Os desafios de construir pontes entre a unidade básica de saúde e o centro de educaçÃo infantil



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Mal Estar Contemporâneo e Impasses na Educação

OS DESAFIOS DE CONSTRUIR PONTES ENTRE A UNIDADE BÁSICA DE SAÚDE E

O CENTRO DE EDUCAÇÃO INFANTIL

Relato de uma experiência

Mira Wajntal

Quando pensamos em "linha do tempo" de uma história pessoal nos ocorrem os fatos marcantes, compostos de particularidades que dizem respeito a uma subjetividade, uma coisa singular desta pessoa; ou pensamos em fatos históricos que marcaram ou transformaram uma sociedade.

Recentemente, ao iniciar o desafio como psicóloga que trabalha em uma Unidade Básica de Saúde, de realizar intervenções dentro das instituições de ensino infantil, conheci uma "outra concepção" de "linha do tempo". Esta se refere às condições de continuidade e igualdade de uma rotina. Uma garantia que as necessidades básicas de uma criança aconteçam rotineiramente e igual para todos. Nesta concepção de linha do tempo não está incluído o particular, nem o subjetivo - mas sim o coletivo e anônimo. Não contempla, também, um acontecimento ou marcas transformadoras.

Ao visitar o Centro de Educação Infantil (CEI), logo surge a pergunta de como intervir e construir um projeto que atenda as necessidades da escola e os objetivos da saúde mental?

Para tanto, vamos à nossa linha do tempo, aquela que lembra da tradição das Equipes de Saúde Mental do Serviço Público em trabalhar com as escolas. Desde meados dos anos 901, a partir da noção de inclusão escolar e intervenção precoce, ao lado das novas contribuições das pesquisas realizadas no Pré-Aut (Laznik 2004), na França, e da Pesquisa Multicêntrica dos Indicadores de Risco do Desenvolvimento Infantil (IRDI) (Kupfer Et All 2008/ 2009), no Brasil, os trabalhadores da rede pública de assistência à saúde têm o desafio de desenvolver estratégias de aproximação e intervenção junto aos professores. Estes são os principais atores da política de inclusão e, mais recentemente, alvo da discussão sobre sua possível contribuição para detectar o sofrimento psíquico de seus alunos, de forma a encaminhá-los para que tenham um acompanhamento das equipes de saúde.

Atualmente, o Programa da Saúde na Escola (PSE), Ministério Público (2009), prevê que avaliações clínicas periódicas multidisciplinares permitam identificar e atuar sobre fatores de risco, de forma preventiva, contribuindo para a redução da morbidade e da mortalidade.

Embora o PSE se paute na avaliação individual de cada criança, a experiência clínica e institucional, baseada nos pressupostos da psicanálise, demonstra que o trabalho com as equipes de uma instituição, muitas vezes, é uma intervenção mais eficaz em saúde do que apenas uma avaliação individual de cada criança.

As pesquisas dos IRDI e o Pré-Aut também forneceram instrumental para refletir e treinar os professores, com o intuito de sensibilizá-los da importância da qualidade de suas ações (Bernadino 2008).

A entrada do profissional de saúde na escola mobiliza a equipe de educadores, não apenas de forma positiva, mas, também, evidenciando uma série de conflitos, requerendo do profissional traquejo e manejo institucional. Muitas vezes, os educadores repetem, sem perceber, atualizando em atos, angústias que mais se relacionam com vivências de seus alunos (Laznik 1989) e fazem reivindicações para os profissionais de saúde referente a aspectos dos quais eles mesmos se sentem vítimas. Isto irá requerer um outro trabalho junto à equipe docente com o objetivo de simbolizar e representar estes mecanismos, minimizando suas manifestações.

Inicialmente, a partir do Programa Saúde na Escola, o psicólogo da unidade fez quatro visitas ao Centro Educacional Infantil (CEI) da área de abrangência da unidade. Até então, a unidade de saúde mantinha o projeto com ações de saúde bucal e acompanhamento do crescimento, consequentemente, a avaliação e perfil do peso e obesidade na infância.

A primeira visita foi para estabelecer vínculo e contrato com a instituição. Neste primeiro encontro, o psicólogo foi acompanhado pela coordenadora e a dentista da unidade. Ficou combinada uma segunda visita, em que o psicólogo observaria e conheceria a escola, professores e crianças. Constatamos que a escola é muito bem equipada, possui 117 crianças matriculadas. A média de professores por aluno obedece mais ou menos à seguinte proporção: de 0 a 18 meses: 1 professor para 7 bebês; acima de 18 meses: 1 professor para 14 crianças. A jornada dos professores dos CEI conveniados abrange o dia inteiro.

Existe um grande empenho em seguir "a linha do tempo" - para garantir o horário da alimentação e sono das crianças, com um prejuízo de um atendimento mais individualizado, fazendo com que as trocas afetivas com as crianças sejam menores. As crianças "mais barulhentas"2 recebem bastante atenção, mas nunca são reconhecidas em seu sofrimento.

A terceira visita foi uma conversa com os professores, partindo de um material organizado pela psicóloga, procurando sensibilizar e mobilizar os mesmos sobre os aspectos subjetivos que estão em jogo na sua missão e participação na criação destas crianças. Abordamos os seguintes temas:


  • Discussão de cenas e dificuldade cotidianas

  • Diversidade cultural

  • O comportamento do bebê tem valor de comunicação - Um bebê não existe sozinho.

  • A série barulhenta / A série silenciosa (Crespin 2004)

  • O acontecimento psíquico - Ao supor uma necessidade para o filho, o cuidador estará criando uma nova ordem de realidade.

  • Alienação e Separação.

  • Diferenciação entre o eu e o outro.

  • O Jogo dos valores entre pais e bebês (circuito pulsional)

  • Os 4 eixos da pesquisa IRDI: Suposição de um Sujeito; Estabelecimento de uma Demanda; Alternância entre Presença e Ausência; Função Paterna)

O material apresentado para as professoras se mostrou bastante mobilizador, levando a uma discussão profunda e profícua. A maioria dos participantes pode refletir sobre o fato de que seus cuidados serem substitutivos da maternagem, uma vez que as crianças passam a maior parte do dia com eles, e que tal cuidado implica em poder supor um interlocutor que tenha uma demanda, e seja portador de uma história e de uma subjetividade.

Ao lado disto, também surgiu o fato de que as famílias vêm terceirizando cada vez mais suas funções, cobrando ostensivamente do professor os problemas e as manifestações de sofrimento dos filhos.

Para o quarto encontro que se destinaria a uma conversa com os pais, organizamos um material para conversar com os mesmos, elaborado a partir das angústias e queixas dos professores. Falamos sobre as dificuldades dos pais em dar limites e ser aqueles que deveriam se encarregar de transmitir as regras e a cultura. Pensamos em discutir com a comunidade a terceirização da função da família para a escola (Bernardino & Kupfer 2008).

Infelizmente houve baixo comparecimento dos pais, e a reunião contou mais com o comparecimento do corpo docente da escola, mas o conteúdo fez com que os professores refletissem agora como pais.

A presença do psicólogo demonstrou ser profícua, embora tenha encontrado diversas dificuldades. Ao longo destas visitas, o psicólogo visivelmente foi estabelecendo uma relação de confiança com o corpo docente, possibilitando um aprofundamento nas discussões, tanto do papel do professor, quanto na condução de "situações problemas" trazidas para serem debatidas. É claro que uma parte sempre se mostra avessa, exigindo, por exemplo, que lhes ensinem atividades pedagógicas para solucionar o problema da criança que não vai bem.

Os profissionais estão bastante sobrecarregados, impedindo que consigam exercer de forma mais afetiva suas funções. Suas ações visam mais a rotina de asseio, sono e alimentação. Também puderam verbalizar a dificuldade específica que têm com algumas crianças. Nesta hora, aparece muito a ideia dos problemas serem resultantes da ação dos pais. Pudemos, então, mostrar como os professores estão enredados nas repetições das histórias familiares destas crianças, procurando fornecer um instrumental para que eles não fiquem tão tomados e possam se diferenciar desta invasão de sentimentos.

Trata-se do fato dos adultos que se ocupam da criança estarem induzidos a viver papéis dos quais jamais se imaginaram desempenhando. Isto é, realizam junto com a criança um tipo muito particular de rememoração, desempenhando e agindo de forma estranha para eles mesmos. Com freqüência, o educador terá a sensação de não se reconhecer ao tomar uma atitude, mas, inevitavelmente, diante desta criança, protagoniza este papel.

Por fim, procuramos discutir como os pais depositam na escola a expectativa que esta seja a solução das dificuldades que as famílias enfrentam para cuidar dos filhos. Este movimento também se repete diante dos profissionais de saúde, quando visitam a escola. Ou seja, a escola elenca uma série de "crianças problemas", como se todas as soluções coubessem ao profissional de saúde mental. Esta é mais uma vertente da repetição.

Esta experiência vivida pelo psicólogo da Unidade Básica de Saúde na escola, vem ilustrar um potente caminho de intervenção em saúde mental, no qual o foco está baseado nas dinâmicas de trabalho e constituição das relações subjetivas, deixando um pouco de lado a tradicional avaliação do desenvolvimento de cada criança. Este foco permite, inclusive, que o sofrimento psíquico de uma criança deixe de ser qualificado como bom ou mal desempenho e seja valorado em sua função de comunicação. Inicialmente a preocupação era sempre das crianças da série barulhenta, mas depois das conversas/treinamentos os bebês da série silenciosa passaram a ser reconhecidos como sinal de sofrimento.

Ao longo deste ano de trabalho, pude observar como muitos dos conflitos que pareciam impossíveis foram se dissolvendo e o funcionamento das classes acontecendo de forma mais harmoniosa.




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