo Diplomático, 10 de Janeiro de 1998, n. 4). Enquanto os líderes dos países nessa região têm a responsabilidade primordial de encontrar soluções para tais problemas, governos como o de Vossa Excelência podem contribuir em grande medida para alcançar a cessação das hostilidades, assegurando que sejam observados os princípios basilares da justiça. A Santa Sé e as várias Organizações eclesiais de assistência já estão empenhadas nos esforços conjuntos com diversos Organismos internacionais, tendo em vista o melhoramento da qualidade da vida humana não só nessa parte da África, mas no mundo inteiro. Também esta constitui uma área em que existe um vasto espaço para a cooperação entre nós.

Efectivamente, a promoção da paz mundial exige que a Comunidade internacional se empenhe em prol do desenvolvimento de todos os povos e nações. A este propósito, a Santa Sé subscreve os apelos, vindos de muitas partes, dirigidos aos líderes mundiais a fim de que tomem medidas no sentido de reduzir o oneroso fardo da dívida externa que impede o progresso social, político e económico dos países mais pobres (cf. Mensagem para o Dia Mundial da Paz de 1998 , n. 4). Aprecio a decisão do seu governo de encontrar uma solução para o mencionado problema antes do termo deste século.

No que concerne ao desenvolvimento, o comércio dos armamentos apresenta uma dificuldade particular. Alguns países mais pobres são tentados a despender os recursos extremamente necessários na compra de tecnologia militar, em vez de os utilizar para garantir um melhor padrão de vida aos seus cidadãos. As nações que produzem e exportam armas têm a séria responsabilidade moral de assegurar que este comércio não incremente ainda mais a ameaça à paz no interior dos países e entre as nações. Espera-se que as deliberações da União Europeia, destinadas a estabelecer um código de conduta para regulamentar a exportação das armas, tenham de algum modo em vista diminuir a tentação dos países em vias de desenvolvimento, de desperdiçar os próprios recursos desta maneira.

A este propósito, a opinião pública elogiou a assinatura em Otava da Convenção internacional que elimina as minas anti-homem, que têm constituído um dos principais obstáculos para a reconstrução pacífica das regiões devastadas pela guerra no mundo inteiro. Senhor Embaixador, compartilho a sua esperança de que essa Convenção seja eventualmente assinada por todos os membros da Comunidade internacional, e aprecio a decisão do seu governo de destinar subsídios para a remoção de tais dispositivos. Há necessidade de uma cooperação internacional contínua para assegurar que os perigos e as ameaças ao desenvolvimento, representados por tais armas, sejam removidos de modo permanente.

Ao mencionar apenas algumas das importantes questões levantadas por Vossa Excelência, procurei indicar como a solicitude da Igreja pela paz se fundamenta de maneira essencial na sua missão espiritual de servir a pessoa humana, criada à imagem e semelhança de Deus e chamada à vida eterna. Ao assumir o seu encargo, estou certo de que a sua missão servirá para fortalecer as relações amistosas que existem entre o Reino Unido e a Santa Sé. Asseguro-lhe a cooperação e a assistência dos vários departamentos da Cúria Romana e invoco as bênçãos de Deus sobre Vossa Excelência e todas as pessoas que o Senhor Embaixador representa.

DISCURSO DO SANTO PADRE AOS MEMBROS DA JUNTA E DO CONSELHO REGIONAL DO LÁCIO

Sábado, 31 de Janeiro de 1998

Senhor Presidente da Junta Regional Senhor Presidente do Conselho Regional Ilustres Membros da Junta e do Conselho Excelentíssimas Senhoras e Senhores!

1. Segundo um alegre costume, no início de cada novo ano tenho o prazer de acolher a Administração regional do Lácio nas pessoas dos seus representantes, para uma troca de felicitações que exprime o profundo ligame entre a Região e o Bispo de Roma. Para cada um de vós e para os vossos familiares formulo os melhores votos de serenidade e de bem e desejo um perfeito cumprimento da tarefa institucional a vós confiada. Saúdo, em particular, o Presidente do Conselho Regional, Deputado Luca Borgomeo. Exprimo, além disso, gratidão ao Senhor Presidente da Junta, Deputado Piero Badaloni, pelas amáveis expressões que dirigiu em vosso nome, e agradeço a todos vós a vossa presença.

2. Faltam já menos de dois anos para o Grande Jubileu do Ano 2000. Com vivo apreço escutei as palavras acerca do empenho com que estais a trabalhar na preparação desta meta histórica, e agradeço-vos tudo o que estais a realizar nos vários sectores da vossa competência. Fazei com que, graças também ao vosso contributo, os peregrinos e os visitantes, mas em primeiro lugar os habitantes da região, possam viver esse evento extraordinário como ocasião de renovação espiritual e social.

O Ano Santo constitui, de facto, uma ocasião providencial, também no plano civil, para promover uma sociedade mais justa, que jamais perca de vista a pessoa humana, com os seus direitos e os seus deveres, como recordei na Mensagem para o Dia Mundial da Paz deste ano, quinquagésimo da Declaração Universal dos Direitos do Homem. A pessoa deve estar no centro de todo o projecto social (cf. n. 3). Os grandes desafios no plano mundial verificam-se também, feitas as devidas proporções, no âmbito da vossa competência. Penso, por exemplo, naqueles de assegurar uma globalização na solidariedade (cf. ibid.), de promover a cultura da legalidade e contrastar a corrupção (cf. n. 5), de prever e combater a usura (cf. n. 6).

«Indivíduos, famílias, comunidades, nações, todos são chamados a viver na justiça e a trabalhar pela paz. Ninguém pode eximir-se desta responsabilidade» (n. 1). Depois, quem exerce um cargo de governo tem uma especial oportunidade para oferecer o próprio contributo à obtenção destes importantes objectivos e, portanto, ao desenvolvimento de uma autêntica democracia. Esta, com efeito, «só é possível num Estado de direito e sobre a base de uma recta con- cepção da pessoa humana. Ela exige que se verifiquem as condições necessárias à promoção quer dos indivíduos, através da educação e da formação nos verdadeiros ideais, quer da "subjectividade" da sociedade, mediante a criação de estruturas de participação e co-responsabilidade» (Centesimus annus , 46).

3. Durante os nossos encontros anuais tornou-se como que obrigatório falar a respeito da questão do trabalho, que constitui a prioridade na agenda dos governos das nações europeias, e absorve também boa parte das vossas energias.

Para a consecução de um pleno e digno emprego a autoridade pública deve concorrer, tanto directa como indirectamente, criando as condições favoráveis ao livre exercício da actividade económica, de maneira a levar a uma oferta abundante de oportunidades de empregos e de fontes de riqueza. Directamente e segundo o princípio de solidariedade, pondo em defesa do mais débil algumas limitações à autonomia das partes, que decidem das condições de trabalho, e assegurando em todo o caso um míni- mo vital ao trabalhador desempregado.

«Os jovens que a sociedade marginaliza, compreendidos os numerosíssimos imigrados e os que são escravos de perigosos desvios, devem ser dirigidos para o caminho do trabalho, a fim de que o valor da sua humanidade seja promovido e respeitado» (Discurso à Assembleia «Formação profissional e solidariedade social, no centenário da Rerum novarum», 1 de Dezembro de 1990: L'Osserv. Rom. ed. port. de 13/1/91, pág. 20). Faço votos por que ao empenho dos Centros de formação profissional de inspiração cristã, que não cessam de exercer uma função mais do que nunca importante para a educação da juventude, seja sempre reservada a devida atenção tanto da parte da iniciativa privada como das instituições públicas.

4. Outro delicado sector para o qual desejo chamar a vossa atenção, é o da saúde e, de modo particular, da colaboração entre a administração pública e as instituições católicas.

A Igreja, fiel ao exemplo e ao mandato de Cristo, sempre manifestou uma especial solicitude para com os doentes. Em todas as épocas a comunidade eclesial deu vida a multíplices instituições de saúde e assegurou uma qualificada presença nos hospitais públicos. É muito importante que em Roma e no Lácio esta efectiva colaboração continue e, antes, se desenvolva. É dever da Administração Regional sustentar estas instituições beneméritas, que prestam um alto serviço a favor da sociedade, destinando-lhes as devidas contribuições e permitindo-lhes continuar a trabalhar com serenidade, em adesão às suas inspirações ideais.

5. Além disso, aproveito a ocasião deste encontro convosco para renovar um apelo em favor da família. Sabeis quanto me está a peito esta célula primária da sociedade, estrutura fundamental da civilização e da vida de uma nação. Todo o bom administrador público, com maior razão se ele faz referência a uma ética cristã, não pode deixar de ter a família como «prisma», por assim dizer, através do qual considerar todos os problemas sociais.

Reafirmo, portanto, que «é urgente promover não apenas políticas para a família, mas também políticas sociais, que tenham como principal objectivo a própria família, ajudando-a, mediante a atribuição de recursos adequados e de instrumentos eficazes de apoio quer na educação dos filhos quer no cuidado dos anciãos, evitando o seu afastamento do núcleo familiar e reforçando os laços entre as gerações» (Centesimus annus , 49).

O apelo em favor da família alarga-se depois logicamente para aquele correlativo em favor da escola, que as famílias têm direito de escolher para os seus filhos. A Igreja jamais se cansará de recordar esse direito dos pais e o dever, portanto, das autoridades públicas de tornar efectivo esse direito, favorecendo e sustentando uma autêntica paridade escolar.

6. Ilustres Senhoras e Senhores, faço votos por que, em todos os sectores, haja sempre a mais ampla colaboração entre a Administração regional e as autoridades eclesiásticas em todos os níveis. Espero, além disso, que cada pessoa crente ofereça generosamente a sua contribuição para a construção de um futuro, segundo a real dimensão do homem.

Renovo a cada um de vós, de todo o coração, os meus votos de todo o bem, pedindo que os leveis às vossas famílias e colaboradores, e sobre todos invoco de bom grado a bênção do Senhor.

JOÃO PAULO II

Discurso na Cerimónia de Despedida, no aeroporto de Havana

25 de janeiro de 1998

Senhor Presidente Senhor Cardeal e Irmãos no Episcopado Excelentíssimas Autoridades Amadíssimos Irmãos e Irmãs de Cuba!

1. Vivi intensas e emotivas jornadas com o Povo de Deus que peregrina nas lindas terras de Cuba, o que me marcou profundamente. Levo comigo a recordação dos rostos das numerosas pessoas que encontrei durante estes dias. Estou-vos grato pela cordial hospitalidade, expressão autêntica da alma cubana, e sobretudo por ter podido compartilhar convosco momentos intensos de oração e de reflexão nas celebrações da Santa Missa em Santa Clara, em Camagüey, em Santiago de Cuba e aqui, em Havana, nos encontros com o mundo da cultura e com o do sofrimento, bem como na visita que realizei há poucas horas à Catedral Metropolitana.

2. Peço a Deus que abençoe e recompense todos os que cooperaram na realização desta Visita, desde há muito tempo desejada. Agradeço-lhe, Senhor Presidente e agradeço também às outras Autoridades da Nação, a vossa presença aqui, bem como a colaboração oferecida no desenvolvimento desta visita, na qual participaram numerosas pessoas, quer assistindo às celebrações quer seguindo-as através dos meios de comunicação social. Estou muito grato aos meus Irmãos Bispos de Cuba pelos esforços e solicitude pastoral com que prepararam tanto a minha Visita como a missão popular que a precedeu, cujos frutos imediatos se manifestaram no caloroso acolhimento que me foi reservado, e que de algum modo deve ter continuidade.

3. Como Sucessor do Apóstolo Pedro e seguindo o mandato do Senhor vim como mensageiro da verdade e da esperança, para vos confirmar na fé e vos deixar uma mensagem de paz e reconciliação em Cristo. Eis por que vos encorajo a continuar a trabalhar juntos, animados pelos mais altos princípios morais, a fim de que o conhecido dinamismo que distingue este nobre povo produza abundantes frutos de bem-estar e prosperidade espiritual e material em benefício de todos.

4. Antes de deixar esta Capital, desejo dirigir uma comovida saudação a todos os filhos deste País: a quantos habitam nas cidades e nos campos; às crianças, aos jovens e aos idosos, às famílias e a cada pessoa, com a certeza de que continuarão a conservar e a promover os valores mais autênticos da alma cubana que, fiel à herança dos próprios antepassados, deve saber mostrar, mesmo nas dificuldades, a sua confiança em Deus, a sua fé cristã, o seu vínculo com a Igreja, o seu amor pela cultura e pelas tradições pátrias, a sua vocação à justiça e à liberdade. Neste processo, todos os cubanos são chamados a contribuir para o bem comum, num clima de respeito recíproco e com um profundo sentido de solidariedade.

Nos nossos dias nenhuma Nação pode viver sozinha. Por isso, o povo cubano não deve ver-se privado dos vínculos com os outros povos, que são necessários para o progresso económico, social e cultural, sobretudo quando o isolamento forçado se repercute de maneira indiscriminada sobre a população, fazendo aumentar as dificuldades dos mais débeis, em aspectos fundamentais como a alimentação, a saúde e a educação. Todos podem e devem dar passos concretos para uma mudança neste sentido. Oxalá as Nações, e principalmente as que partilham o mesmo património cristão e a mesma língua, trabalhem de modo eficaz para difundir os benefícios da unidade e da concórdia, para unir os esforços e superar os obstáculos, a fim de que o povo cubano, protagonista da sua história, mantenha relações internacionais que favoreçam sempre o bem comum. Desta maneira, se contribuirá para superar a angústia causada pela pobreza, material e moral, cujas causas podem ser, entre outras, as injustas desigualdades, as limitações das liberdades fundamentais, a despersonalização e o desencorajamento nos indivíduos, e as medidas económicas restritivas impostas do exterior do País, injustas e eticamente inaceitáveis.

5. Queridos cubanos, ao deixar esta amada terra, levo comigo uma recordação inesquecível destes dias e uma grande confiança no futuro da vossa Pátria. Construí-o com alegria, guiados pela luz da fé, com o vigor da esperança e a generosidade do amor fraterno, capazes de criar um ambiente de maior liberdade e pluralismo, com a certeza de que Deus vos ama intensamente e permanece fiel às Suas promessas. De facto, «se nos afadigamos e recebemos ultrajes, é porque pusemos a nossa esperança em Deus vivo, Salvador de todos os homens, principalmente dos fiéis» (1 Tim 4, 10). Que Ele vos cumule com as Suas bênçãos e vos faça sentir a Sua proximidade em todos os momentos!

Louvado seja Jesus Cristo!

No final deste discurso, o Papa dirigiu aos presentes a seguinte saudação:

Uma última palavra sobre a chuva. Agora não chove, mas depois da minha visita à Catedral de Havana começou a chover muito. Perguntei-me por que, após o grande calor em Santiago de Cuba, começou a chover. Isto poderia ser um sinal: o céu cubano chora porque o Papa vai embora, porque vos está a deixar, mas esta seria uma hermenêutica superficial. Quando cantamos na liturgia: «Rorate coeli desuper et nubes pluant iustum», isto significa um encorajamento. Esta parece-me uma hermenêutica mais profunda.

A chuva das últimas horas da minha permanência em Cuba pode representar um encorajamento. Desejo exprimir os meus votos por que esta chuva seja um bom sinal de renovado encorajamento na vossa história. Muito obrigado!

JOÃO PAULO II

Discurso no Encontro com o clero, religiosos e religiosas, seminaristas e leigos comprometidos, na catedral metropolita de Havana

25 de janeiro de 1998

Amados Irmãos no Episcopado e no Sacerdócio Amadíssimos Religiosos e Religiosas Seminaristas e Fiéis!

1. Quando faltam poucas horas para concluir esta Visita pastoral, enche-me de alegria ter este encontro com todos vós, que representais aqueles que, com alegria e esperança, com sofrimentos e sacrifícios, têm a apaixonante tarefa da evangelização nesta terra, caracterizada por uma história tão singular.

Agradeço as amáveis palavras que me dirigiu o Senhor Cardeal Jaime Lucas Ortega y Alamino, Arcebispo de Havana, fazendo-se porta-voz dos sentimentos de afecto e estima que nutris pelo Sucessor do Apóstolo Pedro, e quero corresponder a isto renovando-vos o meu grande apreço no Senhor, o qual faço extensivo a todos os filhos e filhas desta Ilha.

2. Reunimo-nos nesta Catedral Metropolitana, dedicada a Imaculada Conceição, no dia em que a liturgia celebra a Conversão de São Paulo, o qual, no caminho de Damasco, recebeu a visita do Senhor Ressuscitado e se converteu, de perseguidor dos cristãos, em intrépido e incansável apóstolo de Jesus Cristo. O seu exemplo luminoso e os seus ensinamentos devem servir-vos como guia para enfrentardes e vencerdes cada dia os múltiplos obstáculos no desempenho da vossa missão, a fim de que não se debilitem as energias nem o entusiasmo pela difusão do Reino de Deus.

Na história nacional são numerosos os pastores que, com a inquebrantável fidelidade a Cristo e à sua Igreja, acompanharam o povo em todas as vicissitudes. O testemunho da sua entrega generosa, as suas palavras no anúncio do Evangelho e a defesa da dignidade e dos direitos inalienáveis das pessoas, assim como a promoção do bem integral da Nação, são um precioso património espiritual digno de ser conservado e enriquecido. Entre eles, referi-me nestes dias ao Servo de Deus Padre Félix Varela, fiel ao seu sacerdócio e activo promotor do bem comum de todo o povo cubano. Recordo também o Servo de Deus José Olallo, da Ordem Hospitaleira de São João de Deus, testemunha da misericórdia, cuja vida exemplar no serviço aos mais necessitados é um fecundo exemplo de vida consagrada ao Senhor. Esperamos que os seus processos de canonização se concluam quanto antes e possam ser invocados pelos fiéis. Muitos outros cubanos, homens e mulheres, deram de igual modo demonstrações de fé e de perseverança na sua missão, de consagração à causa do Evangelho a partir da sua condição sacerdotal, religiosa ou laical.

3. Queridos sacerdotes: o Senhor abençoa abundantemente a vossa entrega diária ao serviço da Igreja e do povo, inclusive quando surgem obstáculos e dissabores. Por isso aprecio e agradeço a vossa correspondência à graça divina, que vos chamou a ser pescadores de homens (cf. Mc 1, 17), sem vos deixardes vencer pelo cansaço ou o desânimo causados pelo vasto campo de trabalho apostólico, devido ao reduzido número de sacerdotes e às muitas necessidades pastorais dos fiéis que abrem o seu coração ao Evangelho, como se viu na recente missão preparatória da minha Visita.

Não percais a esperança ante a falta de meios materiais para a missão, nem pela escassez de recursos, que faz sofrer grande parte deste povo. Prossegui acolhendo o convite do Senhor a trabalhar pelo Reino de Deus e pela sua justiça, pois o resto vos será dado em acréscimo (cf. Lc 12, 31). No que depende de vós, em estreita união com os vossos Bispos e como expressão da viva comunhão eclesial que tem caracterizado esta Igreja, continuai a iluminar as consciências no desenvolvimento dos valores humanos, éticos e religiosos, cuja ausência afecta amplos sectores da sociedade, especialmente os jovens, que por isso são mais vulneráveis.

Os esperançosos dados sobre o aumento de vocações sacerdotais e o ingresso no País de novos missionários, que desejamos ardentemente que seja facilitado, farão com que a actividade apostólica possa ser mais extensa, com o consequente benefício para todos.

Conscientes de que «o auxílio nos vem do Senhor» (Sl 120, 2), de que só Ele é o nosso sustento e ajuda, encorajo-vos a nunca deixar a oração pessoal diária e prolongada, configurando-vos cada vez mais com Cristo, Bom Pastor, pois n'Ele se encontram a força principal e o verdadeiro descanso (cf. Mt 11, 30). Assim podereis enfrentar com alegria o peso do «dia e do calor» (cf. Mt 20, 12), e oferecer o melhor testemunho para a promoção das vocações sacerdotais e religiosas, que são muito necessárias.

O ministério sacerdotal, além da pregação da Palavra de Deus e da celebração dos Sacramentos, que constituem a vossa missão profética e cultual, estende-se de igual modo ao serviço caritativo, de assistência e promoção humana. Para isto ele conta também com o ministério dos diáconos e a ajuda dos membros de diversos Institutos religiosos e associações eclesiais. Queira o Senhor que possais sempre receber e distribuir com facilidade os recursos que tantas Igrejas irmãs desejam compartilhar convosco, assim como encontrar os modos mais apropriados para aliviar as necessidades dos irmãos, e que este trabalho seja cada vez mais compreendido e valorizado.

4. Agradeço a presença nesta terra de pessoas consagradas de diversos Institutos. Há vários decénios tivestes que viver a própria vocação em situações muito particulares e, sem renunciar o específico do vosso carisma, fostes obrigados a adaptar-vos às circunstâncias reinantes e responder às necessidades pastorais das dioceses. Estou-vos agradecido também pelo meritório e reconhecido trabalho pastoral e pelo serviço prestado a Cristo nos pobres, nos doentes e nas pessoas idosas. É para desejar que num futuro não distante a Igreja possa assumir o seu papel no ensino, tarefa que os Institutos religiosos levam a cabo em muitas partes do mundo, com tanto empenho e com grande sacrifício também em prol da sociedade civil.

De todos vós a Igreja espera o testemunho de uma existência transfigurada pela profissão dos conselhos evangélicos (cf. Vita consecrata, 20), sendo testemunhas do amor através da castidade que amplia o coração, da pobreza que elimina as barreiras e da obediência que constrói comunhão na comunidade, na Igreja e no mundo.

A fé do povo cubano, que vós servis, foi fonte e linfa da cultura desta Nação. Como consagrados, buscai e promovei um genuíno processo de inculturação da fé, que facilite a todos o anúncio, acolhimento e vivência do Evangelho.

5. Queridos seminaristas, noviços e noviças: aspirai a uma sólida formação humana e cristã, na qual a vida espiritual ocupe um lugar preferencial. Assim preparar-vos-eis melhor para desempenhar o apostolado que mais tarde vos será confiado. Olhai com esperança o futuro, no qual tereis especiais responsabilidades. Para isto, fortalecei a fidelidade a Cristo e ao seu Evangelho, o amor à Igreja, a dedicação ao vosso povo.

Os dois Seminários, que já estão a tornar-se insuficientes na sua capacidade, contribuíram de maneira notável para a consciência da nacionalidade cubana. Que nesses insignes claustros se continue a fomentar a fecunda síntese entre piedade e virtude, entre fé e cultura, entre amor a Cristo e à sua Igreja e amor ao povo.

6. Aos leigos aqui presentes, que representam tantos outros, agradeço-vos a vossa fidelidade quotidiana por manter a chama da fé no seio das vossas famílias, vencendo assim os obstáculos e trabalhando com coragem para encarnar o espírito evangélico na sociedade. Convido-vos a alimentar a fé mediante uma formação contínua, bíblica e catequética, que vos ajudará a perseverar no testemunho de Cristo, perdoando as ofensas, exercendo o direito a servir o povo, a partir da vossa condição de crentes católicos, em todos os âmbitos já abertos, e esforçando-vos por obter o acesso aos que ainda estão fechados. A tarefa de um laicado católico comprometido é precisamente abrir os ambientes da cultura, da economia, da política e dos meios de comunicação social para transmitir, através dos mesmos, a verdade e a esperança sobre Cristo e sobre o homem. Neste sentido, é desejável que as publicações católicas e outras iniciativas possam dispor dos meios necessários para servirem melhor toda a sociedade cubana. Encorajo-vos a prosseguir neste caminho, que é expressão da vitalidade dos fiéis e da sua genuína vocação cristã ao serviço da verdade e de Cuba.

7. Queridos irmãos: o povo cubano necessita de vós, porque necessita de Deus, que é a razão fundamental da vossa vida. Ao fazer parte deste povo, manifestai-lhe que só Cristo é o Caminho, a Verdade e a Vida, que só Ele tem palavras de vida eterna (cf. Jo 6, 68-69). O Papa está junto de vós, acompanha-vos com a sua oração e o seu afecto, e recomenda-vos à protecção maternal da Santíssima Virgem da Caridade do Cobre, Mãe de todos os cubanos. A Ela, Estrela da nova Evangelização, confio o trabalho de todos vós e o bem-estar desta querida Nação.

Terminamos esta visita no dia 25 de Janeiro, festa da conversão de São Paulo. Esta última Eucaristia celebrada na Praça da Revolução é muito significativa, porque a conversão de Paulo é uma profunda, contínua e santa revolução válida em todas as épocas.

JOÃO PAULO II

Discurso no Encontro com os bispos, no paço arquiepiscopal de Havana

25 de janeiro de 1998

Queridos Irmãos no Episcopado

1. Sinto um grande júbilo por poder estar convosco, Bispos da Igreja católica de Cuba, nestes momentos de serena reflexão e encontro fraterno, compartilhando alegrias e esperanças, anseios e aspirações desta porção do Povo de Deus que peregrina nestas terras. Pude visitar quatro das Dioceses do País, embora com o coração tenha estado em todas elas. Nestes dias, comprovei a vitalidade das comunidades eclesiais, a sua capacidade de reunião, fruto também da credibilidade que a Igreja alcançou com o seu testemunho perseverante e a sua palavra oportuna. As limitações dos anos passados empobreceram-na em meios e agentes de pastoral, mas estas mesmas provas a enriqueceram, impelindo-a à criatividade e ao sacrifício no desempenho do seu serviço.

Dou graças a Deus porque a cruz tem sido fecunda nesta terra, pois da Cruz de Cristo brota a esperança que não desilude, mas que dá frutos abundantes. Durante muito tempo a fé em Cuba foi submetida a diversas provações, enfrentadas com ânimo firme e solícita caridade, sabendo que com esforço e abnegação se percorre o caminho da cruz, seguindo as pegadas de Cristo, que nunca esquece o seu povo. Neste momento histórico, alegramo-nos não porque a colheita está concluída, mas porque, elevando o olhar, podemos contemplar os frutos da evangelização que crescem em Cuba.

2. Há pouco mais de cinco séculos, a Cruz de Cristo foi plantada nestas terras lindas e fecundas, de maneira que a sua luz, que brilha no meio das trevas, tornasse possível que a fé católica e apostólica nelas se arraigasse. Com efeito, esta fé faz realmente parte da identidade e da cultura cubanas. Isto leva muitos cidadãos a reconhecer a Igreja como a sua Mãe que, a partir da sua missão espiritual e mediante a mensagem evangélica e a sua doutrina social, promove o desenvolvimento integral das pessoas e a convivência humana, fundamentada nos princípios éticos e nos autênticos valores morais. As circunstâncias para a acção da Igreja têm-se transformado gradualmente, e isto inspira uma esperança crescente para o futuro. Sem dúvida, há algumas concepções simplistas, que procuram situar a Igreja católica ao mesmo nível de determinadas manifestações culturais de religiosidade, à maneira dos cultos sincretistas que, embora sejam dignos de respeito, não se podem considerar como uma religião propriamente dita, mas como um conjunto de tradições e crenças.

Muitas são as expectativas e grande é a confiança que o povo cubano tem depositado na Igreja, como pude comprovar durante estes dias. É verdade que algumas destas expectativas vão para além da missão mesma da Igreja, mas é também certo que, na medida do possível, todas devem ser atendidas pela comunidade eclesial. Vós, queridos Irmãos, permanecendo ao lado de todos, sois testemunhas privilegiadas desta esperança do povo, muitos membros do qual acreditam verdadeiramente em Cristo, Filho de Deus, e crêem na sua Igreja, que tem permanecido fiel até mesmo no meio de não poucas dificuldades.

3. Como Pastores, sei que estais preocupados com o facto de a Igreja em Cuba se ver cada vez mais onerada e suscitada pelas pessoas que, em número crescente, solicitam os seus mais diversificados serviços. Sei que não podeis deixar de corresponder a estas pressões, nem cessar de buscar os modos que vos permitam fazê-lo com eficácia e solícita caridade. Isto não vos impele a exigir da Igreja uma posição hegemónica ou exclusivista, mas a reivindicar o lugar que justamente lhe corresponde no tecido social em que se desenvolve a vida do povo, contando com os espaços necessários e suficientes para servir os vossos irmãos. Procurai estes espaços de forma insistente, não com o objectivo de alcançardes um poder — que é alheio à vossa missão — mas a fim de incrementardes a vossa capacidade de serviço. Neste empenhamento, buscai com espírito ecuménico a sadia cooperação das demais confissões cristãs e mantende, procurando aumentar a sua extensão e profundidade, um diálogo franco com as instituições do Estado e as organizações autónomas da sociedade civil.

A Igreja recebeu do seu divino Fundador a missão de levar os homens a prestar culto ao Deus vivo e verdadeiro, cantando os Seus louvores e proclamando as Suas maravilhas, confessando que «há só um Senhor, uma só fé, um só baptismo. Há um só Deus e Pai de todos» (Ef 4, 5). Porém — como diz o profeta Isaías — o sacrifício agradável a Deus é este: «Acabar com as prisões injustas, desfazer as correntes do jugo, pôr em liberdade os oprimidos... repartir o pão com quem passa fome, hospedar em casa os pobres sem abrigo, vestir aquele que se encontra nu... (então) a tua luz brilhará como a aurora, as tuas feridas vão sarar rapidamente, a justiça que tu praticas irá à tua frente e a glória de Javé te acompanhará» (58, 6-8). Com efeito, as missões cultual, profética e caritativa da Igreja estão estreitamente vinculadas, pois a palavra profética em defesa do oprimido e o serviço caritativo dão autenticidade e coerência ao culto.

O respeito da liberdade religiosa deve garantir os espaços, as obras e os instrumentos para levar a cabo estas três dimensões da missão da Igreja, de tal maneira que, além do culto, a Igreja possa dedicar-se ao anúncio do Evangelho, à salvaguarda da justiça e da paz, ao mesmo tempo que promove o desenvolvimento integral das pessoas. Nenhuma destas dimensões deve ser limitada, pois nenhuma está separada nem deve ser privilegiada em desvantagem das outras.

Quando a Igreja reivindica a liberdade religiosa, não solicita uma dádiva, um privilégio, uma licença que depende de situações contingentes, de estratégias políticas ou da vontade das autoridades, mas pede o reconhecimento efectivo de um direito inalienável. Este direito não pode ser condicionado pelo comportamento de Pastores e fiéis, nem pela renúncia ao exercício de alguma das dimensões da sua missão e menos ainda por motivações ideológicas ou económicas: não se trata apenas de um direito da Igreja como instituição, mas trata-se sobretudo de um direito de cada pessoa e de cada povo. Todos os homens e todos os povos serão enriquecidos na sua dimensão espiritual, na medida em que se reconhecer e praticar a liberdade religiosa.

Além disso, como já tive ocasião de afirmar: «A liberdade religiosa é um factor de grande importância para fortalecer a coesão moral de um povo. A sociedade civil pode contar com os que acreditam em Deus; estes, pelas suas profundas convicções, não só não se deixarão facilmente enredar por ideologias ou correntes totalizantes, mas esforçar-se-ão por agir em coerência com as próprias aspirações em relação a tudo o que é verdadeiro e justo» (Mensagem para o Dia Mundial da Paz de 1988, n. 3).

4. Por isso, queridos Irmãos, ponde todo o vosso empenhamento na promoção de quanto possa favorecer a dignidade e o progressivo aperfeiçoamento do ser humano, o qual é o primeiro caminho que a Igreja deve percorrer no cumprimento da sua missão (cf. Redemptor hominis, 14). Vós, queridos Bispos de Cuba, tendes pregado a verdade sobre o homem, a qual pertence ao núcleo fundamental da fé cristã e está indissoluvelmente vinculada à verdade sobre Cristo e sobre a Igreja. Soubestes dar testemunho coerente de Cristo de muitas maneiras. Cada vez que afirmastes que a dignidade do homem se encontra acima de toda a estrutura social, económica ou política, anunciastes uma verdade moral que eleva o homem e o conduz, pelos caminhos imperscrutáveis de Deus, rumo ao encontro de Jesus Cristo Salvador. É o homem que devemos servir com liberdade, em nome de Cristo, sem que este serviço seja obstaculizado pelas conjunturas históricas ou inclusivamente, em determinadas ocasiões, pela arbitrariedade ou pela desordem.

Quando se inverte a escala de valores e a política, a economia e toda a acção social, em vez de se porem ao serviço da pessoa, a consideram como um meio e não a respeitam como centro e fim de todas as ocupações, prejudica-se a sua existência e a sua dimensão transcendente. Então, o ser humano passa a ser um simples consumidor, com um sentido muito individualista e redutivo da liberdade, ou um mero produtor com demasiado pouco espaço para as suas liberdades civis e políticas. Nenhum destes modelos sócio-políticos favorece um clima de abertura à transcendência da pessoa que busca livremente a Deus.

Encorajo-vos, pois, a dar continuidade ao vosso serviço de salvaguarda e promoção da dignidade humana, anunciando com perseverante empenho que, «na realidade, o mistério do homem só se esclarece verdadeiramente no mistério do Verbo encarnado. Pois... Cristo, o novo Adão, na mesma revelação do mistério do Pai e do seu amor, manifesta perfeitamente o homem ao próprio homem e descobre-lhe a sublimidade da sua vocação» (Gaudium et spes, 22). Isto faz parte da missão da Igreja, que «não pode permanecer insensível a tudo aquilo que serve o verdadeiro bem do homem, assim como não pode permanecer indiferente àquilo que o ameaça» (Redemptor hominis, 13).

5. Conheço bem a vossa sensibilidade de Pastores, que vos impele a enfrentar com caridade pastoral as situações em que se vêem ameaçadas a vida humana e a sua dignidade. Lutai sempre para criar entre os vossos fiéis e em todo o povo cubano o apreço pela vida desde o ventre materno, o que exclui sempre o recurso ao aborto, acto criminoso. Trabalhai pela promoção e pela salvaguarda da família, proclamando a santidade e a indissolubilidade do matrimónio cristão diante dos males do divórcio e da separação, que são fonte de inúmeros sofrimentos. Sustentai com caridade pastoral os jovens, que aspiram por melhores condições para desenvolver o seu projecto de vida pessoal e social baseado nos valores autênticos. Deve-se cuidar deste sector da população com particular esmero, facilitando-lhe uma adequada formação catequética, moral e social que complete nos jovens o necessário «suplemento de alma» que lhes permita remediar a perda de valores e de sentido nas suas vidas com uma sólida educação humana e cristã.

Com os sacerdotes — vossos primeiros e predilectos colaboradores — e os religiosos e religiosas que trabalham em Cuba, continuai a realizar a missão de levar a Boa Nova de Jesus Cristo àqueles que sentem sede de amor, de verdade e de justiça. Acolhei os seminaristas com confiança, ajudando-os a adquirir uma sólida formação intelectual, humana e espiritual, que lhes permita configurar-se com Cristo, Bom Pastor, e amar a Igreja e o povo, que amanhã eles deverão servir com generosidade e entusiasmo como ministros; oxalá eles sejam os primeiros a beneficiarem deste espírito missionário.

Animai os fiéis leigos a viverem a sua vocação com coragem e perseverança, estando sempre presentes em todos os sectores da vida social, dando testemunho da verdade sobre Cristo e sobre o homem; procurando, em união com as demais pessoas de boa vontade, soluções para os diversificados problemas morais, sociais, políticos, económicos, culturais e espirituais que a sociedade deve enfrentar; participando com eficácia e humildade nos esforços por superar as situações às vezes críticas que dizem respeito a todos, a fim de que a Nação alcance condições de vida cada vez mais humanas. Os fiéis católicos, em igual medida com os demais cidadãos, têm o dever e o direito de contribuir para o progresso do país. O diálogo cívico e a participação responsável podem abrir novos caminhos para a acção do laicado, e é desejável que os leigos comprometidos continuem a preparar-se com o estudo e a aplicação da Doutrina Social da Igreja para com ela iluminarem todos os ambientes.

Sei que a vossa atenção pastoral não tem descuidado aqueles que, por diversas circunstâncias, abandonaram a Pátria, mas que se sentem filhos de Cuba. Na medida em que se consideram cubanos, devem também colaborar para o progresso da nação, com serenidade e espírito construtivo e respeitoso, também no progresso da Nação, evitando confrontos inúteis e fomentando um clima de diálogo positivo e entendimento recíproco. Ajudai-os, mediante a pregação dos elevados valores do espírito e com a colaboração de outros Episcopados, a ser promotores de paz e concórdia, de reconciliação e esperança, a tornar efectiva a solidariedade generosa para com os seus irmãos cubanos mais necessitados, demonstrando também assim uma profunda união com a sua terra de origem.

Faço votos por que na sua acção pastoral, os Bispos católicos de Cuba consigam obter um acesso progressivo aos instrumentos modernos, adequados para levar a cabo a sua missão evangelizadora e educadora. Um estado laico não deve temer, mas sim apreciar, a contribuição moral e formativa da Igreja. Neste contexto, é normal que a Igreja tenha acesso aos meios de comunicação social: rádio, imprensa e televisão, e que possa contar com os seus próprios recursos nestes campos para realizar o anúncio de Deus vivo e verdadeiro a todos os homens. Nesta tarefa evangelizadora, devem ser consolidadas e enriquecidas as publicações católicas que possam servir mais eficazmente o anúncio da verdade, não só para os filhos da Igreja, mas também para todo o povo cubano.

6. A minha visita pastoral tem lugar em um momento especial para a vida de toda a Igreja, como é a preparação para o Grande Jubileu do Ano 2000. Como Pastores desta porção do Povo de Deus que peregrina em Cuba, vós participais deste espírito e, mediante o Plano de Pastoral Global, encorajais todas as comunidades a viver «a nova primavera de vida cristã que deverá ser revelada pelo Grande Jubileu, se os cristãos forem dóceis à acção do Espírito Santo» (Tertio millennio adveniente, 18). Oxalá este mesmo Plano dê continuidade aos conteúdos da minha visita e à experiência de Igreja encarnada, participativa e profética, que deseja pôr-se ao serviço da promoção integral do homem cubano. Isto exige uma adequada formação que — como vós tendes desejado — «restabeleça o homem como pessoa nos seus valores humanos, éticos, cívicos e religiosos, tornando-o capaz de realizar a sua missão na Igreja e na sociedade» (II ENEC, Memória, pág. 38), para o que são necessárias «a criação e a renovação das dioceses, das paróquias e das pequenas comunidades, que propiciem a participação e a co-responsabilidade, e vivam a sua missão evangelizadora na solidariedade e no serviço» (Ibidem).

7. Queridos Irmãos, no final destas reflexões, quero assegurar-vos que regresso a Roma com muita esperança no futuro, tendo testemunhado a vitalidade desta Igreja local. Estou consciente da imensidade dos desafios que tendes à frente, mas também do bom espírito que vos anima e da vossa capacidade de os enfrentar. Confiante nisto, encorajo-vos a continuar a ser «ministros da reconciliação» (cf. 2 Cor 5, 18), para que o povo que vos foi confiado, superando as dificuldades do passado, progrida ao longo dos caminhos da reconciliação, entre todos os cubanos sem excepção. Vós bem sabeis que o perdão não é incompatível com a justiça e que o futuro do país deve ser edificado na paz, que é fruto da mesma justiça e do perdão oferecido e recebido.

Continuai a ser «mensageiros que anunciam a paz» (Is 52, 7), a fim de que se consolide uma convivência justa e digna, em que todos encontrem um clima de tolerância e respeito recíproco. Como colaboradores do Senhor, vós sois o campo de Deus, a construção do Senhor (cf. 1 Cor 3, 9), para que os fiéis encontrem em vós autênticos mestres da verdade e guias solícitos do Seu povo, empenhados em alcançar-lhe o bem material, moral e espiritual, tendo em conta a exortação do Apóstolo Paulo: «Cada um veja como constrói! Ninguém pode colocar um alicerce diferente daquele que já foi posto: Jesus Cristo!» (1 Cor 3, 10-11).

Assim, com o olhar fixo no nosso Salvador, que «é o mesmo ontem, hoje e sempre» (Hb 13, 8), e depositando todos os anseios e esperanças na Mãe de Cristo e da Igreja, aqui venerada com o dulcíssimo título de Nossa Senhora da Caridade do Cobre, como penhor de afecto e sinal da graça que vos acompanha no vosso ministério, concedo-vos de coração a Bênção Apostólica.

JOÃO PAULO II

Mensagem no Encontro Ecuménico, na Nunciatura Apostólica

1. Neste significativo dia, é-me muito grato receber-vos, representantes do Conselho de Igrejas de Cuba e de diversas confissões cristãs, acompanhados de alguns líderes da Comunidade judaica, que participam no mesmo Conselho como observadores. Saúdo-vos a todos com grande afecto e asseguro-vos a alegria que me dá este encontro com quem compartilha a fé no Deus vivo e verdadeiro. O ambiente propício faz-nos dizer desde o princípio: «Como é bom, como é agradável viverem os irmãos em unidade!» (Sl 132, 1).

Vim a este País como mensageiro da esperança e da verdade, para dar alento e confirmar na fé os Pastores e fiéis das diversas dioceses desta Nação (cf. Lc 22, 32), mas desejei também que a minha saudação chegasse a todos os cubanos, como sinal concreto do amor infinito de Deus para com todos os homens. Nesta visita a Cuba — como costumo fazer nas minhas viagens apostólicas — não podia faltar este encontro convosco, para compartilhar os afãs pela restauração da unidade entre todos os cristãos e estreitar a colaboração para o progresso integral do povo cubano, tendo em conta os valores espirituais e transcendentes da fé. Isto é possível graças à comum esperança nas promessas de salvação, que Deus nos fez e manifestou em Cristo Jesus, Salvador do género humano.

2. Hoje, festa da conversão de São Paulo, o Apóstolo que foi «alcançado por Jesus Cristo» (Fl 3, 12), que dedicou a partir de então as suas energias a anunciar o Evangelho a todas as nações, termina a Semana de Oração pela unidade dos cristãos, que este ano celebrámos sob o lema «O Espírito vem em ajuda da nossa fraqueza» (Rm 8, 26). Com esta iniciativa, que começou há já muitos anos e que adquiriu uma crescente importância, não só se pretende chamar a atenção de todos os cristãos sobre o valor do movimento ecuménico, mas também ressaltar de maneira prática e inequívoca as bases sobre as quais se devem fundar todas as suas actividades.

Esta circunstância oferece-me a oportunidade de reafirmar, nesta terra marcada pela fé cristã, o irrevogável compromisso da Igreja de não retroceder na sua aspiração à plena unidade dos discípulos de Cristo, repetindo constantemente com Ele: «Pai, que todos sejam um só» (Jo 17, 21), e obedecendo assim à Sua vontade. Isto não deve faltar em parte alguma da Igreja, qualquer que seja a situação sociológica em que se encontre. É verdade que cada nação conta com a sua própria cultura e história religiosa e que as actividades ecuménicas têm, por isso, nos diversos lugares, características distintas e peculiares, mas acima de tudo é muito importante que sejam sempre fraternas as relações entre todos os que compartilham a sua fé em Deus. Nenhuma contingência histórica, nem condicionamento ideológico ou cultura deveriam enfraquecer essas relações, cujo centro e fim devem ser unicamente o serviço à unidade querida por Jesus Cristo.

Somos conscientes de que o retorno a uma comunhão plena exige amor, coragem e esperança, os quais surgem da oração perseverante, que é a fonte de todo o compromisso verdadeiramente inspirado pelo Senhor. Por meio da oração se favorecem a purificação dos corações e a conversão interior, necessárias para reconhecer a acção do Espírito Santo como guia das pessoas, da Igreja e da história, ao mesmo tempo que se fomenta a concórdia que transforma as nossas vontades e as torna dóceis às Suas inspirações. Deste modo, cultiva-se também uma fé cada vez mais viva. É o Espírito que tem guiado o movimento ecuménico e ao mesmo Espírito se devem atribuir os notáveis progressos alcançados, superando aqueles tempos em que as relações entre as comunidades estavam marcadas por uma indiferença mútua, que nalguns lugares resultava inclusive em aberta hostilidade.

3. A intensa dedicação à causa da unidade de todos os cristãos é um dos sinais de esperança presentes neste final de século (cf. Tertio millennio adveniente, 46). Ele é aplicável também aos cristãos de Cuba, chamados não só a prosseguir o diálogo com espírito de respeito, mas a colaborar de mútuo acordo em projectos comuns, que ajudem toda a população a progredir na paz e a crescer nos valores essenciais do Evangelho, que dignificam a pessoa humana e tornam mais justa e solidária a convivência. Todos nós somos chamados a manter um quotidiano diálogo da caridade, que frutificará no diálogo da verdade, oferecendo à sociedade cubana a imagem autêntica de Cristo, e favorecendo o conhecimento da Sua missão redentora pela salvação de todos os homens.

4. Quero dirigir também uma saudação particular à Comunidade judaica aqui representada. A sua presença é prova eloquente do diálogo fraterno orientado para um melhor conhecimento entre judeus e cristãos, que por parte dos católicos foi promovido pelo Concílio Vaticano II e continua a difundir-se cada vez mais. Convosco compartilhamos um património espiritual comum, que afunda as suas raízes nas Sagradas Escrituras. Que Deus, Criador e Salvador, sustente os esforços que se fazem para caminharmos juntos. Que alentados pela Palavra divina progridamos no culto e no amor ardente a Ele, e que isto se prolongue numa acção eficaz em favor de cada homem.

5. Para concluir, quero agradecer a vossa presença neste encontro, ao mesmo tempo que peço a Deus que abençoe cada um de vós e as vossas Comunidades; que vos guarde nos vossos caminhos para anunciar o seu Nome aos irmãos; vos faça ver o Seu rosto no meio da sociedade que servis e vos conceda a paz em todas as vossas actividades.

Havana, 25 de Janeiro de 1998, Festa da Conversão de São Paulo.

JOÃO PAULO II

Discurso no Encontro com o mundo do sofrimento, no Santuário de S. Lázaro, no Rincón

24 de janeiro de 1998

Amadíssimos Irmãos e Irmãs!

1. Durante a minha visita a esta nobre terra não podia faltar um encontro com o mundo do sofrimento, porque Cristo está muito próximo de todos os que sofrem. Saúdo-vos com muito afecto, queridos enfermos, acolhidos no vizinho Hospital Doutor Guillermo Fernández Hernández-Baquero, que hoje encheis este santuário de São Lázaro, o amigo do Senhor. Em vós, desejo também saudar os demais enfermos de Cuba, os idosos que se encontram sozinhos e quantos padecem no corpo ou no espírito. Com as minhas palavras e o meu afecto desejo estar próximo de todos, segundo a exortação do Senhor: «adoeci e visitastes-Me» (Mt 25, 36). Acompanhe-vos também o carinho do Papa, a solidariedade da Igreja e o calor fraterno dos homens e mulheres de boa vontade. Saúdo as Filhas da Caridade de S. Vicente de Paulo, que trabalham neste centro, e através delas saúdo as demais almas consagradas que, pertencentes a diversos Institutos religiosos, trabalham com amor noutros lugares desta formosa Ilha, a fim de aliviar os sofrimentos de todas as pessoas necessitadas. A comunidade eclesial está-vos muito grata, pois assim contribuis nesta missão concreta a partir do vosso particular carisma, visto que o Evangelho se «torna efectivo através da caridade, que é glória da Igreja e sinal da sua fidelidade ao Senhor» (Vita consecrata, 82).

Desejo também saudar os médicos, os enfermeiros e o pessoal auxiliar, que com competência e dedicação utilizam os recursos da ciência para aliviar o sofrimento e a dor. A Igreja estima o vosso trabalho porque, animado pelo espírito de serviço e de solidariedade para com o próximo, recorda a obra de Jesus, o Qual «curou todos os que estavam enfermos» (Mt 8, 16). Conheço os grandes esforços que estão a ser feitos em Cuba no campo da saúde, apesar das limitações económicas que o País vive.

2. Venho como peregrino da verdade e da esperança a este Santuário de São Lázaro, como testemunha, na própria carne, do significado e valor que o sofrimento tem, quando é acolhido aproximando-se confiadamente a Deus, «rico em misericórdia». Este lugar é sagrado para os cubanos, porque experimentam aqui a graça daqueles que se dirigem com fé a Cristo, com a mesma certeza de São Paulo: «tudo posso n'Aquele que me dá força» (Fl 4, 13). Podemos repetir aqui as palavras com que Marta, irmã de Lázaro, expressou a Jesus Cristo a sua total confiança, obtendo deste modo o milagre da ressurreição do seu irmão: «Mas também sei... que tudo quanto pedires a Deus, Deus To concederá» (Jo 11, 22). E as palavras com que em seguida confessou: «Sim Senhor, creio que Tu és o Cristo, o Filho de Deus, que havia de vir ao mundo» (Jo 11, 27).

3. Queridos irmãos, todo o ser humano experimenta, duma ou doutra forma, a dor e o sofrimento na própria vida, e não pode deixar de se interrogar acerca deles. A dor é um mistério, muitas vezes imperscrutável para a razão. Faz parte do mistério da pessoa humana, que só se esclarece em Jesus Cristo, o Qual revela ao homem a sua própria identidade. Unicamente n'Ele podemos encontrar o sentido ao que é humano.

«O sofrimento — como escrevi na Carta Apostólica Salvifici doloris — não pode ser transformado e mudado por uma graça que aja do exterior, mas sim por uma graça interior... Entretanto, este processo interior não se realiza sempre da mesma maneira... Cristo, de facto, não responde directamente e não responde de modo abstracto a esta pergunta humana sobre o sentido do sofrimento. O homem percebe a Sua resposta salvífica à medida que se vai tornando ele próprio participante dos sofrimentos de Cristo. A resposta que lhe chega mediante essa participação é... um apelo. "Segue-Me!". Participa com o teu sofrimento nesta obra da salvação do mundo, que se realiza por meio do meu próprio sofrimento. Por meio da minha Cruz» (n. 26).

Eis o verdadeiro sentido e o valor do sofrimento, das dores físicas, morais e espirituais. Eis a Boa Nova que vos desejo comunicar. À pergunta humana, o Senhor responde com uma chamada, com uma vocação especial que, como tal, tem a sua base no amor. Cristo não vem até nós com explicações e razões para nos tranquilizar ou desorientar. Pelo contrário, diz-nos: Venham Comigo. Sigam-Me no caminho da Cruz. «Se alguém quer vir após Mim, negue-se a si mesmo, tome a sua cruz, dia após dia, e siga-Me» (Lc 9, 23). Jesus Cristo foi o primeiro no caminho da Cruz; Ele foi o primeiro a sofrer. Não nos impele ao sofrimento, mas partilha-o connosco e deseja que tenhamos vida, e a tenhamos em abundância (cf. Jo 10, 10).

O sofrimento transforma-se, quando vivemos pessoalmente a proximidade e a solidariedade de Deus vivo: «eu sei que o meu Redentor vive e... finalmente... verei a Deus» (Jó 19, 25-26). Com esta certeza adquire-se a paz interior, e desta alegria espiritual, serena e profunda, que brota do «Evangelho do sofrimento», adquire-se a consciência da grandeza e da dignidade do homem que sofre generosamente e oferece o seu sofrimento «como hóstia viva, santa e agradável a Deus» (Rm 12, 1). Desta maneira, quem sofre deixa de ser um peso para os outros e, com o seu sofrimento, contribui para a salvação do próximo.

O sofrimento não é só de carácter físico, como pode ser a enfermidade. Existe também o sofrimento da alma, como o que padecem os segregados, os perseguidos, os encarcerados por diversos delitos ou por razões de consciência, por ideias pacíficas mas discordantes. Estes sofrem o isolamento e uma pena pela qual a sua consciência não os condena, enquanto desejam incorporar-se na vida activa, com espaços onde possam expressar e propor as suas opiniões com respeito e tolerância. Faço votos por que sejam promovidos esforços em vista da reinserção social da população encarcerada. Este é um gesto de grande humanidade e é semente de reconciliação, que honra as autoridades que o promovem, e também fortalece a convivência pacífica no País. A todos os encarcerados e às suas famílias, que sofrem a separação e desejam reencontrar-se com eles, envio a minha cordial saudação, animando-os a não se deixarem vencer pelo pessimismo ou pelo desencorajamento.

Queridos irmãos: os cubanos precisam da força interior, da paz profunda e da alegria que brota do «Evangelho do sofrimento». Ofereçam-no de modo generoso para que Cuba «veja a Deus de perto», ou seja, para que caminhe à luz do seu Rosto até ao Reino eterno e universal, para que cada cubano, desde o mais profundo do seu ser, possa dizer: «eu sei que o meu Redentor vive» (Jó 19, 25). Esse Redentor é Jesus Cristo, Nosso Senhor.

4. A dimensão cristã do sofrimento não se limita apenas ao seu significado profundo e ao seu carácter redentor. O sofrimento chama ao amor, isto é, gera solidariedade, entrega, generosidade nos que sofrem e em quantos se sentem chamados a assisti-los e a ajudá-los nas suas dores. A parábola do Bom Samaritano (cf. Lc 10, 29ss.), que o Evangelho da solidariedade para com o próximo que sofre nos apresenta, «tornou-se uma das componentes essenciais da cultura moral e da civilização universalmente humana» (Salvifici doloris, 29). De facto, nesta parábola Jesus ensina-nos que o próximo é todo aquele que encontramos no nosso caminho, ferido e necessitado de socorro, o qual se deve ajudar nos males que o afligem, com os meios adequados, ocupando-se dele até ao seu completo restabelecimento. A família, a escola e as outras instituições educativas, mesmo que seja apenas por motivos humanitários, devem trabalhar com perseverança, a fim de despertar e aperfeiçoar essa sensibilidade para com o próximo e o seu sofrimento, do qual a figura do samaritano é um símbolo. A eloquência da parábola do Bom Samaritano, bem como de todo o Evangelho, em concreto é esta: o homem deve sentir-se pessoalmente chamado a testemunhar o amor no sofrimento. «As instituições são muito importantes e indispensáveis; no entanto, nenhuma instituição, só por si, pode substituir o coração humano, a compaixão humana, o amor humano, a iniciativa humana, quando se trata de ir ao encontro do sofrimento de outrem» (Ibidem, 29).

Isto refere-se aos sofrimentos físicos, mas também é válido quando se trata dos numerosos sofrimentos morais e da alma. Por isso, quando uma pessoa sofre na sua alma, ou quando a alma de uma nação sofre, essa dor deve convocar à solidariedade, à justiça, à edificação da civilização da verdade e do amor. Um sinal eloquente dessa vontade de amor diante do sofrimento e da morte, do cárcere ou da solidão, das divisões familiares forçadas ou da emigração que separa as famílias, deve ser que cada organismo social, cada instituição pública bem como todas as pessoas que têm responsabilidades neste âmbito da saúde, da atenção aos necessitados e da reeducação dos presos, respeite e faça respeitar os direitos dos enfermos, dos marginalizados, dos detidos e das suas famílias, numa palavra, os direitos de todo o homem que sofre. Neste sentido, a Pastoral da saúde e a penitenciária devem encontrar os espaços para realizar a sua missão ao serviço dos enfermos, dos presos e das suas famílias.

A indiferença diante do sofrimento humano, a passividade perante as causas que provocam os sofrimentos deste mundo e os remédios improvisados que não contribuem para sanar em profundidade as feridas das pessoas e dos povos, são faltas graves de omissão, ante as quais todo o homem de boa vontade se deve converter e escutar o brado de quem sofre.

5. Queridos irmãos e irmãs, nos momentos difíceis da nossa vida pessoal, familiar ou social, as palavras de Jesus ajudam-nos na prova: «Meu Pai, se é possível, passe de Mim este cálice; todavia, não seja como Eu quero, mas, como Tu queres» (Mt 26, 39). O pobre que sofre encontra na fé a força de Cristo que lhe diz, através de Paulo: «Basta-te a Minha graça» (2 Cor 12, 9). Nenhum sofrimento se perde, nenhuma dor se torna inútil: Deus recebe-os todos, como acolheu o sofrimento do Seu Filho, Jesus Cristo.

Aos pés da cruz, com os braços abertos e o coração trespassado está a nossa Mãe, a Virgem Maria, Nossa Senhora das Dores e da Esperança, que nos recebe no seu seio materno repleto de graça e de piedade. Ela é o caminho seguro para Cristo, nossa paz, nossa vida e nossa ressurreição. Maria, Mãe de quem sofre, piedade daquele que morre, caloroso conforto para o desanimado: olha para os teus filhos cubanos que atravessam a dura prova do sofrimento e mostra-lhes Jesus, fruto bendito do teu ventre! Amém.

JOÃO PAULO II

Discurso no Encontro com o mundo da cultura, na Universidade de Havana

23 de Janeiro de 1998

Senhor Presidente da República, muito obrigado pela sua presença! Senhores Cardeais e Bispos Autoridades universitárias Ilustres Senhoras e Senhores

1. É-me grato encontrar-me convosco neste venerável recinto da Universidade de Havana. Transmito a todos a minha afectuosa saudação e, em primeiro lugar, quero agradecer as palavras que o Senhor Cardeal Jaime Ortega y Alamino quis dirigir-me em nome de todos para me dar as boas-vindas, assim como a amável saudação do Senhor Reitor desta Universidade, que me acolheu nesta Sala Magna. Aqui estão conservados os restos mortais do grande sacerdote e patriota, o Servo de Deus Padre Félix Varela, diante dos quais rezei. Obrigado, Senhor Reitor, por me apresentar esta distinta assembleia de mulheres e homens que se prodigalizam pela promoção da cultura genuína nesta nobre nação cubana.

2. A cultura é a forma peculiar com que os homens expressam e desenvolvem os próprios relacionamentos com a criação, entre eles mesmos e com Deus, formando o conjunto de valores que caracterizam um povo e os traços que o definem. Assim compreendida, a cultura tem uma importância fundamental para a vida das nações e o cultivo dos valores humanos mais autênticos. A Igreja, que acompanha o homem no seu caminho, se abre para a vida social e busca os espaços para a sua obra evangelizadora, aproxima-se da cultura com a sua palavra e acção.

A Igreja católica não se identifica com qualquer cultura em particular, mas aproxima-se de todas elas com espírito aberto. Ao propor com respeito a sua própria visão do homem e dos valores, ela contribui para a crescente humanização da sociedade. Na evangelização da cultura, é Cristo mesmo que actua através da sua Igreja, dado que com a sua Encarnação «entra na cultura» e «traz para cada cultura histórica o dom da purificação e da plenitude» (Conclusões de Santo Domingo, 228)

«Todas as culturas são um esforço de reflexão sobre o mistério do mundo e, em particular, sobre o mistério do homem: é uma maneira de dar expressão à dimensão transcendente da vida humana» (Discurso por ocasião do 50º Aniversário da Organização das Nações Unidas, 5 de Outubro de 1995, ed. port. de L'Osservatore Romano de 14.X.95, pág. 4, n. 9). Respeitando e promovendo a cultura, a Igreja respeita e promove o homem: o homem que se esforça por tornar a sua vida mais humana, aproximando-a do mistério escondido de Deus, ainda que seja às apalpadelas. Toda a cultura tem um íntimo núcleo de convicções religiosas e de valores morais, que constitui como que a sua «alma»; é ali que Cristo quer chegar com a força purificadora da sua graça. A evangelização da cultura é como que uma elevação da sua «alma religiosa», que lhe infunde um dinamismo novo e poderoso, o dinamismo do Espírito Santo, que a leva à máxima actualização das suas potencialidades humanas. Em Cristo, toda a cultura se sente profundamente respeitada, valorizada e amada; porque toda a cultura, no mais autêntico de si mesma, está sempre aberta aos tesouros da Redenção.

3. Em virtude da sua história e situação geográfica, Cuba tem uma cultura própria, cuja formação recebeu diversas influências: a hispânica, que trouxe o catolicismo; a africana, cuja religiosidade foi permeada pelo cristianismo; a dos diferentes grupos de imigrantes; e a propriamente americana. É justo recordar a influência que o Seminário de São Carlos e Santo Ambrósio de Havana teve no desenvolvimento da cultura nacional, sob a influência de figuras como José Agustín Caballero, chamado Martí, «pai dos pobres e da nossa filosofia», e o Padre Félix Varela, verdadeiro pai da cultura cubana. A superficialidade ou o anticlericalismo de alguns sectores naquela época não são genuinamente representativos daquilo que tem sido a verdadeira idiossincrasia deste povo, que na sua história considerou a fé católica como fonte dos ricos valores cubanos que, juntamente com as expressões típicas, as canções populares, as controvérsias camponesas e o adagiário popular, tem uma profunda matriz cristã, que hoje é uma riqueza e uma realidade constitutiva da nação.

4. Ilustre filho desta terra é o Padre Félix Varela y Morales, por muitos considerado como pedra fundamental da nacionalidade cubana. Na sua pessoa, ele mesmo é a melhor síntese que podemos encontrar entre fé cristã e cultura cubana. Exemplar sacerdote havanês e patriota indiscutível, foi um pensador insigne que renovou na Cuba do século XIX os métodos pedagógicos e os conteúdos do ensino filosófico, jurídico, científico e teológico. Mestre de gerações de cubanos, ensinou que para assumir de modo responsável a existência, é preciso aprender em primeiro lugar a difícil arte de pensar correctamente e com a própria cabeça. Ele foi o primeiro a falar de independência nestas terras. Falou também de democracia, considerando-a como o projecto político mais harmonioso com a natureza humana, ressaltando ao mesmo tempo as exigências que dela derivam. Entre estas exigências, ressaltava duas: a necesssidade de pessoas educadas para a liberdade e a responsabilidade, com um projecto ético forjado no seu interior, que assumam o melhor da herança da civilização e os perenes valores transcendentais, para serem assim capazes de empreender tarefas decisivas ao serviço da comunidade; e, em segundo lugar, que as relações humanas, bem como o estilo de convivência social, favoreçam os devidos espaços onde cada pessoa possa, com os necessários respeito e solidariedade, desempenhar o papel histórico que lhe corresponde para dinamizar o Estado de Direito, garantia essencial de toda a convivência humana que quiser considerar-se democrática.

O Padre Varela estava consciente de que, no seu tempo, a independência era um ideal ainda inatingível; por isso, dedicou-se à formação de pessoas, homens de consciência, que não fossem soberbos com os débeis, nem fracos com os poderosos. Exilado em Nova Iorque, fez uso dos instrumentos que estavam ao seu alcance: a correspondência pessoal, a imprensa e aquilo que poderíamos considerar a sua obra máxima, as Cartas a Elpídio, sobre a impiedade, a superstição e o fanatismo nas suas relações com a sociedade, verdadeiro monumento de ensinamento moral, que constitui a sua preciosa herança à juventude cubana. Durante os últimos trinta anos da sua vida, afastado da cátedra cubana, continuou a ensinar à distância, gerando deste modo uma escola de pensamento, um estilo de convivência social e uma atitude para com a pátria que, também hoje, devem iluminar todos os cubanos.

A vida inteira do Padre Varela inspirou-se numa profunda espiritualidade cristã. Esta constitui a sua motivação mais forte, o manancial das suas virtudes, a raiz do seu compromisso com a Igreja e com Cuba: buscar a glória de Deus em tudo. Isto levou-o a crer na força do pequeno, na eficácia das sementes da verdade, na conveniência de que as transformações se realizassem com a devida gradualidade, até chegar às grandes e autênticas reformas. Quando se encontrava no final do seu caminho, alguns momentos antes de fechar os olhos para a luz deste mundo e de os abrir para a Luz inextinguível, cumpriu a promessa que sempre fizera: «Guiado pela tocha da fé, caminho rumo ao túmulo em cuja borda espero fazer, com a graça divina e com o último suspiro, uma profissão da minha fé firme e um voto ardoroso pela prosperidade da minha pátria» (Cartas a Elpídio, tomo I, carta 6, pág. 182).

5. Esta é a herança que o Padre Varela deixou. O bem da sua pátria continua a necessitar da luz sem ocaso, que é Cristo. Cristo é o caminho que guia o homem para a plenitude das suas dimensões, o caminho que leva a uma sociedade mais justa, livre, humana e solidária. O amor a Cristo e a Cuba, que iluminou a vida do Padre Varela, está na raiz mais profunda da cultura cubana. Recordai-vos da tocha que aparece no escudo desta Casa de estudos: não é apenas memória, mas também projecto. Os propósitos e as origens desta Universidade, a sua trajectória e a sua herança, assinalam a sua vocação de ser mãe de sabedoria e de liberdade, inspiradora de fé e de justiça, crisol em que se fundem ciência e consciência, mestra de universalidade e de espírito cubano.

A tocha acesa pelo Padre Varela, que haveria de iluminar a história do povo cubano, foi recolhida logo depois da sua morte por esta personalidade relevante da nação que é José Martí: escritor e mestre no sentido mais pleno da palavra, profundamente democrático e independentista, patriota, amigo leal até mesmo daqueles que não compartilhavam o seu programa político. Ele foi sobretudo um homem de luz, coerente com os seus valores éticos e animado por uma espiritualidade de raiz eminentemente cristã. É considerado como um continuador do pensamento do Padre Varela, a quem chamava «o santo cubano».

6. Nesta Universidade conservam-se os restos mortais do Padre Varela, como um dos seus tesouros mais preciosos. Em toda a parte em Cuba são visíveis os monumentos que a veneração dos cubanos levantou a José Martí. Estou convencido de que este povo herdou as virtudes humanas de matriz cristã de ambos estes homens, pois todos os cubanos compartilham solidariamente o seu legado cultural. Em Cuba pode-se falar de um fecundo diálogo cultural, que é garantia de um crescimento mais harmonioso e de um incremento de iniciativas e de criatividade da sociedade civil. Neste país, a maior parte dos artífices da cultura – católicos e não-católicos, crentes e não-crentes – são homens de diálogo, capazes de propor e de escutar. Encorajo-vos a continuar os vossos esforços no sentido de encontrar uma síntese com que todos os cubanos possam identificar-se; a buscar o modo de consolidar uma identidade cubana harmoniosa, que possa integrar no seu seio as múltiplas tradições nacionais. Se estiver aberta à Verdade, a cultura cubana garantirá a sua identidade nacional e fá-la-á crescer em humanidade.

A Igreja e as instituições culturais da nação devem encontrar-se no diálogo e, assim, cooperar para o desenvolvimento da cultura cubana. Ambas possuem um caminho e uma finalidade comuns: servir o homem, cultivar todas as dimensões do seu espírito e fecundar a partir de dentro todas as suas relações comunitárias e sociais. As iniciativas já existentes neste sentido devem encontrar apoio e continuidade numa pastoral para a cultura, em diálogo permanente com pessoas e instituições do âmbito intelectual.

Peregrino numa nação como a vossa, com a riqueza de uma herança mestiça e cristã, faço votos por que no porvir os cubanos alcancem uma civilização da justiça e da solidariedade, da liberdade e da verdade, uma civilização do amor e da paz que, como dizia o Padre Varela, «constitua o fundamento do grande edifício da nossa felicidade». Por isso, permiti-me pôr de novo nas mãos da juventude cubana aquela herança, sempre necessária e actual, do Pai da cultura cubana; aquela missão que o Padre Varela recomendou aos seus discípulos: «Dizei-lhes que eles são a doce esperança da pátria e que não há pátria sem virtude, nem virtude com impiedade».

JOÃO PAULO II

Mensagem escrita aos jovens cubanos

Queridos jovens cubanos

1. «Jesus olhou para ele com amor» (Mc 10, 21). Assim o Evangelho nos narra o encontro com o jovem rico. Assim olha o Senhor para cada homem. Os seus olhos, repletos de ternura, fixam-se também hoje no rosto da juventude cubana. E eu abraço-vos em seu nome, reconhecendo em vós a esperança viva da Igreja e da Pátria cubana.

Desejo transmitir-vos a saudação cordial e o afecto sincero de todos os jovens cristãos dos diferentes países e continentes, que tive a ocasião de visitar no exercício do ministério de Sucessor de Pedro. Assim como vós, também eles caminham para o futuro entre alegrias e esperanças, tristezas e angústias, como diz o Concílio Vaticano II.

Vim a Cuba, como mensageiro da verdade e da esperança, para vos trazer a Boa Nova e vos anunciar «o amor de Deus, manifestado em Jesus Cristo, nosso Senhor» (Rm 8, 39). Só este amor pode iluminar a noite da solidão humana; só ele é capaz de confortar a esperança dos homens na busca da felicidade.

Cristo disse-nos que «não existe amor maior do que dar a vida pelos amigos. Sereis Meus amigos, se fizerdes o que vos mando... chamo-vos amigos (Jo 15, 13-15). Ele oferece-vos a sua amizade. Deu a sua vida para que aqueles que desejam responder ao seu chamado sejam efectivamente seus amigos. Trata-se de uma amizade profunda, sincera, leal e radical, como deve ser a verdadeira amizade. Esta é a forma própria de se relacionar com os jovens, dado que sem amizade a juventude empobrece-se e debilita-se. A amizade cultiva-se com o próprio sacrifício, para servir e amar verdadeiramente os amigos. Assim, sem sacrifício não existe amizade sincera, juventude sadia, país com futuro, religião autêntica.

Por isso, escutai a voz de Cristo! Cristo passa na vossa vida e diz-vos: «Segui-Me!». Não vos fecheis ao seu amor. Não passeis ao largo. Acolhei a sua palavra. Cada um recebeu d'Ele um chamado. Ele conhece o nome de cada um. Deixai-vos guiar por Cristo na busca daquilo que vos pode ajudar a realizar-vos plenamente. Abri as portas do vosso coração e da vossa existência a Jesus, «o verdadeiro herói, humilde e sábio, o profeta da verdade e do amor, o companheiro e o amigo dos jovens» (Mensagem do Concílio Ecuménico Vaticano II aos Jovens).

2. Conheço bem os valores dos jovens cubanos, sinceros nos seus relacionamentos, autênticos nos seus projectos, hospitaleiros com todos e amantes da liberdade. Bem sei que, como filhos da exuberante terra caribenha, sobressaís pela vossa capacidade artística e criativa; pelo vosso espírito jubiloso e empreendedor, sempre dispostos a assumir grandes e nobres empresas para a prosperidade do País; pela sã paixão que pondes nas coisas que vos interessam e pela facilidade com que superais os reveses e as limitações. Estes valores manifestam-se com maior nitidez quando encontram espaços de liberdade e motivações profundas. Além disso, foi com emoção que pude comprovar e admirar a fidelidade de muitos de vós à fé recebida dos antepassados, muitas vezes transmitida no regaço das mães e avós, durante estas últimas décadas em que a voz da Igreja parecia sufocada.

Todavia, a sombra da assustadora crise actual de valores que agita o mundo ameaça também a juventude desta luminosa Ilha. Difunde-se uma perniciosa crise de identidade, que leva os jovens a viver sem sentido, sem rumo nem projecto para o futuro, asfixiados pelo que é imediato. Impõem-se o relativismo, a indiferença religiosa e a falta de dimensão moral, enquanto se sente a tentação de se render aos ídolos da sociedade de consumo, fascinados pelo seu brilho fugaz. Inclusivamente tudo o que vem de fora do país parece deslumbrar.

Diante disto, as estruturas públicas para a educação, a criação artística, literária e humanista, a investigação científica e tecnológica, assim como a proliferação de escolas e mestres, têm procurado contribuir para despertar uma notável solicitude pela busca da verdade, pela defesa da beleza e pela salvação da bondade; porém, suscitaram também as perguntas de muitos de vós: por que a abundância de instrumentos e instituições não consegue corresponder plenamente ao fim almejado?

Não se deve buscar a resposta somente nas estruturas, nos instrumentos e nas instituições, no sistema político ou nos embargos económicos, que são sempre condenáveis porque lesam os mais necessitados. Estas causas são apenas uma parte da resposta, mas não chegam ao fundo do problema.

3. O que vos posso dizer, jovens cubanos, que viveis em condições materiais com frequência difíceis, por vezes frustrados nos vossos próprios e legítimos projectos e, por isso, às vezes de certa forma privados até mesmo da própria esperança? Orientados pelo Espírito, combatei com a força de Cristo ressuscitado, para não cairdes na tentação das várias formas de fuga do mundo e da sociedade; para não sucumbirdes perante a ausência de aspirações, que leva à autodestruição da própria personalidade mediante o alcoolismo, a droga, os abusos sexuais e a prostituição, a busca contínua de novas sensações e o refúgio em seitas, cultos espiritualistas alienantes ou grupos totalmente alheios à cultura e à tradição da vossa Pátria.

«Sede vigilantes, permanecei firmes na fé... sede fortes. Fazei tudo com amor» (1 Cor 16, 13-14). Porém, o que significa ser forte? Quer dizer vencer o mal nas suas múltiplas formas. O pior dos males é o pecado, que causa inumeráveis sofrimentos e pode estar também dentro de nós, influenciando de maneira negativa o nosso comportamento. Portanto, se é justo empenhar-se na luta contra o mal nas suas manifestações públicas e sociais, para os crentes é um dever procurar derrotar em primeiro lugar o pecado, raiz de todas as formas de mal que podem abrigar-se no coração humano, resistindo às suas seduções com a ajuda de Deus.

Tende a certeza de que Deus não limita a vossa juventude, nem quer para os jovens uma vida desprovida de alegria. Pelo contrário! O seu poder é um dinamismo que leva ao desenvolvimento de toda a pessoa: ao crescimento do corpo, da mente e da afectividade; ao desenvolvimento da fé; à expansão do amor efectivo por vós mesmos, pelo próximo e pelas realidades terrestres e espirituais. Se souberdes abrir-vos à iniciativa divina, haveis de experimentar em vós a força do «grande Vivente, Cristo, eternamente jovem» (Mensagem do Concílio Ecuménico Vaticano II aos Jovens).

Jesus deseja que tenhais vida e a tenhais em abundância (cf. Jo 10, 10). A vida que se nos revela em Deus, embora às vezes possa parecer difícil, orienta e dá sentido ao desenvolvimento do homem. As tradições da Igreja, a prática dos sacramentos e o recurso constante à oração não são obrigações e ritos que se devem cumprir mas, ao contrário, constituem inesgotáveis mananciais de graça que alimentam a juventude, tornando-a fecunda para o desenvolvimento da virtude, a audácia apostólica e a verdadeira esperança.

4. A virtude é a força interior que impele a sacrificar-se por amor do bem, permitindo à pessoa não só realizar boas acções, mas também dar o melhor de si. Com jovens virtuosos, um país torna-se grande. Por isso, e dado que o futuro de Cuba depende de vós, do modo em que formardes o vosso carácter e viverdes a vossa vontade de compromisso na transformação da realidade, digo-vos: enfrentai os grandiosos desafios do presente com fortaleza, temperança, justiça e prudência; regressai às raízes cubanas e cristãs, realizando tudo quanto estiver ao vosso alcance para construirdes um futuro cada vez mais digno e livre! Não vos esqueçais de que a responsabilidade faz parte da liberdade. Mais ainda, a pessoa define-se principalmente pela sua responsabilidade para com os demais e perante a história (cf. Constituição pastoral Gaudium et spes, 55).

Ninguém deve eximir-se do desafio da época em que lhe cabe viver. Ocupai o lugar que vos corresponde na grande família dos povos deste continente e do mundo inteiro, não como os últimos que pedem para ser aceites, mas como aqueles que, a pleno título, trazem consigo uma tradição rica e grande, cujas origens estão no cristianismo.

Desejo falar-vos também de compromisso. O compromisso é a resposta corajosa de quem não deseja desperdiçar a própria vida, mas quer ser protagonista da história pessoal e social. Exorto-vos a assumir um compromisso concreto, ainda que seja humilde e simples mas que, empreendido com perseverança, se transforme numa grandiosa prova de amor e no caminho seguro para a própria santificação. Assumi um compromisso responsável no seio das vossas famílias, na vida das vossas comunidades, no tecido da sociedade civil e também, a seu tempo, nas estruturas decisórias da Nação.

Não há verdadeiro compromisso com a Pátria sem o cumprimento dos próprios deveres e obrigações na família, na universidade, na fábrica ou no campo, no mundo da cultura e no desporto, nos diversos ambientes em que a nação se torna realidade e a sociedade civil entretece a progressiva criatividade da pessoa humana. Não pode existir compromisso com a fé sem uma presença activa e audaz em todos os ambientes da sociedade em que Cristo e a Igreja se encarnam. Os cristãos devem passar da simples presença à animação destes ambientes a partir de dentro, com a força renovadora do Espírito Santo.

A melhor herança que se pode comunicar às futuras gerações é a transmissão dos valores superiores do espírito. Não se trata apenas de salvar alguns deles, mas de favorecer uma educação ética e cívica que ajude a assumir novos valores, a reconstruir o próprio carácter e a alma social sobre a base de uma educação para a liberdade, a justiça social e a responsabilidade. Neste caminho a Igreja, que é «perita em humanidade», oferece-se para acompanhar os jovens, auxiliando-os a escolher com liberdade e maturidade o rumo da sua própria vida e oferecendo-lhes as ajudas necessárias para abrirem o coração e a alma à transcendência. A abertura ao mistério do sobrenatural fará com que descubram a bondade infinita, a beleza incomparável e a verdade suprema; em definitivo, a imagem que Deus quis gravar em cada homem.

5. Detenho-me agora num tema vital para o futuro. A Igreja na vossa nação deseja estar ao serviço não só dos católicos, mas de todos os cubanos. Para poder servir melhor, tem necessidade urgente de sacerdotes que sejam filhos deste povo e sigam as pegadas dos Apóstolos, anunciando o Evangelho e tornando os seus irmãos partícipes dos frutos da redenção; tem também necessidade de homens e mulheres que, consagrando as suas próprias vidas a Cristo, se dediquem com generosidade ao serviço da caridade; precisa ainda de almas contemplativas que implorem a graça e a misericórdia de Deus para o seu povo. É responsabilidade de todos acolher cada dia a exortação persuasiva, dócil e exigente de Jesus, que nos convida a pedir ao senhor da messe que envie mais trabalhadores para a sua messe (cf. Mt 9, 38). É responsabilidade dos que são chamados, responder com liberdade e em espírito de profunda oblação pessoal à voz humilde e penetrante de Cristo que diz, tanto hoje como ontem e sempre: «Vem e segue-Me!».

Jovens cubanos, ao encarnar no lar de Maria e José, Jesus manifesta e consagra a família como santuário da vida e célula fundamental da sociedade. Santifica-a com o sacramento do matrimónio, constituindo-a como «centro e coração da civilização do amor» (Carta às Famílias Gratissimam sane, 13). A maior parte de vós é chamada a formar uma família. Quantas situações de mal-estar pessoal e social têm a sua origem nas dificuldades, crises e rupturas familiares! Preparai-vos bem para ser no futuro os construtores de lares sadios e tranquilos, onde se viva o clima tonificador da concórdia mediante o diálogo aberto e a compreensão recíproca. O divórcio jamais é uma solução, mas um fracasso que se deve evitar. Por conseguinte, fomentai tudo que favorece a santidade, a unidade e a estabilidade da família, fundamentada sobre o matrimónio indissolúvel e aberta com generosidade ao precioso dom da vida.

«O amor é paciente, o amor é prestativo; não é invejoso, não se ostenta, não se enche de orgulho... não procura o seu próprio interesse, não se irrita... Tudo desculpa, tudo crê, tudo espera, tudo suporta» (1 Cor 13, 4-5.7). O amor verdadeiro, ao qual o Apóstolo Paulo dedicou um hino na primeira Carta aos Coríntios, é exigente. A sua beleza está precisamente na sua exigência. Somente quem sabe ser exigente consigo mesmo, em nome do amor, pode exigir o amor do próximo. É preciso que os jovens de hoje descubram este amor, porque é neste que se encontra o fundamento autenticamente sólido da família. Rejeitai com determinação qualquer um dos seus sucedâneos, como o chamado «amor livre»! Quantas famílias foram destruídas por sua causa! Não vos esqueçais de que seguir cegamente o impulso afectivo muitas vezes significa ser escravo das próprias paixões.

6. Permiti-me falar-vos também de Maria, a jovem que realizou em si mesma a adesão mais completa à vontade de Deus e, precisamente por este motivo, se transformou em modelo da máxima perfeição cristã. Teve confiança em Deus: «Bem-aventurada aquela que acreditou, porque vai acontecer o que o Senhor lhe prometeu!» (Lc 1, 45). Robustecida pela palavra recebida de Deus e conservada no seu coração (cf. Lc 2, 9), venceu o egoísmo e derrotou o mal. O amor preparou-a para o serviço humilde e concreto do próximo. A Ela dirige-se hoje também a Igreja, invocando-a incessantemente como auxílio e modelo de caridade generosa. A Ela dirige o seu olhar a juventude de Cuba, para encontrar um exemplo de defesa e promoção da vida, de ternura, de fortaleza no sofrimento, de pureza na vida e de alegria sadia. Confiai os vossos corações a Maria, queridos jovens e queridas jovens, vós que sois o presente e o futuro destas comunidades cristãs, tão provadas ao longo destes anos. Jamais vos separeis de Maria e caminhai juntamente com Ela. Assim sereis santos porque, reflectindo-vos n'Ela e confortados pelo seu auxílio, acolhereis a palavra da promessa, guardando-a ciosamente no vosso interior, e sereis os arautos da nova evangelização também para uma sociedade nova, a Cuba da reconciliação e do amor.

Queridos jovens, a Igreja confia em vós e conta convosco. À luz da vida dos santos e de outras testemunhas do Evangelho e guiados pela atenção pastoral dos vossos Bispos, ajudai-vos uns aos outros a fortalecer a própria fé e a ser os apóstolos do ano 2000, anunciando ao mundo que Cristo nos convida a ser alegres e que a verdadeira felicidade consiste em dar-se por amor dos irmãos. O Senhor continue a derramar abundantes dádivas de paz e entusiasmo sobre todos os jovens filhos e filhas da amada nação cubana. Isto é o que o Papa vos deseja com viva esperança. Abençoo-vos de coração!

Camagüey, 23 de Janeiro de 1998.

JOÃO PAULO II

Discurso na Cerimónia de Chegada, no aeroporto de Havana

21 de Janeiro de 1998

Senhor Presidente Senhor Cardeal e Irmãos no Episcopado Excelentíssimas Autoridades Membros do Corpo Diplomático Amadíssimos Irmãos e Irmãs de Cuba

1. Dou graças a Deus, Senhor da história e dos nossos destinos, que me permitiu vir a esta terra, qualificada por Cristóvão Colombo como «a mais formosa que os olhos humanos viram». Ao chegar a esta ilha onde, já há mais de quinhentos anos, foi plantada a Cruz de Cristo — cruz zelosamente conservada hoje como um tesouro no templo paroquial de Baracoa, na extremidade oriental do País — saúdo a todos com particular emoção e grande afecto.

Chegou o feliz dia, tão longamente desejado, em que posso corresponder ao convite que os Bispos de Cuba me formularam já há algum tempo, convite que também o Senhor Presidente da República me fez e reiterou pessoalmente no Vaticano, por ocasião da sua visita no mês de Novembro de 1996. Enche-me de satisfação visitar esta Nação, estar entre vós e poder compartilhar assim algumas jornadas repletas de fé, de esperança e de amor.

2. É-me grato dirigir a minha saudação em primeiro lugar ao Senhor Presidente, Dr. Fidel Castro Ruz, que realizou o gesto de vir receber-me e a quem desejo manifestar a minha gratidão pelas suas palavras de boas-vindas. Expresso igualmente o meu reconhecimento às demais autoridades aqui presentes, assim como ao Corpo Diplomático e aos que ofereceram a sua valiosa cooperação para preparar esta Visita pastoral.

Saúdo com muito afecto os meus Irmãos no Episcopado, em particular o Senhor Cardeal Jaime Lucas Ortega y Alamino, Arcebispo de Havana, e cada um dos demais Bispos cubanos, assim como os que vieram de outros Países para participar nos actos desta Visita pastoral e assim renovar e fortalecer, como tantas vezes, os estreitos vínculos de comunhão e afecto das suas Igrejas particulares com a Igreja que está em Cuba. Nesta saudação o meu coração abre-se também com grande afecto aos queridos sacerdotes, diáconos, religiosos, religiosas, catequistas e fiéis, aos quais sou devedor no Senhor como Pastor e servidor da Igreja Universal (cf. Const. dogm. Lumen gentium, 22). Em todos vós vejo a imagem desta Igreja local, tão amada e sempre presente no meu coração, sentindo-me muito solidário e próximo das vossas aspirações e legítimos desejos. Deus queira que esta Visita, que hoje tem início, sirva para animar todos no empenho de dedicarem o próprio esforço para alcançar essas expectativas, com o concurso de cada cubano e a ajuda do Espírito Santo. Vós sois e deveis ser os protagonistas da vossa própria história pessoal e nacional.

De igual modo saúdo cordialmente todo o povo cubano, dirigindo-me a todos sem excepção: homens e mulheres, anciãos e jovens, adolescentes e crianças; às pessoas com as quais me encontrarei e às que por diversos motivos não puderem participar nas diferentes celebrações.

3. Com esta Viagem apostólica venho, em nome do Senhor, para vos confirmar na fé, animar na esperança, estimular na caridade, a fim de compartilhar o vosso profundo espírito religioso, os vossos afãs, alegrias e sofrimentos, celebrando, como membros de uma grande família, o mistério do Amor divino e fazê-lo presente de maneira mais profunda na vida e na história deste nobre povo, sedento de Deus e de valores espirituais que a Igreja, nestes cinco séculos de presença na Ilha, não deixou de dispensar. Venho como peregrino do amor, da verdade e da esperança, com o desejo de dar um novo impulso à obra evangelizadora que, mesmo no meio de dificuldades, esta Igreja local mantém com vitalidade e dinamismo apostólico, caminhando rumo ao Terceiro Milénio cristão.

4. No cumprimento do meu ministério, não tenho deixado de anunciar a verdade sobre Jesus Cristo, o Qual nos revelou a verdade sobre o homem, a sua missão no mundo, a grandeza do seu destino e a sua inviolável dignidade. A este respeito, o serviço ao homem é o caminho da Igreja. Venho hoje compartilhar convosco a minha profunda convicção de que a Mensagem do Evangelho conduz ao amor, à abnegação, ao sacrifício e ao perdão, de modo que se um povo percorre este caminho é um povo com esperança de um futuro melhor. Por isso, já desde os primeiros momentos da minha presença entre vós quero dizer, com a mesma força do início do meu Pontificado: «Não tenhais medo de abrir os vossos corações a Cristo», deixai que Ele entre nas vossas vidas, nas vossas famílias, na sociedade, para que assim tudo seja renovado. A Igreja repete este apelo, convocando todos sem excepção: pessoas, famílias e povos para que, seguindo fielmente Jesus Cristo, encontrem o sentido pleno das suas vidas, se ponham ao serviço dos seus semelhantes, transformem as relações familiares, de trabalho e sociais, o que redundará sempre em benefício da Pátria e da sociedade.

5. A Igreja em Cuba anunciou sempre Jesus Cristo, embora em algumas ocasiões o tenha feito com escassez de sacerdotes e em circunstâncias difíceis. Quero expressar o meu reconhecimento a tantos crentes cubanos pela sua fidelidade a Cristo, à Igreja e ao Papa, assim como pelo respeito demonstrado para com as tradições religiosas mais genuínas, aprendidas dos maiores, e pelo valor e perseverante espírito de entrega que testemunharam no meio dos seus sofrimentos e anseios. Tudo isto foi recompensado em muitas ocasiões com a solidariedade mostrada por outras comunidades eclesiais da América e do mundo inteiro. Hoje, como sempre, a Igreja em Cuba deseja poder dispor do espaço necessário para continuar a servir todos, em conformidade com a missão e o ensinamento de Jesus Cristo.

Amados filhos da Igreja católica em Cuba: bem sei quanto esperastes o momento da minha Visita, e sabeis como o desejei. Por isso, acompanho com a oração os meus melhores votos para que esta terra possa oferecer a todos uma atmosfera de liberdade, de confiança recíproca, de justiça social e de paz duradoura. Que Cuba, com todas as suas magníficas possibilidades, se abra ao mundo e o mundo se abra a Cuba, para que este povo, que como todo o homem e nação busca a verdade, trabalha para progredir e anela a concórdia e a paz, possa olhar para o futuro com esperança.

6. Com a confiança posta no Senhor e sentindo-me muito unido aos amados filhos e filhas de Cuba, agradeço de coração este caloroso acolhimento com o qual tem início a minha Visita pastoral, que recomendo à materna protecção da Santíssima Virgem da Caridade do Cobre. Abençoo todos de coração e de modo particular os pobres, os doentes, os marginalizados e todos os que sofrem no corpo ou no espírito.

Louvado seja Jesus Cristo!

Muito obrigado!

DISCURSO DO SANTO PADRE JOÃO PAULO II AOS PRELADOS AUDITORES E AOS ADVOGADOS DO TRIBUNAL DA ROTA ROMANA

Sábado, 17 de Janeiro de 1998

1. Escutei com interesse as palavras com que Vossa Excelência, venerado Irmão, na qualidade de Decano da Rota Romana, interpretou os sentimentos dos Prelados Auditores, dos Oficiais maiores e menores do Tribunal, dos Defensores do vínculo, dos Advogados da Rota, dos Alunos do «Studium Rotale» e dos respectivos familiares presentes nesta Audiência especial, por ocasião do início do ano judiciário. Ao agradecer-lhe os sentimentos expressos, desejo renovar-lhe, também nesta circunstância, as minhas felicitações pela elevação à dignidade arquiepiscopal, que constitui uma manifestação de estima para com a sua pessoa e de apreço pela actividade do secular Tribunal da Rota Romana.

Conheço bem a competente colaboração que o vosso Tribunal oferece ao Sucessor de Pedro, no desempenho das Suas tarefas em âmbito judiciário. É uma obra preciosa, realizada não sem sacrifício por pessoas altamente qualificadas em campo jurídico, as quais se movem na constante preocupação de adequar a actividade do Tribunal às necessidades pastorais dos nossos tempos.

O Mons. Decano recordou, de maneira muito justa, que neste ano de 1998 se cumprem os noventa anos da Constituição Sapienti consilio, com a qual o meu venerado Predecessor, São Pio X, ao reordenar a Cúria Romana, provia também à redefinição da função, jurisdição e competência do vosso Tribunal. Justamente ele recordou esta celebração, aproveitando este motivo para uma rápida referência ao passado e, sobretudo, para delinear os futuros empenhos na perspectiva das exigências que se es- tão a prefigurar.

2. É-me dada a oportunidade, hoje, de vos propor algumas reflexões, em primeiro lugar, sobre a configuração e colocação da administração da justiça e, como consequência, a do juiz na Igreja e, em segundo lugar, sobre algum problema mais concreta e directamente atinente ao vosso trabalho judiciário.

Para compreender o sentido do direito e do poder judiciário na Igreja, em cujo mistério de comunhão a sociedade visível e o Corpo místico de Cristo constituem uma só realidade (cf. Lumen gentium, 8), parece conveniente, no encontro hodierno, reafirmar em primeiro lugar a natureza sobrenatural da Igreja e a sua essencial e irrenunciável finalidade. O Senhor constituiu-a como prolongamento e realização nos séculos da sua obra salvífica universal, que recupera também a originária dignidade do homem como ser racional, criado à imagem e semelhança de Deus. Tudo tem sentido, tudo tem razão, tudo tem valor na obra do Corpo místico de Cristo exclusivamente na linha directiva e na finalidade da redenção de todos os homens.

Na vida de comunhão da «societas» eclesial, sinal no tempo da vida eterna que pulsa na Trindade, os membros são elevados, por dom do amor divino, ao estado sobrenatural, obtido e sempre readquirido pela eficácia dos méritos infinitos de Cristo, Verbo feito carne.

Fiel ao ensinamento do Concílio Vaticano II, o Catechismus Catholicae Ecclesiae, afirmando que a Igreja é una em razão da sua fonte, recorda-nos: «Huius mysterii supremum exemplar et principium est in Trinitate Personarum unitas unius Dei Patris et Filii in Spiritu Sancto» (n. 813). Mas, de igual modo, o mesmo Catechismus afirma: «Omnes qui filii Dei sumus et unam familiam in Christo constituimus, dum in mutua caritate et una Sanctissimae Trinitatis laude invicem communicamus, intimae Ecclesiae vocationi correspondemus» (n. 959).

Eis, então, que o juiz eclesiástico, autêntico «sacerdos iuris» na sociedade eclesial, não pode deixar de ser chamado a exercer um verdadeiro «officium caritatis et unitatis». Mais do que nunca empenhativa, portanto, é a vossa tarefa e ao mesmo tempo de alta dimensão espiritual, que vos torna efectivos artífices de uma singular diaconia para cada homem e, mais ainda, para o «christifidelis».

É precisamente a aplicação correcta do direito canónico, que pressupõe a graça da vida sacramental, que favorece esta unidade na caridade, porque o direito na Igreja não poderia ter outra interpretação, significado e valor senão o de corresponder à finalidade essencial da própria Igreja. Nem pode ser exceptuada desta perspectiva e deste objectivo supremo qualquer actividade judiciária, que se realize diante desse Tribunal.

3. Isto vale a partir dos processos penais, nos quais a recomposição da unidade eclesial significa o restabelecimento de uma plena comunhão na caridade, para chegar, através dos litígios em matéria contenciosa, aos processos vitais e complexos que se referem ao estado pessoal e, em primeiro lugar, à validade do vínculo matrimonial.

Seria aqui porventura supérfluo recordar que também o «modus», com que os processos eclesiásticos são conduzidos, se deve traduzir em comportamentos idóneos a exprimir esse sopro de caridade. Como não pensar no ícone do Bom Pastor que se inclina para a pequena ovelha perdida e ferida, quando queremos representar o juiz que, em nome da Igreja, encontra, trata e julga a condição de um fiel que a ele se dirigiu com confiança?

Mas, depois, em última análise é o mesmo espírito do Direito Canónico que exprime e põe em prática esta finalidade da unidade na caridade: deve-se ter isto em consideração tanto na interpretação e aplicação dos seus vários cânones, como – e sobretudo, na adesão fiel a esses princípios doutrinais que, como substracto necessário, dão aos cânones significado e os substanciam. Nesse sentido, na Constituição Sacrae disciplinae leges, com que promulguei o Código de Direito Canónico de 1983, escrevi: «Quod si fieri nequit, ut imago Ecclesiae per doctrinam Concilii descripta perfecte in linguam canonisticam convertatur, nihilominus ad hanc ipsam imaginem semper Codex est referendus tamquam ad primarium exemplum, cuius lineamenta is in se, quantum fieri potest, suapte natura exprimere debet» (AAS 75, 1983, pág. XI).

4. A respeito disso, o pensamento não pode deixar de se voltar particularmente para as causas que têm preponderância nos processos submetidos ao exame da Rota Romana e dos Tribunais da Igreja inteira: refiro-me às causas de nulidade de matrimónio.

Nelas, o «officium caritatis et unitatis» a vós confiado deve ser exercido seja no plano doutrinal, seja no plano mais propriamente processual. Primordial parece neste âmbito a função específica da Rota Romana, como operadora de uma sábia e unívoca jurisprudência a que os outros Tribunais eclesiásticos devem adequar-se, como a um autorizado exemplo. Nem teria sentido diferente a já tempestiva publicação das vossas decisões judiciárias, que se referem à matéria de direito substancial assim como às problemáticas do modo de proceder.

As sentenças da Rota, para além do valor de cada um dos julgamentos em relação às partes interessadas, contribuem para entender de maneira correcta e aprofundar o direito matrimonial. Justifica-se, portanto, o apelo contínuo, que nelas se verifica, aos princípios irrenunciáveis da doutrina católica, no que se refere ao próprio conceito natural do matrimónio, com obrigações e direitos que lhe são próprios, e mais ainda no que concerne à sua realidade sacramental, quando é celebrado entre baptizados. Aqui vem a propósito a exortação de Paulo a Timóteo: «praedica verbum, insta opportune, importune... Erit enim tempus, cum sanam doctrinam non sustinebunt» (2 Tm 4, 2-3). Advertência válida, sem dúvida, também nos nossos dias.

5. Não está ausente do meu espírito de Pastor o angustioso e dramático problema que vivem aqueles fiéis, cujo matrimónio naufragou não por própria culpa e que, ainda antes de obterem uma eventual sentença eclesiástica que declare legitimamente a sua nulidade, estabelecem novas uniões, que eles desejam sejam abençoadas e consagradas perante o ministro da Igreja.

Já noutras vezes chamei a vossa atenção para a necessidade de que nenhuma norma processual, meramente formal, deva representar um obstáculo à solução, na caridade e equidade, dessas situações: o espírito e a letra do Código de Direito Canónico em vigor vão nesta direcção. Mas, com igual preocupação pastoral, tenho presente a necessidade de que as causas matrimoniais sejam levadas a cabo com a seriedade e a rapidez requeridas pela sua própria natureza.

A respeito disso, e com a finalidade de favorecer uma sempre melhor administração da justiça, tanto nos aspectos substanciais como nos processuais, instituí uma Comissão Interdicasterial encarregada de preparar um projecto de Instrução acerca do desenvolvimento dos processos concernentes às causas matrimoniais.

6. Mesmo com estas imprescindíveis exigências de verdade e de justiça, o «officium caritatis et unitatis» em que me detive até agora com estas reflexões, jamais poderá significar um estado de inércia intelectual, pelo qual se tenha da pessoa, objecto dos vossos julgamentos, uma concepção alheia à realidade histórica e antropológica, limitada e, antes, invalidada por uma visão culturalmente ligada a uma ou outra parte do mundo.

Os problemas em campo matrimonial, aos quais se referia no início o Monsenhor Decano, exigem da vossa parte, principalmente de vós que compondes este Tribunal ordinário de apelo da Santa Sé, uma inteligente atenção ao progresso das ciências humanas, à luz da Revelação cristã, da Tradição e do autêntico Magistério da Igreja. Conservai com veneração quanto de sã cultura e doutrina o passado nos transmitiu, mas acolhei com discernimento quanto também de bom e de justo o presente nos oferece. Antes, deixai-vos guiar sempre só pelo supremo critério da busca da verdade, sem pensar que a justiça das soluções está ligada à mera conservação dos aspectos humanos contingentes nem ao frívolo desejo de novidades não conformes com a verdade.

Em particular, o correcto entendimento do «consenso matrimonial», fundamento e causa do pacto nupcial, em todos os seus aspectos e em todas as suas implicações não pode ser coarctado em via exclusiva em esquemas já adquiridos, válidos sem dúvida ainda hoje, mas aperfeiçoáveis com o progresso no aprofundamento das ciências antropológicas e jurídicas. Embora na sua autonomia e especificidade epistemológica e doutrinal, o Direito Canónico deve, sobretudo hoje, valer-se do contributo das outras disciplinas morais, históricas e religiosas.

Nesse delicado processo interdisciplinar, a fidelidade à verdade revelada sobre o matrimónio e sobre a família, interpretada de maneira autêntica pelo Magistério da Igreja, constitui sempre o definitivo ponto de referência e o verdadeiro estímulo para uma renovação profunda deste sector da vida eclesial.

Assim, o completar-se dos noventa anos de actividade da Rota reordenada, torna-se motivo de novo impulso rumo ao futuro, numa ideal expectativa de que se realize também de modo visível no Povo de Deus, que é a Igreja, a unidade na caridade.

O Espírito da verdade vos ilumine no vosso difícil ofício, que é serviço aos irmãos que a vós recorrem, e a minha Bênção, que vos concedo com afecto, seja auspício e sinal da contínua e próvida assistência divina.

DISCURSO DO SANTO PADRE AO PRIMEIRO GRUPO DE BISPOS DA POLÓNIA EM VISITA "AD LIMINA APOSTOLORUM"

16 de Janeiro de 1998

Caros Irmãos no Ministério episcopal

1. Dou-vos as minhas cordiais boas-vindas à casa do Papa, onde os Bispos são mais familiares do que hóspedes. Dirijo palavras de saudação ao Senhor Cardeal Henryk Gulbinowicz, Arcebispo metropolitano de Wroclaw e aos Arcebispos metropolitanos de Danzigue, de Gniezno, de Poznañ e de Szczecin-Kamieñ; aos Bispos residenciais das dioceses de Kalisz, de Koszalin-Kolobrzeg, de Legnica, de Pelplin, de Torun, de Wloclawek e de Zielona Góra-Gorzów. Saúdo também os Bispos Auxiliares das metrópoles e das dioceses acima mencionadas. Sinto-me feliz por este encontro e por aqueles que ainda haverão nas próximas semanas, com os sucessivos grupos de Bispos polacos, que vêm à Cidade Eterna ad limina Apostolorum. Eles testemunham um profundo ligame na fé e na caridade com o Sucessor de São Pedro. O vínculo recíproco que se manifesta durante esta visita é o sinal visível da unidade e a expressão da obediência em relação ao único Mestre e Senhor, Jesus Cristo, que nos chamou e constituiu servidores da verdade revelada ao Seu povo.

Passaram-se cinco anos desde a última visita ad Limina do Episcopado polaco. Foram anos de intensos contactos, durante os quais experimentei a vossa generosa colaboração e pude compartilhar as solicitudes e alegrias das vossas Igrejas locais. Estão também presentes entre vós Bispos chamados ao serviço pastoral nestes últimos anos. Dirijo-lhes boas-vindas particularmente cordiais. Esta sua primeira visita aos Túmulos dos Apóstolos intensifique o seu desejo de imitar, de modo ainda maior, o Bom Pastor que «dá a vida pelas ovelhas» (cf. Jo 10, 15), consolidando-os no testemunho do Povo de Deus confiado aos seus cuidados pastorais. Aproveito a ocasião também para recordar os nossos coirmãos no Episcopado que, no decorrer dos últimos cinco anos, passaram para a eternidade. Na oração recomendemo-los à Divina Misericórdia.

2. A hodierna visita dos Prelados polacos ao Bispo de Roma realiza-se alguns meses depois da minha peregrinação na amada Pátria e, num certo sentido, constitui a retribuição daquela que efectuei entre o final de Maio e o início de Junho do ano passado, durante a qual me foi dado servir a Igreja que está na Polónia e todos os meus compatriotas. Este nosso encontro renova o eco vivo e constitui um complemento «sui generis» daquela minha visita pastoral. Graças aos imperscrutáveis desígnios da Divina Providência, o Bispo de Roma tem hoje a possibilidade não só de receber na própria casa os Bispos do mundo inteiro, mas ele mesmo pode visitar as suas Igrejas. Encontra-se com os fiéis, compartilha as suas alegrias e preocupações. É uma nova e moderna expressão de comunhão e de responsabilidade colegial para a Igreja cum Petro et sub Petro. Na vossa presença, quero dar novamente graças a Deus pelo admirável intercâmbio de dons ocorrido naqueles dias, para mim memoráveis. Nas várias etapas da peregrinação experimentámos de maneira comunitária a presença de Cristo, redescobrindo o lugar que Ele ocupa na existência de cada homem, bem como na vida da Igreja e da Nação. Demo-nos conta, mais uma vez, que Cristo é a nossa única via rumo à «casa do Pai» (cf. Jo 14, 6). Compreendemos que, neste caminho, a Igreja tem um papel particular a desempenhar – servir o homem, cada homem, a fim de que este possa reencontrar-se plenamente a si mesmo em Cristo – no seu mistério da Encarnação e da Redenção. Só «...Cristo, morto e ressuscitado por todos, oferece aos homens pelo seu Espírito a luz e a força para poderem corresponder à sua altíssima vocação; nem foi dado aos homens sob o céu outro nome, no qual devam ser salvos» (Gaudium et spes, 10).

3. Algumas semanas depois da minha partida, a população das regiões e das cidades ocidentais da Polónia, que visitei durante a minha última peregrinação, foi submetida à grande prova da aluvião. Todos nós ficámos profundamente impressionados pela inaudita força do poderoso elemento da natureza, que devorou muitos seres humanos, ameaçou as bases da existência de numerosíssimas famílias e comunidades, destruiu e danificou muitas casas, lugares de trabalho, hospitais, escolas, monumentos artísticos e estradas. Ao mesmo tempo, porém, os longos dias da aluvião deram início a um enorme testemunho de bem, de autêntica solidariedade, de generosidade e de capacidade de organização na concretização da ajuda recíproca. Os meios de comunicação social, de modo particular as emissoras radiofónicas locais, desempenharam um papel especial em unir todos para trabalhar juntos nos territórios atingidos pela catástrofe da aluvião, em estimular a sensibilidade para a sorte das vítimas e em coordenar os socorros. Estamos gratos a Deus e aos homens por todo o bem realizado naqueles memoráveis, e ao mesmo tempo dolorosos, dias de Julho. Contemporaneamente, como pastores da Igreja, deveis continuar a empenhar-vos, conforme as vossas forças e possibilidades, para que com o passar do tempo não sejam esquecidos os habitantes dos territórios atingidos pela aluvião. A Divina Providência não cessa de dar aos homens de boa vontade ocasiões para um amor efectivo, que prepara de modo particular os seus corações para acolher o Evangelho.

4. A minha peregrinação na Pátria inscreveu-se na preparação de toda a Igreja universal para o Grande Jubileu do Ano 2000. A Igreja na Polónia, e de modo especial a arquidiocese de Wroclaw, ofereceu um serviço à Igreja universal na vigília do milénio da sua fundação, organizando o 46° Congresso Eucarístico Internacional. Na presença das irmãs e dos irmãos de outras Igrejas e das Comunidades eclesiais unidas pela graça do Santo Baptismo, inclinando-se em adoração do mistério do Corpo e do Sangue do Senhor, a inteira Igreja universal viveu e proclamou a grande verdade, segundo a qual «Jesus Cristo é o único Salvador do mundo, ontem, hoje e sempre» (cf. Hb 13, 8). Viveu-a como um forte impulso à unidade de todos os discípulos de Cristo, aos quais já não bastam a tolerância e a aceitação recíprocas e, por isso, desejam um comum testemunho da unidade. Esta pode e deve tornar-se para a família humana o sinal de que a reconciliação é possível. O mundo contemporâneo experimenta as consequências de profundas divisões, herança de grandes dramas do milénio que chega ao fim; ele tem necessidade deste testemunho e espera-o da parte dos discípulos de Cristo.

A missão da Igreja é anunciar a salvação em Cristo a todos os homens. Para cumprir esse mandato, ela não tem necessidade de qualquer privilégio; necessita apenas da liberdade de anunciar a verdade do Evangelho. É sustentada, antes de tudo, pela graça de Cristo vivo nos séculos, que frutifica com o testemunho da vida dos crentes – muitas vezes oferecida de modo heróico. Duas dimensões extremamente importantes desse testemunho são a unidade e a constante aspiração a este ideal. A unidade da Igreja baseia-se na Verdade e no amor de Deus e do homem, do qual dá testemunho. A verdade que une a Igreja e torna o homem livre para a esperança da vida eterna é Cristo vivo, enviado pelo Pai por obra do Espírito Santo, a fim de que o mundo creia que Deus é amor. O amor – fundamento da unidade da Igreja – é a caridade de Cristo derramada nos nossos corações, que reúne os filhos de Deus dispersos. A comunidade de verdade e de amor arraigada em Cristo «oferece a todos os homens a bem-aventurada esperança do Reino de Deus» (cf. Prefácio da V Oração Eucarística). Essa unidade, da qual o Papa e os Bispos são ministros, é o fim ardentemente suspirado por todos aqueles que crêem em Cristo. Além disso: é a vontade e o dom do próprio Cristo!

Quero ressaltar aqui o empenho activo da Igreja na Polónia no campo ecuménico. Exprimo um vivo reconhecimento pela concreta e magnânima contribuição dada ao desenvolvimento do movimento ecuménico. Mencionei algumas dessas iniciativas no discurso pronunciado durante o memorável encontro de Wroclaw. A actividade ecuménica pode ser limitada à oração pela unidade dos cristãos, durante o mês de Janeiro, mas exige um esforço contínuo, determinado pela benevolência e pela disponibilidade a dar um comum testemunho cristão no mundo pluralista contemporâneo. É necessário orar em comunidade, falar, criar uma atmosfera sincera de compreensão humana, tanto no plano individual como institucional. É preciso empreender iniciativas concretas, a fim de que o espírito ecuménico, que se manifesta em várias ocasiões, penetre cada vez mais em toda a vida da Igreja. Então tornar-se-á mais visível aquilo que se pode e se deve fazer em comum, para mostrar a nossa unidade em Cristo. É necessário que os cristãos – também na Polónia – entrem juntos no terceiro milénio, se não perfeitamente unidos, pelo menos mais abertos uns aos outros, mais sensíveis e mais decididos no caminho rumo à reconciliação.

5. O ministério da reconciliação de Cristo não se refere apenas à acção ecuménica, mas compreende também a Igreja e a Nação inteira. O papel da Igreja é insubstituível neste particular momento histórico, no qual muitos povos e países, e entre estes também a nossa Nação, dão graças a Deus pelo extraordinário dom da liberdade, mas ao mesmo tempo ressentem de modo doloroso das profundas feridas deixadas na alma do homem pelas mais antigas e mais recentes experiências de hostilidades e humilhações do passado. Fortificada pela fé na Divina Misericórdia experimentada quotidianamente, a Igreja cura com amor as feridas dos pecados e ensina a construir a unidade sobre o fundamento do perdão e da reconciliação. Também na sociedade polaca a derrocada do sistema comunista, baseado na luta de classes, pôs em evidência barreiras de divisões até agora pouco visíveis, de antigas desconfianças e temores que residem nos corações humanos. Descobriu também as feridas das consciências que, submetidas a pressões às vezes pesadas, não resistiram à prova a que eram expostas. Tais feridas só podem ser totalmente curadas pelo amor divino e humano, cujo sinal é a Cruz de Cristo trespassado na cruz.

É necessário que o Episcopado polaco continue a guiar com coragem este ministério da reconciliação de Cristo. Será uma contribuição insubstituível na edificação de uma ordem moral – baseada em Deus e nos seus mandamentos –, exigência da liberdade readquirida. A via para a renovação da sociedade passa através da renovação do coração do homem. Neste processo não pode faltar o testemunho de uma metanoia interior dos filhos da Igreja. Cristo mesmo nos deixou os meios eficazes para a alcançar: os Sacramentos da Penitência e da Eucaristia. No Sacramento da Penitência, Cristo reconcilia-nos, a nós pecadores, com o Pai rico em misericórdia que está nos céus e com os irmãos e irmãs, com quem vivemos aqui na terra. Na Eucaristia, Ele santifica-nos com o seu poder e reúne-nos numa família de convidados a participar no banquete celeste na Casa do Pai. O dom da liberdade e a fadiga da edificação da ordem moral a ele unida proclamam o convite à reconciliação e ao perdão. Contudo, eles têm a sua fonte na bondade do Coração de Cristo e na generosidade do coração humano, disposto a oferecer o dom de si a exemplo do nosso Redentor, morto por todos, também por aqueles que O tinham crucificado. A Polónia tem necessidade de homens formados na escola do amor de Cristo «manso e humilde de coração» (cf. Mt 11, 29). Somente homens prontos ao sacrifício e confortados pelo Espírito Santo estão dispostos a um dom gratuito de si mesmos e são capazes de construir a ordem evangélica da liberdade. Os Sacramentos da Penitência e da Eucaristia dão-lhes a força para lutar contra o pecado e todo o mal na vida pessoal e social: para não cederem ao desânimo e à resignação, não sucumbirem à indiferença e ao pessimismo. Para a Igreja, o serviço da reconciliação na verdade e no amor não é uma tarefa limitada a uma única ocasião, mas constitui parte integrante da sua missão evangélica ao serviço de todos os homens e da Nação inteira. A Igreja na Polónia deveria fazer tudo para que esta obra produza frutos abundantes no coração de cada homem e em todos os sectores da vida da nossa sociedade.

6. No contexto de quanto já foi dito, parecem claros o lugar e o papel da Igreja na vida política da sociedade. Quereria recordar aqui, mais uma vez, o ensinamento sempre actual do Concílio Vaticano II, que na Constituição pastoral Gaudium et spes se pronuncia de modo muito explícito: «A Igreja, em razão da sua missão e competência, de modo algum se confunde com a sociedade nem está ligada a qualquer sistema político determinado. A Igreja louva e aprecia o trabalho de quantos se dedicam ao bem da nação e tomam sobre si o peso das respectivas responsabilidades. Respeita e promove também a liberdade política e a responsabilidade dos cidadãos» (cf. nn. 75-76). É necessário ter sempre presente que o lado exterior da vida da sociedade terrena, da estrutura do Estado ou do poder político pertencem às coisas deste mundo, mutáveis e sempre sujeitas a melhoramentos. As estruturas que as sociedades conferem a si mesmas jamais possuem um valor supremo; nem sequer podem por si mesmas garantir todos os bens almejados pelo homem. Em particular, não podem substituir a voz da sua consciência, nem satisfazer a sua sede de verdade e de absoluto. A Igreja tem a clara consciência de que a aceitação do Evangelho da salvação traz efeitos benéficos também à dimensão pública da vida das sociedades e dos indivíduos, e é capaz de transformar de maneira profunda a face desta terra, tornando-a mais humana. Aliás, a vocação do cristão é a profissão pública da fé e uma presença activa em todos os sectores da vida civil. Por isso a Igreja, formada livremente por aqueles que crêem em Cristo, exige que se garanta, no que se refere à legislação terrena, «em igual medida, a todos os cidadãos, o direito de viverem de acordo com a sua consciência e de não contradizerem as normas da ordem moral natural, reconhecidas pela razão» (Discurso ao Parlamento Europeu, 11 de Outubro de 1988, ed. port. de L'Osservatore Romano de 23.10.1988, pág. 12, n. 8).

Neste sector, cabe aos pastores da Igreja o papel muito importante e ao mesmo tempo delicado de formar uma consciência recta, obediente aos ditames do Evangelho e ao ensinamento da Igreja; uma consciência capaz de uma sábia e responsável acção ao serviço da sociedade, de maneira que o empenho político não divida, mas actue na verdade, na justiça, no amor e no respeito pela dignidade do homem, tendo presente um único fim: o crescimento do bem comum. Neste sector, os leigos têm um papel particular a desempenhar, em harmonia com os carismas e os dons que lhes são concedidos pelo Espírito Santo, para o cumprimento da sua missão. Na Exortação Apostólica Christifideles laici escrevi: «Para animar cristãmente a ordem temporal, no sentido de servir a pessoa e a sociedade, os fiéis leigos não podem absolutamente abdicar da participação na política, ou seja, da múltipla e variada acção económica, social, legislativa, administrativa e cultural, destinada a promover orgânica e institucionalmente o bem comum. A sua urgente e responsável tarefa é testemunhar valores humanos e evangélicos» (cf. n. 42).

7. Caros Irmãos no Episcopado! As tarefas que recordei não são novas, mas indispensáveis a fim de que, na actual situação histórica da nossa Nação, o Evangelho possa influir de maneira mais eficaz no complexo da vida da sociedade e oferecer a sua necessária contribuição para a reconstrução de uma visão integral e global do homem e do mundo, que se contraponha à cultura da morte, da desconfiança e da laicização da vida. Todos nós queremos que o Evangelho exerça uma influência salvífica e mais do que nunca profunda nos modelos morais e na organização da sociedade polaca, de acordo com a sua milenária tradição cristã. Então, deveríamos fazer todo o possível para que a verdade do Evangelho penetre nas consciências, de modo correspondente à sua importância, que para o homem de hoje não se pode comparar com nenhuma outra coisa.

Alegro-me juntamente convosco pelo facto de a Igreja na Polónia estar cada vez mais consciente da própria missão e do seu papel nas novas condições. Sou testemunha do grande esforço pastoral dos bispos, sacerdotes, consagrados e de toda a plêiade dos leigos, que se empenham incessantemente, a fim de que nada se perca do grande património cristão, fruto de sacrifícios e de renúncias por parte de muitas gerações. É preciso continuar o grande empenho de evangelização de toda a Igreja, o trabalho formativo, organizado e realizado com coerência em todos os sectores da pastoral, a fim de que os nossos irmãos e irmãs ponham plenamente em prática a sua vocação na Igreja e na sociedade. É necessário ajudar os leigos para que, em espírito de unidade e mediante um serviço honesto e abnegado, em colaboração com todos, saibam conservar e desenvolver a tradição e a cultura cristã no plano sócio-político. A doutrina social da Igreja, com o seu património, os seus conteúdos essenciais e as suas consequências, deveria ser objecto de uma profunda reflexão, de estudos e de ensinamento. O vosso dever é acender a fé na presença do Salvador, que é fonte de esperança e de coragem para cada homem e para todas as nações, e também velar e inspirar constantemente a renovação dos pensamentos e dos corações. Neste esforço evangélico, tende grande confiança na acção do Espírito Santo, «Aquele que constrói o Reino de Deus no curso da história e prepara a sua plena manifestação em Jesus Cristo, animando os homens no mais íntimo deles mesmos e fazendo brotar dentro da existência humana os gérmens da salvação definitiva que acontecerá no fim dos tempos» (Tertio millennio adveniente , 45).

Estes são apenas alguns dos problemas que desejava apresentar-vos, caros Irmãos vindos ad limina Apostolorum. Que eles se tornem objecto da vossa comum solicitude pastoral e de ardente oração junto dos túmulos dos Apóstolos Pedro e Paulo. Recomendo as dioceses a vós confiadas e a vossa obra de evangelização à intercessão e protecção da Santíssima Virgem Maria e dos Santos Padroeiros da nossa Pátria. Recebei a minha Bênção Apostólica, com a qual abraço todos os fiéis das vossas Igrejas locais.

DISCURSO DO PAPA JOÃO PAULO II AOS MEMBROS DA PONTIFÍCIA COMISSÃO DE ARQUEOLOGIA SACRA

16 de Janeiro de 1998

Caríssimos Irmãos e Irmãs!

1. Tenho a alegria de me encontrar convosco, por ocasião da reunião plenária da Pontifícia Comissão de Arqueologia Sacra. Saúdo cordialmente cada um de vós e agradeço, em particular, a D. Francesco Marchisano as palavras com que se fez intérprete dos vossos sentimentos e apresentou o importante objecto dos vossos trabalhos: as catacumbas cristãs e o Ano Santo.

Desejo, antes de tudo, exprimir apreço e reconhecimento pelo importante serviço que estais a prestar e que, em vista do Jubileu, se tornou ainda mais intenso. Refiro-me tanto às descobertas arqueológicas como às restaurações, assim como às iniciativas que têm directamente por fim o Ano Santo. Como várias vezes foi sublinhado, as catacumbas revestem um grande relevo em relação ao Jubileu do Ano 2000.

2. Já estais há alguns anos empenhados em restaurar e preparar numerosas catacumbas cristãs espalhadas no território italiano. Os trabalhos foram realizados de maneira especial nas catacumbas de Roma abertas ao público, isto é, as de São Calisto, São Sebastião, Domitila, Priscila e Santa Inês, onde foram feitas ou estão a ser efectuadas intervenções que facilitarão o fluxo dos peregrinos. Além disso, para aumentar o potencial dos cemitérios visitáveis, estão a ser levadas a cabo as medidas para abrir uma sexta catacumba, a dos Santos Pedro e Marcelino na Via Casilina.

A vossa atenção dirige-se oportunamente à valorização pastoral destes insignes monumentos da antiguidade cristã. Para isto estão a ser preparadas, de maneira adequada, os guias dos peregrinos. Com efeito, as visitas acompanhadas de explicações apropriadas, pontuais e actualizadas no plano didáctico, científico e espiritual, tornam-se também um eficacíssimo momento de catequese, capaz de suscitar profunda reflexão sobre a mensagem evangélica. Este retorno às origens, por meio dos mais antigos ce- mitérios idealizados pelos primeiros cristãos, enquadra-se perfeitamente no projecto da «nova evangelização», que vê empenhada a Igreja inteira no caminho rumo ao terceiro milénio.

3. As catacumbas, enquanto apresentam o rosto eloquente da vida cristã dos primeiros séculos, constituem uma perene escola de fé, de esperança e de caridade.

Percorrendo as galerias respira-se uma atmosfera sugestiva e comovente. O olhar detém-se na série inumerável de sepulturas e na simplicidade que as acomunam. Nos túmulos lê-se o nome de baptismo dos defuntos. Percorrendo esses nomes, parece ouvir outras tantas vozes que respondem a um apelo escatológico, e voltam à mente as palavras de Latâncio: «Entre nós não há servos, nem senhores, não existe outro motivo para nos chamarmos irmãos, senão porque nos consideramos todos iguais» (Divinae Instit., 5, 15).

As catacumbas falam da solidariedade que unia os irmãos na fé: as ofertas de cada um permitiam a sepultura de todos os defuntos, mesmo daqueles mais indigentes, que não podiam fazer despesas para a aquisição e instalação do túmulo. Esta caridade colectiva representou um dos pontos de força das comunidades cristãs dos primeiros séculos e uma defesa contra a tentação de retornar às antigas formas religiosas.

4. Portanto, as catacumbas sugerem ao peregrino este sentimento de solidariedade conexo, de modo indissolúvel, com a fé e a esperança. A própria definição de coemeteria, «dormitórios», diz que as catacumbas eram consideradas verdadeiros e próprios lugares de repouso comunitários, onde todos os irmãos cristãos, independentemente do seu grau e da sua profissão, repousavam num abraço largo e solidário, esperando a ressurreição final. Por este motivo não eram lugares tristes, mas decorados com afrescos, mosaicos e esculturas, como que a alegrar os meandros escuros e antecipar, com as imagens de flores, pássaros e árvores, a visão do paraíso esperado no fim dos tempos. A significativa fórmula «in pace», que se repete nos sepulcros dos cristãos, bem sintetiza a sua esperança.

Os símbolos nas lápides de cobertura dos túmulos são tão simples, quanto repletas de significado. A âncora, a nave e o peixe exprimem a firmeza da fé em Cristo. A vida do cristão é vista como uma navegação através de um mar agi- tado até ao porto suspirado da eternidade. O peixe identifica-se com Cristo e alude ao sacramento do Baptismo, segundo quanto recorda Tertuliano, que compara os fiéis aos peixinhos, que adquirem a salvação nascendo e permanecendo na água (De baptismo, 1, 3).

5. As catacumbas conservam, entre outras coisas, os túmulos dos primeiros mártires, testemunhas de uma fé límpida e muito sólida, que os levou, como «atletas de Deus», a vencer a prova suprema. Muitos sepulcros dos mártires ainda são conservados no interior das catacumbas e gerações de fiéis detiveram-se em oração diante deles. Também os peregrinos do Jubileu do Ano 2000 irão aos túmulos dos mártires e, elevando as orações aos antigos defensores da fé, hão-de voltar o seu pensamento para os «novos mártires», para os cristãos que, no passado não muito distante e também nos nossos dias, são submetidos a violências, injustiças, incompreensões porque querem permanecer fiéis a Cristo e ao seu Evangelho.

No silêncio das catacumbas, o peregrino do Ano 2000 pode reencontrar ou reavivar a própria identidade religiosa numa espécie de itinerário espiritual que, iniciando com os primeiros testemunhos da fé, o leva até às razões e às exigências da nova evangelização.

Caríssimos, a consciência destes valores há pouco acenados, mas que bem conheceis, vos sustente no vosso característico serviço eclesial e cultural. Para isto, enquanto invoco sobre vós a solícita assistência de Maria Santíssima, a todos concedo de coração uma especial Bênção Apostólica, que faço extensiva também às pessoas que vos são queridas.

SAUDAÇÃO DO PAPA JOÃO PAULO II AO POVO REUNIDO NA PRAÇA DO CAPITÓLIO EM ROMA

15 de Janeiro de 1998

Caríssimos Irmãos e Irmãs! Cidadãos Romanos!

1. Acabei de me encontrar no Palácio do Senado com todos os que, com várias funções, prestam serviço na Administração municipal. Agora, do cimo desta escadaria de Miguel Ângelo, nesta colina na qual Cícero via a «fortaleza de todos os povos» (Catil. 4, 6, 11), é Roma inteira que gostaria de abraçar calorosa e cordialmente.

Caríssimos Romanos, podemos com razão definir histórica esta visita de hoje: estamos a escrever juntos outra página de projectos e de esperanças nos anais de Roma, capital civil e espiritual para a qual olha a inteira humanidade. Obrigado pela vossa presença e acolhimento, que confirma e enriquece a nossa amizade. Obrigado pela saudação sentida e entusiasta que dais ao Papa, que veio visitar o Capitólio, a casa de todos os Romanos e, por conseguinte, também sua. O Senhor, que o quis como chefe da Igreja católica, tornou-o por isso «romano», «civis romanus», partícipe das alegrias e sofrimentos, das expectativas e realizações desta maravilhosa Cidade. Totius orbis urbs celeberrima. Deve-se dizer aqui: «titius orbis, orbis terrarum, urbs celeberrima. Mas hoje a língua latina é bem conhecida?

2. O meu pensamento dirige-se a todos os romanos e, em primeiro lugar, a vós, jovens e moças, que sois o futuro de Roma: digo-vos que ameis a vossa cidade! Sede orgulhosos da sua história e da sua vocação espiritual; estai prontos a construir um futuro digno do seu passado glorioso.

Saúdo com afecto todos vós que, sofrendo no corpo e no espírito, passais momentos difíceis: oxalá possais encontrar apoio no tradicional espírito de solidariedade que distingue a população da Cidade.

Saúdo-vos cordialmente, cidadãos romanos pertencentes a outras tradições religiosas: vós, judeus, herdeiros da fé de Abraão, partícipes desde há séculos da vicissitude espiritual e civil de Roma; vós, irmãos de outras confissões cristãs; vós, crentes de religião muçulmana. A adoração comum do Altíssimo estimule ao respeito e faça com que todos sejam laboriosos construtores duma sociedade aberta e solidária.

Saúdo-vos com deferência, irmãos que afirmais ter uma visão não religiosa da vida e todos os que, juntamente convosco, estão em busca dum sentido para a existência: o amor à verdade, o rigor moral e o confronto sereno com os crentes contribuam para fazer de Roma um modelo de convivência atenciosa entre homens e mulheres de reli- giões e ideais diferentes.

Penso com amizade em vós, irmãos e irmãs que, provenientes de países distantes, vos inseristes recentemente na vida da Cidade: que a vossa presença enriqueça o rosto hospitaleiro e pacífico da Urbe.

Por fim, dirijo a minha saudação paterna a vós, irmãos e irmãs romanos e às vossas famílias: permanecei fiéis aos eternos valores da nossa civilização, vivificada pela fé católica.

Enquanto nos preparamos para cruzar o limiar do Grande Jubileu, nos sirva de apoio a memória dos mártires, dos santos e de quantos construíram ao longo dos séculos a grandeza de Roma. Ela é memória de liberdade, de fidelidade e de civilização. Ela deve continuar a viver no coração dos habitantes da Roma do terceiro Milénio. São estes os meus votos e a oração que elevo a Deus, invocando a Sua protecção para este povo que me é tão querido e que abençoo de coração.

Roma felix! Roma feliz!

Se a Providência me permitir estar, daqui a uma semana, quinta-feira próxima, em Cuba, terei que recordar: há uma semana estive no Capitólio. Coragem! Seja louvado Jesus Cristo! Até à próxima!

DISCURSO DO PAPA JOÃO PAULO II POR OCASIÃO DA VISITA À SEDE DA CÂMARA MUNICIPAL DE ROMA - CAPITÓLIO

15 de Janeiro de 1998

Senhor Presidente da Câmara Municipal Senhores Assessores e Conselheiros do Município de Roma Autoridades aqui presentes!

1. O primeiro sentimento, que naturalmente brota do meu coração pelo cordial acolhimento que me é reservado, exprime-se hoje num agradecimento comovido: obrigado a todos vós pela vossa presença, obrigado sobretudo ao Senhor Presidente da Câmara Municipal que, com amável cortesia, há algum tempo me convidou para vir a este histórico palácio, sede do primeiro Magistrado da Urbe, e quis fazer-se intérprete dos vossos sentimentos, ressaltando o significado que esta minha visita reveste.

Também eu desejava subir a esta Colina, que no decurso dos séculos se tornou berço, sede e emblema da história e da missão de Roma. E hoje, eis-me finalmente entre vós para prestar homenagem à realidade e à vocação desta Cidade. No início de cada ano costumo acolher no Vaticano os representantes da Administração municipal para a troca dos bons votos. Hoje, sou eu que venho visitar-vos, ilustres Senhores, para vos apresentar as felicitações do novo ano, que acaba de iniciar, e ao mesmo tempo continuar o colóquio amistoso que se iniciou desde o dia da minha eleição a Bispo de Roma e se aprofundou em tantos encontros com os cidadãos romanos e com os seus Representantes.

Não posso ocultar que a moldura pomposa desta histórica sala, dedicada a Júlio César, a presença do Papa numa reunião solene do Conselho Municipal e o clima criado pelo aproximar-se do novo Milénio aumentam a minha comoção e tornam este encontro ainda mais significativo: ele propõe-se como ocasião para um balanço retrospectivo e, ao mesmo tempo, como estímulo para elaborar um concorde projecto para o caminho futuro.

2. Os Representantes do Povo romano, o Sucessor de Pedro, o Capitólio: eis reunidos os protagonistas da peculiar e irrepetível vocação de Roma que, como recordava o Senhor Presidente da Câmara Municipal, não pode prescindir do «entrelaçamento» dessas presenças. Neste lugar fortemente evocativo da história e das magnificências da Urbe marcaram um encontro, hoje de manhã, os actuais intérpretes da sua tradição milenária. Aqui se encontram a Roma civil e a Roma cristã, não contrapostas, não alternativas, mas unidas no respeito das diferentes competências, pela paixão por esta Cidade e pelo desejo de tornar o seu rosto exemplar para o mundo inteiro.

Neste momento solene, o meu pensamento dirige-se aos últimos Pontífices que visitaram o Capitólio. Pio IX veio aqui pouco antes da anexão de Roma ao Estado Italiano, numa época assinalada por complexas e difíceis vicissitudes. Paulo VI subiu a esta colina no dia 16 de Abril de 1966, depois da última sessão do Concílio Vaticano II, para agradecer à Urbe o acolhimento oferecido aos Padres Conciliares. Ele, que já no dia 10 de Outubro de 1962, na vigília da abertura da Assembleia ecuménica, tivera ocasião, como Arcebispo de Milão, de pronunciar aqui um importante discurso sobre «Roma e o Concílio», inaugurou com a sua presença neste lugar, num momento histórico caracterizado por grandes agitações, um novo estilo de diálogo com a Cidade e com os seus Representantes.

Repercorrendo os anos transcorridos e a soma de rápidas mudanças que se sucederam nestas décadas, é espontâneo voltar o pensamento à Providência divina que, com imperscrutável sabedoria, guia os passos por vezes incertos dos homens e torna fecundos os esforços das pessoas de boa vontade. Quantas transformações caracterizaram a vida da Cidade! De Capital do Estado Pontifício a Capital do Estado Italiano; de cidade recolhida dentro dos muros aurelianos a metrópole de cerca de três milhões de residentes; de ambiente humano homogéneo a comunidade multiétnica, na qual convivem, ao lado da visão católica, visões da vida inspiradas em outros credos religiosos e também em concepções não religiosas da existência.

O rosto humano da Urbe mudou profundamente. O afirmar-se de diferentes modelos culturais e sociais e de novas sensibilidades tornaram a convivência citadina mais complexa, mais aberta, mais cosmopolita, mas também mais problemática: ao lado de reconhecidos aspectos positivos, não faltam, infelizmente, dificuldades e inquietudes. Ao lado de luzes e sinais de esperança, não estão ausentes sombras no panorama de uma Cidade chamada a ser, também no próximo milénio, farol de civilização, «discípula da verdade» (Leão Magno, Tract. septem et nonaginta), e «mãe acolhedora de povos» (Prudêncio, Peristephanon, poema 11, 191).

3. Há pouco eu falava da profícua relação entre o Bispo de Roma e o seu povo, que as mudadas situações sociais, políticas e religiosas jamais tornaram menos intensa. Antes, alguns acontecimentos, como o declínio do poder temporal, a assinatura dos Pactos Lateranenses, a trágica experiência da guerra e o novo período promovido pelo Concílio Ecuménico Vaticano II tornaram-na ainda mais cordial e dinâmica.

A visita hodierna assinala uma ulterior etapa desta história comum. Diante das transformações que interessaram e continuam a interessar a Cidade, também eu quereria repetir, confirmando-as, as palavras repletas de verdade e de humanidade, aqui pronunciadas pelo meu venerado predecessor Paulo VI: «O nosso amor, não diminuiu... o nosso amor cresceu!» (Paulo VI, Insegnamenti IV, pág. 179).

Cada dia cresce esta relação de estima e de afecto, que se exprime e se revigora nas frequentes visitas às Paróquias e nos encontros com os fiéis romanos. Ela consolida-se, graças à generosa e constante solicitude do Cardeal-Vigário, do Vice-Gerente, dos Bispos Auxiliares, dos sacerdotes, dos religiosos, dos leigos e de quantos, a vários títulos, cooperam no empenho da evangelização. Penso nas 328 Paróquias romanas, presentes em todos os bairros e povoados, embora às vezes sem estruturas adequadas. Penso nas comunidades religiosas, nas escolas católicas, nos institutos de cura e de assistência, nas associações e movimentos laicais, nas variegadas expressões do voluntariado, que constituem um recurso surpreendente e confortador da nossa Cidade, onde o anonimato e a solidão seriam doutro modo riscos mais frequentes e funestos.

Trata-se de um amor concreto que quer alcançar as pessoas, a gente toda, oferecendo-lhes motivos de esperança, propostas culturais, ajuda e apoio nas dificuldades morais e materiais, espaços de acolhimento e de escuta, ocasiões de compreensão e de fraternidade. É um amor atento à realidade que muda, à fadiga do quotidiano, aos riscos morais que corre também esta nossa Roma.

4. Precisamente para fazer frente aos fenómenos negativos que correm o risco de desfigurar a fisionomia de Roma, convoquei a Comunidade cristã, empenhando-a em dar à Cidade um suplemento de amor com a «Missão da cidade», em vista do Ano Santo 2000. O meu desejo é que, graças também a ela, a Urbe se apresente interior e visivelmente renovada para o encontro do Grande Jubileu, de maneira a oferecer aos peregrinos o próprio rosto cristão, como anúncio de uma era de paz e de esperança para a humanidade inteira.

Roma e o Jubileu: duas realidades que se evocam e se ilustram reciprocamente! Roma reflecte-se no Jubileu e o Jubileu faz referência à realidade de Roma. A celebração repropõe a fé em Jesus Cristo, anunciada e testemunhada aqui pelo apóstolo Pedro; evoca a exigência de restabelecer a efectiva igualdade de direitos entre todos os homens, à luz da lei e da justiça de Deus; exorta à superação das divisões e das suas causas, para instaurar uma verdadeira comunhão entre todos os seres humanos. Com a sua história religiosa e civil e com a sua dimensão «católica», Roma evoca de modo admirável estes valores. Ela é a Sede do Príncipe dos Apóstolos e do seu Sucessor; conserva as memórias do martírio dos Santos Pedro e Paulo; é conhecida como pátria do direito e da civilização latina e cristã; é apreciada como cidade universalmente aberta ao acolhimento. Por essas correspondências singulares, Roma é chamada a viver de modo exemplar a graça do Jubileu.

É certamente tarefa dos cristãos renovar e purificar o rosto desta Igreja que «preside na caridade», segundo a famosa expressão de Santo Inácio de Antioquia (Carta aos Romanos, ed. Funk 1901, pág. 253), para que reflicta sempre melhor a luz de Cristo. Mas a peculiar relação de Roma com o Jubileu deverá tornar também as Autoridades civis particularmente solícitas em promover uma convivência civil e uma qualidade da vida dignas do homem e da vocação da nossa cidade.

Por ocasião desta visita, além de me ser oferecida uma pedra proveniente do anfiteatro Flávio, quisestes descerrar nesta Sala do Conselho uma lápide comemorativa. Enquanto formulo um cordial agradecimento pela vossa cortesia, faço votos por que este gesto simbólico constitua o sinal permanente de uma nova era de empenho comum, em prol do progresso humano e civil da nossa Cidade.

5. Com o olhar voltado para o Ano 2000, dirijo-me agora a ti, Roma, que o Senhor me chamou a guiar pelo caminho do Evangelho, no limiar de um novo Milénio!

O Senhor confiou-te, Roma, a tarefa de ser no mundo «prima inter Urbes», farol de civilização e de fé. Está à altura do teu passado glorioso, do Evangelho que te foi anunciado, dos Mártires e dos Santos que fizeram grande o teu nome. Abre a Cristo, Roma, as riquezas do teu coração e da tua história milenária. Não temas, Ele não humilha a tua liberdade nem a tua grandeza. Ele ama-te e deseja tornar-te digna da tua vocação civil e religiosa, para que continues a prodigalizar os tesouros de fé, de cultura e de humanidade aos teus filhos e aos homens do nosso tempo.

Ao aproximarem-se da tua fé, dos testemunhos eloquentes da tua caridade, do desenvolvimento metódico da tua existência quotidiana, possam os peregrinos do Grande Jubileu ser ajudados a crer e a esperar na nova civilização do Amor.

Confio-te, Roma, à solícita protecção de Maria, «Salus populi Romani», e à intercessão dos Santos Padroeiros Pedro e Paulo.

Roma, cidade que não teme o tempo, nem o dinamismo do progresso; Roma, encruzilhada de paz e de civilização; Roma, minha Roma, abençoo-te e, contigo, abençoo os teus filhos e todos os teus projectos de bem!

Roma, cujo nome lido ao contrário soa Amor. Como diz um poeta polaco: «Se dizes Roma, responde-te Amor». É assim. É esta a constatação conclusiva, e também um voto para Roma. Nesta circunstância hodierna tão importante. Obrigado!

DISCURSO DO SANTO PADRE AOS MEMBROS DO CORPO DIPLOMÁTICO ACREDITADO JUNTO DA SANTA SÉ

10 de Janeiro de 1998

Excelências Senhoras e Senhores

1. A homenagem colectiva do Corpo Diplomático, no início de um novo ano, reveste sempre um carácter de comovedora solenidade e de cordial familiaridade. De todo o coração agradeço ao vosso Decano, Senhor Embaixador Atembina-Te-Bombo, que me apresentou com cortesia os vossos votos de amizade e evocou de maneira delicada alguns aspectos da minha missão apostólica. Neste início do ano de 1998, deixemos brilhar para todos os homens de hoje a luz que se elevou sobre o mundo no dia do nascimento do Menino Deus. Pela sua própria natureza, ela é universal, a sua claridade resplandece sobre todos, sem excepção. Ela manifesta tanto os nossos sucessos como os nossos reveses na gestão da criação e nas nossas missões ao serviço da sociedade.

2. De maneira muito feliz não faltam as realizações positivas. A Europa central e oriental prosseguiu a sua caminhada rumo à democracia, libertando-se pouco a pouco do peso e dos condicionamentos do totalitarismo de ontem. Esperamos que este progresso se confirme efectivamente em toda a parte.

Muito perto de nós, a Bósnia-Herzegovina conhece uma paz relativa, embora com alguma dificuldade, ainda que as últimas eleições locais tenham mostrado a precariedade do processo de pacificação entre as diversas comunidades. A respeito disso, quereria convidar com insistência a Comunidade internacional a prosseguir os seus esforços em favor do retorno dos refugiados aos seus lares e do respeito dos direitos fundamentais das três comunidades étnicas que compõem o país. Ali existem as condições necessárias à vitalidade desse país: a minha inesquecível visita pastoral a Sarajevo, na Primavera passada, permitiu-me percebê-lo ainda melhor.

O alargamento da União Europeia em direcção do Leste, assim como os esforços por uma estabilidade monetária deveriam conduzir a uma complementaridade progressiva dos povos, no respeito pela identidade e história de cada um deles. Trata-se, de algum modo, de partilhar o património de valores que cada nação contribuiu para fazer despontar: a dignidade da pessoa humana, os seus direitos fundamentais imprescritíveis, a inviolabilidade da vida, a liberdade e a justiça, o sentido da solidariedade e a rejeição da exclusão.

Sempre neste continente, não se pode senão encorajar o diálogo retomado entre as partes que, há tantos anos, se opõem na Irlanda do Norte. Que todos tenham a coragem da perseverança, a fim de superar os obstáculos actuais, tanto lá como noutras regiões da Europa! Na América Latina, o processo de democratização tem continuado, mesmo que aqui e ali reflexos perversos tenham podido reter a sua marcha, como demonstraram os acontecimentos trágicos ocorridos na província de Chiapas, no México, alguns dias antes do Natal. No final deste mês, se Deus quiser, irei em visita pastoral a Cuba. A primeira visita de um Sucessor de Pedro a essa ilha dar-me-á o ensejo de confortar não só os católicos tão corajosos desse país, mas também todos os seus concidadãos, nos seus esforços para o advento duma pátria cada vez mais justa e solidária, onde cada um encontre o seu lugar e se veja reconhecido nas suas legítimas aspirações.

No que concerne à Ásia, onde vive mais de metade da humanidade, deve-se incentivar as conversações entre as duas Coreias, que se estão a realizar em Genebra. O seu sucesso aliviaria notavelmente a tensão em toda a região e, sem dúvida, encorajaria um diálogo construtivo entre outros países da região, ainda divididos ou antagonistas, estimulando-os assim a adoptar uma dinâmica da solidariedade e da paz. As oscilações financeiras que recentemente ocuparam a vanguarda do cenário em alguns países dessa parte do mundo, exortam a uma séria reflexão sobre a moralidade dos intercâmbios económicos e financeiros que, nestes últimos anos, conduziram a um considerável desenvolvimento da Ásia. Maior sensibilidade à justiça social e mais respeito das culturas locais poderiam evitar no futuro surpresas desastrosas, cujas vítimas acabam sempre por ser as populações.

Não há necessidade de insistir para recordar o interesse com que o Papa e os seus colaboradores acompanham a evolução da situação na China, fazendo votos por que ela favoreça o estabelecimento de relações serenas com a Santa Sé. Isto permitiria aos católicos chineses viver a sua fé, plenamente inseridos na comunhão da Igreja inteira em caminho rumo ao grande Jubileu.

O meu pensamento abrange também a Igreja que está no Vietnã e que aspira sempre a melhores condições de existência. Não posso esquecer, além disso, os habitantes de Timor Leste, e em particular os filhos da Igreja que vivem nessa terra, os quais ainda esperam conhecer uma existência mais tranquila, a fim de poderem olhar para o futuro com mais confiança.

Quereria aqui dirigir uma saudação cordial à Mongólia, que manifestou o desejo de estabelecer laços mais estreitos com a Sé Apostólica.

3. Duma maneira mais geral, eu consideraria entre os aspectos positivos do nosso balanço a sensibilidade crescente no mundo às questões ligadas à preservação dum ambiente digno do homem, ou ainda o consenso internacional que permitiu, há apenas um mês em Otava, a assinatura dum tratado sobre a interdição das minas anti-homem (que aliás a Santa Sé se apresta a ratificar). Tudo isto manifesta um respeito sempre mais concreto pela pessoa humana, considerada nas suas dimensões individual e social, assim como no seu papel de administradora da criação; e isto corresponde também à convicção de que não poderemos ser felizes senão uns com os outros, jamais uns contra os outros.

As iniciativas tomadas pelos responsáveis da Comunidade internacional em favor da infância, infelizmente muitas vezes aviltada na sua inocência, a luta contra o crime organizado ou o comércio da droga, os esforços envidados para contrastar o horrendo tráfico de seres humanos sob todas as suas formas, mostram bem que, com a vontade política, se pode atacar as causas dos desregramentos que com muita frequência desfiguram a pessoa humana.

Todos estes progressos têm necessidade de ser consolidados, visto que o mundo que nos circunda permanece uma realidade em mudança, cujo equilíbrio pode ser comprometido em qualquer momento por um conflito imprevisto, por uma súbita crise económica ou pelas consequências nefastas da extensão inquietante da pobreza.

4. A fragilidade das nossas sociedades é-nos dolorosamente significada pelos «pontos candentes», que permanecem no primeiro plano da actualidade e que perturbaram mais uma vez o clima jubiloso das celebrações destes últimos dias.

Penso antes de tudo na Argélia que, praticamente cada dia, é enlutada por massacres odiosos. Eis um país refém duma violência inumana que nenhuma causa política, e menos ainda uma motivação religiosa, poderia legitimar. Sinto o dever de repetir a todos com clareza, mais uma vez, que ninguém pode matar no nome de Deus; isto seria abusar do nome divino e blasfemar. Seria necessário que todas as pessoas de boa vontade, nesse país e noutras partes, se unissem para fazer com que a voz daqueles que crêem no diálogo e na fraternidade, seja por fim escutada. E estou convicto de que eles constituem a maioria do povo argelino.

A situação no Sudão nem sempre permite falar de reconciliação e de paz. Além disso, os cristãos desse país continuam a ser objecto de graves discriminações, das quais a Santa Sé se fez eco em várias ocasiões junto das autoridades civis, sem que ainda se constate, infelizmente, um melhoramento notável.

A paz parece estar distante do Médio Oriente, uma vez que o processo de paz, posto em acto em Madrid em 1991, se encontra como que suspenso, quando não está comprometido por iniciativas ambíguas ou até mesmo violentas. Neste momento penso em todos aqueles – Israelenses e Palestinos – que tinham cultivado nestes últimos anos a esperança de ver finalmente despontar nessa Terra Santa a justiça, a segurança, a paz, uma vida quotidiana normal. Onde está hoje esta vontade de paz? Os princípios da Conferência de Madrid e as orientações da reunião de Oslo, de 1993, pavimentaram o caminho rumo à paz. Eles ainda hoje continuam a ser os únicos elementos válidos para progredir. Não se deve aventurar por outros caminhos. Quereria assegurar-vos e, através de vós, a inteira Comunidade internacional, que a Santa Sé, por sua vez, continuará a dialogar com todas as partes interessadas, a fim de encorajar numas e noutras a vontade de salvaguardar a paz e de curar as chagas da injustiça. A Santa Sé tem para com essa região do mundo uma constante solicitude e conduz a sua acção segundo os princípios que sempre a guiaram. O Papa, em particular, nestes anos que precedem a celebrção do Jubileu do Ano 2000, dirige o seu olhar para Jerusalém, a Cidade Santa entre todas, orando cada dia para que ela se torne quanto antes e para sempre, com Belém e Nazaré, um lugar de justiça e de paz onde judeus, cristãos e muçulmanos possam, enfim, caminhar juntos sob o olhar de Deus.

Não longe dali, um povo inteiro é vítima dum isolamento que o põe em condições de sobrevivência aleatórias: refiro-me aos nossos irmãos do Iraque, submetidos a um embargo impiedoso. Ao ouvir os apelos de socorro que chegam continuamente à Santa Sé, sinto o dever de interpelar as consciências daqueles que, no Iraque e noutras partes, dão prioridade a considerações políticas, económicas ou estratégicas e não ao bem fundamental das populações, pedindo-lhes que tenham compaixão. Os débeis e os inocentes não deveriam pagar pelos erros de que não são responsáveis. Oro, então, para que esse país possa reencontrar a sua dignidade, conheça um desenvolvimento normal e seja, assim, capaz de restabelecer relações frutuosas com os outros povos, no quadro do direito internacional e da solidariedade mundial.

Não podemos deixar de mencionar o drama das populações curdas que, nestes dias, chamou a atenção de todos: a necessária compaixão para com os refugiados extenuados não pode fazer esquecer milhões dos seus irmãos, que estão em busca de condições de existência seguras e dignas.

Por fim, devo infelizmente chamar a vossa atenção para o drama das populações da parte central da África. Nestes últimos meses assistimos a uma recomposição regional dos equilíbrios étnicos e políticos. Todas as vossas chancelarias conhecem os eventos que se sucederam em Ruanda, no Burundi, na República Democrática do Congo e, ainda mais recentemente, no Congo-Brazzaville. Não recordarei aqui os factos, mas evocarei essencialmente as provas infligidas às populações: os combates, os deslocamentos de pessoas, o drama dos refugiados, as condições sanitárias deficientes, uma administração defeituosa da justiça... Diante dessas situações, ninguém pode ter a consciência tranquila. Ainda hoje, no maior silêncio, continua-se a intimidar ou a matar. Eis por que desejaria aqui dirigir-me aos responsáveis políticos desses países: se a conquista violenta do poder se tornar a norma, o etnocentrismo continuar a impregnar todas as coisas, a representação democrática for sistematicamente deixada de lado, a corrupção e o comércio das armas ainda causarem sevícias, então a África nunca conhecerá a paz nem o desenvolvimento, e as gerações futuras terão um juízo impiedoso sobre estas páginas da história africana.

Quanto a isto, quereria de igual modo exortar à solidariedade para com os países do Continente. Os Africanos não devem esperar tudo da ajuda exterior. Entre eles, muitas mulheres e homens têm todas as aptidões humanas e intelectuais para enfrentar os desafios da nossa época e administrar as sociedades de maneira adequada. Mas é necessária mais solidariedade «africana», para sustentar os países em dificuldade, e também para que não lhes sejam impostas medidas ou sanções discriminatórias. Uns e outros deveriam ajudar-se mutuamente para a análise e a avaliação das opções políticas, e também aceitar não participar no fornecimento de armas. Antes, é preciso que os Países do continente favoreçam a pacificação e a reconciliação, se for necessário por meio de forças de paz compostas de soldados africanos. Então, a credibilidade da África será mais concreta aos olhos do resto do mundo e a ajuda internacional tornar-se-á sem dúvida mais intensa, no respeito da soberania das nações. É urgente que as controvérsias territoriais, as iniciativas económicas e os direitos do homem mobilizem as energias dos africanos para encontrar soluções equitativas e pacíficas, que ponham a África em condições de enfrentar o século XXI com maiores possibilidades e confiança.

5. Em última análise, todos estes problemas ressaltam como a mulher e o homem deste final de século são vulneráveis. É sem dúvida muito bom que as Organizações internacionais, por exemplo, se preocupem cada vez mais por indicar os critérios para melhorar a qualidade da vida humana e empreender iniciativas concretas. A Sé Apostólica sente-se solidária com estas actividades da diplomacia multilateral, com a qual colabora de bom grado, graças às suas Missões de observação. A respeito disso, quereria apenas mencionar esta manhã o facto de a Santa Sé se associar, de maneira institucional, aos trabalhos da Organização Mundial do Comércio, com a finalidade de favorecer o progresso humano e espiritual num sector vital para o desenvolvimento dos povos.

Mas não se deve esquecer que os nossos contemporâneos estão muitas vezes submetidos a ideologias que lhes impõem modelos de sociedade ou de comportamento que pretendem decidir tudo, tanto a sua vida como a sua morte, a sua intimidade e o seu pensamento, a procriação e o património genético. A natureza tornou-se um simples material, aberto a todas as experiências. Por vezes tem-se a impressão de que a vida não é apreciada senão em função da utilidade ou do bem-estar que pode propiciar, que o sofrimento é considerado desprovido de significado. Negligenciam-se a pessoa deficiente e o idoso porque são incómodos e, com muita frequência, considera-se o nascituro como um intruso numa existência planeada em função de interesses subjectivos pouco generosos. O aborto ou a eutanásia rapidamente aparecem então como «soluções» aceitáveis.

A Igreja católica – e a maior parte das famílias espirituais – sabem por experiência que infelizmente o homem é capaz de trair a sua humanidade. É preciso, então, iluminá-lo e acompanhá-lo para que, no seu caminho, possa sempre encontrar as fontes da vida e da ordem que o Criador inscreveu no mais íntimo do seu ser. Lá onde o homem nasce, sofre e morre, a Igreja, por sua vez, estará sempre presente a fim de significar que, no momento em que ele faz a experiência da sua finitude, Alguém o chama para o acolher e dar um sentido à sua frágil existência.

Consciente da minha responsabilidade de Pastor ao serviço da Igreja universal, muitas vezes tive a ocasião de evocar, nos actos do meu ministério, a absoluta dignidade da pessoa humana desde o momento da concepção até ao seu último respiro, o carácter sagrado da família como lugar privilegiado da protecção e promoção da pessoa, a grandeza e a beleza da paternidade e da maternidade responsáveis, assim como as nobres finalidades da medicina e da investigação científica.

Existem elementos que se impõem à consciência dos crentes. Quando o homem corre o risco de se considerar como um objecto que pode ser transformado ou submetido a bel-prazer, quando já não se percebe nele a imagem de Deus, quando a sua capacidade de amar e de se sacrificar é deliberadamente ocultada, quando o egoísmo e o lucro se tornam as motivações primeiras da actividade económica, então tudo é possível e a barbárie não está distante.

Excelências, Senhoras e Senhores, conheceis bem estas considerações, vós que sois as testemunhas quotidianas da acção do Papa e dos seus colaboradores. Mas eu quis propô-las mais uma vez à vossa reflexão, pois muitas vezes se tem a impressão de que os responsáveis, tanto das sociedades como das organizações internacionais, se deixam condicionar por uma nova linguagem, que parece acreditada por tecnologias recentes e que algumas legislações admitem ou até ratificam. Na realidade, trata-se da expressão de ideologias ou de grupos de pressão, que tendem a impor a todos as suas concepções e os seus comportamentos. Assim, o pacto social é profundamente debilitado e os cidadãos perdem as suas características.

Aqueles que são garantes da lei e da coesão social dum país, ou os que dirigem organizações criadas para o bem da comunidade das nações, não podem iludir a questão da fidelidade à lei não escrita da consciência humana, da qual já falavam os antigos e que é para todos, crentes ou não-crentes, o fundamento e o garante universal da dignidade humana e da vida em sociedade. Quanto a isto, não posso deixar de retomar o que escrevi há não muito tempo: «Se não existe nenhuma verdade última que guie e oriente a acção política, então as ideias e as convicções podem ser facilmente instrumentalizadas para fins de poder...» (Enc. Centesimus annus , 46). Diante da consciência, «não existem privilégios, nem excepções para ninguém. Ser o dono do mundo ou o último "miserável", sobre a face da terra, não faz diferença alguma: perante as exigências morais, todos somos absolutamente iguais» (Enc. Veritatis splendor , 96).

6. É deste modo que concluo o meu discurso, Excelências, Senhoras e Senhores, invocando sobre cada um de vós, as vossas famílias, as autoridades dos vossos países e os vossos concidadãos, a protecção divina durante todo este ano. Queira Deus Todo-poderoso ajudar cada um de nós a traçar novas vias, onde os homens se reencontrem e caminhem juntos! Esta é a oração que todos os dias elevo a Deus pela humanidade inteira, a fim de que seja sempre mais digna deste nome!

DISCURSO DO SANTO PADRE À COMUNIDADE DO COLÉGIO PIO ROMENO POR OCASIÃO DO 60° ANIVERSÁRIO DE FUNDAÇÃO

9 de Janeiro de 1998

Senhor Cardeal Venerados Irmãos no Episcopado Caríssimos Superiores e Alunos do Colégio Pio Romeno

1. «A minha alma glorifica ao Senhor e o meu espírito exulta de alegria em Deus, meu Salvador» (Lc 1, 46). Queremos elevar juntamente com Maria Santíssima, celeste Padroeira do Colégio, este hino de louvor ao Senhor pelos sessenta anos da sua fundação e por todos os dons recebidos neste arco de tempo.

Recordamos em particular a grandiosa obra do meu Predecessor, o Papa Pio XI, de venerada memória que, sempre atento às necessidades das Igrejas católicas orientais, quis erigir na colina do Janículo um Colégio para os candidatos ao sacerdócio, provenientes da Igreja greco-católica romena. Essa sede, construída graças à magnífica intervenção do mesmo Pontífice, devia assegurar aos estudantes uma adequada formação litúrgica e espiritual no rito bizantino-romeno, permitindo-lhe ao mesmo tempo conhecer as riquezas da Igreja universal.

Eram tempos de grandes esperanças para as Comunidades católicas orientais nessa parte da Europa, e desejava-se sustentá-las e orientá-las para um desenvolvimento sempre mais seguro. Ainda que as sucessivas e trágicas vicissitudes tenham atingido o coração dessas Igrejas, lançando na prisão bispos, sacerdotes e leigos, elas continuaram a servir Cristo, conservando firme a união com a Sé de Pedro.

Como não recordar, neste momento, duas ilustres testemunhas ainda vivas, o Cardeal Alexandru Todea e o Arcebispo Ioan Ploscaru, os quais pagaram um elevado preço para defender os direitos da Igreja e afirmar a liberdade de consciência?

2. Durante todo esse difícil período o Colégio acolhia os estudantes de outras Igrejas orientais, mas ao mesmo tempo conservava uma simbólica presença de sacerdotes greco-católicos romenos, tornando-se assim um sinal de esperança, na expectativa de tempos melhores, e um ponto de referência para a Comunidade romena na Diáspora.

Caros sacerdotes e seminaristas, com a derrocada dos regimes ateus e o cessar das perseguições pudestes vir a Roma e encontrar hospitalidade no Colégio, que é a vossa casa na Urbe. Tende sempre presente a memória desses factos históricos, para que em vós seja vivo o empenho por um renascimento na fraternidade. Isto ajudar-vos-á a testemunhar a Verdade e estimular-vos-á a um generoso serviço evangélico, em benefício de cada pessoa e da sociedade inteira.

A vossa formação, respeitando o seu carácter autenticamente oriental, assinale a tradição dos vossos antepassados e se abra com sabedoria clarividente às necessidades dos tempos novos. A contribuição daqueles cristãos da Roménia que, sendo de tradição bizantina, compartilham as riquezas do Oriente cristão e, ao mesmo tempo, participam da cultura europeia, enriquece não só a Igreja, mas a própria Europa. Com efeito, de um semelhante encontro podem derivar experiências de grande valor, não só no campo religioso, mas também para o progresso do pensamento e do costume social.

3. «Toda a sabedoria vem do Senhor, e está sempre com Ele» (Ecl 1, 1). A vossa vida no Colégio esteja centrada na Liturgia, que permite ao homem entrar nos mistérios divinos e o inicia nas realidades de Deus. Procurai conhecê-la bem e amá-la, de maneira que se torne para vós fonte de força espiritual. Celebrai-a com o coração de modo vivo, penetrando nos seus conteúdos teológicos e espirituais.

Além disso, o aprofundamento da Sagrada Escritura e das obras dos Padres ajudar-vos-á a compreender melhor qual é a chave de toda a verdadeira teologia. Formados nesta escola pelo valor perene, objecto de veneração e de estudo também por parte dos irmãos ortodoxos, vós estareis simultaneamente ancorados nas raízes da Igreja e sereis capazes de iluminar as vicissitudes contemporâneas com uma luz antiga e sempre nova.

O Senhor chama-vos a servi-l'O na vossa Terra, levando a todos a verdade evangélica que liberta todos os homens da escravidão do pecado, do relativismo moral e da busca da riqueza a qualquer custo, tornando-os mais firmes no momento de enfrentar as dificuldades do momento presente.

Sei que a Igreja greco-católica romena exerce esta sua missão em condições de vida frequentemente difíceis, devendo enfrentar uma persistente carência de estruturas. Sei, porém, que estão a aumentar as construções, para oferecer às comunidades sedes idóneas para a oração e a actividade pastoral, com o desejo de reencontrar nas formas artísticas do templo a continuidade com as origens, sem ignorar naturalmente a sensibilidade cultural hodierna.

4. Caríssimos Irmãos! É-me grato também nesta circunstância exprimir um vivo reconhecimento aos Bispos e a todo o Clero da Eparquia e religioso da Roménia, pelo generoso empenho com que distribuem aos fiéis os Mistérios divinos e lhes oferecem apoio e encorajamento nos momentos de prova, ensinando sempre a sacralidade e a inviolabilidade da vida.

Confio ao Senhor o caminho que a vossa Igreja está a realizar e as suas perspectivas para o futuro. De modo especial, invoco a assistência divina sobre a celebração do quarto Concílio provincial, iniciado no ano passado. Diante das mudanças radicais que dizem respeito à sociedade romena, essa assembleia é chamada a rever metas e métodos pastorais, a fim de tornar mais consciente e activa a missão dos fiéis.

A Comunidade eclesial encontrará assim a força necessária para aquele testemunho que ela é chamada a dar, na fidelidade e na renovação, enquanto se prepara para celebrar o Grande Jubileu do Ano 2000 e o terceiro centenário da sua reencontrada unidade com a Sé romana.

No início do novo Ano, é com sincera alegria que formulo vivíssimos bons votos a todos e, enquanto vos peço que leveis às vossas Eparquias a minha calorosa saudação, concedo de coração a todos uma especial Bênção Apostólica.

DISCURSO DO SANTO PADRE À COMUNIDADE DO ALMO COLÉGIO CAPRÂNICA

8 de Janeiro de 1998

1. Tenho o prazer de vos acolher, caros Alunos do Almo Colégio Caprânica, na proximidade da memória litúrgica da vossa Padroeira, Santa Inês. Saúdo-vos, juntamente com o Cardeal-Vigário, com o Reitor, Mons. Michele Pennisi, e os outros Superiores.

Encontramo-nos no tempo do Natal, entre a solenidade da Epifania e a festa do Baptismo do Senhor, no decorrer deste ano de 1998, dedicado de modo particular ao Espírito Santo. A celebração da Epifania convidou-nos a meditar sobre a missão universal da Igreja, prolongamento da missão salvífica de Cristo, luz dos povos, «Lumen gentium». Cada um de vós, caros seminaristas e jovens presbíteros, está inserido nesta missão da Igreja, e está a preparar-se para a servir de modo complexo e amadurecido. Para isto, é necessário antes de tudo crescer naquela docilidade pessoal ao Espírito Santo, cujo modelo é Maria Santíssima. De Maria aprendemos, neste tempo natalino, rico de estupefacção e de admiração, o empenho em escutar e acolher em profundidade a Palavra de Deus.

2. O Espírito Santo é o protagonista da missão da Igreja, é o protagonista da nova evangelização. No próximo domingo contemplaremos o ícone de Cristo que, baptizado no Jordão, recebe do Pai a unção espiritual. Ele é mais do que nunca eloquente e rico de significado para todo o cristão e, de modo particular, para cada sacerdote. Ele ajuda-nos a aprofundar o mistério do nosso pessoal chamamento e consagração no Espírito Santo, aquela «unção», que, como diz o apóstolo João, «ensina todas as coisas, é verdadeira e não é mentirosa» (1 Jo 2, 27).

O Espírito Santo conforma-nos a Cristo, dá-nos a força para O seguir e O testemunhar. É fonte de santidade vivida nas provas ordinárias e extraordinárias. A Virgem Inês é, de modo especial para vós, que a venerais como Padroeira, modelo de conformação a Cristo no dom total de si para o Evangelho. O Senhor, pela intercessão desta Virgem mártir, faça de cada um de vós uma testemunha corajosa do Seu amor, um santo sacerdote, uma fiel imagem de Cristo Bom Pastor.

Com estes sentimentos, enquanto vos desejo todo o bem para o ano há pouco iniciado, de coração concedo a todos vós a Bênção Apostólica, fazendo-a extensiva às pessoas que vos são queridas.

SAUDAÇÃO DO PAPA JOÃO PAULO II ÀS RELIGIOSAS SERVAS DE MARIA DE PISTÓIA (ITÁLIA)

5 de janeiro de 1998

Caríssimas Irmãs

1. É com alegria que vos acolho, enquanto estais reunidas em Roma para o Capítulo Geral da vossa Congregação. Agradeço à Superiora-Geral, Irmã Luísa Giuliani, as palavras que me dirigiu em nome de todas vós, e faço-lhe votos por que cumpra com generosidade e copiosos frutos o mandato, no qual foi reconfirmada.

Caríssimas, a vossa reunião quase coincide com o tempo litúrgico do Natal, período mais do que nunca propício para recolher na luz da fé todas as experiências e, a exemplo da Virgem Maria, meditar o desígnio de Deus, a própria vocação e a missão que Ele nos confia.

Intitula-se à Mãe de Deus a vossa Família religiosa, e convido-vos em especial a aprender d'Ela de modo cada vez mais profundo a virtude do discernimento, em plena docilidade à acção do Espírito Santo, ao Qual é dedicado este ano em preparação para o Grande Jubileu do Ano 2000.

2. Também o tema do presente Capítulo – «Com Maria, a Mulher nova, ao serviço de Deus nos irmãos» – vos convida a partir de novo para outra etapa do vosso caminho, sob a guia d'Aquela que é modelo de consagração e de seguimento, no espírito do radicalismo evangélico (cf. Exort. Apost. Vita consecrata, 28).

A vossa reflexão, que se fundamenta no carisma que assinala a identidade do Instituto, ressaltou a importância da formação permanente e pôs em evidência as exigências da missão nos âmbitos educativo-sócio-sanitário e pastoral.

A propósito da formação permanente, quereria recordar o primado da vida no Espírito. «Nela, a pessoa consagrada readquire a própria identidade e uma serenidade profunda, cresce na atenção aos desafios quotidianos da Palavra de Deus, e deixa-se guiar pela inspiração original do próprio Instituto. Sob a acção do Espírito, são tenazmente defendidos os tempos de oração, de silêncio, de solidão, e implora-se do Alto, com insistência, o dom da sabedoria para as canseiras de cada dia (cf. Sb 9, 10)» (Vita consecrata , 71).

3. Dos vossos trabalhos, estão a emergir orientações fundamentais para a vida de cada uma das religiosas e de cada comunidade: em primeiro lugar, o empenho de renovar, a exemplo das Madres Fundadoras, o vosso «ser» e o vosso «servir»; depois, a consciência da necessidade de pôr sempre Cristo no centro da própria existência, renovando e consolidando constantemente as relações de comunhão; enfim, sob o aspecto do apostolado, a orientação a fazer vossa a opção de «humanizar a vida» nos vários âmbitos do vosso serviço: escolas, lares, hospitais, asilos para idosos, centros que respondem a diversas formas de marginalização.

Não posso deixar de vos encorajar a prosseguir, com renovado entusiasmo, nestas linhas de acção que o Espírito do Senhor vos está a sugerir, num momento tão importante para a vida do Instituto, como é a celebração do Capítulo Geral: abri o coração ao acolhimento das moções interiores da graça de Deus.

4. Esta vossa visita, queridas Irmãs, oferece-me a oportunidade para vos exprimir reconhecimento e apreço pelo vosso empenho e para vos confirmar nos vossos propósitos. Sabeis bem quanto a Igreja estima a vida consagrada. Deu singular testemunho disto a Assembleia do Sínodo dos Bispos a ela dedicada, a qual foi antes de tudo uma coral acção de graças pelo grande dom da vida consagrada. Com efeito, ela coloca-se no próprio centro da Igreja e constitui um elemento decisivo para a sua missão (cf. ibid., 3), à qual oferece uma contribuição específica mediante o testemunho de uma vida totalmente doada a Deus e aos irmãos (cf. ibid., 76).

Com a ajuda materna de Maria Santíssima, seja este o empenho de cada uma de vós e da vossa Congregação inteira! Com estes bons votos, concedo de coração, a vós e às vossas Coirmãs, uma especial Bênção Apostólica.

DISCURSO DO SANTO PADRE DA "LOGGIA" DO SAGRADO CONVENTO DE ASSIS (ITÁLIA)

3 de Janeiro de 1998

Caríssimos Irmãos e Irmãs

1. Depois de me ter detido nos pequenos centros de Annifo e de Cesi, de onde quis abraçar idealmente todas as outras localidades atingidas pela tragédia do terremoto, eis que agora me encontro em Assis, nesta vossa cidade que traz sinais visíveis de uma prova muito árdua. Estou no meio de vós para testemunhar de maneira concreta a cada um a minha proximidade e a da inteira Comunidade eclesial. Já de Bolonha, onde me encontrava para o Congresso Eucarístico, no dia seguinte aos primeiros tremores, exprimi a minha solidariedade a quantos foram atingidos pelo sismo. Desde então, não cessei de acompanhar com trepidação partícipe as suas vicissitudes quotidianas, e agradeço ao Senhor que hoje me concede a oportunidade de estar no meio de vós para vos confirmar o meu afecto.

Dirijo uma cordial saudação, em primeiro lugar ao Pastor desta amada Diocese, o querido D. Sérgio Goretti, a quem agradeço as calorosas palavras que me reservou, e a todos os Bispos das áreas atingidas pelo terremoto, em particular ao Arcebispo de Espoleto e ao Bispo de Fabriano, cujas Dioceses não pude visitar, mas que desejei que estivessem aqui presentes, juntamente com alguns párocos, em representação das suas populações. Saúdo também a comunidade dos Frades Menores Conventuais, que com muito amor guardam esta Patriarcal Basílica. Depois, o meu deferente pensamento dirige-se ao Senhor Presidente do Conselho dos Ministros, ao Secretário do Conselho dos Ministros e ao Subsecretário para a Coordenação da Protecção Civil, aos Presidentes das Regiões da Úmbria e das Marcas, ao Presidente da Câmara Municipal de Assis, aos outros numerosos Presidentes de Câmaras Municipais das cidades atingidas pelo terremoto e a todas as Autoridades civis, militares e religiosas aqui presentes.

Queridos Irmãos e Irmãs, bem sei que o terremoto comprometeu o precioso património humano e artístico, que caracteriza esta vossa terra. Porém, sei também que é sólida a vossa intenção de não ceder ao desencorajamento, perante as numerosas e grandes dificuldades. O Papa encontra-se aqui hoje para vos dizer que está convosco e deseja encorajar-vos nos vossos propósitos de renovado empenhamento na árdua obra de reconstrução.

2. Do alto desta colina, rica de referências franciscanas, o olhar paira sobre o vale, sobe as encostas dos montes e chega a abraçar idealmente todas as localidades – as pequenas comunidades montanheses e os grandes centros, como por exemplo Nocera Umbra e Gualdo Tadino – atingidas pelo terremoto. As dificuldades são substancialmente as mesmas, e semelhantes são também os danos nas casas e nos monumentos, repletos de arte e de cultura. Ao sofrimento de quem perdeu os seus entes queridos acrescenta-se o de quem viu dissipar num instante os sacrifícios de uma vida inteira, e agora sente-se tentado a abandonar-se ao desencorajamento. Aqui são mais do que nunca actuais as palavras: Francisco, vai e repara a minha casa!

Todavia, é imperioso reconhecer que nos dias dos contínuos movimentos telúricos, suscitou grande admiração em todos o testemunho de dignidade e de apego à própria terra, oferecido pelas populações da Úmbria e das Marcas. Caríssimos Irmãos e Irmãs, não esmoreça esta vossa tensão ideal! Não se debilitem a força de ânimo, os dotes de operosidade e o tradicional empreendimento que vos caracterizam! Pelo contrário, os meus votos são por que estes emerjam da prova como que reforçados, para se expressarem na efectiva e concreta colaboração que assegure uma rápida retomada.

Neste contexto, é-me grato exprimir o vivo apreço pelo generoso contributo oferecido pelos voluntários e por quantos colaboram a vários níveis no trabalho de assistência e de reconstrução. Encorajo cada um a intensificar os esforços para dar continuidade à obra iniciada. A fé diz-nos que se faz a Cristo quanto se realiza em favor de quem se encontra na necessidade e no sofrimento (cf. Mt 25, 40).

Uma vez que se superou a fase de emergência, abre-se agora o período da reconstrução. Oxalá o ano que acaba de iniciar seja do renascimento e da retomada social e económica destas áreas! É com satisfação que tomo conhecimento das iniciativas empreendidas pelas Autoridades administrativas locais e regionais, bem como dos substanciais financiamentos decididos pelo Governo italiano, para vir ao encontro das vossas necessidades mais urgentes. Formulo votos por que isto se realize em breve tempo, a fim de que o panorama das cidades e das aldeias, hoje amplamente assinalado por ruínas e por estradas destruídas, retorne a ser tão sugestivo como antes, graças às necessárias obras de restauração e de reconstrução das habitações, das igrejas e dos monumentos danificados.

3. Vim a Assis para rezar junto do túmulo do Pobrezinho. Deste lugar sagrado para a tradição franciscana e duramente danificado pelo sismo, desta Basílica para a qual homens e mulheres do mundo inteiro olham com admiração, elevo ao Senhor uma ardorosa oração pelas vítimas do terremoto, pelos seus familiares e por quantos ainda vivem em situações precárias. Além disso, rezo pelos operadores e voluntários que, com extrema dedicação, estão empenhados na benemérita obra de socorro e de assistência a quem se encontra sem habitação. O Senhor conforte todos e faça sentir o seu apoio a cada um!

São Francisco, o seráfico filho desta terra, testemunhou com a vida o valor da solidariedade e do serviço aos necessitados, oferecido com amor. Clara, humilde plantazinha nascida nesta Cidade, transcorreu aqui toda a sua existência, acompanhando com a oração as tarefas apostólicas dos operadores de paz e dos anunciadores do Evangelho. Como deixar de os sentir presentes no meio de nós, nestes meses de dificuldade e de provação? Do céu, eles certamente abençoam e sustêm a laboriosa obra de generosidade, que vê empenhadas pessoas de todos os rincões da Itália, ao lado das populações atingidas pelo sismo. Ao mesmo tempo, convidam todos vós, caríssimos Irmãos e Irmãs, a enfrentar com espírito evangélico a precária situação que estais a viver. Na existência de Francisco e de Clara não faltaram momentos de sofrimento e de solidão. Basta evocar as inúmeras enfermidades, privações e angústias, que encontraram o seu ápice no místico abraço ao Crucificado, que teve lugar no monte de La Verna, ou na constante adoração da Eucaristia.

A mensagem franciscana sobre o valor que a privação e a dor assumem à luz do Evangelho vos ajude a reconhecer e a aceitar também nos eventos dolorosos destes meses as disposições de um Pai que é sempre amoroso, inclusive quando permite a provação.

4. Caríssimos Irmãos e Irmãs, estamos no clima das Festividades natalícias e, há apenas alguns dias, iniciámos um novo ano. Apraz-me formular a cada um de vós os cordiais bons votos para 1998: possa este ser o ano da esperança e da solidariedade. Quod Deus avertat a nobis, não um ano sísmico. Assis e as outras cidades e aldeias atingidas pelo cataclismo recuperarão imediatamente, estou certo disto, o seu sugestivo fascínio e resplandecerão tanto quanto antes na renovada beleza dos seus monumentos. Assim, poderão responder ainda mais à sua natural vocação de ser sinal de paz e de fraternidade para a Igreja, a Itália e o mundo inteiro.

Francisco e Clara de Assis obtenham do Senhor a força para as pessoas provadas; obtenham luz para as mentes e ardor para os corações, a fim de que se possa realizar imediatamente quanto todos esperam. Com estes bons votos, concedo de coração uma especial e afectuosa Bênção a vós aqui reunidos, àqueles que se encontram no sofrimento, aos voluntários e a quantos estão empenhados a vários títulos na obra da reconstrução, bem como a todos os habitantes da Úmbria e das Marcas.

Antes de se despedir dos fiéis, o Papa pronunciou ainda estas palavras:

Feliz Ano Novo! Pensei que a primeira visita deste ano haveria de ser a Cuba, mas é a Assis! Depois, podia-se prever também a chuva para hoje mas, ao contrário, graças a Deus tivemos sol, o sol de São Francisco!

DISCURSO DO SANTO PADRE AOS HABITANTES DE ANNIFO (ITÁLIA) SITUADA NO EPICENTRO DO SISMO

Sábado, 3 de Janeiro de 1998

Caríssimos Irmãos e Irmãs!

1. Saúdo-vos com afecto e com profunda comoção! Hoje posso finalmente realizar o desejo que trago no coração, desde quando começaram a chegar as dramáticas notícias sobre o terremoto que vos estava a pôr à dura prova. Desejaria ter vindo imediatamente às zonas devastadas pelo sismo, mas isto atrapalharia a obra dos primeiros socorredores. Nestes meses acompanhei constantemente as vossas vicissitudes, compartilhei os vossos sofrimentos e orei por vós. O Senhor concede-me agora manifestar-vos pessoalmente os meus sentimentos e estreitar-vos num abraço ideal, a vós e a quantos compatilharam a mesma experiência dolorosa em muitos centros destas queridas regiões da Úmbria e das Marcas.

Obrigado pela vossa presença! Como uma grande família, que se tornou mais forte e mais unida pela recente prova, enfrentastes o frio e não poucos incómodos, para vos estreitardes à volta do Papa e testemunhardes também desse modo a vontade de reconstruir o tecido material e humano da vossa comunidade, duramente atingida pelo tremor de terra.

Aqui, diante da pequenina igreja que vos foi doada pela Cáritas, em substituição da vossa, completamente destruída, desejo dirigir o meu cordial pensamento ao Venerado Irmão, Arduino Bertoldo, Bispo de Foligno, agradecendo-lhe as palavras que quis dirigir-me em nome de todos. Com ele saúdo também o Bispo Emérito, o Pároco e as outras Autoridades religiosas. Saúdo cordialmente o Deputado Micheli, Subsecretário da Presidência do Conselho dos Ministros e o Deputado Barberi, Subsecretário da Protecção Civil. Saúdo também o Presidente da Câmara Municipal e as Autoridades civis e militares aqui presentes. A todos dirige-se a expressão do meu reconhecimento.

2. Enquanto eu vinha de helicóptero aqui a Annifo, primeira etapa de um itinerário que me levará a Cesi e a Assis, fiquei impressionado pelo cenário de destruição que, olhando o território em torno dos Apeninos umbro-marquejanos, se apresentou aos meus olhos. De Cássia e Núrsia a Espoleto, de Fabriano e Macerata a Camerino, de Foligno a Assis, é impressionante e comovedor o espectáculo de casas, igrejas, edifícios plenos de história reduzidos a um cúmulo de ruínas no arco de poucos momentos. Às populações destas zonas, ricas de arte e de cultura, que não me foi possível visitar, dirijo a minha saudação afectuosa.

Pude constatar pessoalmente como o terremoto marcou de maneira profunda o ambiente, o património monumental, os lugares de trabalho e de vida, os símbolos da identidade religiosa e cultural destas terras. Aqui em Annifo, depois, os abalos sísmicos, particularmente violentos, quase cancelaram o centro habitado, deixando em pé somente sete casas: uma situação, infelizmente, não muito diferente daquela de muitas localidades vizinhas, tanto da Úmbria quanto das Marcas.

Como não ver nas casas, nas igrejas, nas estradas e nas praças destruídas os emblemas de uma intimidade ferida, de ligames humanos violados, de uma continuidade histórica interrompida, de um sentido de segurança perdido? Como não considerar a angústia de quantos viram desabar, com a habitação, o fruto de economias e de sacrifícios de anos de vida? Como não pensar nos doentes que se sentiram mais débeis e sozinhos, subtraídos do calor protector da casa e dos afectos familiares? Que dizer, depois, da desorientação dos pequeninos, improvisamente privados do ambiente habitual da sua vida e dos seus jogos e expostos às incógnitas e aos incómodos de alojamentos de emergência?

Neste momento, depois, o meu pensamento dirige-se, em particular, às pessoas mortas nesses trágicos eventos. Ao confiá-las ao Senhor, faço votos por que a recordação delas suscite em todos o empenho de recompor, o mais rápido possível, os ambientes em que viveram, trabalharam, oraram e amaram.

3. Caríssimos Irmãos e Irmãs! O evento sísmico, que inicialmente vos fez sentir débeis e indefesos, não cancelou dos vossos corações o maior tesouro: o património de valores cristãos e humanos, que desde há séculos mantêm unidas as vossas comunidades. Antes, o terremoto pôs em evidência, de modo surpreendente, os recursos humanos e espirituais de que dispondes. Admiráveis gestos de bondade, de solidariedade e de partilha fraterna, obra de pequenos e de adultos, de pessoas investidas de responsabilidade e de simples cidadãos, caracterizaram e continuam a caracterizar a vida quotidiana dos vossos bairros no período pós-terremoto. Entre as ruínas das vossas pequenas cidades talvez estejais a escrever uma das páginas mais significativas da vossa história. Continuai com confiança a caminhar unidos! Olhai para o futuro com ânimo aberto. O mistério do Natal, que nestes dias estamos a contemplar, recorda-nos que o Senhor é o Emanuel, o Deus connosco, o Deus que veio entre nós para permanecer connosco.

Esta contemplação, alimentada pela fé cristã, preciosa herança transmitida pelos antepassados e fundamento da vida das vossas comunidades, vos ajude neste particular momento a confiar de modo inquebrantável na Providência divina, cultivando uma esperança operosa e um amor fraterno e solidário.

4. No Natal ressoaram entre vós num contexto insólito estas palavras de alegria: «Glória a Deus nas alturas e paz na terra aos homens por Ele amados» (Lc 2, 14). Annifo e muitos outros centros, pequenos e grandes, que foram atingidos pelo terremoto, recordaram na noite Sagrada a pobreza e a precariedade da Gruta de Belém. Esta condição de emergência tornou-vos, caríssimos Irmãos e Irmãs, destinatários privilegiados do anúncio jubiloso dos anjos: permanecei serenos e tende a paz, porque Cristo veio até nós!

Quereria repetir-vos estas mesmas palavras, exortando-vos a não ceder ao desânimo, embora diante de grandes dificuldades. Ao contrário, confiai ao Senhor os vossos projectos, os sofrimentos e as vidas! Ele suavizará as vossas feridas, sustentará os vossos propósitos e acompanhar-vos-á no difícil caminho que vos espera.

Com estes sentimentos, ao invocar sobre cada um de vós a materna protecção da Virgem Maria e dos vossos Santos Padroeiros, concedo com muito afecto a minha Bênção a vós e às vossas famílias.

DISCURSO DO SANTO PADRE AOS HABITANTES DA LOCALIDADE DE CESI (ITÁLIA) VÍTIMAS DO TERREMOTO DE 1997

3 de Janeiro de 1998

Caríssimos Irmãos e Irmãs!

1. Depois da visita a Annifo, eis-me agora no meio de vós, em Cesi, para abraçar de modo ideal, juntamente convosco, todas as populações das Marcas atingidas pelo terremoto. Saúdo o Bispo de Camerino e o Presidente da Conferência Episcopal Regional, o Arcebispo de Fermo, o Pároco e a inteira comunidade desta cidade, que viu praticamente destruída quase a totalidade das suas habitações. Dirijo um pensamento cordial aos habitantes dos outros centros, nos quais igrejas e casas se tornaram impraticáveis ou desabaram. Vou espiritualmente a todas as famílias, entre os doentes, as pessoas anciãs, as crianças. A todos quereria dizer, de modo especial a quem vive no desconforto: Coragem! Coragem! O Senhor está próximo! O Papa sente-se perto de vós!

Estive junto de vós desde o primeiro momento, quando recebi a notícia deste sismo devastador. Orei por vós e continuo a fazê-lo. Mas, hoje, eis-me no meio de vós, ainda que por pouco tempo, para vos manifestar a minha solidariedade. No início do um novo ano, venho a vós no nome daquele Deus que escolheu assumir a nossa frágil humanidade, a fim de infundir nela uma esperança nova e invencível, porque fundada sobre a fé.

2. As provas da vida fazem-nos experimentar a nossa precariedade humana. Recordam-nos que na terra estamos de passagem, e que a nossa pátria não é aqui, mas junto de Deus. Neste tempo natalício, porém, a liturgia repete que o próprio Deus, o Criador e Senhor de todas as coisas, não está distante de nós, mesmo se parecesse o contrário. Ele é solidário com os nossos sofrimentos; veio habitar no meio de nós, escondendo-Se na nossa condição humana, porque quer infundir nela o amor, fonte e significado último de toda a existência. Diz o Salmista: «Deus é para nós refúgio e fortaleza, ajuda sempre pronta nas angústias. Por isso, não tememos mesmo que a terra trema, mesmo que as montanhas caiam no meio dos mares» (Sl 46 [45], 2-3). No meio de todos os transtornos, o crente não perde a consciência da presença confortadora do Senhor. Também vós, caros Irmãos e Irmãs, fortificados pelo Seu apoio, podereis não só reconstruir materialmente as vossas cidades, mas tereis energia espiritual para uma autêntica renovação interior e comunitária.

3. Nos dias que transformaram a vida tranquila e operosa destas terras, as vossas populações ofereceram um singular testemunho de dignidade, que suscitou admiração universal. Os danos materiais não enfraqueceram o vosso apego a estas regiões. Ao contrário, a decisão tomada pela grande maioria das vítimas do terremoto de continuar a viver nos próprios centros, demonstra que a prova sofrida tornou mais forte o seu senso de identidade e pertença.

Um encorajamento nesse sentido foi certamente o nascimento nestes meses de numerosas crianças, que alegraram muitas comunidades atingidas pelo sismo. Quereria daqui saudar todas as crianças que constituem a promessa de futuro e de vida para estas terras. Já tive ocasião de me encontrar com algumas, e agora, deste pequenino centro dos Apeninos da região da Úmbria e das Marcas, quereria idealmente dirigir-me a todas as crianças destas terras. No clima festivo do Natal, dirija-se a elas a minha saudação e o meu abraço afectuoso! Queridas crianças, o Senhor vos abençoe, vos faça crescer boas e corajosas, vos conceda, a vós e aos entes queridos, muita serenidade e muita alegria. Talvez, após anos, estas crianças, nascidas durante o sismo, aprendam dos seus pais: «Tu nasceste no momento do sismo, e nada sabias». De facto, assim corre a vida. Eu nasci no momento da guerra entre a Polónia e a Rússia comunista, e também eu nada sabia. Mas mantive uma grande admiração e uma grande gratidão para com aqueles que durante essa guerra tiveram confiança e depois venceram. Era muito importante. Corria o ano de 1920.

4. Ao lado das crianças estão os pais: eis as famílias às quais manifesto admiração pela força de espírito e pelo empenho com que reagiram à dura prova de um sismo intenso e prolongado. Muitas delas vivem em situações de emergência, estão em habitações provisórias. Jamais falte a estes núcleos familiares a ajuda de todos nós. A respeito disso, não posso deixar de ressaltar a surpreendente resposta de generosidade, que o sismo despertou também para além dos confins das Regiões atingidas. Com efeito, nestes meses, caríssimos Irmãos e Irmãs, pudestes contar com uma vasta rede de solidariedade, que vos fez sentir menos sozinhos.

Apesar das condições de dificuldade em que se trabalhou por causa da estação e das comunicações nem sempre fáceis, o empenho de todos já permitiu restabelecer, quase em todos os Centros, os serviços indispensáveis. Significativa de modo particular foi, além disso, a presença de tantos voluntários que, provenientes de todas as partes da Itália, compartilharam com as vítimas do terremoto dificuldades e preocupações, dramas e esperanças. De igual modo singular mostrou-se a solidariedade de tanta gente, que de várias maneiras fez com que lhes chegassem ajudas materiais, juntamente com inúmeros testemunhos de proximidade espiritual e de afecto. Entre os vários organismos empenhados nesta obra, encorajo em particular o trabalho da Cáritas, que coordena os serviços de solidariedade em nome da Comunidade eclesial.

Desejo exprimir o meu apreço por tudo o que foi feito e encorajo as Autoridades competentes a prosseguirem no caminho empreendido, para pôr em acto, com rapidez, as necessárias iniciativas de financiamento e de coordenação da obra de reconstrução. Com as felicitações para o novo ano, formulo votos por que, quanto antes, se possa retornar à vida habitual: as casas, as igrejas e os edifícios públicos, reconstruídos com critérios anti-sísmicos, serão o sinal do retorno à normalidade, e sobretudo de uma identidade espiritual que permanece e olha para o futuro. Caríssimos Irmãos e Irmãs, convido-vos a prosseguir nesta obra de fraternidade generosa e, ao invocar a constante protecção da Virgem Maria, com grande afecto dou a todos a minha Bênção.

DISCURSO DO PAPA JOÃO PAULO II ÀS PARTICIPANTES NO CONGRESSO DAS "APÓSTOLAS DO SAGRADO CORAÇÃO"

12 de Janeiro de 1998

Caríssimas Irmãs!

1. É-me grato acolher-vos neste momento solene e importante do vosso caminho de discernimento. Estais a celebrar um Congresso extraordinário, no qual tendes em vista proceder à actualização das vossas Constituições. Esta iniciativa quer responder ao convite que a Igreja vos dirige a manterdes vivo e actual o sentido da vossa consagração, o seu valor para a nova evangelização e para um testemunho cada vez mais eficaz do amor de Deus pela humanidade. Saúdo a Presidente-Geral, Senhora Nidia Colussi, juntamente com o Conselho e as outras responsáveis do Instituto Secular das «Apóstolas do Sagrado Coração».

Saúdo também os sacerdotes colaboradores e as delegadas provenientes das várias províncias italianas e latino-americanas.

2. Reunistes-vos para reflectir sobre o caminho percorrido e projectar as próximas etapas. O Sagrado Coração de Jesus, posto no centro da vossa espiritualidade, indica-vos a via-mestra para um testemunho humilde e muitas vezes ignorado pelos homens, mas precioso e agradável aos olhos de Deus. Quereis participar na missão apostólica do Senhor: não é por acaso que vos chamais «Apóstolas do Sagrado Coração»!

Olhai então para Ele: Ele «entregou-Se a Si mesmo» (tradidit semetipsum) pela vida do mundo. Aceitou obedecer ao Pai até à morte e à morte de cruz, a fim de que triunfasse a vida nova dos filhos de Deus na história. Assim também vós sois chamadas a ser fermento de libertação e de salvação para a humanidade e a criação inteira (cf. Rm 8, 18- 21), participando a partir de dentro, na vossa condição secular, na situação vital de muitos dos vossos irmãos e irmãs.

3. Quereria dirigir-vos três recomendações, que são também o motivo da minha oração por vós e pelo vosso Instituto.

Em primeiro lugar, exorto-vos a manter íntegro o espírito de simplicidade, que o vosso Fundador ensinou com tanta insistência. A caridade, dom inefável do Espírito Santo, encontra na humildade o seu necessário fundamento e a possibilidade da sua máxima expressão.

Exorto-vos, depois, a continuar no vosso precioso serviço de apoio, na oração e na efectiva ajuda concreta, às vocações de especial consagração. Confio-vos de modo muito particular as vocações sacerdotais: estejam elas presentes no vosso espírito e no vosso coração apostólico, como primeiro e mais importante dom que podeis contribuir para pedir e obter para a Igreja, da misericórdia de Deus, Senhor da messe (cf. Mt 9, 38).

Por fim, desejo que continueis a ser, nos ambientes da vossa vida e do vosso trabalho, aquele fecundo fermento de testemunho evangélico que a vossa opção de consagradas seculares requer.

4. Ao confiar-vos estes pensamentos, invoco sobre vós, os vossos entes queridos e o inteiro Instituto das Apóstolas do Sagrado Coração a contínua assistência do Senhor a fim de que, espalhadas pelo mundo como pequenina semente, sem ceder às suas seduções, possais ser para quem se aproxima de vós, ocasião de encontro com Jesus e com a riqueza inexaurível do amor, que brota do seu Coração bendito.

Vele sobre vós a Virgem Santíssima, que honrais com o bonito título de Mãe do Bom Conselho. Com estes votos concedo a cada uma de vós a minha especial Bênção, propiciadora de todas as graças celestes.

DISCURSO DO SANTO PADRE ÀS PARTICIPANTES NO CONGRESSO DAS "RESPIGADORAS DA IGREJA" POR OCASIÃO DO 50° ANIVERSÁRIO DA FUNDAÇÃO

2 de Janeiro de 1998

Caríssimas Irmãs

1. Tenho o prazer de vos acolher por ocasião da assembleia do vosso Instituto, juntamente com o Bispo Emérito de Prato, D. Pietro Fiordelli, a quem agradeço de coração as palavras com que quis fazer-se intérprete dos vossos sentimentos e expor os motivos que vos sugeriram pedir este encontro. O ano há pouco transcorrido foi o quinquagésimo do nascimento da vossa Associação e o trigésimo do seu reconhecimento como Instituto secular de direito diocesano, por obra de D. Fiordelli, o qual se pode dizer o «vosso» Bispo.

Há dois dias elevámos ao Senhor o anual Te Deum, e a vossa assembleia ofereceu-vos a oportunidade de compartilhar, como família consagrada, essa acção de graças que hoje de algum modo prolongamos, reflectindo sobre tantos dons que foram semeados pelo vosso caminho na Igreja e no mundo. As Respigadoras da Igreja já são mais de cem, dez das quais originárias da minha própria Pátria, nove da Índia e algumas de Malta. Isto é sinal de um crescimento rico de esperança não só para a diocese de Prato, mas para o inteiro povo de Deus difundido em todos os Continentes.

2. A vossa espiritualidade, queridas Irmãs, está centrada em Cristo Jesus que, no sacrifício da Eucaristia, Se oferece a Si mesmo ao Pai e nutre os fiéis com o seu Corpo e o seu Sangue imolados: em união com Ele a vossa vida é consagrada a Deus e aos irmãos em atitude de reparação, no empenho secular e no serviço eclesial.

Neste segundo ano de preparação imediata para o Grande Jubileu do Ano 2000, como não reflectir e meditar sobre o mistério eucarístico, qual sublime obra-prima do Espírito Santo, quotidianamente renovada na pobreza da Igreja peregrina no tempo? É o Espírito que, invocado sobre o pão e o vinho, os transforma no Corpo e no Sangue de Cristo, memorial vivo do sacrifício redentor, oferecido uma vez para sempre pelo único e eterno Sacerdote.

Se for grande o vosso empenho em viver em constante comunhão com Cristo Eucaristia, sereis ao mesmo tempo animadas pela acção do seu Santo Espírito, do qual o Sacramento do altar é fonte perene que jorra no coração da Igreja. Sede, pois, dóceis ao dom de Deus, segundo o modelo da Virgem Maria que, acolhendo em si a Palavra divina e a essa conformando-se inteiramente pela força do Espírito, se tornou Tabernáculo vivo de Cristo, Mãe do Redentor e dos remidos.

Assim como Maria, interiormente movida pelo Espírito, se pôs com coragem a caminho pelas estradas do mundo, levando em si o Salvador e magnificando a misericórdia de Deus, assim também vós, animadas pelo mesmo Espírito, vos sintais empenhadas em colaborar na Igreja e com a Igreja, para que os homens e as mulheres de hoje, especialmente os mais pobres de amor e de apoios humanos, possam ser visitados pelo Senhor e encontrar n'Ele esperança e paz.

3. Neste serviço, o vosso é o estilo discreto das pessoas consagradas no mundo, segundo o carisma do vosso Instituto. Inspirando-vos no ícone bíblico de Rute, vós qualificais-vos como «respigadoras»: respigadoras de amor, de verdade, de esperança no campo do mundo, nesta passagem do segundo para o terceiro milénio cristão. Mulheres plenamente inseridas na sociedade e na Igreja, «no mundo mas não do mundo», segundo a oração de Jesus (cf. Jo 17, 15-16). Consagradas na verdade, esforçais-vos por oferecer pequeninos mas intensos sinais de fraternidade, para que a humanidade seja ajudada a crer e a dar espaço ao Reino de Deus.

De todo o coração faço votos por que prossigais neste vosso caminho eclesial e secular, e para isto abençoo todas vós, as coirmãs ausentes, assim como o vosso trabalho e apostolado.

DISCURSO DO SANTO PADRE AO NOVO EMBAIXADOR DO PANAMÁ JUNTO DA SANTA SÉ POR OCASIÃO DA APRESENTAÇÃO DAS CARTAS CREDENCIAIS

Sábado 28 de Fevereiro de 1998

Senhor Embaixador

É-me sumamente grato recebê-lo neste acto solene em que apresenta as Cartas que o acreditam como Embaixador Extraordinário e Plenipotenciário da República do Panamá junto da Santa Sé, e que me oferece também a oportunidade para o saudar e lhe dar as minhas mais cordiais boas-vindas.

Agradeço de coração a deferente mensagem que o Senhor Presidente da República, Dr. Ernesto Pérez Balladares, teve a gentileza de me enviar por seu intermédio. Desejo retribuir a mesma, manifestando os meus melhores votos de prosperidade e paz para o querido povo panamenho. Por isso, peço-lhe, Senhor Embaixador, que se faça intérprete desses votos à mais alta autoridade da sua Nação.

2. Desde que Núñez de Balboa, atravessando as suas terras, descobrira o Oceano Pacífico para a cultura europeia, o Panamá distinguiu-se por ser encruzilhada entre as terras americanas e os grandes mares que as rodeiam, especialmente depois da construção do canal interoceânico, que tem o seu nome. Ao aproximar-se já o momento em que o seu País assumirá a gestão desta grande obra do engenho humano, ele prepara-se para dar também um passo decisivo na vocação que o destino parece ter-lhe designado, de ser ponte de comunicação e lugar de encontro.

Deste modo, o começo do terceiro milénio adquire para os panamenhos características muito particulares e abre-lhes fundadas esperanças de um sensível melhoramento nas condições de vida do seu povo, uma crescente afirmação da sua própria identidade e um maior protagonismo na história.

Além disso, a coincidência deste acontecimento com a celebração do Grande Jubileu do Ano 2000, oferece ao povo panamenho uma ocasião providencial para viver com particular intensidade o «ano de graça», que a Igreja proclama para todos os cristãos. Com efeito, a tradição bíblica do Jubileu afunda as suas raízes no supremo domínio de Deus sobre a terra e na vontade de o exercer em favor dos homens, especialmente os mais desafortunados, abrindo sobretudo para eles novas possibilidades (cf. Lv 25, 23; Tertio millennio adveniente , 12-13). Dessa experiência profunda de fé na intervenção salvífica e providente do Senhor, nasce no homem uma atitude agradecida e, ao mesmo tempo, respeitosa e responsável ante os bens da criação.

3. Estas perspectivas de um futuro promissor são também um apelo a todos os panamenhos, e de modo especial aos seus representantes e àqueles que têm responsabilidades directas na administração do bem comum, para que as circunstâncias favoráveis sejam postas ao serviço de um progresso integral para todos os cidadãos. Com efeito, o simples incremento dos bens materiais não é o mais importante na vida dos homens, dos empreendimentos e dos povos. Ao contrário, «o desenvolvimento volta-se contra aqueles a quem se quereria favorecer» (Sollicitudo rei socialis , 28) quando se limita à dimensão económica. «É necessário, por isso, esforçar-se por construir estilos de vida, nos quais a busca do verdadeiro, do belo e do bom, e a comunhão com os outros homens, em ordem ao crescimento comum, sejam os elementos que determinam as opções do consumo, da poupança e do investimento» (Centesimus annus, 36).

É, pois, para desejar que as novas oportunidades sejam aproveitadas para incrementar a solidariedade, sobretudo com as pessoas e os grupos menos favorecidos, e potenciar com maiores esperanças de êxito as iniciativas já enfrentadas pelo Governo, encaminhadas a promover as zonas mais deprimidas do País ou remediar as consequências produzidas pelas adversidades naturais, respeitando sempre o devido antagonismo de cada sector, o que requer que se possa contar com a participação de todos na elaboração e realização dos projectos. Com efeito, a história recente da humanidade demonstra como é efémero e frágil um desenvolvimento que, em benefício da máxima produtividade de bens materiais, sacrifica o papel primordial da pessoa em toda a actividade humana ou explora de maneira desmedida e destrutiva uma terra, que o Criador confiou ao homem como administrador responsável e respeitoso (cf. Gn 1, 28).

4. É-me grato constatar que as relações do seu País com a Santa Sé estão caracterizadas pelo respeito mútuo e o espírito de colaboração. Elas são o reflexo da íntima relação que une a Igreja com o povo panamenho, ao qual serviu e acompanhou desde que a Cruz de Cristo foi plantada nessas terras, proclamando e iluminando nos seus filhos «a sublime vocação do homem e o gérmen divino que nele está depositado» (Gaudium et spes, 3).

Conscientes dos valores que, inspirados pelo Evangelho, enobrecem as pessoas e as nações, os católicos sentem como um dever iniludível cooperar para o bem comum, pondo ao seu serviço, além das capacidades técnicas e intelectuais de cada um, uma especial sensibilidade pelos aspectos éticos e espirituais que dignificam e enriquecem o ser humano e sustentam a sua convivência em sociedade. Ao proclamar a grandeza da dignidade da pessoa, criada e querida tual e religiosa próprias do ser humano.

Estas relações, além disso, põem de manifesto a comum estima pelos valores humanos e espirituais, que a Santa Sé proclama constantemente nos foros internacionais. Esses valores precisam de ser afirmados com vigor, num momento histórico em que a comunicação e a interdependência económica, política e cultural entre as nações tornam necessária uma frente comum, nas grandes opções que podem determinar o futuro da humanidade. Com efeito, é de capital importância que, apesar das insídias de certos interesses imediatos, se promovam os direitos humanos em todo o seu alcance e integridade, como recordei na minha última mensagem para o Dia Mundial da Paz (cf. n. 2), se continue confiando no diálogo como o melhor meio para resolver os conflitos e, por fim, se promova uma autêntica civilização da vida e do amor.

5. Ao terminar este encontro, Senhor Embaixador, quero dizer-lhe que, apesar dos anos transcorridos desde a minha Visita Pastoral em 1983, tenho muito viva a recordação do Panamá, das suas comunidades eclesiais, das suas famílias e povos. Como naquela ocasião, desejo-lhes prosperidade e paz, pedindo para todos o grande dom da esperança que «oferece motivações sólidas e profundas para o empenhamento quotidiano na transformação da realidade, a fim de a tornar conforme ao projecto de Deus» (Tertio millennio adveniente , 46).

Com estes sentimentos, reitero as minhas cordiais boas-vindas a Vossa Excelência e à sua distinta família, ao mesmo tempo que formulo os meus melhores votos para que a sua permanência em Roma seja muito grata e a sua missão produza os frutos que todos esperamos para o bem da querida Nação panamenha.

DISCURSO DO PAPA JOÃO PAULO II AO PRIMEIRO GRUPO DE BISPOS ESTADUNIDENSES DA PROVÍNCIA ECLESIÁSTICA DE NOVA IORQUE EM VISITA "AD LIMINA APOSTOLORUM"

27 de Fevereiro de 1998

Eminência Estimados Irmãos Bispos

1. No início desta série de visitas ad Limina dos Pastores da Igreja que está nos Estados Unidos, saúdo-vos cordialmente, componentes do primeiro grupo de Bispos – provenientes da Província Eclesiástica de Nova Iorque – e transmito calorosas saudações a todos os membros da Conferência Episcopal. Ao encontrar-me convosco, o meu primeiro pensamento é dar sinceras acções de graças a Deus pela comunidade católica presente no vosso país, enquanto procurais sujeitar-vos cada vez mais ao Senhor no amor e na fidelidade (cf. Ef 5, 24), progredindo no meio das provações deste mundo e das consolações de Deus, anunciando a cruz salvífica e a morte do Senhor até que Ele venha (cf. 1 Cor 11, 26). Expresso o meu agradecimento de modo particular a vós e aos vossos Irmãos, pela amizade espiritual e pela comunhão na fé e no amor que nos une no serviço do Evangelho. Estou-vos grato por todos os modos de compartilhardes as minhas preocupações pastorais pela Igreja universal. Durante todos os anos do meu Pontificado, tive inumeráveis oportunidades de experimentar o amor e a solidariedade, característicos dos católicos dos Estados Unidos, para com o Sucessor de São Pedro. Neste ano de preparação para o Grande Jubileu, consagrado ao Espírito Santo, rezo para que «o Senhor, Dador da vida», recompense a Igreja que está nos Estados Unidos com os Seus dons de fortaleza e consolação.

2. O Jubileu exorta-nos a recordar e celebrar as bênçãos que o Pai tem derramado sobre nós em Jesus Cristo, Senhor da História e «supremo Pastor» das nossas almas (cf. 1 Pd 5, 4). Livres do pecado e purificados no sangue do Cordeiro, tornámo-nos verdadeiramente filhos de Deus, capazes de nos voltarmos para Ele com absoluta confiança: porque sabemos que Ele nos ama e jamais nos abandonará. Embora o nosso ministério nos recorde constantemente os sofrimentos de inúmeros dos nossos irmãos em humanidade, de modo especial os pobres e aqueles que são perseguidos por causa da sua fé em Cristo, estamos persuadidos de que, na proximidade do Terceiro Milénio, Deus está a preparar uma grande primavera para o Cristianismo (cf. Redemptoris missio , 86).

Mediante a encarnação do Filho de Deus, a eternidade entrou no tempo. O próprio tempo se tornou a arena em que a história da salvação se desenvolve; assim, aniversários e jubileus são períodos de graça – «um dia abençoado pelo Senhor», «um ano do Senhor» (cf. Tertio millennio adveniente , 32). O Grande Jubileu do Ano 2000 será um tempo de bênçãos singulares para a Igreja e para o mundo, uma graça já preparada por aquele extraordinário evento dos últimos tempos, o Concílio Vaticano II, cujos frutos ainda estão a amadurecer em vista da sua plena integridade. Uma vez que os documentos do Concílio representam o fundamental ponto de referência para a compreensão que a Igreja tem de si mesma e da sua missão neste período da história, é oportuno que a nossa preparação para o Jubileu inclua uma séria meditação acerca do modo como nós, Bispos, recebemos e aperfeiçoamos o rico magistério elaborado pelos Padres do Concílio (cf. Tertio millennio adveniente , 36). Nos meus encontros deste ano com os Prelados dos Estados Unidos, proponho-me reflectir sobre determinados temas do Concílio, num esforço por discernir a melhor maneira de assegurarmos que tudo aquilo que Deus deseja para a Igreja se torne realidade.

3. Qual é o maior desafio que se nos apresenta, a nós Bispos da Igreja? Qual é a maior necessidade dos nossos contemporâneos? Os homens e as mulheres de hoje, assim como os de todos os tempos e lugares, aspiram à salvação. Desejam redescobrir a verdade do domínio de Deus sobre a criação e a história, encontrar a Sua auto-revelação e experimentar o Seu amor misericordioso em todas as dimensões da própria vida. A grande verdade a ser proclamada nesta e em todas as épocas é que Deus entrou na história humana a fim de que os homens e as mulheres deveras pudessem tornar-se filhos de Deus. A Constituição dogmática sobre a Revelação divina, Dei Verbum, recorda-nos de maneira clarividente que a verdade que proclamamos não é uma sabedoria humana, mas depende completamente da auto-revelação de Deus: «Aprouve a Deus, na sua bondade e sabedoria, revelar-se a si mesmo e tornar conhecido o mistério da sua vontade (cf. Ef 1, 9), por meio do qual os homens, através de Cristo, Verbo encarnado, têm acesso ao Pai no Espírito Santo e n'Ele se tornam participantes da natureza divina» (op. cit., 2). Este é o cerne da mensagem cristã e a verdade essencial que os Bispos devem anunciar «oportuna e inoportunamente» (2 Tm 4, 2).

Na Carta Apostólica Tertio millennio adveniente , apresentei o seguinte interrogativo: «Em que medida a Palavra de Deus se tornou mais plenamente alma da teologia e inspiradora de toda a existência cristã, como pedia a "Dei Verbum"?» (n. 36). A fidelidade à palavra revelada exige de cada um, mas de maneira especial dos Bispos, uma atitude de receptividade atenta e sincera. Requer que nos deixemos renovar e transformar mediante o nosso encontro com a sua palavra viva. Então, seremos capazes de ajudar os fiéis a compreender que a Sagrada Escritura é uma dádiva que recebemos no seio da Igreja. Não se trata meramente de um «texto» a ser analisado; é sobretudo um convite à comunhão com o Senhor. Deve ser lido e recebido num espírito de abertura a este convite. Isto não implica uma abordagem acrítica da Escritura, mas admoesta contra leituras informadas segundo um racionalismo estéril ou por pressões culturais que comprometem a verdade bíblica. Tais abordagens são insensíveis ao chamamento de Deus e desvirtuam o texto sagrado do seu poder de salvação (cf. Rm 1, 16). São Paulo dá graças a Deus pelas pessoas que aceitaram a Escritura por aquilo que ela realmente é: palavra de Deus em acção no seio da comunidade dos crentes (cf. 1 Ts 4, 13).

Há que prestar homenagem aos inúmeros e excelentes exegetas e teólogos católicos nos Estados Unidos, que se prodigalizam indefessamente para ajudar o povo cristão a compreender de modo mais claro a palavra de Deus presente na Escritura, «a fim de que possa aceitá-la melhor em vista de viver em plena comunhão com Deus» (Discurso sobre a Interpretação da Bíblia na Igreja, 23 de Abril de 1993, n. 9). Este importante trabalho só dará o fruto a que o Concílio almejava se for sustentado por uma vigorosa vida espiritual no interior da comunidade dos crentes. Só o amor «que procede de um coração puro, de uma boa consciência e de uma fé sem hipocrisia» (1 Tm 1, 5) nos torna capazes de compreender a linguagem de Deus, que é Amor (cf. Jo 4, 8).

4. Se quisermos que a nova evangelização seja eficaz, a nossa catequese deve transmitir a verdade integral do Evangelho, pois a plenitude da verdade é a fonte mesma da nossa capacidade de ensinar com autoridade: uma autoridade que os fiéis reconhecem com facilidade quando abordamos o que é essencial e comunicamos aquilo que recebemos (cf. 1 Cor 15, 3). O nosso múnus magisterial «não está acima da palavra de Deus, mas serve-a, ensinando somente o que foi transmitido enquanto, por mandato divino e com a assistência do Espírito Santo, a ouve piamente (pie audit), a guarda santamente (sancte custodit) e a expõe com fidelidade (fideliter exponit)» (Dei verbum, 10).

Através do ministério da pregação e do ensinamento, toda a comunidade dos fiéis deve considerar e amar a Escritura e a Tradição que, juntas, nos levam a compreender a presença salvífica de Deus na história e a mostrar o caminho para a comunhão de vida com Ele. Deste modo, a Igreja inteira entrará mais plenamente no mistério da salvação e reconhecerá que a história humana é o lugar do encontro entre Deus e o homem, o lugar em que se oferece, recebe e constrói a comunhão com Deus.

5. A mensagem evangélica é sempre a mesma, embora a proclamemos no contexto de uma cultura que passa por constantes transformações. Precisamos de reflectir sobre a dinâmica da cultura contemporânea a fim de discernirmos os sinais dos tempos que influenciam a proclamação da mensagem salvífica de Cristo. Por outro lado, em toda a parte vemos a aspiração das pessoas à liberdade e à felicidade, e isto fala-nos de uma profunda fome espiritual. As pessoas procuram satisfazer esta fome de muitas maneiras; todavia, o insucesso de muitas soluções propostas, quer elas sejam filosofias, ideologias ou modas, tem levado a uma grande inquietude, quando não a uma corrente de desespero no interior da cultura contemporânea. A nossa época é com frequência definida como um tempo de incerteza; esta incerteza, elevada a princípio mediante o qual se nega que o homem possa conhecer a verdade das coisas, influencia a vida moral, a vida de oração e a rectidão teológica da fé das pessoas (cf. Tertio millennio adveniente , 36).

Por outro lado, muitas pessoas estão cada vez mais conscientes de que, para se construir uma sociedade livre, justa e próspera e assim criar as condições para satisfazer as mais profundas e nobres aspirações do espírito humano, a cultura mediante a qual elas interagem e se comunicam deve corresponder a determinadas verdades básicas acerca da pessoa humana. A minha última visita ao vosso país realizou-se em 1995, durante a celebração do 50° aniversário da Organização das Nações Unidas. Na Assembleia Geral, expressei a convicção de que o progresso da busca humana da liberdade constitui uma das maiores dinâmicas da história moderna em todas as partes do mundo. Tal dinâmica manifesta-se claramente nos povos do mundo que reivindicam uma maior participação na determinação das opções políticas e económicas que lhes concernem (cf. Discurso à 50ª Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas, 5 de Outubro de 1995, n. 2). Não testemunhamos porventura, no decurso da história, o progresso gradual de certas verdades evangélicas: a dignidade da pessoa humana, o maior respeito pelos direitos humanos, o devido reconhecimento da igual dignidade das mulheres e a rejeição da violência como instrumento para resolver conflitos?

6. Contudo, a afirmação de determinados valores morais não é ainda a proclamação de Jesus Cristo, o único Medianeiro entre Deus e os homens (cf. 1 Tm 2, 5). A nossa época tem necessidade de escutar a verdade revelada acerca de Deus, do homem e da condição humana. Chegou a hora do querigma. O desafio pastoral do Grande Jubileu consiste em proclamar com renovado vigor «Jesus Cristo, o único Salvador do mundo, ontem, hoje e sempre» (cf. Hb 13, 8). A comunidade católica nos Estados Unidos é chamada a fazê-lo numa atmosfera cultural, cujos elementos mais poderosos duvidam da existência de uma verdade objectiva e absoluta, rejeitando a própria ideia do ensinamento autorizado. O desafio do cepticismo radical pode levar a concluir que a Igreja está à margem da vida contemporânea. Aceitar esta consideração, por sua vez, pode conduzir à noção de que o Catolicismo e, de facto, o Cristianismo em geral, são simplesmente uma das inumeráveis formas da genérica realidade humana denominada «religião».

Esta não é a mensagem do Concílio Vaticano II, que com coragem proclamou a centralidade de Jesus Cristo para a história humana e a missão essencial da Igreja, que consiste em anunciar o Evangelho a todas as nações: porque «debaixo do céu não existe outro nome dado aos homens pelo qual possamos ser salvos» (Act 4, 12). A Igreja é enviada ao mundo com uma proposta: e a proposta evangélica que apresentamos é que, mediante o Evangelho, o mundo possa compreender a própria história e as suas aspirações de modo mais adequado e mais verídico. Se esta é a verdade que proclamamos, então a Igreja jamais está à margem, mesmo quando parece frágil aos olhos do mundo. Diante de uma modernidade que perdeu a capacidade de realizar a nobre aspiração que se propôs – a completa libertação do homem, de cada homem e de cada mulher – a Igreja continua a ser uma testemunha do pleno significado da liberdade humana. Abre-se uma nova fase na história da liberdade e nestas circunstâncias é necessário que a Igreja, especialmente através dos seus Pastores, ensine e evidencie que «as capacidades libertadoras da ciência, da técnica, do trabalho, da economia e da acção política só darão frutos se encontrarem a sua inspiração e medida na verdade e no amor mais fortes do que o sofrimento, revelados aos homens por Jesus Cristo» (Documento da Congregação para a Doutrina da Fé, Instrução sobre a liberdade cristã e a libertação, 22 de Março de 1986, n. 24).

O desafio é enorme mas o tempo é oportuno, dado que outras forças culturais – exaustas, improváveis ou isentas de recursos intelectuais adequados – não satisfazem a aspiração humana à libertação genuína, embora ainda consigam exercer uma atracção poderosa, especialmente através dos meios de comunicação. A grande realização do Concílio consiste no facto de ter tornado a Igreja capaz de comprometer a modernidade na verdade acerca da condição humana que nos foi transmitida em Jesus Cristo, Aquele que é a resposta ao interrogativo representado pela vida humana. A tarefa do Bispo não é senão esta: ser uma testemunha convincente e um mestre corajoso da verdade que liberta o homem (cf. Jo 8, 42).

7. Prezados Irmãos Bispos, na última Ceia, Jesus desafiou e encorajou os seus discípulos: «Se alguém Me ama, guarda a Minha palavra e Meu Pai o amará. Eu e Meu Pai viremos e faremos nele a Nossa morada» (Jo 14, 23). Sabemos que o Espírito habita no meio da Igreja e conduz os fiéis a uma compreensão cada vez mais profunda da palavra de Deus, porque Cristo disse aos Seus discípulos que o Espírito «vos ensinará todas as coisas e vos fará recordar tudo o que Eu vos disse» (Jo 14, 26). O Espírito vos assista sempre no cumprimento da tarefa que o Concílio confiou sobretudo aos Pastores da Igreja: comunicar a verdade e a graça de Cristo aos homens e às mulheres do mundo contemporâneo (cf. Ad gentes, 2; cf. também Redemptoris missio , 1). Confio à intercessão de Maria, Mãe da Igreja e Padroeira dos Estados Unidos, as alegrias e as dificuldades do vosso ministério, bem como as necessidades e as esperanças das vossas Igrejas locais e de toda a comunidade católica presente no vosso país. Concedo cordialmente a minha Bênção apostólica a cada um de vós e a todos os sacerdotes, religiosos e leigos das vossas Dioceses.

CARTA DO PAPA JOÃO PAULO II À DIRECTORA DO CENTRO DE ESTUDOS SOBRE A REGULAMENTAÇÃO NATURAL DA FERTILIDADE

Ex.ma Professora ANNA CAPPELLA Directora do Centro de Estudos e Pesquisas sobre a Regulação Natural da Fertilidade

1. Tomei conhecimento com grande prazer de que este Centro organizou um Congresso Nacional para comemorar o XXX aniversário da Encíclica Humanae vitae do meu Predecessor, o Servo de Deus Paulo VI.

Desejo, em primeiro lugar, fazer-lhe chegar a minha saudação, gentil Professora, bem como aos Responsáveis, aos Pesquisadores e aos Operadores da benemérita Instituição a que preside, manifestando estima e apreço pelo válido contributo oferecido durante estes anos à salvaguarda e à promoção da vida humana na fase inicial. O meu pensamento torna-se extensivo também aos Congressistas e aos Relatores que participam nos trabalhos do Congresso: a todos desejo um proveitoso aprofundamento do ensinamento da Igreja acerca da «verdade» do acto de amor, no qual os cônjuges se tornam partícipes da acção criadora de Deus.

2. A verdade deste acto brota do facto de ele ser expressão da doação pessoal recíproca dos cônjuges, uma doação que não pode deixar de ser total, uma vez que a pessoa é una e indivisível. No acto que exprime o seu amor, os esposos são chamados a fazer um dom recíproco de si mesmos na integridade da sua pessoa: nada daquilo que constitui o seu ser pode permanecer excluído desta doação. Eis a razão da intrínseca ilicitude da contracepção: ela introduz uma substancial limitação no interior desta doação recíproca, interrompendo aquela «conexão inseparável» entre os dois significados do acto conjugal, o unitivo e o procriativo, que Paulo VI indicava como inscrita pelo próprio Deus na natureza do ser humano (cf. Humanae vitae , 12).

Nesta linha de reflexão, o grande Pontífice justamente ressaltava a «diferença essencial» existente entre a contracepção e os recursos aos métodos naturais em referência à actuação de uma «procriação responsável». A diferença é de ordem antropológica porque envolve, em última análise, dois conceitos da pessoa e da sexualidade humana, entre si irredutíveis (cf. Familiaris consortio , 32). Não é frequente, no pensamento corrente, que os métodos naturais de regulação da fertilidade sejam separados da dimensão ética que lhes é própria e propostos no seu aspecto meramente funcional. Não causa admiração que se deixe de compreender a diferença profunda existente entre eles e os métodos artificiais, e se chegue por conseguinte a falar acerca deles como se se tratasse de uma forma diferente de contracepção. Mas não é nesta óptica que eles devem ser vistos e aplicados. Pelo contrário, é unicamente na lógica do dom recíproco entre o homem e a mulher que a regulação natural da fertilidade pode ser rectamente compreendida e vivida de modo autêntico, como expressão qualificada de uma real e mútua comunhão de amor e de vida. Vale a pena recordar aqui que «a pessoa nunca pode ser considerada um meio para alcançar uma finalidade; nunca, sobretudo, um meio de ieprazerl,. Ela é e deve ser apenas o fim de cada acto. Só então a acção corresponde à verdadeira dignidade da pessoa» (cf. Humanae vitae , 12).

3. A Igreja está consciente das dificuldades de vários tipos que, sobretudo no actual contexto social, os esposos podem encontrar não só na actuação, mas também na própria compreensão da norma moral que lhes diz respeito. Como mãe, a Igreja torna-se próxima dos casais em dificuldade, a fim de os ajudar; mas faz isto recordando-lhes que o caminho para encontrar a solução aos seus problemas não pode deixar de passar através do respeito pleno da verdade do seu amor. «Não minimizar em nada a doutrina salutar de Cristo – admoestava Paulo VI – é forma de caridade eminente para com as almas» (Humanae vitae , 29).

A Igreja põe à disposição dos casais os meios de graça que Cristo oferece na Redenção, e convida-os a recorrer a eles com confiança sempre renovada. Sobretudo, exorta-os a invocar o dom do Espírito Santo, que é efundido no coração deles graças à eficácia do sacramento que lhes é típico: essa graça é fonte da energia interior necessária para cumprir as numerosas tarefas do seu estado, a começar por aquela de serem coerentes com a verdade do amor conjugal. Ao mesmo tempo, a Igreja solicita o empenho dos homens de ciência, dos médicos, do pessoal do âmbito da saúde, dos agentes pastorais, para que sejam postos à disposição dos cônjuges todos os subsídios que se possam revelar um válido apoio para viverem em plenitude a sua vocação (cf. Humanae vitae , 23-27).

É precisamente nesta perspectiva que se enquadra também a obra preciosa, à qual se dedicam Centros como o que Vossa Excelência, gentil Professora, promoveu e continua a animar com louvável empenho. Ao tomar conhecimento, com apreço, da actividade de sensibilização que o Centro desempenha mediante a promoção de conferências, seminários, congressos e cursos a nível quer nacional quer internacional, quereria aproveitar a ocasião para ressaltar a importância da actividade de estudo e pesquisa, que faz parte das finalidades próprias da Instituição, como é evidenciado pela denominação que a qualifica. De facto, é necessário empenhar-se, por um lado na difusão em âmbito médico do conhecimento dos fundamentos científicos, sobre os quais se baseiam os métodos naturais de regulação da fertilidade e, por outro, no desenvolvimento do estudo e da investigação sobre a natureza dos eventos bioquímicos e biofísicos que acompanham e tornam reconhecíveis os períodos da fertilidade, consentindo desta maneira uma actuação mais fácil e segura da paternidade responsável.

4. Faço votos por que os qualificados contributos dos estudiosos, que participam dos trabalhos do actual Congresso Nacional, se revelem úteis para as pesquisas que estão a ser feitas neste campo. Os conhecimentos científicos cada vez mais avançados, juntamente com o respeito dos valores morais defendidos pela Igreja, não deixarão de dar um ulterior contributo à afirmação da concepção do amor como dom incondicionado e total das pessoas, e da fecundidade como riqueza a ser acolhida com gratidão das mãos do Criador. Enquanto invoco sobre Vossa Excelência, os Congressistas e quantos estão em contacto com este Centro a incessante protecção de Maria, Mãe do belo amor, e de São José, Protector do Redentor, invoco de coração, como penhor de afecto sempre reconhecido, a desejada Bênção Apostólica.

Vaticano, 27 de Fevereiro de 1998.

DISCURSO DO SANTO PADRE AO CLERO DE ROMA POR OCASIÃO DO INÍCIO DA QUARESMA

Quinta-feira, 26 de Fevereiro de 1998

1. Caríssimos sacerdotes romanos, párocos, vice-párocos, diáconos, diáconos permanentes, empenhados em todas as outras formas de ministério, saúdo-vos com grande afecto, contente com a vossa participação neste nosso encontro tradicional e familiar.

O Cardeal-Vigário, na sua saudação inicial, apresentou os traços salientes do actual empenho missionário da Igreja de Roma, e os vossos testemunhos enriqueceram o quadro, narrando experiências vivas daquilo que estais a realizar nos vários âmbitos da pastoral.

Na realidade, a «Missão da cidade» entra precisamente agora no seu momento culminante. Numerosas paróquias já iniciaram aquela missão às famílias que eu mesmo abri no domingo, 1° de Fevereiro, encontrando-me com uma família da Paróquia do Sagrado Coração de Jesus no bairro de «Prati». As outras estão a ponto de começar, agora que teve início o tempo da Quaresma, este ano consagrado de modo especial à missão.

2. Este segundo ano de preparação imediata para o Grande Jubileu é dedicado ao Espírito e à Sua presença santificadora. Recordo com alegria o domingo 30 de Novembro, primeiro do Advento, no qual celebrei convosco e com todos os missionários da Diocese de Roma a abertura do ano do Espírito, entregando a Cruz da missão às paróquias e a cada um dos missionários. Já na Tertio millennio adveniente eu escrevia que «o Espírito é também para a nossa época o agente principal da nova evangelização» (n. 45). Mas a Missão da cidade é, para esta nossa Roma, a actuação concreta da grande tarefa da nova evangelização. Portanto, vale-lhe a pleno título aquilo que eu acrescentava na mesma passagem da Carta Apostólica: «Será, por isso, importante redescobrir o Espírito como Aquele que constrói o Reino de Deus no curso da história e prepara a sua plena manifestação em Jesus Cristo, animando os homens no mais íntimo deles mesmos e fazendo germinar dentro da existência humana os gérmens da salvação definitiva que acontecerá no fim dos tempos».

3. Caríssimos sacerdotes, hoje quereria reflectir convosco sobre o íntimo ligame que une o nosso sacerdócio ao Espírito Santo e à missão. Retornemos ao momento da nossa Ordenação presbiteral, quando o Bispo ordenante evocou sobre nós a efusão do Espírito de santidade. Então, renovou-se em nós aquilo que Jesus ressuscitado tinha operado nos Seus discípulos, na mesma noite da Páscoa: «Ele disse-lhes: "A paz seja convosco. Assim como o Pai Me enviou, também Eu vos envio a vós". Dito isto, soprou sobre eles e disse-lhes: "Recebei o Espírito Santo. Àqueles a quem perdoardes os pecados, ser-lhes-ão perdoados; àqueles a quem os retiverdes, ser-lhes-ão retidos"» (Jo 20, 21-23). É em virtude do dom do Espírito Santo que os discípulos encontraram a coragem para ir pelo mundo inteiro no nome do Senhor, a fim de O anunciar, a Ele, à Sua salvação e ao seu Reino; realizaram prodígios no Seu nome; e constituíram em toda a parte as primeiras comunidades cristãs.

Este dom do Espírito não é menos vivo e operante em nós, não perdeu nada do Seu poder renovador e santificador. O Espírito actua em todos os crentes que se fazem missionários, ao obedecerem à chamada do Senhor, e é motivo de alegria ver quantos leigos e quantas religiosas acolheram esta chamada, empenhando-se com grande generosidade na Missão da cidade. Mas o Papa repete-vos, hoje, aquilo que já vos dizia há dois anos nesta mesma circunstância, isto é, que vós, sendo os primeiros colaboradores da Ordem episcopal, sois também aqueles a quem está confiado em primeiro lugar o ministério de anunciar o Evangelho a todos. A Missão da cidade tem necessidade de presbíteros que sejam autênticos evangelizadores e acreditáveis testemunhas da fé: o Bispo de Roma espera isto de vós, meus caríssimos Irmãos. A particular efusão do Espírito Santo que nos foi dada no momento da Ordenação, depois daquelas já recebidas no Baptismo e na Confirmação, é a fonte e a raiz da tarefa especial que nos é confiada na missão e na evangelização.

4. Somos os primeiros chamados a entrar naquela dinâmica, naquele movimento espiritual que é próprio da missão. Devemos entrar nele, como já vos dizia há dois anos, com o nosso ser e a nossa alma de sacerdotes, com a nossa oração e, portanto, com todo o nosso empenho pastoral quotidiano.

Somente o Espírito pode realizar isto em nós. A missão, com efeito, é um empreendimento de amor e a sua eficácia depende, em última análise, da intensidade do amor: somos missionários na medida em que conseguimos testemunhar que Deus ama e salva cada pessoa, esta Cidade e a humanidade inteira. Mas o Espírito Santo é, na Santíssima Trindade, o Amor subsistente. E, como nos recorda o apóstolo Paulo, «o amor de Deus foi derramado em nossos corações pelo Espírito Santo, que nos foi concedido» (Rm 5, 5).

Em concreto, o Espírito Santo torna-nos capazes de olhar quer para o próximo quer para a nossa própria vida com os olhos de Deus, de amar os irmãos com aquele mesmo amor que o Senhor Jesus os amou, portanto de os entender, perdoar, ajudar, confortar e lhes estar de facto próximos em qualquer circunstância, desde a mais alegre até à mais triste, e de o ser não duma maneira qualquer, mas como testemunhas de Cristo e pais na fé. Ao caminharmos assim, juntamente com os missionários leigos, de casa em casa, de família em família, transmitiremos um sinal de confiança e de esperança, daremos novo vigor aos ânimos cansados ou desanimados, poderemos refortalecer os vínculos familiares enfraquecidos ou que estão a ponto de se romperem, poderemos oferecer um sinal palpável do facto de que Deus não Se esquece de ninguém.

5. Mas o Espírito Santo, caros sacerdotes, não só nos acompanha, guia e sustém no caminho da missão. Ele também, e antes de tudo, nos precede. Com efeito, o Espírito está misteriosamente presente e operante no coração, na consciência e na vida de cada mulher e de cada homem. O Espírito não conhece fronteiras. Ao actuar de maneira misteriosa e silenciosa no íntimo de cada um, o Espírito predispõe cada pessoa a acolher Cristo e o seu Evangelho a partir de dentro.

Por isso, caros Irmãos, quando batemos à porta de uma casa, ou à porta de um coração, o Espírito já nos precedeu e o anúncio de Cristo poderá, talvez, ressoar de novo no ouvido de quem nos escuta, mas jamais poderá ressoar de modo completamente estranho no seu coração. Nutrir pessimismo acerca da possibilidade ou da eficácia da missão seria portanto, caros Irmãos, em certo sentido um pecado contra o Espírito Santo, uma falta de confiança na Sua presença e acção.

6. À medida que o Grande Jubileu se aproxima, delineiam-se com maior precisão as ocasiões de graça que o Espírito está a preparar para a Igreja e a humanidade, em particular para esta Igreja e esta Cidade de Roma. Penso no Congresso Eucarístico Internacional, no Dia Mundial da Juventude, no Jubileu das Famílias, no Jubileu dos Sacerdotes e nos outros encontros previstos e esperados. A Missão da cidade prepara-nos, a nós mesmos e aos nossos fiéis, para viver estes eventos no seu verdadeiro significado de graça, de fé e de conversão. Por isso devemos orar insistentemente ao Espírito Santo, pois sabemos bem que só Ele é capaz de converter os corações e de conceder a fé e a graça.

Olhando para os empenhos deste ano, na perspectiva geral do Grande Jubileu, a visita às famílias que realizareis nesta Quaresma representa a melhor preparação para o grande encontro do Jubileu das Famílias, que tem como finalidade pôr Cristo no centro da vida familiar e assim restituir à família a sua autêntica e inalienável dignidade humana e cristã.

De modo análogo, a «Missão dos jovens», que representa um objectivo específico da Missão da cidade, prepara o terreno para o Dia Mundial da Juventude do Ano 2000. Já no Domingo de Ramos deste ano os jovens da Itália e de Roma receberão dos jovens franceses, na Praça de São Pedro, a Cruz do Ano Santo, que peregrinou como missionária através dos Continentes e das Nações, de Roma a Buenos Aires, de Santiago de Compostela a Czêstochowa, de Denver a Manila, a Paris e de novo a Roma. Também o especial encontro dos jovens de Roma com o Papa, na quinta-feira que precede o Domingo de Ramos, este ano terá lugar pela primeira vez ao ar livre, na Praça diante da Basílica de São João, Catedral de Roma: com efeito, queremos poder acolher todos os jovens que participam, cada ano em maior número, e dar evidência à abertura missionária deste evento, dirigido a cada jovem de Roma.

7. Caríssimos sacerdotes, ao lado do seu aspecto cristológico, o Grande Jubileu «tem um aspecto pneumatológico, pois o mistério da Encarnação se realizou "por obra do Espírito Santo"» (Dominum et vivificantem , 50). Como bem sabemos, realizou-se no seio da Virgem Maria e através do seu consentimento livre, imediato e total. Maria é, pois, «a mulher dócil à voz do Espírito, mulher do silêncio e da escuta, mulher de esperança, que soube acolher como Abraão a vontade de Deus "esperando contra toda a esperança" (Rm 4, 18)» (Tertio millennio adveniente , 48).

A invocação ao Espírito Santo não pode, portanto, estar desvinculada da consagração a Maria, Àquela a quem o meu Venerado Predecessor Paulo VI chamou «Estrela da evangelização». A Ela, portanto, confiamos o nosso sacerdócio e a Missão da cidade. Com estes sentimentos, concedo a todos de coração a minha Bênção.

Quereria ainda acrescentar que este nosso encontro de hoje está muito bem situado. O que vimos em Roma no domingo passado, festa da Cátedra de São Pedro? Foram criados os novos Cardeais. Mas quem são os Cardeais? Na sua grande maioria, são «párocos» romanos. Sete são Bispos suburbicários. Seis são Diáconos das diversas diaconias, cujo número muda. Sobretudo o ofício diaconal, no Colégio Cardinalício, pertence aos Dicastérios Romanos. Nem todos os Prefeitos são Diáconos. Alguns são Bispos, como os Cardeais Ratzinger e Sodano, mas na maior parte são Diáconos. Os outros, a grande maioria, são «párocos» romanos. O que quer dizer isto? Quer dizer que cada paróquia romana é um lugar cardinalício. Parece-me que há sempre mais paróquias romanas que têm um título cardinalício, porque o número dos Cardeais aumentou.

Comemoremos agora o Cardeal Ugo Poletti, que tantas vezes esteve connosco nesta circunstância, na quinta-feira depois das Cinzas. Boa Quaresma e boa Páscoa!

PALAVRAS DO PAPA JOÃO PAULO II DURANTE A CELEBRAÇÃO DO CONSISTÓRIO ORDINÁRIO PÚBLICO PARA A CRIAÇÃO DE NOVOS CARDEAIS

Sábado, 21 de Fevereiro de 1998

«Seniores qui in vobis sunt obsecro consenior et testis Christi passionum qui et eius quae in futuro revelanda est gloriae communicator» (1 Pd 5, 1).

1. Faço minhas as palavras do apóstolo Pedro ao dirigir-me a vós, venerados e caríssimos Irmãos, que tive a alegria de associar ao Colégio dos Cardeais.

Elas evocam a nossa radicação fundamental, como «seniores», no mistério de Cristo Cabeça e Pastor. Enquanto partícipes da plenitude da Ordem sagrada, d'Ele nós somos, na Igreja e para a Igreja, uma representação sacramental, chamados a proclamar de modo autorizado a Sua palavra, a repetir os Seus gestos de perdão e de oferta da salvação, a exercer a Sua solicitude amorosa até ao dom total de nós mesmos pelo rebanho (cf. Exortação Apostólica Pastores dabo vobis , 15).

Esta radicação em Cristo recebe hoje em vós, venerados Irmãos, uma ulterior especificação, uma vez que com a elevação à Púrpura sois chamados e habilitados a um serviço eclesial de responsabilidade ainda mais grave, em estreitíssima colaboração com o Bispo de Roma. Tudo o que hoje se realiza na Praça de São Pedro é, pois, a chamada a um serviço mais empenhativo porque, como escutámos do Evangelho, «quicumque voluerit in vobis primus esse, erit omnium servus» (Mc 10, 44). A escolha compete a Deus, a nós o serviço. Não se deve porventura entender o próprio primado de Pedro como serviço à unidade, à santidade, à catolicidade e à apostolicidade da Igreja?

O Sucessor de Pedro é o servus servorum Dei, segundo a expressão de São Gregório Magno. E os Cardeais são os seus primeiros conselheiros e cooperadores no governo da Igreja universal: são os «seus» bispos, os «seus» presbíteros e os «seus» diáconos, não simplesmente na primitiva dimensão da Urbe, mas no apascentar o inteiro povo de Deus, ao qual a Sede de Roma «preside na caridade» (cf. Santo Inácio de Antioquia, Aos Romanos 1, 1).

2. Com esses pensamentos, dirijo a minha cordial saudação aos venerados Cardeais presentes, que no Colégio cardinalício, e sobretudo neste Consistório público, manifestam de modo eminente o «aspecto sinfónico», por assim dizer, da Igreja, isto é, a sua unidade na universalidade das proveniências e na variedade dos ministérios.

Com eles compartilho a alegria de acolher hoje os vinte novos Coirmãos, que provêm de treze Países de quatro Continentes e deram óptima prova de fidelidade a Cristo e à Igreja, alguns no serviço directo da Sé Apostólica, outros em guiar importantes Dioceses. Agradeço, em particular, ao Cardeal Jorge Arturo Medina Estévez as expressões, com que se fez intérprete dos comuns sentimentos nesta circunstância tão significativa.

É-me grato, neste momento, dirigir um pensamento orante ao saudoso D. Giuseppe Uhaè, que o Deus de toda a graça – como escreve o apóstolo Pedro – chamou a Si pouco antes da nomeação, para lhe oferecer outra coroa: a da glória eterna em Cristo (cf. 1 Pd 5, 10). Desejo, ao mesmo tempo, comunicar que reservei in pectore a nomeação a Cardeal a outros dois Prelados.

3. A celebração hodierna realiza-se durante o ano do Espírito Santo, em preparação para o Grande Jubileu do Ano 2000, segundo o itinerário traçado na Carta Apostólica Tertio millennio adveniente , que recolheu e elaborou as propostas de um memorável Consistório Extraordinário, que se realizou em Junho de 1994.

Que melhor contexto eclesial e espiritual, para invocar sobre os novos Cardeais os dons do Espírito Santo, «spiritus sapientiae et intellectus, spiritus consilii et fortitudinis, spiritus scientiae et pietatis et... spiritus timoris Domini» (Is 11, 2-3 Vulg.)? Quem mais do que eles tem necessidade do abundante conforto destes dons, para exercer a missão recebida do Senhor? Quem mais do que eles está consciente do facto que «o Espírito é... o agente principal da nova evangelização» e que «a unidade do Corpo de Cristo está fundada sobre a acção do Espírito, é garantida pelo ministério apostólico e é sustentada pelo mútuo amor» (Tertio millennio adveniente , 45 e 47)?

Venerados Irmãos, possa o Espírito Paráclito habitar plenamente em cada um de vós, cumular-vos com a consolação divina e tornar-vos assim consoladores de quantos se encontram na aflição, de modo particular dos membros mais provados da Igreja, das comunidades que maiormente sofrem tribulações por causa do Evangelho. Possais dizer-lhes com o apóstolo Paulo: «Sive autem tribulamur, pro vestra exhortatione et salute; sive exhortamur, pro vestra exhortatione, quae operatur in tolerantia earumdem passionum quas et nos patimur» (2 Cor 1, 6).

4. Venerados Irmãos, vós sois criados Cardeais enquanto nos encaminhamos, já a largos passos, rumo ao terceiro milénio da era cristã. Já vislumbramos no horizonte a Porta Santa do Grande Jubileu do Ano 2000 e isto dá à vossa missão um valor e um significado de enorme relevo. Com efeito, sois chamados, juntamente com os outros Membros do Colégio cardinalício, a ajudar o Papa a conduzir a barca de Pedro para esta meta histórica. Conto com o vosso apoio e o vosso esclarecido e experimentado conselho, para guiar a Igreja na última fase da preparação para o Ano Santo. Ao dirigir, juntamente convosco, o olhar para além do limiar do Ano 2000, peço ao Senhor a abundância dos dons do Espírito divino para a Igreja inteira, a fim de que a «primavera» do Concílio Vaticano II possa encontrar no novo milénio o seu «verão», isto é, o seu amadurecido desenvolvimento.

A missão, a que Deus vos chama neste dia, exige um atento e constante discernimento. Eis por que vos exorto a ser sempre mais homens de Deus, ouvintes que penetram a sua Palavra, capazes de reflectir a sua luz no meio do Povo cristão e entre os homens de boa vontade. Só sustentada pela luz do Evangelho a Igreja pode enfrentar, com esperança segura, os desafios do presente e do futuro.

5. Dirijo agora cordiais boas-vindas aos familiares dos novos Cardeais, assim como às Delegações provenientes das várias Igrejas e às Representações governativas e civis, que quiseram participar neste solene momento eclesial. Caríssimos Irmãos e Irmãs, ilustres Senhores e Senhoras, agradeço-vos a vossa presença, expressão do afecto e da estima que vos ligam aos Arcebispos e Bispos por mim associados ao Colégio cardinalício. Assim como neles, também em vós vejo uma imagem da universalidade da Igreja e, além disso, um sinal eloquente do vínculo de comunhão de leigos e pessoas consagradas com os seus Pastores, assim como de presbíteros e diáconos com os seus Bispos. Doravante, os novos Cardeais terão ainda mais necessidade do vosso apoio espiritual: acompanhai-os sempre com a oração, como já o fazeis.

6. Amanhã terei a alegria de celebrar com particular solenidade a festa da Cátedra de Pedro, juntamente com os novos Cardeais, aos quais entregarei o anel. Quereria invocar, neste momento, a celeste intercessão do Príncipe dos Apóstolos: ele, que sentiu toda a sua própria indignidade diante da glória do seu Senhor, conceda a cada um de vós a humildade do coração, indispensável para acolher cada dia, como um dom, o alto encargo que vos foi confiado. Pedro, que ao seguir Cristo se tornou pescador de homens, vos obtenha o reconhecimento quotidiano pela chamada a serdes partícipes de modo singular no ministério do seu Sucessor. Ele, que nesta cidade de Roma selou com o sangue o seu testemunho de Cristo, vos alcance a graça de dar a vida pelo Evangelho e de fecundar assim a messe do Reino de Deus.

A Maria, Rainha dos Apóstolos, confio as vossas pessoas e o vosso serviço eclesial: a sua presença espiritual hoje, neste nosso cenáculo, seja para vós penhor da constante efusão do Espírito, graças ao qual podereis proclamar a todos, nas várias línguas do mundo, que Jesus Cristo é o Senhor, para glória de Deus Pai.

Amém!

DISCURSO DO SANTO PADRE AOS PARTICIPANTES NA CONFERÊNCIA INTERNACIONAL SOBRE A SAÚDE DA MULHER



20 de Fevereiro de 1998

Ilustres Senhores Gentis Senhoras

1. Desejo exprimir o meu agradecimento à Universidade Católica do Sagrado Coração, aqui representada pelo Reitor Magnífico, Prof. Adriano Bausola, ao Director do Instituto de Bioética da mesma Universidade, D. Elio Sgreccia, e ao Director do Center of Medical Ethics da Georgetown University, por terem querido organizar esta Conferência Internacional sobre um tema de tão viva actualidade para a sociedade e para a Igreja: a saúde da mulher.

Reflectir sobre este argumento é, de facto, um dever e uma dívida de reconhecimento não só para com a dignidade de cada mulher, a quem devem ser reconhecidos o direito aos cuidados e o acesso aos meios que podem promover a saúde, mas também em relação ao papel particular que a mulher é chamada a desempenhar na família e na sociedade.

Sob este aspecto não podemos deixar de recordar, antes de tudo, o grande número de mulheres – crianças, adolescentes, esposas, mães de família, idosas – que se encontram em condições de miséria, de extrema penúria de apoios sanitários e se sentem sobrecarregadas pelas fadigas inerentes ao sustento da família em vastas zonas do mundo, às vezes com a agravação das calamidades e das guerras.

2. Na Mensagem à Secretária-Geral da IV Conferência Mundial sobre a Mulher, que se realizou em Pequim, fiz referência à «terrível exploração das mulheres e das jovens, existente em todas as partes do mundo». Depois, acrescentei: «A opinião pública começa apenas a tomar consciência das condições desumanas em que as mulheres e as crianças são, com frequência, forçadas a trabalhar, especialmente nas áreas menos desenvolvidas do planeta» (26 de Maio de 1995; ed. port. de L'Osserv. Rom. de 10/6/1995, n. 7, pág. 6).

É essencial para toda a sociedade que esses direitos sejam garantidos e as sociedades, que gozam do pleno desenvolvimento económico e por vezes de uma taxa de bens supérfluos, dediquem a sua atenção e a sua ajuda a esta humanidade. Isto não poderá ser feito sem um adequado e correspondente reconhecimento do papel da mulher, da sua dignidade e da importância de uma sua contribuição específica ao progresso da sociedade em que vive: «Quando as mulheres têm a possibilidade de transmitir plenamente os seus dons a toda a comunidade, fica positivamente transformada a própria modalidade como a sociedade é concebida e se organiza» (Mensagem para o Dia Mundial da Paz de 1995 , n. 9).

3. Em particular, considero significativo o facto de que na vossa Conferência Internacional quisestes examinar todas as dimensões da saúde da mulher: a prevenção e a cura das doenças, o respeito pela sua integridade e pelas suas capacidades procriativas, os aspectos psicológicos e espirituais nas diversas situações em que se pode encontrar. Está-se a difundir, com efeito, uma concepção da saúde que, paradoxalmente, exalta e ao mesmo tempo empobrece o seu significado, e isto em particular em relação à mulher.

Com efeito, a saúde foi definida como tensão para o «pleno bem-estar físico, psicológico e social e não só como ausência de doença». Quando, porém, o bem-estar é concebido em sentido hedonista, sem referência aos valores morais, espirituais e religiosos, esta aspiração, em si só nobre, pode dissipar-se num horizonte restrito que lhe mortifica o impulso, com consequências negativas para a própria saúde. Interpretada neste sentido redutivo, a busca da saúde como bem-estar levou a considerar, também em documentos políticos importantes, a própria maternidade como um peso e uma doença, criando os pressupostos, em nome da saúde e da qualidade de vida, para a justificação da contracepção, da esterilização, do aborto e da própria eutanásia. É necessário ratificar esta deformação porque «nunca existirá justiça, nem igualdade, desenvolvimento e paz, quer para as mulheres quer para os homens, se não houver uma infalível determinação em respeitar, proteger, amar e servir a vida – cada viva humana em todas as etapas e em cada situação» (Mensagem à Secretária-Geral da IV Conferência Mundial da ONU sobre a Mulher, n. 7; cf. Encíclica Evangelium vitae , 87).

4. Favorecer um autêntico e global equilíbrio sanitário da mulher significa ajudá-la a inserir o bem-estar físico, psicológico e social numa relação de harmonia com os valores morais e espirituais. Nesta óptica de realização da pessoa e da especificidade feminina, em que se actua o carácter da oblação esponsal e materna, na família ou na vida consagrada, e se exprime o sentido da solidariedade social, a saúde representa, simultaneamente, uma condição fundamental e uma dimensão da pessoa.

Por este motivo o conceito de saúde deve estar fundado sobre uma visão antropológica completa, que considere o respeito pela vida e pela dignidade das pessoas, e de cada pessoa em particular, como um valor irrenunciável. A busca da saúde não pode, portanto, transcurar o valor ontológico da pessoa e a sua dignidade pessoal: mesmo lá onde a saúde física ou mental é deficiente, a pessoa conserva de facto a sua plena dignidade.

5. Na promoção da saúde da mulher a dimensão procriativa tem um papel especial, do ponto de vista da realização quer da personalidade feminina quer da eventual tarefa materna. Promover a saúde procriativa da mulher implicará, portanto, a prevenção primária das doenças que podem comprometer a fertilidade, o empenho terapêutico, consultivo e assistencial em vista de preservar o organismo feminino na sua integridade ou de restabelecer a sua funcionalidade; jamais poderá, ao contrário, significar uma ofensa à dignidade da pessoa da mulher ou da vida da criança concebida.

Nesta perspectiva, será sempre de grande relevo o empenho moral da própria mulher, a qual deverá assumir e respeitar nos comportamentos quotidianos os valores da sua corporeidade, procurando assegurar-lhe a conformidade com as exigências da saúde. Esta promoção da saúde integral da mulher não poderá deixar de empenhar também a sociedade, e isto só acontecerá com a contribuição das mesmas mulheres: «A Igreja reconhece – escrevi à Secretária-Geral da IV Conferência Mundial da ONU sobre a Mulher – que o contributo da mulher para o bem-estar e o progresso da sociedade é incalculável, e espera que elas possam realizar ainda mais a fim de salvar a sociedade do vírus mortal da degradação e da violência, que hoje está a registrar uma dramática propagação» (n. 5).

6. É todo o horizonte da cultura e da sociedade, e em primeiro lugar da assistência sanitária, que deve ser considerado à medida da dignidade da mulher, em co-responsabilidade com o homem e para o bem das famílias e da própria comunidade humana. Desejo repetir aqui o agradecimento que em 1995 dirigi às mulheres, na Carta destinada especificamente a elas, por ocasião do Ano Internacional da Mulher: o obrigado às mães, esposas, filhas, irmãs, trabalhadoras e consagradas. Hoje, quereria acrescentar um agradecimento às mulheres que exercem a medicina: elas participam em número cada vez maior na promoção da saúde do próximo, tornando-se guardiãs da vida a título especial. Faço votos por que todos os homens, a sociedade em geral e as autoridades políticas ofereçam o seu contributo em vista da obtenção do bem da saúde para cada mulher e cada homem, como garantia de uma civilização que esteja à altura da dignidade da pessoa humana. Com estes votos, concedo a todos a minha Bênção.

DISCURSO DO PAPA JOÃO PAULO II À COMISSÃO CONJUNTA DO CONSELHO DAS CONFERÊNCIAS EPISCOPAIS E DAS IGREJAS DA EUROPA

20 de Fevereiro de 1998

Senhor Cardeal Queridos Irmãos em Cristo!

1. Sinto-me feliz em vos receber por ocasião da reunião em Roma do Comité conjunto do Conselho das Conferências Episcopais da Europa (CCEE) e da Conferência das Igrejas da Europa (KEK). Alegro-me com este encontro fraterno e com as numerosas manifestações de reflexão, de oração e de fraternidade ecuménicas que se realizam regularmente em diferentes países do continente europeu. Na perspectiva do grande Jubileu, para o qual conto com a participação activa de todos os cristãos, a atenção dedicada por todas as Igrejas da Europa à causa do ecumenismo é um sinal encorajador no caminho da unidade dos cristãos.

2. O Concílio Vaticano II deu um renovado estímulo ao movimento ecuménico, ao ressaltar a importância do diálogo entre irmãos, sob a guia do Espírito Santo; é de igual modo necessário que os cristãos manifestem a sua caridade comum e o seu desejo de conversão, a fim de superar as suas infidelidades, fonte e causa de divisão, «em vista de viver de modo mais puro segundo o Evangelho» (Conc. Ecum. Vat. II, Unitatis redintegratio, 3). «O empenho ecuménico deve fundar-se na conversão dos corações e na oração, ambas induzindo depois à necessária purificação da memória histórica» (Ut unum sint , 2). Para remover os obstáculos e os ressentimentos que ainda possam existir, é preciso empenhar-se cada vez mais num ecumenismo da vida e da oração, e seria bom realizar projectos comuns, respeitando as próprias actividades promovidas pelas diversas Confissões cristãs. Graças a uma vida espiritual continuamente afirmada, as pessoas e as comunidades cristãs deixar-se-ão conduzir pelo Espírito, que as levará à verdade completa e as tornará audaciosas nos seus esforços. Hoje mais do que nunca Cristo nos solicita e «a aproximação do fim do segundo milénio incita todos a um exame de consciência e a oportunas iniciativas ecuménicas» (Tertio millennio adveniente , 34).

3. É consolador que as questões ecuménicas já façam parte integrante dos programas de estudos teológicos nos seminários, nos institutos eclesiásticos de ensino e na formação permanente. Deste modo, todos os que recebem uma formação cristã na sua Igreja estarão atentos ao que pode favorecer a unidade dos cristãos e terão a preocupação de participar nela de modo activo. Ajudarão os seus irmãos a adquirir um melhor conhecimento das outras Igrejas cristãs, o que é indispensável para caminhar na via da fraternidade e da unidade. Alegro-me também pelo facto de serem prosseguidos e intensificados intercâmbios de professores e de estudantes entre os diferentes lugares de formação e entre as confissões cristãs.

4. Nos vossos encontros e nas reuniões de Bâle e de Graz, manifestastes a vossa preocupação pela aproximação entre o Leste e o Oeste do continente europeu, que durante muito tempo esteve dividido, e ao longo deste século foi ferido. Chamados a superar os seus receios, as comunidades cristãs de diversas confissões estão doravante convidadas a empenharem-se com coragem no caminho rumo à plena unidade, a fazer dom das suas riquezas espirituais e a partilhá-las num intercâmbio confiante. Deste modo, os cristãos abrirão os tesouros da vida espiritual aos homens do nosso tempo que poderão encontrar mais profundamente o Senhor; eles contribuirão também para a união na unidade de todos os filhos de Deus dispersos, segundo a vontade do próprio Cristo (cf. Jo 17, 11-23). Esta partilha levará, sem dúvida alguma, a um respeito cada vez maior das sensibilidades particulares e do andamento pastoral de cada confissão cristã, enraizadas numa história e em tradições específicas.

5. O programa do vosso encontro comporta o estudo de projectos inovadores, a fim de dar mais ímpeto ao ecumenismo, interrogando-vos sobre o método, os critérios e o conteúdo das novas colaborações a serem empreendidas, à luz das experiências passadas. Graças ao diálogo entre os responsáveis das Igrejas, possa a Europa ser o crisol duma pesquisa cada vez mais intensa de unidade entre os cristãos do continente e, mais amplamente, entre todos os que se encontram espalhados pelo mundo, no respeito da verdade! Juntos, os discípulos de Cristo são convidados a anunciar de modo explícito o Evangelho nas culturas actuais; eles também devem ter a preocupação de oferecer o seu contributo à sociedade, a nível político, económico e social, tornando-se fermento da edificação do continente, no respeito da criação e da autonomia legítima da disposição das realidades terrestres.

A Europa enfrenta actualmente o problema do acolhimento e da integração de populações e comunidades portadoras de outras tradições religiosas, sobretudo do Islã e das religiões asiáticas; as Igrejas cristãs devem manifestar um espírito de abertura confiante e empenhar-se ainda mais no caminho do «diálogo da vida», para o qual já tive a ocasião de convidar os fiéis católicos e os nossos irmãos muçulmanos; este diálogo abre a via do serviço comum dos homens em numerosos âmbitos (cf. Conc. Ecum. Vat. II Unitatis redintegratio, 12). A fim de enfrentar este desafio, trabalhais conjuntamente e favoreceis as colaborações entre os fiéis, para responder aos problemas sociais com os quais os homens de hoje se enfrentam; não se pode esquecer os conflitos que martirizam as populações do nosso continente, as dificuldades económicas que tornam as famílias frágeis, bem como os atentados à dignidade e aos direitos das pessoas e dos povos, em particular os que ferem as mulheres e as crianças.

«Pai santo, guarda-os em Teu nome, o nome que Me deste, para que eles sejam um... como Tu, ó Pai, estás em Mim e Eu em Ti. E para que também eles estejam em Nós, a fim de que o mundo acredite que Tu Me enviaste» (Jo 17, 11.21). Fazemos nossa hoje esta oração do Senhor. Ela recorda-nos que o testemunho da unidade é um elemento essencial duma evangelização autêntica e profunda. Mediante a sua unidade na mesma Igreja, os discípulos de Cristo fizeram descobrir aos seus irmãos o mistério da Santíssima Trindade, comunhão perfeita de Amor. E nós não nos devemos tranquilizar enquanto não conseguirmos, na docilidade ao Espírito Santo, corresponder a esta oração de Cristo: «Para que eles sejam um!». No final do nosso encontro, invoco sobre vós a assistência do Espírito Santo, cujos frutos são «alegria, paz, paciência, bondade, benevolência, fé, mansidão e domínio de si» (Gl 5, 22), e que renova todas as coisas; apresento-vos os meus melhores votos para os vossos trabalhos e invoco sobre vós as Bênçãos divinas, bem como sobre os vossos colaboradores e sobre quantos estão confiados à vossa solicitude pastoral.

DISCURSO DO SANTO PADRE AOS BISPOS DA ESPANHA EM VISITA "AD LIMINA APOSTOLORUM"

19 de Fevereiro de 1998

Queridos Irmãos no Episcopado!

1. Com alegria vos recebo, Pastores da Igreja de Deus na Espanha, que formais o terceiro grupo que vem a Roma, a Cidade que conserva a memória dos Santos Apóstolos Pedro e Paulo, para realizardes a visita «ad Limina». Dirijo a minha cordial saudação ao Senhor Cardeal Arcebispo de Barcelona, com os seus Bispos Auxiliares; ao Arcebispo de Oviedo, com o seu Bispo Auxiliar e os Bispos de Leão, Astorga e Santander; ao Arcebispo de Tarragona, com os Bispos de Urgell, Lérida, Vic, Solsona e Tortosa, recordando de modo especial o Bispo de Girona, ausente por causa da sua recente intervenção cirúrgica. Através de vós a minha saudação quer chegar aos sacerdotes, diáconos, religiosos, religiosas e fiéis das vossas Igrejas particulares, renovando-lhes o afecto e a estima que lhes devo como Pastor da Igreja universal (cf. Lumen gentium, 22).

Agradeço as amáveis palavras que o Senhor Cardeal Ricardo Maria Carles Gordó me dirigiu em nome de todos, para me fazer presentes as vossas esperanças e inquietudes, assim como a caridade pastoral que vos anima no ministério de guiar o povo de Deus, à frente do qual fostes colocados como guias (cf. Christus Dominus, 4). Estou-vos reconhecido por isto e asseguro-vos a minha constante oração ao Senhor para que, no meio das provas a que, por vezes, se vê submetida a vossa missão, nunca vos faltem a fortaleza (cf. Act 4, 33) e as consolações do Espírito Santo.

2. Na Catalunha e nas Astúrias, em Leão e Cantábria, regiões de profundas raízes cristãs, produziram-se, como noutras regiões espanholas, e continuam a efectuar-se transformações importantes na população e na actividade económica. Com efeito, a passagem acelerada de uma sociedade rural a outra majoritariamente industrial e de serviços, nestes últimos decénios deu origem a uma maior mobilidade das pessoas, cujos centros de interesse e de cultura evolucionam, modificando os modos de viver e transformando de •maneira muito notável a fisionomia da própria sociedade.

Nos relatórios quinquenais reflectis sobre esta situação, ante a qual vos sentis impelidos a renovar a acção pastoral, determinando as novas condições em que se pode anunciar a Boa Nova e guiar e congregar o povo de Deus, mediante a presença sacramental de Cristo. A este respeito, desejo encorajar-vos para que a Igreja de Deus presente nessas nobres terras continue a ser um lugar de amor e de acolhimento, onde todos os fiéis se sintam irmãos entre si e ninguém seja excluído, sem distinção de origens nem de culturas, de modo que possam ser fermento de unidade, «sal da terra e luz do mundo» (Mt 5, 13).

3. Ao acolherdes o meu apelo a preparar de modo adequado o Grande Jubileu do Ano 2000, vós, Bispos da Espanha, sois chamados a levar a cabo o Plano de acção pastoral para o quadriénio 1997-2000, que tem por título «Proclamar o ano de graça do Senhor». No mesmo, como eco da minha Carta Apostólica «Tertio millennio adveniente », recordais que o «objectivo prioritário do Jubileu é o fortalecimento da fé e do testemunho dos cristãos» (n. 42). Com efeito, a fé, dom de Deus e resposta livre da pessoa, e o seu testemunho fundem-se num só objectivo geral da acção pastoral neste tempo. A respeito disso, é-me grato recordar que, como assinalastes, «para que não se verifique uma separação entre fé e vida, ou ambas caminhem em paralelo sem se encontrar, é necessário estimular e incentivar os nossos fiéis à coerência entre a sua fé e a sua existência cristã, vivida em cada situação pessoal, nas circunstâncias concretas da sociedade actual, na qual emergem novas questões nos diversos sectores, muitos deles também novos» (Plano de acção pastoral, 107).

4. Um desses sectores, tão questionado nos nossos tempos, mas tão importante para o presente e o futuro da sociedade, é o da família. Conheço o vosso empenho em defender e promover esta instituição, que tem a sua origem em Deus e no Seu plano de salvação (cf. Familiaris consortio , 49). Hoje, assistimos a uma corrente muito difundida nalgumas partes, que tende a debilitar a sua verdadeira natureza. Com efeito, não faltam intentos, na opinião pública e inclusive na legislação civil, de equiparar a família a meras uniões, carentes de forma jurídica constitucional, ou pretende-se reconhecer como família a união entre pessoas do mesmo sexo. A crise do matrimónio e da família impelenos a proclamar, com firmeza pastoral, como um autêntico serviço à família e à sociedade, a verdade sobre o matrimónio e a família, tal como Deus os estabeleceu. Deixar de o fazer seria uma grave omissão pastoral, que induziria ao erro os crentes, assim como aqueles que têm a importante responsabilidade de tomar as decisões sobre o bem comum da Nação. Esta verdade é válida não só para os católicos, mas de igual modo para todos os homens e mulheres sem distinção, pois o matrimónio e a família constituem um bem insubstituível da sociedade, a qual não pode permanecer indiferente diante da degradação ou da perda do mesmo.

Não se pode esquecer, além disso, que a família deve dar testemunho dos seus próprios valores diante de si mesma e da sociedade. «As tarefas, que a família é chamada por Deus a desenvolver na história, brotam do seu próprio ser e representam o seu desenvolvimento dinâmico e existencial. Cada família descobre e encontra em si mesma o apelo inextinguível, que ao mesmo tempo define a sua dignidade e a sua responsabilidade: família, "torna-te aquilo que és"!» (ibid., 17). A este respeito, os Pastores e os esposos comprometidos na Igreja devem esmerar-se em aprofundar a teologia do matrimónio, ajudar os jovens esposos e as famílias em dificuldade a reconhecerem melhor o valor do seu compromisso sacramental e a acolherem a graça da aliança. Os leigos casados devem ser, de igual modo, os primeiros a testemunhar a grandeza da vida conjugal e familiar, fundada no compromisso e na fidelidade. Graças ao sacramento, o seu amor humano adquire um valor infinito, porque os cônjuges manifestam, de maneira particular, o amor de Cristo à sua Igreja e assumem uma responsabilidade importante no mundo: gerar filhos chamados a converter-se em filhos de Deus, e ajudá-los no seu crescimento humano e sobrenatural.

Queridos Irmãos: acompanhai as famílias cristãs, incentivai a pastoral familiar nas vossas dioceses e promovei os movimentos e associações de espiritualidade matrimonial; despertai o seu zelo apostólico para que assumam a tarefa da nova evangelização, abram as portas àqueles que não têm lar ou vivem em situações difíceis, e dêem testemunho da grande dignidade de um amor generoso e incondicional.

5. Para a defesa e a promoção da instituição familiar é importante a adequada preparação daqueles que se dispõem a contrair o sacramento do matrimónio (cf. cânn. 1063-1064 do C.I.C.). Deste modo promove-se a formação de autênticas famílias que vivem segundo o plano de Deus. Para isto, não só se devem apresentar aos futuros esposos os aspectos antropológicos do amor humano, mas também as bases para uma autêntica espiritualidade conjugal, entendendo o matrimónio como uma vocação que permite ao baptizado encarnar a fé, a esperança e a caridade dentro da sua nova situação social e religiosa.

Completando esta preparação específica, pode-se aproveitar também como uma ocasião de reevangelização para os baptizados, que se aproximam da Igreja para pedir o sacramento do matrimónio. Com efeito, como ressaltastes, «depois de terem participado nas catequeses ou nos catecumenatos de Confirmação, muitos adolescentes e jovens abandonam a formação cristã, a qual deverá ser permanente» (Plano de acção pastoral, 127). Ainda que hoje, graças à generalização do ensino, os jovens tenham adquirido uma cultura superior à dos seus pais, em muitos casos este nível não se verifica na vida cristã, pois constata-se às vezes não só uma ignorância religiosa, mas também um certo vazio moral e religioso nas jovens gerações.

Neste sector têm um papel importante a desempenhar as comunidades eclesiais que, se experimentaram e podem testemunhar o amor de Deus, poderão manifestá-lo com eficácia e em profundidade àqueles que precisam de o conhecer.

6. Quero referir-me também à urgência de fomentar a catequese a todos os níveis, já que para fortalecer a fé e o seu testemunho se deve intensificar a evangelização, anunciando com ardor Jesus Cristo como o único Salvador do mundo, na realidade íntegra do Seu mistério, manifestada com a Sua vida e a Sua palavra, e confessada pela Igreja. A catequese apresenta a pessoa de Jesus aos homens e às mulheres do nosso tempo para que O sigam, fortalecendo assim a vida no Espírito, que favorece a plena realização humana.

Animo-vos, portanto, a não poupar esforços a fim de que nas vossas dioceses a actividade catequética, aspecto essencial da missão evangelizadora que o Senhor nos confiou, seja levada a cabo contando com agentes rectamente formados e com meios adequados, para oferecer aos fiéis um conhecimento mais vivo do mistério de Cristo. Por isso, aprecio e admiro o trabalho que com generosidade desempenham tantos catequistas nas paróquias e demais centros pastorais, dedicando o seu tempo e as suas energias a uma actividade tão essencial para a Igreja. A ignorância religiosa ou a deficiente assimilação vital da fé deixariam os baptizados inermes perante os perigos reais do secularismo, do relativismo moral ou da indiferença religiosa, com o consequente risco de perder a profunda religiosidade do vosso povo, que tem magníficas expressões nas valiosas e sugestivas manifestações cristãs da piedade popular. Encorajo-vos, pois, em vista do Grande Jubileu, a promover uma nova etapa da catequese, que ajude o homem contemporâneo a estar consciente do mistério de Deus e do seu próprio mistério, e que favoreça uma oração de louvor e de acção de graças pelo dom da Encarnação de Jesus Cristo e da Sua obra redentora (cf. Tertio millennio adveniente , 32).

7. Para a Igreja é uma exigência permanente estar presente na educação das crianças e dos jovens, dando uma resposta pastoral às prioridades educativas. Ela fá-lo pela sua opção em favor do homem e pelo seu desejo de colaborar com as famílias e a sociedade no âmbito escolar, propugnando uma formação integral e defendendo o direito dos pais a proporcionarem aos seus filhos uma educação religiosa e moral, que corresponda às suas próprias convicções. Nesta tarefa a Igreja está presente por meio dos educadores católicos, que trabalham inspirados pela sua fé, assim como atra- vés das próprias instituições de ensino, o qual é um serviço à sociedade que deve ser reconhecido e fomentado. Numa formação que deseja ser integral não se pode descuidar o aspecto religioso, mas deve-se educar os jovens de forma que contemplem todas as capaci- dades do ser humano. Neste sentido, respeitando outros possíveis modos de pensar, a Igreja tem o direito de ensinar os valores que derivam do Evangelho e as normas morais próprias do cristianismo.

Contudo, como assinalastes, «o ensino da religião e da moral católicas ou da ética, dentro do âmbito dos cursos elementares e, de modo especial, nos médios ou secundários, tem-se visto marginalizado durante anos pelos poderes públicos» (Plano de acção pastoral, 51). Tendo em conta a principal dimensão de serviço, que deve procurar também um contínuo melhoramento da qualidade do ensino e uma cuidadosa escolha e qualificação dos professores que o ministram, animo-vos a prosseguir no esforço por encontrar quanto antes, juntamente com a competente Administração civil, a solução aos problemas pendentes a respeito do estatuto jurídico da área de Religião e do seu professorado.

8. Queridos Irmãos: quis apresentar-vos estas reflexões e fazer-vos partícipes de alguns anelos que, sem dúvida, vos servirão de ajuda no vosso trabalho pastoral. Ao concluir este encontro, quereria expressar-vos de novo a minha alegria por ter compartilhado as preocupações e as esperanças do vosso ministério episcopal, e ter constatado o esforço por revigorar a vitalidade da Igreja nas vossas dioceses. Espero que esta visita ao Sucessor de Pedro, a oração diante dos túmulos dos Apóstolos, assim como os encontros com os Dicastérios da Cúria Romana, sejam para vós uma fonte de dinamismo e de confiança no futuro, em comunhão com a Igreja universal. Exorto-vos a continuar a preparar o Grande Jubileu do Ano 2000 e por meio de vós convido os católicos de toda a Espanha a irem ao encontro dos próprios irmãos, para lhes anunciar esta Boa Nova.

Que a Virgem Maria, tão venerada nas vossas terras, e em cujos santuários de Covadonga e Monserrate tive ocasião de me prostrar, pedindo a sua maternal protecção sobre essa porção importante do Povo de Deus que peregrina naque- las terras, vos ajude na missão episcopal. Com estes sentimentos, é-me grato conceder de coração a Bênção Apostólica a cada um de vós e a todos os sacerdotes, religiosos, religiosas e fiéis das vossas dioceses.

DISCURSO DO SANTO PADRE AOS PARTICIPANTES NA PLENÁRIA DO PONTIFÍCIO CONSELHO PARA A PROMOÇÃO DA UNIDADE DOS CRISTÃOS

Quinta-feira, 19 de Fevereiro de 1998

Senhor Cardeal Estimadíssimos Irmãos no Episcopado e no Sacerdócio

1. Várias vezes expressei a esperança de que na vigília do terceiro milénio os cristãos se encontrem, se não unidos, pelo menos mais perto de resolver as suas dificuldades (cf. Tertio millennio adveniente , 34). A sessão plenária do vosso Pontifício Conselho para a Promoção da Unidade dos Cristãos, passando em revista as actividades deste último biénio, quis colocar a sua reflexão nesta perspectiva.

Na minha Carta Encíclica Ut unum sint , quis salientar a importância de um dos frutos do movimento ecuménico: a fraternidade reencontrada entre os cristãos. Eu mesmo a experimento de maneira contínua aquando das minhas viagens apostólicas pelo mundo fora. Independentemente das suas diferenças e do fundamento daquilo que os divide, os cristãos adquiriram uma renovada consciência de serem irmãos entre si mesmos. Pergunto-vos: não consiste porventura nisto o restabelecimento de um comportamento cristão fundamental? E ao fazê-lo, não se põe acaso em prática a exigência primordial do mandamento que Jesus quis qualificar como «seu» (cf. Jo 15, 12)?

O facto de estarmos conscientes de que somos irmãos comporta a exigência de nos julgarmos como irmãos, inclusivamente nos nossos desacordos; impelenos a tratar-nos como irmãos nas diversificadas circunstâncias que a nossa existência pessoal e comunitária nos leva a viver. Neste campo são necessários progressos contínuos. Não podemos contentar-nos com etapas intermediárias, talvez necessárias, mas sempre insuficientes no itinerário espiritual e eclesial que nos compromete. A meta para a qual o Senhor Jesus nos chama e nos orienta, e na qual nos espera, é a plena unidade com aqueles que, tendo recebido o mesmo Baptismo, entraram a fazer parte do único Corpo místico.

2. Nesta atmosfera de reencontrada fraternidade, a vossa reflexão sobre as actuais relações entre as Igrejas e as Comunhões cristãs adquire o seu pleno significado, assim como o fazem os vários diálogos teológicos. O diálogo da caridade está na origem dos mesmos e deve continuar a acompanhá-los e a alimentá-los. É necessário aprofundar o diálogo da caridade para superar as dificuldades que se verificaram no passado, que ainda hoje existem e que continuaremos a encontrar. Também neste contexto, neste caminho intelectual, é necessário avançar gradualmente.

Os progressos realizados enchem-nos de júbilo; estes são tais a ponto de fazerem crescer em autenticidade a reencontrada fraternidade. Todavia, trata-se apenas de etapas, e não podemos contentar-nos com a sua superação. Os nossos passos devem avançar mais profundamente ao longo do caminho. Devemos ajudar-nos uns aos outros. É preciso ter a coragem de continuar a busca da verdade, na fidelidade Àquele que é a Verdade. O objectivo é a plena comunhão que Ele deseja ver reinar entre nós. Há dois mil anos, Ele pediu-nos que sejamos unânimes no testemunho do seu Advento. Neste tempo em que exortamos o mundo a fim de que reconheça de maneira íntegra que Cristo é «a verdadeira luz que ilumina todos os homens» (Jo 1, 9), devemos infundir um novo vigor à nossa acção, para realizarmos plenamente a vontade de unidade do nosso único Mestre e Senhor. Os progressos no diálogo da caridade e da conversão, bem como o avanço dos diálogos doutrinais, enchem-nos o coração de acção de graças e de esperança. Acção de graças por tudo aquilo que nos foi dado e ainda nos é concedido. Esperança n'Aquele que é o único a completar aquilo que somente Ele podia e pode realizar no meio de nós.

3. Assim, durante a vossa sessão plenária passastes em revista a actividade desempenhada nos últimos dois anos. Pudestes observar o que deverá ser corrigido e quanto poderia ser intensificado. Também vos orientastes para o porvir. Nesta perspectiva futura, adquire uma importância deveras especial a formação ecuménica de quem nos próximos anos se dedicará a um ministério pastoral.

A assimilação da doutrina do Concílio Vaticano II sobre a Igreja e o Ecumenismo constitui a condição que permite aos resultados intermediários dos diálogos serem difundidos de maneira sadia. Como pus em evidência, estes «não podem permanecer como simples afirmações das Comissões bilaterais, mas devem tornar-se património comum» (Ut unum sint , 80). Os responsáveis pela obra pastoral devem adquirir uma visão global da acção ecuménica, dos seus princípios e das suas exigências. Ela será o instrumento e o contexto que lhes permitirá determinar, compreender, receber e examinar com rigor aquilo que se realizou. Assim, poderão informar os fiéis, empenhando-os numa atitude de acção de graças e de esperança, e saberão evitar as simplificações e a pressa intempestiva. Ajudá-los-ão a adaptar-se aos ritmos que o Espírito Santo imprime no movimento que Ele suscita na Igreja. Encorajá-los-ão a aprofundar a sua conversão ecuménica e a crescer na fraternidade reencontrada. Exortá-los-ão a intensificar a própria oração, para que chegue imediatamente o tempo da plena comunhão.

4. Ao agradecer-vos o vosso trabalho realizado durante a reunião e o vosso serviço apaixonado da unidade, desejo recordar-vos as palavras de São Cipriano, que concluíam a minha Carta Encíclica sobre o empenho missionário: «"Deus não aceita o sacrifício do que vive em discórdia, e manda-o retirar-se do altar para ir primeiro reconciliar-se com seu irmão, porque só as orações de um coração pacífico poderão obter a reconciliação com Deus. O sacrifício mais agradável a Deus é a nossa paz e a concórdia fraterna, e um povo cuja união seja um reflexo da unidade que existe entre o Pai, o Filho e o Espírito Santo" (De Dominica oratione, n. 23: CSEL 3, pp. 284-285). No alvorecer do novo milénio, como não solicitar ao Senhor, com renovado ímpeto e consciência mais amadurecida, a graça de nos predispormos todos para este sacrifício da unidade?» (Ut unum sint , 102). Renovo esta súplica com profunda participação e rogo ao Senhor que sustente tudo quanto fazeis em vista de contribuir para o serviço da unidade, que o Bispo de Roma leva a cabo confiando na obra da misericórdia divina.

Com estes sentimentos, concedo a todos com afecto a minha Bênção.

DISCURSOS DO PAPA JOÃO PAULO II AOS PEREGRINOS DAS DIOCESES DE TORUN E DE DROHICZYN - POLÓNIA

19 de Fevereiro de 1998

1. Diocese de Toru•

Caros Irmãos e Irmãs Peregrinos da Diocese de Toru•!

1. Dou-vos as minhas boas-vindas e saúdo-vos cordialmente. Dirijo a minha saudação, antes de tudo, ao Bispo Ordinário, e agradeço-lhe as palavras que me dirigiu. Saúdo o Bispo Auxiliar, os representantes do clero, as pessoas consagradas e, de modo particular, as Irmãs Pastorinhas. Saúdo com afecto o Presidente do Senado da República Polaca, os representantes das Autoridades civis da província e da cidade de Toru•. O facto de vos ver proporcionou-me uma grande alegria, porque a terra de Toru•, e em especial a cidade de Toru• me são conhecidas e queridas. Sinto-me próximo da cidade, antes de tudo pela figura de um seu grande cidadão – Nicolau Copérnico, cujo 525° aniversário de nascimento ocorre precisamente hoje, 19 de Fevereiro. Ele está presente na consciência de todos os polacos, e de modo particular dos habitantes de Toru•, em virtude da Universidade a ele dedicada. Agradeço-vos também o dom que trouxestes pessoalmente ao Papa. A partir de hoje sinto-me ainda mais unido a essa cidade e a vós. Deus vos recompense!

O encontro deste dia recorda-me a minha última peregrinação na Pátria. A diocese de Toruñ esteve, de facto, de algum modo presente em Zakopane, ao pé do monte «Krokiew», onde se realizou a beatificação de Maria Karłowska, fundadora da Congregação das Irmãs Pastorinhas da Divina Providência. Juntamente com toda a vossa Diocese, dou graças a Deus por esta beatificação e pelo exemplo que a Beata deixou à nossa Pátria e à Igreja na Polónia. Com a sua vida e, de modo particular, com a sua actividade apostólica entre as mulheres, que experimentaram a miséria material e moral, demonstrou que o maior valor é o amor que nunca diz «basta», e jamais se detém no caminho. Este amor torna-se a fonte do serviço do próximo, especialmente do mais necessitado; dele nasce também o respeito pela dignidade humana.

2. A Igreja e o mundo encontram-se no limiar do Grande Jubileu do Ano 2000. Também a vossa diocese se prepara para este Jubileu. Nesta perspectiva adquire particular importância a exortação à nova evangelização, que não pode ser apenas uma acção voltada para o exterior, mas deve abranger antes de tudo a vida pessoal de cada crente. Não se pode evangelizar, se não se é pessoalmente objecto de evangelização. O ensinamento de Cristo é, com efeito, como um tesouro escondido na terra (cf. Mt 13, 44-45). Trata-se de saber manifestar os grandes e inestimáveis valores, que este tesouro esconde em si; trata-se de os amar e, depois, compartilhar com os outros o seu tesouro. Para chegar a isto é necessária a metanoia interior, que se opera no coração mediante a oração e a participação nos santos Sacramentos, especialmente no Sacramento da Reconciliação e da Eucaristia. Só um homem transformado, para o qual o único indicador do caminho e a única guia são a lei do amor de Cristo e a luz do Espírito Santo, pode operar uma verdadeira metanoia dos corações e das mentes de outros homens, do ambiente, da nação ou do mundo. Somente «um homem novo em Cristo» pode contribuir na obra da nova evangelização. A transformação assim entendida torna-se fonte do testemunho, esperado pelo mundo. Ele resume-se, antes de tudo, na obras de misericórdia, de autêntica solidariedade com o próximo, especialmente com os mais necessitados.

Soube que o dom da vossa Diocese, por ocasião da beatificação, é o Centro Cáritas de Toru•, intitulado à Beata Maria Karłowska. Ele é o fruto da cooperação da sociedade da vossa cidade e oferecerá ajuda aos necessitados. O Centro administra um refeitório para os pobres, cuida dos doentes e das crianças de famílias pobres, oferece uma casa aos desabrigados e às famílias atingidas por várias calamidades. Neste Centro, em conformidade com o seu carisma, trabalham as Irmãs Pastorinhas, cuja acção se estende também a outras instituições educativas e caritativas. Pode haver resposta mais justa ao dom desta beatificação? De facto, esta é uma contribuição concreta à obra de evangelização, segundo as palavras de Cristo: «É por isto que todos saberão que sois Meus discípulos: se vos amardes uns aos outros» (Jo 13, 35).

3. Que o exemplo da Beata Maria Kar³owska produza frutos, exorte e conforte especialmente aqueles que escolheram a via do serviço do próximo! Que ele se torne inspiração para o clero e os leigos, na realização das iniciativas pastorais e das actividades apostólicas!

Pedimos ao Espírito Santo que vos conceda a luz no caminho da vossa santificação e consolide as vossas forças, para o cumprimento dos vossos deveres pessoais, familiares, pastorais e sociais. É só pela graça do Espírito Santo que podemos empreender obras grandes e extraordinárias, enfrentar sacrifícios e renúncias para a glória de Deus e a vossa salvação.

Agradeço-vos as orações e peço-vos que transmitais a minha saudação aos vossos entes queridos que permaneceram na Pátria, e de modo especial aos idosos e doentes. Abençoo de coração todos os que estão aqui presentes e a inteira Comunidade da diocese de Toru•. A nova evangelização exige a participação dos leigos católicos

Diocese de Drohiczyn

Queridos Irmãos e Irmãs da Diocese de Drohiczyn!

1. Dirijo-vos as minhas cordiais boas-vindas ao Vaticano e, ao mesmo tempo, agradeço-vos esta visita. Saúdo de modo particular o Senhor Bispo, Pastor da diocese, e agradeço-lhe as palavras que me dirigiu no início deste encontro. Saúdo os representantes do clero, e também os Presidentes das Câmaras Municipais das Cidades que pertencem à Diocese de Drohiczyn, assim como os representantes dos fiéis dessa Igreja.

Várias vezes, em diversas ocasiões, me encontrei com os peregrinos da vossa diocese, mas este encontro tem um carácter especial. Com efeito, vindes a Roma como peregrinos para visitar os túmulos dos Apóstolos. Aqui na Cidade Eterna, os Santos Pedro e Paulo deram um magnífico testemunho de Cristo com o seu próprio martírio. O seu testemunho fortalece a nossa fé e torna-se um encorajamento no caminho rumo à santidade, na fidelidade aos mandamentos divinos.

2. Ao dirigir-se aos fiéis de Éfeso, São Paulo chama-lhes «concidadãos dos santos e membros da família de Deus, edificados sobre o alicerce dos Apóstolos e dos Profetas, com Cristo por pedra angular» (2, 19-20). Estas palavras referem- se também a todo o cristão, isto é, a cada um de nós, e enquanto as pronuncio agora, vêm-me à mente a vossa diocese de Drohiczyn e a terra de Podlasie que se estende, de modo pitoresco, ao longo das margens do rio Bug. É uma terra de profunda tradição cristã, construída pelos vossos antepassados e pelos vossos pais – por todas as gerações que vos precederam. Sois herdeiros deste rico património que é dom da Divina Providência. Com efeito, foi nessa terra que padeceram a morte pela fé os mártires da Igreja «uniate» de Pratulin – o Beato Wincenty Lewoniuk e os doze Companheiros. A Igreja de Podlasie conserva profundamente no coração o seu emocionante testemunho. Quão numerosas foram na vossa terra as testemunhas da fé, conhecidas e desconhecidas, que ofereceram a vida em defesa de Cristo! Este é um grande e extraordinário martirológio, que deve ser sempre lembrado.

Quereria também recordar outras figuras, queridas ao vosso coração: o Beato Honorat Ko•mi•ski, o Servo de Deus Monsenhor Zygmunt Ło•i•ski, in- trépido e generoso pastor, primeiro da diocese de Mi•sk, e mais tarde de Pi•sk; o Servo de Deus Padre Ignacy Kłopotowski, fundador das Irmãs Lauretanas, e o Servo de Deus Padre Antoni Beszta-Borowski. A estes devem ser acrescentadas também as figuras dos nossos heróis nacionais: Tadeusz Ko•ciuszko, Romuald Traugutt e ainda o nosso poeta Adam Mickiewicz, cujo 200° aniversário de nascimento celebramos neste ano. Estiveram intimamente ligados a esta terra de Podlasie, no meio deste povo viveram e formaram a sua personalidade e a sua vocação, preparando-se para as tarefas importantes, postas diante deles pela Divina Providência. Que esta grande herança vos enriqueça interiormente e se torne inspiração para todos aqueles que servem a Igreja e a nossa Pátria.

3. Um grande evento na vida da Igreja de Drohiczyn foi o Sínodo Diocesano, concluído a 25 de Maio de 1997. Ele determinou para vós as tarefas da nova evangelização no limiar do Terceiro Milénio. Faço votos por que vos produza os frutos almejados, dos quais fazem parte antes de tudo o aprofundamento da vida cristã e a reanimação da actividade apostólica do Povo de Deus. A nova evangelização exige, com efeito, a participação dos leigos católicos na vida da Igreja. Assim, sinto-me feliz porque na vossa diocese actuam e se desenvolvem a Acção Católica e também a Universidade Popular, que goza de grande fama.

Meus queridos, recomendo todos os que estão aqui presentes e a inteira Igreja de Drohiczyn a Cristo, Redentor do homem. Ele, de facto, é a «pedra angu- lar». Edificai sobre Ele a vossa vida pessoal, familiar e social, para poderdes constituir, «no Espírito, a habitação de Deus» (Ef 2, 22). Abençoo-vos de coração pela fadiga da nova evangelização e peço-vos que transmitais esta bênção aos vossos entes queridos e a todos os meus Compatriotas.

MENSAGEM DO DO PAPA JOÃO PAULO II PARA A ABERTURA DA CAMPANHA DA FRATERNIDADE - 1998- NO BRASIL

Caríssimos Irmãos e Irmãs do Brasil!

«Reconciliai-vos com Deus... Este é o tempo propício (2 Cor 5, 20; 6, 2).

1. Mais uma vez dirijo-me a todos os que me escutam pela rádio ou pela televisão para dar início à Campanha da Fraternidade deste ano, que tem como lema «Fraternidade e Educação: a serviço da Vida e da Esperança». Por uma feliz coincidência, todos os fiéis são chamados a redescobrir, neste segundo ano de preparação para o Jubileu do Ano 2000, a virtude teologal da esperança, de que – como diz o Apóstolo São Paulo – tiveram «conhecimento pela palavra da verdade, o Evangelho» (Cl 1, 5).

2. A Quaresma abre-nos o caminho para a reconciliação com Deus, que é a verdadeira esperança dos redimidos em Cristo Jesus. Mas para atingir os homens de todos os tempos, não podemos perder de vista «as motivações sólidas e profundas – como já tive ocasião de dizer – para o empenho quotidiano na transformação da realidade, a fim de a tornar conforme ao projeto de Deus» (TMA, 46). Uma educação que promova, de um lado, o crescimento e o amadurecimento da pessoa humana em todas as suas dimensões: material, intelectual, moral, espiritual e religiosa; e por outro, a formação integral para a solidariedade e a cidadania, que combata a chaga do analfabetismo e seja promotora da paz e do bem-estar social vem a ser, sem dúvida, uma forma de exercer a caridade, servindo, ao mesmo tempo, de instrumento para que o indivíduo seja agente da sua própria formação. Mais ainda: uma benéfica e contínua obra educadora deve partir essencialmente da família, pois é nela que se forja o mesmo futuro da sociedade. Faço votos de que as máximas instâncias da Nação se empenhem em favorecer meios e instituições para o progresso humano e cristão dos seus cidadãos.

3. Peço a Deus que ilumine o amado Povo brasileiro, para que todos saibam ser «protagonistas da civilização do amor, a caminho do Terceiro Milênio, trabalhando pela construção do País, plenos de solidariedade e sadia convivência». Com estes auspícios vos abençoo:

EM NOME DO PAI, DO FILHO E DO ESPÍRITO SANTO. AMÉM.

Vaticano, 17 de fevereiro de 1998.

DISCURSO DO SANTO PADRE AO NOVO EMBAIXADOR DA LÍBIA JUNTO DA SANTA SÉ POR OCASIÃO DA APRESENTAÇÃO DAS CARTAS CREDENCIAIS

16 de Fevereiro de 1998

Senhor Embaixador

1. É com alegria que acolho Vossa Excelência no Vaticano, na solene circunstância da apresentação das suas Cartas Credenciais como Chefe da Missão da Grande Jamahiria Popular Socialista Árabe da Líbia junto da Santa Sé. Desejo, antes de tudo, agradecer a Sua Excelência o Coronel Muamar Kadafi as saudações e as expressões de apreço, que quis fazer-me chegar por meio de Vossa Excelência, e peço que lhe exprima os meus votos cordiais pela sua pessoa e pelo bem-estar de todo o povo líbio.

2. No discurso que acaba de me dirigir, Vossa Excelência ressaltou a vontade do povo líbio de contribuir para a paz no mundo, tendo como base a recíproca compreensão entre as nações, sobretudo no final deste milénio, na perspectiva de melhorar o futuro que se apresenta ao género humano.

A Igreja jamais deixou de trabalhar a fim de que este bem, a que todos aspiram, possa verdadeiramente arraigar-se sempre mais em cada nação e assegurar, assim, uma paz verdadeira e duradoura para a humanidade inteira. Hoje, mais do que ontem, ela está convicta de que uma convivência pacífica entre as múltiplas realidades espirituais e culturais, que compõem o nosso mundo, só é possível se cada acção humana estiver baseada no diálogo, no respeito e na colaboração.

Na Mensagem deste ano para o Dia Mundial da Paz, em um mundo que busca novos ordenamentos e equilíbrios mais estáveis, recordei a estreita relação existente entre a justiça de cada um e a paz de todos, sublinhando como estes valores estão ínsitos, como património comum, no coração de toda a pessoa.

3. Cada povo é chamado a estar plenamente envolvido neste esforço sincero para a edificação de um mundo melhor, onde a colaboração de todos seja finalizada não simplesmente para o melhoramento das condições externas, mas para o crescimento da pessoa humana vista na sua totalidade, de maneira a permitir a recuperação daqueles valores que, infelizmente, correm o risco de se perderem ou, pelo menos, de não serem mais considerados como ideais concretamente alcançáveis.

A Igreja católica procura sempre a colaboração entre os povos, convicta de que todos os homens, como criaturas de Deus, se devem respeitar evitando as discriminações, a fim de viverem juntos e servirem a humanidade inteira.

Cristãos e muçulmanos têm muitas coisas em comum, como homens e como crentes. O diálogo entre eles deriva da fidelidade a Deus e supõe a capacidade de O reconhecer, com submissão humilde, e de O testemunhar com a palavra e a acção em um mundo sempre mais tentado pela secularização e, com frequência, também pelo ateísmo.

A obediência a Deus envolve-nos no respeito pela pessoa humana e pelos seus direitos, vistos como expressão da vontade divina e como exigência da natureza humana, sobretudo no que se refere às liberdades fundamentais e, em particular, a de religião e de consciência.

Em um mundo que deseja a unidade e a paz, mas que infelizmente ainda conhece tensões e lutas, a fé deve favorecer a compreensão entre os povos e promover o diálogo, a fim de que as divergências e os conflitos sejam resolvidos não com meios de destruição, mas com a mútua cooperação.

4. Excelência, com a pluralidade das suas componentes, o seu País é sem dúvida um lugar onde o encontro e o diálogo se podem tornar cada vez mais instrumento de compreensão e de paz. Os meus votos são por que a compreensão e o diálogo, enquanto se realizam no seio da sociedade líbia, se estendam também aos Países da área mediterrânea, e caracterizem cada vez mais as relações no seio da inteira comunidade internacional. Sabe-se que o diálogo entre Países e Povos se funda, antes de tudo, sobre o reconhecimento da dignidade do outro, sobre a confiança recíproca e a disponibilidade a cooperar para o bem comum da humanidade.

A Igreja católica sempre colaborou com empenho para o desenvolvimento cultural, económico e social da Nação. Ela quer perseverar nesta linha oferecendo, além das específicas competências de qualificação profissional, também amizade e fraternidade segundo a visão cristã da vida, em plena sintonia com as exigências do autêntico progresso da comunidade civil.

5. Estou certo de que a colaboração oferecida generosamente pela Igreja encontra consensos e aprovação nas Autoridades e na população do seu País, e exprimo o desejo que a comunidade católica, através dos seus membros, das suas organizações e estruturas, possa continuar não só a assistir espiritualmente os seus fiéis, mas também a desenvolver a sua obra de promoção humana e social.

No início do seu encargo oficial junto da Santa Sé, Senhor Embaixador, aos bons votos de um frutuoso cumprimento da sua missão desejo acrescentar a certeza de que Vossa Excelência encontrará sempre o acolhimento atento e a compreensão cordial da parte dos meus colaboradores.

Sobre Vossa Excelência e a sua família, sobre o inteiro povo líbio e os seus dirigentes, invoco de coração a abundância das bênçãos do Altíssimo.

DISCURSO DO SANTO PADRE AO TERCEIRO GRUPO DE BISPOS DA POLÓNIA EM VISITA "AD LIMINA APOSTOLORUM"

14 de Fevereiro de 1998

Caros Irmãos no ministério episcopal!

1. Esta é já a terceira vez, num breve espaço de tempo, que se me concede a alegria do encontro com os Bispos da Polónia. As minhas boas-vindas muito cordiais à casa do Papa, dirijo-as ao Senhor Cardeal Józef Glemp, Arcebispo metropolitano de Varsóvia, e ao mesmo tempo Presidente da Conferência Episcopal Polaca, e de igual modo aos Arcebispos metropolitanos aqui presentes: de Bialystok, de Lublim, de Warmia e o Metropolita de Przemy•l-Varsóvia de rito bizantino-ucraniano. Saúdo também os Bispos residenciais das dioceses de Drohiczyn, de Elbl•g, de Ełk, de Łom•a, de Łowicz, de Płock, de Sandomierz, de Siedlce, de Varsóvia-Praga, o Ordinário militar e o Bispo de Wrocław-Gda•sk de rito bizantino-ucraniano. Saúdo, por fim, os Bispos Auxiliares das sedes metropolitanas e das dioceses mencionadas. Juntamente convosco recordo na oração o Arcebispo Bronisław-D•browski, durante longos anos Secretário da Conferência Episcopal Polaca, que recentemente passou para a eternidade.

O encontro hodierno, por ocasião da visita ad limina Apostolorum, constitui num certo sentido a continuação daquele ininterrupto suceder-se de encontros convosco em várias outras ocasiões, assim como com os peregrinos de todas as dioceses da Polónia, que chegam numerosos à Cidade Eterna. Estes encontros devem ser vistos na perspectiva do tempo, isto é, à luz da tradição milenária de estreitos vínculos da nossa Nação com a Sé Apostólica, vínculos que no arco dos séculos tiveram uma grande importância para o nosso País. Ali iniciou o Baptismo de Mieszko I e da sua corte. Graças a este facto, a Polónia entrou no círculo da cultura do Ocidente cristão e começou a edificar o próprio futuro sobre o fundamento do Evangelho. Desde aqueles tempos nos tornamos, a pleno título, membros da família europeia das nações, com todas as consequências que disso derivam. Juntamente com as outras Nações da Europa somos co-autores e, ao mesmo tempo, herdeiros da rica história e cultura do Continente.

No ritmo quinquenal das visitas ad limina Apostolorum do Episcopado Polaco, a vossa visita efectua-se no segundo ano da preparação imediata para o Grande Jubileu do Ano 2000. Este ano é «dedicado de modo particular ao Espírito Santo e à Sua presença santificadora no seio da Comunidade dos discípulos de Cristo» (Tertio millennio adveniente , 44). O Episcopado polaco preparou para este ano um programa pastoral, desejando que a Igreja na Polónia se ponha em escuta daquilo «que o Espírito diz às Igrejas» (cf. Ap 2, 7), e tenha uma experiência viva do sopro salutar do Espírito Santo, que no decurso dos séculos e diante dos nossos olhos renova a face da terra. A realização desse programa e todo o trabalho pastoral da Igreja na perspectiva do Grande Jubileu abrem ao Espírito Santo o espaço das nossas consciências, a fim de que «as purifiquemos das obras mortas, para podermos servir o Deus vivo» (cf. Hb 9, 14).

2. «Vinde, luz dos corações!» (cf. Sequência Veni, Sancte Spiritus). Uma verdadeira renovação do homem e da sociedade efectua-se sempre mediante a renovação das consciências. Só a mudança das estruturas sociais, económicas e políticas – ainda que seja importante – pode, contudo, demonstrar-se como uma ocasião desperdiçada, se por detrás dela não houver homens de consciência. Com efeito, são eles que fazem com que o conjunto da vida social seja em definitivo formado segundo as regras daquela lei, que não é o homem a impor-se a si mesmo, mas que ele descobre «no íntimo da consciência, a cuja voz deve obedecer» (cf. Gaudium et spes, 16). Esta voz é a lei interior da liberdade, que orienta o homem para o bem e o adverte a não fazer o mal. Consentir a violação dessa lei, mediante um acto de direito positivo, afinal de contas reverte-se sempre contra a liberdade de alguém e contra a sua dignidade. O culto idolátrico da liberdade (cf. Veritatis splendor , 54) que, não raro, é proposto ao homem de hoje, no fundo constitui para ela um grande perigo. Com efeito, ao levar ao caos e à distorção das consciências, ela priva o homem de uma autodefesa muito eficaz contra as várias formas de escravidão.

Quanto todos nós devemos aos homens de consciência recta – conhecidos e desconhecidos! A liberdade reconquistada não poderá ser desenvolvida nem defendida, se em cada sector da vida social, económica e política não se encontrarem homens de consciência recta, capazes de se contrapor não só a várias e mutáveis influências e pressões externas, mas também a tudo o que enfraquece, ou então até mesmo destrói a partir de dentro a liberdade do homem. Os homens de consciência são espiritualmente livres, capazes de discernir à luz dos valores eternos e das normas eternas, tantas vezes verificadas, as tarefas novas, diante das quais a Providência nos põe no momento presente. Cada cristão deveria ser um homem de consciência que, antes de tudo, alcança uma vitória importantíssima e, num certo sentido, a mais difícil – a vitória sobre si mesmo. Deveria sê-lo em todas as coisas que se referem à sua vida tanto privada como pública. A formação de uma recta consciência dos fiéis, a começar pelas crianças e pelos jovens, deve ser uma constante preocupação da Igreja. Se hoje a Polónia invoca homens de consciência, os pastores do Povo de Deus deveriam definir com maior precisão os sectores em que se manifesta em maior medida a debilidade das consciências – tomando em consideração a especificidade das causas – para poder oferecer ajuda numa paciente reconstrução do tecido moral da Nação inteira.

3. A ciência e a cultura podem e devem ser um aliado natural do renascimento moral da sociedade polaca. Os homens de ciência, os ambientes científicos e universitários, os homens de letras e os ambientes de criatividade cultural, tendo experiência de uma específica transcendência da verdade, da beleza e do bem, tornam-se naturais servidores do mistério de Deus, que se descobre diante deles e ao qual devem ser fiéis. Esta exigência de fidelidade faz com que cada um deles, como estudioso ou artista, «independentemente das convicções pessoais, é chamado... a exercer uma função de consciência crítica em relação a tudo o que expõe a risco a humanidade ou a diminui» (Discurso por ocasião do 600° aniversário da Faculdade de Teologia da Universidade Jagelónica, 8/6/1997). Deste modo, «o serviço do pensamento», que se pode esperar dos homens de ciência e de cultura, encontra-se com aquele que a Igreja presta em benefício das consciências dos homens. Daqui deriva que o diálogo da Igreja com os homens de ciência e com os agentes da cultura não é tanto uma exigência do momento, quanto sobretudo a expressão de uma específica aliança em favor do homem, no nome da verdade, da beleza e do bem, sem os quais a vida humana é ameaçada pelo vazio e pela falta de sentido. A responsabilidade daqueles que representam a ciência e a cultura é enorme, em consideração do facto que exercem uma grande influência sobre a opinião pública. Deles, com efeito, depende em grande parte se a ciência servirá a cultura do homem e o seu desenvolvimento, ou se se dirigirá contra o homem e a sua dignidade, ou até mesmo contra a sua existência. A Igreja e a cultura têm necessidade uma da outra e devem colaborar para o bem das consciências das gerações, actuais e futuras, dos polacos. Durante a minha terceira peregrinação na Pátria em 1987, no encontro de 13 de Junho na igreja da Santa Cruz em Varsóvia, com os representantes dos ambientes criativos, eu disse que os homens da cultura «reencontraram, num grau antes desconhecido, o ligame com a Igreja». Expressei então a esperança de «que a Igreja polaca responda plenamente à confiança destes homens, que às vezes vêm de longe – e encontre a linguagem que atinja os seus corações e as suas mentes». Essa tarefa continua a ser actual, porque chegou o tempo deste ligame produzir os frutos esperados.

Existe, pois, a urgente necessidade de consolidar este ligame com os homens da cultura e da ciência. Esta é também uma das importantes tarefas evangelizadoras da Igreja. «A evangelização é também o encontro com a cultura de todas as épocas» (cf. Cruzar o limiar da esperança, pág. 125). A Boa Nova de Cristo, trazida ao mundo, transforma a sua mentalidade, combatendo num certo sentido em favor da alma deste mundo. As sementes de bem e de verdade que se encontram nele, o Evangelho purifica-as, enobrece-as, leva-as à plenitude. Além disso, o Evangelho inspira a cultura e procura encarnar-se na cultura. Assim foi desde o início da evangelização e assim deve continuar a ser, porque o vestígio que o Evangelho deixa na cultura é sinal duma vitalidade que não passa, e duma força capaz de tocar os corações e as mentes de gerações sempre novas. Entretanto notamos, infelizmente, que esta riqueza espiritual e este património cultural da nossa Nação estão muitas vezes expostos ao perigo da secularização e do indiferentismo, especialmente no terreno dos fundamentais valores humanos, humanistas e morais, que devem ser defendidos.

A Igreja na Polónia deve desempenhar neste sector um papel muito importante. Trata-se de fazer com que os valores e os conteúdos do Evangelho penetrem as categorias do pensamento, os critérios de avaliação e as normas da acção do homem. É necessário desejar que toda a cultura seja penetrada pelo espírito cristão. A cultura contemporânea tem à sua disposição novos meios de expressão e novas possibilidades técnicas. A universalidade desses meios e o poder da sua influência têm um grande impacto sobre a mentalidade e a formação das atitudes da sociedade. É necessário, pois, dar um apoio às importantes iniciativas, que poderiam chamar a atenção dos homens da criatividade artística e seriam um estímulo para a promoção da sua actividade e para o desenvolvimento e a inspiração dos talentos, em harmonia com a identidade cristã da Nação e com a sua louvável tradição. Não se podem poupar os meios necessários para cultivar tudo aquilo que é nobre, sublime e bom. É preciso um esforço comum que tenha em vista a edificação da confiança entre a Igreja e os homens da cultura; é preciso procurar de novo uma linguagem para atingir as suas mentes e os seus corações, introduzindo-os no âmbito da influência do mistério pascal de Cristo, no âmbito daquele «amor com que Ele amou até ao fim» (cf. Jo 13, 1). A atenção da igreja deveria estar dirigida também para todos os fiéis leigos que, neste sector, devem desempenhar um seu papel específico. Ele consiste numa corajosa, criativa e activa presença nos lugares onde se cria a cultura, onde ela se desenvolve e se enriquece. Uma tarefa de muita importância é também a educação da sociedade e, de modo particular, da jovem geração para uma justa aceitação de quanto é fruto da cultura. «A Igreja lembra a todos que a cultura deve orientar-se para a perfeição integral da pessoa humana, para o bem da comunidade e de toda a sociedade. Por isso, é necessário cultivar o espírito de modo a desenvolver-lhe a capacidade de admirar, de intuir, de contemplar, de formar um juízo pessoal e de cultivar o sentido religioso, moral e social» (Gaudium et spes, 59).

A questão da relação da Igreja com a cultura e as suas recíprocas referências é um problema, que sempre retorna no meu ensinamento pastoral. Por isso não o podia omitir ao dirigir-me a vós, por ocasião da presente visita. Esta é também uma questão de particular importância para a nossa Pátria. A Nação, com efeito, existe «mediante» e «para» a cultura. Graças à sua cultura autêntica, ela torna-se plenamente livre e soberana (cf. Discurso à UNESCO, 2/6/1980).

4. No contexto de quanto já foi dito, quereria ainda sublinhar o papel da cultura polaca no processo de unificação do Continente europeu. É necessário prestar atenção a fim de que este processo não seja reduzido somente aos aspectos puramente económicos e materiais. Por isso, uma particular importância adquirem o salvaguardar, o manter e o desenvolver este precioso património espiritual, transmitido pelos padres cristãos da Europa de hoje. Disse-o de modo muito claro na minha homilia em Gniezno: «A meta de uma autêntica unidade do Continente europeu ainda está distante. Não haverá a unidade da Europa, enquanto ela não se fundar na unidade do espírito. Este fundamento muito profundo da unidade foi trazido à Europa e consolidado ao longo dos séculos pelo cristianismo com o seu Evangelho, com a sua compreensão do homem e com o seu contributo ao desenvolvimento da história dos povos e das nações... A história da Europa, com efeito, é um grande rio, no qual desembocam numerosos afluentes, e a variedade das tradições e das culturas que a formam é a sua grande riqueza. Os fundamentos da identidade da Europa estão construídos sobre o cristianismo» (3/6/1997).

Neste grande trabalho que está diante do Continente em vias de unificação, não pode faltar a contribuição da parte dos católicos polacos. A Europa tem necessidade de uma Polónia que acredite profundamente e seja criativa sob o ponto de vista cultural e cristão, consciente do papel que lhe foi confiado pela Providência. Aquilo com que a Polónia pode e deve prestar um serviço à Europa é, em última análise, idêntico à tarefa da reconstrução de uma comunhão de espírito, baseada sobre a fidelidade ao Evangelho na própria casa. A nossa Nação, que sofreu tanto no passado e especialmente durante a segunda guerra mundial, tem muito para oferecer à Europa, antes de tudo a sua tradição cristã e a rica experiência religiosa de hoje.

A Igreja na Polónia encontra-se, pois, diante de grandes tarefas históricas, para cuja realização lhe são necessários ardor missionário e impulso apostólico. É preciso que ela reencontre em si muita força para fazer com que a nossa Nação possa, de maneira eficaz, resistir àquelas tendências da civilização contemporânea que propõem um afastamento dos valores espirituais, em favor de um consumismo desenfreado, e também o abandono dos tradicionais valores religiosos e morais, em prol de uma cultura laica e de um relativismo ético. A cultura cristã polaca, o etos religioso e nacional são uma preciosa reserva de energias, de que hoje a Europa tem necessidade para garantir dentro dos próprios confins o desenvolvimento integral da pessoa humana. Neste sector conjugam-se os esforços da Igreja universal e de todas as Igrejas locais da Europa. Cada uma deveria oferecer a esta grande obra o próprio património cultural, a sua tradição, a experiência, a fé e o zelo apostólico.

5. Na criação da cultura e na sua transmissão, os meios de comunicação social têm um papel importante. Constituem no mundo de hoje uma força poderosa e omnipresente. Podem despertar as consciências, defender os direitos do homem, orientar a consciência humana para o bem, a liberdade, a justiça, a solidariedade e a paz, mas «o homem pode utilizá-los contra os desígnios do Criador e convertê-los em meios da sua própria ruína» (Inter mirifica, 2). Neles a Igreja vê, antes de tudo, um enorme potencial adormecido de evangelização e procura os modos para o desfrutar na actividade apostólica. É preciso ter presente que o justo fim e a tarefa dos meios de comunicação social são o serviço da verdade e a defesa da mesma. Isto consiste numa objectiva e honesta transmissão de informações, em evitar manipular a verdade e em assumir a atitude de quem não quer corromper a verdade. O serviço da verdade é um serviço à causa do homem na sua integridade de corpo e de espírito, o que se exprime no desenvolvimento das suas necessidades culturais e religiosas, tanto no âmbito individual como social. Com efeito, a verdade está ligada de modo indissolúvel ao bem e à beleza. Portanto, lá onde é transmitida a verdade, manifesta-se também o poder do bem e o esplendor da beleza, e o homem que os experimenta adquire a nobreza e a cultura. Esta é uma missão particular que oferece uma grande contribuição ao bem e ao progresso da sociedade.

Diante da Igreja na Polónia, nos últimos anos abriu-se um grande espaço para o trabalho de evangelização. Esta deveria compreender no seu raio de acção todos aqueles que trabalham no mundo da mídia, mas também todos os que fazem uso dos meios de comunicação social. É necessário concentrar-se não só na preparação profissional do pessoal capaz de entender a especificidade social, a força do seu agir, a linguagem e a técnica, e de se servir dela para o bem espiritual e material do homem. Esse trabalho deveria ter em consideração também a formação espiritual dos operadores dos mass media. É preciso que eles se aproximem do Evangelho, conheçam a doutrina social católica, a vida e a actividade da Igreja e os problemas morais do homem de hoje. Com a ajuda de homens formados no espírito cristão, a Igreja pode alcançar com facilidade muito maior um grande auditório, os vários areópagos do mundo, os ambientes sedentos de Deus. Existe também a urgente necessidade de uma oportuna educação da inteira sociedade, de modo particular da juventude, para um uso oportuno e amadurecido dos meios de comunicação, a fim de que ninguém seja um destinatário passivo e acrítico dos conteúdos e das informações recebidas. Deve-se também pôr de sobreaviso contra os perigos – tanto para a fé e a moral como para um geral desenvolvimento humano – que podem ser constituídos por alguns jornais, livros, filmes e programas de rádio ou de televisão. Não se podem fechar os olhos para o facto que os meios de comunicação social são não só um enorme instrumento para informar mas, num certo sentido, procuram criar um mundo próprio. Aqui é indispensável uma comum e coordenada acção da Igreja, da escola, da família e dos próprios meios de comunicação, que podem ser de grande auxílio neste processo educativo.

Em semelhante contexto, é fácil notar como é importante que a Igreja na Polónia possua e faça uso dos próprios meios de comunicação social. Actualmente, ela dispõe de numerosas emissoras de alcance paroquial, diocesano, nacional, e também de televisões locais. São transmitidos também os programas da Rádio Vaticano. Causa alegria o facto que, na Polónia, os meios de comunicação se tornaram um importante aliado da Igreja no cumprimento da sua missão salvífica. A imprensa católica tem uma longa tradição na nossa sociedade e grandes méritos na formação cultural, moral e religiosa. Na Polónia existem actualmente jornais diocesanos e nacionais; do Vaticano chega a edição polaca de L'Osservatore Romano, que aproxima o magistério pontifício; funciona também a Agência Católica Informativa; e são publicados muitos livros. Sei também que a Igreja na Polónia, dispõe, ainda não em grande medida, de possibilidades informativas e evangelizadoras de Internet e de publicações «multimediais». Tarefa da Igreja – dos Pastores e dos fiéis leigos – é oferecer um firme apoio ao desenvolvimento da imprensa católica e ao aumento do alcance da sua acção, assim como encorajar a lê-la, a fim de se aprofundar o conhecimento das verdades da fé, do ensinamento da Igreja e da cultura religiosa. Devemos ser gratos a Deus e aos homens por esta grande variedade e riqueza de meios de comunicação social, existentes na Polónia. Faço votos por que este trabalho apostólico, que é um serviço da cultura, da verdade e da caridade, forme atitudes cristãs, faça desabrochar o impulso apostólico, edifique a comunidade da Igreja.

6. Caros Irmãos no episcopado! Há ainda uma questão sobre a qual quereria reflectir juntamente convosco, por ocasião da visita ad limina Apostolorum, isto é, a questão da formação sacerdotal. Na Exortação Apostólica Pastores dabo vobis , escrevi: «Na verdade, a formação dos futuros sacerdotes, tanto diocesanos como religiosos, e o assíduo cuidado, mantido ao longo de toda a vida, em vista da sua santificação pessoal no ministério e da actualização constante no seu empenho pastoral, são considerados pela Igreja como uma das tarefas de maior delicadeza e importância para o futuro da evangelização da humanidade» (n. 2). Sim, a solicitude pela formação dos candidatos ao sacerdócio, assim como dos próprios sacerdotes – repito-o mais uma vez – pertence às mais importantes tarefas dos Bispos. A Igreja na Polónia encontra-se actualmente diante de novos desafios, efeito de profundas transformações socioculturais, que se estão a realizar no nosso País. Aumentou o campo de acção da Igreja e, como consequência, a necessidade de Pastores bem preparados, responsáveis pelo desenvolvimento espiritual dos fiéis confiados aos seus cuidados.

Os seminários diocesanos e religiosos têm uma enorme importância para o Povo de Deus. Na Igreja inteira e em todas as suas partes eles são uma particular verificação de vitalidade, em certo sentido de fecundidade espiritual, que se exprime com a disponibilidade dos jovens a um total dom ao serviço de Cristo. As possibilidades de empenho evangelizador e missionário das Igrejas locais dependem das vocações sacerdotais e religiosas. A Igreja pede incessantemente «ao Senhor da messe para que envie trabalhadores para a Sua messe!» (Mt 9, 38), porque a questão das vocações pertence às suas mais importantes preocupações. É preciso fazer todo o possível na Igreja na Polónia, a fim de que nos jovens não se esmoreçam o espírito de sacrifício e o impulso magnânimo para aceitar o chamamento de Cristo. É indispensável o esforço unido ao despertar das vocações e à formação das novas gerações dos candidatos ao sacerdócio. É necessário fazê-lo no autêntico espírito do Evangelho, e ao mesmo tempo lendo de modo justo os sinais do tempo, aos quais o Concílio Vaticano II dedicou uma atenção tão profunda. Este esforço deve ser acompanhado também de um autêntico testemunho de vida dos próprios sacerdotes, entregues sem reserva a Deus e aos irmãos. A catequese e a pastoral dos jovens, a vida sacramental e de oração, e também a direcção espiritual devem ajudar o jovem na maturação, em ordem a fazer de maneira responsável as opções de fidelidade e de constância. Peço-vos, caros Irmãos, que circundeis de solicitude paterna os seminários. Aqueles a quem confiastes a formação dos futuros sacerdotes encontrem sempre em vós compreensão, apoio e bom conselho. Parece necessária uma nova ratio fundamentalis e ratio studiorum para os seminários na Polónia, adaptada à situação actual da Igreja, à mentalidade contemporânea dos jovens e aos novos desafios, diante dos quais se encontram os futuros presbíteros.

Além da formação ao sacerdócio tem uma grande importância a formação permanente dos sacerdotes, tanto diocesanos como religiosos, de que fala amplamente a Exortação Apostólica Pastores dabo vobis . Recomendo-vos que tenhais a peito este problema e o conserveis sempre presente no espírito do amor pastoral e como grande responsabilidade pelo futuro do ministério sacerdotal. O amor e a solicitude vos estimulem a preparar e a pôr em prática o programa de uma formação espiritual, intelectual e pastoral permanente dos presbíteros, sob todos os seus aspectos. Encorajai-os, a fim de que se ocupem com cuidado da própria formação permanente, que devem empreender sempre, isto é, em todos os períodos da vida, independentemente dos condicionamentos em que se encontram, e também das funções que exercem na Igreja. Trata-se de um trabalho sério e constante, que tem como finalidade ajudar os sacerdotes a tornarem-se, de modo cada vez mais pleno e mais amadurecido, homens de fé e de santidade, a serem capazes de salvaguardar dentro de si este grande dom, que lhes foi oferecido no rito da imposição das mãos (cf. 2 Tm 1, 6), e a carregarem o peso do mistério que o sacerdócio tem em si. «O mundo de hoje exige sacerdotes santos! Só um sacerdote santo pode tornar-se, num mundo cada vez mais secularizado, uma testemunha transparente de Cristo e do seu Evangelho. Somente assim o sacerdote pode tornar-se guia dos homens e mestre de santidade. Os homens, sobretudo os jovens, esperam um semelhante guia. O sacerdote pode ser guia e mestre, na medida em que se tornar uma autêntica testemunha» (Dom e Mistério, pág. 101).

7. No final desta visita ad limina Apostolorum, graças à qual tive ocasião de me encontrar pessoalmente com cada um de vós, quero exprimir o meu apreço pelo grande e generoso trabalho pastoral e evangelizador, que a Igreja na Polónia realiza cada dia, empreendendo a obra de renovação à luz do ensinamento do Concílio Vaticano II. Tenho aqui na mente os Pastores da Igreja na Polónia, os sacerdotes diocesanos e religiosos, as religiosas, os membros dos Institutos de vida consagrada e os leigos católicos. Com o coração e o pensamento abraço toda a sua fadiga e esforço, talvez nem sempre plenamente notados e apreciados. Ninguém deveria sentir-se esquecido, sozinho ou desiludido diante das dificuldades e dos insucessos na actividade apostólica. Com efeito, sempre e em toda a parte a oração da Igreja inteira acompanha todos. Também a oração do Papa os acompanha sempre! No limiar do Grande Jubileu do Ano 2000, espero que a Igreja na nossa Pátria, dócil ao Espírito Santo, reavive incessantemente em si a solicitude apostólica pelo Povo de Deus e enfrente com coragem os desafios que os tempos novos trazem consigo. O Espírito Santo é aquele «doce hóspede da alma» que, melhor do que ninguém, conhece o mistério íntimo de cada homem. Só o Espírito Santo pode realizar a obra de purificação de tudo aquilo que existe de mal no coração humano. É Ele que cura as mais profundas feridas da existência humana, transformando a má colheita interior em férteis campos de graça e de santidade. Sob a acção do Espírito Santo amadurece e revigora-se o homem interior, isto é, «espiritual», feito à imagem de Deus, marcado pela santidade, capaz de «caminhar numa vida nova» (cf. Rm 6, 4), que é a vida segundo os mandamentos divinos. Graças a esta acção o mundo dos homens renova-se a partir de dentro, a partir de dentro dos corações e das consciências (cf. Dominum et vivificantem , 58 e 67). A Maria, Mãe de Jesus que «brilha como sinal de esperança segura e de consolação para o Povo de Deus, ainda peregrinante» (Lumen gentium, 68), confio todos vós, Pastores, os vossos fiéis e todos os meus compatriotas, e pela generosa dedicação ao trabalho evangélico de servir no amor e na verdade, abençoo-vos de coração: no nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo. Amém.

MENSAGEM DO DO PAPA JOÃO PAULO II AOS PARTICIPANTES NO XXI ENCONTRO DE ESPIRITUALIDADE PARA OS BISPOS PROMOVIDO PELO MOVIMENTO DOS FOCOLARINOS

Senhores Cardeais Venerados Irmãos no Episcopado!

1. É-me grato dirigir-vos uma afectuosa e fraterna saudação, por ocasião do Encontro espiritual, que vos vê reunidos de várias partes do mundo, a fim de aprofundardes o vínculo de comunhão eclesial entre vós e com o Sucessor de Pedro, e de reflectirdes, no confronto entre as respectivas experiências pastorais, sobre alguns aspectos particulares da espiritualidade do Movimento dos Focolarinos da Unidade.

Este vosso encontro anual oferece-me a grata oportunidade para fazer chegar a cada um dos participantes a certeza da minha proximidade espiritual e da minha lembrança na oração, a fim de que o próprio Cristo – que, como ressalta a Carta aos Hebreus, é «o Pastor supremo das ovelhas» (Hb 13, 20) – assista com a Sua graça os intensos trabalhos destes dias e vos acompanhe no vosso quotidiano ministério episcopal.

2. Este vosso Encontro insere-se no contexto do caminho de preparação para o Grande Jubileu do Ano 2000. Já nos inserimos decididamente no segundo ano de preparação imediata para o Jubileu, no qual a Igreja é chamada a reflectir, de modo particular, sobre o Espírito Santo e a Sua presença santificadora no seio da Comunidade dos discípulos de Cristo.

Como recordei na Carta Apostólica Tertio millennio adveniente , o próprio Espírito, que suscita na Igreja a multiplicidade dos carismas e dos ministérios, sustenta com a força divina que Lhe é própria a íntima conexão dos vários membros e anima a comunhão do inteiro Corpo de Cristo. «A unidade do Corpo de Cristo está fundada sobre a acção do Espírito, é garantida pelo ministério apostólico e sustentada pelo mútuo amor (cf. 1 Cor 13, 1-8)» (n. 47). As aprofundadas reflexões da vossa Reunião, enriquecidas também pelo amplo intercâmbio de experiências pastorais, constituem uma preciosa ocasião para captar, de modo mais intenso e vital, o sentido da colegialidade efectiva e afectiva e da comunhão eclesial, vivida de maneira concreta no serviço apostólico a vós confiado.

3. O tema escolhido para o Encontro deste ano – «Rumo à unidade das nações e dos povos» – põe-se na esteira dos ensinamentos do Concílio Vaticano II, que reservou grande atenção à missão universal da Igreja, aberta aos vastos horizontes do mundo actual, para o qual é chamada a ser «sinal e instrumento da íntima união com Deus e da unidade de todo o género humano» (Lumen gentium, 1). A própria diversidade das zonas de onde provindes e nas quais fostes chamados a servir o Evangelho, põe em clara evidência a «catolicidade» da Igreja, a qual, formada por pessoas de várias nações, constitui o único Povo de Deus, remido por Cristo e animado pelo Espírito.

No caminho rumo à plena unidade dos cristãos para a qual, não obstante as inúmeras tensões e dificuldades, se orienta a história guiada pela Providência divina, os sucessores dos Apóstolos são chamados a oferecer um próprio e peculiar contributo, através do tríplice ofício de ensinar, governar e santificar a porção do rebanho de Cristo a eles confiada.

4. Caros e venerados Irmãos! No vosso serviço de animação vos sirva de guia e apoio a materna intercessão da Virgem Maria. Como bem ressalta o ícone de Maria no Cenáculo com Pedro e os outros Apóstolos, reunidos à espera do Espírito Santo (cf. Act 1, 12), a tarefa apostólica e a missão da Mãe de Deus estão intimamente unidas e são complementares. O ideal de santidade, para a qual tende a inteira missão da Igreja, de facto já está preformado e prefigurado em Maria.

A Igreja possui então, ao lado do «aspecto petrino», um insubstituível «aspecto mariano»: o primeiro manifesta a missão apostólica e pastoral que lhe foi confiada por Cristo; o segundo exprime a sua santidade e sua total adesão ao plano divino da salvação. «Esta união entre os dois aspectos da Igreja, mariano e petrino, é pois estreita, profunda e complementar» (Discurso à Cúria Romana, em Insegnamenti X/3 [1987], pág. 1484).

Ao desejar às vossas Comunidades cristãs que reproponham com fidelidade este dúplice aspecto da Igreja, «mariano» e «petrino», confio os frutos espirituais do vosso Encontro à protecção materna da Virgem Maria, Rainha dos Apóstolos e Mãe da Unidade, enquanto com afecto concedo a cada um de vós a minha Bênção.

Vaticano, 14 de Fevereiro – Festa dos Santos Cirilo e Metódio, Padroeiros da Europa – do ano de 1998, vigésimo de Pontificado.

DISCURSO DO SANTO PADRE NA CONCLUSÃO DO SEGUNDO ENCONTRO DO COMITÉ CENTRAL PARA O GRANDE JUBILEU DO ANO 2000

12 de Fevereiro de 1998

Senhores Cardeais Venerados Irmãos no Episcopado Caríssimos Sacerdotes e Fiéis Leigos!

1. É-me grato acolher-vos na conclusão do segundo Encontro do Comité Central com os Delegados para o Jubileu, aqui vindos por encargo dos respectivos Episcopados.

Saúdo, antes de tudo, o Senhor Cardeal Roger Etchegaray, Presidente do Comité Central, os Cardeais Membros do Conselho de Presidência, D. Crescenzio Sepe, novo Secretário-Geral, os Membros do mesmo Comité Central e os Delegados das Conferências Episcopais. Apresento especiais boas-vindas aos Delegados Fraternos das Igrejas e Comunidades eclesiais não católicas. A todos se dirige a expressão do meu apreço pela activa participação!

Esta vossa reunião reveste importância particular pela possibilidade que oferece de focalizar os planos pastorais em vista da celebração jubilar, esboçando o seu Calendário e predispondo um plano concreto para o acolhimento dos peregrinos. Desejo congratular-me convosco pela generosidade com que trabalhais neste período que precede o Jubileu, oferecendo contributos preciosos e esclarecidos, que têm em vista tornar os actos celebrativos do ano jubilar mais significativos e mais profícuos espiritualmente.

2. O caminho rumo a essa meta histórica já está a tornar-se mais veloz, porque mais próximo é o momento da abertura da Porta Santa, que para a Igreja inteira dará início a um Ano de graça e de reconciliação.

Portanto, é louvável o esforço que está a ser feito para a organização exterior, mas este deve ser acompanhado daquele que visa a preparação interior, que dispõe o coração ao acolhimento dos dons do Senhor. Trata-se, antes de tudo, de redescobrir o sentido de Deus, e de Lhe reconhecer o senhorio sobre a criação e a história. Derivará daqui a revisão a que cada um há-de submeter, com sincera convicção e amor, os próprios pensamentos e as próprias opções, no desejo de tender à plenitude da caridade sobrenatural.

3. A comemoração do milénio do nascimento de Cristo leva-nos de novo ao centro do mistério da Redenção: «Apparuit gratia Dei et Salvatoris nostri, Iesu Christi» (Tt 2, 1). É Deus que chama todos os homens, sem excluir ninguém, a participar dos frutos da obra de salvação, que se realiza e se difunde sobre a terra sob a acção misteriosa do Espírito Santo. O Grande Jubileu convida-nos a reviver este momento de graça, na consciência de que ao dom da salvação deve corresponder a conversão do coração, graças à qual a pessoa se reconcilia com o Pai e reentra na comunhão do Seu amor.

A conversão, porém, não seria autêntica, se não levasse também à reconciliação com os irmãos, que são filhos do mesmo Pai. Esta é a dimensão social da reencontrada amizade com Deus: ela inclui os membros da própria família, estende-se ao ambiente de trabalho e permeia a inteira comunidade civil. Enquanto nos acolhe com o Seu perdão, o Senhor confia-nos a missão de sermos fermento de paz e de unidade em todo o ambiente que nos circunda.

4. A redescoberta desta riqueza de graça, que nos é oferecida em Cristo, e o seu acolhimento na própria vida re- querem um adequado itinerário de preparação espiritual: e nós estamos a procurar actuá-lo nestes anos, dos quais conheceis bem o programa que sugeri à Igreja inteira. Quis convidar cada cristão a reavivar antes de tudo a fé no mistério de Deus-Trindade e a aprofundar o mistério de Cristo Salvador.

Só assim o povo de Deus, peregrinante sobre a terra, poderá reencontrar e reanimar o entusiasmo da fé; cada cristão poderá saborear a experiência do encontro com Cristo Mestre e Pastor, Sacerdote e Guia de toda a consciência. Isto disporá os crentes a receberem o dom de um renovado Pentecostes, para entrarem no terceiro milénio animados por mais ardente desejo de redescobrir a sempre actual verdade de que Deus Pai, por meio do Filho encarnado, não só fala ao homem, mas o procura e o ama.

5. Importante é a tarefa que vos foi confiada. Em cada uma das vossas Nações já está presente uma expectativa. Nascem curiosidades e esperanças, insta sobretudo o desejo de uma autêntica paz interior, iluminada pela verdade do Evangelho. Por isso, a todos devem chegar as palavras da esperança: «Vinde a Mim, todos vós que estais cansados e oprimidos e aliviar-vos-ei» (Mt 11, 28). Fazei-vos, então, promotores assíduos de iniciativas aptas a transmitir às populações das vossas terras, cristãs ou não, a mensagem do Grande Jubileu.

Fazei com que sejam conhecidos e aplicados os planos pastorais que se referem aos Sacramentos, à Palavra de Deus, à animação da vida litúrgica, à oração, ao fundamental tema do diálogo ecuménico, aos encontros com os não-cristãos. Fazei afluir as informações, comunicai as notícias, mantende vivo o diálogo com as vossas Comunidades, considerando as expectativas de toda a população. Fazei com que a passagem para o terceiro milénio seja para todos um momento de renovação e graça.

6. Como já se sabe, o Jubileu do Ano 2000 diferencia-se dos outros Jubileus, porque se celebrará contemporaneamente em Roma, na Terra Santa e em cada uma das Igrejas locais.

A celebração de cada Jubileu implica também o conceito de «peregrinação», manifestação religiosa antiquíssima e presente quase em todos os povos e religiões, com finalidade sobretudo penitencial. A peregrinação reflecte o destino último do homem. O cristão sabe que a terra não é a sua derradeira morada, porque ele está a caminho rumo a uma meta que constitui a sua verdadeira pátria. Por este motivo, a peregrinação a Roma, à Terra Santa e aos lugares sagrados indicados nas Dioceses, põe em evidência o facto de toda a nossa vida constituir uma peregrinação rumo a Deus.

Para que produza fruto, a peregrinação exige que se garantam momentos fortes de oração, significativos actos de penitência e conversão, gestos de caridade fraterna, capazes de ser compreendidos como uma viva demonstração do amor de Deus. Neste espírito, o Jubileu será a ocasião para que se ampliem os espaços da caridade de cada Igreja particular, de cada associação, de cada grupo eclesial. O sinal concreto da caridade indicará que o itinerário da almejada renovação já realizou passos autênticos, prenunciadores de paz e de fraternidade universal.

Compete a vós o empenho de dar vida com inteligência a oportunas iniciativas neste sentido. Cabe à Igreja de Roma a tarefa de vos acolher aqui, de braços abertos, com coração grande, com amizade efectiva e generosa. A sede de Pedro, que «preside à comunhão da caridade», quer estar presente e viva nesta competição de solidariedade, que empenha todas as Igrejas espalhadas pelo mundo. É preciso hoje testemunhar uma peculiar sensibilidade pela justiça e promoção do desenvolvimento social. Todos nós estamos convictos de que é imperioso procurar de novo, e é possível encontrar, vias de superação das tensões fora da lógica dos conflitos, e que se podem fazer projectos capazes de resolver a grave situação económica em que se debatem não poucos Estados, libertando inteiras populações de condições de servidão e miséria desumanas.

7. O Jubileu é um providencial evento eclesial. Porém, não tem por fim a si mesmo, mas constitui um meio – na solene celebração comemorativa da Encarnação do Filho de Deus, nossa salvação – para estimular os cristãos à conversão e à renovação interior. Corroborados na fé, eles poderão anunciar a mensagem evangélica com renovado impulso, indicando no seu acolhimento o caminho para chegar à edificação de um mundo mais humano, porque mais cristão.

Confio à Virgem santa o vosso zeloso serviço de preparação do grande evento eclesial, com os votos por que ele produza abundantes frutos em benefício da Igreja e do mundo inteiro.

E devo dizer-vos que há um grande interesse pelo Jubileu, não só entre os Bispos do mundo inteiro, mas também entre os homens políticos. A data do Ano 2000 cria uma atitude, uma abertura. Podemos dizer que é a memória cristã dos povos e do mundo, que se abre e se manifesta. Quereria concluir este encontro recitando convosco o «Angelus Domini», porque esta é a oração da Encarnação.

Com afecto e reconhecimento, concedo-vos a Bênção Apostólica.

DISCURSO DO SANTO PADRE AOS PARTICIPANTES NA SEMANA DIOCESANA DA FAMÍLIA

Sábado, 7 de Fevereiro de 1998

1. «Anunciaram-lhe a palavra do Senhor, assim como aos que estavam na sua casa» (Act 16, 32).

Caríssimas famílias de Roma, este versículo dos Actos dos Apóstolos serve de moldura para o hodierno encontro de fé e oração que, no âmbito da Missão da cidade, conclui a Semana diocesana dedicada à Vida e à Família. Saúdo o Senhor Cardeal-Vigário Camillo Ruini, a quem agradeço as amáveis palavras que me dirigiu. Com ele saúdo D. Franciso Gil Hellín, Secretário do Pontifício Conselho para a Família, o Deputado Carlo Casini, Presidente nacional do Movimento pela Vida, o Mons. Luigi Moretti, Responsável diocesano do Centro pastoral para a Família, e o Mons. Renzo Bonetti, Director nacional do Departamento de pastoral familiar da Conferência Episcopal Italiana.

O meu pensamento dirige-se neste momento a todas as famílias da diocese, sobretudo àquelas que se sentem particularmente provadas: sirva de encorajamento para elas a constante atenção do Papa e da inteira Igreja local. Desejo repetir a cada um as palavras que, depois da libertação prodigiosa, São Paulo e o seu companheiro de prisão Silas, foram dirigidas ao carcereiro tomado de sobressalto, que perguntava o que era necessário para ser salvo: «Acredita no Senhor Jesus e serás salvo tu e os teus» (Act 16, 31). Acolher a presença de Cristo na família: este é o convite que ressoa nesta noite.

Queridas famílias de Roma, não tenhais medo de abrir a porta de casa a Jesus Cristo. O Seu projecto divino enriquece a família, liberta-a de toda a escravidão e condu-la à plena realização da vocação que lhe é própria.

2. Nos numerosos encontros que pude ter com os jovens na Itália e no mundo inteiro, recolho o testemunho de um desejo crescente de construir famílias em que se vivam os autênticos valores do amor, do respeito pela vida, da abertura aos outros e da solidariedade. Como não ver nestas aspirações a implícita contestação dos comportamentos permissivos, a que hoje a sociedade procura abaixar-se?

Queridas famílias cristãs, olhai para a necessidade de amor, de doação e de abertura à vida, presente no coração dos vossos filhos, desorientados por modelos de uniões desastrosas. Os filhos aprendem a amar o próprio esposo ou a própria esposa, olhando para o exemplo dos pais. Não vos contenteis com viver no vosso interior o Evangelho da família, mas anunciai-o e testemunhai-o a todos aqueles com quem vos encontrais no vosso caminho e em todos os âmbitos da vida pública e social.

Não estais sozinhos nesta arrojada, embora conatural, tarefa de testemunho. O Espírito Santo está convosco; habita em vós em virtude dos sacramentos do Baptismo, da Confirmação e do Matrimónio! Ele sustentar-vos-á no cumprimento da vossa missão!

3. Esta nossa cidade de Roma, bem como a Itália inteira, tem grande necessidade de uma nova e orgânica política em favor da família para poder enfrentar, com esperança de sucesso, os desafios gravíssimos que estão diante de nós, a começar pelo da diminuição da natalidade.

É ilusório julgar poder construir o bem-estar através de uma mentalidade egoísta que, de vários modos, nega espaço e acolhimento às novas gerações. Tal como se demonstra irracional a tentativa de equiparar outros modelos de convivência à família fundada sobre o matrimónio. Tudo isto conduz inevitavelmente ao declínio de uma civilização, sob o aspecto tanto moral e espiritual como social e económico.

Portanto peço-vos, famílias de Roma, bem como a todas as famílias da Itália, que unais os vossos esforços também através da acção do Fórum das famílias, para fazer valer a subjectividade social da família e obter assim aquelas transformações culturais e legislativas que podem fazer justiça às famílias e assegurar o verdadeiro bem da sociedade. Neste empenho a Igreja está ao vosso lado e não vos deixará sozinhas.

4. Caríssimas famílias de Roma, contemplando o modelo da Sagrada Família de Nazaré, recitaremos juntos a oração do Rosário. Confiemos à intercessão de Maria e do seu esposo José todas as famílias da nossa cidade e, sobretudo, as que vivem em situações difíceis. Confiemos-lhes os jovens que se preparam para o matrimónio através daquele período de graça, que é o noivado. Confiemos também quantos são responsáveis pela promoção de políticas familiares mais justas e construtivas. O Senhor abençoe todas as famílias e as torne um lugar privilegiado de encontro com Ele, para o anúncio autêntico do Seu amor.

Maria, Rainha da Família, com coração materno proteja todos vós e vos obtenha de Deus abundantes consolações.

DISCURSO DO SANTO PADRE AO PRIMEIRO EMBAIXADOR DE ANGOLA JUNTO DA SANTA SÉ POR OCASIÃO DA APRESENTAÇÃO DAS CARTAS CREDENCIAIS

Sábado, 7 de Fevereiro de 1998

Senhor Embaixador

A sua presença, hoje aqui, representa o coroamento das relações diplomáticas entre esta Sede Apostólica e o seu País, instituídas no dia 8 de Julho de 1997. É, pois, com muito prazer que recebo as Cartas Credenciais que o designam como primeiro Embaixador Extraordinário e Plenipotenciário da República de Angola junto da Santa Sé. Agradeço-lhe as amáveis palavras e delicados sentimentos que me manifestou e, em particular, os deferentes cumprimentos e votos que me transmitiu da parte de Sua Excelência o Presidente da República José Eduardo dos Santos, que quis evidenciar o dia e acto da constituição das nossas relações diplomáticas com a sua aprazível visita aqui ao Vaticano. Peço a Vossa Excelência que exprima as minhas venturosas saudações ao Senhor Presidente, juntamente com a certeza das minhas preces pela reconciliação e prosperidade do seu povo.

Estabelecendo já em Roma a residência do seu Representante, as autoridades angolanas deram provas da importância que atribuem à consolidação daqueles vínculos com o Sucessor de Pedro que a fé e a história têm vindo a forjar na alma das sucessivas gerações dos povos residentes nos territórios que hoje são Angola. Tendo eles abraçado o Evangelho de Jesus Cristo como resposta cabal aos seus anseios de salvação, por vezes sentiam-se defraudados em suas expectativas devido a limitações e misérias humanas ou a vicissitudes e contratempos da história. Ora, quando queriam testemunhar a homenagem da sua jubilosa gratidão pela fé recebida ou então quando precisavam de achar remédio para as carências pastorais ou mesmo agravos de que eram vítimas, pensavam em Roma, segundo as palavras do Senhor Embaixador, que, nesta linha, pôde interpretar a sua presença aqui como a realização de um sonho com cinco séculos. Ao dar-lhe, pois, as minhas cordiais boas-vindas a este acto de apresentação, quero assegurar-lhe a minha estima no desempenho da elevada missão que o seu Governo lhe confiou, assim como reiterar, perante Vossa Excelência, o profundo afecto que sinto por todos os filhos do seu País.

Pude, durante a minha Visita Pastoral a Angola no mês de Junho de 1992, sentir pessoalmente a calorosa adesão e amizade que os angolanos nutrem pelo Sucessor de Pedro e admirar os profundos sentimentos religiosos que brotavam dos seus corações num clamor de paz e de justiça. A feliz recordação que conservo daqueles dias tornou-se oração durante os dolorosos acontecimentos que, nos últimos meses daquele mesmo ano de 1992, abalaram a vida social e política do país, recaindo na armadilha da violência que haveria de perdurar até ao mês de Novembro de 1994, quando Angola, pelos Acordos de Lusaca e consequente formação do Governo de Unidade e Reconciliação Nacional e com a presença de todos os deputados na Assembleia Nacional, retomou o caminho do pluralismo político e da democratização da vida social.

Este caminho é difícil e cheio de obstáculos; mas a cultura da violência deve dar lugar à cultura da paz. Só uma vontade sincera de se chegar a uma reconciliação efectiva pode permitir superar as resistências e fazer com que se anteponha o bem comum aos interesses particulares. Deus abençoa os esforços corajosos de líderes clarividentes na sua busca do melhor bem da Nação. Neste sentido, junto a minha voz àquelas que se erguem de todos os lados a pedir que se concretize o mais rapidamente possível o tão desejado encontro directo entre o Senhor José Eduardo dos Santos e o Senhor Jonas Malheiro Savimbi, que – como todos esperam – fará crescer o clima de confiança e de estima recíproca, que muito contribuirá ao processo de normalização nacional e na região.

Os angolanos não vão deixar que a guerra continue a hipotecar o seu futuro, sob as formas de medo, suspeita e divisão. Na minha Mensagem para o Dia Mundial da Paz de 1997, disse que «não se pode ficar prisioneiros do passado; os indivíduos e os povos têm necessidade de "purificação da memória", a fim de que os males de ontem não voltem a repetir-se. Não se trata de esquecer o sucedido, mas de o reler com sentimentos novos, aprendendo precisamente das experiências sofridas que só o amor constrói, enquanto o ódio produz devastação e ruínas» (n° 3). Ao falar de sentimentos novos, pensava concretamente na oferta do perdão. O perdão e a reconciliação são os caminhos que permitem consolidar os vínculos de solidariedade das pessoas e dos povos. Desta solidariedade nascerá a paz verdadeira e duradoura por que todos suspiram.

Outro sentimento é o diálogo como opção de crescimento pessoal e comunitário. Todos devem favorecer o diálogo, tanto na vida pública como nos diversos sectores da vida social; isto permitirá a cada pessoa, a cada grupo ser reconhecido na sua diversidade e, ao mesmo tempo, sentir-se chamado a servir a sua pátria. A existência de grupos diferentes no seio da nação constitui simultaneamente um desafio e uma oportunidade, sobretudo para os líderes políticos e os legisladores. As autoridades civis têm necessidade de estar conscientes das reivindicações legítimas dos vários grupos, correspondendo-lhes de maneira apropriada.

Posso assegurar-lhe, Senhor Embaixador, que a Igreja e a Santa Sé querem colaborar com a Nação e os governantes angolanos, do mesmo modo que o Governo e a Nação desejam colaborar com a Igreja. O carácter desta cooperação foi claramente definido pelo Concílio Vaticano II, na Constituição Pastoral Gaudium et spes, sobre a Igreja no mundo contemporâneo: «A comunidade política e a Igreja (...), embora por títulos diversos, servem a vocação pessoal e social dos mesmos homens. E tanto mais eficazmente exercitarão este serviço para bem de todos, quanto melhor cultivarem entre si uma sã cooperação, tendo igualmente em conta as circunstâncias de lugar e de tempo» (n° 76). O homem, na sua dimensão existencial transcendental, é um lugar de encontro da Igreja e da comunidade política.

Consciente desta sua missão em favor do homem, a Igreja não pretende interferir na orientação concreta da vida político-social da nação, mas deseja, no âmbito do seu mandato, indicar aquelas motivações que recebe do Evangelho e da fé; motivações essas que ajudam a unir os corações e as mentes na construção duma sociedade sã, forte e tolerante, capaz de resolver os conflitos por meio do diálogo, duma sociedade angolana aberta ao homem e, nas relações internacionais, aberta à África e ao mundo. A Igreja apoiará todo o esforço e iniciativa cujo objectivo seja o bem comum de todos.

Senhor Embaixador, a sua presença aqui confirma que a República de Angola iniciou realmente uma nova era. Estou persuadido de que, como resultado da missão que hoje Vossa Excelência assume, os vínculos de amizade e cooperação entre a sua Nação e a Santa Sé hão-de crescer e consolidar-se. Garanto-lhe que os vários Organismos e Dicastérios da Cúria Romana estarão sempre prontos a assisti-lo no cumprimento dos seus deveres. Ao renovar os meus votos pelo bom êxito da sua missão, invoco as bênçãos do Altíssimo sobre Vossa Excelência, sua distinta família e directos colaboradores na Embaixada, sobre o Governo e o querido povo de Angola.

DISCURSO DO SANTO PADRE ÀS IRMÃS BRIGIDINAS EM CAP