Operários da undécima hora os Agostinianos Recoletos no Brasil: Criação da Província de Santa Rita de Cássia e o impacto do Concílio Vaticano II



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OPERÁRIOS DA UNDÉCIMA HORA

Os Agostinianos Recoletos no Brasil: Criação da Província de Santa Rita de Cássia e o impacto do Concílio Vaticano II.
Sérgio Peres de Paula

Mestrando

Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho”

Faculdade de História, Direito e Serviço Social – Campus de Franca



sergioppaula@uol.com.br
Durante a segunda metade do século XIX, a Igreja no Brasil passou por algumas transformações, como por exemplo, a polêmica entre liberais e ultramontanos, muito bem expressa na chamada “Questão Religiosa”, que dividiu opiniões e muito afetou o segundo reinado. A obra de Johann Joseph Ignaz Von Döllinger, sob o pseudônimo de Janus, traduzida por Rui Barbosa com o título de “O Papa e o concílio” expressa muito bem as contestações contra a tendência ultramontana, conservadora e centralizadora do poder religioso na Igreja Católica, impulsionada sobretudo pelo papa Pio IX e corroborada pelo Concílio Vaticano I, em 1870. Nesta obra, Von Döllinger protesta contra a proclamação do dogma da infalibilidade papal, procura mostrar como historicamente a cúria romana manobrou e forjou uma legislação e interpretações que foram assumidas gradativamente na tentativa de fortificar o poder papal, em detrimento da submissão dos bispos e dos concílios. Em seu comentário à obra, Rui Barbosa igualmente reage à tendência ultramontana evidenciada na Questão Religiosa no Brasil no mesmo período e no final elabora algumas propostas de novas formas de relação entre Igreja e Estado no Brasil, propondo a separação e a autonomia de ambos, com a supremacia da soberania nacional e nenhum tipo de ingerência da Santa Sé nos negócios internos do país. (JANUS, 2002)
Augustin Wernet, estudando as tensões internas da igreja católica neste mesmo período em São Paulo, classifica o clero em duas grandes facções: o “clero iluminista”, ilustrado, fruto da reforma pombalina, perfeitamente inserido no sistema de padroado e no regalismo do Império brasileiro; e o “clero ultramontano”, que apoiava as teses antimodernistas de Pio IX, a centralização do poder interno da igreja na Santa Sé e na figura do Papa, a total autonomia da Igreja frente ao Estado e a supremacia daquela sobre este. O nome mais expressivo para a reforma ultramontana, segundo Augustin Wernet, foi D. Antônio Joaquim de Melo, apoiado em grande parte pelo clero da região de Itu. (WERNET, 1987)
Uma obra mais recente de Dilermando Ramos Vieira, sob o título de “O Processo de Reforma e Reorganização da Igreja no Brasil” (1844-1926), em cinco capítulos, aborda as diversas formas de relação entre a Igreja e o Estado desde o Período Colonial até a Primeira República. No primeiro capítulo, o autor faz uma abordagem sobre a reforma pombalina e a reorganização da Igreja sob os ideais iluministas e como esta reforma se impôs como modelo eclesial em toda primeira metade do século XIX. No segundo capítulo, o autor trata da busca de um novo modelo eclesial, com gradativo avanço do pensamento “ultramontano” e do alinhamento da vida religiosa, das congregações masculinas e femininas, com as diretrizes romanas. O confronto entre a Igreja “ultramontana” e o modelo eclesial inserido no ambiente sócio-cultural e político do segundo império, evidenciado na “Questão Religiosa”, debatida nas discussões parlamentares e na imprensa, é tratado pelo autor no terceiro capítulo. Com o advento da República e a separação entre a Igreja e o Estado, fez-se necessária uma adaptação daquela à nova realidade, o Estado laico. De uma desconfiança e ataques mútuos no início, o autor mostra que gradativamente estabeleceu-se uma política de boa convivência entre ambas instituições. Este é o assunto discutido no quarto capítulo desta obra. Por fim, o autor trata da multiplicação no país das dioceses, das congregações religiosas e de uma intensa reorganização institucional da Igreja nas primeiras décadas do século XX, chamada pelo autor de período da “Belle Époque”. Neste período, teria emergido uma “inteligência Católica” de grande peso político. (VIEIRA, 2007) Uma fonte que deixa transparecer as dificuldades iniciais de adaptação da Igreja com o novo regime republicano é o manuscrito de D. João Batista Corrêa Nery, primeiro bispo da Diocese de Vitória, intitulado “Visitas Pastoraes”, escrito entre os anos 1892-1899. (NERY, ?)
O brasilianista Scott Mainwaring, estudando o desenvolvimento do pensamento social e político da Igreja católica durante o século XX, divide as formas de relacionamento com o Estado em alguns períodos. Na primeira metade do século, o autor distingue três períodos: A Igreja da neocristandade (1916-1955); a Igreja reformista (1955-1964) e o desenvolvimento da esquerda católica (1958-1964). Neste período, destaca-se a ação do cardeal Leme e a criação da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil como órgão representativo da Igreja Católica no país. Em seguida, o autor trata das relações tensas e ambíguas entre a Igreja e o regime militar, dando um destaque especial às tensões entre a Juventude Operária Católica e a hierarquia eclesiástica. Na última parte, o autor faz uma abordagem sobre a Igreja e a abertura política até 1985. Neste período, a ênfase dada pelo autor é quanto ao desenvolvimento da “Igreja popular”, para ele, uma peculiaridade da Igreja no Brasil.(MAINWARING, 2004)
Sob o ponto de vista mais específico e interno da formação sacerdotal, Kenneth P. Serbin analisa os papéis sociais, o poder econômico e as origens étnicas do clero no período colonial e no Império, dando ênfase à questão do celibato e à campanha pelo seu fim, promovida por Pe. Feijó. O autor afirma que a partir de 1840 instaura-se um novo regime disciplinar interno e implantam-se os seminários no país. A partir daí, o celibato tornou-se uma verdadeira obrigação, com muitas falhas, no entanto. O concílio Vaticano II (1962-1965) suscitou novos pensamentos e experiências que abriram as portas para diversas formas de contestação e inovação. Buscou-se um novo modelo de padre moderno e engajado nas questões sociais. Muitos seminários de formação de estilo tradicional foram deixados e criaram-se novos estilos de formação sacerdotal, inspirados sobretudo pela teologia da libertação, rebatidos, no entanto, nos últimos anos do pontificado de João Paulo II. As polêmicas em torno do celibato, das questões sociais e das relações com a Psicologia Moderna, sobretudo após o Concílio Vaticano II são o foco principal de abordagem deste autor na obra “Padres, Celibato e Conflito Social”. (SERBIN, 2008)
Em três volumes, com relatos sobre a expansão ou dispersão dos frades agostinianos pela América e a situação dos mesmos em Espanha, abrangendo três décadas, a partir de 1899, a “Crónica de La Província de Santo Tomás de Villanueva” constitui uma importante fonte a ser analisada criticamente. Aí estão registradas informações sobre a chegada dos frades no Brasil em 1899, rumo à Diocese de Uberaba, a pedido do bispo local, D. Eduardo Duarte da Silva, que necessitava de padres para atender sua diocese extensa e com clero muito limitado. As crônicas relatam conflitos com o clero local e com o próprio bispo; conflitos no atendimento aos nativos devido às diferentes formas de viver a religião e aos costumes regionais, estranhos aos missionários e conflitos que mostram a tendência “ultramontana” dos frades em choque com os liberais e maçons. Maria Aparecida Chiarelo da Silva, em sua tese de mestrado, intitulada “Os Agostinianos Recoletos e a Romanização do Catolicismo em Franca - SP (1918-1958), dissertou sobre a relação entre a reorganização institucional da Igreja no Brasil dentro do projeto ultramontano e a vinda dos agostinianos recoletos para o Brasil e, mais especificamente, para Franca. Aí, ela mostra como os frades, apesar das resistências, implantaram na igreja francana o modelo de Igreja ultramontano. (SILVA, 1998) Um dos elementos encontrados nestas e outras fontes como os boletins oficiais, livros de “Fatos Notáveis” é a resistência dos frades quanto à formação de um clero nativo. Até a década de 1930, as iniciativas de formação dos religiosos visavam apenas elementos de origem espanhola, no Seminário Nossa Senhora Aparecida, em Franca, interior de São Paulo. A partir daí, com a criação do Seminário São José, aos poucos, elementos nativos são admitidos no quadro de pessoal da Ordem dos Agostinianos Recoletos, na Província de Santo Tomás de Vilanova. No final da década de 50 do século XX, em meio à euforia desenvolvimentista da reconstrução da Europa pós-guerra e da política de Juscelino Kubitschek, de uma Espanha ainda em recuperação econômica pós-guerra civil, das aspirações de renovação estrutural da Igreja durante o papado de João XXIII, uma forte tensão se cria entre um grupo de religiosos de uma pequena ordem religiosa de origem espanhola no Brasil: a Ordem dos Agostinianos Recoletos.
A Ordem dos Agostinianos Recoletos surgiu na segunda metade do século XVI como fruto da chamada Contra-reforma, desmembrando-se da Ordem dos Eremitas de Santo Agostinho, à qual pertenceu o líder da Reforma Protestante, Martinho Lutero. Normalmente as ordens religiosas se organizam administrativamente em “províncias”. Em 1588, foi aprovado pelo capítulo da província de Castela, Espanha, que um grupo de religiosos tivesse casas próprias para viver a espiritualidade do que se chamou “recoleção” ou “descalcez”, com acentuada ênfase em práticas ascéticas. A partir de 1589, os religiosos reformados começaram a viver o novo estilo no convento de Talavera de La Reina. O grupo de conventos destinados à vida recoleta constituiu-se em seguida como uma “província” da ordem em 1602 e, em seguida, conseguiu uma maior autonomia, adquirindo o estatuto de “congregação”, em 1621, ainda subordinada à Ordem dos Eremitas de Santo Agostinho (AGOSTINIANOS RECOLETOS, 1997). A nova congregação, a serviço do rei de Espanha, mesmo que tivesse um caráter contemplativo, assumiu trabalhos missionários no oriente, nas Ilhas Filipinas, Japão e China.
No final do século XIX, devido à guerra hispano-americana e à vitória dos Estados Unidos em franca expansão pelo oriente, os espanhóis foram expulsos das Ilhas Filipinas e, com eles, os frades agostinianos recoletos que lá trabalhavam. Por isto, em 1899, um grupo de frades, em sua maioria, destes que foram expulsos das Filipinas, a pedido do bispo de Uberaba, veio para o Brasil, para trabalhar nas dioceses extensas e sem clero suficiente para atender a população. No Brasil, os frades se espalharam por vários lugares, entre eles, Pará (sobretudo na Ilha do Marajó), Bahia, Espírito Santo, Rio de Janeiro, Triângulo Mineiro e, posteriormente, interior de São Paulo, na região de Ribeirão Preto. Depois de 60 anos de trabalho no Brasil, os frades agostinianos recoletos haviam assumido duas prelazias (Marajó, no Pará, e Lábrea, no Amazonas) e construído um seminário menor em Ribeirão Preto e outro, onde se faziam os estudos posteriores (noviciado, filosofia e teologia) em Franca, ambos no interior de São Paulo, e se encontravam dispersos em várias casas, onde trabalhavam sobretudo com paróquias, que faziam parte da Província de Santo Tomás de Vilanova, com casas também na Venezuela e Argentina, além da Espanha. Ao final da década de 50 também haviam iniciado atividades no campo educacional, com o Colégio Santo Agostinho, no Leblon, Rio de Janeiro, Colégio Macedo Soares, Volta Redonda, no Estado do Rio de Janeiro, e outro colégio em Muqui, interior do Espírito Santo.
Em 1960, no Brasil, segundo o relatório do padre vigário provincial da Província de Santo Tomás de Vilanova, Fr. Ángel Criado, o quadro de pessoal se compunha em 114 sacerdotes, 29 “coristas” (estudantes de filosofia e teologia), 12 irmãos e 110 estudantes de “Latinidades”. Dentre os sacerdotes, 34 eram brasileiros. (CRIADO, Relatório, 1960) Nesse período, uma forte tensão, que se apresentava de forma nacionalista, tomou conta dos frades, dividindo-os em dois grupos: os “espanhóis” e os “brasileiros”. Destes grupos, os “brasileiros”, entre os quais alguns frades espanhóis, reivindicavam a criação de uma “província brasileira”. Tal reivindicação foi levada a conhecimento do Núncio Apóstólico no Brasil, Armando Lombardi, através de um abaixo-assinado, chamado de “Memorial” nas cartas, solicitando sua intervenção.
Antes da elaboração deste “Memorial”, no entanto, um relatório do então provincial da Província de Santo Tomás de Vilanova, Fr. Santiago Dolado, datado de 19 de outubro de 1955, assim intitulado “Relação da Província para Capítulo e esboço de divisão de Província”, já apontava a situação tensa e a necessidade da criação de uma província brasileira. Para Fr. Santiago, a observância regular no Brasil era insatisfatória, em relação ao que pediam as Constituições, o Cerimonial e as ordens do generalato. Isto se devia sobretudo, segundo ele, ao descuido dos superiores, por um lado, mas principalmente à intemperança e ao espírito liberal dos frades, que não se submetiam às pequenas observâncias por três razões: por receio de serem rotulados de rigoristas e intransigentes; porque os lugares para os atos comunitários, como refeitório e coro, eram impróprios e, finalmente, por falta de espírito de ordem e de uma formação religiosa e piedade sacerdotal sólida. Notava-se também uma deficiência na parte intelectual devido à falta de educadores e professores competentes. Ele afirmava que havia boa vontade e um esforço louvável, mas os professores não eram especializados nas matérias que lecionavam. Para suprir um pouco desta deficiência, havia 17 jovens religiosos realizando cursos superiores na Universidade Católica do Rio de Janeiro, 01 em Vitória, 01 em Uberaba, 02 em Buenos Aires, 04 em Salamanca e 02 em Roma. Com isto esperava-se solucionar adequadamente as necessidades. Quanto à criação da nova província, “dado o ambiente, forçado ou não; fictício ou real, é necessária”. Para o provincial, o antagonismo entre brasileiros e espanhóis na província no Brasil estava em pleno desenvolvimento e a criação de uma província brasileira seria uma forma de cortá-lo pela raiz. Assim, evitar-se-ia um choque desagradável, escandaloso e de consequências imprevisíveis. O provincial justifica como causa deste antagonismo a mentalidade colonial e rebelde dos brasileiros. “O brasileiro em geral e o religioso em particular tem um conceito colonial, e daí seu nacionalismo exagerado. Não chega a compreender a independência econômica do estrangeiro. Por isto se revolta, ao saber que o dinheiro pátrio vai para fora da nação.” Como medida para suavizar a tensão ele propõe a construção de um grande “Colégio Apostólico”. Para isto, já se havia adquirido um terreno de 50.000 m2 em Ribeirão Preto, mas, mesmo assim, ele não acreditava que os brasileiros se contentariam e que a criação da nova província era uma necessidade moral. A realidade da província, no entanto, naquela ocasião, era séria e crítica, principalmente por causa das dívidas na Espanha, que se somavam a aproximadamente 10 milhões de pesetas, mas que poderiam ser saldadas com certa facilidade. Para ele, a divisão da província deveria se fazer por casas, da seguinte forma: a nova província seria composta pelas casas de São Paulo (capital), convento de Franca e mais duas paróquias nessa cidade, Ribeirão Preto, colégio e paróquia de Muqui no Espírito Santo, Colégio de Volta Redonda, Manaus, Cachoeiro, Vitória, Fazenda do Centro (fazenda e paróquia), Pedregulho, Patrocínio Paulista, Igarapava, Santa Rosa de Viterbo, Paraguaçu Paulista, Presidente Wenceslau e Prelazia de Lábrea, com um total de 75 sacerdotes; a província de Santo Tomas de Vilanova ficaria com as casas na Espanha, Argentina e no Brasil com as seguintes: Leblon e São Januário, no Rio de Janeiro, Belém do Pará e Prelazia de Marajó, totalizando 113 sacerdotes. (DOLADO, 1955)
Uma cópia do abaixo-assinado, chamado pelos frades de “Memorial”, enviado ao Núncio Apostólico, foi também dirigida ao Prior Geral da Ordem, Fr. Eugênio Ayape, como anexo de uma carta datada de “março de 1960”. A carta segue assinada por 09 frades que atuavam no Colégio Macedo Soares, em Volta Redonda, RJ, e o “Memorial” por 38 assinaturas, sendo 08 delas de frades espanhóis.
O “Memorial” deixa claro um grande otimismo dos frades do grupo dos “brasileiros” “em face dos últimos e notáveis progressos de nossa Ordem no mundo”. Nele, os frades, conhecedores da rigidez hierárquica e das possíveis interpretações e sanções de um manifesto assim, afirmam que o mesmo não “expressa insubmissão ou rebeldia, mas objetiva o engrandecimento e bem-estar da Ordem no Brasil”. Em seguida, fazem as considerações que os motivaram a escrever o manifesto, assim resumidas:


  1. Após 60 anos dos recoletos no Brasil, constatava-se um grande desequilíbrio entre muito trabalho e pouco progresso. Comparando-se ao crescimento de outros institutos religiosos nesse mesmo período, o desequilíbrio revelava-se ainda maior.

  2. Tudo caminhava em ritmo lento e pesado, sem perspectivas de renovação e melhoria. Os recursos financeiros adquiridos no Brasil não eram aplicados aqui.

  3. A exigüidade numérica de religiosos brasileiros era expressão dessa realidade. O seminário maior e menor existentes não atendiam às necessidades e possibilidades. As promessas de construção de um seminário grande não se cumpriam.

  4. A grande extensão territorial da província, a multiplicidade de circunstâncias locais peculiares à Espanha, Brasil, Argentina e Venezuela dificultavam a administração central da mesma. “Cremos, afirmam os frades que assinaram o manifesto, que aqui vale o princípio tático: “Divide et vinces” (o grifo é do próprio texto do documento).

  5. Tal situação criava “um ambiente de desinteresse, apatia e arrefecimento dos ideais de crescimento e progresso”.

O documento se encerra com expressões de reconhecimento e gratidão ao trabalho dos espanhóis, “cremos, contudo, ter chegado a hora de nossa maturidade e emancipação”, afirmaram aqueles frades.


A carta dirigida ao Prior Geral, que encaminha o “Memorial” reforça as aspirações daquele grupo. Nela, os frades afirmam que expressavam ali seu desejo de apresentar “sugestões” e não “ditar normas” e de recorrer ao Prior Geral numa relação filial, esperando compreensão. Procurou-se reforçar a informalidade do gesto, não protocolando “propositalmente” a carta, “visando a espontaneidade e sinceridade exigidas entre “pai e filhos”. Para eles, o objetivo do manifesto era o desejo de dinamizar a marcha do crescimento da Ordem no Brasil, emperrada, no parecer deles, pela persistência da morosidade em que se encontrava. Para eles, as reivindicações se resumiam em duas:


  1. A criação de um seminário capacitado para formar um maior número de seminaristas, uma vez que os atuais eram pequenos e encontravam-se em precárias condições. Segundo eles, a realidade vocacional no Brasil, era muito promissora, no entanto, as vocações recoletas brasileiras eram sempre relegadas a um segundo plano. Quando se solicitava a criação de um seminário, as autoridades hierárquicas da província alegavam a precariedade financeira. O tempo passava e a situação não se modificava. “Entretanto, afirmavam eles, estamos convencidos de que, enquanto as Casas de Espanha estiverem dependendo de nossa Economia, o problema será insolúvel. Verdade é que se justifica o atual estado de coisas com a seguinte razão: a Espanha fornece vocações ao Brasil e o Brasil, o dinheiro”. Acreditava-se muito fortemente na “auto-suficiência em vocações”, no Brasil naquele momento, e que tais vocações nativas seriam as que melhor corresponderiam e se adaptariam às necessidades locais. Mesmo em se reconhecendo o mérito dos confrades espanhóis, o próprio papa “desejou o incremento do clero indígena”.

  2. A criação de uma Província Recoleta Brasileira e não uma simples divisão territorial da província aqui já existente.

O conteúdo destes documentos revela uma linguagem cautelosa, que apela aos sentimentos de compreensão e bondade do superior geral e sinceridade e espontaneidade dos reclamantes, assim como procura anular as formalidades burocráticas, buscando-se um relacionando mais próximo. Nas reclamações feitas, há um forte acento no otimismo vocacional e na insatisfação econômica, não provocadas pela falta de recursos, mas pela falta de investimentos no setor vocacional e resistência às reivindicações dos frades brasileiros. (AAVV, 1960)


Quando o manifesto, ou “Memorial”, foi dirigido ao superior geral, este já se encontrava a par da situação, pois o Núncio Apostólico Armando Lombardi já havia escrito uma carta a ele, datada de 25 de fevereiro de 1960, na qual manifestava sua apreensão ante a situação criada entre os religiosos por causa do problema da ereção de uma província brasileira independente. Sem querer interferir nas decisões internas da ordem, o núncio considerava “prudente atender o desejo dos religiosos brasileiros” (LOMBARDI, 1960). O superior geral responde-lhe, em carta datada de 12 de março de 1960, agradecendo as impressões pessoais sobre o problema e comunicando que a cúria geral considerava conveniente a criação da nova província no Brasil, mas “por outras razões”, no entanto, não explicita quais são elas. (AYAPE, 1960)
Se as cartas referidas acima são cautelosas e moderadas em sua linguagem, embora não ocultem a situação tensa, a carta de Fr. Ángel Criado, vigário provincial da Província de Santo Tomás de Vilanova, no Brasil, assinada por mais três frades e o secretário, não esconde a situação de mal-estar entre os dois grupos, chamados de “os espanhóis”e “os brasileiros”. Tal carta, de 23 de fevereiro de 1960, foi dirigida ao Prior Geral, Fr. Eugênio Ayape para informar exatamente sobre o clima de tensão existente na vigararia da Província de Santo Tomás de Vilanova no Brasil. Nela, o vigário provincial diz que já havia comunicado em cartas anteriores a respeito do “movimento empreendido por todos ou quase todos os Religiosos Brasileiros, que almejam, “POR FAS O POR NEFAS” (segundo expressão de alguns deles), à criação da nova Província brasileira”. Tal tendência ou aspiração era unânime entre os brasileiros e “não faltaram expressões depreciativas carregadas de mal encoberta odiosidade contra os legítimos Superiores, por parte dos mais exaltados”. O vigário provincial já se encontrava ciente da existência do abaixo-assinado, o “Memorial” dirigido à Nunciatura Apostólica no Brasil, para justificar e fundamentar o seu intento e solicitar o apoio e intercessão em favor do movimento. Por isto, o núncio o chamou para uma entrevista no dia 18 de fevereiro, e lhe manifestou o “profundo mal-estar e descontentamento imperante no setor brasileiro, coisa que não era segredo nem para religioso nenhum”. Como causas do descontentamento, o vigário provincial aponta as seguintes:


  1. Remessa de todo dinheiro para a Espanha;

  2. Desinteresse pelas coisas do Brasil;

  3. Perseguição, por parte do provincialato, aos religiosos que desejavam e brigavam pela criação da nova província.

Junto ao núncio, o vigário provincial justificou o movimento como sendo de um nacionalismo exacerbado e raivoso. Para a cúria geral, apresentou, no entanto, as seguintes considerações:




  1. Reconhece que havia de fato no Brasil um profundo mal-estar, proveniente do desejo da criação da Província Brasileira, “desejo exacerbado e agudizado pela campanha sistemática e insidiosa promovida pelos Religiosos Brasileiros, que anseiam completa independência e pensam que só eles, com liberdade de movimentos e livres dos laços espanhóis, prosperarão brilhante e prodigiosamente” (o grifo é do próprio texto do documento). Para ele, o movimento empreendido, que ele chama de “movimento libertário”, não está cheio de pureza de intenções, mas também repleto de sentimentos menos nobres de aversão e hostilidade em relação aos espanhóis. Dentre as intenções menos nobres, estaria uma tendência dissimulada de relaxamento da disciplina conventual, “que consideram ultrapassada e fruto temperamental da idiossincrasia ibérica”.

  2. Propõe que a divisão da província seja feita de forma “justa e equitativa”, e “não como exigência ou imposição de um grupo nacionalista exagerado brasileiro, que não está em condições de calcular todas as conseqüências da emancipação que patrocinam”. O clima tenso e agitado, segundo ele, impede “que se proceda com calma, claridade e caridade”. Aponta como condição para a criação da nova província que a província-mãe ficasse bem amparada economicamente e provida no seu quadro de pessoal.

  3. Alega que cerca de 25 sacerdotes, dos 34 brasileiros, estariam dispostos a abandonar a Ordem, caso não houvesse a divisão da província. A isto ele chamou de “dispersit brasileiro”.

Em seguida, o vigário provincial levanta 04 hipóteses para a divisão da província, que na verdade se reduzem a duas:




  1. A divisão por nacionalidade, considerada simplista demais, além de que os sacerdotes brasileiros não seriam suficientes para suportar “o peso das Cargas e casas de uma Província” e duvida-se de sua competência para manter um estilo de vida religiosa (“além disto, considerando o conceito que os brasileiros nutrem em relação à observância regular e à econômica, é de temer que o fracasso e não o êxito fosse o fruto desta solução”).

  2. A divisão por casas, considerada mais justa e mais fraterna, com maior possibilidade de êxito, sobretudo porque acabaria com o mal-estar e discórdias existentes, uma vez que “o estado de ânimo principalmente no setor brasileiro não é nada traquilizador. Há agressividade, atrevimento, desprezo e um fundo de odiosidade contra tudo o que seja espanhol, o que longe de declinar, tende a aumentar cada dia que passa”.

Quando se tratou da divisão por casas, logo já se citou as casas e propriedades que a província-mãe não poderia abrir mão: casa e colégio do Leblon (Rio de Janeiro); casa e paróquia de São Paulo (capital), propriedade em S. José dos Campos e, se possível, a casa em São Januário, no Rio de Janeiro, que são casas de economia mais forte e sadia. Há uma forte ênfase em manter a casa de São Paulo, capital, para a província-mãe, alegando-se o clima mais benigno e suave, em relação ao clima extremamente quente do Rio de Janeiro. “Por outro lado, São Paulo é indubitavelmente a melhor casa da Província, a melhor Igreja, tudo construído UNICAMENTE com o trabalho e sacrifício dos espanhóis, e não seria justo que ficasse com os brasileiros, operários da undécima hora e que nada ou apenas sentiram o peso e o calor do dia” (o grifo é do próprio texto). (CRIADO, Carta, 1960)


Em outra carta, de 02 de março de 1960, escrita por Fr. Martin Braña, conselheiro geral, em Roma, dirigida a Fr. Ángel Criado, vigário provincial, no Rio de Janeiro, o autor da carta orienta o destinatário a proceder com cautela, quando se tratava da nova província. “Antes de tudo, suma reserva, sem deixar transluzir nada” e que se realizassem as mudanças consideradas mais prudentes do pessoal espanhol que pertenceriam à “Província Espanhola”. Por ocasião desta carta, o conselheiro geral deixa claro que a criação da nova província já era fato consumado: “Em princípio, FOI APROVADA a nova criação. Está subordinada a tornar-se efetiva imediatamente ao pagamento da dívida na Espanha”. Para saldar tal dívida, a venda de várias propriedades do Brasil formariam a “base”. Para isto, dever-se-ia liquidar e recolher tudo que pudesse, “a fim de fazer frente às necessidades da vida, garantindo o desenvolvimento normal sem apertos econômicos. O Brasil, neste aspecto, não tem problemas”. O tempo urgia e nas soluções apresentadas, que se considerasse sempre a referida “base” saldada, pois “tão logo se cumpra a “base”, vem a nova criação”. Quanto às casas da província-mãe, ele aponta para as de Marajó, Belém, Leblon e São Januário ou São Paulo, aconselhando, no entanto, a deixar a de São Januário para a nova província. Quanto ao pessoal, todos os padres brasileiros formariam a nova província, junto com os espanhóis que estivessem nas casas determinadas para formá-la. Estes poderiam ser reintegrados à província espanhola em tempo oportuno. (BRAÑA, 1960)
Uma vez instaurada a nova província, sob o título de “Província de Santa Rita de Cássia”, há uma reorganização das atividades da ordem no Brasil. Em 1962, inicia-se o Concílio Vaticano II, gerando um clima ambíguo de expectativa de renovação na Igreja, abandono de certas tradições consideradas obsoletas, ultrapassadas e anacrônicas e busca de novas formas de organização e expressão da fé católica. Com o fim do concílio, muitos foram os choques internos na nova província, que deixou o seu seminário de filosofia e teologia em Franca para enviar os estudantes para São Paulo em 1968 a estudar no recém criado Instituto de Filosofia e Teologia, em um momento crítico da ditadura militar no país. A busca de um local, o envolvimento dos estudantes em conflitos contra o regime ditatorial, o estilo de formação dos mesmos, incrementaram os conflitos com a Província de Santo Tomás de Vilanova, como nos mostra uma carta do vigário provincial da Província de Santo Tomás de Vilanova ao superior geral da ordem, datada de 1969. Os boletins informativos de ambas províncias contém outras informações que mostram os efeitos ambíguos da renovação conciliar sobre a ordem no Brasil, que após o concílio até o início da década de 1970 teve o seu quadro reduzido por causa do número de frades que abandonaram o sacerdócio e a vida religiosa.
Os documentos aqui trabalhados, historicamente muito recentes, mostram que a História dos homens se faz em meio a tensões, conflitos, reivindicações, sonhos, esperanças, que muitas vezes criam grupos em defesa de suas crenças e expectativas. Eles mostram que vários elementos da vida passam a ser escritos e descritos, voluntária ou involuntariamente, cabendo ao historiador a tarefa de analisá-los com rigor metódico e olhar crítico. Tal tarefa torna-se extremamente complicada quando se trata de uma situação conflitiva e marcada pelo ressentimento. O que se pretendeu aqui foi exatamente a busca de algumas chaves de leitura para compreender não um fato frio e seco, de cunho burocrático, a criação de uma seção administrativa de uma ordem religiosa, mas as circunstâncias e situações cheias de tensão e marcadas pelo conflito que a envolveram e que se encontram manifestas nos documentos. Não é a única forma e muito menos a última palavra sobre o que se passou há cerca de cinqüenta anos, mas uma busca de compreensão dos mesmos.
Marc Bloch insiste que no conceito de história não basta apenas pensá-la como “ciência dos homens”, pois o historiador não pensa apenas o humano, mas “dos homens no tempo”, acrescentando-se aí a categoria da duração. (BLOCH, 55) O tempo dos fatos aqui referidos ainda é historicamente muito próximo, mas com distância o bastante para que possam ver discutidos com rigor metódico. Este tempo é o tempo humano, o tempo da aquisição de riquezas pelo trabalho, o tempo da criação de formas de distribuição da riqueza e das leis para regulamentá-las e regulamentar também as demais relações humanas, o tempo da manifestação dos afetos, o Eros e do Thanatos, do amor e do ódio, da construção da civilização e da ameaça de sua desintegração. Isto torna a história dinâmica e sempre um mistério a ser colocado à luz pelo historiador.
Um outro aspecto a ser aprofundado é exatamente o das relações mútuas internas, entre “espanhóis” e “brasileiros” e externas, entre “espanhóis” e “nativos”, dos encontros e desencontros aí ocorridos, dos êxitos e fracassos no trabalho dos frades agostinianos recoletos desenvolvido na primeira metade do XX. O conceito de “alteridade” aí é fundamental. Mas isto é uma outra história...




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