Palavras-chave: Conto; Prática pedagógica; Competências gerais e específicas; Português; Espanhol



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2.3. Evolução histórica do conto


Os estudiosos atribuem uma origem oriental ao conto literário europeu que tem o seu paradigma, durante a Idade Média e o Renascimento, nas coleções-fontes que são o Pantschatantra e o Hitopadexa, datadas de séculos antes de Cristo. Outra coleção-fonte é As Mil e Uma Noites, cuja versão árabe do século VIII só virá a ser traduzida para francês no início do século XVIII, mas que resultou numa das maiores influências para a novelística ocidental europeia.

No que à literatura portuguesa diz respeito, só no século XVI aparece o primeiro contista português, Gonçalo Fernandes Trancoso que, nos seus Contos e Histórias de Proveito e Exemplo (1575), vai na linha dos seus antecessores mais diretos como foi o Libro de los Enxiemplos del Conde Lucanor et de Patronio (1355), de D. Juan Manuel. As narrativas de Trancoso tiveram larga popularidade nos séculos XVII e XVIII, muito embora esta época clássica não tenha sido propícia ao cultivo do conto. Nesta altura privilegiaram-se os apólogos ou textos exemplares de Manuel Bernardes (Nova Floresta, 1706-1728), Meditações sobre os principais Mistérios da Virgem…) e de Soror Maria do Céu (Aves Ilustradas, 1734). No início do século XIX, o caráter moralizante da narrativa perde-se para predominar a natureza histórica e real (COELHO, 1978: 213): disso são exemplo as Lendas e Narrativas (1851), de Alexandre Herculano, os Contos e Lendas (1873), de Rebelo da Silva, ou Os Meus Amores (1891), de Trindade Coelho. Com o realismo, o conto adquire maior prestígio com um Fialho de Almeida (Contos, 1881). No naturalismo, sobressai Raul Brandão, cuja obra Impressões e Paisagens (1890) nos apresenta nos seus contos uma galeria de tipos populares rústicos. O início do século XX abunda em contistas que muitas vezes aliam a esta faceta a de poeta ou de romancista. Exemplos dignos de serem postos em relevo são Carlos Malheiro Dias (A Vencida, 1907), Manuel Teixeira Gomes (Gente Singular, 1909), Mário de Sá-Carneiro (Céu em Fogo, 1915) e Almada Negreiros (Frisos, 1915). Em finais dos anos 20, o conto foi atingindo o seu auge. O conto retrata então o quotidiano em textos da autoria de Irene Lisboa (Uma Mão Cheia de Nada e Outra de Coisa Nenhuma, 1955), Branquinho da Fonseca (Caminhos Magnéticos, 1938), Miguel Torga (Bichos, 1940) ou José Régio (Histórias de Mulheres, 1946). Com o neo-‑realismo, contistas como Fernando Namora (Cidade Solitária, 1959), José Cardoso Pires (Caminheiros e Outros Contos, 1949) e Manuel da Fonseca (O Fogo e as Cinzas, 1951) aliam o psicologismo à ideologia. A lista de autores que têm cultivado o conto revela-se extensa até momentos mais recentes com José Saramago (Objecto Quase, 1984), Teolinda Gersão (Histórias de ver e andar, 2002) ou ainda Gonçalo M. Tavares (Histórias falsas, 2005).

Na literatura espanhola, o termo conto só surge no Renascimento juntamente com a palavra novela, diminutivo do latim nova, com o significado de breve notícia, pequena história. Novela chegará a designar as narrações “escritas” curtas e começar-se-‑á a empregar conto para as narrações curtas de tom popular e de caráter oral. Em épocas posteriores, a palavra novela ficará reservada definitivamente para narrações literárias mais extensas, passando a sinónimo de romance.

Em Espanha, o século XIX foi, do ponto de vista histórico, uma época muito confrontada, com duas conceções da realidade totalmente opostas. Esta situação refletiu-se inevitavelmente na literatura, a qual acabou por acusar essa falta de equilíbrio. Contudo, no último quartel deste século apareceram os três grandes mestres do conto literário: Benito Pérez Galdós, Leopoldo Alas Clarín e Emilia Pardo Bazán. Estes serão os autores que assentarão em Espanha as bases do conto literário contemporâneo e que o farão adquirir prestígio. Além disso, porque foram muito lidos nas antigas colónias espanholas na América, terão um papel fundamental no surgimento do conto literário hispano-americano.

No século XX produziram-se as primeiras recolhas sistemáticas de contos populares espanhóis. Espinosa realizou o seu trabalho de campo no início dos anos 20. Neste século XX distinguem-se três etapas bem diferenciadas do conto literário. A primeira vai até à Guerra Civil. Nela temos em primeiro lugar a chamada Geração 98 que engloba vários renovadores da estética do conto literário espanhol que trazem para o género um novo estilo e novos temas. É de destacar o trabalho de Ramón Gómez de la Serna. A segunda etapa inclui os anos do franquismo e é a mais longa. Começou com a morte ou o exílio de muitos escritores e intelectuais, alguns dos quais eram contistas importantes como Max Aub ou Francisco Ayala. Outros houve que permaneceram em Espanha e que, apesar da censura e da repressão, foram mestres do conto literário: Camilo José Cela, Miguel Delibes, Gonzalo Torrente Ballester e Ana María Matute… Nos seus contos dava-se protagonismo à gente pobre, humilde, desfavorecida, às mulheres e às crianças, inseridas em situações do quotidiano. A esta geração sucedeu outra que se designou por Geração 50, com figuras como Ignacio Aldecoa, Carmen Martín Gaite e Fernández Santos… Os temas serão semelhantes aos da geração anterior.

Depois destes haverá uma grande diversidade em que os autores utilizarão formas estéticas muito diversas. É por estes anos que começa a chegar a Espanha uma produção contista realizada na América Hispânica que constituirá a base de fixação do cânone do conto literário em espanhol. Os escritores hispano-americanos saem do realismo tradicional e abordam aspetos fantásticos. É considerando todo o relevo que o conto teve na América Latina que não posso deixar de passar em revista a sua presença na América Hispânica pois que foi um género amplamente cultivado a partir dos anos 40 do século XX até à atualidade, apresentando títulos de grande qualidade e originalidade que influíram largamente na literatura espanhola.

De entre os narradores dos anos 40 e 50, é de salientar o contributo do argentino Jorge Luis Borges com as suas Ficciones (1941-1944) e El Aleph (1949). Embora as suas narrações repitam uma série de temas obsessivos, estas caracterizam-se por uma grande originalidade estrutural. Não são de esquecer as narrações de Juan Rulfo, autor de quinze contos que compõem o volume El llano en llamas (1953) que tratam de uma realidade rural mexicana muito dura, nem as narrativas do cubano Alejo Carpentier, que em Guerra del tiempo (1956) trata do problema de definir e dividir o tempo. Dos anos 60 à atualidade assistiu-se a um boom do conto. Para além do colombiano Gabriel García Márquez (La increíble y triste historia de la cándida Eréndira y de su abuela desalmada, 1972), outros autores cultivaram o conto. O argentino Julio Cortázar mostra nos seus textos – em que se denota um certo caráter surrealista – uma realidade complexa que aparece parodiada; Historias de cronopios y de famas (1962) revelam o absurdo do quotidiano com um grande sentido de humor. O uruguaio Mario Benedetti reflete em La muerte y otras sorpresas (1968) e Con y sin nostalgia (1977) a vida diária e as circunstâncias políticas do seu país. Menção à parte merece o contista guatemalteco Augusto Monterroso que nos seus contos, autênticos micro-relatos, tende para a máxima condensação (La oveja negra y demás fábulas, 1969). Mais recentemente, o conto tem ocupado uma parte importante na narrativa de autores como Isabel Allende, Mayra Montero ou Antonio Skármeta.

Retomando a literatura espanhola, a terceira etapa começa com a morte de Franco e estende-se até final do século XX. Existe uma recuperação da denominação de “conto” que na etapa anterior tinha sido substituída pela de “relato”, por se considerar o primeiro termo ambíguo (visto que se podia confundir com o conto infantil ou o conto popular); no entanto, esta é a denominação mais adequada porque a palavra “conto” tende a ser mais específica do interesse por um texto com certas particularidades e o termo “relato” é de uma aceção mais generalizada, reportando ao modo do discurso narrativo. A temática nesta terceira etapa move-se entre o simbólico, o fantástico e o expressionista.

O conto literário nunca foi digno de uma receção considerável nem relativamente ao número de leitores que se reduz a uma minoria especializada e culta, nem quanto ao sistema educativo, que nunca aproveitou o enorme potencial que representa o conto, nem quanto às editoras de que só as muito especializadas em literatura publicam contos. O conto tem na vida literária espanhola uma existência muito efémera.




CAPÍTULO III




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